Eu não pude fazer nada.
Eu a vi me virar às costas novamente e me abandonar, dessa vez, sem nenhuma razão aparente.
Provavelmente tinha ficado os últimos minutos remoendo todos os nossos erros, ela era tão incapaz de conseguir relevar as coisas e se recordar das que valem a pena quanto sua mãe era incapaz de largar os livros. Eu sabia disso, desde o começo. Eu já deveria esperar que uma noite não seria o suficiente para acorda-la para os próprios erros, eu devia saber, desde o começo, que eu nunca conseguiria reverter a situação tão facilmente.
Mas eu estava cansado, cansado de seus abandonos, de todas as suas loucuras e inseguranças, eu só desejei mentalmente que a festa acabasse rápido e todas as pessoas se dispersassem... Eu não podia esperar para me juntar à Dominique, para podermos deitar debaixo das cobertas quentinhas como em todos os anos, e reclamar de nossas vidas e desamores. Ela sim, era tão fodida em relacionamentos quanto eu.
Ela acenou do sofá negro de couro, com um sorriso torto engraçado e sem jeito, eu sabia que ela estava tão ansiosa por isso quanto eu, foi inevitável que eu chegasse rapidamente ao sofá e me deitasse com a cabeça em seu colo, suas mãos já estavam afagando os meus cabelos.
- Somos dois imbecis. – ela sorriu – Dois incríveis imbecis, eu não acredito que fizemos isso.
- Já fizemos tantas vezes – dei de ombros – Não ia realmente fazer diferença, ainda pareceu que eu estava beijando minha irmã.
- Como se eu estivesse molhando as calcinhas por você Scorpius... – ela falou em um tom cômico – Eu sei que já fizemos, mas não nessas circunstancias. Não porque estávamos bêbados e...
- Ah sim, na maioria das vezes estávamos bêbados – eu interrompi.
- Me deixe terminar! – ela riu – Não quando estávamos bêbados e usamos da bebida para enciumarmos as pessoas que estamos querendo provar alguma coisa.
- Você estava mesmo louca pra provar pra Rosie que ela não podia pegar o seu homem sem que você pegasse o dela não é Nique? Você estava realmentemorrendo para jogar seus dotes de veela achando que eu realmente iria cair neles...
- Oh claro S, eu realmente estava louca para te seduzir e te dar uns amassos, estava curiosa se você tinha conseguido melhorar sua performance nos últimos anos. Como se eu realmente precisasse usar meus dotes veela como você está dizendo para te dar uns amassos, você é facinho facinho. – ela mexeu os cabelos como se estivesse fazendo charme e eu ri.
- Não mude de assunto. Foi por isso não foi? Eu acabei te usando para emputecer ela, e você quis fazer o mesmo. Eu não quero ser o imbecil do Potter se ela descobrir que você e ele estavam juntos da mesma forma que eu e ela estávamos.
- Não ouse contar isso a ela! Não me traia! – ela pediu exasperada.
- Se liga Nique, não é questão de traição, é questão de defesa própria.
- Então ótimo, eu vou usar em minha defesa que você finalmente se declarou e pediu pra ficar com ela porque eu te atormentei, e eu bolei todo o plano. Você se declarando por ela, ela pensando logo no James de cara para esconder o seu pequeno romance, e James aceitando para esconder o nosso. Foi tudo muito bem bolado, mas por uma razão, não era pra foder com ninguém! Era o único jeito de ficarmos juntos, sem problema.
- Se você chama isso de sem problema.
- Não venha desistir agora!
- Não estou desistindo é só que agora que tudo estava começando a se ajeitar eu consigo enxergar os furos. James volta da Romênia, como o combinado, e você sabe, ele é louco por você, mas tem uma quedinha por ela, ele vai procura-la, é inevitável. – eu calculei gesticulando – Ele está fodido, e ele é um filho da puta, ele vai soltar. E vai nos encrencar todos. Grande plano Weasley.
- Você pareceu acha-lo ótimo quando o usou para finalmente largar de ser imbecil e dizer a Rose que você era muito afim de dar uns pegas nela. E se não fosse por ele, vocês sequer teriam dado uns amassos, a Rose é casta demais, eu duvido que ela sequer pôs a mão em outro lugar que não fosse sua bunda. Isso porque, ela querendo ou não, sua bunda é propriedade pública bruxa! – então ela bateu a mão de lado na minha bunda com um sorriso sacana, ela era sacana inteira – Merlin, eu às vezes não acredito que somos primas.
