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1. Prazeres Noturnos


Fic: Prazeres Noturnos


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Prazeres Noturnos


 


Prólogo


 


Caro leitor,


Já alguma vez quis saber o que é ser imortal? Caminhar através da noite para perseguir o mal que se alimenta dos seres humanos? Para ter ilimitada riqueza, poder ilimitado? Essa é a minha existência, e é escuro e perigoso. Eu sou herói para milhares, mas não sou conhecido por ninguém. E eu amo todos os meus momentos.


Bom, isso pensei até uma noite, quando me encontrei algemado ao meu pior pesadelo: uma conservadora mulher que se veste como freira. Ela é inteligente, sexy, engraçada, e não quer nada que tenha a ver com o mundo paranormal, em outras palavras, eu.


A minha atração por Gina Weasley vai contra tudo o que no momento eu quero. Sem mencionar que na última vez em que me apaixonei custou-me não só a minha vida humana, mas também a minha própria alma. Mas neste momento estou tentado a querer tentar novamente. Querendo acreditar que o amor e a fidelidade existem. Ainda mais perturbador, pergunto-me se há algum modo que uma mulher possa amar um homem cuja cicatrizes são profundas, muito abaixo da pele, e cujo coração foi danificado por uma traição tão feroz que ele não tem certeza de que vai bater de novo.


Harry da Trácia.


 


 


Uma lenda Grega


 


Acostumado às riquezas do momento de seu nascimento, Harry da Tracia dirigia seu carisma e seu encanto com a mesma destreza que empunhava a espada. Valoroso e audaz regia aos que o rodeavam mostrando em toda ocasião o lado mais apaixonado de seu caráter.


Ardente, selvagem e impaciente, sua vida sempre fora arriscada. Não conhecia o perigo, não estabelecia limites. O mundo era seu alimento e tinha prometido saciar-se dele.


Com a força de Ares, o corpo e o rosto do Adônis e os sensuais dons da Afrodita se via acossado por toda mulher que posasse os olhos nele. Desejavam-no e sonhavam possuindo ao orgulhoso príncipe guerreiro cujas carícias - conforme se assegurava - eram o mais próximo ao gozo paradisíaco que uma mulher pudesse conhecer.


Mas não era um homem cujo coração se domasse com facilidade.


Vivia intensamente, aproveitando cada instante, gozando de todos seus sentidos e satisfazendo todos e cada um de seus selvagens desejos. Desfrutava tanto dando prazer como o recebendo.


As escassas mulheres que tinham conseguido passar uma noite de êxtase a seu lado, tratavam com despótico desprezo a aquelas que só podiam sonhar acariciando aquele delicioso corpo.


Porque ele era a Paixão. O Desejo. Sensual e ardente.


Um guerreiro desde seu nascimento, respeitado e temido por tudo o que o conhecia. Na época em que o Império Romano era invencível, encarregou-se sozinho de rechaçar seu avanço com a mesma destreza que um herói, e encheu seu nome e seu reino de riquezas e glória. Durante um tempo, disse-se que seria o soberano de tudo o mundo conhecido.


Até que um brutal ato de traição o converteu no Soberano da Noite.


Agora caminha pelo sombrio reino que separa a vida do infra-mundo. Não é nem homem nem besta, sua natureza é completamente diferente.


É a Solidão. A Escuridão.


Uma sombra noturna.


Um espírito incansável e solitário cujo destino não é outro que salvar aos mesmos humanos que o desprezam e o temem. Não conhecerá a paz nem o descanso até que encontre à mulher que esteja disposta a não traí-lo. Um coração puro que veja além de seu lado tenebroso e o devolva à luz.


 


 


 


CAPÍTULO 1


 


- Pois eu digo que deveríamos colocá-lo em um formigueiro e lhe jogar algumas migalhas de pão.


Gina Weasley riu ante a sugestão da Selena. Sua irmã mais velha sempre conseguia fazê-la rir, sem importar a tragédia em que estivesse imersa. E isso era exatamente o que estava fazendo, sentada no posto onde Selena lia o tarô e a linhas da mão no Jackson Square uma fria tarde de domingo, em lugar de estar metida na cama com as mantas até as orelhas.


Ainda sorrindo ante a imagem de milhões de formigas mordiscando o pálido e brando corpo do Cliff, Amanda deu uma olhada aos turistas que lotavam a zona comercial de Nova Orleans, até em um escuro dia de novembro.


O aroma do café de chicória quente e dos beignets chegava flutuando do Café Du Monde e cruzava a rua, enquanto os carros passavam zumbindo a uns metros dali. Tanto as nuvens como os céus tinham uma cor cinza escuro que casava à perfeição com o humor anti-social da Gina.


A maioria dos vendedores ambulantes do Jackson Square nem sequer se incomodava em colocar as barracas durante o inverno, mas sua irmã Selena considerava que o seu era um tesouro tão importante como a Catedral de São Louis, que se levantava atrás delas.


Fabuloso tesouro...


A singela mesa onde jogava as cartas estava coberta por uma toalha púrpura que tinha feito sua mãe, acrescentando uns «encantamentos» especiais conhecidos tão somente por sua família.


Madame Selene, a «Senhora da Lua» - como Selena era conhecida - estava sentada depois da mesinha com uma longa saia de cor verde, um suéter de tricô arroxeado e um enorme casaco negro e prateado.


A estranha roupa de sua irmã contrastava enormemente com os jeans gastos da Gina, seu suéter era rosa de botões revestidos de cor café. Mas Gina sempre tinha preferido vestir-se de modo discreto. A diferença de sua extravagante família odiava se destacar. Preferia confundir-se com o ambiente ao seu redor.


- Terminei com os homens. - disse Gina - Cliff foi à última parada do trem a nenhuma parte. Estou cansada de desperdiçar meu tempo e minhas energias com eles. De agora em diante, vou dedicar toda minha atenção à contabilidade.


Selena franziu os lábios com desgosto enquanto embaralhava as cartas do tarô.


- Contabilidade? Está segura de que não lhe trocaram ao nascer?


Gina soltou uma débil gargalhada.


- Em realidade, estou segura de que isso foi o que ocorreu. Eu gostaria que minha verdadeira família me reclamasse antes que seja muito tarde e se manifeste qualquer raridade.


Selena riu dela, enquanto dispunha as cartas de tarô para lê-las.


- Sabe qual é seu problema?


- Sou muito afetada e histérica. - disse Gina com as mesmas palavras que sua mãe e suas oito irmãs mais velhas estavam acostumadas a usar para referir-se a ela.


- Bom sim, isso também. Mas estou pensando que o que precisa é ampliar seus horizontes. Deixa de ir atrás desses tipos com gravata apertada, que não deixam de queixar-se e chorar a sua mãe porque não têm vida. Você, irmã, necessita uma sexy escapada com um homem que acelere seu coração. Refiro a alguém verdadeiramente imprudente e selvagem.


- Alguém como Bill? - perguntou Gina com um sorriso, pensando no marido da Selena, que era ainda mais afetado que ela.


Selena negou com a cabeça.


- OH, não! Isso é diferente. Olhe, em nosso caso, eu sou a selvagem e a imprudente, a que o salva de cair no aborrecimento. Por isso nos complementamos a perfeição. Mas você não te complementa. Você e seus namorados ocupam os primeiros degraus na escada que leva a Cidade do Aborrecimento.


- Ouça, eu gosto de meus tipos aborrecidos. São dignos de confiança e não tem que preocupar-se por suas ascensões de testosterona. Sou uma garota beta em tudo.


Selena soprou e seguiu observando as cartas.


- Dá-me a sensação de que precisa umas sessões com a Grace.


Gina fez uma careta zombadora.


- Já! Como se necessitasse um encontro com uma sexóloga que se casou com um escravo sexual grego ao que invocou através de um livro… Não, obrigado.


Apesar de suas palavras, Gina gostava bastante de Grace Alexander. A diferença da multidão de amigos extravagantes da Selena, Grace sempre tinha sido felizmente normal e com os pés bem plantados no chão.


- Por certo, como estão eles?


- Estupendamente. Niklos aprendeu a andar faz dois dias e agora não há quem o pare.


Gina sorriu ao imaginar-se ao adorável bebê loiro e a sua irmã gêmea. Adorava fazer de babá quando Grace e Julian saíam.


- Quando está previsto que dê a luz?


- Logo nos primeiros dias de março.


- Suponho que estarão encantados. - disse, com uma pequena pontada de ciúmes. Sempre tinha desejado uma casa cheia de meninos, mas aos vinte e seis suas perspectivas pareciam ser escassas. Especialmente, porque não encontrava nenhum homem disposto a ter descendência com uma mulher cuja família toda era demente.


- Sabe? - seguiu Selena com esse olhar especulativo que fazia que Gina se estremecesse - Julian tem um irmão, também vítima de uma maldição que o condena a permanecer em um livro. Poderia tentar…


- Categoricamente que não, obrigado. Recorda que sou a única que se aborrece com todo este lixo paranormal. Quero um homem humano, normal e agradável, não um demônio.


- Príapo é um deus grego, não um demônio.


- Em meu manual, as duas coisas se parecem o bastante. Acredite-me, já me cansei de viver em uma casa com nove pessoas lançando feitiços e todo esse assunto do abracadabra. Quero normalidade em minha vida.


- A normalidade é aborrecida.


- Por que não prova antes de lhe rejeitar?


Selena riu.


- Algum dia, irmã, vai ter que aceitar a outra metade de seus genes.


Gina fez pouco caso dessas palavras enquanto seus pensamentos retornavam ao seu ex-namorado. Tinha acreditado sinceramente que Cliff era o homem de sua vida. Um administrativo agradável, tranqüilo e medianamente atraente, ao que ela tinha tomado por sua cara metade.


Até que conheceu sua família.


Uf! Durante os seis últimos meses tinha adiado apresentação, sabendo o que poderia ocorrer. Mas ele tinha insistido tanto que, ao final, a última noite cedeu.


Fechou os olhos e se estremeceu ao recordar a sua irmã gêmea, Tabitha, recebendo-o na porta embelezada de pés a cabeça com a vestimenta gótica que usava para perseguir vampiros. O conjunto se completava com uma arma de flechas que Tabitha se empenhou em lhe mostrar, além de sua coleção completa de shurikens.


«Esta é especial. Pode abrir a cabeça de um vampiro a mais de duzentos metros».


Se por acaso isso não tivesse sido suficiente, sua mãe e suas três irmãs mais velhas estavam preparando um feitiço de amparo para a Tabitha na cozinha.


E o pior, o mais horrível, chegou quando Cliff bebeu inadvertidamente da taça da Tabitha, que continha sua poção energética feita à base de coalhada, molho apimentado, gema de ovo e folhas de chá.


Teve ânsias durante uma hora.


Mais tarde, Cliff a levou para casa em seu carro.


«Não posso me casar com uma mulher com semelhante família», disse-lhe enquanto lhe devolvia o anel de compromisso. «Deus Santo! E se tivéssemos filhos? Imagina que ocorreria se algum deles era assim de estranho?»


Jogando a cabeça para trás, Gina pensou que ainda seria capaz de matar a toda sua família pela vergonha que lhe fizeram passar. Faria muito mal se comportassem com normalidade tão somente durante um jantar?


Por quê? Por que não tinha nascido em uma família normal, em que ninguém acreditasse em fantasmas, duendes, demônios nem bruxas?


Pensando-o bem, duas de suas irmãs ainda acreditavam em Papai Noel!


Como agüentava seu pai, um homem maravilhosamente normal, todas essas necessidades? Definitivamente, merecia-se que o santificassem por sua paciência.


- Ei, garotas!


Gina abriu os olhos para ver como Tabitha se aproximava.


Certo, genial.


O que viria depois? Atropelá-la-ia um ônibus?


O dia de hoje vai melhorando…


Amava muitíssimo a sua irmã gêmea, mas não nesse preciso momento. Nesse momento desejava que lhe ocorressem coisas espantosas. Que lhe ocorresse algo desagradável e doloroso.


Como era habitual, Tabitha ia vestida integralmente de negro. Calças de couro, suéter de gola alta e casaco comprido, também de couro. Levava a abundante e ondulada juba castanha com reflexos acobreados recolhidos em um largo laço e seus olhos, de um azul pálido, lançavam brilhos. Tinha as bochechas avermelhadas e caminhava alegremente.


Ai, não! Ia à caçada!


Gina suspirou. Como demônios podiam proceder do mesmo óvulo?


Tabitha buscou em um dos bolsos de seu casaco, tirou uma folha de papel e o colocou sobre a mesa, frente à Selena.


- Necessito seus conhecimentos. Isto é grego, verdade?


Sem responder à pergunta, Selena afastou as cartas e deu uma olhada à nota. Franziu o cenho.


- De onde o tiraste?


- Tinha-o um vampiro que pulverizamos ontem à noite. O que diz?


- «O Caçador Escuro está perto. Desiderius deve preparar-se».


Tabitha se meteu as mãos nos bolsos enquanto ditava as palavras.


- Alguma idéia sobre o significado?


Selena se encolheu de ombros enquanto lhe devolvia o papel.


- Nunca ouvi falar de nenhum Caçador Escuro, nem do tal Desiderius.


- Eric diz que «Caçador Escuro» é uma chave com a que se refere a um de nós. O que acredita? - perguntou Tabitha.


Gina já tinha escutado o bastante. Por Deus! Como odiava quando começavam com tudo esse lixo ocultista, demoníaca e vampírica. Por que não cresciam e se incorporavam ao mundo real?


- Garotas. - disse levantando - As verei logo.


Tabitha a pegou pelo braço quando começava a afastar-se.


- Ouça! Não estará ainda doída pelo Cliff, verdade?


- É obvio que o estou. Sei que fizeram tudo de propósito.


Sem preocupar-se absolutamente por ter sido a culpada da ruptura do compromisso de sua irmã, Tabitha lhe soltou o braço.


- Fizemos por seu bem.


- OH, claro! Muito bem. - lhe disse com um falso sorriso - Obrigado por cuidar de mim. Por que não me coloca um dedo no olho quando quiser te divertir?


- Venha, Gi. - lhe disse Tabitha com sua expressão mais adorável, aquela que conseguia que seu pai lhe perdoasse tudo. Mas com ela não funcionava, ao contrário, irritava-a mais - Pode que você não goste do que fazemos, mas nos quer. E não pode te casar com um administrativo estirado que não aceita o que somos.


- O que somos? - perguntou Gina perplexa - Não me inclua nessa loucura. Eu sou a única com os genes recessivos normais e correntes. Vocês são as que…


- Tabby!


Gina se afastou ao ver que o namorado da Tabitha - tão gótico como ela - se aproximava da carreira. Eric St. James era só algumas de centímetros mais alto que elas, mas não resultava estranho, tendo em conta que mediam um metro setenta e cinco. Tinha o cabelo negro e o levava curto, com uma mecha arroxeada. Poderia ter sido muito bonito se não levasse um pendente no nariz, e se dedicasse a procurar um trabalho a tempo completo… ou a mantê-lo.


E deixasse de caçar vampiros, claro!


- Gary averiguou algo sobre esse grupo de vampiros. - disse Eric a Tabitha - Vamos tentar pegá-los antes que fique escuro.


- Estão preparados?


Se Gina seguisse pondo os olhos em branco daquela forma, ficaria cega.


- Meninos, algum dia vão matar um humano sem querer. Lembram-lhes daquela ocasião em que atacaram a um grupo de fanáticos da Anne Frise e Lestat, no cemitério?


Eric lhe dedicou um sorriso satisfeito.


- Ninguém acabou ferido, e os turistas adoraram.


Tabitha voltou a dirigir-se a Selena.


- Pode investigar um pouco e ver se encontra algo sobre o Desiderius e o Caçador Escuro?


- Venha, Tabby, quantas vezes tenho que te dizer que deixe isso? - disse-lhe Eric zangado - Os vampiros estão jogando conosco. O de «Caçador Escuro» não é mais que um termo tolo que não significa nada.


Selena e Tabitha o ignoraram.


- Claro, - disse Selena - embora seja possível que Gary pudesse te ajudar.


Eric suspirou aborrecido.


- Disse que tampouco tinha ouvido nunca. - olhou a Tabitha indignado - O qual significa que não é nada.


Tabitha afastou a mão do Eric de seu ombro e continuou ignorando-o.


- Visto que esteja escrito em grego, é certo que um de seus amigos professores da universidade poderia nos ser de mais utilidade.


Selena assentiu.


- Esta noite perguntarei ao Julian quando for à casa do Grace.


- Obrigado. - Tabitha olhou a Gina, que se encontrava a suas costas - Não se preocupe pelo Cliff. Encontrei ao menino perfeito para você. Conhecemos faz algumas de semanas.


- OH, Senhor! - ofegou Gina - Nenhum só encontro às cegas mais preparado por ti. Ainda não me recuperei da última, e isso foi faz quatro anos.


Selena riu.


- Refere-te ao domador de jacarés?


- Sim. - respondeu Gina - Crocodilo Mitch, que tentou que acabasse como lanche de seu mascote, Big Marthe.


Tabitha soprou.


- Não é certo. Só tentava te mostrar o que fazia para ganhar a vida.


- Me deixe te dizer algo: o dia que deixe que Eric te coloque a cabeça entre as mandíbulas de um jacaré vivo, poderá protestar. Até então, sendo eu a perita nas halitoses de jacaré, mantenho a opinião de que Mitch só procurava um aperitivo fácil.


Tabitha lhe mostrou a língua antes de pegar a mão do Eric e sair disparada rua abaixo, com ele a reboque.


Gina esfregou a frente enquanto observava aqueles dois olhando-se um ao outro, isso provava que havia alguém reservado para cada pessoa. Sem importar quão estranha pudesse ser essa pessoa.


Muito mal lhe tinha que ir para não encontrar a esse alguém.


- Vou para casa a me pôr de mau humor.


- Escuta. - lhe disse Selena antes que pudesse partir - Por que não cancelo meu encontro de esta noite com a Grace e vamos você e eu a fazer algo? Que tal se comermos umas diminutas salsichas à brasa em honra ao Cliff?


Gina sorriu agradecida pela idéia. Não era de se admirar que adorasse a sua família. Apesar do caos, todos a cuidavam com muito carinho.


- Não, obrigado. Posso fazer as Vienenses à brasa eu mesma. Além disso, Tabitha começará a repartir golpes e morrerá se não pergunta ao Julian por seu Caçador Escuro.


- Certo, mas se trocar de idéia, diga-me isso, e enquanto está em casa, por que não chama a Tiyana e lhe diz que prepare um feitiço para encolher o pênis do Cliff?


Gina riu a gargalhadas. Bom, havia ocasiões em que ter uma irmã que era Suma-Sacerdotisa de vodu, resultava bastante útil.


- Confia em mim, não poderia encolher mais. - Piscou o olho a Selena - Nos vemos logo.


Essa mesma tarde, Gina se sobressaltou ao escutar o telefone, tinha-a despertado de seus devaneios. Deixando o livro a um lado, desprendeu o fone.


Era Tabitha.


- Ouça irmã, pode ir a minha casa e levar o Terminator a dar uma volta?


Gina chiou os dentes ante a petição que estava acostumada a receber, como mínimo, duas vezes à semana.


- Vamos, Tabby! Por que não o levou você?


- Não sabia que me ia tão tarde. Por favor. Fará xixi em minha cama como protesto se não sair com ele.


- Sabe Tabby? Tenho uma vida.


- Sim, já. Como se não estivesse sentada só no sofá, lendo a última novela do Kinley MacGregor e comendo um monte de trufas de chocolate, como se o manhã não existisse.


Gina arqueou uma sobrancelha ao fixar-se na quantidade de pacotes de trufas espalhados sobre a mesa, e na novela «Só a você» que estava junto ao telefone.


Merda! Odiava quando suas irmãs faziam isso.


- Venha! - pediu-lhe Tabitha - Te prometo que serei simpática com seu próximo namorado.


Deixou escapar um suspiro, sabia que não podia negar nada a suas irmãs. Essa era sua maior debilidade.


- Se não vivesse ao final da rua te mataria por isso.


- Sei. Eu também te quero.


Com um grunhido entupido na sua garganta, desligou o telefone. Jogou um melancólico olhar ao livro. Merda! Quando começava a meter-se na história.


Suspirou de novo. Bom, ao menos só teria que fazer companhia ao Terminator durante uns minutos. Era um pitbull francamente horroroso, mas nesses momentos, era o único macho ao que podia suportar.


Pegou o suéter que tinha deixado sobre a poltrona e saiu pela porta dianteira. Tabitha vivia a duas quadras e, embora a noite fosse extremamente escura e fria, não gostava de conduzir.


Colocou as luvas enquanto se encaminhava rua abaixo, desejando que Cliff estivesse ali para tirar o cão. Não podia recordar as incontáveis ocasiões em que o tinha enganado para que desse um passeio com o Terminator, a caminho de sua casa.


Tropeçou-se com alguns paralelepípedos e se deu conta de que estava pensando em Cliff pela primeira vez há horas. O que realmente lhe caía mal de sua ruptura era que não sentia falta dele. Em nenhum sentido. Sentia falta de ter a alguém com quem conversar pelas noites, sentia falta de um companheiro com o que ver a televisão. Mas, sinceramente, não podia dizer que sentisse falta dele como pessoa.


E isso era o que mais a deprimia.


Se não tivesse sido por sua extravagante família, teria acabado casando-se com ele, e teria descoberto, muito tarde, que realmente não o amava.


Essa idéia lhe produzia mais calafrios que o gélido vento de novembro.


Afastando ao Cliff de seus pensamentos, concentrou-se na vizinhança. Às oito e meia, estava tudo surpreendentemente tranqüilo para ser uma noite de domingo. Havia numerosos carros estacionados na rua e as janelas das casas iluminavam a danificada calçada. Tudo era normal, não obstante, havia algo espectral no ambiente. A lua minguante, bem alta no céu, projetava retorcidas sombras ao seu redor. De vez em quando, chegavam até ela os longínquos ecos das risadas que transportava o vento.


Era uma noite perfeita para que as forças do mal…


- Fora de minha cabeça! - disse em voz alta.


Por culpa da Tabitha estava pensando nessas coisas! Jesus!


O que ia ser o seguinte? Dedicaria-se a rastrear o pântano com suas irmãs, em busca de estranhas plantas e jacarés para os rituais de vodu?


Tremendo ante a idéia, chegou por fim a horripilante e antiga casa que Tabitha e sua companheira tinham alugado, na esquina da rua. Grafite de um arroxeado gritante era uma das menores da vizinhança. A Gina surpreendia que nenhum vizinho se queixasse dessa horrível cor. A Tabitha adorava, é obvio, já que resultava muito fácil de encontrar para quem não conhecesse a zona.


«Só tem que localizar para casa de estilo Vitoriano, com a grade negra de ferro forjado. Não tem como perder-se.»


Não, a menos que fosse cego.


Depois de abrir a porta da grade, atravessou o jardim e seguiu o atalho que levava até o alpendre. Uma enorme e sinistra gárgula de pedra fazia vezes de vigilante.


- Olá Ted! - saudou a estátua, Tabitha jurava que podia ler os pensamentos - Só vou tirar o vira-lata, está bem?


Tirou as chaves do bolso do suéter abriu a porta principal. Quando entrou no vestíbulo, enrugou o nariz ao notar um aroma pestilento. Uma das poções de sua irmã deveria ter saído errada.


Ou isso, ou Tabitha tinha tentado cozinhar de novo.


Escutou os latidos do Terminator no dormitório.


- Já vou. - disse enquanto fechava a porta, acendia as luzes e cruzava a sala de estar.


Gina tinha um pé no corredor, quando escutou sua voz interior, lhe aconselhando que corresse. Antes de poder sequer piscar, apagaram-se as luzes e alguém a pegou por trás.


- Bom, bom. - disse uma voz sedosa ao ouvido - Pelo menos tenho você, bruxinha. - e intensificou seu «abraço» - Chegou à hora de te fazer sofrer.


Algo a golpeou na cabeça um segundo antes de ver como o chão se aproximava.


 


 


CAPÍTULO DOIS


 


Gina despertou com uma forte dor de cabeça e sentindo-se horrível.


O que havia ps…?


Ficou rígida ao recordar ao cara oculto na casa de sua irmã. Ao lembrar-se de suas palavras.


Aterrorizada, tentou incorporar-se e descobriu imediatamente que se encontrava estendida no chão - que por certo, estava bastante frio - em um quarto coberto de pó.


E algemada a um desconhecido de cabelo loiro.


Tinha um grito entupido na garganta, mas conseguiu contê-lo.


Que não ceda ao pânico. Pelo menos até que descubra o que aconteceu. Conforme parece, Tabitha cumpriu a ameaça de arrumar um encontro às cegas, como naquela ocasião em que «acidentalmente» te encerrou na despensa com Randy Davis durante três horas. Ou quando te «seqüestrou» e te meteu no porta-malas do carro com aquele músico estranho.


Tabitha sempre lhe arrumava encontros muito pouco ortodoxos com meninos. Embora, para ser justa, sua irmã não estava acostumada a deixar ao cara em questão inconsciente antes de obrigá-los a ficar a sós.


Embora com a Tabitha sempre existisse uma primeira vez para tudo. E um encontro «completamente às cegas» era muito de seu estilo.


Obrigando-se a não perder a calma até ter mais informação, Gina deu uma olhada a seu redor. Estavam em um quarto pequeno, sem janelas e com uma porta de ferro oxidada. Uma porta a que não podia aproximar-se sem arrastar a seu «amigo» pelo chão.


Não havia móveis nem nada mais. A única luz na estadia procedia de uma lâmpada que pendurava do teto, no centro do quarto.


Ao menos o perigo não fosse iminente.


Não obstante, essa idéia não oferecia muito consolo. Deu uma olhada ao corpo que estava a seu lado. Encontrava-se deitado de lado, de costas a ela, e um de dois: ou estava morto ou estava inconsciente.


Pensando que a segunda possibilidade seria muito mais agradável que a primeira, aproximou-se dele. Parecia bastante alto e, pela postura, podia-se dizer que o tinham jogado ao chão sem muitos olhares.


Ficou de joelhos lentamente, tremiam-lhe as pernas. Aproximou-se do cara de modo que ao pudesse lhe esticar o braço, que até esse momento, tinha dobrado em um ângulo estranho por causa da algema.


O homem não se moveu.


Olhou-o dos pés à cabeça. Levava um casaco de couro negro, jeans da mesma cor e um suéter de pescoço alto, também negro, que lhe davam um aspecto extremamente perigoso, até em estado inconsciente e deitado no chão. Calçava botas negras de motorista, com umas estranhas incrustações prateadas nas laterais, embaixo do zíper.


O cabelo, moreno e ondulado, caía-lhe sobre o rosto e lhe chegava até a lapela do casaco, ocultando seus traços.


- Desculpe? - sussurrou, enquanto lhe tocava o braço - Está vivo?


Mal sua mão tocou o duro e bem formado bíceps lhe falhou a respiração. Esse corpo prostrado era como aço ao tato. Não havia um lugar que parecesse brando, gotejava força e agilidade.


Vá, vá!


E antes de poder conter-se, deslizou a mão com o passar do braço. Que satisfação!


Deixou escapar o ar de forma lenta.


- Ouça? Senhor? - chamou-o de novo, enquanto lhe sacudia o ombro - Colega importaria-te muito recuperar o conhecimento para que possa partir? Não gosto de estar encerrada em um quarto com um morto mais tempo do que o necessário, sim? Venha, por favor, não faça que isto pareça um fim de semana com o Bernie. Aqui só estou eu e você é um homem muito, muito grande.


Nem se moveu.


De acordo, terei que tentar outra coisa.


Mordendo o lábio, mexeu o homem até deixá-lo deitado sobre suas costas. Ao girá-lo, o cabelo caiu para os lados, junto ao pescoço do casaco, e o rosto ficou à vista.


E Gina ficou sem fôlego. Bom, agora sim que estava impressionada de verdade.


Era muito bonito. Tinha um queixo forte e quadrado e as maçãs do rosto marcadas. Seus traços eram aristocráticos, com uma minúscula covinha no queixo.


OH, Senhor! O cara possuía esse tipo de beleza masculina que só um punhado de mulheres tinha a sorte de ver em carne e osso alguma vez na vida.


Seus lábios eram os mais atraentes que tinha visto jamais, cheios e expressivos. Essa boca estava feita para dar beijos longos e abrasadores…


Em realidade, o único defeito de seu rosto era uma fina cicatriz que descia da orelha até o queixo, ao longo da mandíbula.


Podia rivalizar em atitude com o marido da Grace. E Julian, o semi-deus, era um duro competidor.


Jamais lhe tinha impressionado tanto a aparência de um homem. Sempre tinha preferido a mente ao corpo, especialmente porque qualquer homem com a metade de atraente de que possuía o que estava deitado diante dela nesses momentos, não estava acostumado a ter um coeficiente intelectual maior que o número de seus sapatos.


Ao contrário do que ocorria a sua irmã Tabitha, um traseiro bonito e uns ombros largos não conseguiam chamar sua atenção, necessitava algo mais. Embora…


Passeou o olhar por esse corpo esbelto e musculoso. Com este homem estava mais que disposta a fazer uma exceção.


Se é que não estava morto, é obvio.


Alongou o braço, insegura, e colocou a mão sobre a pele morena de seu pescoço, para comprovar o pulso. Seus dedos encontraram um batimento do coração forte e regular.


Aliviada pelo fato de que estivesse vivo, tentou sacudi-lo de novo.


- Bonitão, ouve-me?


O cara lançou um gemido e abriu os olhos lentamente, piscando várias vezes. Gina se sobressaltou ao ver aqueles olhos. Eram tão escuros que pareciam negros e, quando se fixaram nela se dilataram de forma ameaçadora.


Pegou-a pelos ombros ao tempo que soltava uma maldição.


Antes que tivesse oportunidade de mover-se, o homem já tinha girado no chão levando-a consigo e a tinha apanhada sob seu corpo lhe sujeitando os dois pulsos sobre a cabeça.


Esses cativantes olhos negros a estudavam com malícia.


Gina não podia respirar. Cada centímetro do corpo do desconhecido estava intimamente pego ao dela e acabava de dar-se conta de que seus braços não eram a única parte que estava dura como uma pedra. O cara era sólido como uma rocha.


Seus quadris repousavam sobre os dela e o duro e liso ventre masculino estava apoiado sobre seu corpo de tal forma que a fez ruborizar-se sem remédio. Começava a desejar a esse homem, estava muito excitada e lhe dava trabalho respirar.


Pela primeira vez em sua vida, queria levantar a cabeça e beijar a um completo desconhecido.


Quem era?


Para seu total assombro, ele baixou a cabeça até pô-la muito perto de seu rosto e aspirou com força sobre seu cabelo.


Gina se esticou.


- Está me cheirando?


O corpo do homem se agitou da cabeça aos pés com a gargalhada, profunda e rouca, que seguiu a sua pergunta, e ela sentiu um estranho estremecimento.


- Só estou admirando seu perfume, ma fleur. - lhe sussurrou brandamente ao ouvido, com uma voz insinuante e um acento estranho que fizeram que Gina se derretesse. Tinha uma voz tão grave que lhe recordava ao som de um trovão… e provocava em seu corpo um efeito tão devastador como o de uma tormenta.


De acordo, o cara a punha muito quente e seu fôlego sobre a orelha lhe arrepiava a pele e lhe provocava contínuos calafrios.


- Você não é Tabitha Weasley. - disse em voz tão baixa que, apesar de que tinha os lábios pegos a sua orelha, ela teve que esforçar-se por escutá-lo.


Gina tragou saliva.


- Conhece a Tabitha.


- Shh. - lhe sussurrou ao ouvido enquanto seus polegares lhe acariciavam os pulsos, que ainda mantinha presos.


O ritmo desses dedos enviava pequenas descargas elétricas ao longo de seus braços. Os mamilos lhe endureceram e sentiu que o desejo a abrasava.


O desconhecido moveu a cabeça, acariciando-a brandamente com a bochecha, de tal forma que o roçar de sua barba voltou a fazer que lhe arrepiasse a pele. Jamais em sua vida havia sentido algo tão excitante como o peso desse corpo sobre ela, nem tinha percebido um aroma tão embriagador como o aroma temperado e masculino de sua pele.


- Estão nos escutando. - lhe disse Harry. Ato seguido voltou a inspirar fundo de novo para desfrutar de seu aroma.


Agora que estava seguro de que a mulher não representava nenhuma ameaça deveria afastar-se dela, mas… Tinha passado muito tempo da última vez que esteve entre as coxas de uma mulher. E uma eternidade desde que se atreveu a aproximar-se tanto de uma. Tinha esquecido a suavidade de uns seios esmagados sob seu torso, a doce sensação de um fôlego quente no pescoço.


Mas agora que a tinha debaixo…


Pelos deuses! Sim o recordava. Recordava o que se sentia quando umas mãos femininas deslizavam por suas costas nuas, quando uma mulher se retorcia sob suas peritas carícias.


Por um instante se abstraiu por completo e imaginou que se despiam ali mesmo e que podia explorar todas essas curvas femininas de forma mais prazenteira.


E muito mais íntima.


Fechou os olhos e imaginou que deslizava a língua por seus seios e brincava com um mamilo erguido enquanto ela enterrava as mãos em seu cabelo.


A mulher se remexeu embaixo dele, fazendo que a fantasia cobrasse vida.


Mmm…


Estava claro que se ela descobrisse quem era ele, ou o que fosse, desmaiaria de terror. E, se parecia um pouco a sua irmã, não deixaria de atacá-lo até que um dos dois acabasse morto.


Uma pena, em realidade. Mas já estava acostumado a que todo mundo o temesse. Era de uma vez a salvação e a maldição dos seus.


- Quem nos escuta? - sussurrou ela.


Abriu os olhos e saboreou o som dessa voz suave e harmoniosa. Como gostava do cadencioso acento sulino… e o desta mulher se deslizava por sua pele como a seda mais fina.


Fazendo pouco caso de sua férrea vontade, seu corpo se agitou em perversa resposta. A necessidade de provar esses lábios cheios e entreabertos enquanto ela abria as pernas para lhe permitir afundar-se em seu calor, cresceu até o limite.


Sim, como desejava saborear a esta mulher…


Todo seu corpo.


Retirou-se um pouco para estudar melhor seu rosto. Tinha uma juba de um castanho profundo, entremeados com fios acobreados que refletiam a luz. Os olhos azuis escuro mostravam confusão e fúria, um fiel reflexo de todo seu caráter. No sedutor rosto se apreciava um diminuto lunar sob o olho direito. Essa marca era a única que a distinguia de sua irmã.


Isso e seu aroma.


Tabitha levava perfumes caros que saturavam seus agudos sentidos, enquanto que esta mulher cheirava ligeiramente a rosas.


Nesse instante, Harry a desejou com uma necessidade tão urgente que ficou petrificado. Fazia séculos que não desejava assim a uma mulher. Séculos desde que havia sentido algo assim.


O rosto da Gina se acendeu ao notar como sua ereção lhe pressionava o quadril. Pode que o cara não estivesse morto, mas não havia dúvida de que estava duro. E isso não tinha nada que ver com o rigor mortis.


- Olhe cara, acredito que precisa encontrar outro lugar onde descansar.


Os olhos dele se pousaram famintos sobre seus lábios e Gina percebeu o feroz desejo que ardia nas profundidades desse olhar negro como a noite. Imediatamente, contraiu a mandíbula com força, como se estivesse lutando consigo mesmo.


Sua força masculina e sua aberta sexualidade a afligiam.


Ali, debaixo dele, deu-se conta de quão vulnerável era. E do muito que desejava provar esses lindos lábios.


A idéia a excitava, mas ao mesmo tempo a aterrorizava.


Ele piscou e, como se houvesse se coberto com um véu, toda emoção desapareceu de seu rosto. Então a liberou.


Quando se separou dela, Gina viu uma mancha de sangue em seu suéter rosa.


- OH, Meu deus! - ofegou - Está ferido?


O homem respirou fundo e se sentou a seu lado.


- Já sanará.


Gina não podia dar crédito a esse tom de voz tão impassível. Tendo em conta a quantidade de sangue que manchava sua roupa, estava claro que a ferida era grave e ainda assim ele não dava sinais de estar dolorido.


- Onde tem a ferida?


Não respondeu. Em lugar de fazê-lo, passou-se a mão esquerda pelo cabelo escuro. Deteve-se para olhar com fúria o enorme grilhão de prata que lhe rodeava o pulso direito e, ato seguido, começou a puxar.


Pela expressão letal e fria de seus olhos, Gina soube que os grilhões lhe incomodavam mais que ela.


Agora que estava acordado, e não em cima dela, Gina ficou extasiada pela escura melancolia que refletiam seus traços. Havia algo muito romântico e atraente em seu rosto.


Um ar muito heróico.


Imaginava, sem nenhum esforço, vestido como um libertino da regência ou como um cavalheiro medieval. Suas feições clássicas lhe conferiam uma qualidade indefinível que parecia estar desconjurado neste mundo moderno.


- Bom. - disse uma voz sem rosto - O Caçador Escuro se despertou.


Gina reconheceu essa voz diabólica, era a mesma pessoa que a tinha golpeado na casa da Tabitha.


- Desi, coração. - disse com tom gélido o homem que se levantava junto a ela enquanto observava os muros cobertos de ferrugem - Ainda segue com seus joguinhos, por isso vejo. Agora, por que não te comporta como um bom Daimon e te aparece ante mim?


- Tudo ao seu devido tempo, Caçador Escuro, tudo ao seu devido tempo. Terá te dado conta de que não sou como outros que se limitam a correr para ocultar do grande lobo feroz. Sou o lenhador mau que se encarrega de matar ao lobo.


A voz imaterial fez uma pausa teatral.


- Tabitha Weasley e você colocaram aos meus numa perseguição implacável. Chegou a hora de que saibam o que é o medo. Quando tiver acabado com vós, suplicarão-me que vos mate.


O Caçador Escuro baixou a cabeça e riu.


- Desi, céu, em minha vida não supliquei por nada, e é bastante possível que o sol se desintegre antes que lhe peça clemência a alguém como você.


- Orgulho. - disse Desi - Eu adoro castigar esse pecado.


O Caçador Escuro ficou em pé e Gina viu a ferida que tinha no lado. A camisa estava ligeiramente rasgada e havia uma mancha de sangue no chão, onde tinha estado sentado.


Mas não deu amostras de estar dolorido.


- Me diga, você gosta de seus grilhões? - perguntou Desi - São da forja do Hefesto. Só um deus, ou uma chave feita pelo mesmo Hefesto, podem abri-los. E já que os deuses lhe abandonaram…


O Caçador Escuro estudou o quarto. A ferocidade que refletiam seus olhos teria espantado ao muito mesmo diabo.


- Vou desfrutar tanto te matando…


Desiderius soltou uma gargalhada.


- Duvido muito que tenha a oportunidade de fazê-lo quando sua amiguinha descubra o que é.


O Caçador Escuro lançou um rápido olhar a Gina, avisando-a de que se mantivesse calada. Mas não fazia falta que o fizesse. Quão último pretendia era trair a sua irmã.


- Por isso nos encadeaste? - perguntou o desconhecido - Quer nos ver lutar?


- Uf, não. - disse Desiderius - Nada mais longe de minha intenção. Por mim não haveria problema em que lhes matassem um ao outro, mas o que pretendo é lhes liberar ao amanhecer. Quando então, o Caçador Escuro se converterá na presa, e eu vou desfrutar enormemente com a perseguição e a tortura a que penso te submeter. Não há nenhum esconderijo onde não possa te encontrar.


O Caçador Escuro sorriu com arrogância.


- Acredita-te capaz de me caçar?


- Claro. É obvio que sim. Se por acaso não sabe, conheço seu ponto débil muito melhor que você.


- Não tenho nenhum ponto débil.


Desiderius riu.


- Assim fala um verdadeiro Caçador Escuro. Mas todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles, especialmente aqueles que servem a Artemisa. E você não é nenhuma exceção.


Gina juraria que tinha escutado ao tal Desiderius lamber-se de satisfação.


- Sua debilidade é sua nobreza. Essa mulher te odeia e, mesmo assim, não a matará, por muito que seja uma ameaça para você. Enquanto ela tenta te matar, você a protegerá de mim com sua própria vida. - Desiderius lançou uma sinistra gargalhada - Não pode suportar que um humano esteja em perigo, não é certo?


- Desi, Desi, Desi… - resmungou o Caçador Escuro - O que vou fazer contigo?


- Não te atreva a me falar assim.


- E por que não?


- Porque não sou nenhum Daimon assustado que foge de ti tremendo de medo. Sou seu pior pesadelo.


O Caçador Escuro soltou um gemido de brincadeira.


- Por que utiliza tantos tópicos? Venha Desidesastre, não é capaz de dizer algo original em lugar de recorrer a um filme de série B?


Um furioso grunhido ressonou na estadia.


- Deixa de te burlar de meu nome.


- Sinto muito, tem razão. O menos que posso fazer é te mostrar algum respeito antes de te matar.


- Já! Não vais matar-me, Caçador Escuro. É você o que vai morrer nesta ocasião. Não pensaste no muito que ela vai atrasar-te? Por não mencionar a seus amiguinhos. Irão sobre você como uma manada de cães selvagens. E, se eu fosse você, rezaria para que fosse isso exatamente o que me acontecesse. Jamais experimentaste o sofrimento que vou infligir-te a próxima vez que nos encontrarmos.


O Caçador Escuro sorriu sem separar os lábios ao escutar as ameaças de Desiderius.


- Está sobre valorizando suas habilidades.


- Já o veremos.


Gina escutou o clique de um microfone.


O Caçador Escuro voltou a atirar com força dos grilhões.


- Vou matar a esse refugo de filme de terror.


- Não, não, não! - bufou Gina ao ver que sua própria mão era sacudida enquanto ele tentava liberar-se - Esse braço está unido ao meu.


O desconhecido se deteve e a olhou. Imediatamente, seus olhos se suavizaram.


A gêmea. Jamais lhe teria ocorrido.


- Tem alguma idéia de onde pode estar sua irmã?


- Nem sequer sei onde estou eu nem a hora que é. E já que nos colocamos, não sei o que está acontecendo. Quem é e quem é esse cara? - Imediatamente, baixou a voz e acrescentou - Pode nos ouvir?


Harry negou com a cabeça.


- Não, desligou o microfone. Por agora deve estar ocupado planejando sua vingança ao melhor estilo Igor. Não sei você, mas eu o imagino esfregando as mãos e rindo-se a gargalhadas como Dexter, já sabe o do Laboratório do Dexter.


Harry a estudou um momento. Não parecia estar histérica… ainda, e oxalá seguisse assim. Dizer que Desiderius era um demônio que sobrevivia extraindo a alma aos humanos - e que ia atrás de sua irmã - não era a melhor maneira de mantê-la calma.


Claro que, dada a inclinação que sua gêmea demonstrava para a caça de vampiros, para a garota não suporia nenhuma surpresa sabê-lo.


Fechando os olhos, introduziu-se na mente de sua forçosa companheira e encontrou a confirmação de suas suspeitas: no fundo tinha medo, como era natural.


Mas ao contrário de sua gêmea, esta não se apressava a tirar conclusões, embora fosse inegável que sentia curiosidade pela situação em que se encontravam e também a enfurecia. Possivelmente pudesse lhe contar toda a verdade sem que ela alucinasse, mas claro, tinha que ter em conta que era sua natureza de Caçador Escuro o que lhe obrigava a conhecer todos os fatos para poder analisar uma situação. Nesse momento, a garota não precisava saber tudo, o essencial seria suficiente. Com sorte, poderia liberá-los a ambos dos grilhões sem ter que lhe revelar nada sobre si mesmo.


- Meu nome é Hunter. - lhe disse solenemente - E esse cara é o homem que quer fazer mal a sua irmã.


- Obrigado, mas isso já captei. - lhe respondeu Gina, franzindo o cenho. Deveria estar assustada por tudo o que estava acontecendo, mas não era assim. Estava muito furiosa para assustar-se. Quão último queria era ver-se mesclada nas loucuras de sua irmã.


Por outro lado, alegrava-lhe que a tivessem pegado a ela por engano, já que Tabitha não teria duvidado em fazer qualquer manobra kamikaze que a tivesse levado a morte. Levantou o olhar para observar ao Caçador Escuro e franziu ainda mais o cenho. Como é que conhecia a Tabitha? E pensando-o bem, como é que podia as distinguir quando sua própria mãe tinha problemas para fazê-lo?


- É um dos amigos de minha irmã?


Ele a olhou sem nenhum tipo de expressão antes de ajudá-la a ficar em pé.


- Não. - respondeu enquanto se dava pequenos tapinhas no peito, os quadris, as costas e as pernas.


Gina tentou não fixar-se nesse corpo tão incrivelmente atlético quando sua mão foi arrastada pelo grilhão. Mas, ao roçar por acidente a parte interna de sua coxa, acreditou que acabaria gemendo. Esse homem tinha sido acreditado para desfrutar de sexo e da velocidade. Uma pena que não era seu tipo. De fato, era a antítese do que ela encontrava desejável em um homem.


Ou não?


O Caçador Escuro lançou uma maldição.


- É obvio, tirou-me o telefone. - murmurou, antes de mover-se e arrastá-la com ele até a porta.


Depois de comprovar o pomo da fechadura, observou atentamente as dobradiças.


Gina arqueou uma sobrancelha ao ver que se desatava a bota esquerda e a tirava.


- O que está fazendo? Preparando-te para te dar um mergulho de cabeça?


Respondeu-lhe com um sorriso de auto-suficiência muito masculina antes de inclinar-se para recolher a bota do chão.


- Tentando sair daqui. E você?


- Tentando não me irritar por sua presença.


Uma faísca de diversão se refletiu em seus olhos antes de concentrar-se de novo na porta.


Gina observou como apertava uma das estranhas incrustações prateadas da lateral da bota e, de repente, uma afiada folha de uns doze centímetros surgiu da ponteira. Definitivamente, este tipo era dos que agradavam a sua irmã. Começou a perguntar-se se também levaria shurikens nos bolsos.


- Ooooh. - exclamou ela com secura - Arrepiante.


Ele a olhou muito sério.


- Neném, ainda não viu nada arrepiante.


Gina sorriu ante seu comportamento de menino durão ao mais puro estilo Ford Fairlane, e soltou um gemido muito pouco feminino.


Ele a ignorou. Usando a folha retrátil, tentou fazer saltar as dobradiças oxidadas.


- Vais romper a folha se não tomar cuidado. - lhe advertiu ela.


Ele a olhou com uma sobrancelha elevada.


- Não há nada neste mundo que possa romper esta folha. - Apertou os dentes e golpeou a bota com o punho - E parece ser que tampouco há nada neste mundo que mova as dobradiças. - mas seguiu tentando um pouco mais - Merda! - resmungou dando-se por vencido. Recolheu a folha e se inclinou para colocar de novo a bota. A parte de trás do casaco se abriu ao mover-se e Gina foi premiada com uma encantadora vista de seu traseiro.


Uf, sim! Bonito traseiro.


A boca lhe secou quando o viu levantar-se de novo até alcançar seu metro noventa e cinco de estatura.


Vá, vá, vá.


Bom, retiro-o. Sim que tinha um traço que lhe resultava irresistível: sua altura. Sempre lhe tinham louco os homens mais altos que ela. E com este tipo poderia calçar-se sem dificuldade uns saltos de oito centímetros sem ofender seu ego.


Tirava-lhe uma boa cabeça.


E isso gostava.


- Como é que conhece minha irmã? - perguntou-lhe, tentando manter seus pensamentos ocupados nessa questão e não no muito que desejava provar esses lábios tão apetecíveis.


- Conheço-a porque não deixa de cruzar-se em meu caminho. - voltou a dar um puxão aos grilhões - O que acontece com os humanos que sempre possuem uma necessidade constante de lhes colocar em assuntos que deveriam ignorar?


- Eu não me meto em assuntos que… - sua voz se desvaneceu quando as palavras que ele acabava de pronunciar penetraram em seu cérebro - «Humanos», os humanos? Por que há dito isso?


O cara não respondeu.


- Olhe. - seguiu ela, elevando o braço para lhe mostrar o grilhão - Estou encadeada a você e quero uma resposta.


- Não, você não quer nenhuma resposta.


Bom, isso sim que não. Aborrecia aos machos alfa. Esses tipos dominantes que pareciam dizer com sua atitude «Eu sou o cara, neném: eu conduzo» lhe davam ânsias.


- Muito bem, machoman. - lhe disse irritada - Não sou nenhuma descerebrada ligeira de cascos que se dedique a fazer olhinhos e pestanejar aos fanfarrões vestidos de couro. Não tente suas táticas de macho comigo. Se por acaso não sabe, em meu escritório me chamam a rompe-pelotas.


Harry a olhou com o cenho franzido.


- Machoman? - repetiu incrédulo.


Jamais em sua extremamente longa vida se encontrou com alguém que tivesse a ousadia de enfrentar-se a ele. Durante sua etapa mortal, tinha conseguido que exércitos inteiros de romanos fugissem aterrorizados antes de chegar a enfrentar-se a eles. Poucos homens se atreveram a olhá-lo frente a frente. Desde que se converteu em Caçador Escuro, legiões do Daimons e apolitas tremiam ante sua mera presença. Seu nome era sussurrado com temor e reverência, e esta mulher acabava de chamá-lo…


- Fanfarrão vestido de couro. - repetiu em voz alta - Acredito que jamais me havia sentido tão insultado.


- Então é que foste filho único.


Ele soltou uma gargalhada pelo comentário. Em realidade, tinha tido três irmãs menores que ele, mas nenhuma se atreveu a insultá-lo nunca.


Deslizou o olhar pelo corpo feminino. Não era uma beleza clássica, mas esses olhos amendoados lhe conferiam uma aparência exótica e lhe recordavam os de uma feiticeira. O cabelo, de cor mogno, caía-lhe desordenado ao redor dos ombros. Mas tinham sido esses olhos azuis os que o cativaram. Quentes e inteligentes observavam-no, entreabertos, com um olhar malicioso.


Um ligeiro rubor lhe cobria as bochechas, obscurecendo o azul de seus olhos. Apesar do perigo no que se encontravam, Harry se perguntava se teria a mesma aparência depois de toda uma noite inteira de puro sexo exaustivo. Imaginava esses olhos obscurecidos pela paixão, o cabelo embaraçado, as bochechas avermelhadas pelo roçar de sua barba e os lábios úmidos e inchados por seus beijos.


A idéia fez que seu corpo se incendiasse.


Até que sentiu o familiar comichão na nuca.


- Logo amanhecerá.


- Como sabe?


- Sei. - atirou dela até pô-la em pé e começou a examinar os enferrujados muros em busca de uma saída - Uma vez que nos liberem teremos que encontrar o modo de nos liberar dos grilhões.


- Obrigado por assinalar o óbvio. - Gina olhou a ferida que tinha no lado e que se via através do rasgão da camisa - Antes necessita que lhe olhem isso.


- Não queira Deus que me sangre até morrer, né? - perguntou com ironia - Porque se não, terá que arrastar meu pútrido cadáver.


Ela enrugou o nariz, enojada.


- Poderia ser um pouco menos mórbido? Jesus! Quem era o ídolo de sua infância? Boris Karloff?


- Em realidade era Hannibal.


- Está tentando me assustar, não é certo? - perguntou ela - Então saiba que não vai funcionar. Cresci em uma casa cheia de poltergeist furiosos e com duas irmãs que estavam acostumadas a invocar demônios pelo prazer de lutar com eles. Tipo vi de tudo e seu humor negro não funciona comigo.


Antes de dar-se conta do que ela estava fazendo, Gina pegou o bordo da camisa e a levantou. Ficou gelada ao ver seu estômago nu. Era liso e duro, com uns fantásticos abdominais, bem marcados, que qualquer atleta invejaria. Mas o que a deixou boquiaberta foram as cicatrizes que lhe cobriam a pele.


E, o que parecia pior, a horrível ferida que lhe atravessava o lado e que chegava por debaixo das costelas.


- Deus santo! O que te passou?


Ele se baixou a camisa de um puxão e se afastou dela.


- Se referir às cicatrizes, demoraria anos em lhe contar isso. Se o disser pela ferida, fez-me isso um apolita de uns treze anos ao que confundi com um menino que necessitava ajuda.


- Fizeram-lhe uma armadilha?


Ele se encolheu de ombros.


- Não é a primeira vez.


Gina tragou saliva e o olhou da cabeça aos pés. Rodeava-o uma aura poderosa e letal. Movia-se como um predador ágil e sigiloso, e esses olhos… Pareciam fixar-se não só no que podia ver com uma simples olhada. Esses cruéis olhos negros brilhavam de forma espectral.


E lhe roubavam o fôlego cada vez que se pousavam nela.


Nunca tinha visto um homem moreno com uns olhos tão escuros. Nem tampouco tinha visto um homem tão arrumado. Seus traços eram perfeitos, como se tivessem sido modelados por um artista. Destilava virilidade, uma sexualidade puramente masculina que parecia quase sobrenatural. Conhecia muitos homens que se esforçavam por projetar o que a mãe natureza lhes tinham concedido de mão cheia.


- O que é um Caçador Escuro? - perguntou-lhe - Se parece em com a Buffy, a caçadora de Vampiros?


Ele riu.


- Sim. Sou uma adolescente baixa e emancipada que vaga por aí lutando contra os vampiros, com uns pendentes que os maus utilizariam para me rasgar as orelhas e atirar deles até…


- Já sei que não é uma garota, mas o que é um Caçador Escuro?


Deixou escapar um suspiro e escapou dela para continuar examinando as paredes do quarto em busca de uma porta oculta.


- Resumindo: acabo com as criaturas que rondam durante a noite.


Gina sentiu um calafrio ao escutar sua superficial explicação, mas soube que havia muito mais. Parecia um tipo letal, embora não havia nele rastro algum de crueldade ou baixeza.


- Por que quer matar ao Desiderius?


Ele a olhou um instante antes de tentar forçar a porta de novo. Sacudiu com tanta força o pomo que a Amanda surpreendeu que não arrancasse a fechadura


- Porque não só se dedica a matar humanos, também rouba suas almas.


Ela se esticou ao escutá-lo.


- Isso é certo?


- Acaba de dizer que viu de tudo. - se burlou ele - Me diga isso você.


Gina sentiu o repentino desejo de estrangulá-lo. Jamais em sua vida se encontrou com um tipo mais presunçoso e enervante.


- Por que acabo sempre metida em todos estes fenômenos paranormais? - perguntou-se em um murmúrio - É muito pedir um dia normal e corriqueiro?


- A vida rara vez é como desejaríamos que fosse.


Ela o olhou com o cenho franzido, confundida pelo estranho tom de voz.


Harry inclinou a cabeça e levantou a mão para lhe indicar que guardasse silêncio.


O pomo da porta fez um som metálico.


- Toc, toc. - disse Desiderius - Têm todo o dia para procurar refúgio. Quando cair a noite sairemos a te caçar.


- Sim, sim. - respondeu Hunter - Você e seu cão, suponho.


O tom jovial surpreendeu a Gina. As inquietantes palavras do Desiderius não tinham feito trinca nele.


- Não lhe assustam suas ameaças?


Hunter a olhou com severidade.


- Chérie, o dia que alguém como ele consiga me assustar, porei-me de joelhos e lhe darei minha adaga para que me arranque o coração. O que temo é o momento de nos enfrentar a sua irmã e convencer à Rainha da Teimosia de que se mantenha afastada de tudo isto até que eu seja capaz de localizar ao Desiderius e mandar sua alma ao esquecimento, que é onde deveria estar.


Gina riu, apesar do perigo que lhes rodeava.


- Rainha da Teimosia? Já vejo que conhece muito bem a Tabitha.


Hunter fez pouco caso de seu comentário enquanto utilizava seu corpo para protegê-la e abria a porta com precaução. Ato seguido parou e deu uma olhada.


Ao outro lado da porta se estendia um estreito corredor, flanqueado por enormes janelas cobertas de uma espessa capa de pó que obscurecia a luz do sol do amanhecer.


- Merda. - grunhiu Hunter em voz baixa, enquanto voltava a entrar no quarto.


- O que acontece? - perguntou Gina com o coração disparado por causa do terror - Há alguém aí fora?


- Não.


- Então vamos. - disse, encaminhando-se para a porta.


Ele não se moveu nem um milímetro. Com os dentes apertados voltou a olhar o corredor e disse algo em um idioma que Gina desconhecia.


- Qual é o problema? - perguntou ela - Está amanhecendo e não há ninguém aí fora. Vamos daqui.


Hunter respirou fundo, como se estivesse irritado.


- O problema não é que haja gente. O problema é o sol.


- E que problema pode ter com o sol?


Duvidou uns instantes antes de abrir a boca e passá-la língua sobre umas presas longas e afiadas.


 


 


CAPÍTULO TRÊS


 


O maravilhoso cara bom é um vampiro!


- Não, não, não e não! - O corpo da Gina era pego com contínuos estremecimentos de terror e lhe estava custando um esforço supremo conter os chiados - Vai chupar meu sangue agora?


Ele levantou uma sobrancelha em um gesto sarcástico.


- É que tenho pinta de advogado?


Gina ignorou o mordaz comentário.


- Vai me matar então?


Ele soltou um suspiro exasperado e seu rosto adotou uma expressão irritada.


- Se tivesse intenção de fazê-lo, não acredita que já estaria morta?


Aproximou-se dela e lhe ofereceu uma ameaça de sorriso malicioso que Gina reconheceu como uma tentativa de intimidação. E como funcionou!


Hunter levantou a mão que tinha livre para lhe acariciar a pele do pescoço, sob a que pulsava a jugular. O roçar, ligeiro como uma pluma, provocou uma onda de calafrios por todo seu corpo.


- Se paro para pensar, poderia te deixar seca e depois te arrancar a mão de um bocado, para me liberar de ti.


Aterrorizada, abriu os olhos de par em par.


- Mas… está de sorte, tampouco tenho intenção de fazer isso.


- Deixa o sarcasmo, sim? - balbuciou com o coração disparado, já que não estava muito segura de que estivesse brincando e de que no momento menos pensado, equilibrasse-se sobre ela com o rosto desencaixado e começasse a lhe chupar o sangue - Resulta difícil fazer frente a esta situação. Ponha-se em meu lugar. Quão único fiz foi ir até para casa da Tabitha para tirar seu cão porque se não ele iria fazer xixi em sua cama. Desde aí passei a ser golpeada na cabeça e acabei encadeada a um vampiro. Perdoe-me se parecer um pouco transtornada neste momento.


Para sua surpresa, Hunter levantou uma mão e deu um passo para trás.


- Tem razão. Suponho que não está acostumada a que a gente te ataque sem motivo aparente.


Por seu tom, Gina soube que ele - muito ao contrário - tinha uma ampla experiência em encontrar-se em meio deste tipo de situações.


Hunter lhe respondeu com um sorriso forçado que não chegou aos olhos.


- Se te servir de consolo, não me alimento de humanos.


Por alguma razão, a confissão serviu para melhorar seu ânimo. Não é que acabasse de acreditar-lhe, mas mesmo assim, sentia-se mais tranqüila.


- Então, é como Anjo?


Ele pôs os olhos em branco.


- Vê muita televisão. - murmurou e acrescentou em voz mais alta - Anjo tem alma. Eu não.


- Está me assustando de novo.


A expressão de seu rosto indicou que estava pensando no que lhe havia dito antes: «Neném, ainda não viu nada arrepiante».


Voltou a olhar ao corredor.


- De acordo. Vamos ter que sair correndo antes que o sol avance. - Hunter lhe dedicou um olhar penetrante - O problema mais grave é que não sei aonde leva este corredor. No caso de que conduzisse a um lugar ao ar livre e sofresse uma agonizante morte por combustão espontânea, necessitaria que me fizesse um favor.


