Severus voltou para o laboratório tomado pela raiva. Dumbledore o tinha chamado até seu gabinete e pedira a Minerva que os deixasse a sós. O Mestre de Poções achou que o assunto era muito sério pois, do contrário, a presença de McGonagall não seria dispensada pelo diretor. Entretanto, para seu espanto, todo esse mistério e urgência foram apenas para informar-lhe de que Lucius Malfoy havia sido afastando do conselho e aparentemente perdera toda a ascenção que tinha sobre o Ministério. “- E foi para isso que o senhor me chamou ?”, perguntou ele ao velho bruxo.
“- Pensei que seria do seu interesse.”, respondeu Dumbledore. “- Talvez o nosso querido sr. Malfoy caia em desgraça diante da comunidade bruxa. Isso nos seria bastante útil, você não acha ?”
“- Diretor,” – replicou Severus, pronunciando pausadamente cada sílaba da palavra, “eu estava ocupadíssimo com o preparo de uma poção que poderá nos ser de grande utilidade. O senhor mandou interromper-me, fato que acabará arruinando o trabalho que levei as últimas 3 semanas para realizar ... e tudo isso apenas para dizer-me que Malfoy já não faz mais parte do conselho ?” – o descontentamento e a ira eram óbvios em seu tom de voz.
“- Achei que você ficaria satisfeito em saber.”, respondeu Dumbledore, com um sorriso nos lábios. Seus óculos meia-lua, apoiados sobre o nariz torto e quebrado, não conseguiam esconder o ar infantil que agora populava-lhe os olhos azuis.
“- Tenho certeza de que Lucius vai conseguir se reerguer. Ele é um homem astuto e abastado. Além disso, tem amigos poderosos em todas as esferas. O Ministério acabará por aceitá-lo de volta. Não creio sinceramente que isso seja um bom augúrio.”
“- Bom, olhando por esse lado, acho que você tem razão. Me desculpe por tê-lo atrapalhado no preparo da poção. Espero não tê-lo feito perder seu trabalho.”
“- Pois estou certo de que terei que recomeçar tudo.”, disse Severus, totalmente indignado. “- Agora, se o senhor não tem mais qualquer assunto importante e urgente para conversar comigo, peço-lhe licença para retirar-me. Tenho muito o que fazer e tempo é um luxo do qual definitivamente não disponho.”
“- Muito bem, Severus, você pode ir.”
Entretanto, o Mestre de Poções não esperou que Dumbledore assentisse. Simplesmente virou as costas, saiu do gabinete e bateu a porta em fúria, sem dizer mais palavra.
Dirigiu-se imediatamente para as masmorras. Seu humor estava ainda mais cáustico do que o que tinha quando fora interrompido por Minerva. Entretanto, assim que entrou no laboratório, viu que Maria estava diferente. Apesar de ela estar em pé, de costas para ele e para a porta, percebeu alguma coisa em seu modo de agir que lhe parecia estranho. Ficou logo muito preocupado com ela, fato que fez com que a raiva que antes sentia se dissipasse instanteneamente.
“- Maria, o que foi ?”, perguntou, aproximando-se dela.
Ela não respondeu. Apenas virou-se de frente para ele que logo viu que ela chorava. Contudo, apesar das lágrimas que lhe corriam pela face, o rosto dela ostentava um claro e belo sorriso.
Ainda sem responder a ele, Maria foi até uma das estantes onde havia alguns frascos limpos e vazios. Estes recipientes ficavam ali de reserva a fim de que Severus pudesse usá-los para colocar as poções que fabricava. Pegou um deles e o levou até os olhos, fazendo o que suas lágrimas escorressem para o interior do frasco.
“- Aqui está.”, disse ela. “- Este é o ingrediente que falta para a poção da “visão elementar”. Você agora já pode começar a prepará-la.”
Severus ficou boquiaberto. Não conseguia entender o que ela dizia. Demorou alguns segundos para que ele se recompusesse e pudesse pronunciar-se.
“- Mas Maria, eu não compreendo ... o que a Primula vulgaris vulgaris tem a ver com isso ? Por que são lágrimas suas ? Onde tudo isso se encaixa com o que sabíamos sobre o enigma que cercava esta poção ? Eu ... eu não consigo entender.”
“- A culpa foi minha, toda minha.”, respondeu ela. “- Eu nos induzi ao erro. Quando cheguei à conclusão de que a “flor primeira” se tratava da Primula, eu jamais questionei esta premissa. Tomei-a como verdadeira e estava completamente errada. Deixei-me enganar e persisti no erro.”
