Rony sentia um bolo no estômago. Um bolo que insistia em subir e descer continuamente. Olhava seu reflexo no espelho e se sentia estranho. Nas poucas vezes em que se imaginou casando achava que se sentiria ótimo. Nervoso sim, mas ótimo. Não era o que acontecia naquele momento. Com suas vestes pretas, as mesmas que usou no casamento do irmão, ele pensava se aquilo era mesmo correto. Ao mesmo tempo sentia que não havia mais como escapar. Toda sua família acreditava que o filho que Hermione esperava era mesmo seu, se desistisse agora todos o achariam um canalha, e definitivamente não passava por sua cabeça jogar a culpa na amiga.
_E aí, cara? – Rony ouviu batidas na porta seguidas da voz de Harry. - Sempre me disseram que quem demora para se arrumar é a noiva! – falou sorridente aproximando-se do amigo. Parou ao lado dele e admirando seus reflexos no espelho continuou: - É estranho, cara! Você e a Hermione se casando... É legal, mas estranho. Principalmente por ela estar grávida! Justo ela que sempre foi tão responsável... Se fosse com a Gina, tudo bem... Mas a Mione?
_Não se empolgue, Potter! – Rony olhou o amigo fazendo cara de bravo. – A minha irmã ainda é muito nova, e você nem é formado!
_Olha quem fala! – Harry brincou. – Foi tão de repente. Ainda não entendi por que eu não fiquei sabendo disso antes, quer dizer, eu achei que vocês me contariam quando acontecesse, sabe? Vocês namorando! Eu já desconfiava de alguma coisa, mas já tinha perdido as esperanças.
Rony se concentrou nos últimos ajustes do seu traje e sem olhar para o amigo explicou: - Você tinha coisas mais importantes com que se preocupar e... Foi uma vez só, sabe? – se sentiu mal em mentir para o melhor amigo, mas não tinha outra solução. – Nós não estávamos namorando exatamente...
Em outro cômodo, enquanto uma multidão de mulheres acertava os últimos detalhes da maquiagem de Hermione, ela focalizava o nada. Estava completamente alheia a tudo. A mente vazia, os movimentos mecânicos e um aperto no coração. Sentia vontade de mandar todas elas embora e sair correndo, gritando, sumir no mundo, mas nada adiantaria. Então permaneceu quieta enquanto a arrumavam. Começou a pensar em Rony...
_Eu quero ver o Rony. – falou sem emoção.
_Você não pode, querida! Vai dar azar ele te ver assim... – a Sra Weasley, muito mais animada, falou carinhosamente para a futura nora.
_Eu quero vê-lo! Agora!
A mulher se assustou. Era a primeira vez que Hermione era mal-educada com ela.
_Mãe... A Hermione está grávida! Esse casamento não depende mais de sorte ou azar... Vai acontecer de qualquer jeito. – Gina falou tentando contornar a situação. – Eu vou chamá-lo, Mione.
_Eu ainda não acho bom, querida... – Gina fez uma cara feia para a mãe que se conformou. Aos poucos o cômodo ficou vazio.
Hermione sentou-se cuidadosamente em um banquinho. Não sabia porque tinha tanto cuidado com o vestido, nem por que estava se preocupando em não chorar para não borrar a maquiagem. A porta se abriu e Rony entrou acanhado. A viu vestida de noiva e a achou linda, mais linda ainda. Sentiu-se contente por um instante, só até perceber que os olhos dela brilhavam e não era de felicidade. Ele jamais vira noiva tão triste. Aproximou-se cuidadoso.
_Você queria falar comigo, Mione?
Ela o olhou preocupada. Levantou-se e segurou as mãos dele: -Ainda há tempo de desistir, Rony. Você não precisa fazer isso se não quiser...
Ele pensou a respeito, podia ser sua chance de voltar atrás e se livrar daquela responsabilidade. Podia tentar ajudá-la de outra maneira. – Não dá, Hermione. Estão todos prontos, empolgados para o nosso casamento. Minha mãe está super contente com a chegada de outro neto. Eu não quero decepcioná-la.
_Nós não vamos ser felizes, Rony! Eu não vou conseguir te fazer feliz, retribuir tudo que você está fazendo por mim. Eu...
Rony a interrompeu: - Eu não estou te cobrando nada... – ele limpou uma lágrima que escapava dos olhos dela. – Um dia isso vai passar, você só precisa de um tempo, e eu estou disposto a esperar... O tempo que for... Eu desperdicei tempo demais com minha teimosia. Vou pelo menos tentar agora.
A Toca estava toda enfeitada. Todo casamento foi aprontado em um mês. Embora todos soubessem da gravidez, o pai de Hermione não queria que ela se casasse quando a barriga já estivesse aparecendo. A maior parte dos objetos mágicos da casa haviam sido guardados para receber os convidados dos Granger. A cerimônia foi simples e rápida. De vez em quando Hermione tentava sorrir, mas não conseguia fazê-lo por muito tempo. Rony também estava tenso. Os convidados achavam que era apenas nervosismo.
Tudo ficou mais complicado durante a festa. Hermione permanecia em um canto afastado, sentada enquanto Rony era cumprimentado ou conversava com alguém. Quando vinham cumprimentá-la ela colocava um sorriso falso no rosto e era educada, depois o sorriso sumia e ela voltava a apoiar desanimada o rosto em uma das mãos enquanto com a outra brincava tristemente com a ponta da toalha. Rony veio fazer-lhe companhia, sentou a seu lado e ia tentar animá-la quando alguém se aproximou:
_Eu ainda não tive tempo de cumprimentá-los! – Simas, acompanhado de uma mocinha da Ordem, e um pouco bêbado falou: - Estou contente por vocês! Sempre achei que combinavam! – ele se sentou com alguma dificuldade. Enquanto sua acompanhante cumprimentava uma Hermione completamente desanimada ele comentou: - Já souberam que os julgamentos terminaram?
_Que julgamentos?! – Rony perguntou, cumprimentou a moça e se sentou novamente prestando atenção ao amigo.
_Dos comensais, ora! – Simas falou alto voltando depois ao tom normal. – Soube que foi confirmado que o desgraçado do Malfoy estava nos traindo! Filho da ...
_Simas! – a mocinha ralhou. – Não é hora de falar dessas coisas! Vamos deixar os dois em paz, vou te levar para casa porque você bebeu demais! – ela puxou Simas que saiu com um olhar malicioso depois do comentário da moça.
Rony olhou preocupado para Hermione.
_Eu queria ir embora... Não agüento mais todos eles... – ela falou.
_Você poderia tentar disfarçar melhor, Hermione. Estão todos achando estranho. Noivas geralmente estão felizes no dia do casamento. Eu não tenho mais de onde tirar desculpas para todos. – ele falou chateado.
_Desculpe, mas eu falei que não ia dar certo... Eu quero ir embora...
_Eu vou dizer aos nossos pais que você não está se sentindo bem por causa do bebê e então nós vamos embora...
_Obrigada...
Rony se levantou e em pouco tempo eles estavam deixando a Toca. Eles aparataram em sua nova casa. Uma casa de três quartos num bairro trouxa. O pai de Hermione havia feito o investimento há algum tempo já pensando que poderia dá-la a filha um dia quando ela se casasse.
