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6. Capítulo VI


Fic: A Despedida de Solteiro


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo VI


 


A igreja estava repleta de pessoas que Harry não conhecia. Mal tivera tempo de conversar com o irmão para poder chegar a tempo, e durante o trajeto não seria possível dirigir naquele trânsito e conversar ao mesmo tempo, portanto não chegou a colocar Lisa a par de tudo o que acontecera. Tinha a impressão de estar sendo atropelado pelos acontecimentos, começando com pontas de aspargos. Tal impressão era reforçada pelo ambiente caótico no grande salão.


O padre dirigia o tráfego enquanto o organista praticava a tradicional marcha de casamento. As notas ecoavam pela nave, reverberando no teto e paredes, preenchendo o espaço iluminado da grande igreja. Porém, abaixo das ogivas e arcos do teto, mais próximo ao solo, quase não se ouvia o órgão, tamanho o volume das vozes humanas. Todos falavam ao mesmo tempo, e Harry mal conseguia escutar seus pensamentos. Fred, Jorge, suas esposas e filhos menores sentavam-se impacientemente no banco da frente, aguardando o horário. Os filhos maiores seriam os que corriam pelos corredores e pela nave principal, perseguidos de perto por Molly e recusando-se a obedecê-la.


Nenhum daqueles ingredientes contribuía para a serenidade e tranqüilidade de Harry, que começava a ficar enjoado. O pior é que o conselho do irmão, apoiado ou não pela Querida Bel, não satisfazia sua vontade de desabafar, de confessar, de dizer a ela que fora fraco, mas acontecera. Enfim, queria ser honesto com ela, era o mínimo que podia fazer. Tanto com ela quanto com ele mesmo. Só então teria isenção para saber se realmente gostava de Mione.


Uma vez confessado seu erro, os dois poderiam argumentar, ou discutir sobre o melhor procedimento, àquela altura dos acontecimentos. Isso se ela não desmaiasse, tivesse um ataque histérico ou desse um direto no queixo dele, porque imaginara que conhecia bem Gina, pelo menos até as pontas de aspargos. Ela seria capaz de tudo se tivesse de ligar para cancelar todos os canapés. Muitas vezes acreditamos conhecer uma pessoa apenas para descobrir reações que não se encaixam, porém a essa altura dos acontecimentos sempre é tarde demais.


Qualquer que fosse a reação dela, o melhor seria cancelar o casamento.


Steve cutucou-o nas costelas, interrompendo seus pensamentos circulares. Vinha da parte do padre.


— O padre Ecker disse que você deve ir até o altar assim que Gina chegue. Quer dizer, assim que ela pise na nave, lá na porta, com o pai dela.


À menção do nome da noiva, o estômago de Harry acusou uma pontada de culpa, e ele olhou ao redor, começando na direção da porta. Tinha a esperança de encontrá-la logo, pois não a via desde o episódio sob o salgueiro, onde ela o deixara por... bem, o melhor era não voltar a pensar nos aspargos. A verdade era que não a via desde a hora do almoço. Relanceou mais uma vez os olhos pela igreja, concentrando-se na porta lateral da sacristia, sem resultado prático.


Quando se voltou para a frente, onde percebeu certa agitação, levou um choque. Ela acabava de entrar, rodeada por suas damas de companhia, que pareciam um bando de cisnes. O som de risos e exclamações de admiração pairava ao redor do bando de donzelas. Gina usava um falso véu e carregava um buquê de flores silvestres. Estava linda. Vinham de alguma comemoração na qual... nesse instante lhe ocorreu que teriam de devolver todos os presentes que ganharam. Um verdadeiro exercício de humildade para pensar melhor da próxima vez em que marcasse uma data de casamento.


— Preciso falar com Gina — disse ele, mais para si do que para o irmão a seu lado.


— Agora? — perguntou Steve, arregalando os olhos de surpresa. — Não é possível, Harry.


— Por que não? Preciso resolver de uma vez por todas.


— Na frente de tantos parentes e conhecidos, não... — tentou Steve, indo atrás dele.


— Só preciso de uns minutos sozinho com ela — murmurou Harry, abrindo caminho entre a multidão.