- Um favor? - perguntou com incredulidade. Certamente que merda tinha o cara na cabeça? Intimidava-a, ameaçava-a e se atrevia, depois de tudo, a lhe pedir um favor? - Claro, por que não? - perguntou-lhe.


Tirou-se o anel que levava na mão direita e o ofereceu.


- Necessito que o guarde e que procure uma árvore.


Gina olhou o anel com o cenho franzido. Estava rachado e tinha muitas amolgaduras, o que indicava que tinha sido bastante maltratado. Ou que a mão que adornava tinha sofrido muitas vicissitudes.


Os rubis se engastavam na parte superior e sustentavam uma espada de diamantes, rodeada por diminutas esmeraldas com forma de folhas de louro e rematada por uma safira a modo de coroa. Estava claro que era uma jóia antiga e muito valiosa. Por que o confiava a ela? Sem saber muito bem o que fazer com ele, o meteu no bolso dos jeans.


- Serve qualquer árvore? - perguntou-lhe.


- Qualquer. Quando estiver debaixo da árvore, pronuncia as seguintes palavras: «Artemisa, eu te invoco em sua forma humana».


- Artemis…


Hunter lhe pôs a mão sobre os lábios.


- Pelo Zeus, não o diga até que eu tenha desaparecido. Uma vez tenha pronunciado as palavras, espera até apareça uma mulher ruiva, muito alta, e diga a ela que necessita amparo frente ao Desiderius.


Gina arqueou uma sobrancelha.


- Quer que invoque a uma deusa para que me proteja?


- Se não o fizer, apanhará a você e a sua irmã.


- E que te importa?


- Meu trabalho consiste em proteger aos humanos dos Daimons, isso é o que faz um Caçador Escuro. - embora tivesse adotado uma expressão dura, seus olhos brilhavam de um modo que lhe dizia que atrás daquela história se ocultava muito mais.


- O que são os Daimons? - perguntou-lhe.


- São vampiros com overdose de esteróides e complexo de deuses. Prometa que o fará.


Por que não? Era uma petição muito estranha, mas tendo em conta que estava encadeada com uns grilhões a um vampiro, quem era ela para decidir o que era estranho e o que não?


- Bom.


- Bem. Agora, saiamos daqui a toda pressa.


Antes que pudesse responder, Hunter pegou o grilhão que rodeava seu pulso e correu para a direita, seguindo o corredor. Enquanto corriam sobre o chão todo oxidado, Gina se deu conta de que estavam em uma espécie de fábrica abandonada.


Ao final do corredor encontraram umas escadas que baixavam ao piso inferior. Hunter atirou dela até chegar ao último degrau e apareceram em um quarto enorme com chão de cimento. As antigas paredes metálicas estavam amolgadas e os raios do sol se filtravam através das gretas.


O Caçador Escuro retrocedeu até ficar nas sombras, longe da luz. Seu rosto parecia ligeiramente queimado pelo sol, mas em conjunto, não se via muito mal atrás de sua louca carreira.


- E agora o que? - perguntou-lhe ela enquanto recuperava o fôlego.


Ele nem sequer tinha a respiração alterada. Mas tinha parado os olhos em seus seios com supremo interesse e a olhava de forma um tanto… ardente.


Gina cruzou os braços como barreira de amparo.


E, pela primeira vez, viu-lhe esboçar um verdadeiro sorriso quando caiu na conta de que a mão do Hunter estava perigosamente perto de seu peito. Tão perto que as pontas de seus dedos lhe roçavam o mamilo.


Gina sentiu que o fogo corria por suas veias. Baixou os braços imediatamente até deixá-los a ambos os lados do corpo, tudo isso sob o sorriso zombador dele que, embora malvado e de lábios firmemente apertados, seguia sendo devastador. O brilho de diversão em seus olhos tirava o fôlego e seu rosto se suavizou até mostrar um encanto juvenil que poderia derreter o coração de qualquer mulher.


Deu uma olhada ao redor da fábrica vazia.


- Agora sinto falta de um celular ou um aparelho de telefone. Sabia que deveria ter aceitado a praça de Nova Iorque.


Confundida, Gina levantou o olhar.


- Praça? A que te refere? É que o trabalho de caçar é um emprego regularizado?


- Sim, inclusive me pagam.


- Quem te paga?


Em lugar de responder, Hunter levantou uma mão indicando que guardasse silêncio, um gesto que estava começando a encher o saco. Basicamente, porque sempre pressagiava algum tipo de problema. E já estava cansada de enfrentar-se aos problemas da Tabitha.


Dois segundos depois, escutaram-se os passos de alguém que rodeava o edifício do exterior. Hunter a escondeu entre as sombras, junto a ele, enquanto escutavam com atenção. Tinha colocado o braço livre ao redor de seus ombros, para poder mantê-la pega a seu corpo.


Gina ficou petrificada quando suas costas se apoiou por completo no peito masculino e a assaltou uma onda de inoportuno desejo. A firmeza que possuía o corpo do Hunter a ajudava a entrar em calor, e essa aura de virilidade e poder masculino a subjugavam. E ainda mais inquietante era o agradável aroma a couro e sândalo que começava a invadir seus sentidos.


Desejava a este homem.


Está louca? Este tipo é um vampiro!


Bom, mas um vampiro que está como um trem.


Harry não podia respirar devido à proximidade do corpo da Gina. Seus aguçados sentidos a percebiam por completo. Escutava o ritmo amalucado de seu coração, a secura de sua boca e, o que era pior, podia saborear seu desejo.


E isso o estimulava ainda mais. E lhe recordava por que tinha estabelecido o hábito de evitar às mulheres tanto como lhe resultava possível. Maldito seja Desiderius. Porque, nesses instantes, resultava-lhe muito difícil recordar que não podia possuí-la. E ainda mais difícil era evitar seu aroma. Ou sua forma de mover-se, como a de uma bailarina segura de seus passos. Seu corpo esbelto era a personificação da elegância e não lhe custava muito esforço imaginá-la sentada escarranchada enquanto lhe proporcionava um prazer sexual que, estava completamente seguro, nenhum outro homem lhe tinha dado antes.


Sua virilha se esticou até um ponto próximo à dor. Não podia recordar a última vez que se pôs tão duro por uma mulher. E tinha que jogar mão de toda sua força de vontade para não beijá-la, e para não enterrar os lábios em sua garganta e inalar esse aroma doce e quente enquanto… Flexionou os dedos, aumentando a pressão que exercia sobre os ombros da garota, ao dar-se conta de que só tinha que baixar a mão uns centímetros e poderia acariciar seu peito. Tão somente uns centímetros…


De repente, o som de um walkie-talkie rompeu o silêncio.


- É um pedreiro. - sussurrou Gina, pondo-se a correr para uma janela.


Harry gemeu quando ela o arrastou para a luz do sol e voltou bruscamente para a sombra.


- Sinto-o. - murmurou. Aproximou-se com cuidado à janela, assegurando-se de não expor ao Hunter aos raios do sol - Ei! - exclamou para chamar a atenção do trabalhador, que se encontrava a uns metros de distância, mexendo em um velho trator.


O pedreiro a olhou perplexo. Aproximou-se da janela com o cenho franzido e olhou para o interior. Entrecerrou os olhos ao encontrá-los.


- O que estão fazendo aqui? Esta zona está fechada ao público.


- É uma longa história. - lhe respondeu Gina - A versão resumida é que me deixaram presa. Por acaso não teria um celular? Preciso fazer uma chamada. Importaria de me emprestar isso?


Ainda franzindo o cenho, o cara lhe passou o celular através da janela.


Hunter o tirou imediatamente.


- Ouça! - espetou-lhe, alongando o braço para voltar a agarrá-lo.


Pondo-o fora de seu alcance, ignorou-a enquanto marcava um número.


- Onde estamos? - perguntou-lhe ao trabalhador enquanto se colocava o telefone na orelha.


- Na antiga planta Olson.


- No Slidell?


Gina levantou uma sobrancelha, atônita ao comprovar que o Caçador Escuro tinha reconhecido o lugar. Ela levava toda a vida vivendo em Nova Orleans e não tinha nem idéia de que existisse este lugar.


- Sim. - respondeu o homem.


Hunter assentiu com a cabeça.


- Ouça. - disse a seu interlocutor - Sou eu. Estou na antiga planta Olson, no Slidell. Sabe onde está?


Fez uma pausa para escutar o que tivesse que lhe dizer a pessoa que se encontrava ao outro lado da linha.


Gina o observou atentamente. Surpreendia-lhe que fosse capaz de falar sem ensinar as presas, mas os dissimulava muito bem. E, agora que pensava, como podia um vampiro estar tão bronzeado e sua pele ser cálida ao tato? Como tinha pulso? Como é que seu coração seguia pulsando? Não se supunha que os vampiros fossem não-mortos, pálidos e frios?


- Sim. - disse Hunter - Necessito que me tire daqui, preferivelmente antes que o dia avance.


O Caçador Escuro cortou a chamada e arrojou o telefone ao trabalhador, que esperava ao outro lado da janela.


- Ei! - gritou-lhe Gina, tirando o braço pela janela para reclamar o telefone - O necessito.


- A quem vai chamar? - perguntou-lhe Hunter de modo ameaçador.


- Não é teu assunto.


Tirou-lhe o telefone de novo.


- Enquanto estejamos encadeados é meu assunto.


Gina o olhou com os olhos entrecerrados e pegou o telefone.


- Me toque o nariz, tio, e dou dois passos à direita.


O furioso e candente olhar que lhe dedicou o Caçador Escuro fez que um calafrio lhe percorresse as costas.


- Não te atreva a chamar a sua irmã.


A fúria que refletia seu rosto conseguiu que Gina repensasse e retrocedesse, já que não queria tentar a sorte. Entregou o telefone ao homem.


- Obrigado. - lhe disse.


O cara se colocou o celular no cinto e a olhou de forma acusadora.


- Têm que partir, já sabe que isto é…


O Caçador Escuro levantou a mão e os olhos do homem perderam toda expressão.


- Não há ninguém no edifício. Vá fazer seu trabalho.


O cara se afastou sem dizer uma palavra mais.


Controle mental? Gina olhou boquiaberta ao Hunter. É obvio que tinha poderes mentais. Era um vampiro.


- Será melhor que não use esse truque comigo. - lhe disse Ginaa.


- Não se preocupe. É muito obstinada para que funcione.


- Bem.


- Não, desde meu ponto de vista não é bom.


Embora as palavras fossem cortantes, havia uma luz na profundidade de seus olhos que indicava que não estava tão molesto como pretendia fazer acreditar.


Ela o olhou com receio. Estava apoiado sobre uma coluna, com ar despreocupado e, mesmo assim, Gina tinha a impressão de que estava absolutamente atento a tudo o que os rodeava, tanto no interior do edifício como no exterior.


- Por que te converteu em um vampiro? - perguntou-lhe antes de pensar o que ia dizer - Te converteu alguém contra sua vontade?


Ele abriu os olhos e levantou uma sobrancelha.


- Ninguém se converte em Caçador Escuro a menos que o deseje.


- E você esteve de acordo porque queria… - sua voz se desvaneceu enquanto esperava que lhe explicasse.


- Acabar com humanas intrometidas que não deixam de me dar à lata com suas perguntas.


Gina deveria estar assustada, mas ainda ressonavam em seus ouvidos as palavras do Desiderius, segundo as quais Hunter jamais faria mal a um humano.


Seria certo?


Percorreu com o olhar seu delicioso corpo, desejando poder estar completamente segura.


Ambos ficaram calados durante uns instantes, até que foi incapaz de suportá-lo por mais tempo.


- Então... - disse, tentando romper o incômodo silêncio - Quanto acredita que teremos que esperar?


- Não sei.


- A quem chamou? - Um novo intento de conversação.


- A ninguém.


Gina respirou fundo e lutou por controlar o súbito impulso de estrangulá-lo.


- Você não gosta que lhe façam perguntas, verdade?


- Quer que te seja sincero? Nem sequer eu gosto de falar. Prefiro esperar em silêncio.


- Ensimesmado?


- Sim.


Gina soprou um bufo.


- Bom, pois resulta que estou aborrecida, e se tiver que estar aqui esperando a que venham nos socorrer, eu gostaria de me entreter com algo.


O olhar do Hunter desceu até seus lábios e, muito devagar, seguiu baixando até seus seios e seus quadris. Depois fechou os olhos, mas Gina tinha visto o desejo voraz naquelas profundidades escuras. Podia sentir seu desejo, um desejo violento e exigente.


- Me ocorre um modo de te entreter…


Ela abriu os olhos de par em par.


- Não irás morder-me, verdade?


Hunter lhe respondeu com um pícaro sorriso.


- Não quero te morder, agapeemenee. Quero te despir e mordiscar cada centímetro de sua pele, especialmente seus pec…


Gina alargou um braço e lhe tampou a boca com a mão para fazê-lo calar. A suavidade desses lábios, em contraste com a aspereza de sua barba, deixou-a aturdida. E o contato de sua pele sob a mão provocava uma espécie de descarga elétrica. Tragando saliva, separou-se dele.


- Pensava que os vampiros não podiam ter relações sexuais.


Ele levantou uma sobrancelha e a olhou com expressão zombadora.


- Que tal se você e eu levamos à cabo um pequeno experimento, só para provar?


Gina pensou que deveria sentir-se molesta. Deveria zangar-se. Deveria sentir-se de qualquer forma, salvo excitada por suas palavras.


Mas, enquanto percorria com o olhar esse corpo esbelto e perfeito, a idéia começava a lhe resultar cada vez mais atraente.


Harry notou sua confusão. Estava considerando sua oferta. Se o ardor em sua virilha não tivesse sido tão insuportável, inclusive se teria rido. Mas, tal e como estavam as coisas, nem ele mesmo estava muito seguro de se sua proposição tinha sido um simples jogo ou se o havia dito a sério. Quão único sabia com certeza era que seu corpo respondia ao dela. Era exatamente o tipo de mulher que sempre lhe tinha atraído: inteligente e valente.


Em poucas palavras: fascinante.


Deu uma olhada à parede que se levantava atrás dela e imaginou o que sentiria ao apoiá-la ali enquanto a penetrava forte, rápido e grosseiramente. Quase podia sentir-se já em seu interior. Podia escutá-la gemer em seu ouvido e ele… Harry sacudiu a cabeça para afastar as imagens. Havia ocasiões em que odiava suas habilidades psíquicas. E esta era, definitivamente, uma delas.


Passando-a língua pelos lábios ressecados, recordou a época de sua vida em que não teria duvidado em levar-se a uma mulher como esta à cama. Uma época em que lhe teria tirado essa roupa conservadora e anódina e tivesse beijado cada centímetro de sua pele nua até que se entregasse ao desejo e se comportasse com selvagem desenfreio. Uma época em que a tivesse acariciado até levá-la ao bordo da loucura uma e outra vez, enquanto ela se aferrava a ele lhe pedindo mais.


Apertou os dentes ao sentir que o sangue começava a lhe ferver. Como gostaria de voltar a viver aqueles dias.


Mas isso tinha sido muito tempo atrás. E não importava o muito que a desejasse, ela não estava disponível para ele.


Jamais conheceria seu corpo.


Jamais a conheceria ela. Ponto. Por isso não lhe tinha perguntado o nome nem lhe havia dito o seu. Não tinha nenhuma intenção de usá-lo. Ela não era nada mais que outra pessoa anônima a que tinha jurado proteger. Não haveria mais intimidade que essa entre eles. Era um Caçador Escuro, e ela uma humana não iniciada. Não lhes estava permitido mesclar-se.


Levantou a vista ao escutar o longínquo uivo de uma sereia que se aproximava e deu as obrigado silenciosamente ao Tate por seu dom da oportunidade.


Gina deu uma olhada pela janela ao escutar a ambulância. Era muito estranho que se detivera frente à fábrica. Imediatamente, as portas do edifício se abriram, deixando passo à ambulância.


- Nosso táxi? - perguntou.


O Caçador Escuro assentiu.


Uma vez a ambulância esteve no interior da fábrica, de modo que a luz do sol não a alcançasse, um homem afro americano muito alto saiu dela e se aproximou. Deixou escapar um comprido assobio ao ver o rosto do Hunter, queimado pelo sol.


- Tio, parece um desastre. Deveria perguntar pelos grilhões?


Hunter pôs-se a andar para o condutor da ambulância, precedendo a Gina.


- Não, a menos que queira morrer.


- Bom. - disse o homem, de bom humor - Posso imaginar, mas temos um problema: não irão passar despercebidos em uma bolsa para cadáveres, com isso posto. Alguém pode notá-lo sem dúvida nenhuma.


- Já o pensei. - disse Hunter - Se alguém perguntar diga que morri de um enfarte durante uma selvagem sexy escapada com ela.


Uma arrepiante sensação desceu pelas costas da Gina ao recordar essa mesma palavra em boca da Selena no dia anterior.


- Como há dito?


Hunter a contemplou com um olhar divertido e lhe fez saber que estava desfrutando enormemente com sua tortura.


- E que não pode encontrar a chave.


Tate soltou uma gargalhada.


- Não. - lhe disse Gina acaloradamente.


Hunter lhe dedicou esse sorriso pícaro dele que a deixava totalmente derretida. A forma em que seus olhos a percorreram de cima abaixo lhe provocou um estremecimento.


- Olhe o lado bom: terá uma fila de homens interessados em te pedir um encontro.


- Não tem graça.


Hunter se encolheu de ombros.


- É a única maneira de sair daqui.


- Será para você. - lhe respondeu ela - Eu posso sair caminhando agora mesmo e fazer que te desintegre.


Ele levantou uma sobrancelha.


- Tenta-o.


E o fez. Para dar-se conta imediatamente de que os vampiros altos e perigosos não se movem nem um milímetro a não ser que queiram fazê-lo.


- Bom. - disse ela, esfregando o pulso que o grilhão acabava de marcar - Vamos à ambulância então.


Hunter abriu a marcha.


Quando chegaram à parte traseira do veículo, ele a levantou com tal facilidade que a deixou perplexa. Ela se colocou no lado esquerdo, tentando lhe deixar sitio, mas era tão alto que teve que agachar-se e, com um movimento grácil, tombou-se na maca, no interior da bolsa negra que estava aberta para resguardá-lo.


Sem dizer uma só palavra, Tate fechou o zíper.


- Fazem isto com muita freqüência? - perguntou Gina.


Tate sorriu de forma indolente a seu amigo.


- De vez em quando.


Gina franziu o cenho quando Tate fechou o zíper de modo que sua mão ficasse no exterior e a do Hunter coberta pelo plástico negro. Parecia-lhe muito estranho que o homem estivesse tão disposto a ajudar a um vampiro.


- Como vocês se conheceram? - perguntou ao Tate.


- Estava me alimentando de um cadáver quando ele chegou. - lhe respondeu Hunter do interior da bolsa.


Tate riu enquanto ficava em pé.


- Uma noite, depois de receber uma chamada, fui recolher um cadáver que resultou estar vivo. Se não fosse pelo Hunter, teria sido eu o que acabava na bolsa.


- Fecha a boca, Tate - resmungou Hunter - e conduz.


- Já vou. - disse Tate, totalmente alheio ao modo ditatorial no que Hunter o tratava.


- Sabe uma coisa? - começou a dizer Gina ao Hunter no instante que Tate arrancou o motor - Poderia tentar ser mais amável com as pessoas. Especialmente se lhe estão ajudando.


Inclusive através do plástico se escutou o suspiro de irritação.


- Não deveria aplicar o conselho, a você mesma?


Gina abriu a boca para responder e, ato seguido, fechou-a. Estava no certo. Comportou-se de um modo bastante desagradável com ele desde o começo.


- Suponho que tem razão. Possivelmente os dois deveríamos tentar não dificultar mais.


Gina não soube se ele chegou a responder, já que a sereia começou a uivar de novo. Tate os levou até o hospital em um tempo recorde, mas a viagem distava muito de ter sido prazenteira. Quando chegaram, tinha a sensação de ter passado pela centrifugação de uma máquina de lavar roupa.


Tate levou a ambulância até a parte traseira do hospital e estacionou sob um toldo que os protegeria dos raios do sol. Com a advertência de que permanecesse calada, tirou a maca com muito cuidado para não lhe fazer dano ao braço e desceram ao mesmo tempo da ambulância.


Uma vez cruzaram as portas do edifício, Gina manteve fechado o casaco para ocultar as manchas de sangue de seu suéter.


Hunter permaneceu completamente imóvel e em silêncio enquanto Tate empurrava a maca pelas zonas mais concorridas. Gina caminhava junto a eles, mas, para falar a verdade, queria morrer da vergonha dado o óbvio que resultavam os grilhões.


Tinham que brilhar tanto sob a luz dos tubos fluorescentes? Não podia Desiderius ter escolhido umas algemas pequenas e discretas, como as da polícia?


Claro que não, tinham que medir doze centímetros e levar uma inscrição em grego a seu redor, mais uma cadeia que media seus bons dez centímetros. Qualquer que as visse pensaria, sem dúvida alguma, que as tinha conseguido em um dos catálogos de jogos sexuais da Tabitha. Pequeno espanto! Ela jamais tinha entrado em um Frederick’s of Hollywood. E mais, ficava vermelha como um tomate cada vez que entrava em um Vitória’s Secret…


Além disso, todos os que aconteciam seu lado se giravam para olhá-los boquiabertos.


- Não tinha visto isso há pelo menos seis meses. - disse um dos zeladores quando passaram junto ao mostrador de admissões.


- Já me contaram isso. - lhe respondeu um companheiro - Sabe quantos anos tinha o desafortunado?


- Não sei, mas pelo aspecto da garota eu assinava agora mesmo.


Suas gargalhadas fizeram que lhe ardesse a cara. Pelos olhares interessados que os homens lançavam a seu corpo, supôs que a predição do Hunter a respeito de suas possíveis encontros não ia muito desencaminhadas.


- Tate? - chamou-o um jovem médico conforme se aproximavam dos elevadores - Deveria perguntar?


Tate negou com a cabeça.


- Já sabe que toda a merda como esta sempre acaba em meu escritório.


O médico riu enquanto Gina se tampava a cara com a mão. Mal as portas do elevador se fecharam atrás deles, murmurou:


- Hunter, juro-te que vou matar-te por isso.


- Querida. - lhe disse uma anciã que ajudava como voluntária no hospital e que estava a seu lado - Parece que já o tem feito. - E deu alguns tapinhas no braço da Gina - A meu Harvey e eu ocorreu o mesmo. Pobre. Eu também sinto falta dele.


Tate esteve a ponto de afogar-se pelo esforço de sufocar a risada.


Gina lançou um grunhido e rezou para que o horrível suplício chegasse a seu fim.


Uma vez no depósito de cadáveres, Tate os levou a um laboratório pouco iluminado, de paredes metálicas, e fechou a porta com chave. Hunter abriu o zíper de dentro.


- Obrigado. - disse ao Tate enquanto se incorporava e começava a sair da bolsa. Dobrou-a e a colocou sobre uma mesa.


Tate abriu uma das gavetas do armário situado junto à porta.


- De nada. Agora, te tire a camisa e me deixe que veja o que te passou.


- Já se curará.


Tate apertou a mandíbula com firmeza.


- E a infecção o que?


Harry lançou uma gargalhada.


- Os imortais não morrem de uma infecção. Nenhuma enfermidade pode me afetar.


- Pode que não morra, mas isso não quer dizer que não lhe adoeça e que não sare mais rápido se a tratarmos. - Dedicou um olhar ao Harry que dizia bem às claras que não ia deixar se intimidar - Não aceitarei um não por resposta. Deixe-me curar essa ferida.


Harry abriu a boca para seguir discutindo, mas, se havia algo claro, era o teimoso que Tate podia chegar a ser. Para não esbanjar o tempo, decidiu obedecer… e então se deu conta de que não poderia tirar o casaco e a camisa por causa dos grilhões.


Com um suspiro de exasperação, deixou que a roupa pendurasse do braço e se aproximou de novo à maca para tombar-se e esperar ao Tate apoiado sobre os cotovelos. Enquanto o via reunir o material necessário, escutou como o coração da Gina começava a pulsar mais rápido e sua respiração se acelerava. Sentiu o agudo interesse que despertava nela a visão de seu corpo. Desejava-o, e esse ávido desejo estava causando estragos nele.


Moveu-se um pouco, desejando que seu jeans fosse de tamanho maior, já que o tecido negro estava começando a lhe incomodar bastante devido a sua ereção.


Merda tinha esquecido a dor, tão literal como alegórico, que sofria seu corpo quando estava perto de uma mulher atraente. E ela era atraente. Como não ia ser com esse fascinante rosto élfico e esses enormes olhos azuis e…


Os olhos azuis sempre tinham sido sua debilidade.


Até sem olhá-la, soube que se estava umedecendo esses lábios exuberantes, da cor das ameixas, e ao imaginar seu sabor ficou a garganta seca. Imaginava como seria sentir seu fôlego sobre o rosto e sua língua contra a sua enquanto a beijava.


Pelos deuses! E ele acreditava que os romanos o tinham torturado… o trabalho do melhor de seus inquisidores tinha sido uma minúcia comparado com a agonia física e mental que a cercania da Gina lhe estava causando.


Mas o que mais o transtornava não era sentir seus olhos fixos nele, a não ser o fato de que tinha levado a situação admiravelmente. A maioria das mulheres teriam chiado de terror ao descobrir sua natureza, ou se teriam posto a chorar.


Ou ambas as coisas de uma vez.


Mas ela tinha agüentado a experiência com uma valentia e uma coragem que fazia muito que não via.


A garota gostava de verdade, e isso era o que mais o surpreendia.


Gina deu um coice quando o olhar do Hunter se cruzou com o seu. Esses profundos olhos negros se cravaram nela e fizeram que se acalorasse e ficasse sem fôlego.


Estava deitado na maca com uma perna dobrada e a outra pendurando sobre o bordo. Os estreitos jeans negros se pegavam a seu poderoso e enorme corpo.


E esses braços tão musculosos…


Era um modelo de beleza masculina, todo fibra e músculos. Tinha os bíceps flexionados, já que estava apoiado sobre os cotovelos, e o desejo de aproximar-se para acariciá-los era tão forte que quase lhe doía o corpo. Não tinha a mais mínima dúvida de que seriam duros como uma rocha e teriam a textura do cetim.


Seus ombros eram incrivelmente largos e os músculos que se sobressaíam falavam de sua força, rapidez e agilidade. Seus peitorais e seus braços estavam iguais de desenvolvidos e definidos.


E seu ventre… OH Senhor! Esses abdominais tinham sido acreditados para deixar um rastro de beijos úmidos sobre eles.


De forma inconsciente, seu olhar se deslizou pela magra linha de pêlo de cor castanha que começava sob seu umbigo e descendia até desaparecer sob os jeans. Pelo tamanho do vulto que se apreciava nas calças, Gina podia afirmar que estava generosamente dotado e que seu interesse para ela era mais que evidente.


E isso avivou ainda mais seu desejo.


A cor dourada de sua pele desafiava as idéias que tinha a respeito dos de sua espécie. Como era possível que um vampiro estivesse bronzeado e sua pele fora tão incitante?


Mas mais tentadora que a visão dos proeminentes músculos, que pediam a gritos ser acariciados, era a multidão de cicatrizes que o cobriam. Dava a sensação de ter sido atacado por um tigre enorme, ou de ter sido açoitado com um látego em algum momento de sua vida.


Ou ambas as coisas.


Hunter se tornou para trás quando Tate se aproximou e Gina viu um pequeno símbolo que parecia ter sido gravado a fogo em seu ombro esquerdo, um arco dobro com uma flecha. Encolheu-se mentalmente ao imaginar o muito que lhe teria doído e se perguntou se ele o teria desejado ou se alguém o tinha marcado contra sua vontade.


- Dá-me a sensação, por suas cicatrizes, de que seus amigos vampiros não lhe cuidam muito bem. - lhe disse.


- Você acredita? - replicou ele.


- Sempre é assim de sarcástico? - perguntou Gina, dirigindo-se ao Tate.


- Em realidade acredito que contigo estava sendo bastante agradável. - Tate estava limpando a horrível ferida com álcool. Preparava a zona para lhe injetar uma dose de anestesia local.


Hunter o pegou pelo pulso antes que pudesse lhe cravar a agulha.


- Não te incomode.


- Por quê? - perguntou-lhe Tate com o cenho franzido.


- Não me faz efeito.


Gina ficou boquiaberta.


Tate alargou o braço para pegar o material necessário e começar a suturar.


- Não pode fazer isso. - lhe disse Gina, interrompendo-o, vai sentir tudo.


- Necessita que a ferida se feche. - insistiu Tate - Jesus! Se lhe vêem as costelas pelo buraco.


- Segue. - lhe disse Hunter com uma tranqüilidade que deixou pasmada a Gina.


Petrificada, observou como Tate começava a costurar e não pôde evitar fazer uma careta de dor.


Hunter manteve a mandíbula firmemente apertada e não disse nada.


Ela seguiu observando o processo. Encolhia-lhe o coração ao pensar na dor que devia estar sofrendo.


- Não te dói? - perguntou-lhe.


- Não. - lhe respondeu com os dentes apertados.


Ela sabia que estava mentindo, só terei que fixar-se nas veias que se marcavam em seu pescoço e no modo em que apertava os punhos.


- Toma. - disse lhe oferecendo a mão - Aperta forte.


Harry ficou perplexo ao sentir a suavidade da mão da Gina sob a sua. Não recordava a última vez que alguém o havia tratado daquele modo. Levava tanto tempo sendo um Caçador Escuro que tinha esquecido o que era a delicadeza.


Tate atuava movido pela gratidão e certo sentido de obrigação.


Mas ela…


Não havia nenhum motivo para que lhe desse a mão. Apenas se lhe havia dito duas palavras civilizadas e, entretanto, ali estava perto dele quando ninguém mais o teria feito. A situação começava a despertar estranhos sentimentos nele. Dava-lhe vontade de protegê-la. E sentia uma enorme ternura.


Mas não era só isso, havia muito mais, uma simples carícia da Gina o abrasava e lhe chegava ao coração. Tragou saliva e ficou rígido. Não podia deixar que se aproximasse muito. Gina era uma criatura de luz e ele procedia das sombras.


Eram incompatíveis.


- Me diga, quanto tempo faz que é um vampiro? - perguntou ela.


- Já lhe hei isso dito, - lhe disse ele com a mandíbula apertada - não sou um vampiro. Sou um Caçador Escuro.


- E qual é a diferença?


Harry a olhou com severidade.


- A diferença está em que não tenho por norma assassinar humanos, mas, se não deixar de me interrogar, é possível que faça uma exceção.


- É uma insuportável criatura da Noite.


- Eu também te quero.


Gina lhe soltou a mão.


- Ah, com que disso se trata! - exclamou - Só estava tratando de te consolar. Não o permita Deus! Deveria deixar que fossem amáveis contigo de vez em quando.


Irritada, deu-se conta de que Tate a olhava surpreso.


- Não pode lhe cortar o braço, já que estamos, para que possa me liberar dele?


Tate soltou um gemido.


- Poderia fazê-lo, mas acredito que o necessitará. Antes lhe cortaria isso a você.


- Genial! Mas o que é você, seu Igor?


- Equivocaste-te de filme. - a corrigiu Tate - Igor era o lacaio do Frankenstein. Refere ao Rendfield. E não, não sou Rendfield. Meu nome é Tate Bennett, juiz de primeira instância e instrução deste distrito.


- Já tinha imaginado o de seu trabalho. É bastante óbvio, já que estamos em um laboratório muito frio, cheio de mortos.


Tate levantou uma sobrancelha.


- E você o chama sarcástico?


Hunter deu um coice ao sentir que Tate atirava muito forte do fio.


- Sinto-o. - se desculpou Gina - Não o distrairei mais.


- Agradeceria-lhe isso.


Uma vez que Tate teve finalizado, Hunter voltou a colocar a camisa e o casaco. Desceu-se da maca deixando escapar um imperceptível gemido, o único indício de que lhe doía o lado.


O bip do Tate começou a soar.


- Não demorarei. Necessitam algo, meninos?


- Estou bem. - lhe respondeu Hunter - Mas ela necessitará algo para tomar o café da manhã e um telefone.


Gina arqueou uma sobrancelha ao escutar suas palavras. Por que a deixava agora utilizar o telefone?


Tate limpou toda a desordem com rapidez.


- O telefone está na parede do fundo. Marca o nove para conseguir linha com o exterior. Pegarei algo da cafeteria e retornarei tão rápido como posso. Fique aqui e fechem a porta com chave.


Mal ficaram sozinhos, Hunter se moveu para que ela pudesse sentar-se no banquinho que havia junto ao telefone. Piscou várias vezes e se esfregou os olhos, como se fossem muito sensíveis à luz dos fluorescentes.


- Necessitamos um plano. - lhe disse em voz baixa - Não conhecerá alguém na cidade que saiba o modo de romper uns grilhões forjados por um deus grego?


Amanda sorriu, estava-se acostumando a seu sarcasmo.


- Em realidade, acredito que conheço alguém.


O rosto do Hunter se animou imediatamente. Pelo amor de Deus! O cara era incrível quando não estava ladrando ou franzindo o cenho.


- Uma de suas irmãs?


- Um de seus amigos.


Ele assentiu com a cabeça.


- Bem. Precisamos fazê-lo preferivelmente antes do pôr-do-sol, ou ao menos não muito depois. Também teria que chamar a Tabitha e lhe dizer que não se deixe ver durante alguns dias.


- Recordo-te, se por acaso te esqueceu, que não aceito ordens de ninguém. Mas…! - exclamou, elevando a voz, antes que ele pudesse interrompê-la -… sou consciente de que tudo isto me supera. Não sabe quanto odeio todo este lixo sobrenatural. Assim é que estou desejando te escutar, mas será melhor que comece a te comportar como se dirigisse a uma pessoa, e não a uma boneca hinchable sem cérebro. - tirou o anel do Hunter do bolso e o devolveu - E outra coisa, preciso ir ao banheiro já.


Hunter soltou uma gargalhada.


- Não me faz graça. - lhe espetou ela enquanto o observava colocar-se de novo o anel no dedo - Alguma sugestão a respeito de como podemos fazê-lo sem que me morra de vergonha no processo?


- Isso não é o pior, o que sugere para que não me prendam por estar no asseio de senhoras?


Lançou-lhe um olhar afiado.


- Se acredita que vou entrar no asseio de cavalheiros, esquece-o.


- Então suponho que terá que te agüentar.


- Não penso entrar no asseio de cavalheiros!


 


Cinco minutos mais tarde, Gina se encontrava no asseio de cavalheiros amaldiçoando ao Hunter em voz baixa.


- O de te comportar como um tirano te sai de forma natural, verdade?


- É o que dá sentido a minha vida. - respondeu ele, enquanto lhe dava as costas, com um tom de voz que denotava seu aborrecimento. Tinha dobrado o braço algemado até colocá-lo atrás de suas costas para, desse modo, permitir que Gina tivesse mais liberdade de movimentos.


Olhou-o irada. Sentia a bexiga a ponto de estalar, mas lhe resultava muito difícil aliviar-se, embutida entre ele e a porta do serviço. E tudo porque Tabitha não se incomodou de tirar seu maldito cão! Saía-se desta ia assassinar a sua irmã. A matá-la. A esquartejá-la!


- Por que demora tanto? - perguntou-lhe ele com tom acusador.


- Não posso fazê-lo contigo aí plantado.


- Quer que vamos?


- Te espere! Antes ou depois tocará a você e vou desfrutar de muito te vendo sofrer.


Hunter se esticou ante suas palavras.


- Neném, nunca poderia me fazer sofrer.


A frieza de sua voz a assustou.


Levou-lhe uns minutos mais, mas finalmente, acabou. Sentia o rosto mais acalorado que se encontrasse em pleno o Equador durante uma tarde do verão. Lavou-se as mãos tentado não olhar ao Hunter.


- Tem papel higiênico pego ao sapato. - lhe disse ele, lhe olhando os pés.


- Vá, como não! - exclamou ela - Algo mais que consiga fazer isto ainda mais embaraçoso para mim? O que te parece se passa a um terreno mais íntimo?


Um malvado sorriso se refletiu em seus olhos antes que esse olhar escuro e penetrante descendesse até seus lábios. Gina tivesse jurado que podia sentir sua avidez, a profunda necessidade de tocá-la.


Antes que ela fosse consciente de suas intenções, Hunter lhe pegou a cabeça com a mão livre, acariciou-lhe o lábio inferior com o polegar e se inclinou para capturar seus lábios.


Atônita, foi incapaz de pensar nem de mover-se enquanto os quentes lábios do Hunter separavam os seus.


O aroma do couro e o sabor do vampiro invadiram seus sentidos. Jamais em sua vida havia sentido um pouco parecido ao que estes lábios lhe estavam provocando. O beijo do Hunter era tórrido e feroz enquanto a mantinha fortemente abraçada, assaltando-a como um assaltante a sua vítima. Tudo e cada um dos hormônios de seu corpo responderam imediatamente. Um gemido gutural escapou de seus lábios. Céus! O cara sabia beijar. E a sensação desse sólido corpo contra o seu era tão incrível que não pôde evitar aferrar-se a seus ombros, ansiosa e desesperada por seguir saboreando-o.


A língua do Hunter brincava com os seus enquanto esses firmes músculos se contraíam sob suas mãos e, ao lhe roçar acidentalmente as presas com a língua, uma descarga de prazer a percorreu de cima abaixo.


Pela primeira vez desde que se inteirou de que tipo de criatura era, começou a lhe resultar atraente a idéia de que lhe mordesse o pescoço. Mas mais sugestivo até, era pensar nele tendido no duro e frio chão, excitando-a com todos esses poderosos músculos e esse corpo esbelto até que os dois ficassem a cem e acabassem suarentos e extenuados.


Harry se esticou ao provar o primeiro bocado de ambrósia que se permitia em dois mil anos. Imediatamente, foi consciente de todas essas curvas suaves e femininas que se apoiavam contra sua masculinidade, do aroma a flores e sol que desprendia. Coisas que lhe tinham sido arrebatadas fazia séculos.


Havia magia no beijo da Gina. E uma paixão descontrolada e básica. Tinham-na beijado antes, mas Harry sabia que ninguém lhe tinha feito sentir o que estava experimentando nesses momentos. Com o corpo em chamas, percorreu-lhe as costas com a mão e a apertou ainda mais contra ele. Desejava-a com uma intensidade que lhe era desconhecida dos dias em que tinha sido mortal. Ansiava com todas suas forças acariciar a dos pés à cabeça e passar com suavidade as presas por seu pescoço e seus seios.


E senti-la agitar-se entre seus braços…


Fechando os olhos, inalou esse aroma doce e feminino enquanto seu corpo palpitava de desejo, com uma necessidade básica e ancestral que quase raiava na dor.


Gina ofegou ao sentir a mão do Hunter deslizar-se por seu lado, do peito até a cintura, para rodear depois seu traseiro. Nunca tinha deixado que um homem a tocasse dessa maneira, mas o Caçador Escuro tinha algo ao que fosse incapaz de resistir. Quando a aprisionou contra a parede com toda a força da paixão que sentia e se pegou a ela, acreditou que ia derreter-se… literalmente. O roçar deste torso contra seu peito o fazia ser mais consciente de seus fortes músculos.


Hunter lhe separou as pernas utilizando uma de suas coxas e o levantou até pressioná-lo com seu sexo, provocando que Gina se estremecesse ainda mais e que vaiasse de prazer quando ele aprofundou o insaciável beijo.


Rodeou-lhe o pescoço com o braço livre para tê-lo mais perto enquanto sentia que tudo girava a seu redor. Como seria fazer o amor com um indômito depredador como Hunter e acariciar todos esses músculos que se contraíam cada vez que se movia?


Hunter abandonou seus lábios e traçou um úmido caminho com a língua da boca até a orelha. Gina sentiu o roçar de suas presas sobre o pescoço e se estremeceu. Seus seios se incharam ainda mais, desejando suas carícias. E, enquanto isso, ele não deixava de pressionar a coxa entre suas pernas, fazendo-a que ardesse ainda mais. Os joelhos lhe afrouxaram de tal maneira que teve que apoiar-se por completo nele.


Subitamente, alguém golpeou a porta.


- Ei, vocês dois. - se escutou a voz do Tate e a porta se abriu com um rangido - Vem alguém.


O Caçador Escuro se separou dela com um grunhido. E Gina foi consciente, nesse momento, pelo que tinha feito.


- Por Deus! - ofegou - Acabo de beijar a um vampiro!


- Pelos deuses! Acabo de beijar a uma humana!


Gina o olhou com os olhos entrecerrados.


- Está-te burlando de mim?


- Meninos! - chamou-os Tate de novo.


Hunter a tirou do braço e a precedeu ao sair dos banheiros. O zelador os olhou de um modo estranho, mas não disse nada ao entrar em banho uma vez eles saíram.


Tate os guiou até seu pequeno escritório, situado fora do depósito.


Havia um velho escritório de madeira colocado junto à parede do fundo, com duas cadeiras dispostas frente a ele. Um sofá com um travesseiro e uma manta pulcramente dobrada ocupava a parede da direita e à esquerda havia alguns arquivos metálicos. Tate lhe assinalou o telefone do escritório e os deixou para ir atender seus assuntos.


Fazendo um esforço para deixar de pensar no que acabava de acontecer nos asseios e no estupendamente bem que se havia sentido abraçando ao Hunter, chamou a Tabitha enquanto ele permanecia de pé a seu lado.


É obvio, sua irmã começou a lhe jogar a bronca por não ter tirado o cão.


- Bom. - lhe respondeu Gina, irritada - Sinto muito que Terminator se mijasse em sua colcha nova.


- Seguro - lhe disse Tabitha - posso saber o que te passou ontem à noite?


- Como? É que suas habilidades psíquicas falham? Fui atacada em sua casa por um de seus colegas vampiros.


- O que? - gritou Tabitha - Te encontra bem?


Gina levantou a vista até o Hunter e não soube muito bem o que dizer. Fisicamente estava bem, mas lhe tinha feito algo estranho que não podia definir com palavras.


- Sobrevivi. Mas lhe estão procurando, assim tem que te ocultar em um lugar seguro durante algumas de dias.


- Nem o pense.


Hunter lhe tirou o telefone das mãos.


- Me escute, menina. Tenho a sua irmã em meu poder e, se não sair de sua casa e desaparece durante os próximos três dias, encarregarei-me de que sua gêmea deseje que me tivesse obedecido.


- Se a tocas, atravessarei-te com uma estaca.


Ele soltou uma gargalhada cheia de amargura.


- Será assim se consegue te aproximar de mim. Agora, sai de sua casa e deixa que eu me encarregue disto.


- E Gina?


- Está a salvo enquanto você me obedeça. - passou o telefone a Gina.


- Tabby. - disse a sua irmã com acanhamento.


- O que te tem feito? - exigiu saber Tabitha.


- Nada. - lhe respondeu Gina com o rosto cada vez mais ruborizado ao pensar no beijo que tinham compartilhado. Não lhe tinha feito nada… salvo pô-la incrivelmente brincalhona.


- Bom, me escute. - lhe disse sua irmã - Vou à casa do Eric, reuniremos aos meninos e sairemos em sua busca.


- Não! - exclamou Gina quando viu que o olhar escuro e furioso do Hunter descendia até seu rosto. O coração quase lhe deteve o recordar que podia escutar a sua irmã. - Pode escutá-la? - disse-lhe, articulando as palavras com lábios.


Ele assentiu.


Gina sentiu um calafrio.


- Me escute, Tabby. Estou bem. Faz o que te diz, bom?


- Não sei o que fazer.


- Por favor, confia em mim.


- Confio em você, mas e ele? Merda, nem sequer sei quem é.


- Eu sim sei. - lhe disse - Vá para casa de mamãe, manterei-me em contato, de acordo?


- De acordo. - acessou Tabitha a contra gosto - Mas se não escutar sua voz antes de esta noite às oito, sairei de caça.


- Muito bem, falaremos então. Quero-te.


- Eu também. - Gina desligou o fone - O ouviu?


Hunter se inclinou sobre ela, aproximou-se tanto que Gina podia perceber o calor que emanava de seu corpo. O escuro olhar a imobilizou.


- Todos meus sentidos estão extremamente desenvolvidos. - Seus olhos desceram até o peito da Gina. Observou como lhe endureciam os mamilos pela intensidade de seu olhar - Posso sentir como seu coração se acelera e seu sangue corre com mais rapidez por suas veias enquanto está aí sentada, te perguntando se for te fazer dano ou não.


O cara era certamente aterrador.


- Faria? - sussurrou.


Ele voltou a olhá-la aos olhos.


- Você o que acredita?


Gina manteve a vista fixa nele, tratando de descobrir suas intenções por seus gestos ou seu comportamento. Mas o cara era como um muro de tijolos.


- Se te for sincera, não sei.


- É mais lista do que pensava. - lhe disse enquanto dava um passo para trás.


Gina não soube o que lhe responder. De modo que chamou o trabalho e lhes contou que estava doente e que se tomava o dia livre.


Hunter voltou a esfregá-los olhos.


- Incomodam-lhe as luzes? - perguntou-lhe ela.


Ele baixou a mão.


- Sim.


Gina recordou o comentário a respeito de seus agudos sentidos.


Antes que pudesse lhe perguntar qualquer outra coisa, ele pegou o telefone e marcou um número.


- Olá, Rosa. Como vai?


Espanhol? Pensou perplexa. Falava espanhol corretamente?


Mas o que resultava mais inquietante era escutar o incrivelmente atraente som de sua voz com aquele estranho acento.


- Sim, bem. Preciso falar com o Nick, por favor.


Hunter sustentou o telefone apoiando-o entre o ombro e a bochecha, enquanto se massageava o pulso, onde o grilhão lhe estava deixando uma marca avermelhada. Gina se perguntou se daria conta da ferocidade que refletiam seus olhos cada vez que olhava os grilhões.


- Ouça, Nick. - continuou falando depois da pausa - Necessito que recolha meu carro que está na esquina do Iberville e Clay, e o traga para o St. Claude. Pode deixá-lo no estacionamento reservado para os médicos. - deixou o grilhão e voltou a pegar o telefone - Sim, sei que é um asco trabalhar para um imbecil como eu, mas não se esqueça do salário e do resto de compensações. Vêem as três e, uma vez que deixe aqui o carro pode ir para casa cedo.


Fez uma breve pausa e depois continuou:


- Agarra a maleta do armário… Sim, esse. Necessito que a traga e que a deixe no hospital, junto com meu jogo de chaves de emergência, em nome do Tate Bennett. - esticou-se, como se o tal Nick houvesse dito algo que o incomodasse - Sim, pode tomar o dia livre manhã, mas mantém o bip ligado e o celular também, se por acaso necessito algo.


Hunter soltou um grunhido.


- Menino, não me encha o saco. Não esqueça que sei onde dorme. - Embora as palavras fossem afiadas, estava claro que no fundo não era mais que uma brincadeira - Bom, mas não te ocorra voltar a queimar a embreagem. Vemo-nos logo.


Gina o olhou e levantou uma sobrancelha enquanto ele pendurava o telefone.


- Quem é Nick?


- O menino dos recados.


Ela o olhou boquiaberta.


- Meu deus! Acaba de responder uma pergunta? Céus será melhor que chamemos urgentemente ao Tate antes que te desabe morto, ou não-morto, ou o que seja que acontece com os vampiros.


- Já, já. - lhe respondeu Hunter com um sorriso.


Merda, quando sorri é um vampiro muito sensual…


- Nick sabe o que é? - perguntou-lhe.


- Só as pessoas que precisam saber o que sou têm essa informação.


Gina sopesou sua resposta durante um instante.


- Suponho que, nesse caso, encontro-me entre os privilegiados.


- «Malditos» seria mais apropriado.


- Não. - disse ela ao analisá-lo mais a fundo - Quando deixa o sarcasmo de lado e não te comporta de forma medonha nem ditatorial, não resulta tão insuportável estar a seu lado. - e acrescentou com malícia - Claro que, desde que te conheço, essas foram suas atitudes mais habituais, excetuando possivelmente algumas de ocasiões, de modo que… quem sou eu para te julgar?


O rosto do Hunter se suavizou.


- Não sei você, mas eu preciso dormir. Foi uma noite muito longa e estou exausto.


Gina também se encontrava bastante cansada, mas ao observar o sofá de pele sintética, deu-se conta de que não poderiam dormir ali os dois juntos.


Hunter lhe dedicou um sorriso.


- Para você o sofá, eu durmo no chão.


- Poderá?


- Dormi em lugares piores.


- Sim, mas não necessita um ataúde?


Hunter a olhou com uma faísca de diversão nos olhos, mas não disse nada ao aproximar-se do sofá.


Ginaa não tinha feito mais que tombar-se quando se deu conta de que não ia funcionar.


- Isto é muito incômodo. Não posso dormir com o braço pendurando e além disso necessito um sofá o dobro de comprimento que este.


- E o que sugere?


Pegou a manta e o travesseiro e se esticou no chão, do seu lado.


Harry se encolheu quando a cercania de seus corpos lhe fez ser consciente do calor que desprendia Gina. O pior era que para poder dormir com comodidade, teria que lhe passar o braço pela cintura.


Como se fossem amantes.


A idéia o atravessou e se cravou em seu coração com tal impacto que durante um minuto se esqueceu de respirar. Nesse momento, recordou a última vez que tinha cometido o engano de aproximar-se de uma mulher e baixar a guarda. De forma involuntária, foram as imagens do sangue e as lembranças de uma dor brutal e interminável. A sensação foi tão real que voltou a encolher-se.


Isso é o passado, disse-se a si mesmo. Lembranças que são história.


Mas alguns costumes resultam impossíveis de esquecer. E nem sequer um homem com poderes psíquicos hiperdesenvolvido podia as enterrar.


Não pense no que aconteceu.


Não era momento para recordar. Tinha que ser prático. Desiderius iria atrás dele assim que caísse a noite e, se queria salvar a Gina e a sua irmã, teria que estar bem acordado e alerta.


Fechou os olhos e se obrigou a relaxar-se.


Até que Gina se moveu e seu traseiro lhe roçou a virilha.


Harry apertou os dentes. Sentia-se a ponto de estalar em chamas tão somente pelo aroma a rosas que desprendia. Fazia tanto tempo que não se deitava com uma mulher… Tanto tempo desde que se atrevesse a fechar os olhos com uma mulher a seu lado…


A necessidade era uma puta traiçoeira. Mas já tinha aprendido a lição enquanto lutava contra os romanos. Tragou saliva e se obrigou a deixar a mente em branco. Não havia nada em seu passado que fosse digno de recordar. Nada, exceto um sofrimento tão fundo que, ainda depois de dois mil anos, deixava-o prostrado de joelhos.


Concentre, disse, jogando mão de seu firme treinamento militar. É hora de descansar.


Gina se esticou quando Hunter se moveu e se acomodou atrás dela. Quando lhe aconteceu o braço por cima lhe acelerou o coração. Esse corpo forte e esbelto pressionava suas costas de um modo muito inquietante. Olhou fixamente sua mão, que jazia diante de seu rosto. Hunter tinha dedos largos e elegantes, dedos que poderiam pertencer a um artista ou a um músico. Deus santo, resultava muito duro recordar que não era um homem em realidade.


Está deitada com um vampiro!


Não. É um Caçador Escuro. Embora ainda não tivesse entendido muito clara a diferença. Mas já o esclareceria. Encontraria o modo de fazê-lo.


Durante horas, permaneceu tendida, escutando a respiração do Hunter. Soube o momento exato no que por fim ficou dormido, já que sentiu como seu braço se relaxava e a respiração sobre seu pescoço se fez mais pausada.


Escutava os ruídos da gente que ia e vinha pelo corredor do escritório do Tate e as vozes dos zeladores, informando através do sistema de megafonia ou chamando os doutores. Pouco depois do meio-dia, Tate lhe trouxe o almoço, mas ela não quis que despertasse ao Hunter. Comeu-se a metade do sanduíche e continuou deitada no chão, perguntando-se como poderia sentir-se tão segura junto a um vampiro ao que acabara de conhecer.


Girou com cuidado para ficar tendida de costas e poder observá-lo. Era magnífico. O cabelo lhe caía sobre os olhos enquanto dormia e suas facções tinham um encanto muito juvenil. Observou sua boca e recordou o sabor e as poderosas sensações que tinha despertado nela quando se posou em seu pescoço. A lembrança daquele beijo ainda abrasava seus lábios e a fazia estremecer-se. Tinham-na beijado em mais ocasiões das que podia recordar, mas nenhum homem tinha conseguido que sentisse aquilo. O roçar da boca do Hunter sobre a sua tinha incendiado seu corpo.


Como o fazia? O que tinha Hunter que despertava seu desejo até extremos quase dolorosos contra sua vontade? Teria algo que ver com seus poderes de imortal?


Ela não era uma ninfomaníaca. Levava uma vida sexual saudável e muito normal, não muito esporádica, mas tampouco excessiva. Mesmo assim, cada vez que o olhava desejava tocar sua pele, seus lábios, seu cabelo…


O que lhe estava passando?


Desterra o de sua mente. Fechou os olhos e começou a contar do cem para trás.


Quando chegou a menos sessenta, deu-se conta de que era inútil.


Com um suspiro, alargou o braço de modo inconsciente e começou a brincar com o anel que ele levava de novo na mão. Antes de dar-se conta seus dedos estavam entrelaçados.


Hunter murmurou em sonhos e se aconchegou mais contra ela. Gina abriu os olhos de par em par quando sentiu seu quente fôlego no pescoço e sua ereção lhe pressionando perturbadoramente o quadril. Apertou-lhe a mão com força um momento antes de abraçá-la até rodeá-la por completo com seu corpo. Sussurrou algo em uma língua estranha e ficou quieto, ainda dormido profundamente.


O coração da Gina pulsava desbocado. Ninguém a tinha abraçado nunca desse modo. De forma tão possessiva, tão completa. Sentia-se protegida, rodeada por sua força. O mais estranho de tudo era que, no fundo, gostava da situação muito mais do que estava disposta a admitir.


Finalmente dormiu, aconchegada entre seus braços.


 


Gina despertou e sentiu que a perna do Hunter descansava entre suas coxas e que uma de suas mãos, que parecia queimá-la com seu contato, vagava sob sua camiseta, lhe acariciando o estômago. Estava-a abraçando com tanta força que lhe custava trabalho respirar.


- Te senti falta. - sussurrou com ternura, segundos antes de deslizar a mão sob o prendedor e lhe rodear o peito.


Gina deixou escapar um gemido de prazer ao sentir que seus dedos a acariciavam riscando lentos círculos, despertando seu desejo e marcando-a como se tratasse de um ferro candente. Custava-lhe um enorme esforço permanecer tendida de lado e não dá-la volta para beijá-lo.


- Theone. - ofegou Harry docemente.


- Não! - exclamou ela. Ao chamá-la pelo nome de outra pessoa se havia sentido ofendida até a alma. Como se atrevia? Se queria lhe colocar a mão, merda, já poderia recordar com quem estava - O que está fazendo?


Harryn se esticou ao despertar por completo e abrir os olhos. Foi consciente do peito suave e quente que estava acariciando e, imediatamente depois, de uma dor aguda que lhe exigia procurar um alívio imediato.


Merda!


Afastou a mão como se tivesse se queimado.


Que porcaria estava fazendo?


Seu trabalho era protegê-la, não tocá-la. E menos ainda quando parecia encaixar à perfeição entre seus braços. A última vez que tinha cometido esse engano com uma mulher lhe havia lado a alma.


Gina percebeu a confusão no rosto do Hunter enquanto se separava dela e se incorporava até ficar sentado.


- Quem é Theone? - perguntou.


O ódio flamejou em seus olhos.


- Ninguém.


Bom, não gostava de muito a tal Theone quando estava acordado, mas fazia um momento…


Hunter ficou em pé devagar e a ajudou a levantar-se.


- Não tinha intenção de dormir tanto. Quase está anoitecendo.


- O teu com o sol é algum tipo de conexão psíquica estranha?


- Posto que minha vida se reja por sua presença ou sua ausência, sim. - atirou dela enquanto se dirigia para a porta - Então, conhece alguém que pode nos ajudar a nos liberar disto?


- Sim. Deveriam estar em casa, quer que chame para comprová-lo?


- Sim.


Gina se aproximou do escritório, pegou o telefone e chamou a Grace Alexander.


- Olá, Gracie. - a saudou mal Grace pegou o fone - Sou Gina. Vai estar em casa esta noite? Preciso lhes pedir um favor.


- Claro. Meus sogros estarão aqui uns momentos, mas assim os meninos estarão entretidos. Quer me pedir…?


- Por telefone não. Não demoraremos.


- Quais? - perguntou Grace.


- Irei com um amigo, se não te importar.


- Não, para nada.


- Obrigado. Até agora. - E desligou o telefone.


- Bom. - disse ao Hunter - Moram em St. Charles. Conhece o lugar?


Antes que ele respondesse, Tate entrou no escritório com uma maleta negra na mão.


- Olá. - disse ao Hunter - Supunha que já estaria acordado. Um menino chamado Nick veio faz algumas de horas e deixou isto para você.


- Obrigado. - lhe respondeu Hunter enquanto pegava a maleta. Deixou-o sobre o escritório e o abriu.


A Gina quase lhe saíram os olhos das órbitas ao ver o conteúdo: duas pistolas pequenas, uma repetidora, algumas de coldre, um celular, três navalhas de aspecto perigoso e uns óculos de sol pequeno e de lentes muito escuros.


- Tate. - lhe disse Hunter, com um tom tão amistoso que sentiu saudades a Gina - Você sim que bom.


- Espero que Nick não tenha esquecido nada.


- Não, não. Pilhou-o tudo.


Gina levantou uma sobrancelha ante essa linguagem tão informal, em um homem com uma voz tão profunda e sedutora.


Tate se despediu deles com um movimento de cabeça e partiu.


Gina observou como se colocava o coldre ao redor dos quadris, tirava o carregador e colocava uma bala em cada uma das armas. Ato seguido, pôs o seguro, fez girar em ambas as mãos e as meteu nas capas, de modo que o casaco as mantivesse ocultas.


Depois, pegou uma navalha automática e a guardou no bolso traseiro da calça. As outras coisas foram parar aos bolsos do casaco antes que assegurasse o celular e a PDA ao cinto.


Gina voltou a levantar uma sobrancelha ante semelhante arsenal.


- Pensava que bastava uma estaca de madeira para matar a um vampiro.


- Uma estaca de madeira no coração acabaria com qualquer um. E se não o faz, sai correndo como alma que leva o diabo. - disse Hunter brandamente - Volto a lhe dizer, senhora, que vê você muita televisão. É que não tem vida?


- Sim, ao contrário do que ocorre a você, tenho uma vida felizmente aborrecida na qual ninguém tenta me matar. E sabe o que? Eu gosto, e quero que siga sendo assim quando sair desta.


O humor faiscou nos olhos do Hunter.


- Muito bem, então vamos ver seus amigos para que nos separem, de modo que possa recuperar sua aborrecida vida e eu possa voltar a tomar as rédeas de minha perigosa existência.


Percorrendo-a de cima abaixo com um olhar ardente e luxurioso, passou-se a língua pelas presas e se colocou os óculos de sol.


O pulso da Gina se acelerou. Com esses óculos de sol, sua aparência de poeta romântico resultava ainda mais intensa. E lhe estava custando a mesma vida não retornar a seus braços e lhe exigir que a beijasse de novo.


Hunter pegou a mão da Gina, ocultou-a no bolso de seu casaco, junto com a sua - para ocultar os grilhões - e a guiou até o exterior do escritório do Tate e com o passar do corredor do hospital.