Com um fraco “Boa noite” Hermione foi para seu quarto. Sem responder Rony desabou triste sobre o sofá da sala. Estava sem sono. Resolveu fuçar um pouco na TV. Tirou de qualquer maneira o casaco jogando-o no chão a seu lado. Deitou no sofá e ficou trocando distraidamente de canal. Pegou no sono ali mesmo.
Alguns dias se passaram e Rony imaginou que o humor de Hermione melhoraria, mas ao contrário só piorou. Principalmente depois que a barriga começou a aparecer. Ele achou que então seu ânimo se renovaria quando visse a carta de Hogwarts convidando-os a terminar os estudos, mas ela nem ligou. Disse que não iria voltar para Hogwarts com uma barriga enorme e que também não se sentiria bem convivendo com alunos da Sonserina. A tudo Rony aceitou com paciência.
Harry, Rony e Gina agora eram da mesma turma. Todos lamentaram e se surpreenderam com a desistência de Hermione. Rony tinha permissão para dormir em casa todos os dias se quisesse. Ele sempre voltava preocupado em deixá-la sozinha por muito tempo. Mesmo que recebesse apenas respostas evasivas ele tentava animá-la a todo custo, sem sucesso. Sempre trazia para ela livros diferentes da biblioteca, fazia seus deveres perto dela e às vezes fingia que não conseguia resolver algum, mas ela não se interessava. Aos poucos foi desistindo e os dois começaram a se afastar mais ainda. Não dormiam no mesmo quarto, esse fora um acordo dos dois antes de casarem, e quase não comiam juntos, já que Hermione começara a ficar cada vez mais trancada em seu dormitório quando suas roupas pararam de servir.
Preocupado Rony foi até a medi-bruxa que cuidava dela. Precisava de ajuda, não agüentava mais carregar aquele fardo sozinho. Não contou toda verdade, mas pediu ajuda. A mulher disse que era normal algumas moças ficarem depressivas durante a gravidez e que Rony deveria ter muita paciência e ser muito presente. Disse também que aquilo ia acabar passando. Aquela conversa o deixara esperançoso, mas não por muito tempo.
Rony voltou ao time da Grifinória e mesmo quando chegava em casa muito tarde por causa dos treinos era obrigado a preparar a própria comida e comer sozinho, assistindo TV. Com o tempo nem quando voltava mais cedo ele tinha o que comer, já que Hermione passara a viver de lanches que pedia na padaria próxima. Rony começou a jantar em Hogwarts nos dias de treino, depois passou a jantar lá todos os dias, voltava apenas para dormir, em pouco tempo ele já estava dormindo em Hogwarts em dias de treino. Alguns achavam estranho, mas ele dizia que a idéia fora dela mesma, que se preocupava com ele chegando cansado e tão tarde.
Depois de muito tempo aquele fora o primeiro dia que Hermione saiu do quarto para algo além de ligar para a padaria, usar o banheiro ou tomar banho. Ela saiu bem cedo, logo que Rony aparatou para Hogsmead, e seguiu para a Travessa do Tranco. Voltou antes do almoço e resolveu comer algo diferente também. Sentia-se mais animada, até com o humor melhor. Era chegada a hora de dar um jeito naquela situação.
No dia seguinte, um tempo depois de Rony ter saído, ela se levantou. Foi até o sótão, pegou a sacola que havia trazido no dia anterior e foi ate a cozinha. Pegou um caldeirão pequeno e o colocou no fogão. Em cima da mesa, ao lado de um livro de poções, estavam as ervas que fariam parte da receita. Ela começou a cortá-las e picá-las. Misturou tudo no caldeirão e esperou que a poção ficasse pronta. Já era quase hora da janta quando a poção adquirira a temperatura certa. Ela pegou um pouco numa xícara e levou a boca. A xícara já tocava seus lábios quando ela sentiu o bebê chutar. Era a primeira vez que ele fazia aquilo, ou então a primeira vez que ela notara. Ela se assustou e então se lembrou das palavras da velha a meses atrás, quando ela havia ido lá pela primeira vez. Seu coração disparou imaginando que poderia se matar fazendo aquilo. Ponderou a idéia, mas depois admitiu que não teria coragem. Com raiva jogou a xícara na parede. Jogou a poção na pia e o que sobrara das ervas no lixo. Sentou no chão inconformada com sua covardia e com sua situação. O bebê se mexeu novamente e sua raiva aumentou. Levantou-se para verificar se ainda sobrara um pouco da poção, mas já não havia mais. Olhou o relógio pensando em sair para comprar outros ingredientes, mas já era quase hora de Rony voltar. Achou melhor deixar para o dia seguinte. Pela primeira vez em meses usou sua varinha e limpou toda sujeira que fizera. Subiu para seu quarto e tomou um banho demorado. Olhando-se no espelho espantara-se e revoltara-se com o tamanho de sua barriga. Inconformada colocou o pijama e se deitou.
Rony chegou em casa e viu a luz da cozinha acesa. Imaginou feliz que Hermione havia resolvido sair do quarto e quem sabe fazer algo para comer. Quando chegou lá tudo que viu foi a cozinha vazia, mas havia um cheiro diferente no ar. Ele procurou o que era, mas havia apenas panelas sujas. Olhou a geladeira e também não havia nada de novo. Então notou aquelas folhas no lixo. Pegou o talo de uma delas e se lembrou de tê-las visto em algum lugar. Correu para o quarto de Hermione com o coração aos saltos. Abriu vagarosamente a porta e a viu deitada de lado. Aproximou-se silenciosamente e notou que ela apenas dormia. Suspirou aliviado, mas resolveu procurar mais alguma pista de que ela não havia mesmo tomado a poção. Percebeu um restinho dela perto do ralo. Abriu a torneira para se livrar daquele vestígio e notou que a pia estava entupida.
_ Ótimo... - pensou. - Além de tudo entupiu a pia com a poção! - foi para o quarto inconformado.
No dia seguinte, preocupado, resolveu verificar se estava tudo bem com ela. Bateu na porta, mas não recebeu resposta. Abriu-a e a viu sentada na cama olhando para o nada. Achou que ela estava realmente parecendo a Luna. Olhando-a melhor notou que ela estava meio amarelada, certamente desnutrida, já que só comia besteiras. Ele até trazia comida ou alguma sobremesa de Hogwarts, mas ela não comia. A visão era triste. Ele não imaginava que um dia Hermione pudesse ficar naquele estado.
_Eu estou bem! Não se preocupe.
Rony se assustou com ela falando de repente, mas se aproximou. Decidiu que não falaria sobre a poção: - Minha mãe nos convidou para almoçar lá hoje... O que você acha?
_Eu não quero ir. Vá você...
_Mas, Hermione! Você nunca vai quando ela convida. Não vai nem na casa dos seus pais, me pede para arranjar uma desculpa quando eles pretendem nos visitar! Eu não tenho tanta imaginação! Eles estão realmente preocupados e eu não agüento mais inventar coisas!
