Esse capítulo é um dos melhores na minha opinião!
Curtam bastante...
;D
*************************************************************************************
Emma Granger, aliás, a agente especial do FBI, Fallon Hargis, ergueu os olhos da revista que lia distraidamente, em pé, ao lado da mesa. De onde estava, descortinava-se as pequenas celas individuais onde os marginais mais perigosos eram encarcerados, provisoriamente, até
serem julgados ou ganharem um destino qualquer. Geralmente um dos grandes presídios espalhados por todo o país.
Cavenaugh, estava com os braços apoiados na barra horizontal de sua cela e fitava a sobrinha com uma expressão de escárnio em seu rosto marcado pelo tempo e pela maldade.
— Você pensa que pode me manter preso, não é, querida?
— Eu não penso, canalha. Eu sei que posso.
— Isso é o que veremos.
— Estarei colada em você até vê-lo acabado. Vou cuidar para que nunca mais fira ninguém — ela disse lentamente.
— Faça isso... Fique bem perto de mim. Assim me poupará o trabalho de procurá-la quando for a hora certa — ele ria, maldoso.
— Estou tremendo de medo. E como vai seu braço? Espero que esteja doendo bastante.
Cavenaugh olhou para o curativo e uma pequena contração em seu rosto revelou a ira que lhe ia por dentro. Tinha de lembrar-se de não subestimar aqueles policiais caipiras. O tal de Andy, o magrelo, fora rápido como um raio, quando Cavenaugh tentara tirar-lhe a arma do coldre. O resultado era a fratura no braço direito que ainda o incomodava bastante.
— Dói um pouco de madrugada — ele disse com aquele sorriso horrível. — Mas me mantém acordado, pensando... Pensando em coisas agradáveis que farei com certas pessoas, na hora oportuna.
— Estou cuidando para que essa hora nunca chegue. Mas se isso vier acontecer, espero estar presente. Preciso apenas de uma oportunidade para acabar com seu sofrimento sobre a terra.
Cavenaugh amaldiçoou-a em surdina. A frágil adolescente de New Orleans se transformara em uma policial audaz e cheia de recursos. Até agora ele ainda se perguntava como não reconhecera a sobrinha, infiltrada em sua gangue, por trás do disfarce. A peruca ruiva e a maquiagem pesada que usara, não era suficiente para disfarçar seus traços fisionômicos. Emma era a cara do pai, Phillip Granger, o meio-irmão que Cavenaugh tivera de liquidar a tiros, vinte anos atrás, com a menina Hermione.
Ele abaixara a guarda. Esquecera o princípio básico de sobrevivência no crime que é jamais dar por encerrado um caso em que os participantes não estão calados para sempre sob a terra. Cometera um erro e estava pagando por isso.
Mas o jogo ainda não terminara, e ele tinha seus trunfos. Voltando ao tom provocativo, ele disse à sobrinha:
— Então você pretende viajar com o titio para New Orleans, não é isso, querida?
Ela não respondeu. Parecia absorta em seus pensamentos. Cavenaugh prosseguiu, tentando irritá-la:
— E o que você espera conseguir contra mim na bela New Orleans... Uma condenação por tráfico de drogas?
— Quero vê-lo no corredor da morte, canalha.
— Como vai fazer isso? Não há testemunhas — ele ria baixinho. — A menos que já se aceite nos tribunais de lá, depoimentos do além.
Ela empalideceu sensivelmente, e Cavenaugh gostou de tê-la atingido com suas palavras maldosas.
Então, a audaz policial ainda era sensível às provocações... Um bom sinal, ele considerou. A experiência o ensinara que pessoas emocionais são mais sujeitas ao erro do que aquelas que perderam ou nunca tiveram sensibilidade.
Cavenaugh tinha um plano. Um bom plano de ação para quando chegasse a New Orleans. Só precisava ter acesso ao telefone uma vez por dia. E a lei, garantia a ele esse direito.
Era questão apenas de deixar a justiça trabalhar em sua previsível burocracia, lenta e estúpida. E então agir de maneira exata e fulminante. Emma, ou melhor, Fallon Hargis, receberia sua parte... milimetricamente, ele prometeu a si mesmo, sorrindo em gozo antecipado.