Progrediu na direção do padre Ecker, sentindo perfumes variados e tentando ser o mais educado possível. Quando finalmente se aproximou o suficiente, sua irritação aumentara. Fazia-o lembrar uma corrida de sonho, daquelas nas quais a gente se mexe e não consegue se mover um milímetro. Não ligava a mínima se o momento era ou não conveniente, nem se todas as pessoas convocadas para o ensaio teriam de esperar. Isso era mais importante. Caminhou pela nave na direção do grupo de garotas, no centro do qual estava a noiva.


— Gina...


No meio dos risos femininos e brincadeiras, o volume de uma voz masculina não foi o suficiente. Ela não reparou em Harry.


— Gina! — insistiu ele, desta feita mais alto.


Uma das damas puxou o braço de Gina quando esta se voltava para Harry, e metade do grupo explodiu em risos. Harry colocou potência no terceiro chamado:


— Gina!!


Aquilo provocou algum efeito, fazendo com que ela desviasse os olhos do grupo.


— Harry! Que aconteceu? Você não tinha de ficar na outra ponta da nave? O padre pediu para Steve dar o recado...


— Precisamos conversar!


— Agora? — Os olhos dela se arregalaram.


— Nesse momento — confirmou ele, com um olhar que não deixava dúvidas quanto à urgência do assunto.


A decisão de Gina foi tomada em poucos segundos. Trocou um olhar de surpresa com as amigas e indicou, com um gesto, que o seguiria. Com certeza acreditava ser aquela a forma mais rápida de resolver o assunto e continuar o ensaio. Seguiu Harry até o vestíbulo, sob os olhares intrigados do padre, que tentava dirigir os participantes, que em boa parte conversavam uns com os outros.


Ela observou o andar dele, decidido, na direção da pequena sala logo após o vestíbulo, por onde entrara há pouco. Teve de apertar o passo para aproximar-se o suficiente para falar com ele.


—Harry, o que está acontecendo hoje? Você está tão diferente... nem parece o mesmo.


Ele voltou a cabeça enquanto andavam.


— É que preciso falar com você desde manhã, mas não consigo — afirmou ele.


Os dois passaram para a ante-sala, que estava vazia, deixando o ruído de conversas para trás, e puderam usar um volume normal de voz, para conversar. O local onde se encontravam seria usado para essa finalidade, pois havia um sofá de madeira a um canto e duas poltronas próximas. Nenhum dos dois, porém, quis sentar, nem foi observar os quadros na parede, que representavam o sofrimento e a paixão de Cristo.


— Está querendo conversar comigo outra vez? Não acha que está deixando tudo isso mexer com você? Não se pode deixar as coisas irem assim tão longe. Se ninguém disser nada para nós, se ninguém der uma pista, continuamos sem perceber.


— Como assim? — disse ele, na esperança que ela soubesse mais do que deixava transparecer.


— Os nervos, meu bem. Não podemos deixar isso de lado. Todos temos um sistema nervoso, e em certas situações ele se comporta de forma estranha. Perto de um casamento, por exemplo, todos ficam sensíveis, sem saber exatamente o que acontece. É como se tivesse alguma coisa no ar.


— Tem mesmo uma coisa no ar, mas não é exagero do meu sistema nervoso — argumentou Harry.


— Você está com um ar tão sério...


— Claro. Estou falando sério, Gina. Não tenho o menor motivo para rir, no momento.


— Meu bem, não é nada de mais. Todos nós temos o direito de estar alterados...


— Não é isso, Gina. Lembra que falei sobre Hermione, hoje à tarde?


— Lembro — disse ela, com ar resignado, como se falasse a uma criança. — Mas você não precisa se preocupar com isso, Harry. Eu compreendo...


— Eu a vi ontem à noite.


— Ontem? Aqui em São Francisco? Então entendi errado, porque achei que você esteve com ela no colegial, há muitos anos.


— Isso. Estive mesmo. O que eu contei aconteceu há quase dez anos. Nessa época, a última vez que a vi, estava casado com ela. Pelo menos no papel.


Aquilo provocou uma reação diferente. Gina ficou séria.


— Mas não está mais casado com ela, está?


— Não — concordou ele.


