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84. A Visão Elementar


Fic: Primavera em Flor


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Severus voltou para o laboratório tomado pela raiva.  Dumbledore o tinha chamado até seu gabinete e pedira a Minerva que os deixasse a sós.  O Mestre de Poções achou que o assunto era muito sério pois, do contrário, a presença de McGonagall não seria dispensada pelo diretor.  Entretanto, para seu espanto, todo esse mistério e urgência foram apenas para informar-lhe de que Lucius Malfoy havia sido afastando do conselho e aparentemente perdera toda a ascenção que tinha sobre o Ministério.  “- E foi para isso que o senhor me chamou ?”, perguntou ele ao velho bruxo.


“- Pensei que seria do seu interesse.”, respondeu Dumbledore.  “- Talvez o nosso querido sr. Malfoy caia em desgraça diante da comunidade bruxa.  Isso nos seria bastante útil, você não acha ?”


“- Diretor,” – replicou Severus, pronunciando pausadamente cada sílaba da palavra, “eu estava ocupadíssimo com o preparo de uma poção que poderá nos ser de grande utilidade.  O senhor mandou interromper-me, fato que acabará arruinando o trabalho que levei as últimas 3 semanas para realizar ... e tudo isso apenas para dizer-me que Malfoy já não faz mais parte do conselho ?” – o descontentamento e a ira eram óbvios em seu tom de voz.


“- Achei que você ficaria satisfeito em saber.”, respondeu Dumbledore, com um sorriso nos lábios.  Seus óculos meia-lua, apoiados sobre o nariz torto e quebrado, não conseguiam esconder o ar infantil que agora populava-lhe os olhos azuis.


“- Tenho certeza de que Lucius vai conseguir se reerguer.  Ele é um homem astuto e abastado.  Além disso, tem amigos poderosos em todas as esferas.  O Ministério acabará por aceitá-lo de volta.  Não creio sinceramente que isso seja um bom augúrio.”


“- Bom, olhando por esse lado, acho que você tem razão.   Me desculpe por tê-lo atrapalhado no preparo da poção.  Espero não tê-lo feito perder seu trabalho.”


“- Pois estou certo de que terei que recomeçar tudo.”, disse Severus, totalmente indignado.  “- Agora, se o senhor não tem mais qualquer assunto importante e urgente para conversar comigo, peço-lhe licença para retirar-me.  Tenho muito o que fazer e tempo é um luxo do qual definitivamente não disponho.”


“- Muito bem, Severus, você pode ir.”


Entretanto, o Mestre de Poções não esperou que Dumbledore assentisse.  Simplesmente virou as costas, saiu do gabinete e bateu a porta em fúria, sem dizer mais palavra.


Dirigiu-se imediatamente para as masmorras.  Seu humor estava ainda mais cáustico do que o que tinha quando fora interrompido por Minerva.  Entretanto, assim que entrou no laboratório, viu que Maria estava diferente.  Apesar de ela estar em pé, de costas para ele e para a porta, percebeu alguma coisa em seu modo de agir que lhe parecia estranho.  Ficou logo muito preocupado com ela, fato que fez com que a raiva que antes sentia se dissipasse instanteneamente.


“- Maria, o que foi ?”, perguntou, aproximando-se dela.


Ela não respondeu.  Apenas virou-se de frente para ele que logo viu que ela chorava.  Contudo, apesar das lágrimas que lhe corriam pela face, o rosto dela ostentava um claro e belo sorriso.


Ainda sem responder a ele, Maria foi até uma das estantes onde havia alguns frascos limpos e vazios.  Estes recipientes ficavam ali de reserva a fim de que Severus pudesse usá-los para colocar as poções que fabricava.  Pegou um deles e o levou até os olhos, fazendo o que suas lágrimas escorressem para o interior do frasco.


“- Aqui está.”, disse ela.  “- Este é o ingrediente que falta para a poção da “visão elementar”.  Você agora já pode começar a prepará-la.”


Severus ficou boquiaberto. Não conseguia entender o que ela dizia.  Demorou alguns segundos para que ele se recompusesse e pudesse pronunciar-se.


“- Mas Maria, eu não compreendo ... o que a Primula vulgaris vulgaris tem a ver com isso ?  Por que são lágrimas suas ?  Onde tudo isso se encaixa com o que sabíamos sobre o enigma que cercava esta poção ?  Eu ... eu não consigo entender.”


“- A culpa foi minha, toda minha.”, respondeu ela.  “- Eu nos induzi ao erro.  Quando cheguei à conclusão de que a “flor primeira” se tratava da Primula, eu jamais questionei esta premissa.  Tomei-a como verdadeira e estava completamente errada.  Deixei-me enganar e persisti no erro.”