Draco Malfoy estava sentado em seu gabinete no terceiro andar da delegacia, de onde olhava o movimento moroso da praça abaixo, através da ampla janela de vidro. Completara quarenta e dois anos na primavera e sentia que a vida ainda não lhe dera o que pretendia. Casara-se muito jovem, e a inexperiência daqueles anos dourados fora a causa dos desentendimentos contínuos que acabaram por determinar o divórcio entre Catherine e ele. Sem filhos, resolvera que a vida solitária era mais de acordo com o seu caráter turbulento e inquieto. Os inúmeros casos que tivera ao logo dos anos, com mulheres diversas, só vieram confirmar aquela idéia, até a chegada de Fallon em sua vida.
A princípio Draco considerara a bela policial como um prêmio que a sorte lhe reservara. Gostavam um do outro, e o sexo entre eles era bom... Caloroso. Mas ele não se iludia. Sabia que com o tempo, a tendência da relação era se esfarelar diante da realidade do cotidiano. O conhecimento de suas próprias limitações era um indicador preciso do final iminente.
Para surpresa do solitário empedernido, Fallon não obedecia a nenhum padrão de comportamento conhecido por ele, até então. Não se agarrava ao homem, como se ele fosse a tábua de salvação de alguém que se afoga. Não era do tipo independente que depois de uma relação maravilhosa, levanta, toma banho e vai embora, acenando da porta. Não era tão pouco possessiva e ciumenta como algumas que conhecera. Nem indiferente e distraída como outras que faziam o homem sentir-se usado para o prazer delas.
Fallon tinha um jeito manso de estar na cama depois do sexo, que espantava a solidão de Draco. Era como se fossem amigos de longa data, cujo silêncio alimenta e, as poucas palavras trocadas, calam fundo ao coração. Ela nunca se aborrecia quando ele preferia um livro à televisão, a contemplação à conversa. Parecia entender a delicadeza de um homem forte, que põe menos açúcar no café, porque sabe que a mulher prefere assim. E o mais espantoso para Draco... Ela nunca transbordava em palavras as emoções recalcadas ou insatisfações pessoais. Era quieta, circunspecta, gentil e sensível. Ele a amava.
Um pequeno sorriso cruzou o rosto do delegado diante daquela constatação que já não era uma novidade para ele. Há tempos sabia desse amor e aguardava ansioso o momento certo de pedir a Fallon que o transformasse em um homem honesto, casando-se com ele.
Draco tinha a convicção de que era correspondido no amor. Mas também sabia que ela jamais aceitaria qualquer tipo de compromisso antes de resolver aquele problema antigo que a fazia gemer nos pesadelos e acordar chorando baixinho.
O causador de toda aquela mágoa na mulher que ele amava, estava trancafiado numa cela em sua delegacia. Mostrando uma vontade de ferro, Fallon se dedicara exaustivamente à carreira, até tornar-se uma agente especial, com liberdade de ação em todo o país. Com o certificado nas mãos, iniciara então uma verdadeira cruzada para realizar a sua obsessão: localizar e prender John Cavenaugh. E conseguira.
Arriscando a vida por diversas vezes, Fallon infiltrara-se na gangue do marginal e agora o tinha preso. Faltava o desfecho de um julgamento e a condenação, por ter assassinado, seu pai, Philip Granger..
Alguém duvidava que ela conseguiria seu intento? Draco, não! E quando toda aquela história fosse apenas um passado doloroso, ela estaria livre para reassumir seu nome verdadeiro, Emma Granger, e tornar-se a sra. Tunner... Esse era o sonho de Draco. E estava próximo a se realizar.
— Pensando na vida?
A voz de Fallon chegou até o delegado, vinda da porta. Imprimindo um movimento rotatório à cadeira, Draco voltou-se para ela, com um sorriso no rosto:
— Em nós dois, para ser exato.
Ela veio até ele e sentou-se em seu colo. Aconchegando-se, apoiou a cabeça em seu ombro forte, que nunca se negara às suas inseguranças e aflições, em tantos anos de conhecimento recíproco.
— Conte-me... — ela pediu baixinho.
— É segredo. Mas logo você ficará sabendo.
Erguendo o rosto, ela o fitou nos olhos e depois beijou-o suavemente nos lábios.
— Não demore muito a me dizer.
— Pode estar certa que não — ele garantiu procurando retomar o beijo interrompido. Era tão bom.
Bem mais ao sul, onde o rio Mississippi encontra-se com o mar, Hermione estava sendo incomodada pela campainha da porta, sem decidir-se a atender.