Enquanto caminhava, percebeu o modo de andar, ligeiro e ágil, do Hunter. Sua elegância. O cara se desembrulhava com uma graça inata. Tinha desenvolvido uns andar arrogantes e perigosos que chamavam a atenção de toda mulher que passasse a seu lado. Mas ele não parecia ser consciente da atração que exercia e continuou caminhando até chegar à saída posterior.


Uma vez no escuro estacionamento, Gina deixou escapar um assobio ao ver um Lamborghini Diabo em um dos estacionamentos para empregados. A luz da lua se refletia sobre a chapa negra e o rodeava com uma espécie de halo. Normalmente, passava por completo dos carros, mas o Lamborghini sempre tinha sido uma exceção.


Devia ser de um dos cirurgiões.


Ou isso pensava até que Hunter se aproximou dele.


- O que faz? - perguntou-lhe.


- Abrindo meu carro.


Gina o olhou boquiaberta.


- Este carro é teu?


- Não. - lhe respondeu com ironia - Tirei a chave para roubá-lo.


- Por Deus. – ofegou - Deve estar forrado!


Hunter se baixou os óculos de sol e a olhou furioso, por cima das lentes.


- É surpreendente o muito que pode economizar durante dois mil anos.


Gina piscou enquanto seu cérebro registrava a informação. A sério podia ter…?


- De verdade é tão velho? - perguntou-lhe com cepticismo.


Ele assentiu.


- Em julho fiz dois mil cento e oitenta e dois anos, para ser exatos.


Gina se mordeu o lábio inferior enquanto deslizava o olhar pelo fantástico corpo do Hunter.


- Tem uma pinta estupenda para ser tão velho. Eu não te teria jogado mais de trezentos.


Hunter soltou uma gargalhada enquanto introduzia a chave na fechadura.


Ela não pôde evitar que a fantasia de diabo que levava dentro saísse à luz nesse momento para tomar o cabelo.


- Sabe uma coisa? Dizem que os tios que compram estes carros o fazem para compensar um equipamento - disse enquanto seus olhos descendiam pela parte dianteira de seu corpo e se detinham na protuberância que se apreciava sob o jeans - pequeno.


Ele levantou uma sobrancelha e a olhou com um sorriso cálido e travesso enquanto abria a porta.


Antes que Gina suspeitasse o que ia fazer, aproximou-se dela e, afligindo-a com seu poder e aroma masculinos, pegou-lhe a mão capturada pelo grilhão e a apertou contra seu inchado membro.


Não. Ali não teria que compensar nada.


Hunter baixou a cabeça e lhe sussurrou ao ouvido:


- Se ainda não o deixei muito claro…


Ficou sem respiração ao senti-lo sob a mão. Isso não era uma meia.


Hunter a olhou aos lábios e apanhou seu rosto com a mão que tinha livre. Gina soube nesse instante que ia beijá-la de novo.


Sim, por favor!


- Toc, toc. - se escutou a voz do Desiderius das sombras.


 


 


CAPÍTULO QUATRO


 


- Isto sim que é uma patada. - disse Hunter com voz serena enquanto se tirava os óculos de sol e as guardava no bolso do casaco.


Seus movimentos eram deliberadamente lentos e Gina soube imediatamente que era a forma em que o Caçador Escuro fazia saber ao Desiderius o insignificante que lhe resultavam suas ameaças.


- Aqui estou, tentando beijar a minha garota e tem que chegar você a nos interromper. O que acontece? É que te criou em um estábulo?


Com uma calma que deixou pasmada a Gina, Hunter se deu a volta para enfrentar ao Desiderius.


- Por certo, toca à garota, ou ao Lamborghini, e é homem morto.


Desiderius saiu de entre as sombras e se deteve sob um raio de lua. O contraste com a amarelada luz das luzes lhe conferia uma aparência sinistra, apesar de sua beleza angélica.


- Bonito carro o teu, Caçador Escuro. - disse Desiderius - Graças a ele é muito fácil te seguir a pista. E, com respeito a sua ameaça, já estou morto. - seus formosos lábios se curvaram com um sorriso zombador - Igual a você.


Vestido com um traje de raias azul, muito na moda, Desiderius tinha toda a aparência de um modelo. Sua pele tinha uma cor dourada, sem nenhum defeito, e seu cabelo loiro fosse de um tom ligeiramente mais claro que o do Hunter. Era tão arrumado que não parecia real. E não aparentava mais de vinte e cinco anos. Um homem na cúspide de seu magnetismo sexual e de sua força.


Gina sentiu que o medo lhe arrepiava a pele e tragou saliva com força.


Essa beleza sublime em um homem tão perverso acrescentava sua aura malévola. A única indicação de sua verdadeira natureza eram as duas longas presas que não se incomodava em ocultar enquanto falava.


- Quase me chateia te matar, Caçador Escuro. Tem um senso de humor muito especial de que careciam os anteriores.


- Isso intento - disse Hunter colocando-se entre o Desiderius e Gina - por que não faz isto ainda mais interessante e deixa que a mulher se vá?


- Não.


E surgindo de um nada, os Capangas do Desiderius atacaram nesse momento.


Gina escutou um estalo metálico.


Agarrando o pulso que a mantinha unida a ele, de modo que não pudesse lhe fazer dano, Hunter golpeou ao primeiro vampiro loiro com a ponta da bota. Quando viu que o Daimon se desintegrava no ar deixando uma nuvem de pó, Gina se deu conta de que o estalo o tinha produzido a folha retrátil oculta na bota. Imediatamente, a arma voltou para seu esconderijo.


Com um movimento tirado diretamente de Hollywood, Hunter golpeou a outro vampiro com o cotovelo e o enviou voando de costas ao chão. À velocidade do raio, ajoelhou-se, tirou uma navalha e a cravou profundamente no peito do Daimon, quando este também se evaporou, pregou-a e ficou em pé.


Um terceiro atacante surgiu das sombras.


Deixando-se guiar pelo instinto, Gina se girou e lhe deu uma patada. Alcançou-o na virilha e o enviou ao chão entre gemidos.


Hunter a olhou e levantou uma sobrancelha.


- Cinto negro em aikido. - lhe disse ela.


- Se as circunstâncias fossem outras, daria-te um beijo. - sorriu e olhou por cima do ombro da Gina - Te agache.


Ela o fez e ele lançou uma navalha direta ao peito de outro vampiro. A criatura se desintegrou deixando uma nuvem negra.


Hunter desencapou a pistola.


- Te coloque no carro. - ordenou, empurrando-a para o assento do condutor.


Gina entrou tão rápido como lhe permitiram os grilhões, presa de contínuos estremecimentos provocados pela sobrecarga de adrenalina. Passou por cima da mudança de marchas e se acomodou no assento do co-piloto enquanto Hunter disparava aos Daimons.


Ele entrou em carro quando ela esteve preparada, fechou a porta e acendeu o motor. Deus santo, estava surpreendentemente acalmado. Jamais em sua vida tinha visto algo assim. O cara era imperturbável.


Outro arrumado vampiro loiro saltou ao capô no instante em que Hunter dava marcha atrás e pisava no acelerador. Ensinando as presas, o Daimon tentou golpear o pára-brisa.


- Não lhes hei dito que não tocassem o Lamborghini? - queixou-se segundos Hunter antes de tomar uma curva fechada fazendo que o vampiro voasse pelos ares - E eu que pensava que não podiam voar… - disse enquanto endireitava o Lamborghini e saía à estrada - Suponho que Acheron precisa atualizar o manual.


Gina se deu conta de que os perseguiam dois carros.


- Meu deus! - ofegou, rodeando o largo e forte pulso do Hunter com a mão para que este tivesse mais mobilidade e pudesse manobrar melhor com a mudança de marchas. A coisa ficava feia e não queria ser um estorvo para ele, que era o único que podia tirá-la do atoleiro.


- Te agarre forte. - lhe disse ele enquanto punha a rádio e acelerava.


A música do Lynyrd Skynyrd com seu «That Smell» ressonou com força no interior do carro quando saíam do estacionamento e se internavam no tráfego. Com o corpo rígido, Gina começou a rezar o rosário, embora nem sequer fosse católica.


- As luzes! - gritou ao Hunter ao dar-se conta de que conduzia com os faróis apagados e o carro tinha os vidros escuros, coisa que era ilegal - As luzes viriam muito bem neste momento!


- Não acredito, já que me incomodam até o ponto de não ver nada. Confia em mim.


- Que confie em você? - soltou Gina, agarrando-se com a mão livre ao cinto de segurança como se dependesse a vida nisso - Se por acaso não o recorda, não sou imortal.


Hunter soltou uma gargalhada.


- Sim, bom, em um carro esmagado tampouco o sou eu.


Gina o olhou com a boca aberta.


- Odeio seu senso de humor, sério.


O sorriso do Hunter se intensificou.


Atravessaram as lotadas ruas de Nova Orleans a toda velocidade, passando de um sulco a outro até que Gina acreditou que ia vomitar. Por não mencionar que em algumas de ocasiões pensou que ficaria sem mão devido aos movimentos bruscos do Hunter. Tragou com força, em uma tentativa por acalmar as nauseia, e se passou o braço pela cintura, lutando por manter-se direita a aquela velocidade.


Um enorme Chevy negro se colocou à altura do Lamborghini e tentou desviá-los para que se estrelassem contra um trailer. Gina conteve um chiado apertando com força os dentes.


- Não te deixe levar pelo pânico. - lhe disse Hunter, elevando a voz para fazer-se escutar por cima do ruído da música enquanto girava bruscamente para passar por debaixo do trailer e pisava a fundo o acelerador - Tenho feito isto um montão de vezes.


Gina mal podia respirar quando se internaram em outro sulco, onde um Firebird lhes esperava para tentar se chocar com eles. O Caçador Escuro esquivou um carro estacionado com muita dificuldade. Estava tão aterrorizada que só podia emitir pequenos ofegos. E rezar. Centenas e centenas de orações. Quando chegaram a interestadual, tinha visto toda sua vida passar ante seus olhos. E não gostou de nada o que viu. Era muito breve e ainda havia muitas coisas que queria fazer antes de morrer… incluindo pegar a Tabitha e lhe dar uma boa surra.


Subitamente, o Chevy negro apareceu junto a eles e tentou tirar-los da estrada. Hunter pisou no freio e o carro derrapou para um lado.


A Gina lhe remexeu o estômago.


- Sabe uma coisa? - disse-lhe Hunter muito tranqüilo - Ódio aos romanos, mas devo reconhecer que seus descendentes fabricaram um veículo extraordinário.


Trocou de marcha e acelerou de novo, deixando atrás ao Chevy. Atravessando a mediana, internaram-se no tráfego e tomaram uma das saídas para tal velocidade que quão único Gina viu foram os brilhos das luzes em uma espécie de mancha imprecisa. Os chiados dos freios e as apitadas das buzinas encheram seus ouvidos, seguidos pelo estridente som do metal quando o Firebird, cheio do Daimons, chocou-se contra o Chevy negro. O Firebird empurrou ao outro veículo até o muro de contenção, onde deu uma volta de sino e caiu sobre a auto-estrada. Ainda não era capaz de respirar com normalidade quando o Chevy dos Daimons se deteve ao lado do meio-fio sem golpear a nenhum outro carro.


Hunter deu um alarido de júbilo enquanto fazia girar ao Lamborghini bruscamente até deixá-lo em direção contrária. Pisou nos freios a fundo e deu uma olhada ao caos que acabavam de deixar atrás.


Gina se limitou a olhá-lo com a boca aberta e todo o corpo tremendo.


Ele desligou o rádio e a olhou com um sorriso triunfal.


- E sem um só arranhão no Lamborghini… Ja! Mordam o pó, bodes chupa-almas.


Reduziu marcha, pisou a fundo o acelerador e deu uma volta completa em metade da rua, fazendo chiar as rodas antes de dirigir-se ao Bairro Francês.


Gina permaneceu em silêncio, sem dar crédito ao acontecido, e tratou de relaxar-se tomando profundas baforadas de ar.


- Se divertiu bastante, verdade?


- Merda, sim. Viu-lhes a cara? - perguntou, soltando uma gargalhada - Adoro este carro.


Ela olhou ao céu suplicando ajuda divina.


- Meu deus, por favor, me aparte deste louco antes que mora de um susto.


- Venha já. - lhe disse com voz brincalhona - Não me diga que não te tem feito correr o sangue.


- Sim, sim, claro. De fato, acelerou-me isso tanto que não estou segura de como conseguiu sobreviver meu coração. - olhou-o fixamente - É um ser humano totalmente desenquadrado.


A risada do Hunter morreu imediatamente.


- Estava acostumado a sê-lo, ao menos.


Gina tragou saliva ao perceber o vazio de sua voz. Sem querer, acabava de encontrar um ponto débil. O humor de ambos decaiu bastante e Gina lhe deu as indicações precisas para chegar à casa da Grace, no St. Charles.


Poucos minutos depois, estacionavam no caminho de entrada depois do Range Rover negro do Julian Alexander. O pára-lama traseiro estava ligeiramente fundo atrás de seu último encontro com uma luz. Pobre Julian, era um perigo na estrada.


Gina olhou de soslaio a seu companheiro. Depois de tudo, e seguindo com as comparações, Julian não fosse tão mau. Ao menos, jamais a mataria de um enfarte.


Hunter a ajudou a descer do carro através da porta do condutor e a levou em direção a porta. A antiga casa estava completamente iluminada e, através das ligeiras cortinas que cobriam as janelas, Gina pôde ver a Grace sentada em uma poltrona da sala de estar.


Baixa e morena, Grace levava a longa juba recolhida em um rabo-de-cavalo e sua barriga tinha aumentado o dobro da última vez que a viu. Embora faltassem nove semanas para que saísse de contas, a pobre Grace tinha todo o aspecto de ir dar a luz em qualquer momento. Estava-se rindo de algo, mas não havia sinais do Julian nem de seus convidados.


Gina se deteve para acomodar o cabelo com a mão, endireitar sua roupa suja e fechar o casaco para ocultar as manchas de sangue.


- Grace disse que teriam companhia, assim é que acredito que deveríamos tentar parecer despercebidos, de acordo?


Hunter assentiu com a cabeça no mesmo momento em que ela tocava a campainha. Depois de uma breve espera, a porta se abriu e Julian Alexander apareceu no vestíbulo. Com seu quase um e noventa de altura, Julian era tão deslumbrante como Hunter. Tinham a mesma cor de cabelo, mas seus olhos eram do azul mais profundo que ela tivesse visto jamais. Seus traços pareciam esculpidos, mas tendo em conta que era o filho da deusa Afrodita, não fosse de se admirar. O sorriso de bem-vinda se desligou do rosto do homem quando olhou ao Hunter e imediatamente ficou com a boca aberta.


Gina comprovou que Hunter reagia da mesma forma, parecia estar perplexo.


- Julian da Macedônia? - perguntou Hunter com incredulidade.


- Kyrian da Tracia?


Antes que Gina pudesse mover-se, os dois homens se fundiram em um abraço, como se tratasse de dois irmãos há muito tempo separados. Seu braço seguiu o movimento do Harry ao abraçar ao Julian.


- Por todos os deuses! - ofegou Julian - De verdade é você?


- Não posso acreditá-lo. - disse Hunter afastando-se um pouco para olhar ao Julian de cima abaixo - Pensava que estava morto.


- Eu? - perguntou-lhe Julian - E você o que? Ouvi que os romanos lhe tinham executado. Pelo Zeus! Como é possível que esteja aqui? - Nesse momento, baixou o olhar e viu os grilhões - O que…?


- Por isso viemos. - disse Gina - Nos encadearam e esperava que você pudesse nos separar.


- Forjou-os seu padrasto. - acrescentou Hunter - Não terá uma chave em algum lado, por acaso?


Julian riu.


- Suponho que não deveria me surpreender. Pelo menos esta vez não trouxe para uma princesa amazona com uma mãe irada exigindo que lhe cortem certa partes de seu corpo… - Julian meneou a cabeça como se tratasse de um pai arreganhando a seu filho - Dois mil anos depois e ainda segue te colocando em confusões incríveis.


Hunter o olhou com um sorriso forçado.


- Alguns costumes não trocam jamais. Se consegue nos separar ficarei devendo uma a você, não te importa?


Julian inclinou a cabeça.


- A última vez que fiz recontagem, devia-me dois favores.


- Ah, sim! Não me lembrava do da Prymaria.


Pela expressão do rosto do Julian, Gina soube que a ele não lhe tinha esquecido e a verdade era que mataria por inteirar-se do que tinha acontecido. Mas já haveria tempo para isso mais tarde. O primeiro era liberar seu braço. Moveu a cadeia, fazendo que tilintasse.


Julian retrocedeu e os convidou a entrar na casa.


- Tivestes sorte. - lhes disse enquanto os acompanhava até a sala.


Grace não se moveu da poltrona, agora sustentava a Vanessa em seu regaço enquanto a mãe do Julian, loira e esplêndida, ocupava um lugar no sofá e jogava com o Niklos e um de seus ursos de pelúcia. Um homem moreno e alto estava sentado junto à Afrodita e sustentava ao pequeno em seus braços, rindo-se dos dois.


O Caçador Escuro ofegou ao ver a pouco corrente cena familiar e afastou a Gina com um brusco empurrão, momentos antes que Afrodita elevasse a vista e amaldiçoasse.


Antes da Gina pudesse entender o que acontecia, a deusa alargou um braço e de sua mão surgiu uma espécie de raio luminoso que golpeou diretamente ao Hunter. O impacto o atirou ao chão de costas, arrastando-a junto a ele.


Gina aterrissou sobre o peito do Hunter e nesse momento viu a queimadura que o raio lhe tinha provocado no ombro. Cheirava a pele e carne queimada. Sabia que a dor da ferida tinha que ser horrorosa, mas ele não parecia notá-lo. Muito ao contrário, Hunter se tirou os óculos de sol com rapidez, separou-a de seu peito e tentou afastar a dele tanto como fora possível. Ficando em pé se colocou entre a deusa e Gina.


- Como te atreve! - gritou Afrodita com o formoso rosto desfigurado pela ira. Com os olhos entrecerrados se levantou do sofá e se aproximou do Hunter como se tratasse de uma besta mortal espreitando a sua presa - Sabe que está proibido de te mostrar ante nós.


Julian pegou o braço de sua mãe antes que pudesse chegar até o Harry.


- Mãe, detenha! O que está fazendo?


Ela o olhou furiosa.


- Como te atreveste a trazer para um Caçador Escuro ante minha presença? Sabe que está proibido!


Julian franziu o cenho e observou ao Hunter. A incredulidade se refletia em seu rosto.


Hunter olhou a Gina por cima de seu ombro.


- Está a ponto de ser livre pequena. - lhe sussurrou.


Afrodita levantou a mão.


Aterrorizada, Gina se deu conta de que a deusa pretendia acabar com ele. Não! O grito se entupiu em sua garganta enquanto seu coração pulsava a toda velocidade, presa do pânico.


Julian apanhou o pulso de sua mãe antes que pudesse ferir o Hunter de novo.


- Não, mamãe. - a repreendeu Julian - Caçador Escuro ou não, dá a casualidade de que é o único homem que me guardou as costas enquanto todos outros rezavam para ver-me morto. Se o matas, jamais te perdoarei.


O rosto da Afrodita adotou uma expressão pétrea.


Julian a soltou.


- Nunca te pedi nada antes. Mas agora o faço, como seu filho que sou. Ajuda-o. Por favor.


Afrodita olhou ao Julian e ao Hunter alternativamente. A indecisão em seu olhar era tangível.


- Hefesto? - chamou Julian ao homem sentado no sofá - Os liberará?


- Está proibido - respondeu o deus bruscamente - e sabe. Os Caçadores Escuros não possuem alma e estão além de nosso alcance.


- Não passa nada, Julian. - disse Hunter em voz baixa - Lhe peça que o raio não me atravesse para que não fira a mulher.


Foi então quando Afrodita viu a Gina. E seu olhar se posou sobre os grilhões.


- Mamãe? - pediu-lhe Julian de novo.


Afrodita estalou os dedos e os grilhões desapareceram.


- Obrigado. - lhe disse Julian.


- Só o tenho feito para ajudar à humana. - disse a deusa com gravidade antes de voltar para sofá - O Caçador Escuro pode arrumar-lhe sozinho.


Hunter lhe disse as obrigado em silencio ao Julian, deu-se a volta e começou a caminhar para a porta.


- Harry, espera. - lhe disse Julian, detendo-o - Não pode partir estando ferido.


A expressão do Caçador Escuro era impassível.


- Já conhece as normas, adelphos. Me concerto sozinho.


- Não, esta noite não.


- Se ele fica - disse Afrodita - temos que nos partir.


Julian olhou a sua mãe e assentiu com a cabeça.


- Sei, mamãe. Obrigado de novo por ajudá-lo. Até mais tarde.


A deusa desapareceu com um brilho luminoso. Hefesto deixou ao Niklos no chão e ato seguido também se evaporou.


- Julian? - chamou-o Grace da sala - Corre perigo Vanessa se a solto no chão?


- Não. - lhe respondeu ele.


Gina observou o olhar de tristeza nos olhos do Hunter quando os gêmeos se aproximaram correndo a seu pai.


Niklos se afastou feliz de ver a Gina, e começou a tagarelar enquanto lhe tendia os braços. Ela o pegou e o abraçou com força antes de lhe dar um beijo sobre os suaves cachos loiros.


Dando saltos entre seus braços, o menino soltou uma gargalhada e a abraçou.


Vanessa se dirigiu diretamente ao Hunter, coisa absolutamente normal nela, a pequena feiticeira não se arredava ante os estranhos. Estendeu o braço e lhe ofereceu a bolacha pela metade comida que levava na mão.


- G-lleta? - perguntou-lhe com seu falar hesitante, próprio de um bebê.


Ajoelhando-se ante ela, Hunter sorriu com ternura, pegou a bolacha e acariciou com suavidade o cabelo escuro da menina.


- Obrigado céu, - lhe disse com suavidade antes de lhe devolver a bolacha - mas não tenho fome.


Vanessa deu um gritinho e se jogou em seus braços.


Embora Gina vivesse toda uma eternidade, jamais seria capaz de esquecer o olhar desesperado, de profunda dor, que se refletiu nos olhos do Hunter enquanto abraçava à menina contra seu peito. Havia desejo. Sofrimento. Era o olhar de um homem que sabia que sustentava entre seus braços algo que não desejava que lhe arrebatassem.


Fechou os olhos e apoiou a bochecha sobre a cabecinha da Vanessa enquanto apertava os punhos e a abraçava ainda mais forte.


- Pelos deuses, Julian, sempre faz uns meninos tão formosos…


Julian não respondeu enquanto Grace se aproximava, mas Gina reconheceu a angústia em seus olhos ao observar como seu amigo abraçava a sua filha.


Os dois homens intercambiaram um olhar.


Recordavam algo, algum pesadelo vivido por ambos da que Gina não sabia nada.


Julian tomou ao Grace da mão.


- Grace, este é meu amigo Harry da Tracia. Harry, esta é minha esposa.


Hunter ficou em pé com a mesma agilidade que uma pantera negra, sustentando a Vanessa com muito cuidado em seus braços.


- É uma honra te conhecer, Grace.


- Obrigado. - lhe respondeu ela - O mesmo digo. Julian falou tanto de ti que é como se já te conhecesse.


Hunter olhou ao Julian com os olhos entrecerrados.


- Tendo em conta o muito que sempre censurou meu comportamento, tremo ao pensar o que pôde te contar.


Grace riu.


- Nada mal. É certo que em uma ocasião incitou a toda uma casa de putas a que…?


- Julian! - resmungou Hunter - Não posso acreditar que lhe contasse isso.


Sem alterar-se sequer, Julian se encolheu de ombros e ignorou a irritação de seu amigo.


- Sempre soubeste tirar e reluzir seu engenho sob pressão.


Grace ofegou e se levou a mão para o volumoso ventre. Seu marido se aproximou dela e a pegou por braço, observando-a com preocupação.


Respirando entrecortadamente, Grace se esfregou o ventre e os olhou com um débil sorriso.


- Sinto muito. O bebê dá patadas como uma mula.


Hunter olhou o ventre do Grace e uma estranha luz iluminou seus olhos. Por um instante, Gina tivesse jurado que os tinha visto brilhar.


- É outro menino. - lhes disse em voz baixa e distante.


- Como sabe? - perguntou-lhe Grace, surpreendida, enquanto continuava esfregando-se acima e abaixo - Só sei desde ontem mesmo.


- Pode perceber a alma do bebê. - disse Julian brandamente - É um dos poderes protetores de um Caçador Escuro.


Hunter olhou a seu amigo.


- Este vai ter um caráter forte. Generoso e tenro, mas muito imprudente.


- Recorda a alguém que conheci em uma ocasião. - comentou Julian.


Essas palavras pareceram torturar ao Hunter.


- Venha. - disse Julian, tomando a Vanessa dos braços do Harry e pondo-a no chão, sem fazer caso a suas choramingações de protesto - Necessito que me acompanhe acima para te curar essa ferida.


Gina ficou no corredor, sem saber o que fazer. Uns milhões de perguntas buliam em seu interior em busca de respostas e, se não tivesse sido pela ferida do Hunter, estaria de caminho ao piso superior para formulá-las todas. Mas Julian tinha razão. Essa ferida tinha um aspecto muito feio e precisava ser atendida. Depois de jogar um olhar pensativo às escadas, deu-se a volta para falar com a Grace.


- Parece assombrosamente tranqüila, apesar do caos que se formou aqui. Deuses desvanecendo-se, gente que chega coberta de sangue e a que lançam um raio em seu saguão… Qualquer pensaria que a estas alturas deveria estar pelos nervos, sobre tudo, tendo em sua conta e estado.


Grace riu enquanto conduzia a uma chorosa Vanessa de volta a sala de estar.


- Bem, durante os últimos anos quase me acostumei a ver deuses aparecendo e desaparecendo de repente. E a outras coisas em que não quero nem pensar. Estar casada com o Julian é, sem dúvida, um bom modo de aprender a manter a calma.


Gina riu sem muito entusiasmo e voltou a olhar para a escada, perguntando-se de novo a respeito de seu enigmático Caçador Escuro.


- Hunter, ou Harry, é também um deus?


- Não sei. Pelo que Julian me contou, sempre acreditei que era um homem, mas estou tão às escuras como você.


Enquanto Grace tomava assento, Gina escutou aos homens falar através do transmissor colocado no quarto dos bebês.


Grace estendeu o braço para apagar o receptor.


- Por favor, espera.


Gina se sentou e brincou com o Niklos enquanto escutava a conversação que se desenvolvia no piso superior.


- Merda, Harry. - lhe disse Julian mal este lhe deu sua camisa - Tem mais cicatrizes que meu pai.


Harry deixou escapar o ar lentamente enquanto roçava a queimadura que o raio da Afrodita lhe tinha causado no ombro.


Encontravam-se no quarto dos gêmeos, ao fundo do corredor. Harry entreabriu os olhos, molesto pelo brilho da luz sobre o papel que cobria as paredes - amarelas e com ursinhos - e tirou os óculos de sol. Julian deve ter recordado parte da antiga mitologia grega, porque desligou a luz e acendeu uma lâmpada pequena que alagou o quarto com um suave resplendor.


Debilitado pela dor, Harry notou que seu reflexo no espelho apenas era perceptível. A capacidade de não refletir-se nos espelhos era uma das medidas de amparo das que gozava um Caçador Escuro. Para conseguir ver-se em um deles, tinha que projetar uma imagem mental, algo que resultava muito duro estando ferido ou excessivamente cansado.


Harry se afastou um pouco do armário pintado de branco e se encontrou com o interrogante olhar do Julian.


- Dois mil anos de luta revistam deixar rastro no corpo.


- Sempre teve mais Pelotas que cérebro.


Um horripilante calafrio percorreu as costas do Harry ao escutar essas palavras tão familiares. Era impossível recordar as inumeráveis ocasiões em que Julian as tinha pronunciado em grego antigo.


Como tinha sentido falta de seu amigo e mentor ao longo dos séculos… Julian tinha sido o único ao que tinha emprestado atenção. E um dos poucos homens aos que tinha respeitado de verdade. Esfregou-se o braço e continuou falando.


- Sei. Mas o gracioso é que sempre escuto sua voz em minha mente me pedindo que tenha paciência. - Falando com uma voz mais rouca, imitou o acento espartano do Julian - «Maldição Harry, é que não pode pensar alguma vez antes de atuar?»


Julian não respondeu.


Harry sabia o que acontecia a mente de seu amigo. As mesmas lembranças agridoces que perseguiam a ele cada noite quando se relaxava o tempo suficiente para deixar que o passado retornasse. Imagem de um mundo desaparecido fazia muito tempo, de gente e de família que não eram mais que sombras difusas e sentimentos perdidos.


O seu tinha sido um mundo muito especial, mas sua elegância primitiva ainda esquentava seus corações. Harry ainda podia cheirar o azeite dos abajures que iluminavam seu lar e sentir a brisa fresca e fragrante do Mediterrâneo que perfumava sua vila.


Em uma estranha contradição com os pensamentos do Harry, Julian abriu o pequeno estojo de primeiros socorros e procurou um moderno pacote de gelo. Quando o encontrou, tirou o fechamento para liberar o gel e o sustentou sobre o ombro do Harry. Este gemeu ao sentir o frio sobre a ferida.


- Sinto muito o da descarga astral. - se desculpou Julian - Se o tivesse sabido…


- Não tem a culpa de nada. Não havia modo de que soubesse que tinha entregado minha alma. Não é precisamente o modo de começar uma conversação. «Olá, sou Harry. Não tenho alma. Que tal está?»


- Não tem graça.


- Claro que sim, o que passa é que nunca entendeste meu senso de humor.


- O que passa é que sempre saía a reluzir quando estávamos a um passo da morte.


Harry se encolheu de ombros e desejou não havê-lo feito quando a dor lhe percorreu o braço.


- O que posso dizer? Vivo para chatear ao velho Apollyon. - Pegou o pacote das mãos do Julian e retrocedeu um passo - O que te ocorreu Julian? Disseram-me que Escipión te capturou junto a sua família e que lhes assassinou.


Julian soltou um bufido.


- E você acredita? Foi Príapo quem matou a minha família. Quando os encontrei mortos me deixei levar por um «momento Harry» e fui atrás dele.


Harry levantou uma sobrancelha. Que ele soubesse, Julian nunca tinha cedido a um impulso em toda sua vida. O cara era a calma e a reflexão personificadas, sem importar o caos que houvesse a seu redor. E isso tinha sido uma das coisas que mais apreciasse de seu amigo.


- Você fez algo impulsivo?


- Sim. E o paguei muito caro. - disse, cruzando os braços sobre o peito e olhando ao Harry aos olhos - Príapo amaldiçoou e me encerrou em um pergaminho. Passei dois mil anos, como escravo sexual antes que minha esposa me liberasse.


Harry soltou um assobio de incredulidade. Tinha ouvido falar de tais maldições. O sofrimento era agônico, e seu orgulhoso amigo devia havê-lo passado realmente mal. Julian nunca tinha permitido que ninguém dirigisse seu caminho. Nem sequer os deuses.


- E você me chama louco… - disse Harry - Eu me limitei a provocar o ódio dos romanos. Você foi atrás do panteão grego inteiro.


Julian lhe aconteceu um tubo de pomada para as queimaduras. Quando falou, sua voz soou rouca.


- Estava-me perguntado… quando me parti, o que aconteceu com…?


Harry o olhou aos olhos e viu a agonia refletida neles. Descobriu que para seu amigo era muito doloroso o fato de mencionar o acontecido. Ele ainda sentia a dor ao recordar as mortes dos filhos do Julian. De cabelos loiros e bochechas rosadas, tinham sido dois meninos preciosos e vivazes, resultava impossível lhes fazer justiça com simples palavras. Sua simples presencia fazia que o coração do Harry se encolhesse de inveja.


Pelos deuses! Como tinha desejado poder ter sua própria família, seus próprios filhos. Cada vez que visitava o lar do Julian, desejava poder viver uma existência como a de seu amigo. Era o único que tinha querido sempre. Um lar acolhedor, uns filhos aos que amar e uma esposa que o quisesse. Coisas singelas, em realidade, mas que sempre tinham resultado impossíveis para ele.


E agora, como Caçador Escuro, esses desejos não eram mais que sonhos irrealizáveis.


Harry não podia nem imaginar o horror que Julian devia sentir cada vez que recordasse os seus filhos. Duvidava muito de que qualquer outro homem pudesse amar a uns meninos tanto como seu amigo. Recordava o dia em que Atolycus, com cinco aninhos, tinha trocado o rabo-de-cavalo do elmo do Julian por umas plumas, como presente para seu pai antes de cavalgar para a batalha. Julian tinha sido um dos generais mais temidos de todo o exército macedônio, mas por não ferir os sentimentos de seu filho, tinha levado seu presente com orgulho diante de todos seus homens.


Ninguém se atreveu a rir. Nem sequer Harry.


Esclareceu-se a garganta e desviou o olhar da de seu amigo.


- Enterrei a Calista e ao Atolycus na horta do que se via o mar, onde estavam acostumados a jogar. A família de Penélope se fez cargo de seu corpo, e enviei o cadáver do Jason para casa de seu pai.


- Obrigado.


Harry assentiu com a cabeça.


- Era o menos que podia fazer. Foi um irmão para mim.


Julian riu com tristeza.


- Suponho que isso explica por que tinha essa fixação por me fazer a vida impossível.


- Alguém tinha que fazê-lo. Com vinte e três anos foi muito duro e sério.


- Não como você.


Harry mal recordava ao homem que uma vez foi e do que Julian estava falando. Despreocupado e sempre preparado para a batalha. De sangue quente e com cabeça de bagre. Era um milagre que Julian não o tivesse matado. A paciência desse homem não tinha limites.


- Meus gloriosos dias de desperdiçada juventude. - disse Harry com melancolia.


Olhando o ombro, começou a estender a pomada sobre a queimadura. Doía, mas já estava acostumado à dor física. E já tinha enfrentado a sofrimentos muito piores que essa minúscula dor.


Julian arqueou uma sobrancelha e o olhou de forma inquisitiva.


- Os romanos lhe capturaram por minha culpa, não é certo?


Harry se deteve ao ver o remorso nos olhos de seu amigo. Depois, seguiu estendendo a pomada.


- Sempre foi muito duro contigo mesmo, Julian. Não foi por sua culpa. Depois de seu desaparecimento continuei com a sangrenta cruzada contra seus exércitos. Forjei-me meu próprio destino nesse aspecto, e você não teve nada que ver.


- Mas se tivesse estado ali, poderia ter evitado que lhe agarrassem.


Harry soprou.


- Foi muito bom me tirando dos problemas, não há dúvida. Mas nem se quisesse você poderia me haver salvado de mim mesmo. Se tivesse estado ali, os romanos teriam tido a outro general macedônio ao que crucificar. Me acredite, estava muito melhor nesse pergaminho que te enfrentando ao destino que Escipión e Valerius tinham em mente para nós.


Apesar de suas palavras, Harry ainda via a culpa refletida no rosto de seu amigo, e queria liberá-lo dela.


- O que aconteceu? - perguntou Julian - Segundo os historiadores Valerius te capturou em plena batalha. Mas não posso acreditá-lo. Não lutando como lutava.


- E a história diz que você foi assassinado pelos homens do Escipión. O ganhador escreve sua versão dos fatos.


Pela primeira vez desde fazia séculos, Harry deixou que as lembranças o transportassem de volta a aquele desgraçado dia do passado. Apertou os dentes quando uma onda de angústia e raiva o invadiu ao recordar vividamente por que tinha encerrado essas lembranças no fundo de sua mente.


- Já sabe que as Parcas são umas putas traiçoeiras. Não fui capturado pelo Valerius, preparam uma armadilha e ofereceram a ele como um presente.


Julian franziu o cenho.


- Como?


- Minha pequena Clytemnestra. Enquanto você e eu lutávamos contra os romanos, minha esposa os recebia em seu leito, em nossa casa.


O rosto do Julian perdeu a cor.


- Não posso acreditar que Theone fizesse algo assim, depois de tudo o que sacrificou por ela.


- Toda boa ação tem um preço.


Julian olhou ao Harry com o cenho novamente franzido ante a amargura de suas palavras. Este não era o mesmo homem que tinha conhecido na Macedônia. Harry da Tracia sempre tinha estado cheio de alegria, generosidade e ternura. O homem que se levantava ante ele carecia de entusiasmo. Mantinha-se em guarda. Era muito suspicaz e seu comportamento raiava na frieza.


- Converteu-te em um Caçador Escuro por causa da traição de sua esposa? - perguntou-lhe Julian.


- Sim.


Julian fechou os olhos quando sentiu que a compaixão por seu amigo se abria passo para seu coração da mão da ira. Via seu amigo em suas lembranças tal e como tinha sido séculos atrás. Seus olhos sempre tinham tido um olhar alegre e travesso. Harry amava há vida como muito poucas pessoas o faziam. De espírito generoso, amável por natureza e de coração valoroso, Harry sempre conseguia desarmá-lo e, em incontáveis ocasione, tinha desejado poder odiar ao mal acreditado moço.


Mas lhe tinha resultado impossível.


- O que te fez Valerius? - perguntou Julian.


Harry respirou fundo.


- Me acredite, você não gostaria de conhecer todos os detalhes.


Julian observou como Harry fazia um leve gesto de dor quando uma repentina lembrança assaltou sua mente.


- O que acontece?


- Nada. - respondeu Harry mal-humorado.


Os pensamentos do Julian voltaram para a esposa do Harry. Pequena e loira, Theone tinha sido mais formosa que Helena de Troya. Só a tinha visto uma vez, e de longe. Mas ainda assim, soube imediatamente o que tinha chamado a atenção do Harry. Theone possuía uma aura irresistível que falava com as claras de sua ampla experiência sexual e de sua habilidade nesses mistérios. Quando a conheceu, com apenas vinte e dois anos, o jovem Harry se apaixonou por ela imediatamente, de uma mulher oito anos mais velha que ele. Não lhe importou o que outros dissessem sobre ela, Harry jamais escutava a ninguém. Tinha amado a essa mulher com loucura, com toda sua alma.


- O que aconteceu a Theone? - perguntou Julian - Descobriu por que o fez?


Harry arrojou o pacote de gelo à bolsa.


- Disse-me que o fazia por temor a que não pudesse protegê-la.


Julian soltou uma maldição.


- Eu disse algo mais forte. - respondeu Harry em voz baixa - Estive três semanas ali tendido, tentando descobrir o que era que ela odiava tanto de mim para me entregar a meu pior inimigo. Jamais me tinha dado conta antes de quão imbecil fui.


Harry manteve a mandíbula fortemente apertada ao recordar o olhar de sua esposa enquanto começava sua execução. Tinha-o ficado frente a frente, sem demonstrar nem pingo de remorso.


Foi então quando se deu conta de que, embora lhe tinha dado o melhor de si mesmo, todo seu coração e sua alma, não lhe tinha dado nada. Nem sequer sua ternura. Se seus olhos tivessem mostrado esse dia um pequeno brilho de remorso, um pouco de pena…


Mas seu rosto só refletia uma mórbida curiosidade.


E isso tinha destroçado seu coração. Se Theone não foi capaz de amá-lo depois de tudo o que lhe tinha dado, só podia significar uma coisa: que não fosse digno de ser amado.


Seu pai tinha estado no certo.


«Nenhuma mulher pode amar a um homem de sua posição e riqueza. Confronta. Moço, para elas só será um bolso bem repleto. »


Após, seu coração sangrava pela verdade que encerravam essas palavras. Jamais voltaria a permitir que uma mulher tivesse esse cara de poder sobre ele. Negava-se a que o amor - ou qualquer outro motivo - o cegasse, afastando-o de suas necessidades. Seu trabalho era quão único importava.


- Sinto-o muitíssimo. - sussurrou Julian.


Harry se encolheu de ombros.


- Todos nós temos algo do que nos lhe arrepender. - respondeu enquanto recolhia a camisa.


- Me escute, - lhe disse Julian, detendo-o - por que não te dá uma ducha e me deixa que te empreste um pouco de roupa?


- Desapareci em metade de uma caçada.


- Não te ofenda Harry, mas parece um desastre. Reconheço que faz muito que não participo de uma luta, mas sei que é muito mais fácil enfrentar-se à batalha depois de um banho quente e com o estômago cheio.


Harry duvidou.


- Quinze minutos?


- De acordo, que seja rápido.


 


Harry deixou que a água quente relaxasse seu machucado corpo. A noite ainda era jovem, mas estava muito cansado. O ombro lhe dava ferroadas e não deixava de lhe doer e a ferida no lado não estava muito melhor.


Mesmo ainda dolorido toda sua atenção estava posta na mulher que o esperava escada abaixo.


Por que o atraía tanto? Tinha salvado a numerosos humanos ao longo dos séculos e não havia sentido nada por eles, além de uma simples curiosidade.


Mas esta mulher, com seu olhar franco e aberto e seu sorriso de feiticeira, tinha-lhe chegado ao coração. Um coração que tinha perdido séculos atrás. Mas não o necessitava. Aos Caçadores Escuros lhes proibia manter uma relação estável. Em caso de necessidade, seus encontros sexuais se limitavam a uma só noite.


Voltavam a nascer para caminhar em solidão ao longo dos séculos. Todos e cada um deles o deixavam muito presente. Tinham-no jurado.


E nunca antes lhe tinha incomodado que era assim.


Só tinha havido uma ocasião, ao longo de sua vida, em que o sorriso de uma mulher lhe tinha provocado esta estranha e vertiginosa sensação na boca do estômago.


Lançou uma maldição ante a lembrança.


- Venha Harry. - se disse a si mesmo enquanto tomava banho - Sai desta casa, mata ao Desiderius e volta para seu lar. Esquece que a viu.


A mera idéia de não voltar a vê-la nunca mais fazia que a dor o partisse em dois. Mas tinha muito claro o que devia fazer. Esta era sua vida e adorava a escuridão da noite a que estava ligado por um juramento. Suas obrigações era sua única família. Seu juramento, seu coração.


Seu trabalho era seu amor e o seguiria sendo durante toda a eternidade.


 


- Gina?


Afastando seu pensamento do atraente Caçador Escuro, Gina olhou ao Grace, que estava sentada na poltrona.


- Importaria-te subir à habitação dos gêmeos e me trazer uma fralda? - perguntou-lhe Grace - Se subir essas escadas de novo acredito que não voltarei a baixar.


Gina riu.


- Claro. Não demorarei.


Subiu as escadas e atravessou o corredor. Passou por diante da porta do banho no mesmo instante em que Harry saía dele com uma toalha ao redor da cintura. E chocaram.


Hunter lhe pôs as mãos sobre os ombros para sujeitá-la e as pupilas lhe dilataram ao reconhecê-la. Gina ficou gelada quando se deu conta de que o bracelete de prata que levava no pulso se travou em uma das franjas da toalha do Hunter.


E, o que era ainda pior, lhe estava fazendo a boca água ao contemplar toda aquela pele morena e sensual, ao sentir suas fortes mãos sobre ela.


O poder e a força que emanavam dele faziam que lhe acelerasse o coração. E o aroma fresco e limpo de sua pele… Levava o cabelo úmido penteado para trás, o que deixava os fortes traços do rosto bem à vista, e duvidava muito de que pudesse haver um homem mais arrumado.


Os olhos escuros do Hunter, rodeados de pestanas pecaminosamente longas, olhavam-na com intensidade. O desejo voraz que se lia neles a pôs a cem e fez que se estremecesse. Tinha todo o aspecto de poder devorá-la e, de fato, Amanda desejava que a devorasse. Completamente. Por inteiro.


E que a saboreasse.


- Isto sim que fica interessante. - disse ele com um indício de diversão na voz.


Gina não sabia o que fazer, ali de pé, com o pulso perigosamente perto da súbita protuberância que tinha surto sob a toalha. O que acontecia eles que acabavam unidos a três por quatro? Deslizou o olhar pela multidão de cicatrizes que cobriam o corpo do Hunter e não pôde evitar perguntar-se quantas delas teriam sido causadas pela tortura que lhe tinha mencionado ao Julian um momento antes.


- A maioria. - lhe sussurrou enquanto levantava um braço para posar a mão sobre sua nuca.


Gina sentiu como seus dedos lhe acariciavam o cabelo. A outra mão, que ainda estava sobre seu ombro, sujeitou-a com mais força, embora de modo muito sutil.


- O que? - perguntou-lhe ela elevando a vista.


- As maiorias das cicatrizes são dos romanos.


Ela franziu o cenho.


- Como sabia o que estava pensando?


- Estava espiando seus pensamentos, do mesmo modo que você fez com o Julian e comigo.


Um calafrio percorreu as costas da Gina ao cair na conta dos poderes psíquicos do Hunter.


- De verdade pode fazer isso?


Ele assentiu sem olhá-la à cara. Tinha os olhos cravados no lugar onde sua mão lhe acariciava o cabelo, como se estivesse memorizando seu tato.


Olhou-a aos olhos de forma tão repentina que Gina emitiu um ofego.


- E com respeito à pergunta que teme formular, quão único tem que fazer é mover o braço e saberá.


- Saber o que?


- Se quando me tirar a toalha vou estar igual de bom que com ela.


Gina se ruborizou intensamente ao escutar seus aterradores pensamentos em boca do Hunter. Antes que pudesse mover-se, ele a soltou e deixou cair à toalha, que ficou pendurando de seu bracelete.


Ao ver o Hunter completamente nu diante dela, ficou com a boca aberta. Seu corpo, de músculos duros e perfeitamente definidos, parecia obra de um escultor. E imediatamente descobriu que sua pele era de cor dourada em todos os lugares. Não era produto da exposição ao sol, a não ser natural.


Gina o desejava de forma desesperada.


Quão único tinha em mente era levá-lo o quarto e atirar dele para tê-lo em cima, logo ao lado e logo debaixo durante o resto da noite.


Ai! As coisas que queria lhe fazer a este homem.


Um ligeiro sorriso curvou os lábios do Hunter e, pelo brilho que adquiriram seus olhos, Gina descobriu que estava lhe lendo o pensamento. Outra vez.


Ele se inclinou para diante até que suas bochechas se tocaram e seu quente fôlego lhe roçou o pescoço, abrasando-a.


- O nudismo nunca foi um problema para os antigos gregos. - lhe sussurrou ao ouvido.


Os mamilos da Gina se endureceram.


Muito lentamente, Hunter moveu a mão e lhe levantou o queixo. Seus olhos a apanharam, dava a sensação de querer sondar sua mente em busca de algo. Antes que ela pudesse reagir, baixou a cabeça e a beijou.


Gina gemeu ao sentir o roçar de seus lábios. Este beijo era muito diferente ao anterior. Era tenro. Doce.


E a fazia arder.


Hunter abandonou seus lábios e deixou um rastro de abrasadores beijos do queixo até o pescoço, enquanto sua língua lhe umedecia a pele com suaves carícias. Gina colocou os braços sobre seus ombros nus e apoiou todo seu peso sobre ele.


- É tão tentadora. - sussurrou Hunter antes de traçar a curva de sua orelha com a língua - Mas tenho trabalho que fazer, e você detesta tudo o que não seja humano. E todo o relacionado com o mundo paranormal. - afastou-se um pouco e a olhou pesaroso - É uma pena.


Desenganchou a toalha do bracelete e, tornando-lhe sobre um ombro, começou a andar para o quarto. Gina apertou os dentes ao contemplar esse delicioso e magnífico traseiro.


Com o corpo em chamas, recordou a fralda.


Mal pensou nele, Hunter abriu a porta, arrojou-lhe uma fralda e fechou de novo.


 


Harry se apoiou contra a porta fechada, lutando contra o ardente desejo que o atravessava. Era uma sensação voraz e traiçoeira que o fazia desejar coisas que jamais poderia ter. Coisas que só conseguiriam acrescentar seu sofrimento. E já tinha sofrido o equivalente a dez mil vidas humanas.


Tinha que tirar ela da cabeça.


Mas enquanto estava ali plantado, a solidão de sua existência se posava sobre ele como sarna.


«Moço deixa-te guiar pelo coração com muita freqüência. Algum dia te levará a ruína.»


Encolheu-se ao recordar a advertência de seu pai. Nenhum dos dois sabia naquele momento quão certo acabariam sendo essas palavras.


Sou um Caçador Escuro.


Tinha que aferrar-se à realidade. Era o único que se interpunha entre a Gina e o que seria sua aniquilação.


Desiderius estava aí fora e ele devia detê-lo.


Mas o que em realidade desejava fazer, era baixar as escadas, levantar a Gina entre seus braços e levá-la até sua casa onde passaria a noite inteira explorando cada centímetro de seu corpo com os lábios, com as mãos. Com a língua.


- Sou um imbecil. - resmungou enquanto se obrigava a colocar a roupa que Julian lhe tinha emprestado.


Não voltaria a pensar na Gina nem no passado. Tinha algo muito mais importante que fazer. Algo que não podia deixar de lado. Protegia às pessoas. E viveria e morreria protegendo-os, o que significava que os desejos físicos que despertava uma mulher como Gina estava estritamente proibida.


Uns minutos depois, vestido com uns jeans do Julian e um suéter negro de pescoço de pico, saiu do quarto com o casaco de couro sobre o ombro e baixou até o saguão, onde o esperavam Julian, Grace, Gina e os meninos.


Julian lhe ofereceu uma pequena bolsa de papel.


- Lanche! - disse Harry ao agarrá-la - Obrigado papai. Prometo-te que serei um bom menino e que me levarei bem com os outros meninos.


Julian soltou uma gargalhada.


- Palhaço.


- É melhor que ser um bobo. - Harry manteve a compostura quando olhou a Gina e sentiu que o desejo o abrasava. O que tinha essa mulher que lhe resultava impossível olhá-la sem desejar provar seus lábios ou sentir seu corpo entre os braços? Esclareceu-se garganta antes de falar - Lhes assegure de que fica aqui até que amanheça. Os Daimons não poderão entrar sem um convite.


- E o que passará amanhã de noite? - perguntou Grace.


- Desiderius estará morto para então.


Julian assentiu.


Harry se deu a volta para partir, mas, antes que chegasse à porta, Gina o pegou por braço com suavidade e o deteve.


- Obrigado. - lhe disse.


Ele inclinou a cabeça.


Parte. Porque se não o fazia, acabaria sucumbindo a exigente necessidade que sentia em seu interior.


Afastou os olhos da Gina e olhou a Grace.


- Foi um prazer te conhecer, Grace.


- O mesmo digo general.


Antes que pudesse mover-se para aproximar-se da porta, Gina voltou a sujeitá-lo e atirou dele até que ficou frente a ela e, sem saber muito bem o que fazia, deu-lhe um beijo na bochecha.


- Tome cuidado. - disse em um sussurro enquanto se afastava dele.


Petrificado, Harry só atinou a piscar. Mas o que mais o comoveu foi a preocupação que viu nesses olhos de um azul cristalino, a preocupação que Gina sentia em seu coração. Não queria que lhe fizessem mal.


Desiderius está esperando.


Esse pensamento passou veloz por sua mente. Tinha que partir.


Mas afastar-se da Gina era o mais difícil que tinha feito jamais.


- Seja feliz, bombom. - lhe desejou ele.


- Bombom? - perguntou Gina ofendida.


Ele sorriu.


- Depois do de «fanfarrão vestido de couro», devia-te uma. - lhe disse lhe dando uns tapinhas na mão antes de apartá-la de seu braço - São quase as oito, será melhor que chame a sua irmã.


Harry lhe soltou as mãos e, imediatamente, a sentiu falta.


Intercambiou um olhar com o Julian. Esta seria a última vez que se vissem e ambos sabiam.


- Adeus, adelphos.


- Adeus irmão. - lhe respondeu Julian.


Harry se deu a volta, abriu a porta e se dirigiu em solitário para o carro. Uma vez no interior do veículo, não pôde resistir a tentação de olhar atrás. Embora não pudesse ver a Gina, ainda podia sentir sua presença ao outro lado da porta, olhando-o.


Era incapaz de recordar a última vez que alguém se entristeceu ao ver como partia. E tampouco recordava haver sentido antes essa absurda necessidade de manter ao seu lado a uma mulher a qualquer preço.


 


 


CAPÍTULO CINCO


 


Depois de que Harry partisse, Gina chamou a Tabitha e a tranqüilizou, lhe assegurando que se encontrava a salvo. Deu-se uma ducha rápida e se vestiu com uma camiseta e umas calças esportivas da Grace. Quando esta e os meninos se retiraram para dormir, ela se sentou no sofá com um prato de espaguetes.


Julian saiu da cozinha e lhe ofereceu uma Coca-cola antes de sentar-se em uma das poltronas.


- Bem, - disse - por onde começo?


Gina não teve que pensá-lo.


- Pelo princípio. Quero saber exatamente o que é um Caçador Escuro e o que são os Daimons. De onde vêm os apolitas e que relação há entre todos eles.


Julian soltou uma gargalhada.


- Vai direta ao grão, verdade? - Enquanto girava o copo de chá gelado entre as mãos pareceu sopesar a melhor forma de responder suas perguntas - Em momentos como este eu gostaria que a Kynigostaia do Homero tivesse sobrevivido ao passado do tempo.


- Kyni o quê?


Ele se voltou a rir e tomou um sorvo de chá.


- Recolhia o nascimento dos Kynigstosi, os Caçadores Escuros, e poderia ter respondido à maioria de suas dúvidas. Narrava com detalhe o nascimento das duas raças que uma vez dominaram a terra: os humanos e os apolitas.


Gina assentiu brevemente.


- De acordo. Sei de onde vêm os humanos, mas não sei nada dos apolitas.


- Faz anos, Apolo e Zeus caminhavam pela cidade de Tebas quando, de repente, Zeus declarou a grandeza da raça humana e a chamou «o pináculo da perfeição terrestre». Apolo soltou um bufido e disse que podia melhorar-se em muitos aspectos. Gabou-se de poder acreditar facilmente uma raça superior e Zeus o desafiou a que o fizesse. Assim é que Apolo procurou uma ninfa que estivesse de acordo em dar a luz a seus filhos. Em três dias nasceram os primeiros apolitas. Três dias mais tarde esses meninos tinham alcançado a maturidade e três dias depois estavam preparados para ser os regentes da terra.


Gina se limpou os lábios com o guardanapo.


- Então, os apolitas são os filhos do Apolo. Pilhei-o. E por que alguns deles se convertem no Daimons?


- Por que não te espera? Sou eu o que está contando a história. - lhe disse Julian pacientemente, com a mesma voz que Gina supunha que usava com seus alunos da faculdade - Posto que os apolitas nascessem com um intelecto, uma beleza e uma força superiores aos dos humanos, Zeus os enviou a viver à ilha da Atlântida, onde esperava que vivessem em paz. Não sei se tiver lido os Diálogos do Platão...


- Não te ofenda, mas me passei toda a carreira evitando as disciplinas de letras…


Julian sorriu.


- Dá igual. De todos os modos, a maioria do que Platão escreveu a respeito da Atlântida é certo. Era uma raça agressiva que queria dominar a terra e, como broche final, também o Olimpo. Ao Apolo não importava já que, uma vez cumpridos seus propósitos, ele se converteria no deus supremo.


Gina soube aonde levava tudo isto.


- Arrumado a que o velho Zeus estava muito contente com essa idéia.


- Estava encantado. - lhe respondeu Julian ironicamente - Mas não tanto como os pobres gregos que estavam sendo abatidos pelos apolitas. Os humanos se deram conta de que lutar não os levaria a nenhum lugar, por isso idearam um plano para que Apolo trocasse de bando. Escolheram à mulher mais formosa nascida entre a raça humana, Ryssa e a entregaram ao Apolo como amante.


- Era mais formosa que Helena de Troya?


- Tudo isto aconteceu muitíssimo antes que Helena nascesse e, sim, segundo as crônicas ela era a mulher mais formosa que o mundo viu jamais. De qualquer forma, Apolo - sendo como é… - não pôde resistir a Ryssa. Apaixonou-se por ela e, finalmente, a mulher ficou grávida. Quando a rainha dos apolitas escutou o que acontecia, enfureceu-se tanto que enviou a um grupo de assassinos para que acabassem com a vida da mãe e do menino. A rainha deu instruções a seus homens para que o crime parecesse ser o ataque de um animal selvagem, de modo que Apolo não se vingasse dos apolitas.


Gina soltou um assobio e imaginou o que ocorreu depois.


- Apolo o descobriu.


- Exato, e não lhe sentou muito bem. Não sei se saberá que Apolo é também o deus das pragas. Destruiu a Atlântida e tivesse destruído a todos e cada um de seus habitantes se Artemisa não o tivesse detido.


- E por que o fez?


- Porque os apolitas eram carne e sangue do Apolo. Destruí-los tivesse significado acabar com o próprio deus e isso teria suposto o fim do mundo tal e como o conhecemos.


- Vá! - exclamou Gina com os olhos totalmente abertos - Que desastre. Menos mal que o deteve.


- Isso pensou o resto do panteão grego. Mas Apolo queria vingar-se. E o fez. Proibiu aos apolitas caminhar sob a luz do sol para não ter que vê-los nunca mais e recordar sua traição. Posto que tinham tentado lhe fazer acreditar que Ryssa tinha sido atacada por um animal selvagem, deu-lhes características animais: presas, sentidos muito desenvolvidos…


- E a velocidade e a força?


- Já a tinham, junto com as habilidades psíquicas que Apolo não pôde lhes tirar.


Gina franziu o cenho.


- Pensava que os deuses podiam fazer algo que lhes desejasse muito. Não consiste nisso o de ser deus?


- Não sempre. Têm leis às que ater-se, igual a nós. Mas no caso dos poderes psíquicos é diferente, uma vez esse canal se abre não pode voltar a fechar-se. Por isso Apolo não pôde lhe tirar a Cassandra o dom da adivinhação do futuro quando ela o rechaçou. O que fez foi emaranhá-lo tudo, de modo que ninguém acreditasse em suas profecias.


- Claro! Isso tem sentido. - disse Gina antes de beber um sorvo da Coca-cola - Bom então os apolitas têm poderes psíquicos, são muito fortes e, além disso, não resistem a luz do sol. E o de beber sangue? Fazem-no ou não?


- Sim. Bebem sangue, mas só se provier de outro apolita. De fato, por causa da maldição do Apolo, estão condenados a alimentá-los uns dos outros todos os dias para não morrer.


- Puaj! - exclamou ela enrugando o nariz - É asqueroso. - disse, tremendo ante a mera idéia de ter que viver desse modo - Alguns deles bebem sangue humano, não é certo?


Julian vacilou antes de responder.


- Não exatamente. Se converterem no Daimons, beberão dos humanos, mas não é o sangue o que procuram… é a alma.


Gina levantou uma sobrancelha e sentiu um calafrio nas costas. Harry não tinha estado brincando nesse aspecto. Genial.


- E por que precisam roubar nossas almas?


- Os apolitas só vivem vinte e sete anos. Os dias de seu vigésimo sétimo aniversário morrem de forma lenta e dolorosa, seus corpos se desintegram, literalmente, e se convertem em pó em um prazo de vinte e quatro horas.


Nesta ocasião, Gina fez um gesto de dor.


- Isso é horrível. Suponho que a moral da história é que não terá que encher o saco ao deus das pragas.


- Sim. - respondeu Julian sombriamente - Para evitar seu destino, as maiorias dos apolitas se suicidam no dia anterior do seu aniversário. Outros decidem converter-se no Daimons. Como tais, burlam a sentença de morte apropriando-se de almas humanas e as mantendo em seus corpos. Em tanto as almas humanas vivam em seu interior, poderão seguir existindo. Mas o problema reside em que à alma de um humano não pode viver muito tempo no corpo de um apolita, e começa a morrer quase no mesmo instante em que é roubada de seu verdadeiro dono. Como resultado, os Daimons se vêem obrigados a perseguir e matar humanos cada pouca semana para poder seguir vivendo.


