Na tarde do dia seguinte, Virgínia estava assistindo televisão quando a campainha do seu apartamento tocou. Correu para atender e quando viu quem era tentou fechar, mas Harry pôs o pé na fresta e praticamente empurrou a menina. Ele próprio trancou a porta e disse:
-Não ia me deixar entrar?
-Como você subiu?
-Esqueceu que somos namorados? O porteiro me conhece muito bom, afinal, por que ele não deixaria o grande amor da vida de Virgínia Weasley entrar no apartamento dela? Curioso caso…
-Idiota. Eu não quero mais te ver!
-Quanta mentira, querida. –O menino falou trancando a porta da sala.
-Você acha que não vi? Você acha que eu não vi você e aquela mulher se beijando na boate?
-O quê? Ta louca, é? –Aproximou-se dela e trancou-a na parede. –Você acha mesmo que eu trocaria seus beijos por de uma garota qualquer? Eu te amo e você sabe disso…
-Não sei se devo acreditar em você, Harry.
-Por quê? Gina, eu te amo. Quantas vezes terei que te dizer isso?
-Então, ok. Me diga quem você estava beijando na boate ontem? Um clone meu? Minha irmã gêmea?
-Você tem irmã gêmea? Nossa, foi um erro enorme, porque uma garota tão linda como você só pode existir uma!
A menina sorriu, mas logo se repôs:
-Não venha com chantagens.
-Ok, -Ele falou encostando-se na parede ao lado dela. –Gina, eu beijei aquela garota, mas por favor. –Olhou fundo nos olhos dela. –Por favor, me perdoa. Foi a última vez que isso aconteceu. Eu simplesmente não sei o que me deu… Eu estava bêbado demais e ela me agarrou… Foi um acidente tolo que não voltará a acontecer. Eu tentei te procurar, mas não te encontrei, o Neville tinha me dito que você tinha saído da boate. Fui atrás de você, mas… -Segurou-a pela cintura. -…Onde você se enfiou? O seu celular estava desligado, não sabia onde te procurar mais, porque telefonei para o seu prédio e o porteiro me disse que você não tinha chegado. Onde dormiu?
-Harry… -Ela o abraçou com força e com o rosto enterrado no peito dele, falou. –Eu… Acabei dormindo na… -Pensou em dizer que Draco Malfoy a tinha ajudado, mas isso só pioraria as coisas, então resolveu dizer. –Dormi na casa de Hermione. Eu tinha exagerado na bebida, porque tinha visto você com aquela garota e bem… Deixa pra lá. Isso tudo aconteceu ontem e eu te perdôo se você me prometer que nunca mais vai fazer isso outra vez. Ok, Potter? Não tenho sangue de barata pra você ficar me pisando e nem sou um ornamento para você ficar me pondo chifres de enfeite!
-Uau, senhorita Weasley… Tudo bem. –Harry abraçou-a. –Mil perdões, valeu? Foi uma recaída que nunca mais vai acontecer. Mas, você sabe o que seria muito bom agora?
-Não, o quê?
-A gente sair para lanchar, o que acha? Aí eu te compro uns cd’s novos…
Gina pulou no colo dele e respondeu:
-Claro, seria maravilhoso, Harry! Você sabe que eu te amo, não é mesmo?
-Sei. Eu também te amo, Gina. Você é a mulher da minha vida! –E beijou-a tão vorazmente que a jogou contra a parede.
-E ainda por cima, esqueci o meu casaquinho no banco de trás do carro dele, é ou não é pra ficar fula da vida?
-Putz, Gina. Se eu estivesse no seu lugar, nem sei o que faria. Não, minto! Estaria gritando de tanta felicidade neste exato momento!
-O quê? –Gina perguntou assustada. –Ficou louca, Hermione? Eu nem conheço aquele loiro…
-Mas, tenho certeza de que é um gato daqueles!
-É… Mas, isso não vem ao caso. –Gina dizia enquanto terminava de imprimir o restante dos formulários. –Droga… A tinta está acabando!
-De novo? Já pedi para o Mark trazer a tinta dessa impressora desde ontem!