Deitada preguiçosamente no sofá, ela ouvia música. Tinha um livro aberto, repousado no tapete a seu lado. Não esperava visitas e por algum tempo aguardou que o inoportuno visitante desistisse e fosse embora. Em vão... A campainha soou uma vez mais. E outra vez...
Erguendo-se do sofá, de mau humor, ela foi atender. Pelo olho mágico constatou, surpresa, que era Harry. Ela abriu a porta.
— Não me lembro de tê-lo convidado para vir a minha casa. O que foi que aconteceu?
A recepção não poderia ter sido mais fria. Por mais que Harry estivesse preparado, não pode deixar de ressentir-se.
— Nada em especial — disse em tom neutro — Vim lhe trazer isso — e estendeu uma caixa de papelão, grosso, cuja tampa apresentava diversos furos.
— O que é? —Abra e veja.
Hesitante, ela estendeu o braço e pegou a caixa.
— Não vai me convidar para entrar? — sugeriu, esperançoso.
— Está bem... Entre.
Ela caminhou para dentro do apartamento, seguida por Harry que fechou a porta atrás de si. Ele não parecia muito confiante no resultado de sua ousadia. O jogo que armara cuidadosamente podia voltar-se contra ele.
— Abra... É para você.
A curiosidade de Hermione havia despertado mesmo contra sua vontade, e ela puxou a fita adesiva que mantinha as abas da caixa, fechadas no alto. Um latido fino prenunciou o aparecimento de uma graciosa cadelinha terrier, com os macios pelos ruivos espetados em todas as direções.
— Meu Deus... Ela é linda — disse Hermione tomando-a no colo — Mas parece que a conheço...
— Conhece sim... É um dos filhotes da cadela que salvamos de serem asfixiados, na tentativa de suicídio de Eugene — ele confirmou.
— Como conseguiu obtê-la?
— É uma longa história... O importante é que Lisa está aqui, com saúde e feliz.
— Lisa... isso é nome que se dê a uma cadelinha tão graciosa? — ela protestou.
— Bem... Foi o que me ocorreu no momento. Você pode chamá-la como quiser. Ela é sua, agora.
Hermione pressentiu a armadilha, mas já era tarde. A filhotinha lambia suas mãos e abanava o rabinho... Era uma cadelinha linda...
— Harry... Isso é chantagem emocional.
— Do que você está falando? — ele perguntou com o ar mais inocente do mundo.
— Não se faça de inocente. Você sabe muito bem que forçou essa situação.
— De maneira nenhuma Hermione. Longe de mim essa idéia. — Ele pegou o animalzinho nas mãos. — Vou levá-la de volta e esqueceremos o assunto. Pobrezinha... Ela parece ter gostado tanto de você.
Como se entendesse o momento dramático da cena, a cadelinha começou a ganir dolorosamente assim que se viu de volta à caixa.
— Tire-a daí. Vamos... Não banque o estraga-prazeres.
Com a mão apoiada sobre a tampa, ele olhou para Hermione com fingida perplexidade:
— Não estou entendendo você. Quer ou não quer ficar com Lisa?
— O nome dela não é Lisa e tire essa mão daí.
Harry obedeceu, disfarçando o riso.
Empurrando-o com maus modos, ela retirou a cadelinha da caixa, segurando-a nos braços.
— Pobrezinha... Ficou assustada. — E dirigindo-se a ela: — Eu vou cuidar para que esse bruto não feche você no escuro outra vez.
— Bruto... Eu?
Hermione ignorou o falso protesto, dizendo:
— Faça alguma coisa de útil. Pegue leite na geladeira e coloque no fogo por alguns instantes. Ela deve estar com fome.
O plano de Harry estava correndo com perfeição. Pelo visto, conseguira uma companhia para a solidão de Hermione e de quebra, penetrar na intimidade daquele apartamento, até então interditado a ele.
— Você é quem manda — respondeu, feliz.
Pouco depois, os dois, sentados no sofá, acompanhavam as peripécias da cadelinha reconhecendo a sala. Os macios chinelos de Hermione pareciam atraí-la irresistivelmente.
— Ela vai arruiná-los — avisou Harry.
— Não tem importância. Estão velhos, e eu já estava pensando em comprar outros.
A cena era íntima. Propícia aos planos de Harry. Em uma semana, expiraria o prazo que ele tinha de circular com liberdade pelo Departamento de Polícia de New Orleans, colhendo material para suas reportagens. O que significava também que, em pouco tempo, as rondas em companhia de Hermione chegariam ao fim. Era evidente a Harry que as três semanas de convivência, não melhorara em nada o relacionamento entre ambos.
