Capítulo VII
Harry desistira de contar tudo à cunhada no trajeto de volta, depois do ensaio, que fora demorado e cansativo. Steve, que sabia o teor da conversa que se desenrolara entre os noivos, passou a noite a lançar olhares de quem não tinha entendido coisa nenhuma. Pela alteração de vozes, calculara que todos iriam mais cedo para casa, o que não ocorreu. Ao final do ensaio, cansados e um pouco irritados, deixaram Lisa no hotel e os dois irmãos seguiram para a festa de despedida de solteiro organizada pelos irmãos de Gina, Fred e Jorge. O clima da festa tornou impossível qualquer conversa entre os dois durante o tempo em que permaneceram na casa de Jorge, onde fora preparada a festa. Harry, que não tinha a menor disposição para comemorar, ficou o tempo exato que julgou necessário para manter sua boa educação e despediu-se. Quando estacionaram em frente ao St. Regis, já passava da meia-noite e estavam exaustos.
Steve chegou a abrir a boca para falar quando passaram pela porta giratória, mas Harry dirigiu-se direto aos elevadores, onde havia dois casais aguardando. Entraram todos e subiram juntos em silêncio. Assim que Harry e seu irmão se viram a sós no corredor, Steve não se conteve:
— Quer dizer que vai continuar com a idéia de casar amanhã?
— E o que Gina quer — respondeu Harry, sem dar muita importância.
Enfiou a mão no bolso e pescou seu cartão magnético, passando-o pela fresta apropriada.
Steve passou a mão pelos cabelos, embasbacado. Ficara surpreso ao extremo com a atitude de Gina, e presumira que o irmão acabara não confessando sua transgressão.
— Não consigo acreditar que você tenha feito isso. Confessado tudo para ela! É um homem mais corajoso do que eu, maninho.
— Eu não tinha alternativa. Não podia escolher.
— Claro que podia. Eu, por exemplo, acho que existem algumas coisas na vida que é melhor não virem à tona. Ficam entre quatro paredes...
— Pois é, Steve, mas e a consciência da gente? Eu podia ter enganado Gina, quem sabe até para sempre, mas em compensação eu também me sentiria mal para sempre, sabendo que tinha feito o que não achava certo — argumentou Harry. — Pode crer, irmão, dá muito menos trabalho falar a verdade. E é mais saudável para nossa saúde emocional.
— Onde você aprendeu essas coisas? Na igreja?
— Não. Um amigo me contou que fazia sempre assim, porque isso valoriza nossa palavra para nós mesmos. A idéia, na verdade, não é ser honesto com os outros, mas com a gente mesmo. Experimentei e gostei, porque já tinha me metido em várias enrascadas por ter de emendar uma mentira na outra, e isso é uma coisa que não pára nunca mais. Comecei a fazer assim faz tempo, e agora fiquei viciado em dizer a verdade. Uma coisa eu garanto para você, Steve, a gente fica muito mais leve. Quer beber alguma coisa?
— Não, muito obrigado. Já bebi o suficiente para uma noite só. Sabia que os muçulmanos podem mentir por três motivos, pelo livro religioso deles? Um deles é para aplacar a desconfiança da esposa e assim manter a harmonia no lar.
— Pode ser que funcione para os muçulmanos, mas eu quero me sentir bem comigo. Não quero sentir que preciso enganar alguém para ficar bem. O melhor mesmo é falar a verdade, porque você nunca mais se preocupa com esse assunto.
— Pode ser que você tenha razão, Harry. Talvez algum dia eu experimente — disse Steve, dirigindo-se para a porta. — Não esqueça que amanhã precisa pegar sua roupa logo de manhã.
— Não esqueço, pode deixar. — Harry sorriu.
— Então até o mano mais novo vai entrar para o rol dos homens sérios... escute, não quer que eu passe aqui amanhã cedo?
— Claro. Pode passar.
— Está combinado, então. Passo logo cedo, não fique acordado vendo televisão, precisa estar com uma boa aparência amanhã... — lembrou Steve.
— Está bem.
— Já que resolveu casar — completou o irmão mais velho. — Durma bem. E não vá fazer nenhuma besteira, está certo?
— Que tipo de besteira eu poderia fazer na noite que antecede meu casamento, mano?