Harry fez uma pausa antes de continuar. O que pretendia dizer em seguida seria uma das coisas mais difíceis em toda a sua vida. Ela olhou para ele, agitada e ansiosa.


— Harry, estamos aqui, segurando todo o ensaio. Sem nós, não podem continuar. Estou começando a perder a paciência com você e essa mulher no seu passado. Muito bem, você encontrou sua namorada... ou quase-esposa do seu passado, de dez anos atrás. Grande coisa.


— Eu não contei tudo ainda — murmurou ele, em voz quase inaudível.


Nesse instante o sorriso desapareceu. Gina cruzou os braços e olhou para ele, pela primeira vez esquecida do ensaio.


— Quer dizer que há mais?


Ele assentiu, com um gesto. Lá no fundo da mente retornava aquela voz que dizia ser melhor adiar o assunto, já que havia tanta gente... ignorou-a.


— Hermione e eu jantamos juntos.


A risada dela carregava uma nota de nervosismo. O pé começou a bater no assoalho e o peso do corpo mudou de lado.


— Muito bem, então você foi jantar com uma ex-namorada. O que tem isso de mais? Quando foi?


— Ontem à noite.


— Perguntei por perguntar—justificou-se ela. — Aliás,Harry, a essa altura já deve saber que não sou uma mulher que se poderia chamar de ciumenta. Pelo menos nunca dei motivos para isso. Confio em você.


— Espere um pouco...


— Francamente, Harry, acho que estamos fazendo uma tempestade num copo de água. Sem a menor necessidade. Confio em você, querido.


A afirmação dela deu a impressão de doer mais do que um soco no estômago. Não merecia a confiança daquela mulher, já provara não ser digno dela. A única coisa decente a fazer era terminar o que desejava dizer. Foi preciso toda a sua força de vontade.


— Hermione foi ao meu quarto depois do jantar, e...


— É melhor não dizer mais nada — interrompeu Elaine. — Já disse que confio em você.


Harry ergueu os olhos para o rosto da noiva, cuja expressão pedia que ele não continuasse a contar o que ela já adivinhara. Talvez tivesse a atitude de que "se os olhos não vêem, o coração não sente", o que, na opinião de Harry, equivalia a fazer como o avestruz, que enfia a cabeça na areia e pensa que está escondido do inimigo. Aquilo não facilitava em nada o que tinha a dizer.


— Sua confiança não está depositada numa pessoa digna dela — disse ele, passando a mão no rosto.


A própria pele parecia fria e pegajosa ao contato, estremecendo de tensão acumulada. Por um momento, Harry teve a impressão de sentir outra pessoa em sua pele, mas compreendeu que era a estranheza da situação. Inspirou profundamente.


— Jason, por favor, me escute. Isso não é necessário. Não é hora, nem é lugar, nem eu quero saber.


— Desculpe, mas acho que é necessário. Gina, não estou brincando. Quero me explicar...


— Não precisa explicar nada, Harry.


— Eu não faria nada para magoar você, Gina.


— Ótimo. Se o que você diz é verdade, vamos voltar para o ensaio. Estou começando a ficar magoada com essa insistência.


— Deixe que eu termine o que tenho a dizer, Gina, assim você fica livre.


Ela empalideceu, como se tivesse pressentido o desfecho da conversa.


— Os convidados estão esperando.


Harry reuniu todo o controle que lhe restava para terminar o que parecia um suplício infindável.


— A última coisa no mundo que eu quero é magoar você, Gina. Mas preciso contar o que aconteceu na noite passada.


— Precisa mesmo?


— Preciso...


— Escute, Harry, acho que isso já foi longe demais. As outras pessoas têm outras coisas para fazer e você...


—Hermione passou...


—Você quer dizer alguma coisa que pode perfeitamente esperar.


— ...a noite comigo.


Ele poderia precisar o segundo no qual o significado das últimas palavras penetrou no cérebro dela, transmitindo-se imediatamente para os músculos do rosto, como um relâmpago. A expressão de uma fúria assassina, logo controlada.


Foi como se o oxigênio tivesse sido retirado do ambiente. O silêncio entre ambos era como um animal vivo, de respiração pesada e cheiro desagradável. Harry aguardou a reação; um grito, um tapa em seu rosto... qualquer coisa.