No papel de policial, com uniforme, distintivo e arma, Hermione conseguia, com relativa facilidade, mantê-lo na linha, afastado de si. Era necessário então, criar uma chance de estar com ela, numa situação diferente. Menos profissional e mais humana.
O jantar no Dick's revelara-se frustrante sob esse prisma: Hermione estivera feliz e receptiva durante todo o tempo que lá permaneceram. Mas era uma satisfação pessoal, que o excluía.
Qualquer tentativa de Harry em direcionar a conversa para um campo mais íntimo, fora rechaçada, por uma mudança súbita de assunto... Por uma espécie de desdém, ácido e intransponível.
"Alguém, com problemas de auto-estima, já teria desistido dessa mulher", ele pensara, sorvendo o scotch sem sentir seu sabor. Mas ela não o conhecia...
Hermione não sabia que Harry era, antes de mais nada, honesto com os seus próprios sentimentos e desejos. E ele a desejava.
A lembrança daquela noite fantástica no motel, ainda o tocava de muitas maneiras. A beleza do que se passara entre eles, marcara Harry a fundo. E ele queria mais. Saber ao menos, se tudo não fora apenas uma ilusão de seus sentidos, exaltados pelo momento. Queria saber se Hermione, sentira o mesmo prazer que ele.
Por isso viera até ali, com a cadelinha dentro da caixa.
Era um estratagema... Tudo bem. Ele admitia. Mas também um recurso usado, para legitimar a vontade real que tinha de dar a Hermione uma companheira fiel para suas horas de solidão. E também, é claro, a oportunidade de poderem estar a sós. Dar ao mágico o combustível para gerar o sonho.
Em casa, vestida num robe de seda, azul-claro, os cabelos descuidados, soltos em torno dos ombros, Hermione mostrava-se incrivelmente feminina e vulnerável. Ele seria um verdadeiro idiota se não aproveitasse aquele momento para tentar uma aproximação efetiva.
Colocando o braço sobre o encosto da poltrona, começou a acariciar levemente os cabelos
de Hermione, enquanto conversavam. O assunto era o jantar a quatro no Dick's, na noite anterior.
— Gostei do seu irmão — ela disse a Harry — Ele não tenta esconder suas limitações com frases brilhantes e comportamento sofisticado. Andréa ficou à vontade ao lado dele. O que é raro.
— Sua amiga magnetizou Kevin. Não esperava que ele se entusiasmasse tanto. É muito assediado pelas mulheres.
— Com a aparência que tem, isso é compreensível. Só espero que ele não tente brincar com os sentimentos de Andréa. Por trás de toda aquela auto-suficiência, ela é bastante vulnerável.
— Acho que os dois formam um par interessante. Parece que possuem em comum uma inocência primordial, que nada tem a ver com a desenvoltura que mostram no dia-a-dia.
— Você agora conseguiu me impressionar — Hermione afirmou com um sorriso. — Que observação sutil...
Ele curvou-se para Hermione e a beijou ternamente.
— Para agradar você, eu seria capaz de falar latim — Harry murmurou.
Sorrindo, ela provocou:
— Então fale.
— Ego virvidens, Pater noster, Advertia regnum! — ele exclamou de um só fôlego.
— O que é isso?
— É latim. Pelo menos parece, não?
— Sim... Mas o que isso quer dizer?
— Quer mesmo saber?
— Claro.
— Não tenho a mínima idéia —Harry confessou.
— Engraçadinho...
— Ouça, Mione...
— Sim?
— Você não gostaria de ir para cama comigo? — ele perguntou inesperadamente.
— Fazer o quê? — ela fingia inocência.
— Pensar comodamente em um nome para a terrier.
— Mas isso podemos fazer aqui mesmo.
— Não. Definitivamente, não.
Os dedos longos de Harry corriam pelos ombros dela, desenhando arabescos caprichosos, até chegar aos seios, livres sob o tecido sedoso.
O desejo adormecido despertou em Hermione com uma ânsia que a surpreendeu. Ela havia recalcado aquele sentimento por longo tempo e agora ele mostrava-se, soberano, nos arrepios que corriam por toda sua pele sensível, nas batidas desenfreadas de seu coração.