“- Você poderia me explicar melhor ? Continuo sem perceber a conexão entre suas lágrimas e a poção.”
“- Preciso sentar-me.”, disse ela. “- Minhas pernas ainda estão bambas, mal consigo manter-me de pé.”
“- Sim, sente-se aqui.”, falou Severus, aproximando-se dela e a ajudando a chegar até uma das cadeiras. Maria sentou-se nela e ele foi até uma das prateleiras cheias de frascos e de lá pegou uma poção, pingando algumas gotas da mesma em um cálice com água. “- Beba isto. Vai fazê-la sentir-se melhor.”, falou, agora sentando-se ao lado dela e pegando uma de suas mãos. “- Você está gelada.”, constatou.
“- Não se preocupe.”, tranquilou-o Maria. “- Eu estou bem, apenas um pouco nervosa diante de minha completa estupidez.”, completou, bebendo todo o conteúdo que havia no cálice que ele lhe dera e fazendo um careta de desagrado. “- Nossa ! Isto tem um gosto horrível.”
Severus limitou-se a sorrir, vendo que a cor já voltava às maçãs do rosto dela e ficou aguardando que ela lhe dissesse como havia chegado à solução do enigma que há tanto tempo os afligia.
“- Muito bem, agora sinto-me bem melhor.”, disse ela. “- Vou tentar explicar tudo a você. Me diga se não entender alguma coisa.”
Severus assentiu com a cabeça e ficou esperando que ela continuasse.
"- Você sabe que a “corrente cristalina do âmago destilada” trata-se das lágrimas pois elas são a manifestação física de um sentimento, seja ele tristeza, raiva, dor ou alegria.”
“- Correto. Mas há também a expressão “da primavera flor primeira”. Você achava que a flor se tratasse da Primula vulgaris vulgaris e isso fez todo sentido para mim.”
“- A palavra “flor” neste contexto trata-se apenas de um conceito, uma abstração, e não se refere ao objeto em si. Cheguei a esta conclusão quando lembrei-me de uma frase que li há algum tempo:“Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus” - “a rosa antiga está no nome e nada nos resta além dos nomes”. Ou seja, a palavra “flor” é apenas uma nomenclatura, uma metáfora poética. É somente uma maneira respeitosa e carinhosa para referir-se às mulheres. Lembra-se ? Você mesmo disse-me uma vez que eu era tão suave e graciosa que me parecia uma flor do campo.”
“- Recordo-me bem disso. Mesmo porque continuo tendo a mesma opinião sobre você.”
Maria sorriu para ele. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas as lágrimas já haviam cessado.
“- E como foi que você chegou à conclusão de que suas lágrimas eram as apropriadas para serem usadas na poção ?”
“- Você se lembra do sonho de Jean Pierre ? Ele nos disse que deveríamos ficar atentos ao “marco um” da estação das flores … pois bem, a primavera se inicia do dia 20 de março …”
“- Que seria o “marco zero” ou zerésimo dia desta estação.”, concluiu Severus.
“- E o “marco um”, ou primeiro dia, acontece em 21 de março …”
Severus olhou para ela absolutamente surpreso. Sua expressão denotava agora que ele finalmente entendia tudo. “- Que é o dia do seu aniversário !”
Maria limitou-se a assentir com a cabeça pois não queria interromper a corrente de idéias e pensamentos que sabia agora estarem a borbulhar na mente dele.
“- A flor primeira da primavera trata-se então de uma mulher nascida no primeiro dia, ou “marco um” da estação das flores.”, concluiu Severus, após alguns segundos. “- Mas ainda tenho uma pergunta, um último esclarecimento de que preciso para convencer-me de que sua interpretação está correta.”
“- Pois então me conte sua dúvida e eu vou tentar dirimi-la.”, disse Maria.
“- Bom, os Celta-Élficos viveram em outra época e sua cultura aparentemente desapareceu há muitos séculos. Sabendo disso, concluo que não deviam contar o tempo como nós e, provavelmente, a primavera para eles não começava no mesmo momento em que comemoramos o início desta estação nos dias atuais.”
“- Você está correto em pensar assim. A noção de tempo que eles tinham era bem diferente da nossa. Entretanto, isso não importa, meu querido. Novamente, o que temos que levar em conta é o conceito e aplicá-lo à nossa realidade. É a idéia que nos interessa e não a manifestação física dela.”
“- Maria, fico abismado com sua extraordinária capacidade de raciocínio e com seu poder de dedução ! Aliás, devo-lhe desculpas por ter sido rude com você hoje quando chegamos ao laboratório. Não tive a intenção de magoá-la. Apenas estou muito …”
“- Cansado.”, completou ela. “- Eu sei, meu querido. Estamos os dois exaustos. Não há do que se desculpar.”