-Mas o Mark nunca resolve nada, tem é que falar com o Joe, ele resolve tudo nessa empresa!
-Ok, ok. Mas você não me respondeu, ele é muito bonito?
-Quem? O Draco Malfoy?
-Não, meu pai… Claro que é Draco Malfoy, hein, me diz como ele é, além de ser loiro e muito inconveniente.
Gina terminou de assinar as fichas e guardando-as na gaveta, virou-se para encarar melhor a amiga e lhe responder:
-Hermione Anne Granger, no que a senhorita pensa, além de homens?
-Ué, que eu tenho uma pilha de formulários para ler e ainda não fiz nada disso, simplesmente porque a minha amiga não quer me falar como é o grande salvador dela!
-Ai, ai. Você não existe Hermione. Enfim, o Draco é loiro… Alto, a pele é perfeita… -A ruiva foi puxando cada detalhe pela memória. -… Os lábios finos, as mãos grandes e macias, sei lá, muito bonitas… Mas o mais importante, são os olhos. Os olhos dele, Mione, são lindos. Quero dizer, muito mais do que lindos, são estupendos! Ou outras qualidades que não me vêm a cabeça no momento. São azuis, mas uns azuis tristes e misteriosos, sabe? Com um tom acinzentado tão forte, tão envolvente que, sei lá. Só vendo para sentir! Olhar nos olhos de Draco Malfoy é se perder no labirinto da perdição!
Hermione ajeitou-se e disse:
-Garota, se você não fosse louca pelo Harry, eu diria que se apaixonou pelo Draco.
Gina riu e falou:
-Nunca! Apesar dele ser tão bonito assim, o que ele tem por dentro não vale a pena conhecer… ele é inconveniente, chato, egoísta, e tenho certeza que você encontraria muitos outros defeitos. Para cada mil qualidades que a gente encontra em Draco Malfoy, existem mil e um defeitos!
-Claro, o homem não é perfeito! Não precisa ser… E antes de ir, me responda uma coisa, como foi beija-lo?
-Hã?
-É… Como que o Draco beija? Tão bonito assim, deve ser tentador beija-lo e nem as mais recatadas freiras se agüentariam… Hein, me fala.
-Hermione, sai daqui! Eu não vou te falar mais nada, sabia? Como que você fala uma coisa dessa?
-Vai dizer que é mentira, querida?
Vírginia levantou-se e com os formulários empacotados nos braços, falava enquanto seguia para a sala do chefe:
-Ok, você venceu. Foi um infeliz acidente.
Entraram no elevador.
-Sei disso… -Hermione disse cética.
-Então, eu dei o primeiro passo. Ele beija bem… Muito bem, mas o meu Harry beija muito melhor, é claro.
-Hã…
-E… quase transamos. –Aquela frase saiu quase que num sussurro.
-O quê? –Hermione disse incrédula.
O elevador parou e as moças saíram e seguiram por um corredor iluminado pelo sol das duas da tarde.
-É, isso aí. Só que eu disse pra ele que tinha um namorado e não poderia continuar.
-Apesar de que querer muito.
-Hermione! Eu amo o Harry! Eu nunca faria uma coisa assim com ele!
-Mas ele deve ter feito com você!
-Não fale isso! –Gina parou de repente. –O Harry e eu nos amamos. Foi um acidente, se ele beijou uma gaorta na boate no sábado. Foi um acidente e que passou. Acabou!
-Desculpa, Gina. Mas o Harry é muito galinha, tudo bem que seja muito bonito, mas ele não se segura!
-Ele é assim, mas gosta de mim. Sei que ele me ama. Namoramos há dois anos. Há dois anos, Hermione, estamos juntos!
-Tudo bem… Foi mal.
-Ok, agora eu… -Gina respirou fundo, ajeitou os cabelos cor de fogo e continuou. -…Eu vou levar esses papéis para o senhor MacLeing… A gente se fala depois, Mione. –E virou-se logo, não queria encarar a amiga naquele momento.
Poderia ser verdade? Bem… “Poderia. O Harry é muito mulherengo mesmo, mas chegar a trair-me é demais. Sei que ele me ama, me ama muito. Qual a prova que o mundo precisa para saber que esse amor é verdadeiro?”. Gina pensava enquanto se aproximava da sala do senhor Córmago MacLeing, seu chefe e dono da empresa em que trabalhava.