Como negar a Harry o que ela mesma desejava mais do que tudo naquele momento? A pergunta tinha uma só resposta: impossível. Seria preciso uma determinação que Hermione estava longe de sentir. Olhando dentro dos olhos verdes e ansiosos do homem a seu lado no sofá, ela apenas conseguiu dizer numa voz rouca e sensual:
— Acho bom avisá-lo que isso não vai se tornar um hábito. Você entendeu?
— Sim.
— Não posso e não quero manter uma relação estável com ninguém. Está claro?
— Está — Harry respondeu, grave.
Ela sorriu e o beijou com paixão. Depois pediu com doçura:
— Leve-me nos braços até a cama, como nos filmes antigos.
— Com prazer, Hermione Granger.
Ele a elevou do chão com facilidade e colando os lábios aos dela, conduziu-a para o quarto.
Nos braços de Harry, Hermione apoiou o rosto em seu peito, ouvindo as batidas fortes de seu coração. Ele a carregava com facilidade e determinação, os passos largos e cadenciados.
A porta do quarto de Hermione estava aberta, e, quando lá chegaram, ele se deteve, admirado com a decoração interior.
— Foi idéia sua?
— Hum-hum... Idéia e execução. Gostou?
— Estou surpreso — foi o que conseguiu dizer, antes de pisar o tapete branco, felpudo, e colocá-la na cama.
Era o primeiro homem a entrar naquele quarto, e além de Andréa, ninguém mais tivera acesso a ele.
Hermione sempre manifestara um gosto artístico tão apurado quanto personal. As cores que usara nas formas abstratas, espalhadas pelas paredes, eram fortes e quentes. Os móveis, ao contrário, eram leves, de linhas modernas e enxutas. Pareciam flutuar entre o branco absoluto do tapete e as cores vibrantes das paredes. As luzes surgiam por trás de esculturas de terracota, espalhadas pelos cantos.
Hermione amava aquele ambiente, o "útero arquitetônico de sua maioridade", como ela o apelidara. Era lá que sentia-se protegida e livre para sonhar.
— Você não respondeu se gostou ou não do quarto — ela insistiu em dizer.
— Parece você quando se entrega à ação. Caprichosa, precisa, densa e apaixonada — Harry afirmou, sincero.
Ela sorriu, reconhecida.
— Venha deitar-se aqui a meu lado — convidou em voz macia.
Tirando os sapatos, ele esticou-se na cama, passando um braço por trás da cabeça de Hermione. Os rostos muito próximos, os olhos se buscando...
Beijos leves, carícias delicadas... Os dois pareciam tatear os caminhos do encontro que se aproximava.
O robe de Hermione se abrira sob o influxo dos dedos de Harry que, sem pressa, passaram a acariciar a pele sensível de seus seios que se enrijeciam. Ela rolou sobre si e sentando-se na cama, livrou-se do robe, atirando-o sobre o tapete.
A visão do corpo alvo de Hermione contra as cores fortes da parede excitaram Harry poderosamente. Num movimento incontido, ele tirou a camisa e preparava-se para livrar-se da calça, quando ela o deteve.
— Deixe-me fazer isso.
Soltando o corpo sobre a cama, ele cruzou as mãos atrás da cabeça e deixou-se ficar assim, solto, observando os movimentos de Hermione que o despia vagarosamente.
O fecho do cinto de couro rendeu-se facilmente ao toque dos dedos hábeis, e logo o zíper era corrido, liberando as laterais, que ela afastou, docemente. Como um fruto livre da casca, a protuberância pulsante da virilidade indócil de Harry surgiu, então, sob o tecido leve da sunga azul que a cobria.
Com deliberada lentidão, ela correu as unhas sobre o tecido fino, sorrindo ao sentir a reação indômita do membro que parecia querer rompê-lo. Ela o liberou trazendo-o, poderoso e rijo, à luz difusa do quarto. Olhando Harry nos olhos, ela tocou com a ponta da língua o corpo latejante e correu os lábios por toda a sua extensão.
Um gemido profundo brotou dos lábios do homem em êxtase que, curvando-se para frente, tentou segurar a cabeça de Hermione entre as mãos. Mas ela escapou, rindo e, de pé, sobre o tapete branco, em sua nudez esplendorosa, puxou a calça de Harry pelas barras deixando-a cair no chão, com a sunga.
— Venha cá — ele ordenou numa voz embargada pelo desejo.