Gina era incapaz de imaginar a tortura que devia supor ser assassinado por um apolita e perder não só a vida, mas também a alma.


- O que acontece com as almas que morrem?


- Estão perdidas para sempre. Por isso existem os Caçadores Escuros. Seu trabalho consiste em procurar os Daimons e liberar as almas antes que expirem.


- E o fazem de forma voluntária?


- Não, mas são obrigados.


Gina o olhou carrancuda.


- Obrigados de que forma?


Julian bebeu outro sorvo de chá e olhou ao chão com uma expressão estranha. Dava a sensação de estar recordando seu passado. Algo doloroso.


- Quando alguém sofre uma horrível injustiça - explicou em voz baixa - sua alma grita tão forte que o som chega até o Olimpo. Se Artemisa o escutar, aproxima-se da pessoa que acaba de gritar e lhe oferece um trato: um só Ato de Vingança contra aqueles que fizeram o mal e, em troca, ela obtém um juramento de lealdade e um novo integrante para seu exército de Caçadores Escuros.


Gina respirou fundo tentando processar toda a informação.


- E você como sabe tudo isto?


Julian levantou a cabeça e a abrasou com seu intenso olhar.


- Porque minha alma gritou assim o dia que meus filhos morreram.


Ela tragou saliva ao observar o ódio e a dor que refletiam os olhos do Julian. Eram tão evidentes que até ela se sentia embargada pelo sofrimento.


- Foi Artemisa até ti para te oferecer o trato?


- Sim, mas a rechacei.


- E por quê?


Julian afastou o olhar.


- Minha vingança ia dirigida a outro deus e sabia que ela não podia permiti-lo.


Gina sabia que Julian tinha estado apanhado em um pergaminho, conhecia muito bem sua história, mas agora lhe interessava mais Harry.


- Harry vendeu sua alma em troca de poder vingar-se de sua esposa, verdade?


Ele assentiu.


- Mas não o julgue muito duramente.


- Não o faço. - lhe disse ela com honestidade. Não sabia o que lhe tinha ocorrido ao Harry e, até que não o encontrasse, não podia julgá-lo responsável por nada - Diga-me uma coisa, Julian, há algum modo de que um Caçador Escuro recupere sua alma?


- Sim, mas quase ninguém o conseguiu. A prova é diferente para cada um deles.


- O que significa que não pode me dizer o modo de liberar o Harry.


- O que significa que não tenho a mais remota idéia de como liberar o Harry.


Gina assentiu e trocou o rumo de seus pensamentos.


- Os Caçadores Escuros também têm que beber sangue?


- Não. Posto que em um princípio sejam humanos, não têm necessidade de fazê-lo. Além disso, se tivessem que preocupar-se de alimentar-se desse modo, suas habilidades para detectar aos Daimons se veriam afetadas.


- E então por que têm presas?


- Para poder detectar aos Daimons e lhes dar morte lhes outorgou as mesmas características que a estes. As presas vão ao pacote.


Gina não teve problemas em entendê-lo.


- Por isso lhes resulta mortal a luz do sol?


- Mais ou menos. Mas no caso dos Caçadores Escuros é mais uma conseqüência de servir a Artemisa, que é a deusa da lua, e de resultarem abomináveis para o Apolo.


- Mas isso não parece.


- Os deuses, estranha vez o são.


 


Horas mais tarde, Harry permanecia sentado em seu carro, amaldiçoando o rumo traiçoeiro de seus pensamentos. Ainda podia ver a Gina. Escutar o som de sua doce e suave voz. Senti-la contra seu corpo enquanto lhe acariciava o peito.


Tinham passado séculos desde que desejasse a uma mulher desse modo. Acreditava que essa parte de si mesmo tinha ficado esquecida o dia que se converteu em um Caçador Escuro. Conforme passavam os séculos, havia ocasiões em que sentia um ligeiro interesse por uma mulher, mas tinha aprendido a controlá-lo. A enterrá-lo.


Mas todas essas necessidades, esquecidas faziam tanto, tinham despertado com as carícias de uma feiticeira que estava resultando ser letal para sua prudência. Sua lembrança o distraía. Atormentava-o.


Desejava-a de um modo que raiava o desespero.


Por quê? O que tinha Gina que ele desejava tanto? Não sabia nada dela, exceto que possuía um grande senso de humor e que sob seu fogo se ocultava uma doçura incrível.


E a desejava como jamais tinha desejado a uma mulher. Nem sequer a sua esposa.


Não tinha sentido.


Desligou o motor antes de baixar do carro e entrar em casa. Arrojou as chaves sobre o balcão da cozinha e se deteve. Para casa estava em completo silêncio, exceto pelos sons que chegavam do piso superior.


Harry atravessou as habitações escuras e subiu a escada de mogno esculpida até chegar à segundo andar e deter-se ante a porta de seu escritório. Um feixe de luz se derramava sobre o tapete persa, por debaixo da porta fechada.


Sem fazer ruído, girou o trinco e abriu a porta.


- Nick, que porcaria está fazendo aqui?


Lançando uma sonora maldição, seu Escudeiro se levantou da cadeira giratória de um salto. Harry teve que reprimir uma gargalhada ao ver esse homem de um metro e noventa e dois centímetros disposto a matá-lo. Os olhos azuis do Nick lançavam fogo e um músculo palpitava em sua mandíbula, firmemente apertada. O jovem arrumou a juba castanha que lhe caía até os ombros.


- Jesus, Harry! É que alguma vez vais aprender a fazer ruído quando te move? Deste-me um susto de morte.


Harry se encolheu de ombros com indiferença.


- Pensava que iria para casa cedo.


Nick endireitou a cadeira e se sentou de novo, tomando impulso para colocar-se de novo depois da escrivaninha.


- Tinha intenção de fazê-lo, mas quis terminar a investigação sobre o Desiderius.


Harry sorriu. Nick Gautier podia ser um rapaz impetuoso e um pé no saco a maior parte do tempo, mas se podia confiar nele. Por isso o tinha feito como Escudeiro e o tinha introduzido no reino dos Caçadores Escuros.


- Algo novo?


- Poderia dizer-se que sim. Tenho descoberto que tem duzentos e cinqüenta anos.


Surpreso, Harry levantou uma sobrancelha. Que ele soubesse, nenhum Daimon tinha vivido tanto.


- Como é possível?


- Não sei. Todos os Caçadores Escuros que vão atrás dele acabam mortos. Parece que a seu amiguinho Daimon gosta de lhes fazer sofrer. - Voltou a olhar o monitor - Não há nada na base de dados do Acheron sobre seu modus operandi e quando falei com o Ash faz já um momento me disse que não tinha nem idéia de onde procedia Desiderius nem do que procurava. Mas o estamos investigando.


Harry assentiu.


- Ah, por certo! - disse Nick olhando-o por cima do ombro - Parece um desastre.


- Já sei, todos lhes empenham em me dizer o mesmo.


Nick sorriu até que se fixou na roupa do Harry.


- Por que não leva seu uniforme de tipo-mau-mata-Daimons?


Harry não estava de humor para explicar-lhe.


- Falando disso, necessito que me compre um casaco de couro hoje.


A suspeita obscureceu os olhos azuis do Nick.


- Por quê?


- O velho tem um buraco no ombro.


- Mas como?


- Atacaram-me.


Nick não pareceu muito contente com as notícias.


- Está bem?


- Que aspecto tem?


- Horrível.


Não havia modo de esconder-se do Nick.


- Estou bem. Por que não vai a uma das habitações de convidados a dormir? Já são as quatro da madrugada.


- Dentro de um momento. Primeiro quero deixar isto acabado. Além disso, estou a ponto de descobrir o que fez Sundown para encher o saco do Ash.


Harry escutou o som que avisava ao Nick de que tinha uma nova mensagem no computador.


- Lhe diga ao Jess que deixe de burlar-se do Ash se não querer acabar chamuscado.


Nick franziu o cenho.


- Jess?


- O verdadeiro nome do Sundown é William Jessup Brady. Acreditava que sabia.


Nick soltou uma gargalhada.


- Merda, não. Mas conheço alguns escudeiros que pagariam bastante por sabê-lo. - disse com um olhar especulativo - Rogue tampouco é o verdadeiro nome de Rogue, verdade?


- Não. Chama-se Christopher «Kit» Baughy.


Nick soltou uma risadinha satisfeita.


- Isso sim que me reportaria sérios benefícios.


- Não. - lhe corrigiu Kyrian - Isso te reportaria uma boa patada na bunda se Rogue descobre que sabe.


- Você ganha. Guardarei-o no arquivo de chantagens, para quando necessitar que um Caçador Escuro me faça um favor.


Harry meneou a cabeça. O menino era incorrigível.


- Até a noite.


- Bom, que descanse.


Harry fechou a porta e cruzou o comprido corredor que levava até seu quarto. A enorme e suntuoso quarto, de cores escuras e relaxantes que não feriam os olhos, deu-lhe as boas-vindas. Nick tinha acendido as três velas do pequeno candelabro de parede e o suave resplendor acreditava sombras sobre o papel de cor bordô.


Essa estadia era o santuário onde Harry se ocultava da luz do dia.


Tinha ordenado que selassem as janelas e as cobrissem mal comprou a antiga casa colonial de estilo neoclássico. Nenhum Caçador Escuro dormiria em um lugar onde o sol pudesse penetrar acidentalmente.


Tirou-se a roupa e se tombou na enorme cama em que dormia do século XIV, mas sua mente insistia em seguir lhe dando voltas a suas tribulações.


Desiderius tinha fugido e, durante os próximos dias, estaria fora de seu alcance.


Merda.


Não podia fazer nada. Exceto esperar e estar preparado no momento em que Desiderius emergisse. Ao menos estava tranqüilo porque sabia que o Daimon iria primeiro a por ele. Isso lhe daria algo mais de tempo para manter a salvo a Gina e a Tabitha.


Gina.


O nome flutuava em sua mente, junto com a lembrança de seus brilhantes olhos azuis. A virilha lhe esticou imediatamente sob os frescos lençóis de seda. Grunhiu ao sentir a dor do desejo não satisfeito.


- Não é minha. - murmurou.


E, por todos os deuses do Olimpo, jamais o seria, sem importar o muito que o desejasse seu destroçado coração.


 


 


CAPÍTULO SEIS


 


Gina gemeu ao sentir que uma mão, cálida e forte, acariciava-lhe o estômago nu e se deslizava até o quadril. De forma instintiva, girou-se em direção às carícias, com o corpo enfebrecido pelo desejo.


Harry lhe deu a volta até deixá-la tombada de costas e capturou seus lábios. Gina sentiu que tudo começava a dar voltas pelo impacto de sua força e seu poder. Jamais em sua vida tinha experimentado nada semelhante ao roçar de sua língua brincando entre seus lábios. Ou à sensação desse corpo soberbamente formado movendo-se de forma sinuosa contra ela.


O desejo se acrescentou.


O beijo do Harry era selvagem e ardente, mas tingido de uma estranha ternura. Fechou os olhos e desfrutou do aroma especial de sua pele, do calor de sua boca. Enterrou as mãos no cabelo dourado e se derreteu ao sentir como as ondas se deslizavam entre seus dedos.


Ele se afastou e a olhou com uma avidez tão evidente que Gina se acendeu ainda mais, enquanto sentia os deliciosos músculos dos ombros do Harry contraindo-se sob suas mãos.


- Será minha. - lhe disse com tom possessivo e certa agressividade.


- E você será meu. - lhe respondeu ela, sorrindo, e entrelaçou as pernas ao redor de seus estreitos quadris.


O diabólico sorriso do Harry, que deixou à vista suas presas, roubou-lhe o fôlego. Sem deixar de abraçá-la, girou até ficar de costas com a Gina sobre seu corpo.


Mordendo o lábio, ela observou seu arrumado rosto enquanto sentia esse corpo, duro e viril, entre as coxas. Com uma necessidade entristecedora, começou a esfregar-se contra o comprido e endurecido membro do Harry, que gemeu em resposta a suas carícias antes de percorrer seu corpo com um olhar esfomeado e incorporar-se um pouco para lhe cobrir os seios com a calidez de suas mãos e apertá-los com suavidade, ao que ela respondeu lhe cobrindo as mãos com as suas.


- Poderia estar toda a noite olhando-a. - lhe sussurrou Harry.


Gina não encontrou objeção alguma ao comentário, posto que nada daria mais prazer que contemplá-lo durante o resto da eternidade enquanto se passeava nu.


Essa forma de andar… esse corpo…


Eram muito mais do que uma simples mortal podia suportar.


Harry levantou os quadris, impulsionando-a para diante. Gina apoiou as mãos a ambos os lados do corpo dele para sujeitar-se e se inclinou, deixando que o cabelo caísse em cascata a seu redor e lhes proporcionasse um escuro dossel.


- Agora te tenho onde queria. - Harry tomou o rosto com ambas as mãos e procurou seus lábios. Sua boca a atormentava, chupando o lábio inferior e mordiscando-o com suavidade.


Um gemido escapou de seus lábios quando a mão do Harry baixou do peito, deslizando-se pelo lado, e chegou até o centro de seu corpo.


- E isto é o que mais desejo. - disse antes de introduzir dois dedos em seu interior.


Gina gemeu de prazer enquanto esses dois dedos a torturavam sem piedade. Dentro e fora, movendo-se em círculos, avivando o fogo que ameaçava consumindo-a.


Ele abandonou seus lábios um momento.


- Me diga o que é que desejas.


- A você. - ofegou ela sem fôlego.


- Então, terá-me. - Harry a pegou pelos quadris e a aproximou até sua ereção.


Gina desejava senti-lo em seu interior e o aguardava, espectador, mordendo os lábios. Desejava com todas suas forças o ter dentro e compartilhar a mais íntima das experiências.


Sentiu que o extremo de seu membro pressionava sobre a entrada. E quando pensava que se deslizaria em seu interior, o alarme do despertador começou a soar.


Despertou sobressaltada. Olhou a seu redor, aturdida, observando o desconhecido quarto onde se encontrava. Demorou todo um minuto em recordar que estava no quarto dos gêmeos, na casa da Grace. Tudo tinha sido um sonho? Mas era tão real… juraria que ainda sentia as mãos do Harry sobre o corpo e seu fôlego lhe roçando o pescoço.


- Não é. - choramingou enquanto saía da cama e apagava o despertador. Despertou-se quando chegava ao interessante.


De verdade tinha sido só um sonho? Tão somente um sonho sobre um misterioso desconhecido que ocultava seu sofrimento depois do sarcasmo e que a tinha cativado com uns olhos escuros e letais?


Fazendo um enorme esforço por esquecer a intensidade das imagens que tinha acreditado seu subconsciente, envolveu-se no grosso penhoar da Grace e saiu para ir ao banho.


- Quem os envia? - perguntou Grace.


Amanda se deteve em metade do corredor ao escutar a Grace e Julian, que estavam falando na andar de baixo.


- Suponho que são do Harry. - lhe respondeu seu marido.


Bocejando, Gina baixou as escadas e os encontrou a ambos na sala de estar, rodeados de sacolas e pacotes. Julian já estava vestido para ir trabalhar, com uns chineses e um suéter. Grace levava uma camisola de cor azul e, junto a ela, Niklos estava fazendo migalhas uma folha de papel que me sobressaía de uma bolsa.


- O que é tudo isto? - perguntou Gina.


Julian se encolheu de ombros.


- Tem razão. - disse Grace ao encontrar uma nota em uma das sacolas - São do Harry. - deteve-se para ler a nota e riu - Quão único diz é: «Obrigado pela acolhida» - Lhe aconteceu a nota a seu marido.


Julian deixou escapar um exagerado suspiro enquanto a lia.


- Em nossa época existia o costume de levar presentes cada vez que se visitava um amigo. Mas… merda, não tantos. - passou-se uma mão pelo cabelo enquanto observava a montanha de pacotes - Harry sempre foi um homem generoso, mas… merda. - voltou a repetir - Suponho que voltou ontem à noite e deixou tudo isto aqui enquanto dormíamos.


Gina estava atônita. Parecia o dia de natal… em casa dos Rockefeller. Observou como Grace tirava dúzias de brinquedos para os gêmeos: bonecas para a Vanessa, um jogo de construção para o Niklos, um trem, um cavalinho…


Grace tirou uma caixa pequena de uma das sacolas.


- Este é para você. - disse a seu marido, lhe oferecendo o presente.


Julian abriu a caixa e seu rosto perdeu toda a cor. Grace olhou o conteúdo e ofegou.


- É seu anel de general. - disse, trocando um olhar perplexo com o Julian - Como o terá conseguido? - perguntou.


Gina se aproximou para lhe jogar uma olhada ao anel. Como o do Harry, tinha uma espada de diamantes e uma coroa de louro formada por esmeraldas sobre um fundo de rubis.


- Parece-se com o que leva Harry. Exceto o seu tem uma coroa.


Julian assentiu.


- O seu leva a marca da realeza enquanto que o meu é estritamente militar.


Confundida, Gina levantou a vista e olhou ao Julian.


- Realeza?


- Harry era um príncipe. - lhe respondeu estranhamente - O único herdeiro ao trono da Tracia.


Gina ficou com a boca aberta.


- Os romanos crucificaram a um príncipe herdeiro? Pensava que não podiam fazê-lo.


A mandíbula do Julian se esticou.


- Teoricamente não podiam, mas o pai do Harry o deserdou o dia que se casou com o Theone.


- Por quê? - perguntou Gina.


- Porque era uma hetaira. - Julian notou que Gina franzia o cenho, confundida, e acrescentou - Eram mulheres de classe baixa, treinadas para agradar aos homens ricos e lhes fazer companhia.


- Ah! - exclamou ela, compreendendo o motivo da ira da família - Estava procurando companhia quando a conheceu?


Julian negou com a cabeça.


- Harry a conheceu na festa de um amigo e ficou subjugado. Jurava que tinha sido amor à primeira vista. Todos nós tentamos lhe fazer entender que Theone só ia atrás de seu dinheiro, mas se negou à nos escutar. - soltou uma gargalhada coberta de amargura e continuou - Naquela época não escutava a ninguém, era muito típico dele. Seu pai o adorava, mas quando Alkis descobriu que Harry tinha quebrado o compromisso com a princesa com a que estava prometido, para casar-se com o Theone, ficou muito furioso. Alkis lhe disse que um rei não podia governar com uma puta ao lado. Discutiram e, finalmente, Harry se foi a cavalo do palácio de seu pai, direto para casa do Theone e se casou com ela esse mesmo dia. Quando seu pai o descobriu, disse-lhe que estava morto para ele.


Gina sentiu uma opressão no peito ao escutar ao Julian, compartilhava seu sofrimento e notou que o coração lhe rasgava de dor.


- Então, deixou-o tudo por ela?


Julian assentiu carrancudo.


- O pior de tudo é que Harry jamais foi infiel. Vocês não podem entender o que isso significava. Em nossos dias não existia a monogamia. Não se sabia de nenhum homem que fosse fiel a sua esposa, especialmente um da posição e riqueza do Harry. Mas uma vez se casou com ela, jamais desejou estar com ninguém mais. Nem sequer olhou a outra mulher. - Os olhos do Julian flamejaram de fúria - Em realidade viveu e morreu por ela.


O coração da Gina sofria pelo Harry. Sabia que ainda devia lhe doer muito.


Grace lhe ofereceu três sacolas que continham caixas envoltas em papel de presente.


- Estas são para você.


Gina abriu a caixa maior e encontrou um vestido camiseiro, de desenho e malha grossa. Deslizou a mão pela suave seda cor azul marinho. Jamais havia ganhado algo parecido. Olhando no interior das sacolas, encontrou uns sapatos e outras caixas com o nome de Vitória’s Secret. Ruborizada, não se atreveu às abrir diante do Julian e da Grace. Não a menos que queria morrer de vergonha.


- Como sabia meu tamanho? - perguntou enquanto comprovava a etiqueta do vestido.


Julian se encolheu de ombros.


Gina se deteve a encontrar uma nota dirigida a ela. A letra era de risco elegante e resolvido.


 


«Sinto muito o de seu suéter. Obrigado por havê-lo suportado tudo tão bem.


Hunter.»


 


Gina sorriu, embora se sentisse um pouco doída pelo fato de que se negasse a usar seu verdadeiro nome com ela. Sem dúvida era a forma que utilizava para manter as distâncias entre eles. Que assim fora. Tinha direito a manter sua intimidade. Tinha direito a viver sua perigosa vida imortal sem nenhum tipo de relação com um humano. Se quiser seguir sendo Hunter para ela, respeitaria-o.


Mas ainda assim… depois de tudo o que tinham compartilhado a noite anterior…


Em seu coração, dava-lhe igual o nome que usasse. Ela sabia quem era, conhecia a verdade.


Recolheu os presentes e se encaminhou escada acima para arrumar-se antes de ir-se trabalhar. Não obstante, o que em realidade desejava era dar graças ao Hunter por sua amabilidade.


Depois da ducha, abriu os presentes e encontrou um tesouro de lingerie atrevido. Hunter lhe tinha comprado umas meias de cor azul marinho que faziam jogo com uma cinta-liga. Como jamais tinha tido um, levou-lhe uns minutos imaginar-se como se grampeava. O conjunto se completava com um sutiã de seda e uma tanga.


- Mmm… - para ser um homem que queria manter as distâncias, tinha elegido algo muito pessoal para ela. Mas claro o que era ele a não ser um enigma?


Gina se mordeu o lábio e acariciou o vestido. Sentia-se incrivelmente feminina com a suave lingerie nova e, cada vez que pensava que as mãos do Hunter haviam tocado sua roupa de baixo, um calafrio lhe percorria as costas. Resultava muito erótico saber que ele tinha deslizado seus dedos pela delicada renda da tanga que agora descansava intimamente entre suas coxas. Ou pelo interior do sutiã que agora encerrava seus seios.


Como desejava o ter ao lado para que a despisse... Para que a tocasse de forma tão íntima como havia tocado a lingerie. Ao imaginar a expressão velada e escura de seu rosto enquanto tomava entre seus braços e o fazia o amor, começou a respirar de forma entrecortada e apertou os dentes com força. Os mamilos lhe endureceram, doloridos, ante a idéia.


Pegou o vestido, que estava sobre a cama, e o sustentou sobre seu corpo. Por um instante acreditou reconhecer nele o exótico aroma do Hunter. O desejo a atravessou como uma adaga. Enquanto o punha, a seda do vestido se deslizou sobre sua pele e lhe fez recordar o sonho. Voltou a sentir as mãos do Hunter percorrendo seu corpo.


Deus, como desejava que estivesse ali… Como desejava poder observá-lo enquanto lhe desabotoava o vestido e descobria à mulher que se escondia baixo ele… Mas jamais aconteceria. Harry tinha desaparecido, tinha voltado para sua arriscada existência. As pontadas de desejo desapareceram imediatamente, substituídas por uma dor aguda. Uma dor para o que não encontrava explicação, mas que estava ali. Profundo. Ofegante. Voraz.


Com um suspiro, calçou os sapatos e baixou as escadas, Julian a esperava para levá-la ao trabalho.


- Sinto muito o do Cliff.


Gina afastou o olhar da escrivaninha, levantou a cabeça e contou até dez. Se uma só pessoa mais voltava a dizer-lhe deixaria-se arrastar pela loucura, iria ao escritório do Cliff e o despedaçaria em pedaços pequenos e sangrentos.


Tinha-lhe contado a todo o pessoal da empresa que tinham quebrado e, arrogantemente, tinha esparso o rumor de que estava tão destroçada que não tinha podido ir trabalhar no dia anterior.


Dava-lhe vontade de matá-lo!


- Estou bem, Tammy. - lhe disse à administradora de sua seção com um sorriso forçado.


- Isso é. - respondeu a mulher - Mantém bem alto esse ânimo.


Gina franziu os lábios quando Tammy partiu. Ao menos o dia tocava a seu fim. Poderia ir-se para casa e…


E sonhar com o homem alto e arrumado ao que nunca voltaria a ver.


Por que lhe afetava mais a idéia de não ver o Hunter que o fato que Cliff tivesse aprontado com ela? O que tinha Hunter que fazia que o jogasse tanto de menos…?


No fundo o deixava muito claro: era muito bonito, inteligente e heróico, era misterioso e letal. E fazia que seu coração se acelerasse cada vez que lhe dedicava esse deslumbrante sorriso.


Foi-se para sempre.


Deprimida, preparou-se para partir. Depois de colocar os documentos em sua maleta, saiu do escritório e se dirigiu ao elevador. Pulsou o botão para baixar ao vestíbulo, não queria deixar Grace esperando-a durante muito tempo no estacionamento, com os gêmeos. Além disso, estava cansada de estar no escritório. Este tinha resultado ser o dia mais comprido de sua vida. Por que teria querido ser contável? Selena tinha razão, sua vida era decepcionantemente aborrecida.


Ao chegar ao vestíbulo, às portas se abriram e deu uma olhada ao redor da estadia envidraçada. Embora no exterior já tivesse anoitecido, as luzes do estacionamento eram bastante potentes e viu que Grace ainda não tinha chegado. Merda! Estava desejando ir-se para casa.


Irritada, aproximou-se até a porta para esperar ali. Enquanto soltava a maleta, Cliff saiu de um dos elevadores, rodeado de seus amigos.


Genial, simplesmente genial. O dia ia melhorando a passos aumentados.


Ao vê-la sozinha, Cliff se aproximou dela exibindo-se como um pavão.


- Ocorre algo? - perguntou-lhe quando se deteve do seu lado.


- Não. Ainda não vieram a me recolher. - lhe respondeu de forma educada.


- Bom, se necessitar que te leve para casa…


- Não necessito nada de ti, bom? - espetou-lhe antes de cruzar a porta e deter-se no exterior do edifício. Era melhor esperar fora e congelar-se pelo vento gelado antes que passar um só minuto mais ao lado do último homem ao que gostava de ver.


Cliff a deteve ao sair do edifício. As luzes da rua arrancavam uns suaves brilhos a seu cabelo dourado.


- Olhe Gi, não há nenhum motivo pelo que não possamos ser amigos.


- Não te atreva a te comportar de forma cavalheiresca comigo depois de todo o lixo que disse ontem. Quem te acredita que é para lhe falar com todo mundo de minha família?


- Bom Gi, venha já…


- Deixa de me chamar Gi quando sabe que o odeio.


Ele olhou sobre seu ombro e Gina se deu conta de que a metade do pessoal da empresa estava escutando-os.


- Vamos ver, eu não fui o que ficou ontem em casa porque estava emocionalmente indisposto por causa do acontecido na sábado de noite.


A fúria da Gina cresceu por momentos. Emocionalmente indisposta? Ela?


Por ele?


Olhou-o de cima abaixo. E, pela primeira vez, foi consciente do verme que tinha diante.


- Desculpa, mas eu tampouco estive em casa ontem. De fato, quer saber onde estive? Passei-me todo o dia nos braços de um magnífico deus moreno. Note quão deprimida estou por ti.


Cliff soltou um bufo.


- Já vejo. Sabia que era só questão de tempo que sua família acabasse influindo em seu comportamento. Está tão louca como todos eles. Arrumado a que não demorará muito em vir trabalhar vestida de couro negro e falando sobre desintegrar vampiros a estacadas.


Gina nunca havia sentido um desejo tão forte de esbofetear a alguém como o que bulia nesses momentos em seu interior. Como tinha podido pensar que eram compatíveis? Era grosseiro e cruel. Pior ainda, julgava às pessoas pelas aparências! Tabitha podia ser uma tarada, mas era sua irmã e ninguém que não era da família tinha direito a insultá-la!


De repente, todos os defeitos que não tinha visto no Cliff saíram à luz. E pensar que tinha passado todo um ano de sua vida tentando agradar a este cretino…


Era uma idiota! E uma imbecil e uma boba…


Nesse momento notou como lhe arrepiava o pêlo da nuca antes de escutar o rugido de um motor bem afinado que se aproximava até onde estavam eles.


Cliff girou a cabeça, olhou ao meio-fio e ficou boquiaberto.


Ela olhou na mesma direção, procurando o motivo de sua distração, e ficou petrificada ao ver um impecável Lamborghini negro dobrar para entrar no estacionamento e estacionar na calçada, diante deles.


Seus lábios desenharam um sorriso. Não podia ser…


O coração lhe acelerou quando a porta se levantou e Hunter desceu do carro. Vestido com uns jeans gastos, um suéter cinza e negro de pescoço de pico e uma jaqueta negra de couro, estava tão imponente que tirava o fôlego.


Esse andar firme, arrogante e letal lhe estava afrouxando os joelhos. 


- Ai Deus! - escutou sussurrar ao Tammy enquanto Hunter rodeava o carro.


Ele se deteve diante da Gina e a devorou com o olhar.


- Olá preciosa. - lhe disse com essa voz profunda e sedutora - Sinto chegar tarde.


Antes que pudesse reagir, Hunter a abraçou e lhe deu um beijo sufocante. O corpo da Gina ardeu em resposta ao roçar de sua língua enquanto lhe pressionava as costas com os punhos fechados. Ao momento se agachou e a pegou em braços.


- Hunter! - balbuciou enquanto a levava, sem esforço aparente, até o carro.


Dedicou-lhe esse sorriso tão dela, malicioso e de lábios apertados. O humor e o desejo lhe davam um aspecto quente e vivaz a esses olhos negros como a noite.


Com a ponta do sapato abriu a porta do assento do acompanhante e a deixou no interior. Recolheu a maleta e a bolsa que ela tinha deixado cair na calçada e os deu antes de dar a volta para olhar ao Cliff com um sorriso de cumplicidade.


- É impossível não amar a uma mulher cujo único fim na vida é verte nu.


A expressão do rosto do Cliff enquanto observava como Hunter fechava a porta do carro antes de rodeá-lo - com seu característico andar elegante - para ocupar seu assento, não tinha preço.


Hunter se meteu no Lamborghini com um movimento ágil e imediatamente abandonaram o estacionamento.


Mil emoções buliam no interior da Gina. Gratidão, felicidade e sobre tudo, alegria por vê-lo de novo, especialmente depois de que tanto Julian como sua própria mente tivessem tentado convencer a de que jamais voltaria a encontrar-se com ele.


Não podia acreditar o que Hunter acabava de fazer por ela.


- O que está fazendo aqui? - perguntou-lhe enquanto saíam do estacionamento.


- Estiveste-me voltando louco durante todo o dia. - lhe respondeu em voz baixa - Podia sentir sua confusão e sua dor, mas não sabia o motivo. Assim é que chamei a Grace e me inteirei de que, supostamente, tinha que te recolher à saída do trabalho.


- Ainda não me explicaste o que faz aqui.


- Tinha que comprovar que estava bem.


- Mas como?


- Não sei. Tinha que sabê-lo.


Reconfortada por suas palavras, Gina começou a brincar com o cinto de segurança.


- Obrigado pela roupa. E pelo que acaba de fazer com o Cliff.


- Foi um prazer.


Nesse momento teve que fazer um esforço sobre-humano para não equilibrar-se sobre ele e acariciá-lo. Para não beijar seu muito bonito herói.


Hunter acelerou e se afastou do distrito empresarial.


- Há uma coisa que não entendo, por que ia querer uma mulher como você casar-se com alguém como ele?


Gina levantou uma sobrancelha.


- Como sabe que…?


- Tenho certas habilidades psíquicas, recorda-o? Sua mente não deixa de dar voltas a seus verdadeiros sentimentos pelo «estúpido cretino».


Gina se encolheu, envergonhada, e desejou poder ser capaz de bloquear seus pensamentos.


- Também o ouvi. - brincou Hunter, fazendo que se perguntasse se o haveria dito a sério.


- Não pode fazer algo para deixar de bisbilhotar em minha cabeça todo o tempo? Resulta-me muito incômodo.


- Se quer posso renunciar a esse poder em seu caso.


- Sério? Pode prescindir de um poder quando te vier em vontade?


Ele soprou.


- Não exatamente. O único poder de que posso prescindir é da habilidade de ler os pensamentos de outra pessoa.


- E uma vez que renuncia a ele pode recuperá-lo?


- Sim, mas não é fácil.


- Então desfaz dele, tio.


Harry soltou uma gargalhada e tentou concentrar-se na estrada, mas só era consciente da abertura do vestido da Gina, que deixava uma boa porção da coxa coberta de seda à vista. E, se por acaso isso fora pouco, sabia o que havia debaixo do vestido. Era outra das imagens que o tinham torturado durante todo o dia enquanto tentava dormir.


As luxuriosas curvas da Gina cobertas pela cinta-liga e a tanga… Só de pensá-lo se fazia água na boca. Quão único queria era deslizar a mão sob a deliciosa prega até encontrar a pequena parte de seda que resguardava a parte mais privada de seu corpo.


Uf, sim! Já se imaginava fazendo-o a um lado com os dedos para ter o caminho espaçoso. Ou rasgando essa frágil e minúscula barreira antes de arrancar-se a dos quadris e enterrar-se em seu corpo enquanto ela o rodeava com as pernas embainhadas nas meias de seda.


Hunter se moveu e recordou, muito tarde, que deveria haver comprado umas calças longas.


Acariciá-la seria chegar ao paraíso.


Se o paraíso era uma possibilidade para uma criatura como ele.


Apertou com mais força a alavanca da mudança de marchas enquanto a idéia se abria passo em seu interior.


«Nenhuma mulher te amará por outro motivo que não seja seu dinheiro. Recorda o que te digo moço. Os homens como nós nunca conseguimos algo tão singelo. Sua maior esperança será ter um filho que te queira.»


Emitiu um pequeno ofego quando as lembranças faziam tanto tempo reprimidas, voltaram para sua mente com total claridade. E ao fio do anterior rememorou as últimas palavras que disse a seu pai.


«Como poderia amar a um homem sem coração como você? Não é nada para mim, velho. E não o será jamais»


A dor o deixou sem fôlego. A ira tinha sido a fonte dessas palavras, que jamais poderiam ser retiradas. Como pôde lhe falar assim à pessoa que mais tinha amado e respeitado?


- Então, - disse Gina distraindo-o - o que passou ontem à noite com o Desiderius? Apanhou-o?


Ele agitou a cabeça para esclarecer seus pensamentos e se concentrou no presente.


- Meteu-se em um refúgio atrás de nosso enfrentamento.


- Em onde?


- Em um refúgio, o santuário de um Daimon. - lhe explicou - São aberturas astrais entre dimensões. Os Daimons podem ficar nelas durante algumas de dias, mas quando a porta volta a abrir-se, vêem-se obrigados a sair de novo.


Gina estava perplexa. Seria certo o que descrevia?


- Não posso acreditar que haja algum tipo de poder que permita utilizar aos Daimons um refúgio para evitar a justiça.


- E não o há. Os Daimons descobriram os refúgios por sua conta. - olhou com um sorriso pícaro - Mas não me queixo. Isso faz que meu trabalho seja imensamente mais interessante.


- Bom, enquanto não te aborreça… - lhe disse com sarcasmo - Eu não gostaria que seu trabalho chegasse a te resultar pesado algum dia.


Hunter lhe lançou um olhar que acendeu seu desejo.


- Chèrie, tenho a sensação de que seria impossível aborrecer-se contigo perto.


Suas palavras tocaram um dos pontos sensíveis da Gina.


- É o único que opina desse modo. - lhe disse enquanto recordava a conversação com a Selena - Sempre me hão dito que encabeço a fila que se dirige à Cidade do Aborrecimento.


Hunter se deteve em um semáforo e cravou os olhos nela.


- Não entendo o porquê desse comentário, a mim não deixaste de me surpreender do momento em que despertou e me chamou «bonitão».


Com o rosto aceso pelo rubor, Gina riu ao recordá-lo.


- Além disso, - prosseguiu ele - não pode culpar às pessoas por dizer isso, quando é você a que levanta a barreira protetora.


- Como diz?


Colocou primeira e continuou avançando pela rua.


- É verdade. Enterra a parte de ti mesma que anseia as emoções sob uma profissão tão aborrecida que algum dia substituirá aos tranqüilizadores. Veste com cores apagadas e com suéter de gola alta que ocultam sua verdadeira natureza.


- Não é certo. - lhe respondeu ela, tremendo de raiva - Não me conhece o suficiente para dizer isso. E só me viu vestida com um traje de minha escolha.


- Certo, mas conheço às pessoas como você.


- Sim, claro. - murmurou com tom depreciativo.


- E comprovei sua natureza apaixonada de primeira mão.


O rosto da Gina se ruborizou ainda mais ante o comentário. Não podia negar a verdade. Não obstante, isso não significava que tivesse que lhe gostar do modo em que Hunter via através dela, como se tratasse de um cristal.


- Acredito que tem medo de sua outra metade. - continuou ele - Me recorda à ninfa grega Lyta. Era um ser formado por duas metades separadas. As duas partes lutavam entre elas, fazendo-a muito infeliz, e não só a ela, mas também a todo aquele que a conhecesse. Até que um dia, um soldado grego se encontrou com as duas metades e as reuniu. Desde aquele momento, Lyta viveu em harmonia consigo mesma e com os outros.


- Está insinuando que te faço infeliz?


Ele riu a gargalhadas.


- Não. Resulta-me muito divertida, mas acredito que seria muito mais feliz se te aceitasse tal e como é e não lutasse tão obstinadamente contra você mesma.


- E isso me diz isso um vampiro que não bebe sangue humano? Me diga, não será que você também está lutando contra sua verdadeira natureza?


O comentário arrancou um sorriso ao Hunter.


- Possivelmente esteja no certo. Possivelmente eu também seria mais feliz se liberasse a besta selvagem que há em meu interior. - Olhou-a com desconfiança - Me pergunto se seria capaz de dirigir essa parte de mim.


- A que te refere?


Ele não respondeu.


- Onde te levo para casa do Julian, ou de sua mãe, ou à tua?


- Bom, já que vai caminho de minha casa suponho que me pode deixar ali. Vivo perto do Tulane.


Harry fez um esforço supremo para permanecer atento ao tráfego, mas seguia rememorando uma e outra vez cenas do sonho. Merda, não recordava quando tinha sido a última vez que teve um sonho tão real. Despertou-se muito cedo, duro e dolorido pelo desejo. E, naquele momento, acreditou cheirar o aroma da Gina no travesseiro.


Sobre sua pele.


Tinha passado o resto do dia tentando descansar todo o possível, mas só tinha dormido a momentos. Desejava a essa mulher de um modo tão intenso que sua simples proximidade o fazia tremer.


Nunca tinha desejado algo com tanta força como o que ela tinha sugerido: liberar-se e devorá-la.


Se atrevesse a fazê-lo…


Assim que escureceu saiu de caça… a caçá-la a ela. Era a primeira vez em sua vida como Caçador Escuro que tinha açoitado a um mortal.


- Sabe uma coisa? - disse-lhe ela com esse acento suave e cadenciado, lhe provocando uma descarga elétrica que desceu por suas costas até chegar a virilha - Não tinha por que me recolher. Podia haver chamado ao escritório para saber se estava bem.


Harry se esclareceu a garganta ao sentir que se ruborizava. Merda! Ia fazer que lhe subissem as cores? Não se tinha ruborizado desde que era um jovenzinho imberbe, fazia já dois mil cento e sessenta anos.


- Não tinha seu número.


- Podia havê-lo buscado na lista de telefone ou pedi-lo em informação. E, é obvio, Grace o tem.


Harry percebeu seu sorriso sem olhá-la.


- Porcaria você até podia havê-lo tirado de meu cérebro. - olhou-o com perspicácia e com uma súbita expressão perversa no rosto - Arrumado a que queria me ver outra vez, não é isso?


- Não. - respondeu ele muito rápido.


- Mmm… - a incredulidade se refletiu em seu tom de voz - Por que será que não consigo acreditar nisso.


- Certamente porque nunca soube mentir.


Ambos riram ao uníssono.


Observou-o enquanto conduzia. Colocou-se o óculo de sol e não era nada que um homem fosse tão bonito.


- Posso te perguntar uma coisa? - inquiriu.


Ele arqueou uma sobrancelha, espectador, mas não disse nada e seguiu olhando à frente.


- De verdade você gosta de ser um Caçador Escuro?


Hunter a olhou e sorriu com esse sorriso que deixava ver as presas.


- Me diga quantos trabalhos há por aí que lhe permitam ser um herói todas as noites? Meu salário é astronômico e vivo eternamente. Há algo que não resulte atraente neste emprego?


- Mas não se sente sozinho às vezes? - insistiu ela.


- Pode te sentir só no meio de uma multidão.


- Suponho, mas…


Hunter a olhou de soslaio.


- Por que não me pergunta o que em realidade quer saber?


- Tendo em conta que pode ler meus pensamentos, por que não me responde diretamente?


Ele sorriu com deleite, com a mesma expressão que um lobo que acabasse de encontrar seu próximo almoço.


- Sim, céu, parece-me incrivelmente sensual. O que mais desejo nestes momentos é te levar a minha casa e te fazer gritar de prazer.


O rubor cobriu de novo o rosto da Gina.


- Odeio quando faz isso. É pior que Tabitha. Deus Santo! Todos os Caçadores Escuros compartilham esta habilidade?


- Não, neném, só a tem eu. - e depois acrescentou - Cada um de nós tem suas próprias habilidades.


- Se te for sincera, eu adoraria que a tua fosse totalmente diferente.


- Muito bem carinho. Contigo, acabou-se. Já não voltarei a te ler a mente.


Enquanto o observava, Gina se deu conta de que debaixo dessa aparência de fanfarrão havia um bom coração.


- É um bom homem, Hunter.


- Sou um bom vampiro, quererá dizer.


- Sim, mas não vai por aí bebendo o sangue da gente.


Os lábios do Hunter se curvaram em um sorriso quase imperceptível.


- Julian lhe disse isso, não?


- Sim. Disse-me que os Caçadores Escuros, ao contrário que os apolitas, livraram-se dessa parte da maldição do Apolo.


- Para sua informação - lhe disse de forma inquietante - não necessitamos sangue para viver, mas certos números de Caçadores Escuros, aos que chamam Bebedores, sim tomam. - Trocou de marcha - Me parece que Julian e você passaram muito tempo falando ontem à noite.


- É possível. - mas claro, Hunter se tinha convertido em seu tema de conversação favorito. Tinha tido ao pobre Julian acordado até bem entrada a madrugada, lhe perguntando coisas sobre o Harry e os Caçadores Escuros - É verdade que os apolitas só vivem vinte e sete anos?


Ele assentiu.


- Isso é o que os faz tão perigosos. A maioria deles dariam algo por viver um só dia mais.


E essa fosse a razão - segundo Julian - de que os Caçadores Escuros não tivessem alma. Assim se evitava que os Daimons se fizessem com as almas mais poderosas. Quanto mais fortes fossem as almas roubadas, mais poderiam viver os Daimons graças a elas.


- Alguém como você - lhe disse Harry - é um objetivo primitivo para os Daimons. Quando roubam uma alma como a tua, obtêm todos os poderes psíquicos que a acompanham.


Gina soprou.


- Eu não tenho poderes.


- Se essa mentira te fizer feliz…


- Não é nenhuma mentira. - se defendeu ela - Não tenho nenhuma habilidade proveitosa. Pelo menos nenhuma que não esteja relacionada devorando números.


- Bom devoradora de números, acredito-te. - mas o tom com o que o disse desmentia suas palavras.


Gina olhou com olhos entreabertos ao pedaço de teimoso que tinha ao lado e lhe deu as indicações precisas para chegar a sua casa. Conforme se aproximavam do lugar, começou a ver algumas nuvens de fumaça que subiam para o céu.


- Isso é um incêndio?


- Sim, e parece que é grande.


- OH, não! - murmurou ao aproximar-se e ver que era sua casa a que ardia.


Mas Hunter não se deteve ali, continuou baixando a rua para casa da Tabitha que também estava sendo consumida pelas chamas.


Gina se equilibrou para abrir a porta com os olhos arrasados de lágrimas.


- Tabitha! - chiou, aterrorizada ante a idéia de que sua irmã pudesse estar dentro do edifício.


Em um abrir e fechar de olhos, Hunter saiu do carro e entrou correndo na casa. Com o coração martelando no peito, Gina saiu do Lamborghini a tropeções. Tirou-se os sapatos de salto de uma patada e se dirigiu a toda pressa para o alpendre, mas não se atreveu a entrar na casa descalça.


- Hunter? - chamou-o, tentando distinguir algo entre as chamas - Tabitha!


Por favor, que esteja bem. Por favor, que Tabby esteja ainda no trabalho!


Enquanto esperava ali, tentando vislumbrar ao Harry ou escutar sua voz, uma moto entrou no jardim e se deteve com um chiado de freios junto ao caminho de entrada.


À velocidade do raio, o motorista se tirou o casco negro, atirou-o ao chão e entrou na casa tão rápido que Gina não pôde lhe ver a cara. Mas se deu a volta já que, nesse mesmo momento Hunter saía da casa levando em braços à companheira de sua irmã.


Gina o seguiu até o jardim, onde Hunter deixou ao Allison tombada na grama.


- Tabitha não estava lá dentro. - lhe disse ele enquanto inclinava a cabeça para o corpo inconsciente da garota - Inalou muita fumaça. - comprovou os arredores, vários vizinhos se apareceram em lugar, mas nenhum fazia gesto de aproximar-se - Onde está a maldita ambulância? - resmungou.


Terminator se aproximou correndo a eles. Lambeu a cara da Allison e depois a da Gina. Enquanto saudava o animal com uns tapinhas, levantou o olhar para observar ao cara que tinha chegado à moto. Era tão arrumado como Hunter, mas parecia estar envolto em uma aura etérea, quase mística.


Tinha o cabelo loiro e curto, à exceção de duas longas tranças que lhe caíam da têmpora esquerda até a metade do peito. Ia adornado com uma jaqueta de couro de motorista, coberta com inscrições celtas em tons vermelhos e dourados. De seu pescoço pendia um grosso pendente de ouro, também celta.


O homem se ajoelhou junto ao Hunter e passou uma mão - ainda coberta pela luva - uns centímetros por cima do corpo do Allison.


- Tem os pulmões abrasados. - disse em voz baixa.


- Pode ajudá-la, Talon? - perguntou-lhe Hunter.


O recém-chegado assentiu. Tirou-se as luvas e colocou as mãos sobre as costelas da Allison. Depois de uns segundos, a respiração da garota se fez mais tranqüila e estável.


Talon procurou a Gina com o olhar e ela se estremeceu ao dar-se conta de que tinha os olhos exatamente iguais aos do Harry.


Havia algo muito inquietante, um pouco muito estranho, neste novo Caçador Escuro. Era a quietude personificada, decidiu. Como um remanso de águas escuras, mas insondáveis. Essa serena calma que o rodeava resultava sedutora e arrepiante de uma vez.


De repente, caiu na conta de que devia estar acontecendo algo horrível. Por que a não ser ia aparecer outro Caçador Escuro?


- Desiderius é o responsável pelos incêndios, verdade? - perguntou-lhes ela.


Os dois homens negaram com a cabeça. Hunter olhou ao Talon.


- Acredita que foi seu objetivo?


- Em minha opinião, aliaram-se. Meu objetivo está tentando te tirar do meio enquanto o teu se esconde.


Por fim chegaram os serviços médicos. Uma equipe de urgências se fez cargo da Allison e eles três se afastaram para um lado.


- Bom, merda, Talon. Isto é novo. - disse Hunter mexendo o cabelo - E nos deixa completamente expostos.


Talon assinalou com a cabeça para casa da Tabitha.


- Sim, sei. É uma merda que possam unir suas forças quando nós não podemos fazê-lo.


- E por que não?


Talon olhou ao Hunter.


- O que é o que sabe?


- Mais da conta.


- Podemos confiar nela?


Hunter a olhou com perspicácia. A incerteza que mostravam seus olhos a feriu. Jamais faria nada que pudesse prejudicar ao homem que lhe tinha salvado a vida.


- Esta tarde encontrei uma mensagem do Acheron na rolha de voz me dizendo que podia lhe dar a Gina toda a informação que necessitasse. 


Talon franziu o cenho.


- Isso não é próprio do T-Rex.


- Sabe que Acheron odeia que o chame assim.


- E por isso o faço. Resulta-me difícil acreditar que T-Rex lhe tenha dado carta branca.


- Sim, mas já conhece o Acheron. Deve haver um motivo e, ao seu devido tempo, quando menos o esperemos, aparecerá para nos iluminar.


- Então me digam, - os interrompeu Gina - por que não podem unir suas forças?


- Para evitar lutas territoriais e impedir que nos aliemos contra os humanos ou dos deuses. - lhe explicou Hunter - Como resultado, assim que estamos perto nossos poderes começam a diminuir. Quanto mais tempo estejamos juntos, mais nos debilitamos.


Gina os olhou boquiaberta.


- Isso não é .


- A vida estranha vez o é. - lhe respondeu Talon.


- Tem idéia de onde pode estar seu objetivo? - perguntou Hunter ao Talon.


- Perdi o sinal aqui, assim é que suponho que deve haver um refúgio perto.


- Genial. - resmungou Hunter.


- Sim, de puta mãe. - conveio Talon - Estava pensando que deveríamos chamar o Kattalakis para que os tirasse de seus esconderijos.


- Não. - lhe respondeu Hunter com rapidez - Este não é o típico Daimon com o que estamos acostumados a nos enfrentar, algo me diz que pôr a um Caçador Katagari ao alcance do Desiderius seria como jogar uma granada a um barril de dinamite. O único que nos fazia falta é que se fizesse com uma de suas almas. Imagina o dano que poderia ocasionar?


- Caçador Katagari? - perguntou Gina - É como vós?


Talon se esclareceu garganta.


- Não exatamente.


- Nós perseguimos as criaturas noturnas, - explicou Hunter - daí o de Caçadores Escuros. E eles… - fez uma pausa e olhou ao Talon suplicando ajuda.


Talon continuou com a explicação.


- Os Caçadores Katagari são… - e também se deteve para olhar ao Hunter em busca da palavra adequada.


Hunter se encolheu de ombros.


- Feiticeiros?


- Não está mal. - lhe disse Talon.


Mas Gina não entendia nada, já que não sabia do que estavam falando.


- Feiticeiros? Como Merlin?


- Merda. - resmungou Talon, olhando de novo ao Hunter - Está seguro de que T-Rex te disse isso?


Hunter retirou o celular do cinto, procurou entre as mensagens e o passou ao Talon.


- Escuta você mesmo.


E Talon assim o fez. Depois de uma breve pausa, devolveu o telefone ao Hunter e olhou a Gina.


- Muito bem, vamos explicar assim: existem quatro caras do Daimons ou vampiros: os que bebem sangue, os que roubam almas, os que absorvem energia durante o sonho e os assassinos.


Gina assentiu. Até aí o entendia.


- Vós sois os assassinos.


Hunter soltou um bufido.


- O que!? É que nasceu com o controle remoto na mão?


- Não. - a corrigiu Talon, ignorando o sarcasmo do Hunter - Os assassinos são os vampiros mais perigosos, já que não querem nada de suas vítimas. Destroem simplesmente por mero prazer. Por não mencionar que são os mais fortes.


Gina se estremeceu.


- Desiderius é um deles?


Hunter negou com a cabeça enquanto Talon continuava com a explicação.


- Para proteger o mundo que conhecemos, acreditaram-se três tipos de Caçadores que perseguissem os Daimons para acabar com eles. É a chamada «Pirâmide Protetora». Os Caçadores Escuros perseguem os vampiros que se alimentam de sangue humano e aos que roubam almas. Os Guardiães dos Sonhos perseguem os que absorvem energia através dos sonhos e os Caçadores Arcadios e Katagari perseguem os assassinos.


Gina franziu o cenho.


- Suponho que o que não acabo de entender é por que não existe um grupo que se ocupe de todos eles.


- Porque não é possível. - lhe respondeu Hunter - Se uma pessoa, ou um só grupo, fora o suficientemente forte para caminhar pelos quatro reinos da existência, seria capaz de dominar o mundo. Nada nem ninguém poderiam detê-lo. E os deuses se encheriam o saco muito.


- A que quarto reino te refere?


- O tempo, o espaço, a terra e os sonhos. - lhe respondeu Talon.


Gina deixou que o ar saísse lentamente de seus pulmões.


- Bom, isso sim é aterrador. Alguns de vocês viajam através do tempo?


- E do espaço e dos sonhos.


- Ah! - exclamou ela enquanto assentia - Rod Serling era um Caçador dos que viajam?


A nenhum dos dois pareceu lhes fazer muita graça.


- Bom. - disse Gina - Não foi gracioso. Só estou tentando compreender tudo.


Talon riu.


- Não o faça. Eu levo tentando-o mil e quinhentos anos e ainda sigo me encontrando coisas novas.


Hunter fez uma careta.


- Só você? Cada vez que acredito que o pilhei, aparece alguém como Desiderius e o põe tudo de patas para acima.


- Isso é certo. - coincidiu Talon com uma gargalhada, antes de começar a mover os ombros - E falando de coisas aterrorizantes, tenho que ir. Meus guias se desvanecem enquanto falamos.


Hunter simulou um estremecimento.


- Odeio quando fala com os mortos diante de mim.


Talon o olhou com cara de poucos amigos.


- Foi você o imbecil que me mandou a camiseta com a frase «Em ocasiões vejo mortos»?


Hunter riu.


- Deve ser Wulf. Acreditava que estava brincando quando o contou.


- Pois falava a sério. Chegou-me faz três dias. Já me pagará isso. - Talon olhou a Gina antes de seguir falando - Não a perca de vista.


Hunter assentiu.


Talon deu uma olhada por cima do ombro a um dos bombeiros.


- É minha coisa ou o bombeiro apolita que está trás de mim nos olha muito?


- Sim, já me dei conta. Acredito que deveria interrogá-lo.


- Esta noite não. Assegure-te primeiro de que Gina está a salvo. Eu interrogarei ao apolita.


Hunter levantou uma sobrancelha e o olhou.


- Não confia em mim?


- Merda, grego, claro que não. Conheço-te muito bem. - Talon se aproximou de seu Harley-Davidson e recolheu o pé do chão - Te mandarei um correio eletrônico mais tarde com o que averigüei.


- Um correio eletrônico? - perguntou Gina - Posso perguntar?


Hunter se encolheu de ombros.


- Avançamos muito. Antes estávamos acostumados a contratar mensageiros para que entregassem os correios.


- Vá. - disse Gina um instante antes de ver um homem solitário que se escondia entre as sombras, ao outro lado da rua. Em lugar de observar o incêndio, parecia mais interessado no Hunter e Talon.


Talon se aproximou de novo a eles.


- Uma pergunta. - sussurrou Gina sem tirar a vista de cima ao extraordinário homem loiro que estava à frente - Todos os Daimons são loiros?


- Sim. - respondeu Hunter - Como todos os apolitas.


- E como distinguem a um apolita de um Daimon?


- A menos que consigam nos bloquear, podemos percebê-los. - disse Talon - Mas para um humano, a única pista visível é o símbolo negro, parecido a uma tatuagem, que os Daimons têm em metade do peito, sobre o lugar onde se armazenam as almas que rouba.


- Vá. - disse de novo sem deixar de observar ao homem que, a sua vez, observava-os a eles - Uma coisa, acreditam que seus objetivos poderiam ser lhes reunir a propósito para debilitar seus poderes antes de atacar?


Os homens a olharam perplexos.


- Por que diz isso? - perguntou Talon.


- Bom, não sou nenhuma perita, mas o menino que está trás de ti tem toda a pinta de ser um Daimon.


Mal tinha acabado de falar quando um raio impactou nas costas do Talon, enviando-o ao chão. Hunter lançou uma maldição, atirou da Gina até deixá-la depois do carro e saltou sobre o Lamborghini para perseguir o Daimon que acabava de atacar ao Talon. Os dois caíram ao chão em metade de uma violenta briga.


Gina se aproximou do Talon, que estava coberto de sangue. Com o coração martelando no peito, tentou incorporá-lo, mas antes que pudesse obtê-lo, outro Daimon os atacou.


Reagindo de forma instintiva, pegou a adaga celta que Talon levava no cinto e feriu o vampiro no peito. O Daimon gemeu de dor e retrocedeu. Talon ficou em pé, arrebatou a adaga a Gina e o cravou nas costas do Daimon, que se afastava à carreira. O vampiro desapareceu com um brilho de luz.


Hunter saiu de improviso de entre as sombras, respirando laboriosamente enquanto recolhia a adaga do Talon do chão para devolver-lhe.


- Está bem? - perguntou-lhe.


Talon fez uma careta de dor ao dobrar o braço.


- Tive-as piores. Você tudo bem?


- Tive-as piores.


Talon olhou a Gina e fez um gesto cortês com a cabeça.


- Obrigado pela ajuda. - lhe disse enquanto se esfregava o ombro com a mão - Ponha a salvo a sua mulher. Logo falamos.


- Bom.


Gina se encolheu ao ver como Talon passava uma longa perna sobre a moto para sentar-se. Movia-se lentamente e com muito cuidado, sinal da dor que devia estar sofrendo.


- De verdade está bem?


- Nossas feridas saram rápido, a maioria desaparece em menos de vinte e quatro horas.


Ao longe se escutou uma sirene. Harry deu uma olhada à rua, onde já se viam as luzes.


- A polícia. Temos que ir antes que cheguem.


- E o que passa com a Allison?


- Quando recuperar o conhecimento estará perfeitamente. Talon pode curar qualquer ferida, o único que lhe resulta impossível é devolver a vida.


- E Terminator?


Hunter deu um assobio e abriu a porta do carro, deixando que o cão se colocasse no assento da Gina.


- Estaremos um pouco apertados, mas nos arrumaremos isso.


Gina entrou no carro e acomodou ao Terminator em seu regaço o melhor que pôde. Até que Hunter não se sentou frente ao volante não viu o sangue que lhe cobria o braço e a mão.


- Está ferido?


- No antebraço. Curará.


- Jesus, Hunter! Como pode seguir te dedicando a isto?


Ele se pôs-se a rir.


- Faz já tanto tempo que o faço que, honestamente, não recordo como era minha vida antes que morresse.


Gina se estremeceu ao escutar o comentário.


- Mas em realidade não está morto, verdade? Tudo isto me parece um pouco confuso. A ver: sangra, pulsa-te o coração e sua pele é cálida ao tato. Isso significa que está vivo não?


Hunter pôs em marcha o carro e baixou a rua, afastando-se da polícia.


- Sim e não. Quando um humano morre, Artemisa utiliza seus poderes para capturar sua alma. Uma vez que apanha nossas almas, somos devolvidos à vida.


- Como?


- Tendo em conta que nesse momento estava morto, não tenho nem a menor idéia. Quão único recordo é que todo se voltou negro e que, quando despertei, era mais forte que nunca e, além disso, tinha habilidades psíquicas.


Gina meditou a respeito do que Hunter havia dito enquanto acariciava as orelhas do Terminator e lhe sujeitava a cabeça para mantê-lo tranqüilo.


- Isso significa que pode morrer outra vez?


- Sim.


- E o que acontece então?


Hunter respirou fundo.


- Quando um de nós morre antes de reclamar sua alma, vaga eternamente pela terra sem nenhum tipo de poder. É uma Sombra apanhada em um corpo sem substância. Explico-me: não pode tocar nada, ninguém lhe escuta à exceção dos Oráculos e passa fome e sede, mas não poderemos comer nem beber. É um pequeno salto que nos leva de um estado maldito a outro pior.


Gina ficou boquiaberta ante semelhante destino. Não podia suportar a idéia de que algo acontecesse ao Hunter.


- E isso é o que acontece se um Daimon te mata?


Ele assentiu.


- Mas é injusto.


Ele a olhou brevemente.


- Pequena, em que mundo viveu que todo te parece uma questão de justiça? A vida e a morte são como são. A justiça ou a falta dela não têm nada que ver.