— Bem... poderia fazer várias.
— Alguma em especial contra a qual eu deva me precaver? — Harry sorriu. — São as que mais me interessam.
— Ora, mano, claro que não vai fazer nenhuma besteira até amanhã de manhã — disse Steve.
— Por exemplo?
— Falar com a Granger, por exemplo — recomendou por fim o irmão mais velho.
— Não se preocupe, não tem perigo. Foi ela quem me deixou falando sozinho, lembra?
— Nesse caso, durma bem.
— Obrigado — despediu-se Harry, fechando a porta atrás de si. Que idéia do irmão, como se ele fosse atrás de quem não o queria. Não esqueceria tão cedo a cena no saguão, pela manhã. Ela teve coragem, saindo daquele jeito e acusando-o de abandoná-la. Não pretendia ter mais nada com Hermione Granger. Aprendera sua lição. Além do mais, ela sempre o abandonava. Ou pelo menos era a impressão que ficava, o que dava na mesma.
Ali, sentado, Harry compreendeu que a noite anterior fora a consumação do casamento anulado de sua juventude. Quase deu um pulo, de susto, quando o telefone tocou. Um olhar para o relógio informou que era uma hora da madrugada. Não se tratava de um horário comum para ligações telefônicas. Ao segundo toque, erguia-se e caminhava até o aparelho, ao lado da cama.
— Alô!
Nenhum som veio do aparelho. Provavelmente tratava-se de um engano, ou de algum trote.
— Alô! — repetiu ele, com voz enérgica.
Não tinha a menor vontade de lidar com brincadeiras àquela hora. E de repente ele soube.
Não tinha o menor motivo para deduzir coisa alguma, mas soube, além de qualquer dúvida, que era Mione ao telefone. A voz ainda não se revelara, mas era ela quem estava do outro lado. Sentia isso.
A mão de Harry apertou o aparelho.
— Mione?
— Eu não devia ter ligado — disse ela.
A voz parecia fraca e enrouquecida, como se ela tivesse acabado de acordar. Apesar disso, carregava uma nota de arrependimento, de dor e preocupação, enfim, um eco da própria voz de Harry. Ele sentou-se na cama e cerrou os olhos.
— Estou contente que tenha ligado. Acho que escutou meus pensamentos.
— Pode ser... eu estava dormindo. Então acordei e senti essa vontade enorme de ligar... de escutar sua voz — afirmou ela.
Harry não respondeu, nem ela acrescentou nada. Ficaram assim vários minutos. Suspeitava que fosse pelo medo do que o outro dissesse. Ou não dissesse. Ele tentara, mas não fora possível apagar as lembranças da noite anterior. Acreditava que viveriam com ele o resto de sua vida.
— Eu queria dizer que sinto muito — murmurou Mione.
— Nesse caso, somos dois — concordou ele, hipocritamente.
— Não sei como pude deixar uma coisa dessas acontecer — continuou ela, com voz baixa.
— Nem eu. Não tenho o hábito de me comportar assim.
— Eu também não. Aliás, depois que nos encontramos ontem à noite, não estou me reconhecendo...
— Por que fugiu de mim hoje de manhã? — quis saber Harry. Seu dia fora um inferno desde a discussão que os dois tiveram no saguão do hotel. Não que ela fosse a culpada, mas sua ausência tornara tudo mais vazio. A forma como se separaram incomodou o dia inteiro.
Escutou o suspiro profundo do outro lado do aparelho, depois a respiração curta.
— Por que você diz que eu a abandonei? — insistiu ele. querendo saber qual o motivo de ser encarado por ela daquela forma.
Mione ignorou suas duas perguntas.
— Ela sabe?
Ele hesitou, depois respondeu:
— Eu contei a ela.
— Harry, ela deve ter ficado tão magoada — disse Hermione. — O que mais lamentei de tudo foi magoar Gina, que eu nem conheço. Isso me faz sentir pena dela. Como foi que ela reagiu?
Não sabia bem o que responder, portanto não disse nada. Perguntou outra coisa.
— E você? Contou ao seu "coroa"?
— Não — respondeu ela, com uma ponta de desafio na voz. — Nem ele é meu. Não estou dormindo com ele, se é isso o que está perguntando.
Não era. Ou talvez fosse, de uma forma indireta.