Obediente, ela escorregou sobre a cama, deitando-se de braços ao lado dele, enquanto o fitava com curiosidade excitada.
Num movimento rápido, ele montou sobre ela, procurando encontrar, por trás, a entrada natural de sua gruta úmida.
Dessa vez, Hermione sabia o que esperar daquela relação. Não mais se assustava com a
dimensão impressionante do corpo íntimo de Harry. Em movimentos circulares, ela facilitava a relação, enquanto ele mordia levemente sua nuca, e mordiscava os lóbulos de suas orelhas.
— Deite-se sobre mim — ela pediu, sôfrega — Deixe-me sentir seu peso.
Ele obedeceu, soltando-se sobre ela, enquanto os quadris de ambos iniciavam a antiga dança ancestral deliciosamente primitiva.
O total relaxamento dos corpos e mentes de ambos se deu naquela posição. O tempo era medido em cotas de bem-estar e doce devaneio. Nenhum dos dois saberia dizer como ou quem manifestou o primeiro movimento, mas foi Harry quem se virou de lado, trazendo Hermione com ele para aquela posição. Estreitamente abraçados, deixaram-se ficar assim, gozando a perfeição de um mundo sem arestas, que parará de girar em sua órbita infinita para embalar aqueles dois seres mergulhados em divina harmonia.
Hermione sentiu dentro de si um trêmulo prenuncio do despertar do corpo de Harry. Era apenas um estímulo elétrico que corria em ondas leves e intermitentes em seu interior.
Espreguiçando-se voluptuosamente, ela forçou o corpo para trás, obrigando-o a girar o seu, e assim repousou, deitada de costas sobre ele, seus longos cabelos negros cobrindo o rosto de Harry.
Flexionando o abdome ela sentou-se, mantendo o eixo másculo, preso em si e iniciou um movimento suave, para frente e para trás, o peso de seus quadris garantindo um contato total dos corpos.
A dança tímida foi aos poucos se tornando cadenciada, como se tambores internos marcassem o início daquela verdadeira cavalgada. As duas mãos de Harry seguraram os quadris de Hermione, forçando-os para baixo num frenesi de paixão, ambos pareciam que flutuavam numa estreita balsa sobre um mar encapelado, onde tudo balançava ao vento impetuoso do desejo.
O corpo de Harry curvou-se num arco incontrolável, e ele gemeu alto num som longo que vinha do seu mais remoto íntimo, enquanto sentia-se extravasar para dentro de Hermione, como se sua essência vital fosse sair com a seiva abundante que deixava seu corpo em fluxos contínuos e intermináveis. Enlouquecida de prazer Hermione cavalgava um vulcão em erupção, a lava ardente preenchendo-a totalmente, misturando-se à sua, numa explosão dos sentidos que a carregava para o inimaginável e indizível.
Estendendo-se sobre Harry, ela o abraçou, as lágrimas correndo soltas, incontroláveis, como se os diques internos que continham todas as suas dores, mágoas, medos e frustrações, tivessem sido rompidos pela força daquela paixão desmesurada, daquele momento de união total.
— Você está bem? — ele perguntou, preocupado.
A voz de Harry parecia vir de muito longe, soando sobre vales e pradarias, chegando até Hermione trazida pelo vento. Ela não podia responder.
— Hermione... Eu machuquei você?
— Não — ela respondeu antes de deixar-se flutuar num espaço desconhecido, escuro e quente onde entregou-se à inconsciência.
Harry despertou sentindo o peso de Hermione sobre seu braço entorpecido. Ela dormia profundamente e não acordou, quando ele moveu-se com cuidado para fora da cama. Pisando o macio tapete branco, ele caminhou até o banheiro, onde tomou uma ducha fria, até sentir-se completamente desperto. Enxugando-se numa toalha enorme e macia, ele a envolveu na cintura e voltou ao quarto.
Hermione dormia na posição fetal, enrodilhada no centro da cama. Ele sorriu com ternura e deixou-se ficar, por longo tempo, contemplando aquela mulher maravilhosa, cheia de mistérios, que o sono transformara em menina.
A sensação física de fome assaltou Harry sutilmente. Sua última refeição fora ao meio-dia e já era noite. Uma idéia brotou em sua mente: iria surpreender Hermione com um jantar íntimo
e delicioso. Seria uma forma de dizer a ela o quanto estava feliz.