- Ah sim, tão casta... – eu não pude evitar dizer – Nique, eu sinto muito, mas ela é um pouco pior do que você.
- Ah sim, e eu sou a Ministra da Magia. – ela disse descrente – Rose tem vergonha de beijar de língua em público! Quando James disse isso, eu não pude acreditar.
- E a cada minuto que se passa eu tenho mais certeza de que Rose Weasley é pior que todos nós juntos, e acredite, eu estou incluindo o diabinho vermelho nisso.
- Não venha defender só porque sempre foi de quatro por ela.
- Eu creio que é mais ao contrário. – respondi com um sorriso torto.
- Ah claro S, como se minha prima tivesse realmente ficado de quatro pra você. – ela revirou os olhos.
- Não, de quatro, ainda não. Mas já lhe ocorreu a idéia de que ela não beijava o Potter na frente das pessoas porque ela não tinha vontade?
- Estou começando a achar que quem anda ficando inocente com a convivência é você. Rose é uma das minhas melhores amigas, eu a conheço muito bem. – ela defendeu – Eu sei que ela seria incapaz!
- Acho que nenhum de vocês realmente a conhece. Nem mesmo você.
- E você a conhece... ?
- Não venha se sentir ofendida! – resmunguei – Rose não é casta, nunca foi, nunca será.
- Prove.
Eu estiquei um pouco o pescoço para cima, e usando uma das mãos afastei um pouco do cabelo da parte de lado quase atrás do pescoço, em seguida usei a outra mão para levantar a camisa, vendo os olhos de Dominique ir das marcas rajadas de vermelho das unhas e do roxo que eu tinha no pescoço.
- Não, ela não fez isso. Nunca.
- Acredite se quiser, é tudo culpa dela. – eu falei satisfeito.
- Foram amassos bons então... – ela perguntou como quem não quer nada, mas eu a conhecia o suficiente para saber que ela queria saber mais do que isso.
- Melhores do que os seus com James.
- O que você quer dizer com isso? – ela perguntou com desdém.
- Quero dizer, que diferente de você Nique, sua prima não é mais virgem. – respondi com um sorriso vitorioso.
- Eu te disse pra não mencionar isso em voz alta! – ela pediu exasperada – Eu tenho uma reputação a manter!
- Você não é normal, qual é o problema em ser virgem? Se você não quer dar, o problema é seu entende?
- S, não insiste, eu não quero falar disso. Pra todas as outras pessoas não sou mais virgem, até invento quem me comeu, gente pra confirmar não vai faltar. – ela deu de ombros.
- Você não se sentiu ofendida, se sentiu? – perguntei após ver diversos sentimentos percorrerem o rosto dela – Está se sentindo ofendida porque a prima santinha vai a uma festa, se acaba de dançar, beija mais de um garoto na noite, e transa com um? Dominique, não seja ridícula.
- Você não entende! – ela resmungou emburrada me empurrando e eu sentei, agora era a vez da terapia dela.
- Então me diga o que eu não entendo.
- Ela sempre pega o que é meu, eu sei que não intencional, mas é sempre. O James, me tomou meu melhor amigo, e daqui uns dias vai pegar a minha fama de com-visgo-do-diabo-não-se-mexe, você não enteendee!
Mulheres. Eu realmente não as entenderia jamais.
- Porque essa necessidade absurda de ter que ser alguma coisa?
- Victoire é a mais bela, Louis é o mais inteligente, eu tinha que ser alguma coisa!
- E sendo a falsa-sacana você vai achar motivos suficientes para chamar atenção da sua mãe?
- Oui. – ela respondeu em francês, sinal de que estava começando a ficar irritada. - Eu sei que não é culpa dela, e eu a entendo. Eu sei o que ela passa, tio Ron sempre a pressionando para não ficar com você, entende? Desde o primeiro dia de aulas dela! Ela mal sabia o que era um beijo na boca e lá estava tio Ron falando para que ela fosse melhor do que você. Ele estava chamando a atenção dela sem saber! E sua mãe... tia Hermione falta obrigar que ela leia os livros do ano letivo inteiro durante as férias, eu sei que ela não tem uma vida melhor do que a minha. Eu sou esperada de ser perfeita em questão de beleza e conquista, ela tem de ser perfeitamente inteligente e superior.
- Comigo não é muito diferente, eu ouço lições moralistas do meu avô quase todos os dias sobre como ser um Malfoy, o que eu devo fazer, com quem devo andar... E saber que nada disso faz diferença ou influi na minha vida.