— Eu...
— Acho que é melhor desligar — afirmou ela, começando a sentir-se desconfortável e querendo terminar a conversa.
— Não, ainda não — protestou Harry, rápido.
Havia assuntos que precisava esclarecer, e perguntas que precisavam ser feitas. Talvez não houvesse uma oportunidade melhor do que aquela para esclarecer as coisas entre eles.
— Eu só telefonei para dizer que sinto muito pelo que aconteceu, e...
— E...? — encorajou Harry.
— E para desejar para você e...
— Gina.
— Isso. Gina. Liguei para desejar a você e Gina toda a felicidade do mundo.
A última palavra que Harry escolheria para definir seu estado de espírito seria felicidade. Se pretendesse passar para alguém impressões sobre a forma como se sentia em relação àquele assunto, diria que se sentia cansado. Muito cansado, extenuado, na verdade. Até o âmago.
— Obrigado.
Harry esperou que Mione desligasse o telefone. Mas não foi o que aconteceu. Ele mesmo não conseguiria cortar a ligação, único elo no momento entre ele e Hermione, o aparelho era o único contato que tinha com ela, um canal entre o passado e o presente. Talvez não a visse mais.
— Mione?
Ela não respondeu imediatamente.
— Estou aqui.
Permaneciam em silêncio, bastando a ambos que estivessem ali, um em cada ponta da linha. Ligados, conectados num abraço virtual.
— Ela está bem?
— Ela? — estranhou Harry.
— Gina — disse Mione com rapidez, como se pronunciar em voz alta aquele nome a incomodasse. — Se eu soubesse que você tinha dormido com outra mulher dois dias antes do nosso casamento, teria ficado arrasada. Imprestável.
— Pois Gina não está nada imprestável. Está muito bem, até.
Na percepção dele a noiva ficara mais abalada com o caso das pontas de aspargos nos sanduíches do que com a traição dele.
— Que bom, porque fiquei pensando nisso o dia inteiro, e me sentindo mal por ter causado tanto sofrimento a ela.
— Pois não se preocupe, ela parecia mais preocupada com o atraso dos convidados do que com o que eu contei sobre nós. Por que você fugiu, hoje de manhã?
— Eu não sei... quer dizer, eu mesma não sei o motivo.
— Então podemos conversar sobre isso, que tal? Quem sabe a gente descobre esse motivo.
— Mas qual...
— Preciso saber — interrompeu Harry. — Vamos lá, colabore comigo.
Um instante de silêncio se manteve na linha, enquanto Mione reunia coragem.
— Eu acho que foi quando acordei.
— Como assim?
— Acordei assustada com o telefone. A primeira coisa que escutei foi você, chamando ela de meu bem.
A voz dela sumiu por alguns instantes, e Harry chegou a imaginar que algo acontecera com a ligação.
— Você passou a noite fazendo amor comigo e eu acordo com você chamando outra de meu bem? É demais.
— Fui apanhado desprevenido, porque dormi demais. Costumo acordar às sete horas todos os dias, sozinho. Posso contar nos dedos das mãos as vezes em que isso não acontece durante um ano. Por isso ela estranhou muito quando percebeu que tinha me acordado às nove. Fiquei fora de ação, na defensiva — justificou ele, respirando fundo. — Além disso, você precisa admitir que a situação era bem estranha. Não era?
— Era. Quer dizer, sei de tudo isso, já sabia. Mas foi o fato ouvir você... Harry, não vejo muito sentido em falarmos disso agora. Não vai fazer diferença nenhuma. A verdade é que fiquei com ciúme. Uma coisa ridícula naquela situação estranha, como você definiu, não acha? — Hermione realizou uma tentativa de riso, mas não produziu som algum. — Talvez estivesse sonhando com o tempo em que a gente era jovem, quando a gente namorava sempre ficava imaginando como seria poder fazer amor, dormir e acordar um do lado do outro, lembra? Naquela época o sentimento era de impotência, e foi exatamente o que aconteceu quando escutei você chamando-a de meu bem. De repente me senti sozinha outra vez, numa situação impossível, querendo você, desejando tocar você, sem poder.
— Dez anos atrás você fugiu de mim.
— Não fugi. Já expliquei isso — disse ela, chorando.