Sorrindo, ele apagou as luzes indiretas do quarto e dirigiu-se silenciosamente para a cozinha. Ao passar pela sala notou que a pequena terrier dormia profundamente sobre o sofá, certamente exausta das aventuras daquele dia diferente.
Na cozinha, Harry pôs-se a examinar a despensa e a geladeira, assombrando-se com a quantidade e variedade de legumes que ali estavam estocados. Na gaveta de carnes, havia filé de peixe e peito de frango. Entre os enlatados, encontrou cogumelos e alcaparras. Havia também molho de soja num pequeno vidro. O líquido escuro e denso estava intacto no vidro lacrado.
Pensativo, ele verificou entre os cereais, a presença do arroz. As bebidas eram poucas, mas variadas e de ótima qualidade. Havia dois uísques escoceses muito bons, um vinho rosado italiano e uma garrafa de gim. Algumas latas de cerveja repousavam no interior da geladeira, e ele serviu-se de uma antes de pôr mãos à obra.
Harry encontrou no armário sobre a pia, uma faca bem afiada e uma tábua lisa para picar os legumes. Era o que precisava para começar. Pacientemente, lavou os legumes, empilhando-os em ordem sobre a mesa e em pé, ele começou a cortá-los em tiras ou rodelas muito finas, colocando-os separados em pequenas vasilhas de cerâmica.
O conjunto sobre a mesa foi tornando-se complexo e multicolorido. Logo ele quadriculava o peito de frango, colocando os cubinhos numa vasilha funda sobre a qual despejou o suco de algumas laranjas, acrescentando uma pitada de sal e pimenta-do-reino.
Numa grande frigideira de fundo plano, Harry pingou o azeite de oliva e depois acrescentou uma colher de manteiga. Quando a mistura estava bem quente, ele despejou sobre ela a cebola quadriculada e o pimentão vermelho em tiras, mexendo a combinação com uma colher de madeira, em movimentos rápidos e precisos. Era um jogo de paciência e atenção refogar aqueles legumes no ponto exato. O prato que preparava dependia fundamentalmente da textura e sabor dos vegetais assim trabalhados.
Quando Harry entendeu que aquela porção estava pronta, removeu o conteúdo da frigideira, colocando-o numa grande travessa. A ação foi reiniciada. Para cada legume, um tempo e uma atitude, respeitando sua dureza e quantidade de líquido em seu interior.
O tempo passava, e três latas de cerveja vazias já se enfileiravam sobre a pia, quando Harry colocou o arroz no fogo. Fritando rodelas finíssimas de gengibre no azeite, ele as retirou, antes de colocar o arroz. O perfume da raiz invadiu deliciosamente o seu olfato. Era um truque que aprendera no Texas com uma amiga que gostava de cozinhar. Sempre dava certo... Sempre alguém se surpreendia, agradavelmente, com o inesperado sabor residual do gengibre no arroz.
Enquanto o cereal cozinhava em fogo brando, Harry escorreu os cubos de frango e principiou a fritá-los, na manteiga, em pequenas porções, rolando-os na frigideira bem quente, até ficarem dourados por igual.
Quando terminou a fritura, juntou numa grande panela bem quente todos os ingredientes já prontos, inclusive o frango, misturando tudo delicadamente com a colher de pau, enquanto regava a multicolorida mistura com o molho de soja. Depois picou bem fino o cogumelo e a alcaparra, salpicando-os sobre a mistura e tampou a panela, colocando o fogo no mínimo.
O arroz estava pronto, o vinho rosado esfriara na geladeira, e o fogo brando sob a grande panela fora desligado.
Deixando a cozinha, Harry foi até a sala e, procurando numa cristaleira, encontrou o necessário para montar uma bela mesa de jantar. Faltavam os castiçais que ele improvisou, colocando duas grandes velas em vasos de flor, de gargalo fino.
A mesa estava posta, e ele trouxe da cozinha os dois únicos pratos que tanto trabalho e satisfação lhe dera ao prepará-los: arroz e legumes com frango ao molho de soja. O vinho estava mergulhado no gelo, com a rolha removida e recolocada frouxamente no lugar.
Harry contemplou sua obra achando tudo perfeito. Com toda a movimentação que ocorrera na cozinha, Hermione não havia despertado. A cadelinha terrier ainda dormia sobre o sofá.
Acendendo as velas ele desligou a luz da sala e dirigiu-se ao quarto. Era o momento de acordar Hermione.