- Você realmente estava falando sério sobre o lance da virgindade? – Nique me perguntou inquieta – Me desculpe mudar de assunto, mas... S, você realmente transou com a minha prima?
Eu fui incapaz de conter o sorriso, eu estava bobo por ter finalmente conhecido a diferença de transar com uma pessoa qualquer e transar com alguém por quem você tem sentimentos, e eu ainda estava completamente tomado pelo meu lado romântico meloso.
- Não, na verdade eu fiz amor com ela.
- Ah que gracinha, S Malfoy faz amor, Merlin como você é meloso.
- Não morra de inveja, só porque James não tem coragem de tirar a sua virgindade não venha me culpar porque eu tive coragem de tirar a dela.
- Vamos nos ver amanhã. – ela respondeu, e pude notar a preocupação tomar conta dela – Eu não sei o que fazer.
- Você sempre sabe.
- O que eu vou dizer pra ela? Como eu vou olhar na cara dela Scorpius?
- Da mesma forma como você ainda olha na minha depois de me agarrar para provocar a garota que eu gosto, porque ela pegava o seu namorado pra esconder o dela.
- As vezes eu acho que seria muito mais fácil se fossemos todos ninguéns. Rose Ninguém, Scorpius Ninguém, James Ninguém, Dominique Ninguém, Lilly Ninguém, Hugo Ninguém...
- Eu não concordo, assim seriamos todos da mesma família – eu retruquei arrancando algumas boas risadas dela – Acho que já podemos subir.
- Eu não vou esquentar seus pés. – ela resmungou – Seus pés são gelados como os de um defunto!
- Qual é!
- E eu não vou deitar na cama em que você e Rose se pegaram suados, seu quarto deve estar com um cheiro horrível de sexo e deve ter camisinhas por todos os lados...
Meu rosto ficou branco, meu corpo ficou rígido, minhas mãos gelaram, e o mundo caiu na minha cabeça. Como eu pude ser tão imbecil? Eu já havia sido imbecil o suficiente transando com ela na minha casa, no meu quarto, com chances dos meus pais aparecerem a qualquer momento, eu sabia que não iam se importar com a festa, mas se meu pai me pegasse com uma Weasley na cama, provavelmente me faria uma vasectomia urgente para que eu não fosse capaz de procriar na velocidade que eles faziam, ele parecia achar que as mulheres daquela família engravidavam a cada aliviada. Isso porque ele com certeza chamaria os pais dela, e Ronald Weasley não ia se contentar em me fazer somente uma vasectomia, ele provavelmente iria querer cortar o mal pela raiz. E o pior, eu podia estar realmente correndo o risco de ter procriado um bebê da cabeça vermelha. Eu sabia que Rose não tinha a cabeça vermelha, mas algumas coisas vem com sangue, e um Weasley é sempre um Weasley certo? Toda a minha confusão deve ter ficado transparente em mim porque Dominique ria alto, gargalhava, já estava inclusive sentada no sofá com as mãos na barriga à pressionando porque não conseguia parar de rir da minha cara.
- Eu posso ser titia?
- Nem brinque com isso!
- Scorpius, seu pai vem te dando camisinhas desde que você descobriu que podia ter uma ereção, você não pode ter usado todas elas! – ela ria, e estava certa, eu tinha tantas espalhadas por tantos cantos, como eu pude me esquecer?
- Eu não sei, eu não sei...
- Ela deve estar aos prantos, agora deve ter lhe caído a ficha também. Se ela engravidar de um Malfoy, tio Ron enfarta!
- Se eu engravidar uma Weasley meu vô com certeza nos mata a todos.
- Seu vô está gagá! – ela riu – Mas o velho Lucius ainda consegue manejar bem uma varinha.
- Merda.
- Pensei que gostasse da Rose-gostosa-Weasley.
- Eu gosto, eu só não pretendia ter um bebê dela.
- Como eu estou com muita peninha de você eu vou aceitar você na minha cama para esquentar os pés de defunto, desde que você faça um chocolate quente.
- Nique eu não tenho cabeça nem pra dormir.
- Vai tagarelar na minha cabeça com essa sua voz rouca de travesti a noite toda?
- Eu estou com um problema!
- Você é tão mulherzinha S, as vezes eu acho que você nasceu hermafrodita.
- Não brinque, eu não estou no humor.
- Eu estou! Não se pode chorar o Felix Felicis derramado! – ela deu de ombros.
- Vai esquentar os meus pés? – perguntei de mal humor a abraçando assim que ficamos de pé.