Esse comentário era muito revelador. Quanta injustiça teria sofrido para pensar assim?


A essa idéia seguiu outra com extrema rapidez.


- Julian disse que poderia recuperar sua alma.


- Em teoria, sim.


- Como que em teoria? - perguntou enquanto Terminator levantava a cabeça para olhar ao Hunter.


Ele alargou o braço e lhe deu uns tapinhas para que se tranqüilizasse de novo.


- Nos concede uma via de escapamento, mas nos últimos dois mil anos só alguns tiveram êxito. Quase todos os que tentaram acabaram sendo meras Sombras.


Gina franziu o cenho. Era horrível. Por sua forma de contá-lo, sabia que Hunter estava resignado e que jamais tentaria recuperar sua alma. Por quê?


- O que teria que fazer para que lhe devolvessem sua alma?


Ele se encolheu de ombros.


- Não sei. Ninguém sabe, já que é distinto para cada Caçador Escuro. Quão único tenho claro é que, chegado o momento da verdade, o Caçador Escuro é liberado ou amaldiçoado para toda a eternidade.


O que Harry não quis lhe contar é que, para poder conseguir sua liberdade, os Caçadores Escuros tinham que depositar suas almas em mãos de alguém que os amasse. Tendo sido ferido de maneira tão cruel por sua esposa, jamais voltaria a lhe confiar a ninguém seu corpo ou seu coração e muito menos sua alma imortal. Tinha visto muitos irmãos apanhados como Sombras porque as pessoas que deviam completar a prova tinham falhado. E, no fundo de sua mente, estava a certeza de que nenhuma mulher poderia amá-lo jamais. Nem sequer um pouquinho. Por que ia pensar, portanto, que alguém poderia liberá-lo?


- Por que esteve de acordo em viver assim? - perguntou-lhe.


Ele a olhou e levantou uma sobrancelha.


- Já lhe hei isso dito, os ganhos são ilimitados e, além disso, sou imortal. Não é tentador?


Ainda assim, Gina não estava muito convencida. Era uma resposta muito simples e ele não parecia ser um homem superficial.


- Não acredito que seja um avaro.


- Ah, não?


- Não. É muito mais íntegro e mais generoso. A gente avara não tem o detalhe de deixar os presentes que você deixou para o Julian e sua família. - viu como esticava a mandíbula e soube que o tinha impregnado à perfeição - Como certo, como conseguiu seu anel? Disse que o tinha vendido fazia alguns de anos.


Hunter ficou tão calado que Gina acreditou que não responderia. Finalmente falou.


- Faz algumas de anos, salvei a um homem que estava sendo atacado por um Daimon. Levava-o na mão e, quando o vi, mal podia acreditá-lo. Disse-lhe que o comprava, mas me deu de presente isso por lhe haver salvado a vida.


Ela o observou com os olhos entrecerrados, desejando poder ler seus pensamentos iguais o fazia ele.


- Por que queria ficar com ele?


Harry desterrou toda emoção de seu rosto e ela soube que o tema era muito delicado para ele.


- Não me vais responder?


- O que quer que diga? - perguntou ele, irritado e com brutalidade - Que tive um momento de debilidade? Que por um instante senti uma pontada de saudade? Pois sim, é certo. Agora já sabe que o Caçador Escuro tem coração, embora careça de alma. Está contente?


- Já sabia que tinha coração.


Ele se deteve em um semáforo e a olhou. Franzia o cenho com intensidade e a observava como se estivesse tentando compreendê-la.


- Acredita-o ou não, - prosseguiu Gina - reflete-se em tudo o que faz.


Harry meneou a cabeça, como se não pudesse acreditá-la, e voltou a olhar ao semáforo.


- Não sabe nada de mim.


Isso era certo, mas…


Gina se sentia muito intrigada por ele. Cativada. Este homem, que não era um homem, atraía-a, seduzia-a. Mas o único que sempre tinha desejado na vida era ser normal. Ter um lar acolhedor, cheio de amor, com meninos. Uma vida tranqüila.


Ele não podia lhe oferecer nada disso.


Não obstante, cada vez que o olhava, cada vez que pensava nele, acontecia-lhe algo do mais estranho. E não era só luxúria. Era algo mais. Algo indefinível que a fazia sentir-se um pouco mais feliz e que despertava seu carinho. Estar perto dele a fazia voar.


E se perguntava se ao Harry aconteceria o mesmo.


Se for assim, ocultava-o bastante bem baixo essa fachada de tipo duro.


- Posso te fazer outra pergunta?


Ele suspirou, irritado.


- E agora o que? Já me perguntou isso tudo.


Fazendo pouco caso de suas agudas palavras, formulou a pergunta.


- Por que te converteu em um Caçador Escuro?


- Queria me vingar a qualquer preço.


- De Theone?


Nesta ocasião, Harry não pôde ocultar a dor que refletiu seu rosto, nem evitar que lhe alongassem às aletas do nariz. Pegava o volante com tanta força que os nódulos se viam claramente sob a pele.


Gina respirou fundo e começou a acariciar de novo as orelhas do Terminator. Não podia culpá-lo por querer vingar-se de uma mulher que tinha sido tão desalmada para entregá-lo a seus inimigos.


- Julian me contou que os deuses lhe concederam vinte e quatro horas para que levasse a cabo sua vingança. O que fez com ela?


Na mandíbula do Harry começou a palpitar um músculo e, quando falou, sua voz estava coberta de fúria.


- Dei as costas a minha família por ela. Dei as costas a todo um reino e às pessoas que me amavam. Por sua culpa, as últimas palavras que dirigi para meus pais foram quentes e cruéis. E quando comunicaram a meu pai a notícia de minha morte, a dor o voltou louco. Jogou-se da janela do quarto que eu ocupava quando era menino e morreu esmagado contra as pedras do chão, me chamando. Minha mãe não voltou a pronunciar nenhuma só palavra mais até o dia de sua morte e minha irmã pequena se rapou o cabelo para fazer saber ao mundo o muito que sofria. Sem minha liderança, os romanos venceram a nossos exércitos e invadiram meu lar. Meu povo perdeu a dignidade, a nacionalidade e sofreram durante séculos o jugo romano.


Nesse momento a olhou furioso.


- Me diga o que teria feito você com minha esposa?


Gina tinha os olhos cheios de lágrimas pela dor que refletia sua voz. Entendia perfeitamente seu sofrimento. Deus santo, ninguém se merecia um castigo semelhante por ter amado a quem não lhe correspondia.


Mas o que mais lhe surpreendia era que não havia dito nada do que Theone tinha feito a ele. Harry só sofria pelo que tinham padecido sua família e seu país.


O desejo de acariciá-lo era tão forte que não sabia muito bem como conseguia contê-lo. Obrigou-se a concentrar-se no Terminator, abraçando-o do modo que gostaria de abraçar ao Hunter.


- Não sei. - lhe sussurrou uma vez que desapareceu o nó que lhe obstruía a garganta - Suponho que eu também a teria matado.


- Isso é o que todo mundo supõe.


Gina sentiu que um calafrio lhe percorria as costas.


- Não o fez, verdade?


- Não. Rodeei-lhe o pescoço com as mãos e estava a ponto de acabar com sua vida quando me olhou com os olhos cheios de lágrimas e presa de pânico. Durante um minuto quis matá-la e, um instante depois, sentia desejos de enxugar suas lágrimas, beijar seus trementes lábios e deixar que seguisse vivendo em paz. - apertou os dentes ao acabar - Assim já vê, está sentada junto ao imbecil maior que jamais pisou na terra. Um homem que vendeu sua alma em troca de uma vingança que jamais levou a cabo.


Gina se sentiu afligida por todo o horror que tinha suportado Harry. Apesar de tudo o que tinha sofrido por causa dessa mulher, depois de tudo o que tinha perdido, tinha seguido amando-a. Profundamente.


Não importava o que Theone lhe tivesse feito, ao final a tinha perdoado.


Como podia alguém trair a um homem capaz de demonstrar tanto amor e fidelidade? Não lhe cabia na cabeça.


- Sinto muito.


- Não o faça. Como diz o refrão, eu mesmo me fiz a cama. Fui um estúpido que não quis ver a verdade. Dei-me conta muito tarde de que jamais me havia dito que me amava, nenhuma só vez.


O pesar e a dor que refletia sua voz a estavam rasgando.


- Você não teve a culpa. - lhe disse enquanto entrava no Garden District - Ela não tinha direito a te trair.


- Theone não me traiu. Eu mesmo o fiz.


Por amor de Deus! Era obstinado. Jamais tinha conhecido a ninguém que estivesse tão disposto a carregar com mais responsabilidades. Oxalá pudesse encontrar o modo de penetrar o muro de ferro que tinha elevado a seu redor.


Com o coração em um punho, viu que passavam frente às mansões de estilo neoclássico, onde os enormes pinheiros e os carvalhos estavam cobertos de musgo espanhol.


Hunter se desviou por um caminho ao final da rua. As árvores impediram que Gina visse para casa com claridade antes de chegar a uma pesada porta de ferro de mais de três metros de altura, flanqueada por dois enormes pedestais de pedra. Um alto muro de tijolo vermelho rodeava a propriedade e parecia estender-se até o infinito.


O lugar se assemelhava a uma fortaleza.


Hunter tirou um mando à distância do porta-luvas, apertou o botão e as pesadas portas começaram a abrir-se.


Gina ficou sem fôlego e com a boca totalmente aberto quando avançaram pelo comprido e sinuoso caminho e por fim pôde ver para casa onde ele vivia. Era enorme! O estilo neoclássico era do melhor que ela tinha visto jamais. Umas altas colunas flanqueavam o alpendre ao redor de toda a planta inferior e os balcões estavam adornados com grades de ferro forjado pintadas de branco.


Hunter seguiu conduzindo até a parte traseira do edifício e entrou em uma garagem com capacidade para seis veículos, onde ela pôde ver que também tinha uma Mercedes, um Porsche, um Jaguar Vintage e um Buick último modelo que parecia estar desconjurado.


Bom, o Lamborghini a tinha feito pensar que Hunter tinha muito dinheiro, mas jamais se imaginou que pudesse viver assim. Como se pertencesse à realeza.


Ao pensá-lo se estremeceu.


É obvio que pertencia à realeza. Era um príncipe. Um príncipe da Antiga Grécia.


Enquanto a porta da garagem se fechava atrás deles, Hunter a ajudou a descer do carro e deixou ao Terminator solto no pátio posterior antes de guiá-la para o interior da casa.


Gina tentava olhar tudo de uma vez enquanto caminhava pelo pequeno corredor que levava até a cozinha, em que uma mulher magra, entrada em anos e de aparência latina, tirava do forno um assado de aspecto delicioso.


A cozinha era descomunal, equipada com eletrodomésticos de aço inoxidável e antigas vasilhas, que adornavam as paredes pintadas de verde escuro e a balcão de mármore.


- Rosa. - disse Hunter com tom de recriminação enquanto deixava as chaves no balcão, perto da porta - O que faz aqui?


Rosa deu um coice e se levou a mão ao peito.


- Pelo amor de Deus! M’ijo acaba de me tirar dez anos de vida.


- E vou te assustar muito mais se não fizer caso ao médico. Você e eu temos um trato. Tenho que chamar outra vez ao Miguel?


A mulher o olhou com os grandes olhos castanhos entrecerrados enquanto colocava a frigideira com o frango sobre o fogo.


- Não me venha com ameaças. Eu dei a luz a esse menino e não vou permitir que me diga o que tenho que fazer. E isso também vai por ti.


- Sim, senhora.


Rosa se deteve ao ver a Gina e um enorme sorriso se desenhou em seu rosto.


- Alegra-me verte com uma garota, m’ijo.


Hunter olhou com acanhamento a Gina e se aproximou da cozinha para inspecionar a comida.


- Isto cheira maravilhosamente, Rosa, obrigado.


A mulher sorriu encantada enquanto lhe observava provar o frango.


- Já sei, por isso o fiz. Estou cansada de ver sacolas de comida rápida e pacotes de precozios no lixo. Precisa comer algo de verdade, para variar. Essas porcarias industriais vão matar-te.


Hunter lhe dedicou um sorriso afável.


- Já me arrumarei isso.


Rosa soprou.


- Isso diz todos e olhe como estou eu agora: tomando remédios para o coração.


- A propósito, - seguiu Hunter olhando-a com aborrecimento - supõe-se que deveria estar em casa a estas horas. Prometeu-me isso.


- Já vou. Deixei uma salada na geladeira. Deve haver suficiente para os dois.


Hunter pegou o casaco de Rosa do respaldo de uma cadeira e a ajudou a colocá-lo.


- Nick se ocupará de tudo, Rosa.


- Amanhã vais tomar-te o dia de descanso.


- Mas e o jardineiro?


- Nick se encarregará de lhe dar passo.


- Mas…


- Nick se ocupará de tudo, Rosa.


A mulher lhe deu uns carinhosos tapinhas na mão.


- É um bom menino, m’ijo. Até na quarta-feira.


- Não apareça antes do meio-dia.


Ela sorriu.


- De acordo. Boa noite.


- Adeus.


- Vá. - começou Gina tão logo estiveram sozinhos - Depois de tudo é capaz de ser agradável com alguém.


Deu-se conta de que Hunter fazia um esforço para suprimir o sorriso, mas acabou fracassando e seus lábios se curvaram levemente.


- Só quando estou de bom humor.


Depois de tirar de uma gaveta um garfo e uma faca, cortou um pedacinho de frango.


- Isto, Mmm... Está muito bom. - disse antes de cortar outra parte - Venha, tem que prová-lo.


Sem pensar no que fazia, Gina deixou que Hunter lhe aproximasse o garfo aos lábios e lhe desse de comer. Os sabores das especiarias alagaram seu paladar no mesmo instante em que caía na conta do íntimo do momento que estavam compartilhando. O olhar do Hunter lhe deu a entender que ele tinha pensado o mesmo segundos antes.


- Está muito bom. - lhe respondeu ela, afastando-se um pouco.


Sem dizer nada mais, Hunter se deu a volta e tirou algumas de pratos. Enquanto o observava, o horror dos acontecimentos caiu sobre ela como uma laje.


- Minha casa desapareceu. - murmurou - Não fica nada dela.


Harry deixou os pratos a um lado ao perceber sua dor, provocado pelo sentimento de perda.


Ela o olhou com os olhos chorosos.


- Por que queimou minha casa? Por quê?


- Ao menos não estava dentro.


- Mas podia ter estado ali. Meu deus, Hunter! Tabitha está acostumada estar em casa a essa hora! E se não tivesse estado ali? Allison estaria morta e poderiam ter assassinado a minha irmã. - disse soluçando e olhando a seu redor, presa de pânico - Não vai deter-se até nos matar a todos, verdade?


Hunter atirou dela e a abraçou com força, quase sem ser consciente do que fazia.


- Não passa nada Gina, eu te protegerei. - e imediatamente ficou gelado ao dar-se conta do que havia dito.


Tinha-a chamado por seu nome. E, ao fazê-lo, uma de suas barreiras acabava de desmoronar-se.


O rosto da Gina estava sulcado pelas lágrimas.


- Sei que só se trata de uma casa, mas todas minhas coisas estavam ali. Meus livros preferidos, a colcha de agulha de crochê que minha avó me fez antes de morrer… tudo o que havia nessa casa formava parte de mim.


- Mas você ainda está aqui.


Seguiu soluçando, apoiada sobre seu peito. Harry fechou os olhos e apoiou a bochecha sobre a cabeça da Gina enquanto ela se aferrava a ele. Tinham passado séculos da última vez que consolasse a uma mulher. Séculos desde que sentisse o que sentia nesses momentos. E isso o desconcertava profundamente.


- Pode Desiderius apanhar a Tabitha?


- Não. - lhe respondeu, sussurrando sobre seu cabelo enquanto tentava não inalar seu doce aroma de rosas, mas não pôde evitá-lo e, imediatamente, seu corpo reagiu e seu membro se esticou ardente de desejo - Enquanto permaneça em casa de um humano, Desiderius não poderá apanhá-la. É uma das limitações que Apolo estabeleceu quando lançou sua maldição, para dar algum tipo de amparo aos mortais.


Gina se afastou dele, respirando ainda entrecortadamente.


- Sinto-o. - lhe disse, limpando-as lágrimas.


Ele apertou os dentes ao notar como lhe tremia a mão. Mataria ao Desiderius por lhe haver feito mal.


- Não estou acostumado a chorar diante de pessoas.


- Não tem que te desculpar. - murmurou ele, tomando o rosto entre as mãos - Em realidade o está suportando muito melhor do que se poderia esperar, dadas as circunstâncias.


Ela o olhou com as pestanas ainda umedecidas pelas lágrimas. Harry não pôde evitar que o coração lhe acelerasse ao contemplar a fragilidade que refletiam esses olhos. Uma fragilidade que o afetava de um modo que não queria analisar.


Desejava-a. Com desespero.


Fazia tanto que não sentia um desejo semelhante… Não, corrigiu-se, jamais havia sentido algo assim por uma mulher, nem sequer pela Theone. Não se tratava tão somente de luxúria ou de amor. Entre eles havia um vínculo. Eram como duas metades de um mesmo coração.


Não podia ser certo. Era uma mentira. Já não acreditava no amor. Não acreditava em nada.


Mas mesmo assim…


Ela tinha feito que voltasse a acreditar. Tinha despertado desejos esquecidos fazia muito tempo: as suaves carícias de uma mão enredada no cabelo ao despertar, a sensação de dormir junto a um corpo quente.


Sentia-se indefeso.


Nesse momento soou seu celular. Pegou-o do cinto e respondeu.


Era Talon.


- A mulher está contigo? - perguntou-lhe.


- Sim, por quê?


- Porque tem um enorme problema. O apolita me há dito que os incêndios foram provocados por dois temporizadores escondidos no interior das casas.


Harry franziu o cenho e se sobressaltou ao recordar algo que Gina havia dito no dia anterior.


- Gina? — chamou-a - Não me disse que Desiderius te tinha capturado quando estava na casa de sua irmã?


Ela assentiu.


- Na sala de estar.


Harry notou que o medo lhe provocava um nó no estômago.


- Ouviste isso? - disse ao Talon. O outro Caçador Escuro lançou uma maldição - Como é possível?


- Alguém deve ter convidado ao Desiderius a entrar. O que significa que há um humano trabalhando com ele, ou para ele. Minha intuição me diz que Tabitha não é tão estúpida.


- Allison tampouco. - os interrompeu Gina - Sabe cuidar-se de pessoas com aparência suspeita.


Harry meditou um instante.


- Te ocorre algo? - perguntou ao Talon.


- Não.


- O que diz seu guia?


- Ceara não sabe nada. E, além disso, há outro pequeno contratempo: minhas costas não estão sarando.


Se o fazia outro nó mais no estômago acabaria tendo um rosário.


- Como que não está sarando?


- Feriram-me com uma descarga astral exatamente igual a dos deuses.


Harry ficou petrificado.


- Não matei a nenhum deus, era um Daimon.


- Já sei.


Harry amaldiçoou em voz baixa.


- No que nos colocamos?


- Não tenho nem idéia, mas até que tenhamos mais informação te sugiro que não te afaste da garota. Com os poderes reprimidos que tem, Desiderius irá atrás dela com todo seu arsenal. Estou seguro de que a preferirá antes que a sua irmã.


Harry se trocou o telefone ao outro lado enquanto observava a Gina, que acabava de sentar-se à mesa. Pelos deuses! Não podia suportar a idéia de que resultasse ferida. O simples feito de imaginar-lhe atormentava.


- Necessita ajuda com as costas?


- Não, mas dói horrores.


Harry sabia por experiência. O ombro ainda lhe dava espetadas depois do ataque da Afrodita.


- Começo a compreender como matou Desiderius aos últimos oito Caçadores Escuros que se enfrentaram a ele.


- Sim. - assentiu Talon - E não quero que sejamos o nono e o décimo.


- Eu tampouco. Bom, manterei a Gina a salvo a meu lado, mas ainda fica o problema de que sua irmã ande solta por aí.


- Farei que Eric a ate em curto de momento. Você te assegure de que Gina se mantém em contato com ela, ou nos complicará a vida ainda mais.


- De acordo. - e desligou antes de deixar o telefone sobre a balcão.


- Algo vai mal? - perguntou-lhe Gina.


Ele riu apesar das circunstâncias.


- Acredito que a pergunta correta seria: algo vai bem?


- E isso o que significa?


- Significa que sua aborrecida vida acaba de chegar a seu fim e que, durante os próximos dias, vais descobrir de primeira mão quão perigosa é a minha.


 


 


CAPÍTULO SETE


 


- Ah, não! - exclamou Gina, ficando nas pontas dos pés para ficar nariz com nariz frente à Harry. Arqueou uma sobrancelha e o desafiou com o olhar a que negasse suas palavras. Quando falou, fez insistência em cada palavra - Está muito equivocado. Quero voltar para minha vida anterior. Quero uma vida aborrecida e quero que seja longa.


Ao Harry fez graça a ênfase que deu à última palavra. Estava espetacular quando se zangava e ele não podia evitar perguntar-se quanto tempo poderia mantê-la com esse rubor nas bochechas e jogando fogo por esses incríveis olhos azuis.


Melhor ainda… enquanto seus seios subiam e baixavam devido à respiração agitada, lhe ocorreram algumas coisas mais que poderiam lhe causar ainda mais dificuldades para respirar.


Queria deixá-la sem fôlego. Queria comprovar a força de sua paixão.


Doíam-lhe os lábios pelo desejo de beijá-la e as mãos pela ânsia de acariciar seu corpo até fazê-la gritar de prazer.


Pelos todos os deuses! Essa mulher era a maior tentação que havia sentido jamais. E pequeno paradoxo, porque houve uma época em que adorava as tentações além do racional. Ao longo dos séculos, tinha esquecido esse pequeno defeito de seu caráter, mas desde que despertasse com ela ao lado, tinha ido recordando, dolorosamente, ao homem que uma vez foi. Podia sentir como Gina ia derrubando, pouco a pouco, cada uma das barreiras que ele tinha construído durante os anos, pondo fim ao intumescimento no que se refugiava. Tinha conseguido manter-se afastado de seus próprios sentimentos durante séculos e, embora tinha conhecido a muitos mortais pelos que havia sentido certo carinho, nenhum deles tinha conseguido afetá-lo como ela.


Era algo muito estranho. Por que Gina? E por que agora? Agora que necessitava de toda sua lucidez para enfrentar-se ao Desiderius.


As Parcas estavam jogando de novo com ele e isso não gostava absolutamente.


Sentia como o sangue corria com força por suas veias enquanto contemplava os lábios úmidos e cheios da Gina. Quase podia saboreá-los. Senti-los. Que os deuses tivessem piedade dele, porque a desejava com desespero.


Só ela era capaz de despertar à besta faminta que morava em seu interior. Essa parte dele que queria rugir e devorar todo seu corpo, centímetro a centímetro, durante toda a noite. Mas ela era humana e ele não tinha nada que lhe oferecer. Sua alma e sua lealdade pertenciam a Artemisa. Além disso, Gina tinha todo o direito a sonhar com uma vida normal, com uma família e um lar ao lado de um homem comum.


Depois de ter visto como seus próprios sonhos tinham sido destroçados de um modo cruel e vingativo, negava-se a que Gina passasse pelo mesmo transe. Ela se merecia ter uma vida longa, ditosa e aborrecida. Todo mundo merecia a oportunidade de cumprir seus desejos.


Tragou-se o nó que lhe obstruía a garganta, dolorido ainda pelo desejo insatisfeito e soube, nesse mesmo instante, que tinha que afastá-la de seus pensamentos.


Jamais poderia ser dela.


Seu destino era retornar junto a uma família que a amava e encontrar um homem que a ajudasse a…


Não pôde acabar. Doía-lhe tão somente de pensá-lo.


- Por seu bem, - lhe sussurrou, lutando contra o impulso de lhe acariciar o cabelo - espero que seja verdade, mas me temo que com os poderes que mantêm ocultos e a caça de vampiros que está levando a cabo Tabitha, não vai ser possível que retorne a sua aborrecida vida durante os próximos dias.


Gina afastou o olhar.


- Não tenho poderes. - disse com voz afiada, mas sem a convicção de antes.


Harry alargou a mão e com um dedo lhe levantou o queixo, queria ajudá-la a aliviar a preocupação que via em seu rosto. Gina tinha medo e ele não entendia a causa. Por que não era capaz de reconhecer os dons com os que tinha nascido?


- Pode que não queira utilizá-los, Gina, mas estão aí. Tem premonições e é telepata, empática e, além disso, pode te projetar fora de seu corpo. Seus poderes são muito parecidos com os de sua irmã, mas muito mais fortes.


O brilho intenso da cor safira voltou para seus olhos.


- Está me mentindo.


A acusação o surpreendeu.


- Por que ia te mentir?


Ela se esclareceu garganta.


- Não sei. Só sei que não tenho poderes.


- Por que tem tanto medo deles?


- Por que…


Ele inclinou a cabeça quando a voz da Gina se desvaneceu e deixou a frase sem acabar.


- Por quê? - insistiu.


Ela levantou o olhar e a dor que se refletiu em seus olhos o deixou sem fôlego.


- Quando tinha quinze anos - começou quase em um sussurro - tive um sonho. - piscou para afastar as lágrimas enquanto se pegava a balcão que estava ao seu lado - Naquela época estava acostumado ter muito. E sempre se faziam realidade. Em este do que te falo, minha melhor amiga morria em um acidente de carro. Vi-a. Senti seu medo e escutei os últimos pensamentos que cruzaram por sua mente antes de morrer.


Harry apertou a mandíbula ao perceber a dor que transmitia sua voz. Alargou o braço e a tirou da mão. Estava gelada e tremia.


- Quando a vi no instituto fiz tudo o que esteve em minhas mãos para que não se era esse dia para casa com o Bobby Thibideaux. Inclusive lhe contei o do sonho. - as lágrimas começaram a cair por suas bochechas - Não me escutou. Disse-me que era uma imbecil e que o que me ocorria era que tinha ciúmes porque Bobby estava com ela e não comigo. - sacudiu a cabeça enquanto recordava o acontecido aquele dia - Não estava ciumenta Hunter, quão único queria era evitar sua morte.


Harry lhe acariciou os dedos, tentando que entrasse em calor.


- Sei Gina.


- Meteu-se no carro me gritando que a deixasse em paz. Todo o instituto me estava olhando, mas me dava igual. Tabitha me afastou para que pudessem partir e as pessoas começaram a rir. - umedeceu os lábios ressecados - Não riram à manhã seguinte, quando se inteiraram de que os dois tinham morrido a caminho de casa. Começaram a me chamar monstro. Durante os três anos seguintes ninguém quis aproximar-se de mim. Para eles eu era essa garota estranha que via coisas.


A ira brilhou nos olhos da Gina quando o olhou.


- Me diga o que tem de bom nesses poderes quando fazem que a gente se assuste de mim? Por que vejo coisas se não as posso trocar? O que tem isso de bom?


Harry não soube o que lhe responder. Percebia o torvelinho de suas emoções e sua angústia.


- Não o entende? - prosseguiu ela - Não quero conhecer o futuro se não poder detê-lo. Quero ser normal. - insistiu com a voz rota ao pronunciar a última palavra - Não quero ser como Talon nem como minha avó e ter aos mortos me falando há todas as horas. Não quero saber o que está sentindo. Só quero viver minha vida como o resto das pessoas. Alguma vez desejaste isso mesmo?


Fechando os olhos ante a absurda agonia que lhe atendia o coração, Harry deixou de acariciar a suave pele da Gina e se afastou dela.


- Que mais dá o que eu deseje.


Ela se surpreendeu quando o olhou aos olhos. Tinha-o ferido de algum modo.


- Sinto muito, Hunter. Não pretendia…


- Não passa nada. - lhe respondeu lentamente. Aproximou-se de uma cadeira e Gina observou a força com que se pegava ao respaldo. Embora lutava por ocultar sua dor, Gina o distinguia com claridade. - Tem razão. - lhe disse por fim - Há ocasiões em que sinto falta da sensação do sol na cara. Aprendi que o melhor que posso fazer é não me torturar com essas lembranças. - olhou-a com tal paixão que seu corpo se acendeu - Mas os que temos dons especiais não podemos ser normais.


Gina não queria ouvir essas palavras. Seu coração não podia resisti-lo.


- Possivelmente você não possa sê-lo. Mas eu sim. Não permitirei que esses poderes retornem. Estão mortos para mim.


Harry soltou uma risada amarga.


- E você me chama teimoso.


- Hunter, por favor. - lhe rogou ela, odiando-se pela dor que ouvia em sua própria voz - Quão único desejo é voltar para trás, despertar pela manhã e descobrir que tudo foi um pesadelo.


Nesse momento sentiu algo que a assustou. Um pequeno estremecimento provocado pelos poderes que ele tinha mencionado. A sensação a percorreu de cima abaixo enquanto escutava os pensamentos do Hunter.


Quer dizer que desejaria não me haver conhecido jamais.


Gina se aproximou dele.


- Hunter…


Ele evitou seu contato e se aproximou do balcão, onde tinha deixado o telefone. Pegou-o e o ofereceu.


- Chama a Tabitha e lhe diga que fique com sua mãe até na sexta-feira. Pode entrar e sair durante o dia, mas uma vez o sol fique, é essencial que permaneça em casa.


- Não lhe vai gostar de nada.


Uma fúria intensa fez brilhar esses olhos negros.


- Então que sua mãe a ate. Não estamos falando de vampiros normais. Estes Daimons desataram algum tipo de poder extremamente perigoso e, até que Talon e eu descubramos do que se trata, precisa ocultar-se.


- Bom, farei o que possa.


Ele assentiu.


- Enquanto fala com ela vou trocar de roupa.


Gina o observou, afligida, enquanto saía da cozinha. Não queria separar-se dele, nem sequer o breve lapso de tempo necessário para trocar-se. Sentia um peculiar impulso de segui-lo e ajudá-lo a tirar a roupa… em lugar de fazê-lo, marcou o número do celular da Tabitha.


- Graças a Deus que está bem! - disse-lhe sua irmã com voz chorosa - A polícia acaba de me contar o dos incêndios e sei que há essa hora a revista está em casa.


Os olhos da Gina voltaram a encher-se de lágrimas, mas se sobrepôs. Chorar não ia solucionar nada. As casas tinham desaparecido e todas as lágrimas do mundo não iriam trazer de volta. Agora precisava concentrar-se para que todos conseguissem sobreviver à ira do Desiderius.


- Como está Allison? - perguntou-lhe em uma tentativa de sufocar o medo.


- Está bem. Sua mãe já está no hospital com ela. Eu vou de caminho para vê-la. Ninguém sabe o que ocorreu com o Terminator.


- Está comigo.


Tabitha suspirou, aliviada.


- Obrigado, irmãzinha. Devo-te uma. Onde estas?


Essa era a pergunta que Gina tinha medo de responder. A sua irmã ia dar um ataque quando se inteirasse.


- Melhor não lhe digo. - respondeu isso de forma evasiva.


Silêncio. Tabitha permaneceu calada durante uns minutos. Até a Gina só chegava o ruído do tráfego do outro lado da linha. Estava tentando lhe ler a mente!


Merda.


Tabitha disse a mesma palavra no instante que Gina o pensou.


- Está outra vez com o vampiro, verdade?


Gina fez uma careta. Como lhe dizia uma a sua irmã - uma caçadora de vampiros - que tinha perdido a cabeça por um deles e que pensava passar a noite em sua casa? Não havia modo de suavizá-lo. Suspirando, tentou procurar uma explicação.


- Não é um vampiro… exatamente. Parece-se com você.


- Vá, vá! - exclamou Tabitha - Em que sentido? Tem tetas? Tem namorado? Ou gosta de matar coisas como eu?


Gina apertou os dentes.


- Tabitha Lane Weasley, deixa de fazer manhosa. Sei que você não gosta de matar coisas e não quero jogar a Verdade, beijo ou atrevimento contigo. O cara que me atacou em sua casa é aterrador e não creio que se parece com os que estão acostumadas a jogar. Isto é diferente. Hunter quer que fique em casa e eu estou de acordo com ele.


- Hunter? É o mesmo demônio chupa-sangue que me ameaçou te matando?


- Não o dizia a sério.


- Ah, não? Apostaria sua vida?


- Arrumado a tua e a minha.


- Está como uma puta cabra, sabe?


- Essa boca, senhorita. Ao contrário de você, sei o que estou fazendo. Confio no Hunter. E o tal Desiderius é um demônio. É tão mau como Hannibal Lecter.


Gina podia ver sua irmã pondo os olhos em branco enquanto bufava de indignação.


- Nenhum dos dois me dá medo.


- Possivelmente te viria bem que alguém te assustasse um pouco. Eu estou aterrorizada.


- E então por que não vem para casa onde podemos te proteger?


Porque quero ficar com o Hunter.


Não soube muito bem de onde tinha saído essa idéia. Mas tampouco ia negar o fato. Com ele se sentia segura e protegida. Já se tinha devotado a levá-la a qualquer outro lugar. E sabia que, se o pedia, deixaria-a partir, mas…


Não queria fazê-lo.


Não obstante, não se atrevia a dizer-lhe a Tabitha. As coisas já estavam bastante tensas entre elas, assim que lhe ofereceu a única desculpa que lhe veio à cabeça.


- Não posso ir para casa. Não enquanto esta criatura vá trás de mim.


Tabitha voltou a amaldiçoar.


- Como sabe que o tal Hunter não a mantém a seu lado com algum tipo de controle mental?


Gina riu ao recordar o que Hunter lhe disse na fábrica.


- Porque, ao igual a você, sou muito obstinada para que funcione. Além disso, é amigo do Julian Alexander. Confia no Julian e na Grace, não é certo?


- Sim, claro, como não.


- Então confia em seu amigo.


- Bom. - concedeu Tabitha à contra gosto - Mas minha confiança pende de um fio. Não quero que te passe nada.


- O mesmo digo. Hunter diz que estará a salvo enquanto haja luz, mas deve te assegurar de estar na casa da mamãe ao entardecer e ficar ali. De fato, não acredito que deva ir ao hospital. Deve ir diretamente pra casa da mamãe agora.


- Allison é minha melhor amiga, tenho que ir ver como ela está.


- E se os leva até ela? Por quanto sabemos também vigiam a você.


Tabitha grunhiu.


- Eu não gosto disto. Eu não gosto de nada, mas bom. Tem razão. Não quero conduzi-los até a Allison. Mamãe pode fazer-se carrego de algo. Darei a volta na seguinte rua e me irei passar a noite a sua casa. Chame-me se necessitar algo.


- Farei.


Gina desligou o telefone e pegou o prato do balcão, onde Hunter o tinha deixado. Levou-o até a mesa situada diante da enorme janela e deu uma olhada ao formoso pátio de estilo antigo que se abria na parte traseira da casa. Não lhe faltava nenhum detalhe: a grade para as roseiras e trepadeiras, as estátuas gregas e as sebes podadas de forma artística. Uns antigos candelabros alagavam o lugar com uma luz espectral que fazia dançar as sombras sobre as paredes de estuque branco.


Ficou sentada uns minutos a sós até que Hunter retornou. Ele colocou uma camiseta negra de manga longa que lhe marcava os ombros. Como levava as mangas elevadas, Gina pôde jogar uma olhada ao feio corte que tinha no antebraço.


- Isso é uma dentada do Daimon ou um corte?


Hunter olhou a ferida enquanto se sentava em frente dela.


- Uma dentada.


Gina ficou gelada.


- Tem que lhe curar isso não?


- Não. Para amanhã de noite terá sarado por completo.


- Sim, mas não se supõe que assim te converte em vampiro, com uma dentada?


Ao Harry fez graça e riu a gargalhadas.


- Tecnicamente, já sou um vampiro. E, com respeito à transformação, é impossível a menos que seja um apolita.


- Então, não podem converter aos humanos mediante uma dentada?


- Isso é um conto de fadas.


Gina refletiu uns instantes.


- E de onde provêm todas estas noções infundadas a respeito dos vampiros?


Harry deu um sorvo à bebida e tragou a comida antes de lhe responder.


- Principalmente, de gente assustada. Desde dia em que a Atlântida desapareceu sob as águas do oceano, os apolitas e os Daimons foram perseguidos. Houve uma época em que todas as cidades-estado da Grécia conheciam e reverenciavam aos Caçadores Escuros. Mas, conforme passou o tempo, fizemo-nos cada vez mais solitários e nos esqueceram, convertemo-nos nos protagonistas de mitos e lendas. Ao Acheron e ao resto lhes pareceu melhor assim. Ash inclusive chegou ao extremo de localizar e reunir todos os escritos da Antigüidade nos que se fazia menção de nosso nome, para ocultá-los.


- Acheron? - perguntou ela enquanto cortava uma parte de frango - É a segunda vez que o menciona. Quem é?


- O primeiro Caçador Escuro escolhido pela Artemisa.


- E ainda está vivo?


- Claro. Acredito que esta semana está na Califórnia.


Gina o olhou e levantou uma sobrancelha. Hunter sorriu.


- Troca de residência cada poucos dias.


- Como? Por quê?


Ele se encolheu de ombros.


- Suponho que quando se têm onze mil anos tudo acaba por te aborrecer. E com respeito ao como, tem um helicóptero fabricado especialmente para ele, que pode romper a barreira do som.


Gina assimilou as notícias e tentou imaginar o aspecto do Caçador Escuro mais antigo. Por algum motivo, Ioda lhe veio à mente. Um ancião pequeno, de pele cinza esverdeada, que caminhava curvado e que iluminava com sua sabedoria a todos os outros, falando incansavelmente com palavras desconexas.


- Conhece-o? - perguntou-lhe ela.


Harry assentiu.


- Todos o conhecemos. Ele treina a todos os novos Caçadores Escuros e poderia dizer-se que é nosso líder não oficial. Também existe a teoria de que é o executor a quem os deuses acodem quando um de nós cruza a linha.


A Gina não gostou de nada daquilo.


- Cruzar a linha em que sentido?


- Pois, em primeiro lugar, atacar aos humanos. Temos um Código de Conduta que devemos seguir a risca, não podemos utilizar nossos poderes em metade de uma aglomeração de pessoas, não podemos nos associar nem com os apolitas nem com os Daimons, etcétera, etcétera.


Era estranhamente alentador saber que tinham tal coisa, mas também assustava bastante pensar que um destes meninos se passasse ao outro bando com os poderes que possuíam.


- Se lhes está proibido lhes fazer mal e cada vez que lhes reúnem seus poderes se debilitam, como pode Acheron ser um executor?


- Ele não debilita nossos poderes. - lhe explicou antes de dar um sorvo ao vinho - Ash foi o coelhinho das índias dos Caçadores Escuros. Foi o primeiro, os deuses não tinham aperfeiçoado muito o sistema e por isso sofreu… digamos… uns efeitos secundários peculiares.


Definitivamente, depois do que acabava de ouvir, imaginava uma forma de vida mutante. Um Caçador Escuro diminuto, corcunda e que destruía ao falar.


- E quantos Caçadores Escuros há? - perguntou.


- Milhares.


Gina ficou boquiaberta.


- Sério? - pela forma em que Hunter a olhou, soube que era verdade - E cada quanto se acredita um novo?


- Não muito freqüentemente. - lhe disse em voz baixa - A maioria levamos por aqui um bom tempo…


- Vá! - exclamou - Então, se Acheron for o mais velho, quem é o mais jovem?


Harry franziu o cenho enquanto pensava a resposta.


- Sem comprová-lo diria que Tristan, Diana ou Sundown, mas teria que consultá-lo com o Acheron.


- Sundown? Isso é um apelido ou é que sua mãe não o queria muito?


Harry soltou uma gargalhada.


- Era um pistoleiro e esse era o nome com o que lhe conhecia nos pôsteres de busca. As autoridades afirmavam que seus melhores trabalhos eram feitos a noite.


- Certo. - disse Gina devagar. Agora se imaginava a um personagem do estilo do Wild Bill Hickok, com as pernas arqueadas, barba suja e mascando tabaco - Já vejo que os Caçadores Escuros não foram precisamente comerciantes nem…


- Tipos decentes que acatassem a lei?


Ela sorriu.


- Não queria insinuar que eram indecentes, já sabe a que me referia.


Harry lhe devolveu o sorriso. «Indecente» era um termo que se ajustava à perfeição ao cara de pensamentos que cruzavam por sua mente cada vez que olhava a sua convidada.


- Para ser um Caçador Escuro terá que ter certo cara de comportamento e uma natureza exaltada. Artemisa não quer esbanjar seu tempo, nem o nosso, escolhendo a alguém que seja incapaz de matar. Suponho que poderia dizer-se que somos maus, loucos e imortais.


O sorriso da Gina se alargou e mostrou uma covinha em sua bochecha direita. Que estranho que não o tivesse notado antes.


- Maus e imortais não lhe discuto isso, mas de verdade lhes comportam como loucos?


- Se te referir a que somos uns loucos, você o que diria a respeito?


Os olhos da Gina brilharam com picardia.


- Que é completamente certo em seu caso. Mas sabe o que te digo? Que eu gosto disso em você. Sua forma de ser, tão imprevisível, eu adoro.


Harry não estava muito seguro de quem dos dois se surpreendeu mais por causa da inesperada confissão. Gina afastou rapidamente o olhar com as bochechas avermelhadas.


Gosta…


Essas palavras lhe faziam retornar à seus anos de juventude, sentia o estranho impulso de sair correndo e lhe gritar ao primeiro que encontrasse: «Gosta, gosta».


Por todos os deuses do Olimpo! O que lhe estava passando?


Tinha dois mil anos, fazia muito que deixou atrás a idade própria de semelhante comportamento.


Embora fosse inútil negar a satisfação e a felicidade que o embargavam.


Um incômodo silêncio caiu entre eles enquanto acabavam o jantar. Gina se esforçou por não pensar em seu lar. Em tudo o que tinha perdido. Já se enfrentaria a isso pela manhã. De momento, tinha que pensar em sobreviver de noite.


- Tabitha vai ficar em casa. - disse ao Hunter enquanto observava como ele levava seu prato à pia e o enxaguava.


- Bem.


- Sabe? - disse-lhe em voz baixa - Ainda não me contaste como é que sabia tantas coisas sobre minha irmã a noite que nos conhecemos.


Ele deixou o prato e os cobertos na lava-louça.


- Talon e Tabitha têm um amigo em comum.


Gina abriu os olhos de par em par. Uma toupeira… quem o teria imaginado.


- Um dos integrantes do Circo da Tabitha?


Ele assentiu.


- Quem?


- Já que espiona para nós, não tenho intenção de te dizer quem é.


Gina riu, entrecerrou os olhos e tentou imaginar-se quem podia ser.


- Arrumado o que queira a que é Gary.


- Não vou soltar nada.


Era um assunto fascinante, mas não tanto como o Caçador Escuro que tinha diante. Com um suspiro, continuou comendo e deu uma olhada à cozinha, a que não lhe faltava detalhe, enquanto Harry guardava a comida. Havia um balcão de mármore, para tomar o café da manhã, que recordava vagamente a um templo grego e que servia para separar a mesa onde ela estava sentada do resto da estadia. Ao longo do balcão se dispuseram três tamboretes altos.


Tudo estava novo, limpo e enorme.


- É uma casa muito grande para uma pessoa. Faz muito que vive aqui?


- Pouco mais de cem anos.


Gina esteve a ponto de engasgar-se.


- Diz a sério?


- Não gosto de me mudar, eu gosto de Nova Orleans.


Ela ficou em pé e lhe deu o prato.


- Acreditaste raízes, verdade? Onde viveu antes?


- Em Paris uma temporada. - lhe respondeu, deixando o prato no balcão - Gênova, Londres, Barcelona, Hamburgo e Atenas. E antes de me estabelecer nesses lugares me dedicava a vagar por aí.


Gina observou o rosto do Hunter enquanto falava. Não havia modo de saber o que estava pensando. Estava ocultando seus sentimentos e se perguntava se existiria alguma forma de rachar sua couraça.


- Dá sensação de que esteve muito sozinho.


- Não foi tão mal. - nenhuma careta.


- Fez amigos nesses lugares?


- Em realidade, não. Tive alguns Escudeiros ao longo dos séculos, mas pelo geral, prefiro a solidão.


- Escudeiros? - perguntou-lhe - Que estranho. Como os que haviam na Idade Média?


- Um pouco parecido. - olhou-a, mas não explicou nada mais - E você? Viveu aqui toda sua vida?


- Nascida e acreditada aqui. Meus avós maternos eram emigrantes romenos que escaparam da Depressão e a família de meu pai era de origem Cajun e se dedicava à agricultura.


Ele riu ao escutá-la.


- Conheci a um montão desses.


- Suponho que é normal se estiver aqui há mais de cem anos.


Gina refletiu a respeito da vida que Hunter teria levado. Todos esses séculos de solidão, sendo testemunha das mortes das pessoas a que apreciava, vendo-os envelhecer enquanto ele permanecia igual. Devia ter sido muito duro. Mas ao mesmo tempo, seguro que tinha vivido momentos estupendos.


- O que se sente sabendo que vai viver eternamente?


Ele encolheu os ombros.


- Se for sincero, faz muito tempo que deixei de pensar nisso. Suponho que, como o resto da humanidade, limito-me a me levantar, fazer meu trabalho e voltar para a cama.


Que singelo. Entretanto, percebia algo mais, uma profunda tristeza. Viver sem sonhos devia ser muito doloroso. O espírito humano necessita objetivos pelos que lutar, e não lhe parecia que matar Daimons era um verdadeiro objetivo.


Desviou o olhar até o balcão e tentou imaginar o homem que uma vez foi Hunter. Julian lhe havia dito que estavam acostumados a beber até embebedar-se depois de uma batalha e que sempre tinha desejado ter filhos.


Sim, recordava o modo em que tinha abraçado a Vanessa e a expressão de seu rosto enquanto a sustentava.


- Tiveste algum filho?


Seus olhos refletiram uma intensa dor um instante antes de voltar a mostrar-se impassível.


- Não, os Caçadores Escuros são estéreis.


- Assim é impotente…


- Claro que não. Posso manter relações sexuais, mas não posso ter descendência.


- Ah! - exclamou Gina, fazendo uma careta com o nariz que conferiu a seu rosto uma aparência travessa e, imediatamente, tentou aliviar a conversação - Estou sendo muito intrometida, não deveria ter perguntado isso. Sinto muito.


- Não passa nada. - Enquanto punha a lava-louça para funcionar lhe perguntou - Você gostaria de dar uma volta pela casa?


- Casa? - perguntou ela, elevando uma sobrancelha com incredulidade - Se isto for uma casa, eu vivo em uma choça. - imediatamente recordou que já não tinha um lar onde viver e ofegou. Esclareceu-se garganta e tentou afastar esses pensamentos – Sim, - disse em voz baixa - eu adoraria vê-la.


Hunter a guiou até a porta situada à esquerda da cozinha e entraram em um gigantesco salão. As paredes estavam decoradas com molduras e medalhões, com um estilo elegante e maravilhosamente neoclássico, mas os móveis eram atuais e muito modernos. Para casa estava decorada para ser cômoda, não para impressionar as visitas. Mas claro, supunha-se que os vampiros não tinham muitos convidados aos que tratarem com atenção.


Em uma das paredes se instalou uma equipe completa de imagem e som JVC, com uma enorme tela de televisão, um sistema de vídeo e um reprodutor de DVD.


Embora houvesse abajures por toda a estadia, a luz provinha das velas de três vistosos candelabros.


- Parece que você não gosta das lâmpadas, né? - perguntou ao Hunter enquanto o observava acender mais velas.


- Não. - lhe respondeu - A luz é muito brilhante para meus olhos.


- Faz-te mal?


Ele assentiu.


- Os olhos dos Caçadores Escuros estão especialmente acreditados para ver na escuridão. Nossas pupilas são maiores que as dos humanos e não se dilatam do mesmo modo. Como resultado, deixam passar muito mais luz.


Ao mesmo tempo em que escutava, Gina observou que as janelas que se levantavam do chão até o teto estavam cobertas com cortinas negras que deviam resguardar para casa da luz do sol.


Rodeou um sofá de pele negra e ficou plantada no lugar. Havia um ataúde diante das poltronas!


- Isso é…? - foi incapaz de acabar a frase. Não enquanto se imaginava a sinistra imagem do Hunter dormindo aí dentro todos os dias.


Jogou-lhe uma olhada sem piscar. Gina parecia realmente atônita.


- Sim, - respondeu com voz neutra - é um ataúde. É minha… mesa de café. - aproximou-se dela, levantou a tampa e pegou um controle remoto - Tenha-o, se por acaso gostar de ver a televisão amanhã.


Gina meneou a cabeça. Uma vez recuperada da impressão, reconheceu uns objetos tipicamente vampíricos colocados pelo quarto. Miniaturas, pequenas molas de suspensão e inclusive um baralho de tarô em cima de um suporte.


- Nick acredita que é gracioso. - lhe explicou Hunter enquanto ela pegava o baralho - Cada vez que encontra algo relacionado com vampiros, traz e o deixa aqui para que eu o veja.


- Você se incomoda?


- Não, é um bom menino… quase sempre.


À medida que ele a conduzia através das dependências da antiga mansão, chegou um momento em que Gina se sentiu perdida.


- Mas quantos cômodos há neste lugar? - perguntou ao entrar em uma sala de jogos.


- Há doze dormitórios e tem mais ou menos uns dois mil metros quadrados.


- Jesus! Estive em centros comerciais menores.


Ele soltou uma gargalhada.


No centro do quarto havia uma mesa de bilhar esculpida, e em uma das laterais podiam ver-se máquinas de videogames, tiradas de algum salão recreativo, e uma grande tela de televisão a cujos pés se alinhavam uma coleção de consoles de vídeos-game sobre uma mesa de café. Mas o que lhe resultou mais surpreendente, foram umas luvas de beisebol e uma bola que estavam sobre uma mesa dobradiça em um canto. Gina se aproximou da mesa.


- Algumas noites Nick e eu lançamos umas bolas. - lhe explicou.


- Por quê?


Hunter se encolheu de ombros.


- É uma forma de me esclarecer as idéias quando estou em um apuro.


- E ao Nick não importa?


Ele riu.


- Ao Nick importa tudo. Não recordo nenhuma só ocasião em que lhe tenha pedido algo sem ter que escutar suas queixas depois.


- E então, por que deixa que siga trabalhando para você?


- Sou masoquista.


Nesta ocasião lhe tocou rir a Gina.


- Eu adoraria conhecer o tal Nick.


- Sem dúvida, amanhã.


- De verdade?


Ele assentiu.


- Algo que precise peça-lhe e ele lhe conseguirá isso. Se te ofender no mais mínimo, faça-me saber e o matarei assim que me levante.


Gina percebeu algo em seu tom de voz que lhe fez pensar que, possivelmente, não se tratasse de uma falsa ameaça.


Hunter abriu as enormes portas francesas e entrou em um átrio envidraçado. O teto estava muito limpo e deixava ver os milhares de estrelas que brilhavam no céu enquanto os passos de ambos ressonavam sobre os ladrilhos do chão.  


- É precioso.


- Obrigado.


Gina se aproximou de uma grande escultura, no centro da propriedade, que mostrava a três mulheres jovens. A peça era extraordinária. A mais jovem das três estava tombada de lado com um pergaminho entre as mãos, enquanto as outras duas se sentavam de costas uma à outra. Uma sustentava uma lira e a outra parecia estar cantando. O modo em que estavam pintadas resultava muito estranho. As três pareciam reais e todas elas eram assombrosamente parecidas com o Hunter.


- É grega? - perguntou-lhe.


Um olhar de causar pena escureceu seu rosto e ele assentiu.


- Eram minhas irmãs.


Com o coração na mão, Gina as observou com mais atenção.


Hunter acariciou com ternura o braço da garota que sustentava o pergaminho. Tinha franzido ligeiramente o cenho enquanto estudava a estátua em tamanho real da jovem, que não teria mais de dezoito anos. O vestido azul fazia jogo com seus olhos.


- Althea era a menor das quatro. - lhe explicou com voz rouca - Era calada, tímida e gaguejava de um modo muito gracioso quando ficava nervosa. Pelos deuses! Ela o odiava, mas me parecia muito tenro. Diana. - seguiu com a explicação, assinalando a garota que levava a lira e que ia vestida de vermelho - Era dois anos mais velha que eu e tinha o caráter de uma harpia. Meu pai estava acostumado a dizer que nos parecíamos muito e que por isso não nos dávamos bem. E Phaedra era um ano mais jovem que eu e cantava como os anjos.


Gina observou à moça vestida de amarelo.


As três compartilhavam uma doçura muito especial. O escultor as tinha representado como se estivessem em movimento, inclusive as dobras dos vestidos pareciam reais e delicados. Nunca tinha visto uma mestria igual em uma escultura. Pareciam tão reais que quase esperava que uma delas começasse a falar em qualquer momento.


Não era de se admirar que Hunter estivesse tão afetado.


- Queria-as muito.


Ele assentiu.


- O que lhes aconteceu?


Antes de responder, Hunter se afastou um pouco.


- Casaram-se e tiveram umas vidas longas e felizes. Diana pôs meu nome a seu primeiro filho.


Um débil sorriso se desenhou nos lábios da Gina ao pensar que a irmã que pior se levou com ele tivesse feito tal coisa. Dizia muito da relação que tinham compartilhado. Observando às jovens, recordou o que lhe tinha contado sobre a Althea no carro: a moça de comprido cabelo loiro ondulado que raspou a cabeça ao inteirar-se da morte de seu irmão. Deviam havê-lo amado tanto como ele a elas.


- O que pensaram sobre sua transformação em Caçador Escuro?


Ele se esclareceu garganta.


- Nunca souberam. Para elas, eu estava morto.


- Então, como sabe tanto sobre…?


- Podia as escutar enquanto viveram. As sentir, do mesmo modo em que você pode abrir seu coração a Tabitha e saber se está preocupada.


Ela se esticou ao escutá-lo.


- Como sabe?


- Já lhe hei isso dito, posso perceber seus poderes.


Um calafrio lhe percorreu as costas e Gina se perguntou se poderia lhe ocultar algo.


- É um homem aterrador.


Uma estranha luz brilhou nos olhos escuros.


- Não sou um homem. Deixei atrás minha humanidade ao morrer.


Possivelmente ele acreditasse assim, mas Gina sabia que não era certo. Pode que não tivesse alma, mas era um homem de bom coração e era humano.


- Por que quis te converter em Caçador Escuro apesar de que alguma vez te vingou de Theone?


- Nesse momento me pareceu uma boa idéia.


Com essas palavras, Gina sentiu que algo se derretia em seu interior. Possivelmente fosse a solidão que se filtrava em sua voz ou a resignação que mostravam seus olhos. Não podia dizê-lo com certeza, mas sabia que seria incapaz de retornar a sua antiga vida e esquecer a este homem. Tinha sido testemunha de sua bondade. De sua dor. E, que Deus a ajudasse, quanto mais sabia dele mais o desejava.


Desejava-o de um modo que ia além de todo raciocínio. Apenas se conheciam e ainda assim havia um vínculo entre eles.


Observou os atormentados olhos escuros que a olhavam com paixão e desejo. Ele era o que sua mãe chamava a outra metade. Expressão que sua mãe usava para descrever o seu pai, e Selena para referir-se ao Bill.


Pela primeira vez em sua vida, Gina compreendia seu significado. Não podia deixá-lo escapar agora que o tinha encontrado.


Não sem lutar.


Alheio aos pensamentos da Gina, Hunter deu a volta e insistiu a retornar à casa. Acompanhou-a a uma suíte situada no andar de baixo.


- Pode passar a noite aqui. Trarei algo mais cômodo para dormir.


Gina vagou ao redor do suntuoso quarto. A enorme cama esculpida parecia recém saída de um antigo filme. A cor verde escura que decorava as paredes teria feito parecer diminuta qualquer habitação, mas em um lugar tão espaçoso, o efeito era surpreendente, dava-lhe uma aparência cálida e acolhedora.


Hunter retornou imediatamente com uma camiseta negra e umas calças de moletom que a tragariam inteira.


- Obrigado. - lhe disse enquanto pegava a roupa.


Ele ficou frente a ela, imóvel, olhando-a aos olhos.


Para surpresa da Gina, levantou a mão e lhe percorreu o queixo com um dedo, lhe arrepiando a pele com o suave roçar da unha. Intuiu que desejava beijá-la e ficou surpreendida ao compreender o muito que ela desejava que o fizesse.


Mas não a beijou. Limitou-se a observá-la com esses vorazes olhos escuros antes de passar o polegar por seus lábios, obrigando a Gina a reprimir um gemido ante a arrebatadora sensação que despertavam suas carícias. E seu aroma. A atmosfera entre eles estava carregada de tensão, o desejo e a necessidade eram recíprocos e sua intensidade a debilitava e ao mesmo tempo a fazia sentir-se mais forte que nunca.


Quando pensava que ia beijá-la, Hunter se afastou.


- Boa noite, Gina.


Ela observou como partia com o coração na mão.


 


Harry se amaldiçoou a si mesmo com cada passo que o aproximava de seu escritório. Deveria havê-la beijado. Deveria…


Não. Fez o correto. Não poderia haver nada entre eles. Os Caçadores Escuros podiam ter uma aventura de umas noites com uma mulher, mas estava proibido envolver-se em uma relação séria. Era muito arriscado. As mulheres se convertiam desse modo, em objetivo dos Daimons e debilitavam aos Caçadores, que se voltavam mais imprudentes. E neste trabalho, a imprudência conduzia à morte.


O tema nunca lhe tinha preocupado com antecedência. Mas essa noite, a dor era tão forte que quase estava acabando com ele. Odiava os sentimentos que estavam crescendo em seu interior. Odiava a necessidade que Gina despertava nele. Fazia muito tempo que tinha banido todas suas emoções e preferia viver desse modo. Era uma espécie de casulo que o mantinha livre de qualquer tipo de confusão.


- Tenho que tirá-la da cabeça.


Entrou no escritório, e se conectou a Web dos Caçadores Escuros, Dark-Hunter.com. Imediatamente, outros Caçadores Escuros lhe abriram algumas janelas e o ícone do correio começou a piscar. A tecnologia era algo maravilhoso. Poder comunicar-se desse modo era um presente dos deuses. Fazia que as longas noites fossem mais suportáveis e lhes permitia trocar informação importante.


Sentou-se na poltrona de couro negro e abriu uma das janelas. Era Acheron.


«Nick chamou. Diz que Desiderius te chutou a bunda. Está bem?»


Harry apertou os dentes e teclou a resposta.


- Vou matá-lo por isso. Estou bem. Desiderius se escondeu em um refúgio. O que sabe dele?


«Foi o que eliminou ao Cromley faz uns anos, assim que te está enfrentando a uns poderes nada desprezíveis. Falei com o Escudeiro do Cromley e me há dito que Desiderius o provocou tanto, que o voltou louco. Melhor não comentar como o matou. Pessoalmente, eu gostaria que o tal D. viesse a mim. Necessito um bom par de baile. Meus Daimons coxeiam.»


Harry se pôs a rir ante o desdobramento de humor do Ash. O homem verdadeiramente não tinha paciência com os Daimons lerdos.


- Talon diz que usam descargas astrais. Encontraste-te com algo assim alguma vez?


«Se te for sincero, em meus onze mil anos… merda, não. É a primeira vez. Falei com os Oráculos e agora mesmo estão consultando às Parcas. Mas já sabe como são. Estou seguro de que nos sairão com algo como: “Quando o céu verde esteja e o negro cubra a terra sua face, um ataque dos Daimons lhes surpreenderá. Se quiserem ao que tem o poder capturar, algo especial têm que fazer”, ou uma porcaria pelo estilo. Odeio aos Oráculos. Se queria exercitar a mente, compraria um Cubo do Rubik.»