Na penumbra do quarto, Harry aproximou-se da cama. Para sua surpresa, Hermione estava sentada com as costas apoiadas na cabeceira. Trazia as penas dobradas, envolvidas pelos braços. Sua cabeça repousava nos joelhos, os cabelos longos caindo em cascata.
— Eu não sabia que estava acordada — ele disse suavemente. — Tenho uma surpresa para você.
A imobilidade de Hermione não era natural, ele julgou desconcertado. Teria ela voltado a dormir depois de sentar-se naquela posição?
— Hermione... Você está bem?
Nenhuma resposta.
Com ansiedade contida, ele caminhou até o interruptor e acionou as luzes indiretas. Voltando-se, com o coração opresso por um mau pressentimento, Harry constatou que Hermione estava com os olhos abertos. Ela respirava com dificuldade.
Aproximando-se da cama, ele tentou contato visual, colocando-se na linha daquele olhar estranho. Os olhos castanhos de Hermione estavam velados por uma cortina opaca e vítrea, como se ela estivesse hipnotizada ou sob efeito de um poderoso sedativo.
Ele estendeu a mão para tocar em seus cabelos, mas algo o deteve de executar aquele gesto natural e espontâneo. Algo que lhe dizia que não era Hermione que ali estava. Não a Hermione que ele conhecia e com quem acabara de fazer amor. Era o mesmo corpo, mas a mente havia se ausentado.
Harry tivera um colega de escola que era sonâmbulo e lembrava-se perfeitamente da expressão ausente e vaga que ele assumia em suas crises eventuais. Seria esse o caso de Hermione? Se ela fosse sonâmbula haveria um risco real em acordá-la? Essas perguntas e outras mais levaram Harry a uma decisão cautelosa. Precisava de ajuda. De alguém que conhecesse Hermione muito bem.
— Andréa — ele disse em voz alta, dirigindo-se para a sala.
Na certa a amiga de Hermione teria uma sugestão de como ele deveria lidar com o caso, decidiu.
Perto do telefone se encontrava uma agenda antiga de capa vermelha. Harry encontrou imediatamente o nome da amiga de Hermione e digitou, número que ali constava. O telefone dava o sinal de chamada enquanto ele folheava distraidamente a agenda, notando de passagem os poucos nomes que se alinhavam sob cada letra do abecedário. Hermione era de poucas relações.
O telefone chamava, e ninguém atendia. A ligação caiu.
Olhando novamente o nome de Andréa na agenda, Logan viu na orelha da página, o numero de um celular, escrito às pressas. Nada garantia que fosse o de Andréa, mas mesmo assim ele tentou.
— Oi, Mione — atendeu Andréa, evidentemente detectando o número de quem a chamara, no visor do celular.
— Não é Hermione, Andréa. É Harry
— O stripper?
— O jornalista — ele corrigiu de imediato.
— Que seja. O que você quer... O que está fazendo no apartamento da Mione?
— É uma longa história. Hermione não está bem. Você poderia vir aqui?
— O que aconteceu? — a voz soou alarmada. — Você não fez nada a ela, não é?
— Fique calma — ele disse firme. — Não tire conclusões precipitadas. Hermione acordou sem despertar. Parece que está em transe, e não sei bem como agir.
— Não faça nada — ela comandou já em outro tom. — Estou indo para aí.
— Por favor, não demore — ele disse para ninguém.
Andréa já havia desligado o celular.
Com um suspiro de resignação, ele decidiu que precisava do apoio de alguém de sua
inteira confiança. O desdobramento daquela situação poderia render muita dor de cabeça, e o melhor era se prevenir. Ele discou o número do celular do irmão.
— Alô.
— Kevin... É Harry.
— Olá, mano. O que é que você manda?
— Preciso de você. Agora.
— Estou no meio de uma aula de tênis. É sério assim?
— Pode apostar.
— Então estou indo.
— Tem como anotar um endereço?
— Mande.
Harry deu as indicações precisas a Kevin e acrescentou no final:
— Vou ficar lhe devendo essa.
— Você ainda tem duas de crédito. Use e abuse.
Harry desligou sorrindo, apesar do momento difícil. Ter alguém no mundo com quem se pudesse contar a qualquer momento não era pouco. Principalmente tratando-se do próprio irmão, disse para si mesmo voltando ao quarto.
*************************************************************************************
O que acharam do cap?
Harry e Hermione~são uma coisa de louco né gente?
aiai
Continuem comentando!
;D