_EU NÃO PEDI PARA VOCÊ PASSAR POR ISSO! A IDÉIA FOI SUA! MAIS UMA DAS SUAS IDÉIAS ESTÚPIDAS, RONALD! – ela se levantou da cama e seguiu para o banheiro batendo os pés.
Rony, vermelho de raiva, contou até dez para se controlar. Depois foi até o espelho sobre a penteadeira e o enfeitiçou. Então foi atrás dela: - VOCÊ TEM QUE MELHORAR, HERMIONE! ATÉ QUANDO VOCÊ VAI FICAR NESSA DEPRESSÃO?! SE VOCÊ NÃO LIGA PARA MIM, OU PARA VOCÊ MESMA PENSE NO SEU FILHO! ELE NÃO PEDIU PARA SER FEITO!
_EU QUERO QUE SE EXPLODA! EU QUERO QUE O MUNDO SE EXPLODA E LEVE ESSE BEBÊ! – falou saindo bruscamente do banheiro e passando diretamente por ele. - FOI ISSO QUE EU TENTEI FAZER ONTEM, MAS NÃO FIZ! DE NOVO!
_AINDA BEM, NÃO É?! SINAL DE QUE VOCÊ AINDA MANTÉM UM POUCO DA INTELIGÊNCIA QUE SEMPRE TEVE E QUE TE MANTEVE VIVA ATE AGORA! – ele a segurou pelo braço fazendo-a encará-lo. – Reage, Hermione! Você sempre foi tão corajosa, inteligente! Agora não é um décimo da Hermione que eu conheci e por quem me apaixonei!
_Eu avisei que não seríamos felizes, Rony! – ela se soltou. - Vá para casa da sua mãe. Não precisa voltar se não quiser... – e voltou para seu quarto batendo a porta para sinalizar que não queria ser incomodada.
Rony foi almoçar com sua mãe, mas voltou a noite. Foi ao quarto de Hermione e este estava trancado. Achou melhor não incomodar. Foi ao seu quarto e tirou do bolso um espelhinho que estava ligado magicamente ao espelho do quarto dela. Era assim que ele poderia ter certeza de que ela não estava tentando nenhuma besteira. Por meio do espelho ele também podia admirá-la de vez em quando, mas não o fazia por muito tempo porque a imagem de sua amiga de infância, a mulher que ele ainda amava, definhando com o tempo o deixava triste. Ele andou com aquele espelho no bolso todos os dias. Durante a noite ele o deixava em seu criado-mudo, ao lado de sua cama. Se algo estivesse errado o espelho emitiria um som alto que mesmo Rony, com seu sono pesado, ouviria.
Com o tempo Hermione pareceu desistir da idéia de tirar o bebê e Rony havia até se esquecido do espelho. Por vezes, quando acordava atrasado, saía e o esquecia em cima do criado-mudo. Naquela noite, pela primeira vez ele ouviu o som do objeto. A princípio não conseguiu identificar o que era. Estava naquele estado em que não se sabe se está sonhando ou acordado. Só teve certeza de que algo estava errado quando ouviu seu nome.
_Rony!!! Rony!!!
Ele levantou meio tonto de sono. Correu para o quarto ao lado do seu e se deparou com Hermione numa posição estranha. Meio curvada ela parecia fazer um esforço enorme. – O que foi, Mione?!
_Rony! Eu acho que vai nascer!
_O QUÊ?! – gritou apavorado.
_Rony! Socorro! – ela se contorcia de dor.
_O que é que eu faço?! Eu não sei o que eu tenho que fazer! Me diz o que eu tenho que fazer! – ele se ajoelhou na cama fazendo-a se balançar.
Hermione olhou furiosa para ele. Com a voz entrecortada por causa da dor ela falou: - Manda aquela sua coruja idiota avisar a medi-bruxa! Eu preciso de uma chave de portal para ir ao hospital, Ronald!
Meio aparvalhado por causa da dor que Hermione parecia sentir ele permaneceu imóvel olhando-a apertar os lençóis como se estes pudessem ajudá-la.
_AGORA, RONY! OU VOCÊ VAI FAZER O PARTO?!
_Já to indo! – ele saiu correndo atrás da coruja. Ela não estava em casa. Tinha saído para caçar. Ficou desesperado e pensou em voltar para perguntar o que fazer. Chegou a porta do quarto e desistiu. Correu para a sala e ligou para a casa de Harry.
Do outro lado da linha o amigo, meio mau-humorado, o atendeu. Em poucos minutos Gina, Harry, Rony e Hermione seguiam para o Saint Mungus numa chave de portal hospitalar.
Rony não teve coragem de entrar com Hermione, nem ela quis. Achou que aquilo já seria muito difícil sem correr o risco de mais alguém precisando de socorro, mas ele ficou com ela até a medi-bruxa dizer que era hora. Rony ainda acenou de longe, preocupado. A idéia de que agora as coisas poderiam ficar piores ainda o perturbava. Ele seguiu para a sala de espera onde Harry e Gina o aguardavam. Sentou-se em uma das poltroninhas, mas levantou-se logo em seguida. Ficava andando de um lado para o outro, sentava de novo para em seguida se levantar. Harry e Gina começavam a ficar impacientes também, mas decidiram não falar nada. Ao fim de alguns minutos apenas Gina mantinha-se sentada folheando uma revista de bruxos famosos. Os que passavam do lado de fora achariam difícil identificar quem era o pai, ou quantas mulheres estavam em trabalho de parto.
Na sala de parto o tempo parecia passar mais rápido. Hermione sentia-se dividir ao meio de tanta dor. Tudo o que ela pensava era em se livrar logo daquele martírio, voltar para casa e dormir, esquecer tudo e acordar com a certeza de que fora apenas um pesadelo. A medi-bruxa falava com ela, mas ela não estava interessada. Fazia o que ela mandava apenas para acabar mais rápido com aquilo.
_Faça força Hermione! Eu estou quase vendo... Mais força, faça mais força...
Hermione sentia suas forças se esvaindo. As vozes pareciam ficar cada vez mais distantes. De olhos fechados ela tentava se concentrar em juntar o resto de sua energia. Quando achou que não agüentaria mais ouviu um choro de criança.
_É um menino, Hermione! É um belo garoto! – a medi-bruxa dizia empolgada.
Hermione não teve coragem de abrir os olhos. Quando percebeu que estava acabado deixou-se desabar na maca. Não pensava em nada, não sentia nada, apenas alívio por aquela dor ter acabado. A medi-bruxa se aproximou sorridente com o bebê no colo. Hermione percebeu sua aproximação, principalmente quando notou que o choro estava mais forte. Ela tinha certeza que a medi-bruxa esperava que ela pegasse seu filho nos braços, como qualquer mãe emocionada faria.
_Veja Hermione! Seu filho! – ela falou muito perto.
Hermione sentiu uma das pequenas mãozinhas tocar-lhe agitada um dos braços. Cobriu o rosto em recusa e começou a chorar. A medi-bruxa se afastou um pouco e fez sinal para que as curandeiras saíssem.
_Vamos, Hermione... – falou paciente. – É o seu bebê... Olhe para ele! Veja como é lindo, saudável!