A conversa com Hermione naquela tarde não saia da sua cabeça. Virgínia estava numa cafeteria perto de seu apartamento. Tomava um capputino com biscoitos numa mesa perto da janela, que dava para o lago do Largo Grimauld.
“Harry… Harry… O que você diria se ouvisse a Mione dizer aquelas coisas? Diria que me amava? Diria que sou apenas mais uma ficante? Mas dois anos? Será que sou muito otária por estar com ele tanto tempo? Ele me traiu e eu simplesmente o perdoei. Dei um beijo nele, querendo dizer, praticamente: Obrigado por me trair! Caracas, como meu coração ta apertado. Como eu não queria estar tendo esses pensamentos. Talvez assim, fosse menos doloroso.”.
Gina saiu da cafeteira meia hora depois. Olhou para o relógio e viu que já eram nove da noite.
-Putz, a hora passa que a gente nem vê.
Dobrou a esquina e caminhou reto para o seu apartamento.
As ruas quase vazias, o céu escuro e cheio de estrelas, a atmosfera calma e romântica… Há… Como ela amava o largo Grimauld, não existia lugar mais agradável para se morar em Londres. Tinha feito uma perfeita escolha. Uns dois casais se encontravam na pracinha e muitas casas já tinham as suas janelas fechadas.
Gina parou de repente ao ver que alguém estava encostado num carro preto em frente ao seu prédio. Não podia acreitar que ele estava ali. Draco Malfoy estava parado em frente ao seu prédio e olhava o relógio com impaciência. Quando pareceu desistir, virou-se para entrar no carro e percebeu que uma menina de longos cabelos vermelhos o observava espantada, parou de abrir a porta.
-Olá, senhorita Weasley!
A menina saiu de seu transe e caminhou até ele muito nervosa.
-O que você faz aqui?
-Nossa, garota. Você é muito mal agradecida, mesmo. Se eu soubesse que seria recebido dessa maneira, nem passava por aqui!
-Hã?
O loiro retirou do banco do carona um casaquinho preto cuidadosamente dobrado.
-Acho que você o esqueceu no meu carro…
-Ai, meu casaco. –Ela o pegou com graciosidade e alivio. Sorriu e respondeu envergonhada. –Muito obrigado, Malfoy.
-Tudo bem. Afinal pra que eu iria querer um casaquinho?
-Achei que você não fosse devolver.
-Pois pensou errado.
-É… Desculpe-me.
-Tudo bem. Então, eu… Já vou indo. Foi um… Não vou mentir, foi um prazer te ver outra vez Virgínia Weasley. –Draco sorriu. Pela primeira vez, Gina o via sorrir verdadeiramente.
Antes que ele pudesse dar a partida no carro, Gina apressou-se à dizer-lhe:
-Você… Não quer subir?
-O quê?
-Hã, subir e tomar… ai, deixa pra lá. Pode ir. Muito obrigado mais uma vez.
Virgínia contornou o carro preto e tratou de subir as escadas do prédio, mas parou logo que ouviu a voz de Draco dizendo:
-Espere, ei, espera.
Ela virou-se bruscamente e muito vermelha perguntou:
-O que foi?
-Vou querer subir, pra beber… qualquer coisa. –Ele falou com um ar tão simpático, que Gina até estranhou.
-Tudo bem, então.
Subiram até o terceiro dos sete andares do prédio em silêncio, além dos poucos olhares que lançavam um ao outro discretamente. A ruiva abriu a porta do apartamento e Draco disse:
-Hum… Chaveiro de sapinho? Desculpe, mais quantos anos você tem?
-Pare. Não seja bobo.
O menino deu uma risadinha discreta.
Afinal, o que havia com Draco Malfoy naquela noite? Estava tão estranhamente divertido.
-Pode entrar, Malfoy.