— É impossível para mim dizer como sinto que isso tenha acontecido. Você não merece — continuou ele.


— Não mereço mesmo...


— Desculpe, mas acho injusto que você não soubesse.


— Bem, está se sentindo melhor, agora que desabafou? — indagou ela, com voz fria e controlada.


— Estou — respondeu ele, sem entender direito a atitude dela. Segundo o que sempre imaginara, a reação seria explosiva. De fato, o que imaginara no episódio dos aspargos era a mais pura verdade: não conhecia direito a noiva. No momento, a expressão dela carregava certa tensão, com uma nota desagradável que logo desapareceu. Quando ela falou, foi como se conversasse com um garoto.


— Tem mais alguma confissão a fazer?


— Não...


Um suspiro profundo foi a única manifestação emocional que escapou.


— Bem, pelo menos isso.


Falou e voltou-se, dando um passo na direção de onde tinham vindo. Harry estranhou.


— Gina!


— O que foi? — indagou ela, voltando a cabeça.


— Onde está indo?


— Como assim? Estou voltando para o ensaio. Essas pessoas já esperaram demais. Não acha?


— Mas e o que eu disse?


— O que tem? — Gina virou-se para ele.


— Isso não altera as coisas? Quero dizer... — parou e obrigou-se a continuar: — Fiz amor com outra mulher!


— Entendi muito bem da primeira vez, não precisa ficar repetindo. Não sou surda, sabia?


— Mas eu...


— Muito bem, você teve um deslize momentâneo. O momento que escolheu para fazer isso foi péssimo, mas isso não quer dizer que precisamos alterar planos pessoais por causa de um momento de indulgência. Enfim, censurável, mas compreensível. Além disso, sua atitude impertinente, apesar de ter sido fora de hora, indica que você tem caráter, não gosta de mentir. Isso é muito difícil hoje em dia.


— Isso quer dizer...


— Quer dizer que estou disposta, por tudo o que já expliquei, a esquecer o seu deslize — declarou ela. — isso, claro, se você se comprometer a não fazer mais. Nunca mais. E também não quero saber de nenhum detalhe. Entendi muito bem o que fez, não precisa explicar mais.


Em nenhuma das análises que Harry fizera da situação, nem em seus intermináveis ensaios sobre como falaria, sua noiva agia daquela forma. Chegara a considerar apatia, um ataque de histeria, um ataque frontal e direto à sua pessoa, uma crise de choro ou até que ela virasse as costas e nunca mais olhasse para o rosto dele. Mas aquilo, nunca.


Fazia que sua noite com Mione não passasse de um divertimento, uma leviandade que ela podia perdoar com facilidade. Com a mesma indulgência que perdoaria uma bebedeira. O restante de sua vida de casado poderia repetir esse padrão: ele, como um menino traquinas que fizesse reinações, sendo perdoado pela mãe que sofria, mas aceitava tudo.


Não tinha a certeza se gostava daquilo. Até então estava com pena dela, acreditando que ela não merecia o que ele fizera, mas...


— Não há mais nada, há? — indagou ela, aproximando-se um passo para encará-lo. — Não está querendo tomar nenhuma atitude imatura e estúpida, está?


— Eu... eu tinha presumido que...


Gina arregalou os olhos.


— Você achou que eu ia querer adiar o casamento. Ou desistir?


O tom agudo da voz dela reverberou pelas paredes do aposento, sem dúvida, vazando para fora.


Depois de um instante de silêncio, Harry fez o que costumava fazer em todas as circunstâncias, e já o livrara de muitas encrencas: disse a verdade.


— É. Pensei que não ia mais querer casar.


Fora exatamente o que ele previra. Ela o surpreendera outra vez. Desde as pontas de aspargos pela manhã, até a hora em que finalmente conseguira contar o que acontecera, Gina o vinha surpreendendo. Não a teria culpado se ela quisesse adiar o casamento. Era o que ele teria feito no lugar dela. Perdoar era uma coisa, mas o que ele fizera tinha passado da conta. Não se tratava de um deslize como usar o garfo errado num restaurante sofisticado, pois era um assunto de confiança: traíra a fé que ela depositava nele e destruíra a chance de que voltasse a confiar nele nessa vida. Gina devia compreender isso, devia sentir alguma coisa em relação ao acontecido.