Ela balançava a cabeça negativamente e chorava compulsivamente. Tentava pedir para a mulher se afastar mas não conseguia falar.
_Hermione, é só um bebê! Ele não tem culpa de nada que tenha acontecido na sua vida! Ele acabou de chegar, e precisa de você! Não faça isso com ele! Pegue-o no colo! Conheça o seu filho! – ela o aproximou da mãe. Como que reconhecendo-a ele se acalmou um pouco, assim como Hermione também.
Ela parou de chorar e respirou fundo. Lentamente foi tirando as mãos do rosto, mas permanecia de olhos fechados. A medi-bruxa colocou o bebê em contato com sua pele e ela o segurou meio desajeitada. Sentiu o bebê se mexer desconfortável em seu colo e então abriu os olhos. Uma sensação como se alguém esmagasse seu coração com a mão e um desconforto na garganta a tomaram. Mal podia acreditar. Encarou aquele bebê tão frágil, completamente indefeso e dependente e voltou a chorar, não de tristeza, mas de remorso. De repente ela se lembrou de tudo de ruim que havia pensado e desejado para aquela criança. Lembrou-se das vezes em que tentou matá-lo e o arrependimento a invadiu por completo. Ela aconchegou mais o bebê em seus braços e passou uma das mãos em seu rostinho frágil. Não conseguia acreditar que esteve punindo aquela criança pela culpa de alguém que ela nem conhecia.
A medi-bruxa também estava emocionada. Colocou uma das mãos na cabeça de Hermione e a acariciou maternalmente. Sentia o coração apertado por ter que separar os dois, mas ela precisava fazê-lo. – Hermione, querida. Agora eu preciso levá-lo para fazer os testes, limpá-lo, pesá-lo, você sabe, não?
A mãe a olhou amedrontada, mas sabia exatamente quais seriam os procedimentos, já os havia lido algum dia. Muito cuidadosamente ela entregou o bebê a medi-bruxa.
_Em instantes alguém vai levá-lo para a primeira amamentação. Seu marido deve estar aguardando impaciente na sala de espera. – e saiu sorridente com o bebê.
Só então ela se lembrou de Rony. Sua vergonha aumentou mais ainda. O que diria a ele? Como pediria desculpas por tudo? Nunca fora fácil para ela pedir desculpas a ele, não seria fácil agora também.
Ela já estava em seu quarto esperando pelo bebê enquanto tomava uma sopinha reforçada. Ouviu batidas fracas em sua porta e previu que fosse Rony. Estava certa. Ele colocou o rosto dentro do quarto para saber se podia entrar. Hermione sentiu o rosto queimar quando o viu, não sabia o que fazer, então sorriu discretamente. Ele tomou coragem para se aproximar.
_Como você está? – perguntou sem jeito.
_Bem... – ela sorriu constrangida.
_Gina e Harry me mandaram entrar primeiro. Eles foram avisar nossos pais.
_Que bom... – ela falou sem saber como se comportar.
Logo outra batida foi ouvida. Uma mocinha de cabelos rastafari entrou no quarto com o pequeno embrulho azul nos braços. Rony deu passagem a mulher e ficou observando a reação de Hermione. Ela o pegou nos braços e sorriu, Rony quase caiu para trás. Estava completamente confuso.
_Você precisa de alguma ajuda? Sabe o que fazer? – a moça perguntou delicada retirando o prato de Hermione.
_Sim, obrigada. Se eu precisar de alguma coisa te chamo. – falou animada.
_Ok! Com licença.
A moça saiu e os deixou sozinhos. Rony se aproximou novamente para ver o bebê. Era a primeira vez que ele via um recém nascido ainda no hospital. Sorriu achando graça no tamanho das mãos da criança. Hermione sorrindo olhou para ele e seus olhos se encontraram. Não foram precisas palavras. Ele sorriu-lhe de volta e estendeu uma das mãos para tocar os dedos minúsculos do menino. Voltando sua atenção ao filho Hermione começou a se ajeitar para amamentá-lo. Rony percebeu o que ela ia fazer e sentiu-se ruborizar. Afastou-se da cama fingindo se servir de um copo de água e se sentou numa poltrona sem visão. De vez em quando a olhava e se deliciava com o sorriso amoroso e arrependido que ela dispensava ao filho e que ele não via há tanto tempo.
Os dois voltaram à realidade quando ouviram batidas na porta. Rony a olhou confuso e ela fez sinal para que ele atendesse. Harry e Gina esperavam ansiosos para conhecer o novo sobrinho. Hermione terminara de alimentá-lo quando os dois se aproximaram da cama sorridentes.
Empurrando o irmão Gina falou: - Deixe-me conhecer meu sobrinho querido! – com a voz fina começou a conversar com o pequeno que nem ao menos olhava para ela, na verdade já estava de olhos fechados querendo dormir. Rony e Harry faziam caretas tirando sarro da moça. – Ai! Ele é tão lindo!
Harry se aproximou para entregar flores para a amiga. Sorriu quando viu o bebê abrir a boca com sono. – Não babe desse jeito em cima dele, Gina! Você vai ter tempo de fazer isso.
Ela ia responder malcriadamente, mas Hermione a interrompeu: - Vocês avisaram meus pais?!
_Avisamos sim! Eles já devem estar a caminho. Os meus também. – ela ainda apreciava o sobrinho.
_Ai, obrigada! Se não fosse por vocês! Rony entrou em pânico... – ele ficou vermelho. - ... mas a culpa foi minha... – falou ficando sem graça também.
_Não foi nada... – Harry falou.
_É verdade! Desculpe acordar você, cara... Aliás! – ele pareceu notar a irmã só então. - O que é que você está fazendo aqui, Ginevra?!
_Ficou maluco?! Eu vim te socorrer, esqueceu?! – Gina se surpreendeu.
_E onde é que você estava? Como soube que eu liguei para o Harry? – ele perguntou ficando vermelho de novo.
_Rony, olha... – Harry tentou, mas desistiu quando viu a cara do amigo.
_Não começa, Ronald! – Gina brigou. A discussão só não se estendeu porque mais batidas foram ouvidas e dois casais adentraram o quarto.
_Oh, querida! Como é que você está se sentindo? – a mãe de Hermione avançou para ela parando para admirar o neto.
_Deixe-me conhecer meu netinho! – a sra Weasley passou depressa bagunçando os cabelos de Rony com o que seria um beijo de parabéns. Em seguida cercou a cama da nora.
Os avôs, mais contidos, cumprimentaram a todos e calmamente se posicionaram a fim de conhecer o bebê.
_Ele é a sua cara, filho! – o pai comentou deixando o casal encabulado.
_Não acho! – o pai de Hermione falou. – Acho que se parece com minha filha!
_Acho que não parece com nenhum dos dois! – Harry afirmou. Hermione o olhou assustada. – Com um dia o bebê não se parece com ninguém! Ainda tem cara de joelho!
_Harry! – Gina ralhou.
Hermione e Rony riram aliviados.
_Mas é verdade! – Harry se defendeu.
_Teremos tempo para descobrir com quem ele se parece! Por enquanto queria saber como devemos chamá-lo? – a sra Granger perguntou.