- Eu não o vejo tão claro, Ash, é um especialista nessas adivinhações. Está seguro de que não quer te converter em Oráculo?


«Te aponte isto, General: que lhe fodam. Agora, me deixe trabalhar. Tenho Daimons que perseguir, Caçadores com os que brigar e mulheres que seduzir. Logo falamos.»


Sem muita vontade de manter outra conversação, Harry abandonou a Web e abriu o correio, mas tampouco gostava de ler as mensagens.


O que queria estava além de seu alcance.


Contra sua vontade, cruzou lentamente o corredor e desceu as escadas. Antes de ser consciente do que estava fazendo, estava em frente à habitação de Gina. Apoiou a mão sobre a escura madeira da porta e estendeu os dedos enquanto fechava os olhos. Podia vê-la sentada na cama. Pôs-se sua camiseta negra, que deixava à vista essas longas pernas nuas.


O fogo acendeu seu corpo, lhe percorrendo as veias. Sentia a dor da Gina pela perda de seu lar, o medo à possibilidade de que Desiderius fizesse mal a sua irmã, a preocupação pela companheira da Tabitha, Allison.


E, o que era pior, percebia as lágrimas que se esforçava por conter. Era tão forte, tão resolvida... Jamais tinha conhecido a uma mulher igual.


O sonho que o tinha despertado essa manhã lhe voltou para a mente. Ainda podia senti-la entre seus braços.


«Desejo-te»


Daria tudo para que essas mesmas palavras fossem uma realidade e Gina o olhasse com vontade de devorá-lo. Nesse preciso momento, quão único queria era atirar a porta abaixo de uma patada e lhe fazer o amor. Sentir suas carícias. Deixar que o abraçasse.


Que lhe desse as boas-vindas.


Mas não podia ser.


Com o coração encolhido, obrigou-se a partir. Tinha trabalho que fazer.


 


Gina olhou o relógio. Às doze e meia. Por regra geral, há essa hora estava profundamente dormida. Mas para o Hunter a noite ainda seria jovem.


Começou a perguntar-se o que faria ele a essa hora tão tenra. Com toda segurança, não se dedicaria todas as noites a matar Daimons. Não poderia haver tantos… ou sim?


Antes de dar-se conta do que fazia, saiu da cama e começou a vagar pela enorme casa. Não sabia onde estava Hunter. Não se tinha incomodado em lhe mostrar seu quarto quando lhe ensinou para casa. Mas o instinto lhe dizia que devia estar no andar de cima. Provavelmente, tão longe da sua como fosse possível.


Estava a metade da escada quando escutou um ruído estranho no pátio. Uma espécie de assobio. Deu a volta e se encaminhou para a sala de jogos. Não havia nenhuma luz acesa, mas a lua e as estrelas eram tão brilhantes que podia distinguir uma figura escura no átrio. Seu primeiro impulso foi chamar o Hunter, mas antes de fazê-lo, deteve-se.


Havia algo familiar nesse perfil. Aproximou-se um pouco mais às portas francesas e reconheceu ao Hunter e ao Terminator. Levava uma camiseta de manga curta e umas calças de esporte e estava lançando a bola de beisebol a uma espécie de rede que a devolvia. Assim que atirava a bola, Terminator começava a correr, perseguindo-a, para voltar imediatamente junto a ele. A cena lhe arrancou um sorriso. Hunter dava uns tapinhas ao cão e voltava a lançar a bola.


Começou a afastar-se dali, mas se deteve. Não podia fazê-lo. Em lugar de retornar à habitação abriu os vidros.


Hunter se girou imediatamente. A bola, que tinha esquecido ao escutar seus passos, ricocheteou na rede e lhe deu na cabeça. Soltou um gemido de dor enquanto se esfregava o lugar do impacto e Terminator partia em perseguição da bola.


- Necessita algo? - perguntou-lhe com brutalidade.


Que me beije.


Gina tragou saliva.


- Nada, não sabia onde estava.


- Pois já sabe.


Sua voz voltava a ser gélida. Este não era o Hunter que a tinha acompanhado fazia pouco momento. Que tinha diante era o Caçador Escuro que tinha despertado na fábrica encadeado a ela. Em guarda e distante.


E lhe estava rompendo o coração. Não se tratava de que estivesse molesto pelo golpe da bola na cabeça, não. Ela sabia que havia tornado a levantar as barreiras. Queria mantê-la afastada.


Captando a indireta, assentiu.


- Sim, já. Boa noite.


Harry a observou enquanto se afastava. Tinha-lhe feito mal. Sabia, sentia-o e se odiava a si mesmo por isso. 


Chama-a.


Para que?


Jamais poderia haver algo entre eles. Nem sequer uma simples amizade.


Apertando a mandíbula, retornou ao exercício. Tentaria concentrar-se no Desiderius. Tentaria atrair ao Daimon até que estivesse a seu alcance.


Era inútil.


Gina seguia com ele. Era seu rosto o que via se fechava os olhos. Era seu aroma o que respirava. Se não a tirava da cabeça ia acabar morto. E se ele morria, Desiderius iria atrás dela.


Voltou a jogar a bola contra a rede com um grunhido. Saltou e levantou o braço para agarrá-la de novo, mas antes de roçá-la, sentiu uma dor intensa e aguda na cabeça. Lançou uma maldição e tentou aliviar a dor pressionando a palma da mão sobre o olho direito. Enquanto se esforçava por recuperar-se, assaltou-o uma visão.


Desiderius.


Enquanto a imagem cobrava força, ficou petrificado. Com uma surpreende nitidez viu como Desiderius o matava.


E escutou os soluços da Gina.


 


 


CAPÍTULO OITO


 


Quando conseguiu dormir, seus sonhos se converteram em um caleidoscópio de imagens confusas sem ordem nem concerto. Rostos e lugares giravam e desapareciam em sua mente, até que sentiu que o torvelinho a arrastava.


Passaram uns minutos até que tudo se tranqüilizou e Gina conseguiu ver as imagens com claridade. Umas pessoas desconhecidas a saudavam ao passar junto a elas. Tudo era incrivelmente real, parecia uma lembrança esquecida, mais que um simples sonho. Inclusive conhecia os nomes de todos esses homens sem havê-los visto antes. Sabia coisas sobre eles das que só um amigo poderia estar a conhecê-las.


Escutou as risadas dos soldados entregues à celebração da vitória e sentiu uma curiosa mescla de alegria e tristeza quando chegou a uma tenda de cor vermelha esvaída, onde estavam reunidos em um bom número deles, providos com antigas armaduras.


- Estiveste brilhante. - lhe disse um veterano soldado lhe dando uma palmada nas costas.


Ela o reconheceu como seu primeiro-tenente. Um homem no que podia confiar e que a idolatrava. Dimitri sempre tinha procurado seu conselho e sua força. Tinha uma ferida aberta no lado esquerdo da cara, mas os cansados olhos cinza resplandeciam. Embora tivesse a armadura coberta de sangue, não parecia estar ferido de gravidade.


- É uma pena que Julian não esteja aqui para ver esta vitória. Teria estado muito orgulhoso de ti, comandante. Toda Roma deve estar chorando.


Nesse momento Gina se deu conta de que não era ela a que estava sonhando. Era Harry…


O rosto do Harry estava manchado de sangue, suor e pó, o cabelo, comprido e sujeito com uma tira de couro, não tinha melhor aspecto. Da têmpora esquerda caíam três finas tranças até a metade do peito. Era um homem absolutamente devastador e completamente humano. Seus olhos, de uma profunda cor verde, resplandeciam pela vitória. Seu porte era o de um homem sem igual, um homem cujo destino era a glória.


Harry levantou a taça de vinho e se dirigiu aos homens reunidos em sua honra.


- Dedico esta vitória ao Julian da Macedônia. Onde quer que se encontre, sei que, neste momento, estará rindo-se pela derrota do Escipión.


Os homens lhe responderam com um clamoroso rugido.


Harry deu um gole ao vinho e olhou ao veterano soldado que estava a seu lado.


- É uma pena que Valerius não estivesse com o Escipión. Estava desejando me enfrentar com ele. Mas não importa. - elevando a voz para que todos os presentes pudessem escutá-lo continuou - Amanhã partiremos sobre Roma e poremos a essa puta de joelhos.


Todos gritaram sua aprovação.


- No campo de batalha, com a espada na mão, é invencível. - lhe disse seu primeiro-tenente, com um tom de voz que delatava sua admiração - Amanhã há esta hora será o governador do mundo conhecido.


Harry meneou a cabeça, expressando sua negativa.


- Andriscus será amanhã o governador de Roma, não eu.


O homem pareceu horrorizado, inclinou-se para o Harry e lhe falou em voz baixa, de modo que ninguém mais o escutasse.


- Há quem pensa que é débil, os mesmos que lhe apoiariam se…


- Não, Dimitri. - o interrompeu de forma educada - Avalio o gesto, mas jurei pôr meu exército à disposição do Andriscus e assim será até o dia que morra. Jamais o trairei.


A expressão do rosto do Dimitri deixou clara a confusão que sentia. Não estava muito seguro de se devia aplaudir a lealdade de seu Comandante ou amaldiçoá-lo por ela.


- Não conheço nenhum outro homem que deixasse passar a oportunidade de governar o mundo.


Harry soltou uma gargalhada.


- Os reinos e os impérios não dão felicidade, Dimitri. É o amor de uma boa mulher e de filhos o que fazem a um homem feliz.


- E a vitória. - acrescentou Dimitri.


O sorriso do Harry se alargou.


- Esta noite, ao menos, parece que é certo.


- Comandante?


Harry se girou ao escutar que alguém o chamava e viu um homem que abria caminho entre os congregados na sala. O soldado lhe estendeu um pergaminho selado.


- Um correio trouxe isto. Levava-o um mensageiro romano que foi apressado esta manhã.


Ao agarrá-lo, Harry observou o selo do Valerius o Jovem. Abriu-o com curiosidade e o leu. Com cada nova palavra, sentia que seu pânico aumentava. O coração começou a lhe pulsar com mais força.


- Meu cavalo! - gritou enquanto saía correndo da lotada sala - Tragam meu cavalo.


- Comandante?


Harry se deu a volta para olhar a seu primeiro-tenente, que o tinha seguido. O homem franzia o cenho, visivelmente preocupado.


- Dimitri, fica ao mando até que retorne. Que o exército se retire de novo para as colinas, longe dos romanos, até nova ordem. Se não estiver de retorno em uma semana, te dirija com todo o grosso da tropa a Punjara e te una ao Jason.


- Está seguro?


- Sim.


Nesse momento chegou um moço, atirando das rédeas do garanhão negro do Harry. Com o coração desbocado, montou-o de um salto.


- Aonde vai? - perguntou-lhe Dimitri.


- Valerius se dirige a minha vila. Tenho que chegar antes dele.


O homem pegou as rédeas, horrorizado.


- Não pode te enfrentar a ele sozinho.


- Não posso perder tempo esperando a que alguém me acompanhe. Minha esposa está em perigo. Não vacilarei. - e lhe dando a ordem a seus arreios, atravessou o acampamento a todo galope.


Gina se agitava na cama ao tempo que sentia o crescente pânico do Harry.


Precisava proteger a sua esposa a todo custo. Os dias passavam um após o outro e ele seguia cavalgando velozmente, trocando de arreios cada vez que chegava a um povo. Não se deteve à comer nem dormir. Parecia que um demônio o houvesse possuído e um só pensamento ocupava sua mente: Theone. Theone. Theone.


Chegou a sua casa em metade da noite. Exausto e aterrorizado, desceu de um salto do cavalo e golpeou com força as portas da vila para que o deixassem entrar.


Um homem maior abriu as pesadas portas de madeira.


- Sua Alteza? - perguntou o servente, incrédulo.


Harry entrou, deixando atrás ao homem enquanto percorria com o olhar o vestíbulo, em busca de algum sinal do inimigo. Não encontrou nada fora do normal. Mas seguia intranqüilo. Ainda não podia relaxar-se. Não se acalmaria até que não visse sua esposa com seus próprios olhos.


- Onde está minha esposa?


O velho servente pareceu confundido pela pergunta. Abriu e fechou a boca, como um peixe fora da água, antes de falar.


- No leito, Alteza.


Cansado, débil e morto de fome, Harry se apressou a cruzar o comprido corredor que conduzia à parte traseira da vila.


- Theone? - chamou-a enquanto corria desesperado por vê-la.


Uma porta se abriu ao final do corredor. Uma mulher loira e miúda, incrivelmente formosa, saiu do quarto, fechou a porta a suas costas e olhou ao Harry de cima abaixo com um olhar gélido, estudando seu desalinho.


Estava sã e salva. E era a imagem mais linda que seus olhos tinham contemplado jamais. As bochechas lhe brilhavam com um rubor rosado e suas longas mechas loiras caíam desordenadas a ambos os lados do rosto. Tinha envolto seu corpo nu com um fino lençol branco que sujeitava com as mãos.


- Harry? - perguntou, com voz irada.


O alívio o alagou de uma vez que lhe enchiam os olhos de lágrimas. Estava viva! Graças aos deuses. Piscando para evitar o pranto, estreitou-a entre seus braços e a sustentou com força. Jamais tinha estado mais agradecido às Parcas por sua misericórdia.


- Harry. - resmungou ela, lutando para livrar-se de seu abraço - Baixa-me. Cheira tão mal que mal posso respirar. Tem a mais ligeira idéia do tarde que é?


- Sim. - lhe respondeu, tentando afrouxar o nó que sentia na garganta e deixando que a alegria o alagasse. Deixou-a no chão e tomou o rosto entre as mãos. Estava tão cansado que apenas se podia manter-se em pé, mas não pensava dormir. Não até que ela estivesse a salvo - E devo te levar longe daqui. Vista-se.


Ela o olhou, franzindo o cenho.


- Me levar aonde?


- A Tracia.


- A Tracia? - repetiu incrédula - Te tornaste louco?


- Não. Chegou-me a informação de que os romanos se encaminham para aqui. Vou te levar para casa de meu pai para te pôr a salvo. Apresse-te!


Mas não se moveu. Em lugar de fazê-lo, seu rosto se escureceu e os olhos cinza faiscaram de fúria.


- Com seu pai? Faz sete anos que não fala com ele, o que te faz pensar que vai acolher-me agora?


- Meu pai me perdoará se o peço.


- Seu pai nos jogará de sua casa aos dois, disse-o de um modo bastante público. Já me envergonharam muitas vezes em minha vida, não preciso ouvir como me chamam puta em minha própria cara. Além disso, não quero abandonar minha vila. Eu gosto de viver aqui.


Harry fez ouvidos surdos a suas palavras.


- Meu pai me quer e fará o que eu lhe peça. Já o verá. Agora, se vista.


Ela olhou trás do Harry.


- Polydus? - chamou o ancião servente que tinha estado esperando trás do Harry todo o tempo - Prepara um banho para o senhor e lhe traga comida e vinho.


- Theone…


Ela o deteve, lhe tampando a boca com a palma da mão.


- Shhh, meu senhor. É mais de meia-noite. Tem um aspecto espantoso e cheira ainda pior. Deixe-me te lavar, te alimentar e preparar tudo para que durma e, depois, pela manhã, discutiremos o que é preciso fazer para me proteger.


- Mas os romanos…


- Cruzaste-te com algum de caminho para aqui?


- Bom… não.


- Então, de momento não há perigo, ou sim?


Muito cansado para discutir, deu-lhe a razão.


- Suponho que não.


- Vêem, me acompanhe. - tirou-o da mão e o levou até uma pequena estadia situada a um lado do corredor principal.


Gina viu um quarto iluminada pela luz das velas e com uma pequena chaminé. Harry estava recostado em uma banheira dourada enquanto sua esposa o banhava.


Apanhou uma das mãos do Theone e a aproximou de sua bochecha, escurecida pela barba.


- Não sabe quanto senti sua falta. Nada me conforta mais que suas carícias.


Ofereceu-lhe uma taça de vinho com um sorriso que não chegou aos olhos.


- Ouvi que arrebataste Tesalia aos romanos.


- Sim. Valerius estava furioso. Estou impaciente por partir sobre Roma. E o conseguirei, recorda o que te digo.


Esvaziou a taça de um gole e a deixou a um lado. Com o corpo quente, apanhou a sua mulher e a meteu na banheira com ele.


- Harry! - ofegou ela.


- Shhh. - sussurrou ele sobre seus lábios - Não vai me dar um beijo?


Ela consentiu, mas sem mostrar-se muito receptiva. Harry o notou imediatamente.


- O que ocorre, meu amor? - perguntou-lhe, tornando-se para trás - Esta noite parece muito distante, como se seus pensamentos estivessem em outro lugar.


O rosto do Theone se suavizou antes de colocar-se escarranchado sobre ele e introduzir seu membro.


- Não estou distante. Estou cansada.


Ele sorriu e gemeu quando ela começou a mover-se.


- Me perdoe por haver-te despertado. Só queria saber que estava bem. Não poderia seguir vivendo se algo te acontecesse. - lhe disse tomando o rosto com ambas as mãos e lhe acariciando as bochechas com os polegares - Sempre te amarei, Theone. É o ar respiro.


Beijou-a para saboreá-la por completo.


Ela pareceu relaxar-se um pouco entre seus braços enquanto seguia montando-o. Seu olhar jamais se separava dele, como se estivesse esperando algo…


Mal alcançou o clímax, Harry se tornou para trás e a observou. Sentia-se tão fraco como um recém-nascido, mas estava em casa e sua esposa lhe dava forças. Estava a salvo. Assim que esse pensamento cruzou sua mente começou a escutar um estranho zumbido e tudo começou a lhe dar voltas. Compreendeu imediatamente o que sua esposa tinha feito.


- Veneno? - resmungou.


Theone se separou dele e saiu da banheira. Envolveu-se com rapidez em uma toalha e lhe respondeu.


- Não.


Tentou sair da banheira, mas estava muito enjoado e voltou a cair à água. Custava-lhe trabalho respirar e apenas podia fiar dois pensamentos seguidos com a mente tão embriagada. Quão único tinha claro era que a mulher que amava o tinha traído. A mesma mulher a cujos pés tinha posto o mundo.


- Theone, o que me tem feito?


Ela levantou o queixo e o contemplou com frieza.


- O que você não é capaz de fazer. Assegurar meu futuro. Roma é o futuro, Harry, não Andriscus. Jamais sobreviverá para subir ao trono da Macedônia.


A escuridão o engoliu.


Gina grunhiu ao sentir uma lacerante dor na cabeça. Quando a luz retornou, encontrou ao Harry deitado nu sobre uma fria laje de pedra, inclinada em um ângulo de quarenta e cinco graus.


Tinha os braços e as pernas atados com cordas a uns tornos. Estava observando uma velha mesa, disposta ao outro lado do quarto, sobre a que se desdobraram toda classe de instrumentos de tortura. Dando as costas ao Harry e estudando com atenção os artefatos, havia um homem alto, de cabelo escuro.


Sentia-se sozinho, indefeso e traído. Sentimentos aterradores para alguém que jamais tinha sido vulnerável.


A temperatura do quarto era sufocante devido ao fogo que crepitava na chaminé. De algum modo, Gina soube que era verão. As janelas estavam abertas e a suave brisa do Mediterrâneo refrescava o quarto e trazia o aroma do mar e das flores. Harry escutou as risadas no exterior e lhe fez um nó no estômago.


Era um dia muito formoso para morrer.


O homem que estava junto à mesa inclinou a cabeça. Girou-se abruptamente e o olhou com fúria. Embora era incrivelmente arrumado, seu rosto estava contorcido pela ira, lhe subtraindo parte de sua beleza. Seus olhos eram cruéis e brilhantes, semelhantes aos de uma víbora. Vazios, calculadores e carentes de compaixão.


- Harry da Tracia. - disse com um perverso sorriso - Por fim nos conhecemos. Embora suponha que isto não enquadra exatamente com seus planos, não é certo?


- Valerius. - resmungou mal viu o emblema que pendurava da parede, sobre o ombro de seu captor. Reconheceria a águia em qualquer parte.


O sorriso do romano se alargou enquanto cruzava o quarto. Seu rosto não mostrava o mais mínimo indício de respeito. Só presunção. Sem pronunciar uma só palavra mais, começou a girar a manivela dos tornos aos que estavam unidas as cordas. Ao esticarem-se, os músculos do Harry se esticaram também e os tendões começaram a rasgasse ao mesmo tempo em que as articulações se desencaixavam.


Harry apertou os dentes e fechou os olhos ante a agonia que seu corpo padecia.


Valerius soltou uma gargalhada e voltou a girar a manivela.


- Isso está bem, é forte. Resulta-me odioso torturar a esses jovenzinhos que não param de chorar e de gritar. Subtrai a diversão.


Harry não respondeu.


Depois de assegurar a manivela de modo que o corpo do Harry se mantivesse dolorosamente estirado, Valerius se aproximou da mesa dos artefatos e pegou uma pesada marreta de ferro.


- Já que é novo nesta área, me permita que te mostre como tratamos os romanos a nossos inimigos… - retornou junto a ele com um insultante sorriso de satisfação no rosto - Em primeiro lugar, rompemos os joelhos. Deste modo, sei que não cederão à tentação de escapar a minha hospitalidade até que eu seja quem dita se estão preparados para partir.


Com essas palavras, golpeou o joelho esquerdo do Harry, destroçando a articulação imediatamente. Uma dor inimaginável o percorreu. Mordendo os lábios para não gritar, sujeitou-se com força às cordas que lhe rodeavam os pulsos. O sangue se deslizava, em um quente líquido, por seus antebraços.


Uma vez teve quebrado o outro joelho, Valerius pegou um ferro candente do fogo e o aproximou.


- Só tenho uma pergunta que te fazer. Onde está seu exército?


Harry o olhou com os olhos entrecerrados, mas não lhe disse nada.


O romano lhe colocou o ferro sobre a cara interna da coxa.


Gina perdeu a conta de todas quão feridas Harry sofreu às mãos do tal Valerius. Hora atrás de hora, dia atrás de dia, a tortura continuava com renovado vigor. Resultava incrível que uma pessoa pudesse continuar vivendo com todo esse sofrimento. Ofegou ao sentir que arrojavam água fria ao rosto do Harry.


- Não acredita que vou permitir que perca o conhecimento para escapar de mim. E tampouco vou deixar morrer de fome até que me venha a vontade.


Valerius o pegou por cabelo e jogou a cabeça para trás com crueldade para lhe colocar algo líquido na boca. Harry gemeu quando o caldo salgado caiu sobre as feridas tinha nas bochechas e nos lábios. Esteve a ponto de afogar-se, mas seu captor continuou fazendo-o tragar.


- Bebe, maldito seja. - resmungou Valerius - Bebe!


Harry voltou a deprimir-se e de novo a água fria despertou.


Dias e noites se mesclavam ao tempo que o romano continuava com a tortura sem a mais mínima compaixão. E sempre a mesma pergunta.


- Onde está seu exército?


Harry jamais pronunciava uma só palavra. Tampouco gritava. Mantinha as mandíbulas apertadas com tanta força que Valerius tinha que lhe abrir a boca à força para lhe dar de comer.


- Comandante Valerius. - o chamou um soldado, entrando no lugar enquanto o general esticava as cordas de novo - Perdão pela interrupção, senhor, mas chegou um emissário da Tracia que pede audiência.


O coração do Harry esteve a ponto de deixar de pulsar. Pela primeira vez desde fazia semanas sentiu um raio de esperança e a alegria o transpassou.


Seu pai…


Valerius arqueou uma sobrancelha e olhou com curiosidade a seu subordinado.


- Isto vai ser muito entretido. Claro que sim! Atenderei-o.


O soldado se esfumaçou.


Uns minutos depois, um homem maior, muito bem vestido, entrou no quarto trás de dois soldados romanos. O recém-chegado se parecia tanto ao Harry que, por um momento, Gina acreditou que se tratava de seu pai.


Assim que o homem esteve o suficientemente perto para reconhecer a um sangrento e destroçado Harry, soltou um ofego de incredulidade. Esquecendo toda dignidade, seu tio correu a seu lado.


- Harry? - balbuciou ainda incrédulo, tocando com precaução o braço quebrado de seu sobrinho. Os olhos azuis mostravam sua dor e sua preocupação - Pelo Zeus! O que lhe têm feito?


Gina sentiu a vergonha do Harry e a dor que lhe produzia ser testemunha do sofrimento do Zetes. Sentiu a necessidade de aliviar a culpa que refletiam os olhos do ancião e o impulso de lhe suplicar o perdão de seu pai.


Mas quando abriu a boca, tão somente saiu um gemido rouco. Estava tão ferido gravemente que os dentes lhe tocava castanholas devido à intensidade da dor que padecia. Tinha a garganta tão dolorida e seca que lhe custava trabalho respirar, mas por pura força de vontade, conseguiu falar com voz trêmula.


- Tio.


- Vá, será possível que realmente possa falar? - perguntou Valerius aproximando-se deles - Não há dito nada em quatro semanas. Nada mais que isto…


E aproximou de novo o ferro candente à coxa. Apertando os dentes, Harry gemeu e deu um coice.


- Basta! - gritou Zetes, afastando ao romano de um empurrão.


Com muito cuidado, tomou o rosto de seu sobrinho nas mãos enquanto as lágrimas lhe caíam pelas bochechas ao tentar limpar o sangue dos lábios inchados do Harry.


Levantou o olhar para o Valerius.


- Tenho dez carros de ouro e jóias. Seu pai promete ainda mais se o liberar. Estou autorizado a te apresentar a rendição da Tracia. E sua irmã, a princesa Althea, oferece-se como sua escrava pessoal. Quão único tem que fazer é deixar que leve ele para casa.


Não!


Gina escutou o grito do Harry, mas em realidade nenhum som tinha saído de sua garganta.


- É possível que permita que lhe leve isso para casa… uma vez o execute.


- Não! - exclamou Zetes - É um príncipe e você…


- Não é nenhum príncipe. Todo mundo sabe que foi deserdado. Seu pai fez pública sua decisão.


- Revogou-a. - insistiu Zetes, antes de voltar a olhar ao Harry com carinho - Quer que saiba que nada do que te disse era certo, que deveria te haver escutado e acreditado em você em lugar de atuar como um imbecil, tolo e cego. Seu pai te ama, Harry. Quão único quer é que retorne para casa para poder lhes dar boas-vindas, a você e a Theone, com os braços abertos. Pede-te que o perdoe.


As últimas palavras lhe queimaram mais que os ferros candentes do Valerius. Não era seu pai que devia implorar perdão. Não era seu pai o único que tinha atuado como um imbecil. Tinha sido ele quem se mostrou cruel com um homem que jamais tinha feito outra coisa mais que amá-lo. Era tão doloroso que não podia pensá-lo. Que os deuses tivessem piedade de ambos, porque os argumentos de seu pai tinham resultado ser certos.


Zetes deu uma olhada ao Valerius.


- Dará-te tudo em troca da vida de seu filho. Tudo!


- Tudo… - repetiu o romano - Uma oferta muito tentadora, mas não seria muito estúpido de minha parte liberar o homem que esteve a ponto de nos derrotar? - perguntou olhando com fúria ao Zetes – Jamais. - tirou a adaga de seu cinto, pegou com rudeza as três tranças que proclamavam que Harry era comandante e as cortou. - Aqui tem. - disse oferecendo-lhe ao Zetes - Leve isto a seu pai e lhe diga que é o único que lhe devolverei de seu filho.


- Não!


- Guardas, lhes assegurem de que Sua Alteza parta.


Harry observou como pegavam a seu tio e o tiravam a força do quarto.


- Harry!


Harry lutou contra as cordas, mas estava tão ferido gravemente e mutilado que quão único conseguiu foi fazer-se ainda mais dano. Queria chamar o Zetes para que retornasse, tinha que lhe dizer quão arrependido estava por tudo o que havia dito a seus pais.


Não permita que morra sem que saibam.


- Não pode fazer isto! - gritou Zetes um momento antes que as portas se fechassem com um golpe seco, sufocando sua voz.


Valerius chamou a seu servente.


- Traz minha concubina.


Tão logo o acreditado partiu, o romano se aproximou do Harry e suspirou, como se estivesse muito desiludido.


- Parece que nosso tempo de companhia chega a seu fim. Se seu pai estiver tão desesperado por sua volta, é tão somente questão de tempo que reúna seu exército para partir contra mim. Obviamente, não posso permitir que tenha oportunidade de te resgatar, não acredita?


Harry fechou os olhos e afastou a cabeça para não ver a expressão triunfal do Valerius. Em sua mente voltou a contemplar a seu pai, aquele último e desgraçado dia, quando os dois se enfrentaram na sala do trono. Julian tinha batizado aquele momento como «o dia do Duelo dos Titãs». Nenhum dos dois, nem ele nem seu pai, tinham estado dispostos a escutar ao outro, nem a ceder.


Escutou de novo as palavras que disse a seu pai. Palavras que nenhum filho devia lhe dizer a um pai. O sofrimento era mil vezes mais intenso que o que provocavam as torturas do Valerius.


Enquanto recordava com seu pesar passadas ações, as portas da estadia se abriram e entrou Theone. Cruzou o quarto com a cabeça bem alta, como uma rainha ante sua corte, e se deteve junto ao Valerius, olhando-o com um sorriso cálido e incitante.


Harry a contemplou enquanto a magnitude da traição de sua mulher se abria caminho em sua mente.


Que seja um pesadelo. Por favor, Zeus, não permita que isto seja real.


Era mais do que seu mutilado corpo e sua alma podiam suportar.


- Sabe Harry? - disse-lhe o romano, com um braço sobre os ombros do Theone ao tempo que lhe mordiscava o pescoço - Elogio seu gosto para escolher esposa. É excepcional na cama, verdade?


Era o pior golpe que lhe podia infligir.


Theone o olhou aos olhos, sem indício de pudor, e deixou que Valerius se colocasse a suas costas e lhe tocasse os seios, elevando-os. Não havia rastro de amor no rosto de sua esposa. Nem remorso. Nada. Olhava-o como se fosse um estranho.


Harry sentiu que lhe rasgava a alma.


- Vamos, Theone, lhe mostremos ao seu marido o que interrompeu a noite que chegou para casa.


O romano desprendeu o broche do vestido de Theone, que caiu ao chão. Tomando seu corpo nu em braços, beijou-a.


O coração do Harry se fez pedaços ao ver como sua esposa despojava ao Valerius da armadura, ao ser testemunha de que ansiava suas carícias com veemência. Incapaz de suportá-lo, fechou os olhos e voltou a cabeça. Mas seguiu escutando-os. Escutou como sua mulher suplicava ao Valerius que a possuísse. Escutou-a gemer de prazer. E, quando alcançou o clímax em braços de seu inimigo, sentiu que seu coração se murchava e morria.


Ao fim, Valerius tinha acabado com ele.


Deixou que a dor o alagasse. Deixou que o transpassasse até que só foi capaz de sentir uma desolação atroz e absoluta.


Quando acabaram, o romano se aproximou dele e lhe esfregou a mão, ainda úmida, pelo rosto. Harry amaldiçoou esse aroma que lhe resultava tão familiar.


- Tem alguma idéia do muito que eu gosto do aroma de sua mulher sobre meu corpo?


Harry lhe cuspiu na cara.


Enfurecido, Valerius pegou uma adaga da mesa e a cravou com força no ventre. Ele ofegou ao sentir como o frio metal rasgava seu corpo. Com malícia, o romano girou o pulso e fez rodar a folha, introduzindo-a ainda mais profundamente.


- Me diga, Theone. - disse Valerius sem deixar de olhar ao Harry enquanto tirava a adaga e o deixava tremente e débil - Como deveria matar a seu marido? Deveria decapitá-lo, como corresponde a um príncipe?


- Não. - respondeu ela, arrumando o vestido e assegurando-o sobre o ombro com o broche que Harry lhe tinha dado o dia de suas bodas - É o espírito e a espinha dorsal dos rebeldes macedônios. Não permita que se converta em um mártir. Se a decisão estivesse em minhas mãos, crucificaria-o como a um vulgar ladrão. Deixa que seja um exemplo para os inimigos de Roma, deixa que saibam que não há honra nem glória enfrentando-se a Roma.


Valerius sorriu com crueldade e se deu a volta para olhá-la de frente.


- Eu gosto de como trabalha sua mente. - deu-lhe um casto beijo na bochecha e começou a vestir-se - Despeça-te de seu marido enquanto arrumo tudo. - lhe disse antes de partir.


Harry lutava por seguir respirando apesar da dor, quando por fim, Theone se aproximou. O sofrimento e a ira o faziam tremer da cabeça aos pés. Não obstante, o olhar de sua esposa seguia sendo vazio. Gelado.


- Por quê? - perguntou-lhe.


- Por quê? - repetiu ela - Você o que acredita? Fui a filha de uma prostituta. Cresci passando fome e sem dinheiro, sem outro remédio que deixar que qualquer homem usasse meu corpo como lhe desse a vontade.


- Eu te protegi. - disse com aspereza, movendo apenas os lábios partidos e ensangüentados - Te amei. Mantive-te a salvo de todo aquele que pudesse te fazer mal.


Ela o olhou com os olhos entrecerrados.


- Não ia permitir que te fosses lutar contra Roma enquanto eu ficava em casa, temendo que jogassem minha vila abaixo qualquer dia. Não queria acabar como a mulher do Julian, assassinada em minha própria cama, ou vendida como escrava. Cheguei muito longe para voltar a vender meu corpo ou suplicar por umas sobras. Quero conservar minha segurança e farei tudo o que seja preciso para que assim seja.


Não podia ter encontrado palavras que o ferissem mais. Jamais o tinha considerado outra coisa que um volumoso saco de ouro. Não, não podia acreditá-lo. Negava-se a acreditá-lo. Tinha que haver um momento, um só no que ela o tivesse amado. De verdade tinha estado tão cego?


- Alguma vez me amou?


Ela se encolheu de ombros.


- Se te servir de consolo, foste o melhor amante que jamais tive. Certamente, te vou sentir falta na cama.


Harry deixou escapar um agônico rugido de raiva.


- Maldição, Theone. - disse Valerius ao retornar - Deveria ter deixado que o torturasse você. Eu não consegui lhe fazer tanto dano.


Os soldados chegaram naquele momento com uma cruz enorme. Deixaram-na no chão, junto à mesa, e cortaram as cordas que mantinham apanhado ao Harry. Ao ter as pernas soltas caiu de bruços ao chão.


Levantaram-no sem muitos olhares e o tombaram sobre o madeiro.


Harry continuou olhando ao Theone, nem sequer sentia lástima. Os olhos de sua mulher refletiam uma fascinação mórbida.


De novo, voltou a recordar os rostos de seus pais. Voltou a vê-los aquele dia que abandonou seu lar, o dia de suas bodas. E escutou outra vez a oferta que Zetes tinha feito ao Valerius.


Tinha-os traído a todos por ela. E, em troca, Theone nem sequer fingia sentir-se causar pena pelo que lhe tinha feito. O que lhe tinha feito a sua família e a seu país.


Ele era a última esperança que tinha a Macedônia para livrar do jugo romano. Era o único que se interpunha entre sua gente e a escravidão. Com um só ato de traição, Theone tinha jogado por terra todos seus sonhos de liberdade.


E tudo porque ele tinha sido um estúpido…


As últimas palavras de seu pai ressonaram em sua cabeça.


Ela não te ama, Harry. Nenhuma mulher te amará jamais e é um maldito imbecil se não o vir assim!


Um dos soldados sustentou um prego de ferro sobre seu pulso ao tempo que outro levantava um pesado martelo.


O soldado romano golpeou com força o prego…


 


Gina despertou com um grito, alarmada ao sentir a dor que lhe atravessava o braço. Sentou-se e se pegou o pulso para assegurar-se de que tudo tinha sido um sonho. Esfregou-se o braço enquanto o olhava fixamente. Não havia nenhuma ferida, mas…


O sonho tinha sido real. Sabia.


Empurrada por uma força que não acabava de entender, saiu de seu quarto em busca do Harry. Atravessou à carreira para casa, sem acender nenhuma luz. Estava a ponto de amanhecer. Subiu as escadas de mogno e atravessou um comprido corredor. Seguindo seus instintos, aproximou-se de umas portas dobre na asa oeste da casa. Sem duvidá-lo, abriu-as e entrou em um quarto duas vezes mais amplo que a sua.


Junto à antiga cama com dossel havia uma vela acesa que projetava sombras estranhas sobre a parede. As cortinas douradas e marrons estavam sujeitas aos postes, só uns diáfanos véus de cor creme protegiam o leito. Através deles, via o Hunter agitando-se entre os lençóis avermelhados, como se estivesse em metade do mesmo pesadelo da que ela tinha sido testemunha.


Com o coração lhe troando o ouvido, correu para a cama.


Harry despertou no mesmo instante que sentiu a mão da Gina, morna e suave, sobre o peito. Abriu os olhos e a encontrou sentada do seu lado, com os olhos obscurecidos pelo horror e examinando-o com o cenho franzido.


Ele também franziu o cenho ao sentir como lhe acariciava o peito, como se não pudesse lhe ver e se encontrasse perdida em uma espécie de transe. Esperou em silêncio, deitado, assombrado por sua presença.


Gina afastou o lençol de seda que o cobria e tocou a cicatriz que tinha no ventre, ao lado do umbigo.


- Cravou-te a adaga aqui. - sussurrou, acariciando a magra cicatriz. Imediatamente o pegou dos pulsos e seguiu as linhas esbranquiçadas que as cruzavam - Aqui lhe afundaram os pregos. - sujeitando as mãos, passou-lhe o polegar sobre as unhas - Lhe arrancaram as unhas.


Alongando o braço, acariciou-lhe a bochecha com a palma da mão. Em seus olhos se liam milhares de emoções e ao Harry essas profundidades de azul cristalino lhe estavam roubando o fôlego. Nenhuma mulher o tinha cuidado assim jamais.


- Meu pobre Hunter. - murmurou. As lágrimas lhe banhavam as bochechas e, antes de saber o que estava fazendo, afastou o lençol por completo, deixando ao Harry nu, submetido a seu escrutínio.


Seu membro respondeu imediatamente, endurecendo-se e palpitando ante a preocupação que ela demonstrava. Gina lhe tocou a coxa onde Valerius o tinha marcado com o ferro candente.


- Meu deus! - ofegou enquanto seus dedos riscavam a pele rugosa - Era real. Fizeram-lhe isso de verdade… - o olhou com os olhos banhados de lágrimas - Te vi. Senti-te.


Harry a olhou franzindo ainda mais o cenho. Como era possível? Tinha estado sonhando com sua execução até que ela despertou. Teriam se fundido os poderes de ambos de modo que, de forma inconsciente, suas mentes se unissem enquanto dormiam? Era uma idéia aterradora. Se isso fosse certo, a única explicação possível era que estavam unidos a um nível muito mais profundo, mais à frente do mero plano físico.


E isso significava que…


Não pôde terminar o raciocínio. Não existia essa outra pessoa a que chamavam «a outra metade da alma», especialmente se a pessoa não tinha alma. Não era possível.


Gina se sentia embargada por uma profunda dor enquanto observava ao homem que tinha diante. Como podia ter sobrevivido a uma tortura e a uma traição semelhantes? E tinha carregado com esse provejo durante séculos. Sozinho. Sempre sozinho. Sem nada que aliviasse sua dor nem sua desgraça.


Sem esperança.


- Tanta dor. - sussurrou Gina.


Desejava com toda sua alma a cabeça da Theone em uma bandeja pelo que lhe tinha feito. Mas sobre tudo, desejava reconfortá-lo. Queria aliviar a tortura que habitava em seu coração. Apagar a dor de seu passado. Queria lhe dar esperança. Queria lhe devolver seu sonho: uma mulher e filhos que o amassem.


E que Deus tivesse piedade dela, porque desejava ser essa mulher.


Antes de poder deter-se, inclinou-se e apanhou seus lábios. Ele gemeu ante o contato e lhe rodeou a cara com as mãos para lhe devolver o beijo.


Gina o saboreou como jamais o tinha feito com nenhum homem. Podia sentir como Hunter lhe chegava à alma enquanto suas línguas se roçavam. Nunca tinha sido audaz na cama, mas é que nunca tinha desejado a um homem como agora o desejava a ele.


Com todo seu ser.


Enterrou os lábios em seu ombro e os olhos lhe encheram de lágrimas de novo ao encontrar o lugar onde Valerius lhe tinha prensado o anel, fazendo-o sangrar e lhe deixando outra cicatriz.


Tanta coragem. Tanto amor.


Ela daria tudo por encontrar a um homem que a amasse como ele tinha amado a sua esposa. Mas não a qualquer homem. Seus desejos foram mais à frente, queria que Hunter a amasse. Queria seu coração. Queria a este homem que sabia o que significava o amor, que entendia o que era um compromisso e que fosse capaz de mostrar compaixão.


E estivesse disposto a admiti-lo ou não, ele necessitava a ela.


Nenhum homem deveria vagar sozinho eternamente. Nenhum deveria suportar tantas feridas as quais ele tinha suportado, não quando seu único crime tinha sido amar a alguém mais que a si mesmo.


Seu fôlego se mesclou com o do Hunter enquanto se tombava sobre ele, escarranchada sobre sua cintura.


Ele grunhiu ao dar-se conta de que não levava nada sob a camiseta. Sentia a pele quente e úmida das coxas da Gina enquanto se deslizava sobre seu ventre nu, acendendo uma fogueira em seu interior que o aterrorizava.


Afasta-a.


Não podia. Essa noite não. Não com o pesadelo ainda tão fresco em sua memória. Estivesse bem ou não, necessitava consolo. Queria voltar a sentir-se amado. Queria sentir a suavidade de umas mãos femininas sobre seu corpo. Desejava que o aroma da Gina ficasse impregnado sobre sua pele.


Não pôde evitar dar um coice quando Gina tomou seu membro com a mão.


- Por todos os deuses. - balbuciou sem fôlego. Ninguém o havia tocado desse modo em dois mil anos.


Todo seu corpo começou a tremer de desejo enquanto ela acariciava seu ardente e rígido membro.


Hoje seria dela. Já não havia modo de afastar-se dela.


O movimento da mão da Gina, que acarinhava seu membro com delicadeza deslizando-se acima e abaixo, da ponta até a base, arrepiava-lhe a pele e fazia que lhe resultasse muito difícil respirar. Seus dedos lhe roçaram os testículos, endurecendo-o tanto que pensou que estalaria ali mesmo.


Enquanto isso, ele percorria o corpo feminino com as mãos, desfrutando de cada curva e cada pedaço. Desfrutando do tato suave de sua pele sob a camiseta. Mordiscou-lhe o pescoço e, pela primeira vez desde que se converteu em Caçador Escuro, sentiu um assustador desejo de alimentar-se de um humano. O som de seu sangue pulsando pelas veias lhe rugia nos ouvidos. A energia da Gina o tentava, atraindo ao Caçador Escuro que ansiava prová-la. Mas estava proibido. Não lhes estava permitido morder o pescoço de um humano. Não obstante, enquanto passava a língua pela garganta da Gina, esse profundo desejo se agitava sem remédio. Suas presas a roçaram sem querer e teve que empregar todo seu autocontrole para não tomar um sorvo desse sangue que corria sob seus lábios. A pele da Gina se arrepiou ante o contato e o mamilo que Harry acariciava se endureceu ainda mais sob sua mão.


Abandonando seu pescoço com um grunhido, assaltou seus lábios e a beijou com ânsia enquanto deslizava a mão sob a camiseta, procurando os escuros cachos de sua virilha. Quando sentiu o roçar do pêlo sobre os dedos ao afastar os úmidos lábios e tocá-la ali pela primeira vez, não pôde reprimir um gemido.


Gina se sobressaltou e deixou escapar um murmúrio de satisfação, aumentando o ritmo das carícias sobre seu membro.


Harry não podia acreditar que estivesse tão preparada. Pelos deuses, como a desejava. Queria saborear cada centímetro de seu corpo. Queria afundar-se profundamente nela e comprovar sua selvagem paixão. Mas reprimiu esses desejos para saborear o momento. Para explorá-la lentamente e com ternura.


Desejava que esse amanhecer durasse uma eternidade.


- Seu sabor é tão bom… - lhe sussurrou ao tempo que rasgava a camiseta tirando do pescoço e a arrancava para jogá-la ao chão. Imediatamente, traçou um atalho de pequenos beijos do pescoço até o peito.


Gina se arqueou para ele quando a língua e as presas do Hunter lhe acariciaram o mamilo. A sensação dessas afiadas presas lhe roçando a pele a fazia derreter-se como lava ardente.


De novo, Hunter voltou a introduzir a mão entre seus corpos e a acariciou onde mais desejava. Seus dedos começaram a traçar lentos círculos, avivando-a para imediatamente reconfortá-la, pressionando para depois acariciá-la levemente, afundando-se nela profundamente para que o fogo a consumisse ainda mais enquanto fazia o amor com a mão.


- Desejo-te, Hunter. - lhe murmurou sem fôlego ao ouvido - Nunca senti algo assim por ninguém.


Ele sorriu, deixando à vista as presas e girando de uma vez sobre o colchão para ficar sobre ela com uma facilidade que surpreendeu a Gina. Deixou escapar um gemido ao sentir esse corpo ágil e duro sobre ela. Seu peso a deixava sem fôlego. Rodeou-lhe os quadris com as pernas. Hunter irradiava força, poder. Esses músculos fortes e definidos se contraíam ao seu redor com cada pequeno movimento que realizava. Mas o que mais a cativava era a contenção que demonstrava, tendo esse poder sujeito sob controle que o fazia recordar a um leão preparado para atacar.


Queria mais. Queria senti-lo dentro. Queria fazê-lo seu como nenhuma mulher o tinha feito em mais de dois mil anos. Queria seu coração. Não, mais ainda. Queria fazê-lo seu como nenhuma mulher o tinha feito jamais. Queria ser tudo o que ele necessitava. Seu fôlego, seu coração e, sobre tudo, sua alma.


Ansiava lhe devolver sua alma. Resgatá-lo de seu sofrimento. Liberá-lo de seu passado.


Elevando-se um pouco, deu-lhe um profundo beijo antes de confessar involuntariamente seus pensamentos. Se Hunter o descobrisse, afastaria-se dela sem dúvida nenhuma. Não podia permitir que algo assim acontecesse, por isso, invocou os poderes que tinha reprimido durante mais de dez anos e os utilizou para resguardar seus pensamentos no mais profundo de sua mente e de seu coração, se por acaso ele ainda podia ler em seu interior.


Hoje, ela seria seu consolo.


Harry grunhiu ao sentir a Gina sob seu corpo. Tinha passado uma eternidade desde que se permitisse confiar em uma mulher desse modo. Uma capa de suor cobria seu corpo enquanto abandonava seus seios para descender por seu torso, até os quadris e voltar a ascender. Desejava-a com uma intensidade sobre-humana. Desejava coisas dela que não se atrevia a nomear. Não deveria pensar em fazê-la sua e em mantê-la do seu lado. Mas não podia evitá-lo.


Gina enterrou a mão em seu cabelo e o aproximou ainda mais enquanto ele descendia, mordiscando-a dos lábios até a garganta e dali até o peito, onde se entreteve em saboreá-la a consciência. Sua língua se movia em círculos ao redor do endurecido mamilo, acariciando e atormentando. Parecia devorá-la com um anseia insaciável, como um faminto que festejasse um banquete.


Muito lentamente, desceu deixando que as presas a arranhassem brandamente, com tanta delicadeza que Gina não pôde mais que surpreender-se. Seu corpo ardia em cada lugar onde ele colocava as mãos em seu caminho de descida para os quadris. Ali deslizou a língua, passando-a por cima da pélvis até chegar à coxa. Separou-lhe as pernas muito lentamente e seguiu lhe lambendo a parte interna da coxa.


Gina conteve o fôlego, estremecendo-se ante o que estava por vir. Ao perceber sua vacilação, levantou a cabeça para olhá-lo e o descobriu olhando-a. Observava-a de um modo possessivo e intenso que a deixou sem respiração. Em uma espécie de transe, observando-o enquanto ele a submetia a um intenso escrutínio, viu como, muito lentamente e com muito cuidado, deslizava um dedo sobre seu sexo e o retirava. Ela se estremeceu em resposta a sua carícia. Hunter lhe separou os lábios e tomou na boca sem deixar de olhá-la aos olhos.


Gina gritou ante o selvagem êxtase que a alagou. Nenhum homem lhe tinha feito isso antes.


Ele fechou os olhos e gemeu, fazendo que todo o corpo da Gina tremesse pela vibração. Deslizou a língua dentro e fora de sua vagina riscando lentos círculos, Gina se revolvia e se agitava com cada úmida carícia. 


Harry se sobressaltou ao saborear seu sabor. Nunca havia sentido um desejo tão intenso como o que sentia por essa mulher. Algo nela trazia a superfície seu lado mais selvagem, estimulava seus poderes de Caçador Escuro e fazia que o animal que habitava nele começasse a despertar. Esses poderes eram os que utilizavam quando lutava ou perseguia um objetivo. Graças a eles, percebia tudo o que ocorria a seu redor a um nível muito mais profundo. Era consciente dos frenéticos batimentos do coração da Gina, dos pequenos tremores que sacudiam seu corpo como resposta às carícias de seus lábios e sua língua. Sentia o prazer que lhe estava proporcionando, sentia nas bochechas como corria o sangue da Gina através das coxas e seu membro pulsava ao ritmo dessa maré. Fechou os olhos, lutando de novo contra o impulso de afundar as presas em sua carne e deixar que o sabor de seu sangue se deslizasse pela língua.


Gina se aferrou a ele enquanto Hunter seguia fazendo que se estremecesse de prazer. O roçar das presas lhe arrepiava a pele. Abriu os olhos e o contemplou, imerso no que estava fazendo, alheio a qualquer outra coisa que não fosse ela. Hunter era a personificação do sexo, pensou ela. Todo seu ser estava entregue a lhe dar prazer com a mesma energia, presumia, que utilizava para perseguir os Daimons.


Quando alcançou o orgasmo, resultou tão selvagem e assustador que jogou a cabeça para trás e deixou escapar um grito.


Mas ainda não tinha acabado com ela. Hunter grunhiu ao sentir sua satisfação, mas não deteve as carícias de sua língua. Ao contrário, aumentou o ritmo e a fricção, como se estivesse degustando um festim.


Gina gemeu de prazer.


Não se deteve até que ela gozou duas vezes mais, afastando-se tão somente quando deixou de estremecer-se. Incorporou-se entre as pernas da Gina e avançou sobre ela muito lentamente, como um animal faminto e poderoso a ponto de saborear o jantar. Brilhavam-lhe os olhos e as presas ficavam claramente à vista com cada respiração entrecortada.


- Me olhe, Gina. - lhe ordenou enquanto lhe acontecia a mão pela coxa - Desejo ver seus olhos quando te fizer minha.


Tragando saliva, ela cedeu a seus desejos.


Hunter embalou seu rosto entre as mãos e lhe deu um beijo profundo ao tempo que a tirava da mão e a guiava para seu inchado pênis.


Sem mais palavras, ela compreendeu o que queria. Levantou os quadris e o guiou até seu interior, devagar, centímetro a centímetro, até que todo seu membro a encheu por completo. Um gemido escapou de sua garganta ao senti-lo dentro e observar o desejo voraz que refletiam seus olhos.


Fez uma tentativa de separar a mão, mas ele a deteve cobrindo-a com a sua. A paixão de seu olhar se fez mais patente.


- Quero que me toque enquanto estamos unidos, quero que o sinta. - lhe disse sem fôlego.


Gina voltou a tragar enquanto Hunter começava a mover-se entre seus dedos e a penetrava ainda mais. Dentro e fora. Era a experiência mais erótica e incrível que havia sentido jamais.


Gemeram uníssono.


Viu a expressão satisfeita no rosto dele enquanto a investia com toda a força de seus quadris.


- OH, Hunter. - balbuciou.


Detendo-se, olhou-a aos olhos.


- Não é o Caçador Escuro o que está dentro de ti, Gina. Sou eu, Harry.


Quando compreendeu o que lhe estava oferecendo, sentiu-se nas nuvens. Tinha-a deixado penetrar em sua couraça, do mesmo modo que lhe tinha permitido que penetrasse seu corpo. Elevando os braços, acariciou-lhe as bochechas.


- Harry. - disse, com um suspiro.


Ele sorriu.


- Estar dentro de ti é muito melhor do que tinha imaginado. - confessou.


Gina notava os estremecimentos que sacudiam o corpo de Harry.


Ele baixou a cabeça e a beijou com ternura enquanto a penetrava com apostas selvagens, a um ritmo frenético. Com força e até o fundo. Tirando seu membro para voltar a penetrá-la uma e outra vez. Cada uma de suas investidas proporcionava uma onda de puro prazer.


- OH, Harry. - gemeu sob seus lábios ao sentir que outro novo orgasmo se aproximava. Mal disse seu nome, aconteceu algo estranho, algo despertou em seu interior e de repente se sentiu sacudida por uma descarga erótica. - Meu deus! - ofegou.


Podia sentir o prazer do Harry! Podia sentir como sua vagina o rodeava. Como se fossem um só ser, sentia-o dentro e, ao mesmo, tempo ao redor.


Ele se esforçou por respirar, sobressaltado ante a experiência e lhe sustentando o olhar. Gina lhe acariciou as costas e sentiu o roçar de sua mão em sua própria carne. Era o mais incrível que tinha experimentado jamais.


Harry aumentou o rimo de seus quadris enquanto ela se aferrava a seus ombros, ambos perdendo todo rastro de prudência, imersos em um estalo de desejo.


Chegaram ao orgasmo juntos, compartilhando um sublime e ao mesmo tempo violento prazer. Harry jogou a cabeça para trás e rugiu enquanto a penetrava uma última vez. Ela gritou, agitando-se entre seus braços.


Quando ele se derrubou sobre seu corpo, Gina o abraçou com força, embalando-o enquanto se recuperava. Sem muitos desejos de separar-se dele, sentiu como Harry saía dela.


- O que aconteceu? - perguntou ele em voz baixa.


- Não sei, mas foi maravilhoso. Incrível. Grandioso.


Soltando uma breve gargalhada, levantou a cabeça e ela franziu o cenho ao ver seus olhos a suave luz das velas. Já não eram negros, mas sim de um peculiar verde azulado.


- Harry?


Ele percorreu o quarto com o olhar e fez um gesto de dor.


- Meus poderes desapareceram. - sussurrou.


E nesse momento, com ele ao lado, Gina o sentiu debilitar-se.


Apenas se podia mover. Sua agonia era quase evidente para ela. Harry se levou uma mão ao rosto e fez pressão com a palma sobre o olho direito, gemendo de dor.


- Meu deus! - exclamou Gina enquanto o via caído a seu lado, sofrendo - O que posso fazer?


- Chama o Talon. - respondeu entre dentes - Marca o dois e depois a almofadinha.


Girou sobre o colchão e se aproximou da mesa de noite para pegar o telefone e marcar sem perder um instante.


Talon respondeu ao segundo tom. Pelo som de sua voz, estava claro que acaba de despertar.


- O que acontece? - perguntou tranqüilamente uma vez que Gina identificou.


- Não sei. Tenho feito algo ao Harry.


- O que quer dizer? - perguntou ele, dando a entender que lhe resultava muito difícil acreditar que pudesse lhe fazer algo a seu amigo.


- Não estou segura. Seus olhos são de uma cor diferente e está dobrado pela dor.


- De que cor são seus olhos?


- Verdes.


Talon permaneceu alguns segundos em silêncio antes de voltar a falar.


- Passe-me isso.


Ofereceu o telefone ao Harry.


Ao pegar o fone, uma nova onda de dor o atravessou. Nunca havia sentido nada parecido. Era como se suas duas metades, o Caçador Escuro e o homem, estivessem lutando um contra o outro.


- Talon. - ofegou.


- Olá, colega. - o saudou Talon - Está bem?


- Merda, não. O que me está passando?


- Assim de repente, me ocorre que acaba de encontrar o modo de te desfazer de seus poderes de Caçador Escuro. Felicidade, tipo, acaba de encontrar sua via de escapamento.


- Sim, eu também estou morrendo de felicidade.


- Não seja imbecil. Recorda que é temporal… Acredito.


Percebendo a dúvida na voz do Talon, Harry lhe perguntou intranqüilo:


- Quanto tempo?


- Nem idéia. Nunca perdi meus poderes.


Harry gemeu ante outra onda de dor.


- Deixa de te rebelar, não lute. - resmungou Talon - Está piorando-o. Relaxe-te.


- Sim, claro. Como se fosse tão fácil.


Talon soprou.


- Confia em mim, há ocasiões em que é necessário rebelar-se, mas esta não é uma delas. O aceite.


- Que o aceite… é uma merda. Não é tão fácil. Dá a casualidade de que me sinto como se me estivessem partindo em dois.


- Já sei. - lhe disse Talon, com a voz rouca pela preocupação - O que estava fazendo quando perdeu os poderes?


Harry se esclareceu garganta e jogou um tímido olhar a Gina.


- Eu… isto… - duvidou sem saber como explicá-lo. Quão último queria era envergonhá-la.


Mas não teve porque explicar nada.


- Diarmuid Ua Duibhne. - rugiu Talon em gaélico - Deitou-te com ela e por isso se esfumaçaram, não é certo?


Harry voltou a esclarecer a garganta e se deu conta de quão inútil seria ocultar algo a um Caçador Escuro capaz de encontrar quase tudo o que lhe desejava muito.


- Não ocorreu nada até o final.


- Aaaaaah! Já entendo. - lhe disse Talon, arrastando as palavras como se tivesse entendido perfeitamente. Quando voltou a falar, sua voz soou muito parecida com a da doutora Ruth - Esse momento depois de gozar correr, quando está exausto, satisfeito e indefeso, segue-me? Aposto algo a que foi por isso que desapareceram seus poderes.


Mas Harry seguia sem entender nada.


- Todos lhes deitam com mulheres a três por quatro e não lhes acontece isto.


- Sim, mas cada um agüenta a pressão de um modo distinto e você sabe. Em sua mente, deve ter equiparado esse momento gélido imediatamente em que te converteu em Caçador Escuro. Ou isso, ou foram os poderes da Gina. Possivelmente se mesclaram com os teus até absorvê-los.


- Isso é uma loucura.


- Sim, claro. Exatamente igual à dor de cabeça que tem e que, de passagem, está-me afetando também. Passe-me a Gina.


Harry fez conta.


- Quer falar contigo.


Ela pegou o telefone.


- Escuta. - começou Talon com voz afiada e desagradável - Temos um problema sério. Harry está perdido até que seus poderes retornem.


- Quanto tempo vai demorar?


- Nem idéia. Mas suponho que passará logo e, até então, é humano e, posto que faça mais de dois mil anos que deixou de sê-lo, está débil. É vulnerável.


O pânico a pegou enquanto girava a cabeça para olhar ao Harry. Ainda tinha uma mão sobre os olhos e, pela rigidez de sua postura, estava claro que lhe doía o bastante.


- Voltará para a normalidade com pôr-do-sol?


- Isso é o que espero. Porque se não for assim, os Daimons o acharão muito fácil.


Gina sentiu que lhe fechava a garganta pelo pânico. Quão último queria era que Harry acabasse ferido por sua culpa.


- Não pode ajudá-lo?


- Não. Vai contra o Código. Caçamos sozinhos. Não posso ir atrás do Desiderius até que Harry esteja morto.


- Que classe de Código é esse? - gritou ela.


- Um que normalmente não me perfura o tímpano. - gemeu Talon - Merda, neném, com esses pulmões teria um brilhante futuro como soprano.


- Não tem graça.


- Sei. Nada disto a tem. Agora, me escute um segundo. Isto vai ser embaraçoso, suportará?