— Hoje de manhã também me senti um garoto de dezoito anos, como você. Precisava de você para me ajudar a entender o que estava acontecendo — afirmou Harry. — Ao invés disso, você se afastou de mim.
— Parece tudo acontecendo outra vez, não parece?
— Será que essa é a idéia? Tudo de novo?
— Tudo o que fazemos é machucar um ao outro — disse Mione.
Ele não discordava disso. Não respondeu. Continuaram por algum tempo escutando o silêncio do outro.
— Boa noite, Harry.
— Boa noite, Mione.
Conseguira saber o que queria. Pela manhã, casaria com Gina.
Mione saiu de seu sono profundo com vagas lembranças sobre o sonho que tivera. Depois de tomar um banho de chuveiro e da leitura do jornal durante o café da manhã, não se lembrava mais nada. Não podia dizer o mesmo, porém, de sua conversa telefônica. Naquele dia, Harry se casaria.
Porém o mundo não iria acabar só porque Harry iria se casar com Gina. Não importava a profunda tristeza que sentira. Nada mais havia que pudesse fazer a respeito, portanto aplicaria sua regra de ouro, aprendida na época em que fora embora da Inglaterra: a vida continua. Mesmo que tudo parecesse sem graça.
Não alteraria sua rotina habitual por causa disso. Aos sábados, costumava sair para fazer as coisas que sua rotina apertada não permitia durante a semana, como ir à lavanderia, fazer as compras para a semana e exercitar o corpo. Naquele dia não seria diferente. Faria o que estava acostumada a fazer, sem alterar nada. Assim como todos os dias que se seguiriam, teria de vivê-los sem Harry.
Colocou uma calça jeans e uma blusa sem mangas, saiu de casa com a intenção de ir até o supermercado do bairro, onde chegou depois de fazer um trajeto do qual não se lembrou. Em determinado momento, ao passar pela sessão de sorvetes pela terceira vez, olhou para o próprio carrinho e encontrou-o vazio. Só então se deu conta de que passeava entre os corredores e gôndolas, sem saber o que comprar.
Recomeçou a andar, disposta a terminar sua tarefa.
Fixou a atenção nos rótulos dos produtos das gôndolas e continuou, quase hipnotizada pela seqüência e variedade de cores e formas. Sua mente, entretanto, recusava-se a lidar com objetos e tarefas do cotidiano, continuava ligada à conversa que tivera de madrugada com Harry, e de vez em quando tinha memórias esparsas sobre os sonhos noturnos.
Refez mentalmente o diálogo, enquanto tentava inserir as frases que deveria ter dito para explicar como se sentia, e quando deu por si percebeu que seu carrinho estava repleto, pois fora se servindo à medida que caminhava, apesar de não ter a menor lembrança. Encaminhou-se para o caixa, examinando as compras que Fizera. Só encontrou congelados e comidas prontas. Nada de fresco ou vivo, como frutas, verduras e legumes. Resolveu passar pelo caixa assim mesmo, em vez de voltar e refazer as compras. Se fosse o caso, voltaria para buscar o que faltasse. Não tinha a menor vontade de cozinhar.
De volta a seu apartamento, notou a luz da secretária piscando, mas não sentia a menor disposição para comunicar-se com o mundo, ou dar satisfações a alguém. Seria Roger, com certeza, querendo saber como passara a noite, ou convidando-a para almoçar ou jantar fora, escondendo-se, como sempre, atrás de uma cortina de formalidade e polidez. Naquele dia sua inclinação era para fazer as coisas que realmente tivesse vontade, sem concessões às convenções sociais ou à boa educação.
Uma das principais regras era não marcar compromissos e só fazer as coisas na hora que quisesse. Não iria escutar as mensagens na secretária eletrônica, e talvez resolvesse fazer uma caminhada pelo parque Golden Gate. O dia parecia bonito.