Da parte dele, fosse Mione ou não, a noite anterior significava claramente que ele não estava pronto para o casamento.


Será que ela não percebia? Encarou-a, com ar interrogativo.


— Não vamos adiar nosso casamento só porque você não conseguiu manter seu zíper fechado — foi a resposta.


— Mas...


A expressão de Gina era tão fria quanto o tom de voz.


— Não pense que estou gostando ou aprovando de alguma forma, Harry. Estou furiosa, e acho que tenho todo o direito de estar!


— Eu sei...


— O que você fez foi desprezível! Muito feio!


— Concordo com você. Por isso...


— Por isso, o quê? Isso nunca mais vai acontecer, certo?


— Por isso acho que a gente...


— Harry! — interrompeu ela. — Isso nunca mais vai acontecer, certo?


— Certo, mas eu acho que a gente podia...


— Não estou vendo qual é o problema agora, Harry — interrompeu ela, olhando para os convidados lá fora, que começavam a impacientar-se. — Estou disposta a deixar passar esse incidente, desde que seja único. Tenho de confessar que estou desapontada com sua infidelidade, mas como já disse, o fato de fazer questão de vir falar comigo foi uma prova de honestidade e de caráter com a qual eu não contava. Nunca pensei ter esse tipo de problema com você.


Ele lhe deu crédito pela forma como Gina lidou com a situação. Com certeza foi uma reação mais fria e desapaixonada do que no caso dos aspargos.


— Isso quer dizer que pretende continuar com o casamento?


Harry teve um sobressalto. O som da risada o apanhou desprevenido. Não imaginara que fosse soar naquele local e muito menos naquele instante.


— Mas claro que pretendo continuar. Está brincando, não está? Depois de todo o trabalho e despesas que tivemos até agora? Eu nem sonharia em adiar nada. Que idéia...


— Gina...


— Só uma coisa que eu quero que você entenda bem... Não pretendo tolerar esse tipo de comportamento outra vez.


— Gina, eu nem sonharia em...


— Ah, enton vocês estar aí... — disse o padre Eckes. — Podemos começar agora, todos eston esperando. Depois vocês namorar...


— Nós não... — começou Harry.


— Já estamos indo, padre — garantiu Gina.


O sacerdote se foi, para ir organizando os convidados. Harry chegou a abrir a boca.


— Você dizia que isso não ia acontecer outra vez, é isso?


— Claro que não, se a gente...


— Ótimo. Agora vamos voltar ao ensaio antes que alguém pense que alguma coisa está errada — interrompeu ela, girando nos calcanhares e caminhando de volta à nave da igreja.


Raramente Mione passara uma noite tão ruim. Gostava de Lupin e Tonks. Apreciava a companhia deles. Invejava o relacionamento que tinham. Juntos há quinze anos, com três filhos, uma hipoteca e todo o resto, o amor entre os dois ficava evidente na forma como se olhavam, como riam um para o outro. Enfim, quanto melhor eles se davam, mais difícil era para ela voltar sozinha para casa depois do compromisso.


O problema era esse, voltar para casa e estar sozinha. Mione ansiava por um ambiente repleto de pequenos compromissos, que os Lupin pareciam partilhar. Gostaria de ter um marido, uma família e um lar, não um belo apartamento vazio. Não achava que seria pedir muito. Também não achava uma coisa tão difícil assim. Talvez tivesse a ver com seu sentido crítico, pois entre os homens que conhecera nos últimos dez anos, nenhum se encaixava na idéia que ela fazia de um companheiro; eram menos do que ela esperava. Mas compreendera melhor a si mesma depois de reencontrar Harry. Nunca deixara de amá-lo. Esse fora o motivo principal de não querer encontrar outra pessoa. Harry era sua alma, seu coração.