O tom funesto de sua voz fez que Gina se detivesse a pensar um instante. O que ia dizer-lhe?


- Acredito que sim.


- Bem. Vejamos, acredito que nosso problema começa no momento em que Harry goze. É imperativo que não deixe que aconteça de novo. Porque há muita possibilidade de que volte a ficar sem seus poderes se ocorrer outra vez. Tem que te manter afastada dele.


Gina sentiu que o coração lhe encolhia ao escutá-lo. Alongando uma mão, acariciou ao Harry.


- Certo. - lhe respondeu em voz baixa.


- Bem. São sete da manhã. Faça-nos um favor aos dois e vigia-o até que Nick chegue.


- Farei.


Talon se despediu e ela desligou antes de devolver o telefone a mesa de noite.


Harry a olhou e o sofrimento que refletiam esses olhos verdes a partiu em dois.


- Só queria que se sentisse melhor. Não foi minha intenção te fazer mal.


Ele a pegou da mão e a sustentou com ternura.


- Sei.


Deu-lhe um pequeno puxão para aproximá-la e a abraçou com força, embora Gina ainda pudesse sentir a rigidez de seu corpo.


- Ajudou-me, Gina. - lhe murmurou ao ouvido - Não estrague o que me entregaste por te sentir culpada.


- Posso fazer algo por ti?


- Me deixe que te abrace um pouco mais.


Ao escutá-lo, o coração lhe subiu à garganta. Ficou tombada entre seus braços, sentindo o quente fôlego dele sobre a garganta.


Harry enterrou o rosto em seu cabelo e inalou o ligeiro aroma que desprendia. Jamais se havia sentido tão fraco como nesses momentos, não obstante, havia algo na presença da GIna que lhe dava forças.


Encontraste sua via de escapamento.


As palavras do Talon não deixavam de dar voltas em sua cabeça. Quando um Caçador Escuro encontrava o modo de desfazer-se de seus poderes, podia voltar a reclamar sua alma. Era uma opção que nunca antes tinha considerado. Algo que jamais se atreveu a sonhar.


Podia voltar a ser humano. De modo definitivo.


Mas para que? Era o que era. Um guerreiro imortal. Amava seu estilo de vida. Amava a liberdade e o poder que lhe outorgava.


Mas mesmo assim, ali deitado com GIna entre seus braços, pele contra pele, começou a recordar outras coisas esquecidas fazia séculos. Coisas que tinha enterrado no mais profundo do coração.


Fechou os olhos e rememorou a imagem da Gina com o Niklos nos braços. Seria uma mãe estupenda. E, enquanto se deixava vencer pelo sono, uma parte dele soube que também seria uma esposa maravilhosa.


 


Gina despertou ao sentir que alguém a acariciava, deixando um rastro abrasador ao redor de seus seios. Abriu os olhos e baixou o olhar para descobrir a mão do Harry tocando-a com ternura enquanto uma de suas coxas descansava enterrada entre suas pernas. O coração começou a lhe pulsar com rapidez ao ver que a mão descendia até seu estômago ao tempo que lhe mordiscava o pescoço com as afiadas presas.


- Vais morder-me? - perguntou-lhe.


A risada do Harry reverberou por sua garganta.


- Não, amor. Vou devorar-te.


Girando até ficar de costas sobre o colchão, olhou-o aos olhos e descobriu que o verde era ainda mais intenso que antes. Um verde claro e devastador. Levantou a mão e lhe acariciou a bochecha direita com um dedo.


- Por que trocaram de cor?


- Ao perder meus poderes de Caçador Escuro, meus olhos voltaram para a cor normal de quando era humano.


Olhou-o com o cenho franzido e tentou recordar a cor de seus olhos durante o sonho.


- Esta era sua cor antes que perdesse a alma?


Ele assentiu e baixou a cabeça para lhe dar uma lambida na garganta.


- Supõe-se que não deveria estar fazendo isto. - o repreendeu, lhe passando a mão pelas costas - Talon disse que tinha que descansar.


- Estou descansando.


Gina conteve o fôlego, sobressaltada ao sentir que Harry separava as tenras dobras de seu sexo e a acariciava com os dedos, compridos e fortes.


- Não está descansando. Está brincando.


Buscou-a com o olhar.


- Quero brincar contigo.


- E se te debilita mais?


- Não vejo como.


- Mas, e se…?


A fez calar com um beijo tórrido e abrasador e, imediatamente, os pensamentos da Gina perderam toda prudência.


Harry lhe mordiscou os lábios e sugou-os com suavidade enquanto seus olhos verdes mergulhavam no corpo da Gina, tratando de chegar a seu coração.


- Já não posso sentir o que há em seu interior, Gina. Diga-me que não me deseja e te deixarei ir.


- Desejo-te Harry. Nem imagina quanto.


Sorriu-lhe e se afundou nela, que gemeu ao sentir como a enchia por completo.


Para Harry, tudo começou a dar voltas, ali, imerso na calidez do corpo da Gina. Como era possível que fosse ainda melhor que horas antes? Olhou-a fixamente e adorou ver seus olhos nublados pelo desejo e as bochechas cobertas pelo rubor. Era realmente formosa.


Assaltou-o uma onda de possessividade, um sentimento intenso que tinha esquecido fazia séculos. Não acabava de entender de onde tinha saído, mas lhe estava retorcendo as vísceras. E, em comparação, deixava à altura de nada o que uma vez sentiu pela Theone. Não compreendia e, se fosse sincero consigo mesmo, não se atrevia a aprofundar nas razões. Saber com exatidão quais fossem seus sentimentos só lhe faria pior.


Gina entrelaçou as pernas com as do Harry enquanto saboreava cada uma de suas profundas e delirantes investidas. Nem em seus sonhos mais atrevidos se imaginou que fazer o amor pudesse ser algo assim. Jamais tinha sonhado experimentar um prazer tão intenso.


Gritou quando alcançou o orgasmo.


Harry cobriu seus lábios com os seus e com três poderosas arremetidas uniu-se a ela.


Olhou-a, com a respiração agitada.


- Acredito que sou um viciado em seu corpo.


Ela sorriu e o coração do Harry deu um coice.


- Ouça Harry!


Sem ter tempo para levantar os lençóis e cobrir-se, a porta do quarto se abriu de par em par e um homem alto e arrumado, de não mais de vinte e cinco anos, entrou no quarto. Gina ficou gelada ao encontrar-se com o atônito olhar azul-esverdeado do Nick. Levava o cabelo, de cor castanha escuro, recolhida em um rabo de cavalo e, quando sorria, aparecia algumas de covinhas em suas bochechas.


- Merda, não me diga que te peguei na cama?


- Nick. - rugiu Harry - Sai daqui.


- Certo, mas as notícias que tenho sobre o Desiderius vão encantar. Por que não te põe um pouco de roupa e se reúne comigo no escritório dentro de uns minutos? - com atitude desavergonhada, olhou-os de cima abaixo sem ocultar a divertida que lhe resultava a cena, e saiu rapidamente do quarto.


- Me recorde, que é urgente que o mate.


Gina riu até que se encontrou com seus olhos.


- Parece muito distinto com os olhos verdes. - sussurrou enquanto lhe colocava a mão sobre a bochecha, áspera pela barba.


Como resposta, Harry recapturou seus lábios para entregar-se a outro tórrido beijo. Sua língua a atormentava com maravilhosas carícias, mas de forma tão possessiva que a deixava débil e quase sem fôlego.


- O que é e o que tem que resulta impossível resistir a você?


- Minha encantadora personalidade? - brincou ela.


Rindo-se, Harry depositou um ligeiro beijo sobre seu nariz. Gina o observou enquanto saía da cama e se deu um festim com essas costas nuas enquanto atravessava o quarto, a caminho do banheiro.


Encolheu-se na cama e escutou como caía a água da ducha. Não deixava de recordar o bem que se sentiu entre os braços do Harry. Tinha-lhe deixado seu aroma impregnado no corpo e a sensação era fascinante, como se lhe pertencesse por completo… embora soubesse que isso jamais poderia acontecer.


Ele era um Caçador Escuro e ela era uma simples contadora. Jamais tinham nascido duas pessoas mais díspares. Mas seu coração se negava a escutar. Uma parte dela o desejava a um nível que não tinha conhecido até então.


E, no fundo de sua mente, não podia evitar pensar em quão maravilhoso seria poder liberá-lo do juramento que o tinha convertido em Caçador Escuro.


 


 


CAPÍTULO NOVE


 


Harry atravessou o corredor, abriu a porta de seu escritório e encontrou ao Nick sentado atrás da antiga escrivaninha de mogno, de costas à porta. A poltrona reclinável de couro negro rangeu quando se moveu seu Escudeiro, cujos dedos voavam sobre o teclado do computador.


Era uma imagem cotidiana. Nick era um deus na Internet, o que em terminologia Hacker significava que podia entrar em qualquer lugar, sem importar o seguro que fosse o servidor. Graças a suas habilidades, Nick, junto ao Chris Eriksson e Daphne Addams tinham sido encarregados do desenho e manutenção a Web dos Caçadores Escuros, lugar utilizado pelos Caçadores e pelos Escudeiros para guardar todos seus arquivos e comunicar uns com outros.


Era bom saber que ao Nick servia a Universidade para algo mais que para conhecer mulheres de moral questionável.


- Me diga, por que entraste em meu quarto sem permissão?


Nick o olhou de soslaio com um sorriso malicioso.


- Tipo, tinha-te ficado dormindo. Era tarde.


- Vamos, homem!


Com um bufido, Nick voltou a emprestar atenção ao computador, já que acabava de receber uma mensagem.


- É o único homem ao qual conheço que pode ter um humor tão desagradável dez minutos depois de ter sexo com uma mulher tão estupenda. Merda, não sabe que o sexo serve para que se sinta melhor?


Harry pôs os olhos em branco ante os comentários de seu insolente Escudeiro, as normas e instruções lhe escorregavam e jamais tinha conseguido intimidá-lo. Nem sequer a noite que lhe confessou que tipo de criatura era em realidade.


- Nick… - o repreendeu a modo de advertência.


O Escudeiro abriu o correio.


- Bom, bom. Aqui está a mensagem dos Oráculos:


 


«De apolita e Daimon nascido será o que lhes mantenha em vigília.


Sangue de deuses corre por suas veias e a ira é sua melhor companheira.


Se quiser a este ser controlar, um Caçador Escuro com alma devem encontrar. »


 


Harry franziu o cenho ao escutar a adivinhação, o típico lixo dos Oráculos. Pelos deuses, como os odiava. É que não podiam, por uma só vez, dizer o que tivessem que dizer falando em cristão? Claro que não. Não quisesse Zeus que os Oráculos os ajudassem de verdade a proteger aos humanos…


- Que porcaria significa isso? - perguntou ao Nick.


Seu Escudeiro girou a poltrona para ficar de frente.


- Segundo Acheron, o que quer dizer é que só um Caçador Escuro com alma pode acabar com o Desiderius. Por isso nenhum de vós conseguiu matá-lo antes. É uma simples profecia, já sabe como funciona isto.


- Não existe nenhum Caçador Escuro com alma. Ao menos, não com a alma no corpo.


- Então, de acordo com os Oráculos e com o Acheron, Desiderius é invencível.


Harry deixou escapar um profundo suspiro.


- Isso não é o que queria ouvir esta manhã.


- Sim, quão único tenho que dizer é que me alegro de não estar em sua pele. - Nick franziu o cenho - Tem os olhos verdes. O que te passou?


- Nada.


Nick inclinou a cabeça e o olhou com perspicácia.


- Algo acontece. - disse antes de pegar o celular - Tenho que chamar outra vez ao Acheron?


Harry lhe tirou o telefone das mãos e o olhou com uma fúria assassina.


- Não coloque ao Acheron nisto. Posso arrumar isso sozinho.


- Melhor. É um bundão, mas eu não gostaria nada de ter que começar a trabalhar para outro Caçador Escuro.


Harry soltou um bufido.


- E isso o que significa? É uma declaração de amor?


- Não, de lealdade. Não quero ver-te cair como aconteceu ao Streigar.


A idéia fez que Harry deixasse as brincadeiras a um lado. Streigar tinha sido um implacável Caçador Escuro que foi apanhado por alguns humanos, fanáticos na caça de vampiros, que o expuseram à luz do sol. Sua morte tinha sobressaltado a Caçadores Escuros e a Escudeiros por igual.


- Não se preocupe. - disse ao Nick para tranqüilizá-lo - Não vou acabar dando bom dia ao sol. Sei como me arrumar.


- O que aposta que essas foram as mesmas palavras do Streigar?


Harry deixou escapar um grunhido.


- Não tem aula hoje?


Nick soltou uma gargalhada.


- Tipo, sou um Cajun dos pântanos, não preciso ir a aula, cherie. - esclareceu-se garganta e deixou de utilizar o acento cajun - E não, hoje terei que fazer a matrícula. Tenho que pensar nas disciplinas que vou pegar o próximo semestre.


- Genial, mas necessito que faça algumas coisas.


- E o que tem isso de novo?


Sarcasmo, seu nome é Nick Gautier.


- Quero que leve às compras a Gina, necessita roupa. Os Daimons queimaram sua casa e não tem nada, exceto o que tem no corpo.


Nick levantou uma sobrancelha.


- Nesse caso, seus pertences são escassos porque me pareceu que no corpo… levava muito pouco.


Harry olhou a seu Escudeiro com os olhos entrecerrados.


- Não te ponha histérico. - disse Nick, elevando as mãos em sinal de fingida rendição - Já sei que é sua e jamais me ocorria invadir seu terreno, mas tipo, tampouco sou cego.


- Um dia destes… converterei-te em aperitivos para jacarés…


- Seja. A ameaça teria mais peso se não soubesse o muito que você gosta de me dar ordens. Se não pudesse me manipular a qualquer hora da noite, voltaria-te louco.


Não podia negá-lo. As noites se faziam especialmente tediosas e longas quando não havia Daimons que perseguir, e chatear ao Nick às três da manhã fazia que ficassem muito mais divertidas.


O Escudeiro tirou seu Palm Pilot e começou a tomar notas.


- Certo. Missão secreta: levar à garota as compras. - quando acabou de escrever levantou a cabeça e olhou ao Harry - Como certo, quero um extra de periculosidade este mês. Odeio os centros comerciais.


Harry riu.


- Não há mais que te olhar para dar-se conta.


Nick fingiu que o comentário lhe tinha doído e o olhou simuladamente ofendido.


- Me perdoe, senhor Armani. É que eu gosto da moda grunge.


- Sinto muito, sempre me esqueço que agora está na moda vestir-se como se acabasse de sair de debaixo de um contêiner de lixo.


Nick continuou bancando o ofendido e lhe respondeu com uma fingida gagueira.


- Por que não te volta para a cama de uma vez e utiliza todo esse encanto com sua mulher? Porque se segue me chateando vou acabar te cravando uma estaca… - e em voz muito baixa acrescentou - Enquanto dorme.


Harry cruzou os braços diante do peito.


- Certo, darei-te um pagamento extra, mas não te passe com a Gina. Os comentários sarcásticos se reduzem ao mínimo.


- Sim, OH grande Amo e Senhor! - disse ao tempo que acrescentava outra nota - Ser agradável com a garota, manter a boca fechada. - e voltou a olhá-lo - Por certo, algum limite de dinheiro para as compras?


- Não. Tudo o que ela queira gastar.


- Visitar lojas chiques e Lorde and Taylor. Muito bem, algo mais?


- Traga-a de volta antes que escureça ou vou usar sua pele cajun para dar de comer aos jacarés do Talon.


O medo faiscou nos olhos do Nick. O moço odiava aos jacarés, embora Harry não soubesse o porquê.


- Cara, isso sim me assustou.


- Também quero que vá à casa do Talon e recolha um srad. Desiderius não imagina a surpresa que vamos lhe dar.


Nick tremeu ante a menção das adagas circulares do Talon. Eram armas muito antigas e, a seu lado, um Ginsu parecia uma simples faca para passar manteiga.


- Sabe como usar essas coisas?


- Sim. - lhe respondeu Harry, respirando fundo - Preciso dormir. Nick, o mais importante é que cuide da Gina.


Nick desligou a Palm Pilot e a colocou na capa do cinto.


- Você gosta dela, verdade?


Harry não respondeu, não se atrevia. Nenhum dos dois precisava saber a resposta. Lhe dando as costas a seu Escudeiro, saiu do escritório e se dirigiu ao dormitório.


 


Depois de dar uma ducha rápida, Gina retornou em silencio à habitação para vestir-se, enquanto Harry dormia na enorme cama com dossel. O lugar estava completamente às escuras, a única luz provinha do banheiro. Resultava impossível saber se era de dia ou de noite, embora Harry sempre parecia saber o momento exato em que saía o sol.


Aproximou-se da cama para observá-lo, o lençol lhe cobria até a cintura, ocultando sua nudez. Ufffff, esse homem tinha um corpo… Poderia passar todo o dia olhando-o, sem cansar de observar essa pele bronzeada e deliciosa que ansiava explorar com os lábios e as mãos. O que havia nele que lhe resultava tão poderoso?


Estava desejando voltar a beijar esses lábios exuberantes e enterrar as mãos nesse cabelo loiro, mas não queria perturbar seu sonho. Harry precisava recuperar forças.


Saiu nas pontas dos pés do quarto e baixou as escadas a caminho da cozinha.


A luz do dia se refletia sobre as superfícies de mármore branco, dando à cozinha um aspecto alegre e luminoso. Rosa estava fritando bacon e Nick olhava uns folhetos informativos da universidade, sentado em um tamborete.


De corpo esbelto e muito arrumado, o moço não aparentava ter mais de vinte e quatro anos. Não lhe viria nada mal um corte de cabelo, mas tinha que reconhecer que a juba à altura dos ombros lhe sentava muito bem a esse rosto de traços cinzelados. Levava uma camiseta longa que havia visto melhores dias e uns jeans gastos com um buraco no joelho.


- Ouça, Rosa. - repreendeu à mulher sem levantar a vista do folheto - Se escolho espanhol para o próximo semestre, ajudará-me a estudar?


- Sim, e imagino que Harry também te dará uma mão.


- Genial. - disse com ironia - Entre isso e a História da Antiga Grécia vou passar isso de puta mãe.


- Nick! - repreendeu-o Rosa - Essa linguagem não é própria de um cavalheiro.


- Sinto muito.


A mulher pôs um prato com bacon, ovos e torradas diante do Nick e, ao dar a volta, viu a Gina de pé na porta.


- Aqui está, senhorita. Tem fome?


- Um pouco.


- Venha. - lhe disse assinalando o tamborete vazio junto ao Nick - Se acomode e lhe prepararei o café da manhã.


- Obrigado, Rosa.


A mulher lhe respondeu com um sorriso.


Gina se sentou junto ao Escudeiro, que limpou a mão nas calças e a ofereceu.


- Nick Gautier. - se apresentou, com um sorriso encantador e cheio de covinhas - Mais conhecido como Nick-move-a-bunda-necessito-que-faça… e aí é onde a coisa varia.


Gina soltou uma gargalhada.


- É um pouco mandão, verdade?


- Não sabe muito bem. - Nick pegou o celular, que levava em uma capa sujeita ao cinto, e o ofereceu - E falando dele, me disse que tem que chamar o trabalho.


- Obrigado.


Enquanto Rosa lhe preparava o café da manhã, Gina chamou o seu chefe e lhe explicou o ocorrido. Felizmente, o diretor se mostrou muito compreensivo e lhe deu duas semanas livres para que se fizesse cargo da situação.


Mal desligou, começou a sentir-se mal pela perda de seu lar.


- Não posso acreditar que incendiassem minha casa.


- Sua casa? - perguntou Rosa - Quem tem feito isso?


- As autoridades estão investigando. - respondeu Harry do salão.


Gina se girou e o viu de pé na porta. Estava muito pálido e parecia incômodo.


Rosa lhe sorriu.


- M’ijo, está em casa. Nick me disse que foste sair.


- Não me encontro muito bem. - embora a expressão de seu rosto fosse amável, olhou a Rosa com os olhos entrecerrados - Esta manhã chegou à sua hora, não é certo?


Rosa fez pouco caso de sua pergunta.


- Vêem e sente-se. Prepararei-te algo de comer.


Harry observou a luz que entrava através das janelas abertas com um olhar cauteloso e retrocedeu, internando-se na escuridão do salão.


- Obrigado, Rosa, mas não tenho fome. Nick, preciso falar contigo. Só será um minuto.


O moço olhou a Gina com um sorriso satisfeito.


- Pelo menos não me há dito que mova a bunda.


- Nick. - o chamou Harry - Move a bunda, menino.


Enquanto Nick saía da cozinha para falar com o Harry, Rosa colocou um prato diante da Gina.


- Pobrecita, o que vais fazer sem sua casa?


- Não sei. Suponho que terei que chamar à companhia seguradora, encontrar um lugar onde viver… - sua voz se desvaneceu ao pensar em todas as coisas que tinha que fazer.


Teria que substituir toda sua vida. Tudo: a escova de dente, os sapatos, os livros… até os telefones. Nem sequer tinha roupa de baixo!


Afligida, perdeu o apetite.


O que ia fazer?


Nick retornou e pegou o folheto informativo para mostrar-lhe ao Harry, que esperava na porta.


- Necessito que me faça um favor. Tenho que me matricular à uma, se não estarmos de retorno essa hora, poderia preencher o formulário na página Web? Sei que precisa dormir, mas tenho muita vontade de pegar História Grega o próximo semestre.


- Por que?


- As aulas quem dará será o professor Alexander e, conforme dizem é muito bom.


- Julian Alexander? - perguntou-lhe Gina.


- Sim. - lhe respondeu, Nick, olhando-a sobre o ombro - O conhece?


Ela intercambiou um olhar com o Harry.


- Nem a metade bem que Harry.


Nick fingiu um calafrio.


- Já! Tipo, outro dos seus não. Genial. Mate-me agora mesmo e assim me economizará o sofrimento.


- Não me tente. - lhe disse Harry agarrando o folheto - À uma em ponto. Algo mais?


- Sim, faz algo com esses olhos, me arrepiam.


Harry levantou uma sobrancelha em sinal de advertência ante o tom altivo de seu Escudeiro.


- Passem bem.


- A que se refere? - perguntou Gina ao Nick assim que Harry se partiu.


Ele se sentou de novo no tamborete antes de lhe responder.


- Vamos às compras. - lhe disse, fazendo uma careta e tremendo teatralmente ao pronunciar a palavra.


- O que temos que comprar?


Nick tomou um sorvo de suco de laranja.


- Algo que você necessite senhora. Casacos de pele, diamantes… o que seja.


- Diamantes? - repetiu Gina, rindo-se ante a escandalosa idéia.


- Paga Harry, assim é que te aconselho que compre tudo. Literalmente falando.


Ela sorriu.


- Não posso permitir isso. Pagarei com meu próprio dinheiro.


- E para que vai gastá-lo? Não tem nem idéia de quão rico está. Asseguro-te que se compras todo o centro comercial, nem sequer o notará.


Gina não tinha a intenção de seguir os conselhos do Escudeiro, mas de qualquer forma, necessitava um pouco de roupa.


- De acordo, podemos parar um momento na casa de minha mãe?


- Claro. Minha missão de hoje é te agradar… em tudo o que me peça.


Ela meneou a cabeça ao ver o pícaro sorriso no rosto do Nick.


 


Partiram depois de fazer uma chamada à companhia seguradora para lhes informar do incêndio.


Gina não pôde evitar sentir-se mais e mais frustrada cada vez que Nick pagava as faturas sem deixar que ela gastasse nada.


- Cumpro ordens. - lhe disse o Escudeiro pela quinta vez - Você compra, eu pago.


Respondeu-lhe com um grunhido amistoso.


- Sempre obedece a suas ordens?


- Sempre… mas sem deixar de me queixar.


Gina soltou uma gargalhada enquanto saíam da loja e continuavam caminhando pelos corredores do centro comercial. Nick carregado com todas as sacolas.


- Quanto tempo faz que trabalha para Harry? - perguntou-lhe quando chegaram às escadas rolantes.


- Oito anos.


Ela o olhou com a boca aberta.


- Pois não parece tão mais velho.


- Sim, bom. É que tinha só dezesseis anos quando comecei.


- Pode-se ser um Escudeiro a essa idade?


Nick voltou a cabeça para jogar uma olhada a uma jovem muito atraente, vestida com uma curta minissaia, que passava junto a eles e lhe dedicou seu típico sorriso infestado de covinhas antes de responder a Gina.


- Não me inteirei do que era Harry até muito depois. Ao princípio, acreditava que não era mais que um tipo podre de dinheiro com o complexo de «vamos ajudar ao menino pobre».


Gina o olhou com o cenho franzido ao tempo que chegavam ao andar de baixo e se encaminhavam pelo corredor.


- E por que te deu essa impressão?


Nick acomodou as sacolas que sujeitava.


- Senhora, junto a você tem o filho de um criminoso reincidente. Meu pai morreu em Angola, faz onze anos, durante um motim na prisão.


Gina fez uma careta ao pensar em quão doloroso devia ser perder a um pai dessa maneira.


- E sua mãe?


- Era uma bailarina exótica em uma das casas de jogo clandestino do Bourbon Street. Cresci na parte traseira do clube onde trabalhava, ajudando aos gorilas a jogar aos clientes.


Ela sentiu uma pontada de dor ante o panorama que Nick descrevia.


- Sinto muito.


Ele se encolheu de ombros, como se não lhe desse muita importância.


- Não se preocupe. Pode que minha mãe tenha cometido enganos, mas é uma mãe estupenda, uma senhora de armas a carregar. Fez tudo o que pôde com o que tínhamos. Meu pai a abandonou quando só tinha quinze anos e meu avô a jogou de casa. Assim é que ficamos ela e eu e, enquanto isso, meu pai se dedicava a entrar e sair da prisão. Nunca tivemos grande coisa, mas sempre me quis muito.


Gina sorriu ao perceber o amor que destilava na voz do Nick. Era óbvio que adorava a sua mãe.


- E como conheceu o Harry?


Nick se deteve uns instantes, como se estivesse sopesando o melhor modo de contá-lo.


- Quando cheguei à adolescência, estava já farto de ver minha mãe agachar a cabeça, envergonhada, de ver como ficava sem comer para que eu tivesse um pouco mais. Lembro que a acompanhava ao trabalho e via a fome que se refletia em seu rosto cada vez que olhava as vitrines das lojas. - disse suspirando - Esse olhar faminto nunca a abandonava.


O rosto do Nick adotou uma expressão dura antes de continuar.


- Minha mãe é a mulher mais doce e com melhor coração que Deus pôs neste mundo e não podia suportar ver como se degradava para que eu tivesse um prato de comida, nem como os homens a buscavam todas as horas, nem a expressão de seus olhos cada vez que desejava algo que jamais poderia ter. Aos treze anos, decidi que não podia mais e comecei a roubar.


Gina sentiu que o coração encolhia. Não podia felicitá-lo pelo que tinha feito, mas tampouco ia condená-lo.


- Uma noite, os meninos da turma que eu andava decidiram assaltar a um casal de turistas e me neguei. Uma coisa era roubar nas lojas e entrar nas casas dos ricos, e outra muito diferente fazer mal às pessoas. Não estava disposto a fazê-lo.


Assim, embora fosse um ladrão, Nick tinha conservado seu sentido da honra, pensou Gina.


- O que aconteceu? - perguntou-lhe.


- Os meninos se zangaram e decidiram que não iria mal praticar alguns golpes comigo. Tombaram-me no chão e começaram a me esmurrar, pensei que ia morrer ali mesmo, mas não sei como, de repente, quão único vi foi a mão de um tipo que me ajudava a me levantar e me perguntava se estava bem.


- Era Harry?


Nick assentiu.


- Levou-me ao hospital e pagou a fatura. Costuraram-me as feridas das navalhadas e os cortes da cabeça. Ficou comigo até que chegou minha mãe e, enquanto a esperávamos, perguntou-me se queria trabalhar para ele, fazendo encargos depois das aulas.


A Gina resultava muito fácil imaginar-se ao adolescente informado e sabichão que tinha sido Nick. Ter sido capaz de penetrar nessa personalidade tão cáustica e ver quão bom havia debaixo, dizia muito a favor do Harry.


- E aceitou?


- Ao princípio não. Não estava muito seguro de querer estar perto de um tipo que tinha todo o dinheiro do mundo. Além disso, minha mãe suspeitava dele. Ainda o faz, de fato. Não lhe entra na cabeça por que me paga tanto por fazer virtualmente nada. - disse com uma gargalhada - Ainda acredita que nos dedicamos ao tráfico de drogas.


Ela soprou pela ocorrência. Pobre mulher.


- E o que diz?


- Que Harry é um Howard Hughes com complexo de Deus. - imediatamente ficou sério e a olhou com gravidade - Lhe devo a vida. Não sei onde estaria agora mesmo se não me tivesse encontrado aquela noite. Bom, seguro que não seria um estudante de direito da universidade de Loyola nem conduziria um Jaguar. Pode que Harry seja um casulo de primeira, mas debaixo dessa fachada há um tipo decente.


Gina refletiu sobre as palavras de Nick enquanto saíam do centro comercial e colocavam as sacolas no porta-malas de seu flamejante Jaguar negro. Nada mais, entrou no carro, colocou o cinto de segurança antes de seguir com a conversação.


- Quando te disse Harry à verdade?


Nick pôs em marcha o carro e saiu do estacionamento.


- Quando me graduei no instituto e me fez a oferta de ser seu Escudeiro de forma permanente.


- O que é exatamente um Escudeiro?


Nick se incorporou ao tráfego e, ao trocar de marcha, Gina viu em sua mão direita uma curiosa tatuagem, com uma estranha inscrição em grego que se assemelhava a um tecido de aranha, e começou a perguntar-se se todos os Escudeiros teriam a mesma marca.


- Nosso trabalho consiste em proteger aos Caçadores Escuros durante o dia e em lhes proporcionar algo que necessitem: comida, roupa, carros, manutenção de seus lares… o que seja. Em uma época montávamos guarda, literalmente falando, diante das criptas onde dormiam, e daí provém o mito de que os vampiros dormem em ataúdes. Como a luz do sol é seu maior inimigo, estavam acostumados a dormir em covas ou em câmaras ocultas que não tivessem a mais mínima fresta por onde pudesse passar a luz. Como recompensa por nossos serviços, eles nos proporcionam apoio financeiro.


- Então, cada Caçador Escuro tem um Escudeiro?


- Não. Alguns preferem estar sozinhos. Eu sou o primeiro que Harry teve nos últimos trezentos anos.


Gina se encolheu ao pensar na solidão que devia ter sofrido Harry durante todo esse tempo. Imaginava vagando por sua mansão, como um espírito incapaz de encontrar o descanso, procurando um consolo que nunca chegava.


- E se desejar abandoná-lo? - perguntou-lhe ela.


Nick tomou uma profunda baforada de ar e apertou com força a mandíbula.


- Não é tão singelo. Há uma organização muito complexa ao redor dos Escudeiros, como a do Hotel Califórnia… pode entrar quando quiser, mas não pode partir jamais. Se alguém abandonar seu posto, é submetido a vigilância durante toda sua vida e se trair aos Caçadores Escuros ou aos mesmos Escudeiros, não viverá muito para arrepender-se.


A funesta declaração conseguiu que a Gina lhe pusesse a pele arrepiada.


- Sério?


- Sim, claro. Alguns de meus companheiros provêm de famílias cuja antigüidade como Escudeiros se remonta a milhares de anos atrás.


- Pois me parece uma espécie de escravidão. - disse Gina.


- Não. Se quiser posso deixá-lo em qualquer momento, mas não posso romper o juramento que tenho feito como Escudeiro. Uma vez se faz, é inquebrável e eterno. O dia que me case minha esposa não saberá nada da verdadeira natureza do Harry nem do que faço para ele, a menos que ela também tenha feito o juramento. Quando meus filhos se convertam em adultos, terei que decidir se eles irão tomar parte disto ou não. Se escolho contar tudo, terão que apresentar-se ante o Acheron e Artemisa, eles estudarão as solicitudes e decidirão se servirão ou não.


Isso sim que resultava aterrador já que, enquanto o escutava, lhe ocorreu algo espantoso.


- E o que passa comigo? Não irão pensar que sou uma ameaça, verdade?


O rosto do Nick adotou uma expressão mortalmente séria quando a olhou, depois de deter-se em um semáforo.


- Se assim o considerassem, um dos Escudeiros acabaria contigo.


Gina tragou saliva.


- Isso não é muito reconfortante.


- Não pretendo que o seja. Tomamos nossas obrigações muito a sério. Os Caçadores Escuros são quão únicos garantem que a humanidade não seja escravizada ou extinta. Sem eles, os apolitas ou os Daimons acabariam nos dominando.


 


Harry estava deitado na cama, fazendo todo o possível para conciliar o sonho, mas uma e outra vez, sentia a Gina em seu interior. Estava vendo os restos de sua casa. Sabia. Sentia suas lágrimas, sua ira e seu desespero.


Como a desejava.


Como desejava poder estar junto a ela nesses momentos para consolá-la. Nunca antes lhe tinha incomodado o fato de não poder sair à luz do dia, mas agora o chateava. Se não fosse um Caçador Escuro poderia estar com ela e lhe oferecer sua força e seu apoio.


Fechando os olhos, respirou fundo e tentou afastar a dor. Tinha escolhido seu destino em um momento em que se encontrava cego pela raiva e a angústia, e agora não podia escapar dele. Artemisa guardava seu exército cuidadosamente e tinha posto tão alto a fita de seda que só se sabia de três Caçadores Escuros que tivessem recuperado sua alma em todos esses anos.


O resto tinha morrido na tentativa.


- E, de todos os modos, para que necessito a alma? - perguntou-se em voz baixa ao tempo que abria os olhos e fixava o olhar no dossel de tons dourados e marrons que cobria a cama - Quão único faz é debilitar a um homem.


Sua vida tinha uma razão de ser. Um propósito.


E então por que desejava a Gina no mais profundo de seu ser e tão desesperadamente?


Era uma sensação que não tinha experimentado fazia séculos e, na única ocasião em que havia sentido algo assim, acabou traindo a todos os que lhe tinham amado.


- Não voltarei a ser fraco. - sussurrou. Não é que é pensasse que Gina pudesse lhe fazer mal intencionalmente. O que temia é que uma vez lhe entregasse seu coração e sua lealdade, para ele não haveria volta. A coisa era bem simples: estava assustado por si mesmo e do que estava disposto a fazer para mantê-la a salvo.


 


Depois de visitar os restos da casa da Gina e deter uns momentos na casa de sua mãe, Nick conduziu até o coração do Bairro Francês e estacionou em uma rua lateral, perto do Chartres, para onde se dirigiram a pé. O Escudeiro guiou a Gina através da concorrida zona comercial e se deteve frente a uma tenda chamada Dream Dolls and Accesories.


Gina o olhou com o cenho franzido. Por que se detinham em uma loja de bonecas?


- O que fazemos aqui? - perguntou-lhe enquanto lhe abria a porta para deixá-la passar.


- Vamos ver a senhora que faz as bonecas.


Normal, se fizer uma pergunta estúpida…


Ela o olhou com cepticismo.


- Sabe uma coisa? Não acredito que faça Barbies de tamanho real.


Nick soprou e a deixou passar diante dele.


- Não estou procurando nenhuma Barbie e este encargo não é para mim. É para o Harry.


Agora sim que estava preocupada.


- Por quê?


Antes que o Escudeiro responder, uma senhora maior que estava sentada em um banco de trabalho situado junto à porta, chamou a atenção da Gina. Sustentava uma Barbie a que estava retocando o rosto.


A mulher levava um estranho artefato de cor laranja na cabeça, com um pequeno refletor e uma lente bifocal. O artefato lhe cobria o cabelo, totalmente branco, que tinha recolhido em um apertado coque. Seus olhos marrons eram alegres e brilhantes.


- Nicky, pequenino. - lhe disse com tom maternal - O que te traz por aqui em uma tarde como esta e com uma acompanhante tão formosa? Espera, acredito que é a primeira vez que te vejo com uma garota. - enquanto falava o assinalava com um diminuto pincel - Uma garota que bem merece a pena levar ao lado. É muito bonita, e não refiro o seu aspecto físico, você já me entende.


Nick passou a mão pelo cabelo e, envergonhado, olhou a Gina.


- Liza, meu amor. - disse quase a gritos, lhe dedicando seu pícaro e encantador sorriso - É que necessito uma razão para ver seu encantador rosto?


A anciã riu ante o comentário.


- Pode que seja velha, Nicholas Gautier, mas não sou estúpida. - disse dando uns golpezinhos na cabeça que fizeram que o artefato se agitasse - Minha velha antena ainda funciona e, se mal me recordo, faz mais de um século que um homem como você veio a me fazer uma visita por gosto. Agora, te aproxime e me diga no ouvido o que necessita.


Nick a obedeceu e Gina compreendeu que a senhora estava surda. De fato, o Escudeiro lhe falava tão alto que podia escutar todas e cada uma das palavras.


Até escutou como lhe pedia explosivos plásticos.


- Recorda. - lhe disse ele - Harry quer um exatamente igual ao do Talon.


- Já te ouvi, Nicky. - lhe respondeu Liza pacientemente - Acaso acredita que estou surda? - perguntou-lhe enquanto olhava a Gina e lhe piscava os olhos.


- Quando venho apanhar tudo? - perguntou-lhe Nick.


Liza fez uma careta com os lábios.


- Me dê um dia ou dois, certo? - levantou a boneca que tinha nas mãos e o admoestou - Uma Barbie não espera, nem sequer por um Caçador Escuro.


Nick soltou uma gargalhada.


- Claro Liza, obrigado.


Caminho da porta, a anciã os deteve.


- Sabe querida? - disse a Gina, aproximando-se dela. A senhora que media um metro e meio. Deu-lhe uns tapinhas no braço e continuou - Tem um aura muito especial. Como a de um anjinho.


Gina sorriu, agradecida.


- Obrigado.


Liza se levantou as lentes e se aproximou de uma estante colocada junto à porta. Ficou nas pontas dos pés e pegou uma Barbie que tinha restaurado ela mesma. A boneca tinha o cabelo comprido, encaracolado e negro, umas diáfanas asas de anjo e ia vestida com um formoso vestido branco bordado com pérolas.


Gina jamais tinha visto nada tão formoso e delicado.


Liza a ofereceu.


- Chama-se Starla. Pintei-lhe o rosto como o de uma senhora que vem muito freqüentemente por aqui. - aproximou-se a boneca ao ouvido, como se a Barbie lhe estivesse falando, assentiu e a deu a Gina - Diz que quer ir-se para casa contigo.


Gina a olhou boquiaberta. Mais ainda ao ver o preço na etiqueta que pendurava da boneca: quatrocentos dólares.


- Obrigado, Liza, mas não posso aceitá-la. - recusou, tentando devolver-lhe.


Liza fez um gesto com a mão, negando-se a aceitar a boneca de novo.


- É tua, carinho. Necessita um anjo que cuide de ti.


- Mas…


- Está bem… - lhe disse Nick, lhe indicando com um gesto que saísse da loja. Em voz baixa acrescentou - Se a rechaças ferirá seus sentimentos. Adora dar de presente.


Gina lhe deu um abraço à senhora.


- Obrigado, Liza. Guardarei-a como um tesouro.


Estavam já na porta quando Liza os deteve de novo e pegou a Starla dos braços da Gina.


- Me esquecia uma coisa. - lhes disse - Starla é muito especial. - A anciã sujeitou à boneca pelas pernas e pressionou a cabeça para baixo. Dos pés da Barbie surgiram duas finas folhas metálicas de uns oito centímetros de comprimento.


- Especialmente desenhadas para os Daimons. - anunciou Lisa, atirando da cabeça da boneca para que as folhas voltassem a ocultar as lâminas - Se for letal, resulta muito mais prática.


Estupendo, pensou Gina. Não estava muito segura de como dirigir a situação.


A anciã lhe devolveu a boneca de novo e lhe deu uns tapinhas no braço.


- Tenham muito cuidado.


- Teremos. - lhe respondeu Nick e, nesta ocasião, conseguiram chegar à rua.


Gina não podia deixar de olhar a boneca, sem saber muito bem o que pensar.


Nick se esteve rindo dela todo o caminho de volta ao carro.


- Liza é uma Escudera, verdade? - perguntou-lhe Gina, ao tempo que entrava no Jaguar e colocava a Starla, com muito cuidado, em seu regaço.


- Está retirada, mas sim. Foi Escudera e um dos Oráculos durante trinta e cinco anos, até que deixou o cuidado de Xander às mãos da Brynna.


- Liza é quem fabrica as botas do Harry?


Ele negou com a cabeça enquanto punha em marcha o motor.


- As armas maiores as fabricam outro Caçador Escuro, as espadas, as botas e esse tipo de material. Liza faz armas pequenas, como pendentes com explosivos. É uma artista consumada que adora transformar jóia e outros objetos de aspecto inofensivo em armas letais.


Gina soltou o ar lentamente.


- Sério, dão muito medo.


O comentário fez que Nick soltasse uma gargalhada antes de olhar o relógio.


- São quase três. Ainda temos que ir à casa do Talon e tenho que te levar de volta antes que escureça, assim é que terá que ter pressa.


- Certo.


Saíram da cidade e demoraram uns quarenta minutos em chegar aos pântanos.


Depois de descer por um comprido e sinuoso caminho sem asfaltar, chegaram a uma enorme e velha construção que se assemelhava a um abrigo. Se não tivesse sido pelas fechaduras que seguravam as portas, Gina teria acreditado que fazia pelo menos um século que não se utilizava. Bom, por isso e pela estranha caixa que havia em frente, negro e atravessado horizontal e verticalmente pelo que pareciam ser uns gigantescos pregos prateados.


- Talon é estranho. - lhe disse Nick ao ver como ela olhava fixamente a caixa - Acredita que ter uma caixa atravessada com pregos é divertido.


Abriu a porta do abrigo com o controle remoto e, quando entraram para estacionar o Jaguar, Gina ficou boquiaberta. O interior feito de tijolos e vigas de aço, albergava um Viper, uma coleção de cinco Harley Davidsons e um pequeno catamaran, amarrado no molhe que havia na parte traseira do edifício.


- Caramba! - balbuciou ao fixar-se em uma Harley que estava separada do resto, negra e reluzente sob a tênue luz. Obviamente, era uma apreciada posse e recordou que era a moto que Talon montava a noite anterior.


Nick ignorou tanto o conversível como as motos e se foi direto ao catamaran.


- É que vive no interior do pântano? - perguntou Gina ao Nick ao aproximar-se do pequeno embarcadouro, limpo e espaçoso, com espaço de sobra para albergar outra embarcação mais.


Nick a ajudou a subir ao catamaran e foi abrir a porta que dava ao pântano.


- Sim, sendo um antigo celta, adora a natureza. Embora seja espantosa.


Gina levantou uma sobrancelha.


- De verdade é um antigo celta?


- Sim. Do século V ou VI D.C. Era chefe de um clã. Seu pai era um Supremo Sacerdote Druida e sua mãe liderou ao clã antes dele.


- Sério?


Assentiu enquanto soltava as amarras do bote e saltava a seu interior. Uma vez Gina se acomodou, Nick arrancou a embarcação.


- Como se converteu em Caçador Escuro? - perguntou-lhe ela a voz em grito para fazer-se ouvir sobre o ruído do motor.


- Os membros do clã o traíram. - lhe contou Nick ao tempo que saíam do abrigo e se internavam no pântano - Lhe disseram que precisavam sacrificar a alguém de seu sangue. A escolha estava entre ele ou sua irmã. Ele se ofereceu, mas mal o tiveram amarrado, mataram a sua irmã diante de seus narizes. Voltou-se louco, mas visto que estivesse amarrado, não podia fazer nada. Quando se aproximaram dele para matá-lo jurou vingar-se de todos eles.


Jesus! É que nenhum deles tinha tido uma vida feliz?


- Matou a todos os membros do clã? - perguntou-lhe.


- Suponho.


Gina permaneceu em silêncio, pensando no que acabava de escutar. Pobre Talon. Nem sequer podia imaginar quão horrível seria ver como assassinavam a uma de suas queridas irmãs diante de seus olhos. Pode que estivessem todo o dia chateando-a, mas eram tudo para ela e mataria a qualquer que lhes fizesse mal.


O horror que esse homem devia ter presenciado aquele dia… Ainda devia torturá-lo.


Nick seguiu internando-se no pântano até que chegaram a uma cabana incrivelmente pequena. Gina duvidava que chegasse aos duzentos e quarenta metros quadrados. O exterior parecia ainda mais desmantelado que o abrigo onde tinham deixado o carro do Nick. As toscas vigas de madeira eram de uma cor cinzenta e dava a sensação de que podia derrubar-se ao sopro da mais ligeira brisa.


Conforme se aproximavam, viu um embarcadouro trás da cabana, com dois geradores enormes e outro catamaran.


- Como as concerta na época dos furacões? - perguntou Gina ao Nick enquanto este desligava o motor.


- Pois muito bem. Como um de seus poderes é o de controlar o clima, não corre perigo algum. Mas sempre existe a possibilidade de que o lugar se desabe à luz do dia, enquanto ele está despreparado, dormindo… e acabe frito.


- Gostam do perigo, não é certo?


Nick soltou uma gargalhada.


- Sim, terá que ter bastante coragem para fazer o que eles fazem. E paquerar com a morte é um requisito básico.


O Escudeiro saiu do catamaran e lhe advertiu que não se movesse. Caminhou com muita precaução ao longo de um antigo e estreito atalho que levava do embarcadouro até a porta da cabana, e logo lhe fez um gesto para que se reunisse com ele.


- Atrás, Beth. - espetou a um jacaré que tinha começado a aproximar-se da Gina.


Ela retornou ao bote de um salto.


- Não passa nada. - a tranqüilizou Nick - Protegem ao Talon durante o dia. Enquanto esteja comigo não lhe farão nada.


- Não estou muito segura. - lhe disse enquanto baixava outra vez da embarcação sem muita vontade.


Quatro gigantescos jacarés lhe lançaram malévolas olhadas e começaram a seguí-la de caminho à porta. Gina sentiu que o medo lhe impedia de respirar quando viu o maior dos quatro répteis subir ao alpendre atrás dela e começar a agitar a cauda com força.


O animal lançou um temível gemido.


- Te cale Beth - o repreendeu Nick - ou te juro que me farei umas malas muito bonitas contigo. - deu-se a volta e bateu na porta.


- Ainda não escureceu Nick. - se escutou a voz do Talon, com esse acento tão marcado, do outro lado da porta, Gina não pôde evitar perguntar-se como sabia que eram eles - O que quer?


- Necessito seu srad para o Harry antes que vá o sol.


Gina escutou uns ruídos no interior da cabine. Segundos depois, soou a fechadura e a porta se moveu, deixando uma estreita abertura. Nick a abriu de tudo e convidou a Gina a entrar.


Ela tentou ver algo na escuridão que reinava na estadia, mas não o conseguiu até o Nick acender uma lamparina de mesa. Quando viu o quarto, ficou gelada. As paredes estavam pintadas de negro e aquilo parecia o centro de controle de uma instalação militar. Havia computadores e equipes eletrônicas por todos os lados. Embora o lugar e o aspecto externo do edifício não dessem amostras disso, esse cara era um viciado na tecnologia.


Ao olhar ao Talon, sua mandíbula esteve a ponto de desencaixar-se. O cara estava completamente nu.


E tinha um corpo incrível.


Tinha tatuada toda a parte esquerda do torso — por diante e por trás — e todo o braço com uns estranhos símbolos celtas em cor vermelha e negra. O enorme pendente, que representava uma cabeça de dragão, brilhava na pálida luz. E, embora o homem fosse pecaminosamente arrumado, de algum modo estranho, não se sentia atraída por ele.


Obviamente, desfrutava do fantástico espetáculo que tinha diante, mas se deu conta de que não conseguia lhe acelerar o coração como Harry. Nem sequer despertava o mais leve desejo sexual.


Por outra parte, Talon não parecia sentir-se envergonhado por sua nudez.


Nick a olhou com um sorriso jocoso.


- Deveria te haver advertido que os guerreiros da antigüidade vêem o nudismo como algo natural. O fato de levar roupa é um costume moderno que nenhum deles parece ter adotado de tudo. - disse olhando ao Talon - Celta, ponha algo antes que lhe dê um enfarte.


A resposta do Talon consistiu em um grunhido.


- Para que? Volto-me para a cama. Agarra o que necessite e fecha com chave quando lhes partirem. - deteve-se junto ao futon, situado na parede do fundo da estadia, e jogou um olhar faminto a Gina - Claro que, se quer deixar aqui a Gina, é possível que até fique levantado e me mostre sociável.


Nick soprou.


- Merda, Talon é que não pode estar uma hora sem uma mulher?


- Uma hora não é problema, mas quando passam dois ou três começo a me pôr nervoso. - recostou-se no futon negro, deu-se a volta até ficar de lado e fechou os olhos.


Pelo menos até que soou o telefone. Lançando uma maldição, Talon saiu da cama e respondeu enquanto Nick se aproximava do enorme armário onde estavam as armas e pegava duas adagas de forma circular e aspecto letal.


- Wulf, nem sequer estou acordado ainda. - resmungou Talon - Me dá igual. E, além disso, para que me pergunta sobre a antiga Grécia? Vivi eu ali, acaso? Que porcaria, a resposta é não… não sei, não me importa… desliga. - deu-se a volta e olhou ao Nick - Nick, sabe algo do culto do Pólux?


Nick o olhou por cima do ombro.


- Deveria chamar o Harry ou a qualquer dos gregos.


- Ouviste-o? - Talon escutou a seu interlocutor um segundo antes de voltar a falar com o Nick - Ash está de passeio, Brax, Jayce e Kyros estão desaparecidos em combate e Harry não responde ao telefone. Wulf diz que é muito importante.


Ambos compreenderam de uma vez a relevância do que Talon acabava de dizer.


Talon voltou a falar com o Wulf:


- Quando chamou o Harry pela última vez?


Enquanto isso, Nick pegou o móvel e marcou o número do Harry.


- Pode que esteja na ducha. - sugeriu Gina.


Nick meneou a cabeça em forma de negativa.


- Embora o estivesse, Rosa responderia ao telefone.


Depois de um minuto de espera, Nick soltou o celular.


- Algo vai muito mal.


 


 


CAPÍTULO DEZ


 


Harry despertou assim que se abriu a porta de seu quarto. Dormindo, notou como Rosa entrava no dormitório e se perguntou o motivo, já que a anciã jamais o tinha feito antes.


Deu-se a volta até ficar de costas sobre o colchão.


- Que ps…?


Sua voz se desvaneceu ao tempo que uma rede ligeira e brilhante o imobilizava na cama. A fúria o deixou petrificado. Não podia suportar que o mantivessem apanhado, especialmente se estava deitado de costas. Uma loucura assassina se apoderou dele, lhe exigindo o sangue de seu captor.


Até que viu Rosa.


A mulher estava junto à cama, com a frente coberta de suor, olhando-o com os olhos vazios e inexpressivos. Murmurava a mesma letanía em espanhol uma e outra vez:


- Tem que matá-lo, tem que matá-lo.


Muito lentamente, levantou a faca que levava na mão.


- Rosa. - a chamou Harry com a voz mais tranqüila da que foi capaz - Baixa a faca.


- Tem que matá-lo. - a anciã deu um passo para a cama.


- Rosa, não o faça. Deixa que me levante, por favor.


A mulher tremia tanto que Harry temia que sofresse um enfarte em qualquer momento. Esse frágil corpo não poderia suportar a pressão a que o estavam submetendo.


- Desiderius diz que é mau m’ijo. Deve morrer.


Tentou pensar em algum modo de alcançar a mente de Rosa, confundida por toda essa loucura, e trazê-la de volta à realidade.


- Rosa, você me conhece e sabe que isso não é certo.


A anciã levantou a faca ainda mais.


Totalmente indefeso sob a rede, olhou a brilhante folha metálica, esperando que caísse sobre ele. Queria suplicar a Rosa que se detivesse, lhe gritar até que conseguisse escutá-lo, mas não se atrevia por temor ao que lhe pudesse acontecer. Rosa estava submetida a uma enorme pressão e ele não queria piorar a situação. Morreria antes de fazer mal à anciã.


Nesse momento seu celular soou.


- Sei, Desiderius. - sussurrou em espanhol - Sei. Deve morrer. - colocou-lhe uma mão sobre o peito, como se desse modo pudesse imobilizá-lo embora, de todos os modos não podia mover-se, a rede o tinha totalmente apanhado - Devo despedaçá-lo.


Harry ficou rígido no instante em que a faca desceu.


Cravou-se no colchão, a escassos centímetros dele.


- M’ijo. - sussurrou Rosa. Seus olhos recuperaram a expressão habitual, um segundo antes de ficar por fora e cair ao chão.


Aterrorizado pelo estado da mulher e frenético por sua própria vulnerabilidade, Harry lutou para livrar-se da rede, mas foi inútil. Era uma das redes da Artemisa e nenhuma presa escapava uma vez capturada por elas.


Por todos os deuses! Como tinha chegado às mãos de Rosa semelhante arma? Nem sequer Desiderius deveria ter acesso a ela. Só um deus ou um semideus podiam reclamar o uso de uma arma imortal e tirá-la do lugar onde se custodiava. E Artemisa, em particular, encarregava-se de que suas armas estivessem bem guardadas.


E como podia o Daimon ter controlado a mente de Rosa de um refúgio? Nenhum deles era tão poderoso.


Que porcaria estava passando? Embora sabia que era inútil, seguiu lutando para liberar-se de seu confinamento. Com cada minuto que passava as lembranças afloravam a sua mente.


«O que se sente, comandante?» A voz do Valerius se burlava dele do passado. «Está totalmente submetido a minha vontade. Indefeso.» Ainda podia ver com nitidez o sorriso zombador do romano, e sentir a agonia da tortura. «Vou desfrutar vendo como te retorce de dor e me pede clemência. »


A realidade começou a esfumaçar-se para o Harry. Lutou para respirar com normalidade. Não voltariam a apanhá-lo, não assim. Começou a lutar como um possesso para livrar-se da rede, utilizando toda a força da que fosse capaz.


 


Uma hora depois do anoitecer, Nick entrou na casa seguido da Gina e Talon.


- Rosa? - gritou enquanto atravessava à carreira a cozinha e o salão, de caminho para as escadas - Harry?


Não houve resposta. O estranho silêncio ressonava nos ouvidos da Gina enquanto seguia ao Escudeiro até o quarto do Harry.


Nick abriu as portas com tanto ímpeto que as cortinas que rodeavam a cama se agitaram pelo ar.


O quarto estava vazio.


Gina se deteve temerosa, na porta enquanto jogava uma olhada a seu redor. Não havia nada fora do normal, exceto os lençóis.


Embora… Sentia que algo ia mal. Os poderes que tanto tempo tinha mantido ocultos começaram a agitar-se em seu interior e conectou com o Harry sem esforço. Estava preocupado e furioso.


Talon se aproximou da cama e lançou uma maldição ao pegar uma rede chapeada.


- Isto é incrível. - resmungou enquanto enrugava a malha até reduzi-la a uma bola que cabia perfeitamente em um punho.


- O que é isso? - perguntou Gina.


- Uma diktyon. Uma das redes da Artemisa.


Não tinha nem idéia do que significava, mas pela expressão do celta, soube que aquilo não era normal. Intuiu que a rede não deveria estar na cama do Harry quando ele não aparecia por nenhum lado. Uma onda de pânico, mais forte que a anterior, começou a apoderar-se dela.


- E o que faz na cama do Harry?


- Não sei, mas se ele estava debaixo, temo-me que quem quer o pegasse o levou. - Talon se inclinou e recolheu uma faca do chão.


Gina sentiu que o pânico aumentava e, contra sua vontade, seus poderes despertaram por completo e conectaram com o Harry. Não gostava absolutamente deixar que suas habilidades psíquicas tomassem o controle de sua mente, mas precisava saber se ele estava bem. Precisava saber algo, tudo.


Fechou os olhos e o viu em uma estadia de aspecto asséptico. Estava preocupado, mas não se detectava nenhuma ameaça a seu redor.


- Chama-o pelo celular. - disse ao Talon.


Ele a olhou com uma expressão que dizia às claras: «Outra vez?».


- Já o chamei uma dúzia de vezes.


- Então que sejam doze e uma mais.


Ao Talon não gostou nem um cabelo esse tom tão autoritário e assim o fez saber com o olhar.


- Certo. - lhe concedeu a contra gosto - Que mais dá? Em ocasiões até as coisas mais inúteis têm um propósito na vida. - Tirou o celular do bolso da jaqueta e marcou.


- Não há indícios de luta. - disse Nick, que estava jogando uma olhada pelo quarto.


- Harry. - espetou o celta, olhando a Gina de forma estranha - Onde merda está?


Ela se aproximou um pouco mais enquanto o coração lhe pulsava com força ao dar-se conta de que seus poderes não se equivocaram.


- Não te mova até que cheguemos. - Talon desligou e olhou ao Nick - Está no hospital. Rosa sofreu um enfarte.


- Meu deus! - ofegou Nick - Como se encontra?


- Não me há dito nada mais, porque não está permitido usar o celular ali dentro. Diz que nos contará isso tudo quando chegarmos.


 


Harry passeava nervoso pelo quarto, metade furioso e metade assustado. Queria a cabeça do Desiderius pelo que acabava de fazer. De um modo ou outro, ia conseguir lhe fazer pagar por tudo.


- Por favor, que não aconteça nada a Rosa. - balbuciou por enésima vez.


- Harry?


Ao escutar a voz da Gina se deu a volta e se sentiu estranhamente feliz e aliviado quando a viu aproximar-se.


Antes de ser consciente do que fazia, atraiu-a até seus braços e a sustentou com tanta força que ela protestou. Mas não podia evitá-lo. O alívio que tinha sentido ao vê-la sã e salva era muito intenso. Agora que sabia o fácil que resultava ao Desiderius penetrar em qualquer casa, não estava segura em nenhum lugar. O Daimon podia chegar até ela em qualquer lado. Podia usar a qualquer pessoa para matá-la.


A idéia o aterrorizava e, para piorar tudo, no fundo de sua mente, uma vozinha lhe disse que Desiderius também podia usá-la contra ele.


Se lhe davam a oportunidade.


Tomou o rosto entre as mãos e a beijou com ânsia. Ia matar a esse Daimon. Assim que Desiderius saísse de seu refúgio, acabaria com ele. E, pela primeira vez em toda sua vida, não se arrependeria de dar morte a outro ser.


Ao levantar a cabeça viu a censura nos olhos do Talon. Sabia exatamente o que acontecia a mente do celta nesses momentos. Os Caçadores Escuros tinham proibido envolver-se em uma relação sentimental. Era a primeira norma do Código, e a mais necessária. Ninguém podia pensar com claridade se interferiam os sentimentos, e ele sabia de primeira mão. 


Ainda assim, a existência dessa norma não trocava o que sentia pela Gina.


- Necessito que a proteja. - lhe disse ao celta.


Talon o olhou com os olhos entrecerrados.


- Me diga o que aconteceu.


- Desiderius utilizou a Rosa para me apanhar. Controlou-a por completo. Se tiver podido obtê-lo com ela, pode fazê-lo com qualquer.


Surpreso, Talon soltou um pequeno assobio.


- E você me pergunta por que vivo sozinho…


Ignorou a advertência que jazia depois das palavras de seu amigo, assim como o olhar carregado de significado que lançou à mulher que estreitava entre seus braços.


Harry olhou a GIna aos olhos e começou a lhe acariciar a bochecha com o polegar.