Depois de comer uma maçã, a última fruta fresca em casa, colocou um abrigo e tênis para realizar o que imaginara, pois o exercício e o ar fresco lhe fariam bem. O dia estava nublado, o que eliminava a possibilidade de calor excessivo do verão que atravessavam. Terminou de se arrumar e saiu, de carro. Estacionou nas proximidades do parque e saiu em busca de uma das pistas apropriadas. O cheiro do mato misturado ao do mar atingiu as narinas de Mione, fazendo com que se sentisse melhor e mais disposta; começou a percorrer o belo trajeto, próxima à beira do mar. Muitas outras pessoas freqüentavam o parque, entre crianças com skates, adolescentes com patins, corredores de todas as idades e outros que, como ela, caminhavam em ritmo acelerado. A medida que os pulmões se abriam, Mione sentia mais forte o odor do oceano, pungente e revigorante. Sempre que podia, fazia uma caminhada ali para lembrar a si mesma por que morava em São Francisco.
Depois de completar a pista de três quilômetros, sentiu-se bem melhor. Com as tensões físicas liberadas dos músculos, o coração parecia mais leve. Verificou o relógio e reparou que Harry e Gina já deviam estar casados há duas horas. Quando se lembrou disso, resolveu alterar um pouco seu trajeto para passar em frente à igreja onde Harry mencionara que se realizaria o casamento. Naturalmente os convidados já teriam partido há muito. Mione não tinha muita certeza sobre por que fazia aquilo. Sabia que não era saudável emocionalmente, mas estava num estado de espírito em que não negaria nada a si mesma, portanto satisfez sua vontade inocente, ou curiosidade mórbida, para saber onde Harry casaria com Meu Bem.
A capela se localizava em uma colina que dominava a vista da baía inteira, o que implicava em subir durante um longo tempo, quando ela conseguiu atingir o topo, não conseguiu resistir à tentação de entrar na igreja. Deslizando para o interior, mais fresco e frio, o olhar de Mione foi imediatamente dirigido para o púlpito que dominava o altar. A decoração da nave também chamou-lhe a atenção, à medida que caminhava no interior obscurecido. Duas senhoras cuidavam da arrumação das flores, próximas ao púlpito e ao altar. Conversavam em murmúrios.
Mione aproximou-se com passos lentos, e conseguiu distinguir as palavras murmuradas, pois elas não haviam percebido ainda sua presença, entretidas em seus afazeres.
— Nunca tinha visto, em todos esses anos como organista de casamentos, nada parecido com o que presenciei aqui, hoje — afirmava uma delas.
— Pelo que ouvi contar, a noiva teve uma espécie de ataque histérico. Me disseram que o noivo recebeu a noiva e esperou o casamento começar para desistir. Só disse não quando o padre fez a famosa pergunta, é verdade?
— Pois foi isso mesmo, menina. Até essa hora, tudo estava correndo como os outros casamentos. Mas quando o padre perguntou para ele se queria casar... ele respondeu não.
— Não me diga!
— Foi. A noiva ficou mais branca do que o vestido que estava usando. Achei que ia cair ali mesmo, sem dar tempo de ninguém segurar. O noivo virou as costas para ir embora, e o pai da noiva começou a gritar com ele, enquanto a mãe atendia a menina.
— Que confusão... nossa, se fosse comigo, eu dava pelo menos um tapa na cara desse homem — comentou a segunda mulher, indignada.
— Pois foi isso, menina. Só que eu não ia chamar de tapa aquilo, para mim foi um soco, e dos bons! Eu acho que se a mãe não tivesse segurado, ia virar uma briga de verdade, e o noivo e a noiva iam rolar pelo chão. Mas seguraram um de cada lado e ela foi embora com a mãe. Coitada! E o noivo, então? O pai da noiva dava a impressão que a qualquer momento ia parar de falar e agarrá-lo pelo pescoço.
— Mas teve briga?
— Do tipo de se agarrarem, não. Mas esse noivo acho que teria preferido uns bons tapas do que escutar tudo o que ele ouviu, aí mesmo onde você está.
Só então ambas se deram conta da presença de Mione, que se aproximara ainda mais, para escutar melhor o que ambas diziam.
— Não que eu vá culpar o sujeito, porque a gente pode desistir até a última hora. Mas ele bem que podia ter feito tudo isso antes de entrar ou depois da festa, não acha?
— Desculpe — disse Mione, acercando-se. — Mas não consegui deixar de escutar o que contou. Sabe me dizer se isso aconteceu no casamento Potter?
As duas senhoras olharam para Hermione, depois uma para a outra.
— Não — respondeu a primeira.