O loiro adentrou o apartamento pedindo licença e esperando que a menina fechasse a porta, parou para observar o lugar onde Gina morava. Era um belo lugar: simples, mas aconchegante. Na sala tinham três sofás, sendo que um, era de um único lugar, eram verdes; as cortinas eram brancas, o tapete também branco tinha uma mesinha de madeira no centro, a televisão desligada ficava de frente para o sofá maior, que tinha um abajur transparente ao lado, ao fundo da sala tinha uma porta enorme que parecia seguir para a cozinha escura naquele momento e uma outra porta à esquerda de Draco estava fechada, pensou consigo, ser o quarto dela e a sua direita, um pouco depois da área da sala, ficava uma porta de correr, que dava para uma pequena sacada, com uns três vasos de plantas ornamentais, uma cadeirinha branca e um gato gorducho que dormia profundamente.
-Então, o que achou do meu cantinho?
-Há. –ele saiu de seus devaneios. –Bem arrumado e bonito.
-Sei, pode não ser aquela mansão em que você mora, mas eu gosto. Vem.
O rapaz apressou-se em segui-la.
-Sente-se.
-Obrigado.
Gina sentou-se também. Ficaram se olhando por uns instantes e ela perguntou:
-E… Bem, o que gosta de beber?
-Não vá me dizer, que a senhorita gosto muito de beber tem uma adega escondida?
-Ra, ra, ra. Não me faça rir. Eu não tenho uma adega no meu apartamento. –Ela levantou-se quase de imediato e caminhou até a cozinha.
Draco seguiu-a.
Ela abriu a geladeira e falou:
-Tenho água, suco de melancia, coca diet e chá de maçã. O senhor riquinho já tomou alguma dessas coisas?
Draco cerrou aqueles olhos tentadores e falou:
-Gostaria de provar o suco de melancia, por favor.
Gina ouviu direito? Ele pediu por favor? Por favor? Ela estava se sentindo muito deslocada diante aquele moço tão simpático e educado. Ela pegou o suco e serviu-o, sentaram-se na mesa arredondada de mármore e Draco falou:
-Você cuida muito bem do seu “cantinho”.
A ruiva sorriu e agradeceu:
-Muito obrigado, eu tento. Porque eu tenho uma preguiça enorme de arrumar isso aqui. Mas uma coisa que me surpreende é saber como você matém a sua casa naquele estado…
-Em que estado?
-Tão bem arrumada, oras.
Draco sorriu:
-Hum… Tenho a ajuda de uma empregada, é claro. Sozinho mesmo, eu só cuido do meu quarto.
-Meus parabéns, ele é impecável.
-Gosto das minhas coisas no lugar.
Após uns minutos de silêncio, Draco voltou a dizer:
-Então, você disse que tinha um namorado. Onde ele está?
Ele tinha que tocar nesse assunto? Tinha? Será que era realmente necessário?
-O Harry está na casa dele.
-Vocês não se vêem? Oh, desculpe-me, estou me metendo na sua vida particular.
-Não, tudo…
-Não, não. Eu não quero saber, porque eu não gostaria se você começasse a me perguntar sobre a minha vida. Detestaria ter que te responder mal.
O cara era muito prevenido!
-Ok.
Malfoy respirou fundo e levantando-se falou:
-Tenho que ir.
-Tudo bem. Eu te levo até a porta.
Acompanhá-lo foi uma tarefa difícil, pois Gina não queria que ele fosse. Naquela noite ele estava mais agradável e a idéia de ter uma conversa amigável com ele era tentadora. E para sua surpresa, antes que pudesse fechar a porta da sala, o rapaz falou com um sorriso largo no rosto:
-Muito obrigado pelo suco, estava muito gostoso e pela sua companhia também, você é uma pessoa boa para conversas. Espero ter outra oportunidade de te ver, Virginia Weasley.
Ela sorriu. Sorriu muito. Estava em êxtase de tanta felicidade.
-Também gostei muito. Boa noite, Malfoy.
-Boa noite.
E Gina fechou a porta. Foi doloroso fechar aquela porta.
"Um primeiro olhar
Num primeiro encontro
Estava emocionada
Ou adormecida?
Achava que tinha encontrado uma saída.
Fechei uma porta
Uma dor me dominou
E fechei aquela porta
Acho que não era para ser assim…"