- Posso te ensinar a trocar fraldas, eu costumava ajudar mamãe, tia Gabrielle...
- Pode parar de falar de bebês? Eu agradeceria.
- Agora você vai pagar por ter zoado minha virgindade! – ela ria batendo em minha cabeça.
- Eu não sei qual é o seu problema, James Potter deve ser um brocha, você é linda, qualquer um adoraria tirar a sua virgindade.
- Você só pensa em sexo ou é impressão minha? Isso foi uma cantada?
- Não seja absurda, estou tentando levantar a sua moral e é isso que eu ganho em troca mini-pufe?
- Eu não sou um mini-pufe, seu diabrete horrível! Cale a boca e vá morder a bunda das pessoas por ai.
- Não, eu não quero calar a boca e nem morder a bunda de ninguém, quero entender porque James nunca quis... você sabe...
- E você pergunta isso pra mim?
- Você já pensou em alguma coisa? Tipo, se vestir de alguma coisa.
- Seu pervertido.
- Sério, pode dar certo... Se vista de fada mordente, com aquela calcinha frio dental.
- Eu morreria de vergonha! – ela ficou com o rosto completamente corado – Eu não vou me vestir de nada para atiçá-lo.
- Então use seus próprios dotes.
- Não quero que ele fique comigo só porque sou meia-veela. Ei, onde você anda vendo fantasias de fadas mordentes?
- Em sexshoppings?
- Scorpius! Você por acaso também coleciona revistas de bruxas peladas?
- E se eu colecionar?
- Você é tão carente...
- James andou pegando algumas comigo, ele estava realmente curioso para ver Amèlie Wood. A filha daquele ex-capitão famoso, o Oliver.
- Não vi graça nenhuma, e por isso você vai passar a noite remoendo seus espermas que estão no lugar errado, e com os pés gelados de brinde!
Então ela entrou pro seu quarto e bateu a porta.
- Ainda está na minha casa!
- Tia Ast deixa esse quarto pra mim desde que vim passar as férias aqui pela primeira vez!
- Quando eu pus um sapo debaixo do seu travesseiro?
- E quando eu te vesti de mulher por isso, tenha uma péssima noite Scorpius, sonhe com bebês chorando.
- Eu não estou achando engraçado.
- Mas eu estou – ela respondia do outro lado da porta.
- Sonhe que está finalmente perdendo a virgindade, sua virgem, que James finalmente criou coragem. – ela abriu uma frestinha da porta.
- Porque você adora por o James no meio das nossas brigas?
- Porque você adora por a Rose no meio delas também?
- Isso tudo é amor não correspondido pela minha pessoa? – ela afastou um pouco mais a porta para trás e me dando passagem.
- Com certeza, porque eu não quis namorar com você no segundo ano, sabe como é. – respondi já me sentando na cama dela, tirando a camisa e as meias.
- Não vai dormir com aqueles shortinhos ridículos essa noite vai?
- Desde que você não durma com aquele pijama cantante...
- Ele era lindo! E foi sua mãe quem me deu de aniversário!
- E cantava uma melodia tão irritante na minha orelha...
- Ninguém te manda dormir comigo.
- Eu só quero esquentar os meus pés.
- Vou te dar meias mágicas no seu próximo aniversário, meias que esquentam os pés. Assim você vai parar de invadir o meu quarto.
- Eu sei que você adora dormir comigo. – respondi me enfiando debaixo das cobertas salmão – Que você adora achar que finalmente não está dormindo sozinha.
- Como se dormir com você fosse o meu auge. É ainda mais ridículo do que quando durmo com Louis. – ela retrucou também se deitando debaixo das cobertas.
Eu coloquei meus pés compridos embaixo das pernas dela, nós dois estávamos deitados de barriga pra cima, ela fechou os olhos em poucos segundos, estava tão cansada que provavelmente teria dormindo enquanto falava se tivesse tentado se manter acordada. Eu passei a noite em claro, imaginando o que poderia acontecer, eu estava amedrontado, eu não queria perder minha diversão. Eu não queria outra responsabilidade nas minhas costas, já era um fardo grande o suficiente ter de carregar o nome Malfoy. Por alguns momentos eu me arrependi de gostar tanto dela e ter me deixado levar assim tão facilmente, em outros, eu tive mais pena dela do que de mim, e quando o dia clareou eu já estava imaginando como seria o bebê, se teria os meus cabelos e os seus olhos.
E qual sobrenome colocaríamos nele.