“- Você está certa no que diz. Mas preciso me desculpar sim. Estou cansado, mas isso não é desculpa para tratá-la mal. Você só merece meu carinho e admiração por ser tão perfeita e admiravelmente inteligente. Às vezes não acredito que você seja real. Sua existência é simplesmente boa demais para ser verdade.”
“- Assim você me deixa encabulada. Minha inteligência não tem nada de anormal. Apenas uso o conhecimento que tenho para fazer analogias e chegar a determinadas conclusões. Qualquer um conseguiria fazer isso se tivesse a ciência que tenho sobre a cultura Celta-Élfica. Aliás, se eu fosse tão inteligente assim, já teria desvendado esse mistério há muito tempo. Para dizer a verdade, sinto-me muito estúpida por não ter deduzido tudo isto antes.”
“- Ah, meu amor, não vou discutir com você porque sei que, além de brilhante, você também é muito modesta.”, disse ele, beijando-a na testa. “- Mas agora que temos o mistério finalmente resolvido, vou começar imediatamente o preparo da poção e, assim que ela estiver pronta, ainda poderei também fabricar a fórmula “constrario sensu” que tem uma gota da “visão elementar” como um de seus ingredientes.”
“- E a “Semper Fidelis” ? Você acha que ainda há tempo para retomar o trabalho de onde você parou ?”
“- Infelizmente não. Terei que jogar fora todo o caldeirão pois está irremediavelmente arruinado. Não há nada mais a fazer a não ser recomeçar o preparo.”
“- É mesmo uma pena.”, disse Maria. “- Serão 3 semanas de árduo trabalho literalmente jogadas fora.”.
“- Nada que eu não possa recuperar nos próximos 21 dias.”, falou Severus, levantando-se e pegando sua varinha. Foi então até o caldeirão que ainda borbulhava. A poção, antes dourada e densa, agora estava enegrecida e mole, exalando um forte cheiro de coisa estragada. Ele ergueu a varinha e conjurou um feitiço, fazendo com que o caldeirão e todo seu conteúdo sumissem no ar. Logo depois, conjurou outro feitiço para que dois caldeirões limpos e vazios aparecessem à sua frente
“- E o que Albus queria falar com você de tão importante ?”, perguntou Maria, ainda sentada em sua cadeira. “- Era algo de grave ?”
“- Você acredita que ele mandou me chamar apenas para dizer-me que Lucius Malfoy foi afastado do conselho ? O diretor não poderia ter esperado por outra hora para dar-me esta notícia ?”
“- Então Malfoy está perdendo seu prestígio …”, concluiu ela.
“- Por enquanto, minha querida. Mas essa situação é apenas temporária e não me deixarei enganar. Lucius voltará ainda mais forte. Disso eu tenho certeza absoluta.”, replicou Severus, pegando o frasco que continha as lágrimas dela e despejando seu conteúdo dentro de um dos caldeirões à sua frente. “- Somente o tempo nos dirá se estou certo ou errado. Enquanto isso, a poção da “visão elementar” certamente nos servirá de forte aliado contra nossos oponentes.”
“- Você tem razão.”, concordou Maria. “- Bom, estou me sentindo exausta. Você se importa que eu termine meu trabalho por hoje ?”
“- É claro que não. Você me parece mesmo muito cansada. Vou levá-la até seus aposentos.”
“- Não irei direto para meu quarto. Jean Pierre ficou de entrar em contato comigo e usará a lareira de Albus para isso.”
Severus pareceu ficar intrigado. “- E o que ele tem a falar com você ? Aconteceu alguma coisa de grave ?”
“- Nada demais.”, desconversou Maria. “- Jean Pierre quer apenas conversar. Ele me enviou uma coruja hoje para dizer-me que estava com saudades.”
“- Hum … será que ele ainda quer lhe falar sobre aquele sonho estranho que teve ?”
“- Estranho ou não, já nos foi últil em alguma coisa. O “marco um” da estação das flores foi uma das pistas que segui para tirar a conclusão à qual cheguei hoje.”
“- É verdade.”, concordou Severus.
“- Então … já vou indo. Deixo você aqui com seus caldeirões borbulhantes. Nos vemos amanhã, meu querido.”
Maria foi até ele e despediu-se, beijando-o carinhosamente. Depois saiu do laboratório, deixando-o com a estranha impressão de que ela tramava alguma coisa.