Hermione olhou para Rony buscando ajuda. Tinha se esquecido completamente de que o bebê precisaria de um nome: - Ainda não pensamos nisso... – ele falou.
_Por que não colocam Jorge?! – a sra Weasley opinou.
Hermione não gostou da idéia, mas não sabia como falar. Gina a ajudou: - Mamãe, você queria que o filho do Gui se chamasse Jorge também... Tem que se conformar... ele não volta mais...
_Por que não coloca o nome do avô, então? – ela perguntou ao filho parecendo se emocionar.
Rony olhou para Hermione procurando aprovação, Arthur não seria um mau nome.
_Eu... eu acho melhor não... – ela falou sentindo-se mal com a situação.
_Ponham o meu nome então! – o pai dela falou. – Afinal é o meu primeiro neto! – e olhou provocador para o sogro da filha.
_Eu não queria colocar o nome de nenhum parente, ok? – ela falou perdendo a paciência.
_Que nome então? – Harry perguntou.
Ela parou para pensar, mas nenhum nome a agradava. Sempre havia pensado em nomes para meninas e mesmo assim imaginava que só os precisaria escolher dali a alguns anos. Então teve uma idéia. Talvez fosse uma forma de começar a se desculpar: - Talvez Rony pudesse escolher!
Ele se assustou com a fala dela. Ela sorriu para ele e ele se atrapalhou mais ainda: - Um.. um nome? Não sei... Eu sempre gostei de... Denis. – a olhou inseguro.
_Hum... Denis? Denis Weasley! – o avô pronunciou.
_Denis Granger Weasley! – o outro complementou.
_Eu gostei! – Hermione falou.
Ainda no hospital Harry e Gina receberam o convite para serem os padrinhos. Hermione ficou um pouco insegura, mas com palavras carinhosas e encorajadoras Rony a convenceu.
Não demorou muito para que os três pudessem voltar para casa. Eles estavam completamente exaustos. Nunca é possível descansar o quanto se precisa em um hospital. Hermione entrou primeiro carregando Denis. Rony a seguia de perto carregando uma sacola com os presentinhos que o bebê havia ganhado. Ela subiu ao quarto do filho e parou decepcionada quando o abriu.
_Que horrível! – falou penalizada.
Rony foi ao seu encontro e olhou para o cômodo. Um quarto pequeno, todo branco, com uma janela que dava para o jardim. No meio dele um bercinho pequeno que Hermione reconheceu como sendo seu, mas que não tinha a menor idéia de como havia chegado ali. Encostada em uma parede uma cadeira de madeira com algumas roupinhas de bebê dobradas cuidadosamente.
_Eu pensei em arrumar... – falou encabulado. – Mas não levo muito jeito para isso... Algumas pessoas me trouxeram aquelas roupinhas para te dar de presente, mas... – ele não continuou. Entrou no quarto e pegou um pequeno casaquinho de lã cor de tijolo: - Esse foi minha mãe que fez. – falou corando. Hermione riu. – Olha! Esse “D” não estava aqui antes! – falou admirando as costas do casaquinho. – Sua mãe mandou aquelas ali. – apontou.
Hermione ainda olhava o quarto, desanimada: - Meu filho não pode dormir nesse quarto horrível! Rony leve o bercinho dele para o meu quarto, por favor?
_Claro...
Rony mudou o móvel de lugar. Hermione colocou o bebê para dormir e depois se deitou também, Rony foi para o seu quarto descansar um pouco. Nenhum deles pode dormir muito pois logo Denis acordou e o descanso foi interrompido.
Hermione estava muito mais animada, parecia outra pessoa. Rony também se sentia muito melhor. Ele havia recebido três dias de “licença paternidade” e tentou ajudar Hermione com o filho, mas definitivamente não levava jeito para babá. Em vez disso saía para o Beco Diagonal ou ao centro de Londres e voltava com diversos catálogos de objetos e móveis para quartos de bebê.
Chegou o dia de voltar para a escola, coisa que ele não gostou muito a princípio, mas adorou quando se viu como o centro das atenções. Todos queriam notícias sobre o bebê e Hermione. Uma enxurrada de garotas o cercava para ver fotos de Denis e ele terminou o dia cheio de sacolas de presentes.
Em casa Hermione sentia-se muito bem. Tinha se dado conta de quão leve estava se sentindo agora. Antes de Denis nascer não percebia como estava afundando, mas agora, depois de ficar sozinha em casa e ver o estado em que ela estava percebeu que havia passado a hora de reverter a situação. Mais uma vez, depois de muito tempo, ela pegou sua varinha e enfeitiçou alguns utensílios para que a ajudassem a limpar a casa que estava extremamente empoeirada. Em quanto a casa se limpava ela cuidava do quarto de Denis. Percebeu que o trabalho não renderia tanto quanto gostaria já que de vez em quando ela parava para trocar fralda, dar banho ou alimentar o filho. Quando resolveu deixar o resto para os próximos dias percebeu que já era quase hora do jantar. Decidiu se aventurar na cozinha e preparar alguma coisa, nada muito complicado.
Rony chegou em casa e foi surpreendido pelo cheiro bom que vinha da cozinha. Não chegou a perceber a mudança que se dera na arrumação da casa, mas percebeu que algo havia mudado por ali. Foi até a cozinha e se deparou com panelas se lavando, pratos saindo do armário e frutas se espremendo.
_O que é tudo isso? – ele perguntou assustando Hermione.
_Você já chegou?! – ela se virou espantada. – Eu é que pergunto: o que é tudo isso?! – ela falou olhando suas mãos carregadas.
_Isso? – ele falou levantando as sacolas. – Presentes para você e o Denis! Acredita que não tem nada para mim?! – falou inconformado.
Hermione se aproximou para ver o que havia ganhado: - Quem mandou?
_Deixe-me ver: - falou contando nos dedos: - Parvati, Padma, Luna, Neville, Simas, até a professora McGonnagal! Ela disse que sente sua falta. Prometeu passar aqui qualquer dia para conhecer nosso filho... – ele sentiu as bochechas esquentarem. – Erh... Acho que eu vou guardar essas coisas. – falou se afastando envergonhado.
_Eu guardo! – ela falou sorridente. – Vá lavar as mãos para jantar. Você não jantou ainda, né?! – perguntou esperançosa.
_Hum... Não! Não, claro que não... – mentiu. – Foi você que preparou a macarronada? – falou desconfiado.
_Foi! É a única coisa que eu sei cozinhar, por enquanto! – enfatizou. Ela subiu para guardar os presentes. Depois os olharia com calma.
Rony lavou as mãos e começou a se servir. Hermione logo o acompanhou. Ela achou melhor jantarem antes que Denis acordasse de novo, o que não demoraria muito. Rony começou a comer meio desconfiado, mas depois gostou da comida e comeu muito mais do que deveria, já que já tinha jantado aquele dia. Os dois conversaram apenas até Denis reclamar a fralda molhada.
A euforia pelo bebê não durou muito tempo em Hogwarts. Logo as provas chegariam e todos se preocupavam em estudar. Aquele era o ano dos NIEM’s e Rony tinha a sensação de que não conseguiria se sair muito bem. Começou a trazer livros para estudar em casa, mas não agüentava muito tempo. Não raramente Hermione o pegava dormindo em cima deles, mas como ainda se sentia em dívida com o amigo não o perturbava com sermões.