Imaginou se aquilo aconteceria sempre, dali em diante. Naquela noite não conseguira afastar os pensamentos do assunto que a dominou o dia inteiro. Repetir mentalmente o nome dele era como ficar mexendo num ferimento dolorido. Ondas de sofrimento passavam por sua espinha. Em uma questão de horas ele estaria perdido. Para sempre. Separado dela por uma opção própria. Um capricho do destino, que se encontrassem para saber o que estavam perdendo. Porém não havia jeito, no dia seguinte seria realizada a cerimônia, dali a algumas horas... não havia nada que pudesse fazer.


— Ainda não está se sentindo bem, está? — quis saber Roger.


O homem parecia um polvo, quando se tratava de cercá-la de atenções, e ela sabia o motivo daquele comportamento: quando chegasse o momento de deixá-la em casa, Roger pretendia apresentar o grande anel de diamante que comprara e em seguida pedir que casasse com ele.


Foi ao confrontar a própria expectativa e a reação entre os dois homens que sua compreensão melhorou. Na verdade, sua vontade não era a de ter uma casa, ter filhos e ter uma família, queria tudo isso com Harry, mas não com Roger. A oferta de um marido e um lar era algo tentador, principalmente porque ele não a magoaria jamais, nem a trairia ou a deixaria insegura emocionalmente, como acontecera no caso de Harry. Porém Roger era um amigo, bom e generoso. Se ela aceitasse a oferta dele, jamais passaria pelo que passara com Harry. Porém, estaria estragando a chance que Roger tinha de encontrar uma mulher que verdadeiramente o amasse da forma que ele merecia.


|M|ione não o amava. Se pudesse escolher, se tivesse o poder de deslocar seu amor, transferi-lo de um para o outro, faria a troca sem pestanejar. Gostava muito de Roger, da serenidade e segurança que ele tinha para oferecer, assim como da companhia dele. Porém, não o amava. Não conseguiria produzir, com ele, nem uma parte da felicidade dos Lupin, que pareciam feitos de encomenda um para o outro.


— Estou bem melhor, obrigada.


— Mais champanhe? — ofereceu Roger, completando a taça dela sem esperar pela resposta.


Ele parecia pensar que uma dose de champanhe iria melhorar ou até corrigir qualquer tipo de mal-estar que ela tivesse.


— Sabia que nos encontramos pela primeira vez aqui mesmo, nesse restaurante? — indagou Lupin, tirando os olhos da esposa para falar com Mione.


— Bem, foi o que Roger me contou.


Lupin apontou o amigo com um pedaço de maçã caramelada espetado no garfo.


— Ele também estava aqui. No dia em que conheci Dora. Nesse mesmo lugar.


— Bem, se quer saber, Roger me conta a história como se ele fosse o responsável por um ter conhecido o outro. Diz que apresentou vocês.


— Não foi bem assim — protestou Lupin, rindo.


— Bem, pelo que me lembro, acho que fui eu quem prestou atenção em Tonks da primeira vez.


— Você está fazendo com que eu pareça um pedaço de carne — reclamou Tonks, rindo.


— Um pedaço de carne, não. Um apetitoso pedaço de carne — corrigiu o marido. — Você era uma gracinha... naquela época.


— Como assim? Não sou mais uma gracinha? Por que usou o verbo no passado?


— Porque agora, depois de tanto tempo, não posso usar mais o diminutivo. Agora é uma graça. Uma beleza crescida, desabrochada, melhor — afirmou ele, estendendo uma pequena caixa para a esposa. — Quero que uma parte de nós sempre fique aqui, nesse lugar, onde nos conhecemos. Esse é um caso em que quinze anos só serviram para melhorar as coisas.


Lágrimas subiram aos olhos de Tonks quando deparou com o chuveiro de brilhantes contra o veludo opaco. De alguma forma a emoção foi contagiante e Mione precisou controlar-se para não chorar também.


— Acho que ouvir isso depois de três filhos serve para me dizer que você ainda gosta de mim... ou sua vista piorou muito — brincou ela, abraçando o marido.


— Tem toda a razão, piorou mesmo, por isso agora preciso tatear tudo com as mãos, em vez de olhar... — disse ele, fazendo expressão de cego, com as mãos estendidas.


— Mentira, diz isso só para se aproveitar de mim, mais tarde.