“- Você poderia me explicar melhor ?  Continuo sem perceber a conexão entre suas lágrimas e a poção.”


“- Preciso sentar-me.”, disse ela.  “- Minhas pernas ainda estão bambas, mal consigo manter-me de pé.”


“- Sim, sente-se aqui.”, falou Severus, aproximando-se dela e a ajudando a chegar até uma das cadeiras.  Maria sentou-se nela e ele foi até uma das prateleiras cheias de frascos e de lá pegou uma poção, pingando algumas gotas da mesma em um cálice com água.  “- Beba isto.  Vai fazê-la sentir-se melhor.”, falou, agora sentando-se ao lado dela e pegando uma de suas mãos.  “- Você está gelada.”, constatou.


“- Não se preocupe.”, tranquilou-o Maria.  “- Eu estou bem, apenas um pouco nervosa diante de minha completa estupidez.”, completou, bebendo todo o conteúdo que havia no cálice que ele lhe dera e fazendo um careta de desagrado.  “- Nossa !  Isto tem um gosto horrível.”


Severus limitou-se a sorrir, vendo que a cor já voltava às maçãs do rosto dela e ficou aguardando que ela lhe dissesse como havia chegado à solução do enigma que há tanto tempo os afligia.


“- Muito bem, agora sinto-me bem melhor.”, disse ela.  “- Vou tentar explicar tudo a você.  Me diga se não entender alguma coisa.”


Severus assentiu com a cabeça e ficou esperando que ela continuasse.

"- Você sabe que a “corrente cristalina do âmago destilada” trata-se das lágrimas pois elas são a manifestação física de um sentimento, seja ele tristeza, raiva, dor ou alegria.”


“- Correto.  Mas há também a expressão “da primavera flor primeira”.  Você achava que a flor se tratasse da Primula vulgaris vulgaris e isso fez todo sentido para mim.”


“- A palavra “flor” neste contexto trata-se apenas de um conceito, uma abstração, e não se refere ao objeto em si.  Cheguei a esta conclusão quando lembrei-me de uma frase que li há algum tempo:Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus”“a rosa antiga está no nome e nada nos resta além dos nomes”.  Ou seja, a palavra “flor” é apenas uma nomenclatura, uma metáfora poética.  É somente uma maneira respeitosa e carinhosa para referir-se às mulheres.  Lembra-se ?  Você mesmo disse-me uma vez que eu era tão suave e graciosa que me parecia uma flor do campo.”


“- Recordo-me bem disso.  Mesmo porque continuo tendo a mesma opinião sobre você.”


Maria sorriu para ele.  Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas as lágrimas já haviam cessado.


“- E como foi que você chegou à conclusão de que suas lágrimas eram as apropriadas para serem usadas na poção ?”


“- Você se lembra do sonho de Jean Pierre ?  Ele nos disse que deveríamos ficar  atentos ao “marco um” da estação das flores … pois bem, a primavera se inicia do dia 20 de março …”


“- Que seria o “marco zero” ou zerésimo dia desta estação.”, concluiu Severus.


“- E o “marco um”, ou primeiro dia, acontece em 21 de março …”


Severus olhou para ela absolutamente surpreso.  Sua expressão denotava agora que ele finalmente entendia tudo.  “- Que é o dia do seu aniversário !”


Maria limitou-se a assentir com a cabeça pois não queria interromper a corrente de idéias e pensamentos que sabia agora estarem a borbulhar na mente dele.


“- A flor primeira da primavera trata-se então de uma mulher nascida no primeiro dia, ou “marco um” da estação das flores.”, concluiu Severus, após alguns segundos.  “- Mas ainda tenho uma pergunta, um último esclarecimento de que preciso para convencer-me de que sua interpretação está correta.”


“- Pois então me conte sua dúvida e eu vou tentar dirimi-la.”, disse Maria.


“- Bom, os Celta-Élficos viveram em outra época e sua cultura aparentemente desapareceu há muitos séculos.  Sabendo disso, concluo que não deviam contar o tempo como nós e, provavelmente, a primavera para eles não começava no mesmo momento em que comemoramos o início desta estação nos dias atuais.”


“- Você está correto em pensar assim.  A noção de tempo que eles tinham era bem diferente da nossa.  Entretanto, isso não importa, meu querido.  Novamente, o que temos que levar em conta é o conceito e aplicá-lo à nossa realidade.  É a idéia que nos interessa e não a manifestação física dela.” 