_Rony? Rony, acorda! – ela o chamou delicadamente.
Ele abriu os olhos preguiçosamente: - Só mais cinco minutos... – falou distraído, e então viu que aquela não era sua mãe. Levantou-se bruscamente fazendo o tinteiro tombar na mesa: - Eu estava estudando, Hermione! Só parei para descansar um pouquinho. Eu juro!
_Calma, Rony! Eu não vim para te dar uma bronca! – ela riu. – Estou vendo que você está cansado. Vá dormir. Amanhã você estuda mais. – falou limpando a sujeira que ele havia feito.
Ele a olhava incrédulo: - Eu estou com a matéria atrasada, Mione. Não posso parar agora! – ele falou pegando a pena novamente.
Hermione fez cara feia, mas prometeu a si mesma que não iria brigar com ele. – Eu imaginei... Mas você não vai aprender nada a essa hora. Está morrendo de sono. Vá dormir, e desfaça o feitiço no meu espelho! Você não precisa acordar sempre que o Denis chorar. Você precisa descansar agora que as provas de fim de semestre estão chegando.
Ele a olhou espantado mais uma vez: - Como você sabia sobre o feitiço?!
_Com o sono pesado que eu sei que você tem achava estranho você acordar toda vez que ele chorava. Hoje eu achei a marquinha que o feitiço deixou no meu quarto. – falou óbvia. – Vá descansar! Eu guardo suas coisas... – sorriu.
Ele se levantou estranhando a situação, mas não comentou nada. Antes que começasse a subir as escadas ela o chamou:
_Rony? – ele se virou. – Será que você pode deixar esses livros em casa? Eu to sentindo falta de ler alguma coisa... – falou corando.
Ele riu: - Já estava achando muito estranho: além de não me dar bronca por estar dormindo em vez de estudar você não iria me pedir para trazer livros? Amanhã eu trago mais, já que você provavelmente vai engolir esses aí, não é?
Os dias se seguiam com Hermione se dividindo entre os cuidados com Denis e a arrumação de seu quarto, o trato da casa e os livros, que voltavam a empolgá-la cada vez mais. Depois que Rony chegava ela ainda o ajudava a estudar. Isso o fazia ficar ainda mais desanimado já que, mesmo estando sem estudar a meses, ela ainda parecia saber mais que ele. Mas sem dúvida ele preferia assim.
Denis já tinha duas semanas. Chorava desesperado em seu quarto aquela noite quando Rony chegou em casa. Preocupado ele foi ao quarto do bebê e levou um susto. O quarto pequeno e sem graça estava totalmente transformado. Um berço maior, branco com detalhes em verde claro e com móbiles de jogadores de quadribol do Cannons tomava uma parte do quarto. Ao seu lado uma cômoda também branca, mas com os puxadores verdes. Uma poltrona florida encostada graciosamente do outro lado. Prateleiras verdes estavam apinhadas de bichinhos e bonecos. As paredes agora tinham uma faixa verde clarinha a mais ou menos um metro e meio do chão onde pomos de ouro batiam freneticamente suas asinhas. Enquanto Rony admirava meio decepcionado a decoração verde> Denis esperneava no berço. Foi então que ele se lembrou o que o levara até ali.
_Calma, calma... Já to aqui! Espera um pouco, cara... – ele pegou desajeitadamente o bebê no colo. Não conseguiu não sorrir quando Denis olhou para ele com os olhos arregalados como se tentasse se lembrar quem era aquela pessoa. – Gostou do seu quarto novo?! – Rony perguntava. Ele havia parado de chorar. Rony observou novamente o quarto: - Ela com certeza não fez de propósito, não é? - então olhou para Denis como se ele pudesse ler seus pensamentos. - Tudo verde?! - ele fez uma careta e olhou para o bebê novamente. Este esboçava um sorrisinho.
Hermione parada na porta com um sorriso bobo admirava Rony enquanto ele balançava Denis e sorria. Ele se assustou quando a viu parada ali. Ficou meio constrangido.
_Parece que ele gosta de mim... – falou sem jeito.
_Quem é que não gosta? – falou se aproximando dos dois. Ficou vermelha depois.
_Ficou muito bom o quarto! – Rony mudou de assunto.
Hermione pegou Denis de seus braços e falou animada: - Eu também gostei. Você viu o móbile dos Cannons? Eu não conheço muito de quadribol, mas me lembrei que você torcia para eles e então comprei. Você com certeza vai ensiná-lo a torcer para o Cannons, não vai? – falou sorrindo.
_Com certeza! Não há time melhor! Mas você poderia ter escolhido um papel de parede com goles, ou aros, sabe? – falou observando os pomos agitados.
_Sabia que você ia achar ruim, mas eu acho os pomos bonitinhos! – falou sentando-se na poltrona e se preparando para amamentar.
Rony corou novamente. Virou-se para sair com a desculpa de que ia lavar as mãos para jantar.
_Rony? – ela chamou.
Sem saber para onde olhar ele ficou parado na porta: - Sim? – as orelhas extremamente vermelhas.
Hermione corou um pouco também. Aquilo lhe parecia tão normal. Até Harry já a tinha visto amamentando, mas certamente para Rony aquilo era diferente: - Eu... Eu queria te agradecer... Sabe? Por tudo que você fez... Eu nunca te agradeci direito.
_Não precisa... Eu disse que não ia te cobrar nada... – sorriu. – Ah! Eu te trouxe mais livros. Vou deixá-los no seu quarto, virou-se rapidamente para sair.
_Obrigada. – respondeu triste. Ainda faltava algo que ela não sabia o que era.
Ela se sentia entediada. Não havia mais o que fazer. A casa estava em ordem, o quarto de Denis pronto, Denis dormindo, todos os livros devidamente lidos... Hermione andava pela casa a procura de algo com que se ocupar, mas não achou nada. Decidiu vasculhar seu armário em busca de roupas que pudesse, quem sabe, doar. Depois de uma olhadinha breve ela avistou uma caixa no fundo do guarda-roupa. Sorriu instintivamente lembrando-se da sua caixa de recordações. Pegou-a e sentada na cama começou a remexer o que havia nela: um sapatinho rosa de quando ela era bebê, boletins da escola trouxa, a primeira carta de Hogwarts, as cartas que Harry lhe mandava durante as férias, as cartas de Krum, os bilhetes de Draco...
“Adorei a noite de ontem. Quero que se repita. Não esqueci da piscina de poção do sono, mas está mais difícil do que eu esperava... Te vejo no porão...
D.M.”
_Falso! – falou com raiva. Remexeu mais a caixa e separou todos os bilhetes que havia trocado com ele. Com um feitiço não pronunciado ateou fogo em todos: - Já chega, Malfoy! Quero esquecer todas as suas mentiras! – com os olhos lacrimejantes ela voltou a admirar as lembranças.