Os dois se beijaram e Mione olhou para Roger, que segurou-lhe a mão, apertando-a. Tratava-se de um homem vigoroso e maduro, não de um velho como Harry insinuara. Aos quarenta e três anos de idade, o cabelo de Roger começava a mostrar sinais de prateado nas têmporas, o que lhe conferia um ar distinto. Geralmente sua postura era formal, e ele gostava de parecer mais velho, porém Mione não chegaria a chamar de "coroa". Ele sorria ao erguer a taça.


— Gostaria de brindar aos meus amigos... que eu apresentei, e desejar mais quinze anos de felicidade — disse ele.


Todos brindaram, e em seguida as luzes se apagaram e aproximou-se um garçom trazendo um bolo branco com os dizeres 15 + 15. Os olhos de Tonks encheram-se de lágrimas quando todos começaram a cantar parabéns, inclusive o proprietário, que se aproximava. Toda a equipe, inclusive o pessoal da cozinha, fez questão de dar um abraço no casal que se conhecera em seu bar. Foi uma verdadeira fraternização. Hermione não se conteve e desatou a chorar, o que lhe valeu uma ida ao banheiro para retocar a maquiagem. Pouco tempo depois, Roger pediu desculpas, afirmando que o restante da comemoração ele não pretendia atrapalhar. Mione surpreendeu-se.


Depois de abraços e congratulações finais, os dois deixaram o restaurante, contentes por saberem que existiam casais que conseguiam viver bem um com o outro no mundo atual, durante quinze anos. Era algo capaz de animar alguém, ou fazer com que a pessoal esquecesse seus problemas por algum tempo. Durante o tempo em que estava com eles, Hermione quase não lembrou de Harry e do casamento próximo; até aquela hora, fora bem sucedida em seus esforços.


Durante dez anos, Harry estivera perdido para ela. Então a vida pregara essa peça aos dois, com sua forma esquisita de humor. Harry retornara em sincronismo suficiente para que Mione tivesse consciência do que perdera. Uma noite de lembranças era tudo o que teriam ao longo dos anos. Para beber e ficar triste nas tardes de chuva, com saudade.


Sentiu vontade de chorar, sem motivo. Imaginou que os quinze anos de Lupin e Tonks poderiam ser dez anos para ela e Harry. Se as coisas tivessem acontecido de forma diferente, seria possível que os dois comemorassem de forma parecida tanto tempo de felicidade?


Lembrou-se de Roger, que caminhava a seu lado.


— Muito obrigada pela noitada divertida — disse ela, enganchando o braço no dele. — Tudo estava perfeito. Quando comecei a chorar, minha dor de cabeça passou. Acho que era estresse acumulado. Mas estou cansada.


— A noite é uma criança — respondeu ele, estendendo o número correspondente ao carro para o manobrista.


O BMW chegou e ambos entraram, conversando sobre o casal aniversariante. Alguns minutos depois, ele estacionava à porta do edifício dela.


— Confesso que tinha esperança que você me convidasse para tomar uma xícara de café — disse ele.


— Hoje não, Roger, desculpe. A dor passou, mas estou indisposta e acho melhor ir logo para a cama.


Embora ele tenha ficado desapontado, não demonstrou nada. Manteve o respeito habitual, beijando-a na testa. Um gesto tocante de carinho e afeição, porém longe da paixão arrebatadora que ela desejava.


— Durma bem, meu amor — disse ele.


— Obrigada, mais uma vez — respondeu ela, saindo do carro.


Fechou a porta e entrou em seu prédio, cumprimentando o porteiro, que cabeceava de sono em seu posto, no saguão. Assim que se viu sozinha no elevador, algo inusitado aconteceu.


As lágrimas voltaram. Inesperadas. Indesejadas... e incontroláveis. Para ela, também inexplicáveis. Nunca soube se estava chorando por ela mesma, por Harry, por Roger ou por Lupin e Tonks. Chorou durante toda a subida do elevador, e foi difícil encontrar a chave na bolsa, com a visão embaciada pelas lágrimas.