“- Maria, fico abismado com sua extraordinária capacidade de raciocínio e com seu poder de dedução ! Aliás, devo-lhe desculpas por ter sido rude com você hoje quando chegamos ao laboratório.  Não tive a intenção de magoá-la.  Apenas estou muito …”


“- Cansado.”, completou ela.  “- Eu sei, meu querido.  Estamos os dois exaustos.  Não há do que se desculpar.”


“- Você está certa no que diz.  Mas preciso me desculpar sim.  Estou cansado, mas isso não é desculpa para tratá-la mal.  Você só merece meu carinho e admiração por ser tão perfeita e admiravelmente inteligente.  Às vezes não acredito que você seja real.  Sua existência é simplesmente boa demais para ser verdade.”


“- Assim você me deixa encabulada.  Minha inteligência não tem nada de anormal.  Apenas uso o conhecimento que tenho para fazer analogias e chegar a determinadas conclusões.  Qualquer um conseguiria fazer isso se tivesse a ciência que tenho sobre a cultura Celta-Élfica.  Aliás, se eu fosse tão inteligente assim, já teria desvendado esse mistério há muito tempo.  Para dizer a verdade, sinto-me muito estúpida por não ter deduzido tudo isto antes.”


“- Ah, meu amor, não vou discutir com você porque sei que, além de brilhante, você também é muito modesta.”, disse ele, beijando-a na testa.  “- Mas agora que temos o mistério finalmente resolvido, vou começar imediatamente o preparo da poção e, assim que ela estiver pronta, ainda poderei também fabricar a fórmula “constrario sensu” que tem uma gota da “visão elementar” como um de seus ingredientes.”


“- E a “Semper Fidelis” ?  Você acha que ainda há tempo para retomar o trabalho de onde você parou ?”


“- Infelizmente não. Terei que jogar fora todo o caldeirão pois está irremediavelmente arruinado.  Não há nada mais a fazer a não ser recomeçar o preparo.”


“- É mesmo uma pena.”, disse Maria.  “- Serão 3 semanas de árduo trabalho literalmente jogadas fora.”.


“- Nada que eu não possa recuperar nos próximos 21 dias.”, falou Severus, levantando-se e pegando sua varinha.  Foi então até o caldeirão que ainda borbulhava.  A poção, antes dourada e densa, agora estava enegrecida e mole, exalando um forte cheiro de coisa estragada.  Ele ergueu a varinha e conjurou um feitiço, fazendo com que o caldeirão e todo seu conteúdo sumissem no ar.  Logo depois, conjurou outro feitiço para que dois caldeirões limpos e vazios aparecessem à sua frente


“- E o que Albus queria falar com você de tão importante ?”, perguntou Maria, ainda sentada em sua cadeira.  “- Era algo de grave ?”


“- Você acredita que ele mandou me chamar apenas para dizer-me que Lucius Malfoy foi afastado do conselho ?  O diretor não poderia ter esperado por outra hora para dar-me esta notícia ?”


“- Então Malfoy está perdendo seu prestígio …”, concluiu ela.


“- Por enquanto, minha querida.  Mas essa situação é apenas temporária e não me deixarei enganar.  Lucius voltará ainda mais forte.  Disso eu tenho certeza absoluta.”, replicou Severus, pegando o frasco que continha as lágrimas dela e despejando seu conteúdo dentro de um dos caldeirões à sua frente.  “- Somente o tempo nos dirá se estou certo ou errado.  Enquanto isso, a poção da “visão elementar” certamente nos servirá de forte aliado contra nossos oponentes.”


“- Você tem razão.”, concordou Maria.  “- Bom, estou me sentindo exausta.  Você se importa que eu termine meu trabalho por hoje ?”


“- É claro que não.  Você me parece mesmo muito cansada.  Vou levá-la até seus aposentos.”


“- Não irei direto para meu quarto.  Jean Pierre ficou de entrar em contato comigo e usará a lareira de Albus para isso.”


Severus pareceu ficar intrigado.  “- E o que ele tem a falar com você ?  Aconteceu alguma coisa de grave ?”


“- Nada demais.”, desconversou Maria.  “- Jean Pierre quer apenas conversar.  Ele me enviou uma coruja hoje para dizer-me que estava com saudades.”


“- Hum … será que ele ainda quer lhe falar sobre aquele sonho estranho que teve ?”


“- Estranho ou não, já nos foi últil em alguma coisa.  O “marco um” da estação das flores foi uma das pistas que segui para tirar a conclusão à qual cheguei hoje.”


“- É verdade.”, concordou Severus.


“- Então … já vou indo.  Deixo você aqui com seus caldeirões borbulhantes.  Nos vemos amanhã, meu querido.”


Maria foi até ele e despediu-se, beijando-o carinhosamente. Depois saiu do laboratório, deixando-o com a estranha impressão de que ela tramava alguma coisa.

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