Achou graça quando achou os cartões curtos e garranchados de Rony. Admirou-se quando juntou todos eles e viu que ele não havia esquecido nenhum aniversário ou Natal desde que haviam se conhecido. Começou a se lembrar de todas as aventuras que havia passado com seus amigos, as várias brigas com Rony, a vez que ele terminou vomitando lesmas para defendê-la, a decepção no fim do Baile de Inverno, seguida de uma pontinha de esperança, a raiva cada vez que o pegava com Lilá e o susto quando ele se declarou. Sem perceber levou os dedos aos lábios lembrando-se do beijo que eles haviam trocado naquele dia, o quanto se sentiu dividida.
_ Ele ainda me ama... - pensou. - Apesar de tudo o que eu fiz... Ele ainda me ama... Ainda me quer... - concluiu sorrindo abobada.
_Hermione?
Seu coração acelerou e ela sentiu seu rosto esquentar. Ficou olhando para ele parado na porta e depois de tanto tempo voltou a enxergar o mesmo Rony de antes. O Rony que ela amava e não agüentava ao mesmo tempo. Sorriu.
_Você está bem? – perguntou estranhando.
Ela apenas moveu a cabeça afirmativamente. Seu coração ainda batia acelerado.
_Você não ouviu o Denis chorar?!
_Ele está chorando?! – ela perguntou preocupada se levantando da cama rapidamente.
_Já parou! – falou fazendo sinal para não se preocupar. – Eu fiz ele dormir de novo. O que você está fazendo?
_Achei essa caixa de lembranças da época da escola... – falou sorrindo. – Tem até os seus cartões de Natal!
Ele se sentou na cama dela pegando um deles para olhar: - Fui eu que escrevi isso?! – perguntou tentando se lembrar.
_Foi sim! Seu garrancho é inconfundível! Bem diferente dos cartões do Harry. – riu mostrando um deles para que comparasse.
_Humpf! Devia ter parado de escrever a primeira vez que você reclamou da minha letra! – falou corando. – O que é isso?!! Ah não! Você ainda guarda as cartas do Krum?!!! – falou bravo.
_Não começa, hein! São apenas recordações! Eu guardo tudo que me escrevem. – ela tirou a carta das mãos de Rony antes que ele a tornasse irrecuperável.
_Não acredito! – se revirou ainda bravo e viu um pedacinho de papel queimado caído no chão. Pegou e leu:
“...aí a noite toda!
D.M.”
Hermione viu o bilhete nas mãos de Rony e o pegou rápido, queimando-o com a varinha logo em seguida. – Eu queimei o resto! Quero apagar o que aconteceu! – falou ficando vermelha.
Rony virou-se de costas para ela sem saber o que dizer. Depois de um silêncio constrangedor ele falou: - Vai ser difícil você esquecer dele... – baixou o rosto triste. - Por causa do Denis, né?
Ela respirou fundo sem dizer nada e ele decidiu sair. Ela o segurou pela mão: - Ficou bem mais fácil com você comigo... – sentiu-se corar novamente. – Rony, eu... – ela o fez sentar-se de novo. – Eu queria te pedir desculpas... Queria te pedir desde o dia que o Denis nasceu, mas estava envergonhada demais. Queria me desculpar por ter sido tão injusta com você todo esse tempo. Você foi tão paciente, me ajudou, me perdoou... Eu só te tratei mal... Desculpe-me por ter mentido para você... Desculpe-me por ter sido tão boba... Eu nunca quis magoar você, nem o Harry... Também não saberia o que fazer se tivesse perdido sua amizade... seu carinho... seu... amor... – terminou incerta sem coragem para olhá-lo.
_Todo mundo erra, Mione... – falou com dificuldade. – Ta certo que você errou feio! – esculachou. – Mas os últimos meses já te fizeram aprender a lição... Agora você tem que seguir em frente... Não adianta ficar se lamentando pelo que já foi... E eu vou estar sempre com você... Sempre... – ele sorriu carinhoso com uma mão em sua face.
Ela retribuiu o sorriso agradecida e emocionada. Rony se perdeu nos olhos dela, no seu sorriso. Sem pensar em nada se aproximou dela, lentamente posicionou a mão em sua nuca e a aproximou de si. Os lábios dele tocaram os dela pela segunda vez, inseguros. Pela segunda vez ela se deixou levar por aquela sensação. Correspondeu plenamente o beijo aproximando mais seu corpo do dele e tocando seu pescoço, os cabelos, encorajou-o a continuar. Rony sentia seu coração bater acelerado e surpreso. Sentia-se feliz, completo e sem limites. Escorregou uma das mãos até a cintura. A mão que ainda tocava o pescoço dela sentiu o arrepio que aquele toque provocava. A cama era um convite para o desejo. Com o peso de seu corpo começou a deitá-la, seus lábios não se separavam. A sensação era incrível, quase incontrolável.
_Rony... – ela falou com dificuldade, tentando separar-se dos lábios dele. – Rony, espera... Eu não...
Ele se levantou envergonhado: - Hermione, me desculpe! Eu não... Você me disse, mas eu... Desculpe... – ele levantou-se da cama com dificuldade.
_Rony, espera! Não é isso! – ela se levantou a tempo de segurá-lo antes que ele chegasse a porta. Meio encabulada falou: - É que... O meu resguardo ainda não acabou...
Ele a olhava confuso, com dificuldade de processar a informação. Ela riu mais encabulada ainda.
_Eu ainda não posso, sabe? Por causa do parto! – ele pareceu entender o que ela dizia. – Você... Nós... vamos ter que esperar mais alguns dias... Mas você pode dormir aqui... Se quiser...
_ Onde será que ele se meteu?! Será que ele esqueceu? Como pode ter esquecido?! Nenhum marido se esquece disso! Mas o Rony?! Óbvio! Só não esquece a cabeça porque está grudada! Ai! Não acredito! – Hermione andava de um lado para o outro na sala esperando Rony voltar da escola. Ele já estava muito atrasado.
No castelo, ainda com as vestes de quadribol, comemorando com os outros jogadores e alguns torcedores da Grifinória, Rony se divertia com hidromel contrabandeado de Hogsmead. Sua festa foi interrompida pela chegada espalhafatosa de Pichi. Ele pegou impaciente a carta do bico da coruja saltitante.
“ONDE É QUE VOCÊ ESTÁ? DEVERIA ESTAR EM CASA HÁ HORAS! NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESQUECEU, RONALD! VENHA PARA CASA AGORA!”
_Caramba! O que foi que eu esqueci? Hoje é alguma data especial? – perguntou confuso olhando para Harry.
_Não que eu me lembre, cara. Mas ela parece estar bem brava. É melhor você ir logo, hein?
_Ir para casa?! Sem lembrar o que eu não deveria ter esquecido?! Nem pensar! Me ajuda, Harry! Que dia é hoje?
_Sei lá! Não é nenhuma data especial! Peraí... – Harry e Rony faziam um enorme esforço para se lembrar de qualquer coisa, mas nada surgia. Então Harry começou a rir.
_Qual é a graça?! – Rony perguntou bravo.
_Que dia o Denis nasceu? – Harry perguntou divertido.
_O que isso tem a ver?! Faz mais de um mês!
_Exato! Faz 40 dias!
_E?! – perguntou mais confuso ainda. – Aaaahhh! – corou.