Fora um acontecimento inusitado, pois Mione não tinha mais o hábito de chorar sobre leite derramado. Suas lágrimas de desilusão pelo que poderia ou não ter acontecido haviam secado na época em que viajara para a Inglaterra. Passara dias inteiros chorando pelo que podia ter acontecido. A única coisa que conseguira para si mesma com esse comportamento fora piorar sua apendicite a ponto de precisar de uma cirurgia. Não ficaria mais triste para se prejudicar.


A tristeza é uma coisa que só prejudica quem fica triste. Era preciso mandar embora essa sensação, senão em pouco tempo ela estaria se achando uma vítima. A vitima depende dos outros e não resolve nada, portanto não ajuda. No hospital, chegou um momento em que resolveu, em vez de ficar com pena de si mesma, agir para controlar sua vida e nunca mais depender dos outros. De nenhuma maneira. Essa idéia a levou para a faculdade, onde estudou com afinco e se formou entre os primeiros da classe. O mesmo se aplicou a seu trabalho, onde a mesma vontade de não ser vítima a transformou numa profissional dedicada e séria, que logo viu resultados de seu esforço. Deixara de lado algumas coisas, porém conseguira não depender mais dos pais ou de ninguém. Evitava, assim, outro ocorrido como o do casamento anulado.


A verdade é que se apaixonara cedo demais. Ainda adolescente conhecera Harry e isso mudara toda a sua vida. Ainda sentia conseqüências dessa mudança. Seus pais haviam ensinado a ela que geralmente a vida não era justa; quando enfim o encontrou, foi tarde demais.


Hermione entrou no apartamento e pendurou sua bolsa no cabide ao lado da porta, evitando acender as luzes. Caminhou até a grande janela panorâmica, que abriu de par em par, ergueu a cabeça e respirou fundo o ar frio da madrugada.


As luzes da cidade pareciam uma pintura ou um tapete de contas de luz que se estendiam quase até o horizonte longínquo. Quando se voltava o rosto para o céu, era possível perceber um halo desde a escuridão do espaço até a cidade dos homens, com seu brilho elétrico. Deixou que os olhos fossem até a silhueta do Hotel St. Regis, um dos mais altos.


Passando um braço em volta do corpo, deixou que a outra mão fosse até o rosto, ainda úmido de lágrimas. Como por encanto, o contato das pontas dos dedos com seu rosto provocou nova crise de choro, desta vez incontido. Não sabia exatamente por que, mas havia algo de profundamente triste no fato de dormir tão longe daquela pessoa que abraçara na noite anterior. Permaneceu ali, vendo as luzes molhadas pelas lágrimas durante alguns minutos, depois olhou para o Hotel Regis outra vez.


Cerrou os olhos e mandou um beijo, assoprando para que fosse mais rápido. Aquele gesto pareceu enviá-la a um ponto determinado no passado... uma época de sua vida que não conseguia definir direito.


Sempre sem acender a luz, Mione permaneceu ali por um tempo indefinido, até que o brilho das luzes ficasse nítido outra vez aos seus olhos.


Despiu-se e foi para a cama, passando pelo banheiro para escovar os dentes. O tempo inteiro os olhos se mantiveram semicerrados, como se uma parte deles tivesse como missão buscar uma mensagem no passado distante.


Deitou-se.


Seguiu a rotina habitual antes de se deixar levar pelo sono. Algo que conseguira controlar a insônia crônica da qual sofria. Depois de passar por muitos médicos, experimentar vários remédios, a maioria dos quais deixava sua capacidade de raciocínio embotada durante a manhã seguinte, conseguira o milagre de dormir com rapidez por intermédio do conselho de uma amiga: a técnica consistia em relaxar o corpo, procurando não pensar em nada, depois perdoar e pedir desculpas a todas as pessoas que encontrara durante o dia, depois em sua vida, depois em vidas passadas (se é que isso existia). Pelo sim, pelo não, sofria tanto com a insônia que um dia resolvera experimentar. Fora a primeira noite do mês em que dormira instantaneamente.Mione não praticava em especial religião nenhuma, apesar de ter freqüentado a igreja quando criança, mas aquilo funcionava independente disso. Nos dias em que adiava esse ritual, demorava para pegar no sono.


Naquela noite em especial, sentindo que alguma coisa estava para acontecer em sua vida, foi cuidadosa em seu ritual, detendo-se em Harry.

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