— Espere um pouco,Adelaide. Acho que o nome era esse mesmo.
Adelaide sacudia a cabeça, num gesto negativo.
— Não. Foi no casamento dos Hopkins. Tenho certeza que o nome era Hopkins. Toquei no casamento Potter, que foi antes. Só tivemos duas cerimônias, hoje. Aquele sim, é que parecia um casal apaixonado. Gosto de participar de um casamento assim. Estavam tão emocionados que dava até gosto de ver. Conhece os Potter?
Mione conseguiu apenas mover a cabeça, numa afirmativa.
— Não veio ao casamento, mas pode ficar tranqüila, porque esse casal vai ser feliz.
— Obrigada.
Por um breve instante a conversa lhe sugerira a ousadia de imaginar que o casamento não se realizara, que Harry fosse esse noivo que desistiu na última hora. Acenou sua despedida e ficou ali, com o olhar parado e fixo, vendo seu sonho ruir com a informação da organista e sua amiga. Com passos mecânicos dirigiu-se para o exterior.
Descendo os degraus, olhou para cima, onde o sol brilhava e permaneceu ali, recebendo o calor da tarde no rosto. Quando uma nuvem baixou a temperatura, Mione acordou de seu devaneio e recomeçou a correr pela trilha, em ritmo acelerado na descida. Foi direto para seu carro, e quando percebeu estacionava o carro na garagem de seu apartamento. Entrou ofegante no elevador.
Entrou em casa, bebeu três copos de água mineral e tomou um longo e relaxante banho quente, que terminou com a torneira aquecida desligada de uma só vez, produzindo um grito e um choque capaz de restaurar sua circulação e sua disposição. Com melhor ânimo, esfregou-se vigorosamente e colocou uma roupa confortável para descansar. Só então veio a fome, desacompanhada da vontade de cozinhar. Não vacilou em selecionar um dos almoços congelados que comprara no supermercado. Filé de frango à cubana, com arroz à grega.
Talvez tenha sido pelo nome dos pratos ("TV Dinner"), que ficou viciada em alimentar-se à frente do aparelho de televisão. Sabia que era um hábito comum em pessoas que moravam sozinhas, como uma forma de ter companhia à hora das refeições, e não achava isso saudável. Mas sempre fazia. Seus horários de comer habitualmente tinham seus programas preferidos, um preso ao outro.
Lembrou tudo o que haviam dito um para o outro desde que se tinham reencontrado. Resolveu fazer um brinde e tomou um gole de vinho tinto, mais saboroso do que o restante do jantar, salgado e artificial demais.
Levantou-se e tomou um copo de água, aproximando-se da janela para apreciar o ocaso. Do outro lado do aposento, a imagem da televisão chamou sua atenção. Seu repórter favorito encontrava-se ao lado de alguns mendigos, o que fez com que seu interesse fosse captado. Sonhara alguma coisa relacionada com mendigos. Procurando o controle remoto, aumentou o volume.
— ...noite. Homens e mulheres aqui no Albergue Municipal hoje comem um menu diferente e sofisticado; medalhões de filé ao molho Madeira e salmão defumado, além de sobremesas finas, dignas de um príncipe. Ou melhor, de um noivo.
Mione perguntou-se até quando iria ter de enfrentar esse tipo de assunto. Suspirou.
— O noivo ao qual nos referimos mudou de idéia na última hora. Foi o suficiente para que ele não casasse, mas infelizmente não foi possível avisar a tempo o bufê. Mas nosso noivo, cujo nome ele não autorizou a divulgar, optou por não jogar fora a refeição que seria dos convidados e mandou que a servissem para os mendigos do Albergue Noturno, os sem-teto de São Francisco.
A tela mostrou um grupo em aproximação, três ou quatro casais de mendigos, recuando em seguida para mostrar várias dezenas. Em seguida veio o requinte da refeição que estava sendo servida, com detalhe para os salgadinhos de salmão, caviar e canapés enfeitados com cabeças de aspargos.
Ao lado havia uma coroa festiva, enviada pelas amigas da noiva: Felicidade Eterna aos noivos, Harry e Gina.
Quando percebeu, Mione estava em pé, ao lado do aparelho, que começava a transmitir os lances do jogo de beisebol. Já não importava.
Harry cancelara o casamento!