_Como foi que você foi se esquecer disso?! Se fosse eu estava contando os dias! – riu mais ainda.
_Muito engraçado! Eu já tinha me acostumado... – parou arrependido.
_O quê?!
_Nada! Vou para casa logo! Tchau! – falou completamente sem graça.
_Hei, Rony! Já vai?! – um outro jogador perguntou.
_Ele tem um compromisso urgente, pessoal! – Simas, que havia ouvido a história, respondeu. – Vai lá, Roniquinho! A gente te perdoa, afinal, depois de 40 dias!!! – ele riu deixando Rony mais vermelho ainda.
_40 dias! – falou baixinho rindo de si mesmo. – Se eles soubessem!
Rony aparatou em frente de sua casa. Não tinha noção de quão tarde era até receber o bilhete, então se sentiu seguro para aparatar. A casa estava totalmente escura.
_ Não acredito que ela já foi dormir!
Passou silenciosamente pela sala e começou a subir as escadas. Não estava nem no terceiro degrau quando ouviu Denis chorar em seu quarto. Logo a porta do quarto do casal se abriu e Hermione saiu dele. Levou um susto ao ver a silhueta de Rony parado na escada, mas quando o reconheceu dispensou-lhe um olhar furioso. Foi direto ao quarto do filho.
_Me desculpe! Eu perdi a hora, sabe? Nós ganhamos o jogo e aí...
_Eu imaginei. – falou tirando Denis do berço e analisando sua fralda. – Ganharam de quem? Sonserina? Geralmente as melhores comemorações são dos jogos contra eles... – falou mal-humorada.
_Na verdade foi... Nós estávamos em dificuldades. O novo apanhador deles é muito bom. Quase tanto quanto o Harry! Deu muito trabalho nessa temporada... – falou empolgado parando assim que notou o aborrecimento de Hermione. – Me desculpe... – ele se aproximou abraçando-a por trás.
_Eu já tinha planejado tudo. Imaginei que você não fosse jantar em casa e que chegaria mais tarde, mas não tão tarde! Ate coloquei o Denis para dormir mais tarde para termos mais tempo juntos! – ela acabara de tirar a fralda do pequeno e a colocara na mão de Rony. – Joga para mim? – falou com descaso.
_Poxa, Mione! – falou indo até a lixeira. - Eu já pedi desculpas! – voltou para abraçá-la novamente depositando-lhe um beijo no pescoço, bem abaixo da orelha. – O que mais você quer que eu faça?
Há algum tempo Rony havia descoberto seu ponto fraco. Sempre que queria pedir desculpas ou convencê-la de algo ele a beijava daquele jeito. Ela ficava arrepiada e acabava cedendo. – Vá lavar a mão! – falou firme. – E me espere no quarto. Assim que ele dormir eu vou para lá.
Rony sorriu ainda perto do seu pescoço. O som daquela risada marota tão próximo a deixou mais impaciente ainda. Ele saiu antes que ela pudesse mudar de idéia, embora duvidasse muito que ela o faria.
Rony já estava na cama, de banho tomado, só com o calção do pijama. Trocava impacientemente os canais da TV. Hermione parecia demorar mais que o normal, mas logo ela apareceu na porta. Rony olhou-a ansioso, ela o olhou séria. Deu a volta na cama, tirou o robe e se deitou jogando a coberta sobre o corpo. Rony ficou observando incrédulo. Desligou a TV e ficou esperando. Ela nem se mexia. Depois de tentar entender o que havia acontecido ele falou:
_Essa camisola é nova? Eu não me lembro dela...
Hermione se virou para ele incrédula: - Você reparou?!
Ele se segurou para não sorrir vitorioso: - Como não ia reparar? Ficou linda em você! Rosa combina com a sua pele. – ele acariciou o braço dela, de leve. – Olha o que eu trouxe para você? – ele tirou da gaveta do criado-mudo um pirulito em forma de rosa.
_Um pirulito?!
_É uma rosa! Vermelha! – falou fingindo-se ofendido. – Eu queria comprar uma rosa de verdade, mas a única coisa que achei a essa hora foi uma loja de conveniência de posto de gasolina. Desculpa, Mi... Você sabe como eu sou atrapalhado com datas... – ele deu um selinho nela. – Desculpe... – depois beijou o pescoço...
_Ronald...- falou brava, mas já estendendo o braço para largar o pirulito em qualquer lugar. – Só você mesmo! – ela sorriu e depois o beijou.
Ela estava meio tensa a princípio. Chegou a achar que talvez tivesse sido bom o esquecimento dele. Não sabia como seu corpo reagiria ao toque de outro homem depois de tudo que havia acontecido, mas os beijos de Rony nos últimos dias estavam se tornando torturantes. Seu corpo sentia falta de carinho, afago e desejo e ter que recusá-lo custava-lhe muita força de vontade.
Diante da correspondência de Hermione Rony resolveu ousar mais. Enquanto seus lábios exploravam os dela, uma de suas mãos descia a alça da camisola enquanto a outra acariciava sua cintura. As mãos de Hermione passeavam do pescoço para o peito de Rony fazendo-o se contrair ao toque delas. Seus lábios se separaram e os dois se olharam por um tempo. Ao sentir que poderia seguir em frente Rony desceu a outra alça da camisola tocando sua pele suavemente, passeando seus dedos pelo seio agora descoberto. Hermione fechou os olhos ao sentir aquele toque. Todo seu corpo pedia por aquilo, sentia que não conseguiria resistir mesmo que quisesse. Puxou Rony para mais perto e o beijou calorosamente querendo sentir a língua dele acariciando a sua de novo. Enquanto a beijava ele a deitou na cama e agilmente tirou-lhe de vez a camisola. Interrompeu o beijo para continuá-lo dessa vez em seu pescoço, descendo para o colo e passando por entre os seios até a barriga. Hermione sentia o coração bater descompassado, respirar era difícil. Agarrou os cabelos dele e o fez voltar a posição anterior. Escorregou as mãos por suas costas até chegar ao cós do calção. Baixou-o lentamente percebendo em seguida que não havia mais nada a tirar. Cercou o corpo dele com as pernas e quando ele voltou a beijá-la sentiu a pressão que ele fazia entre elas. Levou a mão com a qual ele tocava novamente seu seio até a calcinha para que ele a livrasse dela. Estavam completamente nus e prontos para se entregarem um ao outro. Não demorou para que Rony penetrasse em seu corpo fazendo-a sentir-se mulher novamente. Ela fechou os olhos quando o sentiu aumentar o ritmo, agarrou os cabelos dele e entregou-se totalmente ao ato. Sentia-se bem, sem medo, segura, sem culpa. Era daquilo que ela precisava, amor, carinho e nenhuma desconfiança.
Hermione largou os cabelos dele, ofegante. Rony soltou seu peso sobre o corpo dela, feliz. Levantou o rosto para olhá-la, ela sorria, o beijou carinhosamente sentindo-se diferente do que jamais havia se sentido.
_Eu te amo, Mione... Pra sempre... – falou apaixonado.
Ela sorriu confiante para dizer: - Eu também te amo... Sempre te amei..
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