- Gina preciso que fale com sua irmã. Diga-lhe que tenha muito cuidado e que nunca fique sozinha. Que uma de suas irmãs prepare um feitiço de amparo, ou o que queira que seja que façam, para que Desiderius não chegue até ela. Não temos nem idéia dos poderes que pode ter.


- Suponho que não enfrentamos a um Daimon normal, não? - perguntou-lhe ela.


- Não. Jamais nos encontramos com algo assim. - Voltou a olhar ao Talon - Falei com D’Alerian e me há dito que Desiderius é capaz de entrar no subconsciente dos humanos para debilitar qualquer tipo de resistência a seus poderes. A ajuda de D’Alerian deveria ser suficiente, mas não nos garante amparo absoluto. Chama o Acheron e lhe diga que acredito que temos a um deus fazendo travessuras. Algum deles tem que estar ajudando ao Desiderius, não há outra explicação possível. E nos resultaria de grande ajuda se soubéssemos quem é e por que.


Talon assentiu com a cabeça.


- O que vai fazer?


- Tudo o que possa para pôr fim a isto hoje mesmo. Se conseguir encontrar seu refúgio, vou entrar.


Talon o olhou aborrecido.


- Harry, não é um Caçador Arcadio, nem um Katagari. Se entrar, não será capaz de retornar. Morrerá na tentativa ou ficará apanhado para sempre entre duas dimensões. Deixa chamar o Kattalakis…


- Já te disse que não podemos pôr a um Caçador Katagari perto deste tipo. Agora o tenho mais claro que antes. Que Zeus ajude a todos se Desiderius conseguir uma de suas almas. Não podemos assumir esse risco. - olhou a Gina de soslaio e captou a preocupação que se refletia em seu rosto. Protegeria-a, sem importar o que tivesse que fazer - Segunda regra do Código: faz o que tenha que fazer. Se morrer, você é o seguinte. E se chegarmos a esse ponto, não falta.


O celta assentiu enquanto Amanda pegava ao Harry do braço.


- Harry. - murmurou - Não quero que saia sozinho.


- Sei, Gina. Mas Desiderius é muito poderoso e perigoso para deixar que acampe com as suas. Esteve a ponto de matar a Rosa. - Não quis mencionar que também tinha estado a ponto de matá-lo. Nenhum deles precisava sabê-lo.


Graças aos deuses que D’Alerian havia sentido a confusão do subconsciente de Rosa e tinha chegado a tempo. Se não tivesse sido pela intervenção do Guardião dos Sonhos, ainda estaria apanhado na cama.


E estar apanhado na cama sem a Gina era algo que não gostava muito.


- Nick. - o chamou. O Escudeiro estava junto ao Talon - Me chame assim que o médico te diga algo. - fez o intento de partir, mas Gina o deteve.


Antes de dar-se conta de suas intenções, Gina atirou dele até que seus lábios ficaram à mesma altura e o beijou apaixonadamente. Abriu-lhe a boca com os lábios para poder alcançar sua língua. Harry sentia suas mãos aferrando as lapelas do casaco. Sentia a preocupação por ele e isso o alagou de puro gozo seu ferido coração.


- Tome cuidado. - lhe disse ela com brutalidade.


Acariciou-lhe o queixo com ternura.


- Terei.


Viu-o partir com uma estranha sensação no estômago.


- Talon, está seguro de que não pode ajudá-lo?


- Me acredite, odeio a regra de «nada de ajuda» tanto como você. Mas se intento lhe dar uma mão, só conseguirei debilitar seus poderes.


Nick lhe ofereceu o celular.


- Chama a Tabitha e avisa-a.


Ao marcar o primeiro número, assaltou-a outra dúvida.


- Quem é o tal D’Alerian e como pode proteger nosso subconsciente?


- É um dos Guardiães dos Sonhos dos que lhe falamos. - lhe respondeu Talon.


Gina franziu o cenho.


- Podem escolher a que categoria querem pertencer?


Talon negou com a cabeça.


- Os Guardiães dos Sonhos, é uma raça diferente. São filhos dos deuses, não há uma gota de sangue humano em suas veias.


- E os Caçadores Arcadios? De onde surgiram?


- São metade humanos, metade apolitas. Há Caçadores Arcadios e Caçadores Katagaria. Alguns deles utilizam seus poderes para fins não muito altruístas.


Gina tentou conter o medo que a assaltava nesses momentos. O que Talon contava parecia ser bastante sério.


- Pensava que eram dos bons.  


- Alguns sim o são, mas outros são assassinos.


-… com os poderes de um feiticeiro que pode viajar no tempo e no espaço. - seguiu ela, sentindo que se fazia um nó no estômago.


- E, em ocasiões, também penetram nos sonhos. - acrescentou Nick.


Gina soltou uma risada nervosa.


- Sabem uma coisa? Era muito mais feliz quando não sabia nada de tudo isto.


- Precisamente por isso fazemos tudo o que podemos para que nada disto saia à luz. - disse Talon - Acredite-me, os humanos não voltariam a dormir pelas noites se soubesse o que os espreita na escuridão.


Aterrorizada, deu-lhe razão com um ligeiro movimento de cabeça enquanto pensava se seria capaz de voltar a dormir algum dia.


Acabou de marcar o número da Tabitha. Agora que sabia com o que se estavam enfrentando necessitava que sua irmã se cuidasse do Malvado Senhor dos Daimons e vigiasse ao Caçador Escuro que se converteu em sua única esperança.


 


Harry passou grande parte da noite rastreando as ruas de Nova Orleans sem encontrar nada. Desiderius ainda estava em seu refúgio e não havia nem rastro dele nem de nenhum outro Daimon nas cercanias. Possivelmente se devesse a que seus poderes ainda não estavam de tudo bem ou a que Desiderius fosse capaz de ocultar sua presença. Fosse o que fora, não encontrou nenhuma só pista do Daimon. Nem sequer com a ajuda do rastreador eletrônico.


Grande sorte a sua. Jamais se havia sentido tão inseguro desde que se convertesse em Caçador Escuro. E não gostava de nada a sensação. Não quando a vida da Gina dependia de que ele encontrasse a seu inimigo e lhe parasse os pés.


Enojado e exausto, retornou pra casa. Tudo estava escuro e silencioso. Gina estava no segundo andar. Sentia sua presença como se fora uma carícia e saber que estava ali o reconfortava de um modo que não se atrevia a analisar em profundidade.


Com apenas senti-la em sua casa… o invadia a felicidade.


Mas não foi procurá-la. Tinha muitas coisas na mente. Assuntos que precisava meditar. Incógnitas que resolver.


Entrou na sala de jogos e pegou a luva e a bola de beisebol. Ato seguido saiu ao átrio para lançar uns tiros. Concentrou-se na bola e deixou que sua mente vagasse através do doloroso passado e das dúvidas que ainda o assaltavam.


Por que não o tinha amado sua esposa?


Desde dia em que Theone o traiu, tinha suspeitado de todo aquele que se aproximava dele. Entregou-se em corpo e alma a sua esposa, mas mesmo assim não tinha sido suficiente. Se não tinha sido capaz de ganhar o amor de sua mulher, não poderia ganhar o de ninguém mais. Deixava-o muito claro, tinha assimilado esse fato com o passar dos séculos. Ao igual, se convenceu de que não necessitava a ninguém.


Até que apareceu Gina.


A garota tinha rachado suas defesas e agora se sentia nu frente a ela. Tinha o poder de abrir seu coração e chegar até o mais fundo. Desejava-a em corpo, mente e alma. Queria reclamá-la por inteiro.


Um movimento a sua esquerda chamou a atenção. Girou a cabeça e viu como Gina entrava no átrio vestida com um moletom. Levava o cabelo recolhido em duas tranças que caíam a ambos os lados do rosto. A indumentária lhe conferia um aura inocente e quase infantil, mas não havia nada que recordasse a uma menina na mulher que se aproximava dele nesses momentos.


E essa mulher causava uma verdadeira comoção no homem que havia nele.


- Faz muito tempo que voltaste? - perguntou-lhe.


Estava a ponto de responder a pergunta quando ela se aproximou e lhe deu um beijo na bochecha, fazendo que uma estranha sensação se apropriasse dele. Todos seus gestos eram carinhosos.


- O que faz levantada? - perguntou-lhe ele a sua vez - São mais de quatro da madrugada.


- Não podia dormir. - respondeu enquanto caminhava para o outro extremo do átrio.


Quando deu a volta, Harry se deu conta de que levava a luva do Nick. Fez o gesto dos jogadores profissionais: levantar a mão embainhada na luva para indicar que estava preparada.


Sorrindo, lhe lançou a bola com suavidade.


Ela a pegou e a devolveu com tanta força que, ao chocar com sua luva, o golpe ressonou nas paredes do átrio e a palma da mão começou a lhe picar.


- Uf! - ofegou, exagerando a dor. Lançava melhor que Nick - Estou impressionado.


Deu-lhe uma piscada de olho.


- Sou o mais parecido a um filho que meu pobre pai teve. Ele me ensinou a jogar.


Harry lhe lançou de novo a bola.


- Pois o fez bem.


O sorriso da Gina se alargou.


Estiveram vários minutos lançando-a bola em silêncio.


Pelos deuses! Nunca se tinha imaginado que pudesse encontrar a uma mulher disposta a fazer isto com ele a semelhante hora da madrugada. Nick se queixava, mas ela parecia estar contente pelo simples feito de passar um momento com ele.


- Que tal te foi? - perguntou-lhe ela - O encontraste?


- Não. - respondeu com um suspiro - Não posso descobrir seu esconderijo.


- Já o fará.


A absoluta segurança que transmitia a voz da Gina lhe resultou estranha.


- Confia tanto em minhas habilidades?


- Não tenho nenhuma dúvida. Não deixará que nos faça mal.


- Não pude ajudar a Rosa.


- Sinto-o. - lhe disse ela enquanto pegava a bola e a devolvia - Deve ser duro para você aceitar o ocorrido, mas você não teve a culpa. Fez tudo o que esteve em sua mão para protegê-la.


Harry apertou a mandíbula.


- Mas dói. Mais do que acreditava. Ainda não posso crer que conseguisse controlá-la.


Gina lhe sorriu fracamente, seus olhos tinham um olhar cálido e afetuoso.


- Suponho que isso explica como entrou em minha casa e na de minha irmã.


Harry assentiu.


- O mais provável é que utilizasse a Allison. Encontrei-a deprimida em seu quarto, igual a ocorreu a Rosa. Suponho que a mente humana não pode suportar essa pressão durante muito tempo.


- Se te servir de consolo, Tabitha me disse que Allison está muito bem e que logo estará em casa, assim Rosa se curará e voltará para a normalidade sem nenhum tipo de seqüelas.


- É bom sabê-lo.


Não podia deixar de observá-la enquanto jogava com ele. Com cada lançamento, sentia como caía mais e mais. Sabia que estava se apaixonando por ela e não podia evitá-lo. Não podia lutar contra esse sentimento.


E, segundo o jogo se foi alongando, seu desejo se intensificou. Cada vez que Gina jogava o braço para trás e pegava impulso para lançar a bola, a camiseta lhe rodeava ao peito. Adorava a forma em que se separava da cara as mechas que tinham ficado soltos com o exercício. E o modo em que seus lábios se separavam para respirar entre ofegos, cansada pelo esforço.


Começou a lhe jogar a bola por cima da cabeça, de forma intencionada, para que tivesse que esticar o braço ao recolhê-la. Cada vez que o fazia, a camiseta se levantava e deixava ao ar uma pequena porção de seu ventre que ele se encarregava de devorar com os olhos. E, quando não conseguia agarrá-la e tinha que ir correndo atrás dela, o movimento fazia que seus seios balançassem e que seus quadris se balançassem de um lado a outro. Mas o melhor de tudo era quando se agachava para recolher a bola e deixava bem à vista esse proporcionado traseiro. Pelos deuses! Essa mulher tinha a melhor bunda…


Incapaz de suportá-lo durante mais tempo, tirou-se a luva e a jogou no chão.


Gina ficou gelada ao ver como Harry se aproximava com passos largos e decididos. Antes de poder imaginá-lo que acontecia, pegou-a em braços e a beijou ferozmente.


Esses maravilhosos músculos a afastaram do chão enquanto se contraíam a seu redor. Devido a sua altura, nenhum homem tinha sido capaz de elevá-la antes, mas Harry parecia fazê-lo sem que lhe custasse nenhum esforço. O coração lhe pulsava frenético, ao lado dele se sentia tão feminina… tão pequena… e isso adorava.


Rodeou-lhe a cintura com as pernas ao tempo que ele a devorava com a língua. Sentir esses duros abdominais contraindo-se sob as coxas era como alcançar o céu… Esse homem era a perfeição personificada.


Harry lhe mordiscou os lábios e pôs as mãos em torno de seu traseiro. Grunhindo, abandonou os lábios e baixou até o pescoço, não sem antes depositar um úmido beijo em seu queixo.


Gina se derretia cada vez que sentia o quente fôlego do Harry sobre a pele. Deus, sim! Isto era o que tinha estado desejando durante todo o dia: estar encerrada entre seus braços, rodeá-lo com seu corpo e lhe demonstrar todo o amor que sentia por ele. A necessidade de senti-lo de novo dentro dela fez que se estremecesse.


Harry também tremia pela intensidade do desejo. Não podia evitar recordar a noite anterior, quando se tinha se fundido nela, ou a expressão de seu rosto quando gozou entre seus braços. Estava ardendo, mas não se atrevia a lhe fazer o amor. Não agora. Não quando mais necessitava toda sua força para acabar com o Desiderius. Mas seu corpo não entendia de razões. Tinha que acariciá-la, tinha que sentir o roçar de sua pele.


Antes de poder deter-se, caiu de joelhos e a tombou no chão, sobre os frios ladrilhos.


Gina tragou saliva ao ver esse faminto olhar. Harry lhe estava tirando a roupa com tanta rapidez que apenas se sentia suas mãos. Mas, uma vez que a deixou totalmente nua, a coisa trocou. Suas carícias se fizeram mais lentas. Completamente vestido, observava seu corpo nu à luz da lua enquanto lhe acariciava os seios, riscando seu arredondado contorno e atormentando os mamilos com as palmas das mãos.


- É a mulher mais formosa que jamais vi. - lhe disse em voz baixa.


Gina sabia que não era certo. Ela conhecia a beleza de Theone, mas, de todos os modos, saber que ele o sentia daquele modo lhe provocou um delicioso calafrio. Ele sim que era o homem mais arrumado que ela tinha visto jamais. Ponto.


Quando Harry se inclinou para beijá-la, ela levantou os braços e começou a lhe desabotoar a camisa, mas ele a sujeitou pelos pulsos e negou com a cabeça. Se deixasse que essas delicadas mãos o tocassem, estava perdido. Em lugar de dizer, as levou a boca e beijou as palmas antes de voltar a emprestar atenção a sua garganta e seus seios.


Saboreou todo esse corpo com os lábios, a língua e as presas. E, enquanto o fazia, notou como despertavam seus poderes. Desesperado e consumido pelo desejo, desceu depositando um rastro de beijos desde seus seios até a suave pele do ventre e, de ali, seguiu baixando até chegar às coxas. Imediatamente, escutou o ofego da Gina que, de forma instintiva, separou as pernas, ficando totalmente exposta a ele. Nesse momento, o desejo se intensificou de tal modo que se sentiu sobressaltado. Era uma sensação primitiva e arrebatadora. O mundo se reduzia a ela. Quão único escutava eram os batimentos do coração da Gina ressonando em seus ouvidos.


Tremendo por causa da força da paixão que o consumia, fechou os olhos e tomou com a boca, saboreando a doçura desse corpo que tanto desejava.


Gina gemeu ao sentir como a língua do Harry a penetrava. Enterrou as mãos em seu cabelo e levantou os quadris, aproximando-se ainda mais a seus lábios, estremecida pela ferocidade de suas carícias. Não pôde evitar vaiar ante a incrível experiência de sentir ao Harry lhe fazendo o amor com a boca de um modo tão voraz e desesperado. Mostrava-se implacável, movendo a língua sobre seu sexo até que Gina gozou e gritou sem poder deixar de agitar-se, enquanto experimentava o orgasmo mais intenso de sua vida.


Mas Harry não se afastou. Seguiu atormentando-a, beijando-a, riscando pequenos círculos com a língua e com os lábios, e logo roçá-la, e intensificando suas carícias depois para levá-la de novo às portas de outro orgasmo que prometia ser mais devastador que o anterior.


E assim foi.


Quando se relaxou, tudo dava voltas a seu redor e as terminações nervosas de seu corpo reagiam ao mais mínimo estímulo, sobrecarregadas pelas sensações.


Com a respiração agitada, Harry se afastou nesse momento e, engatinhando ao estilo de um felino, aproximou-se até cobri-la por completo. Seus olhos eram ainda mais escuros que antes. Separou os lábios e ficou olhando fixamente o pescoço da Gina com um desejo tão voraz que ela ficou perplexa.


- Harry? - chamou-o.


Apenas a escutou através da neblina que lhe embotava a mente. Quão único percebia nesses momentos era seu aroma, e esse corpo pressionado sob o seu enquanto o fogo o consumia, lhe exigindo mais e mais.


Toma-a. Prova-a. Reclama-a.


Faz tua…


Apertou os dentes enquanto contemplava a veia que pulsava no pescoço da Gina.


Só uma vez…


Uma vez…


Mas ela não o consentiria, estaria forçando.


- Passa-te algo? - perguntou-lhe Gina.


Lutou contra a parte de si mesmo que lhe exigia tomá-la sem olhares. A virilha lhe ardia pelo desejo. Estava fora de controle.


O aroma da Gina o rodeava, não havia nada mais. Não existia nada que não fosse ela. E isso o fazia muito perigoso.


Letal.


Com um grunhido, jogou mão da pouca força de vontade que ficava e se obrigou a afastar-se dela.


- Corre, Gina. - resmungou.


Ela não duvidou nem um instante. Algo ia muito mal. Pegou a roupa e saiu correndo para seu quarto.


Harry escutou, estendido no frio chão, como os passos se afastavam. Rodeou seu membro com uma mão e notou como se agitava dolorido, sob a palma. Nunca tinha experimentado algo parecido ao que lhe estava acontecendo. Pelo Zeus! Um minuto mais e lhe teria afundado as presas no pescoço.


Fechou os olhos e seguiu tremendo enquanto lutava por dominar-se. Por submeter a essa besta que lhe exigia tomar a Gina uma e outra vez, sem importar as conseqüências.


 


Gina não deixou de tremer até que chegou a seu quarto. Nunca poderia esquecer a expressão animalesca do rosto do Harry quando lhe tinha ordenado que fugisse. Não tinha tido medo dele antes, mas agora que tinha visto claramente ao Caçador Escuro, compreendia por que os Daimons se mijavam em cima quando se topavam com ele.


Tentou acalmar-se respirando profundamente. Quão único sempre tinha desejado era uma relação normal.


Mas claro, pedir normalidade a um vampiro era exceder-se…


Com o coração desbocado, olhou-se ao espelho. Tinha os lábios inchados por seus beijos e o pescoço avermelhado ali onde a barba do Harry a tinha roçado.


- Gina?


Ficou petrificada para ouvir sua voz ao outro lado da porta.


- O que? - respondeu-lhe insegura.


Ele abriu a porta, mas não entrou.


- Assustei-te?


- Quer que seja sincera?


Ele assentiu com a cabeça.


- Sim.


Esse olhar ardente se cravou com mais intensidade nela.


- Sinto muito.


Gina soube que era verdade. Harry se sentia culpado e seus olhos diziam com claridade.


- Se for assim, por que não me pediste que te leve para casa? - perguntou-lhe ele. Embora falava quase em um sussurro, sua voz ressonou no pesado silêncio do quarto.


Ela ficou nervosa.


- Quer que vá?


Harry demorou tanto em responder que pensou que não diria nada. Finalmente, murmurou:


- Não.


A sinceridade da resposta a deixou atônita. Nenhuma declaração de amor em toda regra teria conseguido surpreendê-la tanto como essa direta resposta.


Estava a ponto de aproximar-se dele quando Harry retrocedeu e ela se deu conta de que ainda não devia ter recuperado de todo o controle de suas ações. Mas ainda assim o desejava.


- Então não irei até que me jogue.


Ficou gelado. O mundo deixaria de existir antes que ele a separasse de seu lado. E, imediatamente, assaltou-o outra idéia: quando o mundo deixasse de existir, ele ainda estaria vivo, enquanto que ela… se estremeceu ao recordar o significado da palavra «imortal». Era muito consciente de que para eles não haveria um «e viveram felizes para sempre».


 


 


CAPÍTULO ONZE


 


Harry seguia atormentado pelo que tinha acontecido com a Gina a noite anterior. Tinha estado muito perto de danificar tudo. Tinha estado tão perto de…


Desprezou a idéia de sua mente e seguiu caminhando sobre os telhados do Bairro Francês, quase meia-noite. As rajadas de ar gelado agitavam seu casaco de couro enquanto caminhava pelo beiral, olhando os becos adjacentes ao edifício. Estava acostumado a encarapitar-se aos lugares mais altos, como um gato, desse modo, ninguém advertia sua chegada. Ao menos não até que fosse muito tarde. Deteve-se ao escutar algo.


- Não me façam mal.


O vento trouxe o débil som de uma voz, procedente de uns edifícios próximos ao lugar onde se encontrava.


Deslizou-se sobre os telhados, mais ágil e rápido que um guepardo, até que encontrou à pessoa que acabava de falar. Se alguém aparecia ao escuro beco, só veria um pobre homem ao que estavam assaltando, mas os quatro Daimons loiros não podiam acontecer despercebidos aos olhos de um Caçador Escuro.


Arqueou uma sobrancelha. Era a mesma imagem de sempre. Por alguma razão, aos vampiros gostavam de mover-se em grupos de quatro ou seis. Tinham encurralado ao humano em um canto, junto a um velho edifício em ruínas. Surpreendentemente, a vítima lhe resultava familiar.


Rodeado pelo insuportável aroma de lixo, o homem tentou lhes oferecer aos Daimons a carteira.


- Tomem. - disse com voz insegura - Mas não me façam mal.


O vampiro mais alto do grupo soltou uma gargalhada.


- Vá! Mas não vamos te fazer mal, humano… vamos matar-te.


Harry saltou do telhado, com os braços estendidos para guardar o equilíbrio. Enquanto descia os três pisos que lhe separavam do beco, o casaco flutuava a seu redor empurrado pelo vento. Aterrissou sem fazer nenhum ruído, escondido depois dos Daimons.


- Ouvistes isso? - perguntou um dos vampiros, olhando a um e outro lado.


- Quão único ouço são os batimentos do coração de um humano. - Nada mais dizê-lo, o mais alto dos Daimons pegou ao homem.


- Ou… - disse Harry, elevando-se muito devagar até ficar completamente erguido. Afastou o casaco e colocou a mão sobre o punho do srad do Talon -... o som de quatro Daimons a ponto de morrer.


Quando os vampiros se separaram de sua vítima, Harry reconheceu ao humano. Era Cliff que, a sua vez, também o reconheceu imediatamente.


- Você? - rugiu - O que está fazendo aqui?


Malditas sejam as Parcas, pensou. Não gostava de nada ajudar ao homem que tinha feito mal a Gina. Tinha-lhe contado toda a história, junto com as duras críticas que seu ex-prometido tinha dedicado à família Weasley ao completo. O cara não se merecia sua ajuda.


Maldito seja o Código.


Harry lhe respondeu em voz alta.


- Conforme parece, estou-te salvando a vida.


- Não necessito sua ajuda.


Os quatro Daimons se deram a volta para olhar ao Cliff e estalaram em gargalhadas.


- Já o ouviste, Caçador Escuro. - disse o líder do grupo - Não necessita sua ajuda, assim que pode largar.


Harry suspirou, tentado pela idéia de partir.


- Sim, mas sabe uma coisa? Às vezes terá que salvá-los embora não queiram.


Nesse momento, o mais alto dos quatro vampiros atacou. Harry arrojou o srad, mas antes que pudesse golpear ao Daimon, Cliff pegou a seu atacante e atirou dele até fazê-lo cambalear-se e perder o equilíbrio.


- Agora vai ver quem é o mau aqui. - e, dizendo isto, deu um murro ao vampiro, que não pareceu notá-lo, já que seguiu em pé rindo-se dele.


O srad se estrelou contra a parede e se rompeu em dois. Idiota! Se não fosse pela bravata do Cliff, o Daimon já estaria morto. Fazendo um esforço supremo, Harry correu a interpor-se entre o humano e o vampiro antes que este atacasse. Não chegou a tempo, apenas se tinha aproximado do Cliff quando o Daimon lhe deu uma patada que o lançou sobre o corpo débil do humano. Os dois caíram ao chão, mas Harry rodou sobre si mesmo e ficou em pé com agilidade enquanto o ex-namorado da Gina lutava para levantar-se. Custou-lhe a mesma vida não pôr os olhos em branco ante a inutilidade do cara.


- Importaria-te sair correndo?


Cliff voltou a adotar uma atitude arrogante nada e ficou em pé.


- Sou perfeitamente capaz de lutar contra eles, igual a você.


Harry reprimiu um grunhido de exasperação. Esse cara era um imbecil. Em primeiro lugar, apenas chegava ao metro oitenta, enquanto que os Daimons igualavam sua altura e inclusive a superavam. Em segundo lugar, o corpo do humano era o de um perito na poltrona-ball… muito diferente ao musculoso e letal dos vampiros.


Sem dúvida nenhuma, Cliff era uma enorme ameaça…


Antes que pudesse mover-se, dois dos vampiros foram atrás dele. Harry golpeou ao primeiro com uma bota e o pulverizou. O outro o atacou com uma espada. Impulsionando-se para um lado, saltou, deu uma volta para trás no ar e aterrissou sobre a escada de incêndios, em cima do Daimon.


- Ouça! - exclamou Cliff - Como tem feito isso?


Não houve tempo de responder, já que os três Daimons restantes se equilibraram sobre a escada, depois dele. Harry voltou a saltar ao beco.


Logicamente, os vampiros o seguiram.


Harry se preparou para o ataque. Mal o líder se aproximou, Cliff chegou correndo e se colocou a seu lado, empunhando um pau de madeira. Dispôs-se a golpear aos vampiros ao mesmo tempo em que estes se aproximavam do Harry.


Apanhado entre o Cliff e os Daimons, Harry foi incapaz de manobrar. Como resultado, o ex-namorado da Gina acabou lhe golpeando na cabeça com o pau. A dor estalou de repente no crânio do caçador e se cambaleou para trás. Sacudiu a cabeça para limpar-se e se recuperou um instante antes que dois dos vampiros o agarrassem pela cintura e o jogassem ao chão. Sujeitando-lhe os pulsos, estenderam seus braços aos lados e o imobilizaram. O pânico se apropriou dele imediatamente, assaltado pelas velhas lembranças.


- Encontramos seu ponto débil. - disse um dos Daimons - Digam ao Desiderius que com os braços estendidos se volta louco.


Bom, pode que o tivessem descoberto. Mas nenhum deles ia viver o suficiente para revelá-lo. Rugindo de raiva, Harry levantou as pernas até subir por cima da cabeça e se impulsionou com força, saltando até ficar em pé, livre de seus captores. Com as presas bem visíveis, apunhalou a um Daimon e logo ao outro. O vampiro restante começou a afastar-se a caminho da rua principal. Harry lhe lançou o outro srad à costas e o Daimon se desintegrou.


Quando se deu a volta, viu o Cliff olhando-o com a boca aberta e o rosto cinzento. Colocou os olhos em branco e caiu ao chão, desacordado.


Harry se aproximou para comprovar seu estado, totalmente enojado. Tinha o pulso acelerado, mas estável.


- O que viu em você? - perguntou-se enquanto pegava o celular e chamava uma ambulância.


Horas depois — uma vez que se convenceu de que o ex-namorado da Gina sobreviveria — voltou para casa. Não havia modo de localizar ao Desiderius.


Merda.


Deteve-se na porta da cozinha e observou a Gina com curiosidade. Eram quase cinco da manhã e, conforme parecia, estava fazendo sopa e uns sanduíches.


E isto?


Movia-se pela cozinha com a elegância de uma ninfa, totalmente alheia a sua presença. Estava cantarolando uma melodia, «In the hall of the Mountain King», do Grieg, se não estava equivocado. Uma escolha estranha…


Não tinha conhecido a uma mulher mais fascinante em toda sua vida. Levava uma camisola de seda ligeiramente transparente, mas que ocultava suas curvas. A suave cor azul lhe sentava de maravilha a essa pele pálida e ao cabelo acobreado.


Seu membro reagiu imediatamente e se endureceu. Quanto mais a olhava, mais a desejava.


Estava pondo a sopa em duas terrinas e, uma vez acabou, colocou um dedo para comprovar a temperatura.


Isso era mais do que um imortal podia suportar. Moveu-se como uma sombra até ficar a suas costas e pegou a mão.


Ela levantou a vista com um ofego, assustada até que o reconheceu. Sem deixar de lhe sorrir, Harry se levou seu dedo à boca e passou a língua a seu redor, saboreando tanto a sopa como a pele da Gina.


- Delicioso. - lhe disse.


Ela se ruborizou.


- Olá, céu, que tal foi no trabalho?


Harry soltou uma gargalhada pela imitação da Donna Reed.


- Outra vez estive vendo Nick at Nite?


Gina se encolheu de ombros com acanhamento.


- Pensei que você gostaria de um pouco de comida quente, para variar, quando chegasse para casa. Deve te sentir muito só quando chega a uma casa vazia e escura, sem ninguém que te dê as boas-vindas.


Não podia imaginar-se quanto. Olhou-a, observando esses lábios abertos que o chamavam a gritos. Tinham passado muitos séculos da última vez que alguém lhe desse as boas-vindas ao voltar para casa. Séculos de inenarrável solidão e abandono.


Mas ambos os sentimentos tinham desaparecido no mesmo instante que despertou naquela fábrica abandonada e contemplou esses enormes e vivazes olhos azuis que o faziam arder.


Gina não estava preparada para o que Harry fez a seguir. Beijou-a como um possesso. Introduziu-lhe a língua na boca, saboreando suas profundidades, enquanto lhe acariciava as costas com as mãos antes das colocar sobre seu traseiro. Era a primeira vez que permitia a um homem tomar-se essas liberdades, claro, que tampouco é que lhe importasse muito. Nunca tinha acreditado ser uma mulher particularmente atraente. Não até que o conheceu. Tratando-se do Harry, parecia não ter inibições. Queria estar com ele há todas as horas, queria abraçá-lo, tocá-lo… estar a seu lado. Se pudesse, voltaria a colocar os grilhões e, desta vez, para sempre.


Sem interromper o beijo, Harry deslizou as mãos por debaixo do bordo da camisola, em busca desse lugar quente e úmido que pulsava de desejo. Gina gemeu quando a tocou, quando seus dedos se deslizaram em seu interior e começaram a atormentá-la sem piedade. Deus! Que facilidade tinha esse homem para pô-la a cem.


- Harry, a sopa. - lhe disse sem fôlego.


Ele se retirou um pouco, com a respiração alterada e os lábios inchados pelo beijo.


- Que espere.


Essa noite o rodeava uma aura um pouco mais indômita, algo selvagem e malicioso. Levou-a até a mesa e a ajudou a estender-se sobre ela. Com um olhar faminto e apaixonado, ficou em pé entre suas pernas e a observou.


- Isto sim que é um banquete digno de um rei.


E se inclinou. Ela emitiu um ofego ao sentir a fúria dessas mãos inquisitivas, que pareciam estar em todos os lugares de uma vez. Suas carícias a eletrificavam, deixavam-na saciada e a faziam ansiar muito mais.


Enquanto a beijava até fazê-la perder a prudência, ela esticou um braço em busca do zíper das calças e a baixou para poder tocá-lo. Já estava duro como uma rocha e o notou palpitar entre os dedos. Harry soltou um gemido sobre seus lábios.


Sua atitude não deixava de surpreendê-la. Um guerreiro imortal que não necessitava a ninguém e que, mesmo assim, comportava-se com deliciosa ternura entre seus braços. Um homem que se estremecia quando ela acariciava seu membro e deslizava a mão sobre ele.


As carícias da Gina lhe nublavam a mente. Não podia pensar. Só podia inalar seu aroma e saboreá-la. Desejava-a com toda a alma. A paixão e o desejo lhe impediam de raciocinar além do que estava acontecendo e, sem dar-se conta do que fazia, afastou-lhe as mãos e se afundou nela.


Gina deixou escapar um gemido ante a incrível sensação do ter profundamente enterrado em seu corpo. Seu membro era tão grosso e estava tão duro… a enchia por completo. Envolveu-lhe a cintura com as pernas ao mesmo tempo em que Harry começava a mover os quadris, alternando um ritmo suave com investidas longas e profundas.


Amaram-se muito lentamente. Ela se retorcia sob as poderosas estocadas de Harry enquanto este lhe mordiscava o pescoço, arranhando-a com as presas. Ao fechar os olhos, voltou a sentir o incrível vínculo que os unia. Eram um só ser. Nesse instante, Harry se estremeceu e sussurrou seu nome sobre seus lábios, fazendo-a tremer de desejo.


E quando o mundo se desintegrou, Gina acreditou ver um milhar de cores girando a seu redor.


Harry a observou enquanto chegava ao orgasmo e sentiu como envolvia seu membro com mais força. Pelos deuses! Como desejava poder satisfazer-se, mas não podia, seus poderes já se estavam debilitando, e os necessitava para mantê-la a salvo.


Saiu dela a contra gosto, chiando os dentes.


Colocou a roupa sem dizer uma só palavra, embora por dentro morria de dor, e deu um puxão aos jeans tentando aliviar o desconforto que lhe produzia a pressão do tecido sobre sua ereção.


Resultou inútil.


Gina sentiu pena por ele ao perceber seu desconforto e a rigidez de seus movimentos. Como podia levá-la ao orgasmo e não procurar sua própria satisfação? Devia estar sofrendo uma agonia.


E sem queixar-se.


Nenhum dos dois disse nada enquanto comiam, mas Gina chorava por dentro. Por seu pobre guerreiro. No fundo de sua mente, uma voz lhe dizia que não importava o muito que o quisesse, porque entre eles nunca haveria lugar para uma relação.


 


Despertou depois das três da tarde. Saiu da cama, deu-se uma ducha e se vestiu enquanto Harry seguia dormindo.


Deus santo! Era tão bonito… tinha um braço elevado sobre a cabeça e, nessa posição, assemelhava-se mais a um menino dormido que a um sombrio guerreiro imortal. Seguindo um impulso, inclinou-se e o beijou nos lábios. Ele se incorporou e a aferrou pelo pescoço, apertava-a com tanta força que mal podia respirar.


- Harry? - ofegou, lutando para soltar-se - Carinho está-me afogando.


Ele não fez conta. Custou-lhe mais de três minutos livrar-se de suas mãos.


- Muito bem. - disse sem fôlego, enquanto observava como ele se dava a volta e ficava de lado - Recordarei que não me ocorra voltar a fazê-lo. - cobriu-o com os lençóis e saiu nas pontas dos pés do quarto.


Encontrou ao Nick no salão do andar de baixo, havia-se calçado uns patins e se deslizava de um lado a outro da estadia, sorteando montanhas de papéis.


- O que está fazendo? - perguntou-lhe.


Ele se deteve e se encolheu de ombros.


- Harry se enche o saco se uso o skate dentro de casa.


Gina soltou uma gargalhada.


- Bom, embora suponha que tampouco lhe farão muita graça os patins.


- Provavelmente não, mas, merda! Este lugar é enorme e tenho que ir do lugar A ao B sem que me acabem tremendo as pernas.


Ela voltou a rir. O humor do Escudeiro era contagioso, uma vez que acostumava a ele.


Descreveu uma pequena circunferência e entrou patinando a cozinha. Antes que ela pudesse chegar à metade da sala, Nick retornou, lhe trazendo um copo de suco de laranja.


- Obrigado. - lhe disse enquanto o pegava - O que se sabe da Rosa?


- Miguel diz que está melhor. Quando chamei se despertou e estava vendo A Roda da Fortuna.


- Estupendo.


- Sim, Harry se alegrará muito.


De repente escutou-se atrás dela um estrondo horrível. Aterrorizada pela idéia de que fosse Desiderius irrompendo de forma repentina, deu-se a volta e viu no chão um enorme montão de ouro e diamantes, exatamente no mesmo lugar no que estava acostumado a estar uma mesa esculpida à mão do século XII.


- Merda! - exclamou o Escudeiro com um olhar enfastiado - Ao Harry adorava essa mesa. Agora sim que vai se encher o saco.


- O que é isso? - perguntou Gina, aproximando-se para ver melhor o que poderia ser o resgate de um rei em lingotes de ouro e diamantes.


Nick suspirou.


- Estamos aos primeiros dias do mês.


- Como?


O Escudeiro se encolheu de ombros.


- Artemisa não entende que é mais singelo fazer uma transferência às contas de seus Caçadores Escuros. Assim, uma vez ao mês, encontramo-nos uma montanha de ouro e diamantes onde menos o esperamos. Em uma ocasião, tudo caiu à piscina, imagine a puta merda que foi.


- Não lhe tome a brincadeira. - respondeu Gina, maravilhada pela quantidade - Alguém poderia acabar ferido.


- Isso é certo. O terceiro Escudeiro do Harry morreu assim.


Gina se deu a volta para olhá-lo à cara e, imediatamente, deu-se conta de que Nick não estava brincando.


- E, o que fazem com tudo isso? - perguntou, assinalando o montão de ouro.


Ele sorriu.


- Exército de São Nick. Há um Escudeiro na cidade que se encarrega de trocar tudo por dólares. Dali, a maioria do dinheiro se destina a obras de caridade. Dois por cento vai a uma fundação que se dedica a cuidar das famílias dos Escudeiros que morreram cumprindo com seu dever e aos Escudeiros que se retiraram, outros dois por cento se destina a uma empresa de investigação, encarregada de fazer jogos eletrônicos para os Caçadores Escuros.


- Com quanto fica Harry?


- Com nada. Vive dos interesses do dinheiro que tinha quando era humano.


- Sério?


Nick lhe respondeu com um movimento de cabeça.


Caramba! Devia ter estado rico naquela época.


- Bom, posso te fazer uma pergunta um pouco impertinente?


Nick sorriu.


- Quer saber quanto ganho?


- Sim.


- O suficiente para fazer de mim um homem muito feliz.


Nesse momento soou o telefone.


O Escudeiro se afastou patinando enquanto Gina tomava o suco sentada no sofá e lia o jornal. Quando acabou deixou o copo na mesa de café... ou ataúde.


Uns minutos depois, Nick voltou com muita pressa, tinha uma expressão carrancuda e nem sequer lhe falou enquanto se aproximava do armário situado na parede do fundo. Quando abriu a porta, Gina viu um impressionante arsenal.


O terror se apoderou dela.


- O que ocorre? Quem chamou?


- Era Acheron, avisando de que entramos em alerta vermelha.


Gina franziu o cenho. Pela pressa que levava o Escudeiro, sabia que algo devia ir muito mal.


- E isso o que significa?


A expressão do Nick lhe arrepiou a pele.


- Conhece o dito «O inferno acaba de desatar-se»?


- Sim.


- Inventou-se para designar uma situação de alerta máxima. Por alguma razão, há uma alta concentração dos Daimons nesta zona. Acabam de abandonar seus refúgios. Quando há uma aglomeração desta magnitude, os vampiros alcançam sua força máxima e se alimentam, necessitem-no ou não. Não há nada mais perigoso que um alerta máximo, excetuando, claro, um eclipse de sol. As coisas vão se pôr muito feias esta noite.


 


Às sete em ponto, Gina soube — de primeira mão — que Nick não mentia. Estava limpando os restos do «café da manhã» do Harry enquanto seu Escudeiro lhe contava a conversação que tinha tido com o Acheron.


Harry tinha pegado o dobro de armas que de costume e ia de caminho à porta quando soou o telefone. Gina respondeu.


- Mamãe? - perguntou ao reconhecer a voz chorosa. O coração deixou de lhe pulsar um instante - O que passa?


Harry se deteve junto à entrada e, sem perder um minuto, voou até seu lado.


- Gin. - continuou a senhora Weasley entre soluços - Se trata do Tabby…


Gina não quis escutar nada mais. A ponto de afogar-se pelas lágrimas, deixou cair o telefone ao chão. Só era consciente dos braços do Harry a seu redor, sustentando-a, e do Nick falando com sua mãe.


Harry começou a ver tudo vermelho enquanto escutava a explicação da senhora Weasley, presa de histeria, e sentia a Gina tremer entre seus braços. Suas lágrimas lhe estavam molhando a camiseta e, nesse momento, jurou que mataria ao Desiderius por ter provocado esta situação.


- Não passa nada. - lhe sussurrou ao ouvido - Só está ferida.


Ela se tornou para trás e o olhou aos olhos.


- O que diz?


Harry lhe limpou as lágrimas com a mão.


- Não a matou, carinho. - embora seu estado fosse grave, conforme havia dito sua mãe, Tabitha sobreviveria.


Desiderius, ao contrário, não. 


- Tabitha está no hospital. - disse Nick enquanto pendurava o telefone - Felizmente, só se encontraram com dois Daimons e ela e seu grupo foram capazes de acabar com eles. - olhou ao Harry - Sabe o que acredito? Dá-me a sensação de que Desi só estava jogando com ela, para te encher o saco e fazer que perca a cabeça. Não há outra explicação possível. Se não, não tivesse enviado só a dois vampiros.


- Fecha a boca, Nick! - resmungou Harry. Quão último queria era que Gina se preocupasse ainda mais. Beijou-a brandamente nos lábios - Nick te acompanhará ao hospital.


Pegou o celular e chamou o Talon, que já ia de caminho à cidade. Disse-lhe que se passasse por sua casa e se encarregasse de proteger a Gina, se por acaso Desiderius estivesse esperando-os no hospital.


- Harry, - o repreendeu Gina quando ele acabou de falar - não quero que saia esta noite. Tenho um mau pressentimento.


E ele também.


- Tenho que fazê-lo.


- Por favor, me escute…


- Shhh. - murmurou lhe colocando um dedo sobre os lábios - Este é meu trabalho, Gina. Isto é o que sou.


Não demorou muito em deixá-la no carro do Nick, com o Talon na Harley seguindo-os de perto, assim que se afastaram, encaminhou-se ao centro da cidade em busca desse porco chupa-sangue e devora-almas para lhe fazer o que devia ter feito à noite que se conheceram.


 


As horas foram passando enquanto percorria o Bairro Francês em busca do Desiderius. Os Daimons recuperariam forças essa noite e sabia que, cedo ou tarde, fariam sua aparição em busca de sangue. Mais perigosos que nunca. E Desiderius, ao igual a seus congêneres, preferia sair de casa no Bairro Francês, onde resultava muito fácil encontrar turistas descuidados e bêbados.


Mas, de momento, não havia nem rastro deles.


- Ouça, neném. - o chamou uma prostituta ao passar a seu lado - Quer companhia?


Harry se girou para olhá-la, tirou todo o dinheiro que tinha na carteira - uns quinhentos dólares - e os ofereceu.


- Por que não toma a noite livre e vai jantar a um bom restaurante?


A garota o olhou atônita, mas pegou o dinheiro antes de sair correndo.


Harry suspirou quando a viu escapulir-se entre a multidão. Pobre mulher. Oxalá lhe desse um bom uso ao dinheiro. De todos os modos, estava claro que fazia mais falta a ela que a ele. Nesse momento, viu um brilho metálico pela extremidade do olho. Ao girar a cabeça distinguiu a dois moços entre a multidão. Definitivamente, eram humanos.


Ao princípio, sua aparência recordou-o dos meninos de rua com os quais Nick se relacionava, tipos duros com jaquetas negras. Até que se deu conta de que o estavam observando… como se soubessem o que era em realidade.


Com todos os instintos em estado de alerta, Harry lhes devolveu o olhar. O mais alto dos dois, que aparentava ter pouco mais de vinte anos, arrojou o charuto ao chão, pisou-o e cruzou a rua sem lhe tirar os olhos de cima.


Ao aproximar-se, estudou ao Harry de cima abaixo com total frieza.


- É o Caçador Escuro?


Harry levantou uma sobrancelha.


- É o menino dos recados?


- Eu não gosto de seu tom de voz.


- E eu não gosto de você. Agora que acabamos com as apresentações e nos declaramos nosso mútuo desagrado, por que não me leva até seu chefe?


O menino o olhou com os olhos entrecerrados.


- Sim, por que não?


Era uma armadilha. Harry sabia. Que assim fosse. Estava desejando enfrentar-se ao Desiderius. Estava mais que preparado.


Seguiu-os sem que tivessem que obrigá-lo. Atravessaram os becos traseiros até chegar a um pequeno pátio, rodeado por uma grade. Os arbustos tampavam os muros e impediam que as luzes das lâmpadas penetrassem no lugar. Harry não reconheceu o lugar. Mas tampouco é que importasse muito.


Ao rodear uma sebe muito alta, viu o Desiderius esperando-o. Tinha a uma mulher grávida entre os braços, a que ameaçava com uma faca sobre a garganta, e exibia um sorriso diabólico. 


- Bem-vindo Caçador Escuro. - o saudou enquanto acariciava com a mão livre o volumoso ventre da mulher - Sabe o que me proporcionou a sorte? Acabo de encontrar duas vidas pelo preço de uma. - agachou a cabeça e esfregou o nariz sobre o pescoço da grávida - Mmm… se cheira a força...


- Por favor. - suplicou a mulher, histérica - Por favor, me ajude. Não deixe que faça mal a meu bebê.


Harry respirou fundo, lutando contra o impulso a derramar o sangue do Desiderius e senti-lo correr entre os dedos.


- Me deixe supor… sua vida em troca da minha?


- Exatamente.


Tentando pôr nervoso o seu oponente, Harry soprou com cansaço enquanto tomava nota dos seis Daimons e os dois delinqüentes humanos que o rodeavam. Se não fosse pela mulher, poderia encarregar-se de todos eles facilmente, mas o mais leve movimento por sua parte faria que Desiderius lhe cortasse a garganta à mulher, sem dúvida alguma. De fato, para um Daimon não havia nada melhor que conseguir a alma de uma grávida.


- Não podia ter planejado algo um pouco mais original? - burlou-se Harry, sabendo que Desiderius era o bastante pomposo para tomar o insulto ao pé da letra - O que quero dizer é que a ver se te supera um dia destes. Supõe-se que tem uma mente privilegiada e isto é tudo o que te ocorre?


- Bom, já que não te vejo muito impressionado, me permita acabar com ela. - respondeu o Daimon aproximando ainda mais a faca ao pescoço da mulher.


A garota gritou.


- Espera! - exclamou Harry antes que Desiderius lhe fizesse um corte - Sabe que não posso permitir que lhe faça mal.


O vampiro sorriu.


- Então, tira os srads e te aproxime da cerca.


Como sabe o dos srads?


- Bom. - respondeu muito lentamente - E, por que tenho que fazê-lo?


- Porque o digo eu!


Tentando imaginar que acontecia a cabeça do Daimon, Harry tirou as armas do Talon de debaixo do casaco e se aproximou muito devagar à cerca. Uma vez esteve frente a ela, os dois humanos o pegaram pelos pulsos e começaram a lhe enrolar umas cordas ao redor.


Subitamente encontrou-se apanhado, com os braços totalmente estendidos aos lados e presos aos barrotes de ferro. Lutou como se fosse um selvagem. Puxou as cordas que o mantinham imóvel enquanto o coração lhe pulsava nos ouvidos. A mente fria e racional do Caçador Escuro o abandonou, deixando-o ao bordo do pânico. Lutou contra as cordas como um animal apanhado em uma armadilha.


Tinha que sair dali. Não ia permitir que o atassem até deixá-lo indefeso. Assim, não. Nunca mais. Os contínuos puxões lhe estavam rasgando a pele dos pulsos, mas não lhe importava. Estava concentrado em recuperar a liberdade.


- Já te disse que sabia qual era sua debilidade. - lhe disse Desiderius - Além de saber que jamais permitiria que fizesse mal a uma grávida. - inclinou-se e beijou à garota na bochecha - Melissa, seja uma boa garota e lhe agradeça ao Caçador Escuro seu sacrifício.


Harry ficou petrificado quando a mulher se separou do Desiderius e caminhou até chegar junto ao humano que o tinha preso. Tinha estado de acordo com eles todo o tempo.


Filho da puta, quando ia aprender a lição?


- Está preparado para morrer? - perguntou-lhe Desiderius.


Harry lhe ensinou as presas.


- Eu não seria tão arrogante. Ainda não me mataste.


- Isso é certo, mas a noite é jovem, não é verdade? Tenho muito tempo para jogar com o menino dos recados da Artemisa.


Harry pegou as cordas e atirou delas com todas suas forças, assaltado por uma nova onda de pânico. Tinha que acalmar-se. Sabia. Mas as lembranças das torturas à que foi submetido em Roma o angustiavam.


- O que te passa? - perguntou-lhe o Daimon, aproximando-se - Está um pouco pálido, comandante. Acaso está recordando a humilhação de sua derrota? Ou as mãos dos soldados romanos enquanto lhe cravavam na cruz?


- Vai-te ao inferno! - Harry liberou com o dedo do pé a folha retrátil oculta na bota, e atacou ao Desiderius.


O Daimon se afastou de um salto, ficando fora de seu alcance.


- Vá! Esqueci-me dessas botas. Uma vez acabe contigo, o seguinte Caçador Escuro de minha lista vai ser o velho Kell. Com ele fora de combate e sem suas armas, o que será de todos vós? - inclinou a cabeça para a garota - Melissa, te leve bem e lhe tire as botas do comandante.


Harry apertou os dentes ao ver como a mulher se aproximava. O Código lhe permitia proteger-se de quão humanos queriam lhe fazer mal, mas não era capaz de atacar a uma mulher, e menos estando grávida. Não era mais que uma criatura, embora ela quisesse dar outra imagem.


- O que está fazendo com esta gente? - perguntou-lhe enquanto lhe tirava as botas.


- Quando nascer meu bebê, ele me fará imortal.


- Não pode fazê-lo. Não tem esse poder.


- Está mentindo. Todo mundo sabe que os vampiros podem te tirar a vida, ou fazer que viva eternamente. Quero ser um dos seus.


Então, assim era como Desiderius conseguia os seus seguidores humanos.


- Não poderá ser um de nós jamais. Matará-te quando tudo isto acabe.


A garota soltou uma gargalhada, burlando-se dele.


Desiderius estalou a língua.


- É capaz de seguir protegendo-a mesmo que te está preparando para que seja sacrificado. Que enternecedor. Diga-me, com seus irmãos, os romanos, também foram tão considerados?


Harry se equilibrou para o Desiderius, atirando de novo das cordas.


Nesse momento, saiu um Daimon das sombras, com uma enorme marreta nas mãos. Harry se paralisou assim que reconheceu o instrumento. Fazia dois mil anos que não via igual.


- Sim. - lhe disse Desiderius ao aproximar-se - Sabe o que é verdade? Diga-me, recorda a dor que sentiu quando Valerius a usou para te romper as pernas? - O Daimon o olhou enquanto inclinava a cabeça - Não o recorda? Permita-me que te refresque a memória.


Harry apertou os dentes quando Desiderius lhe golpeou o joelho esquerdo com a marreta, lhe destroçando a articulação imediatamente. Só quando o joelho direito recebeu o mesmo tratamento, o vampiro se atreveu a plantar-se diante dele.


Harry se manteve em pé aferrando-se com as mãos aos barrotes. Tentava sustentar seu peso com as pernas, mas a dor o fazia impossível.


Desiderius lhe sorriu enquanto entregava a marreta ao vampiro e tirava algo do bolso.


A raiva se apoderou do Harry quando reconheceu os antigos pregos romanos que tinham utilizado para crucificá-lo.


- Me diga, Caçador Escuro, - lhe disse Desiderius sem deixar de sorrir - quer que te ajude a passar em pé o resto da noite?


 


 


CAPÍTULO DOZE


 


Gina despertou sobressaltada e demorou mais de um minuto em dar-se conta de que tinha dormido apoiada sobre o Nick, no quarto do hospital onde Tabitha estava internada. Sua mãe dormia na cama dobradiça, enquanto que o Escudeiro e ela o faziam nas duas incômodas cadeiras próximas à porta.


Tabitha seguia dormindo. Os médicos queriam que permanecesse em observação até o dia seguinte. Um dos Daimons lhe tinha feito um corte na bochecha que lhe deixaria uma feia cicatriz. Tinha todo o corpo cheio de feridas e hematomas, mas segundo os especialistas, não era nada grave e se recuperaria completamente.


Suas irmãs partiram a seus respectivos lares, seguindo ordens da senhora Weasley, mas ela tinha preferido ficar, se por acaso necessitavam algo. Ainda com os nervos a flor da pele, olhou para a porta e viu que seu pai retornava com duas taças de café, uma para ele e outra para o Nick.


- Quer a minha, gatinha? - perguntou a ela, lhe oferecendo sua taça.


Gina respondeu ao oferecimento com um sorriso, até que recordou o sonho.


- Está bem? - disse-lhe o senhor Weasley.


Ela olhou ao Nick, notando como o coração começava a lhe pulsar mais rápido.


- Harry tem problemas.


O Escudeiro soltou uma gargalhada antes de tomar um sorvo de café.


- Foi um sonho.


- Não, Nick. Está em perigo. Vi-o.


- Te tranqüilize, Gina, o que passa é que tiveste um mau dia e está preocupada com a Tabitha. É compreensível, mas Harry nunca se mete em camisas de onze varas. Seguro que está bem. Faça-me caso.


- Não. - insistiu ela - Me escute Nick. Sou primeira em admitir que odeio meus poderes, mas neste momento não me estão mentindo. Posso perceber a dor e o medo que está sofrendo. Temos que encontrá-lo.


- Não pode sair Gina. - lhe recordou seu pai - O que passa se Desiderius te está esperando? E se envia a alguém para que te faça mal, como fez com a Tabitha?


Gina olhou os olhos azuis de seu pai e lhe sorriu fracamente.


- Papai, tenho que ir. Não posso deixá-lo morrer.


Nick suspirou.


- Vamos, Gina. Não vai morrer.


Ela pegou o casaco do Escudeiro e começou a pinçar nos bolsos.


- Então me dê as chaves de seu carro e vou eu sozinha.


Nick lhe tirou as chaves com um gesto brincalhão.


- Harry pedirá minha cabeça por isso.


- Se o matarem, não poderá fazê-lo.


Gina viu a expressão indecisa do Escudeiro. Nick deixou a taça no chão, pegou o celular e marcou.


- Vê-o? - disse-lhe ela - Não responde.


- Há esta hora, isso não significa nada. Pode estar em metade de uma briga.


- Ou gravemente ferido.


Nick tirou a PDA da capa do cinto e a acendeu. Depois de uns segundos de espera, a cor abandonou seu rosto.


- O que acontece?


- Tem o dispositivo de rastreamento desligado.


- E isso o que significa?


- Que não sei onde está. Nenhum Caçador Escuro desconecta o transmissor, é seu salva-vidas. - Ficou de pé de um salto e pegou o casaco - Muito bem, vamos.


O senhor Weasley se interpôs entre eles e a porta. Era quase tão alto como Nick e estava preparado para brigar.


- Não vais levar a minha menina aí fora, onde podem lhe fazer mal. Antes te mato.


Gina passou junto ao Escudeiro e lhe deu um beijo a seu pai.


- Não passa nada, papai. Sei o que estou fazendo.


O olhar do senhor Weasley deixou muito claro as dúvidas que tinha a respeito.


- Deixa que se vá Arthur. - disse sua mãe da cama - Esta noite não corre nenhum perigo. Sua aura é pura.


- Está segura? - perguntou-lhe seu marido.


A senhora Weasley assentiu.


Seu pai suspirou, sem estar de tudo convencido, e olhou furioso ao Nick.


- Que não lhe ocorra nada.


- Pode estar tranqüilo. - lhe assegurou ele - Dei minha palavra que cuidaria dela a uma pessoa que me assusta muito mais que você.


A contra gosto, o senhor Weasley deixou que partissem.


Gina saiu do hospital a toda pressa e cruzou o estacionamento até chegar junto ao Jaguar do Nick. Uma vez no carro, fez tudo o que pôde para recordar o lugar onde tinha visto o Harry no sonho.


- Estava em um pátio sombrio e pequeno.


Nick soprou.


- Estamos em Nova Orleans, cherie. Com essa descrição não fazemos nada.


- Já sei. Acredito que temos que ir ao Bairro Francês, mas não estou segura. Merda, não sei. - observava com atenção as ruas escuras pelas que passavam - Não há algum Caçador Escuro ao que possamos chamar para que nos ajude a encontrá-lo? E se o dizemos ao Talon?


- Não. Está ocupado perseguindo o seu objetivo. - respondeu lhe passando o celular - Pulsa o botão de rechamada e tenta localizar ao Harry.


Fez-o, repetidas vezes, mas não houve resposta.


Com a iminente chegada do amanhecer, Gina começou a se desesperar-se. Se não o encontravam logo morreria. Completamente aterrorizada, fez o que não tinha feito nunca: reclinou a cabeça no assento e recorreu de forma intencionada a seus poderes, deixando que a possuíssem por completo. Percorreu-a uma terrível descarrega, alagando-a de calor e deixando-a tremente. Sua mente se viu assaltada por multidão de imagens, algumas antigas e outras imprecisas. Quando estava segura de que assim não conseguiria nada, viu algo com total claridade.


- St. Philip Street. - sussurrou - Ali está.


Estacionaram na rua e saíram do carro. Não sabia muito bem por onde procurar, mas guiou ao Nick pelos becos traseiros, direta a um pátio muito escuro. Rodearam o edifício sem ver nada.


- Merda, Gina, não está aqui.


Ela apenas o escutava. Fazendo caso a seu instinto, rodeou uma sebe muito alta e se deteve paralisada.


Harry estava pendurado em uma cerca, tão maltratado que não se sustentava em pé.


- Meu deus! - exclamou enquanto corria para aproximar-se dele.


Com muito cuidado, levantou-lhe a cabeça e ofegou ao ver seu rosto ensangüentado. Tinham-lhe golpeado tanto que quase não podia abrir os olhos.


- Gina? - sussurrou ele - De verdade é você ou estou sonhando?


Ela sentiu que lhe enchiam os olhos de lágrimas.


- Sim, Harry. Sou eu.


Nick soltou uma maldição ao chegar junto a eles e estendeu um braço para tocar um dos pregos que atravessavam o braço do Harry. Afastou a mão, sem chegar a tocá-lo, se por acaso o simples roçar pudesse lhe fazer pior. Gina viu a fúria nos olhos do Escudeiro e o escutou amaldiçoar outra vez.


- Por amor de Deus! Cravaram-no a uma tabela.


Gina sentiu náuseas só de pensá-lo. Nada mais em ver ao Harry, soube exatamente o que Desiderius fez: tinha recreado sua execução.


- Temos que te tirar daqui. - lhe disse.


Harry tossiu, meio afogando-se com seu próprio sangue.


- Não há tempo.


- Tem razão. - confirmou Nick - Amanhecerá em cinco minutos, como muito dez. Não poderemos levá-lo para casa antes que saia o sol.


- Então chama o Tate.


- Não chegará a tempo. - um músculo começou a palpitar na mandíbula do Escudeiro enquanto tocava a mão do Harry, de cujo centro se sobressaía um prego - Não estou seguro de como vamos poder liberá-lo embora Tate chegue a tempo.


- Não passa nada. - disse Harry, com voz cansada. Tragou saliva e olhou ao Nick aos olhos - Leva a Gina com o Talon e lhe diga que as proteja, a ela e a sua irmã.


Nick se afastou correndo.


Ignorando ao Escudeiro, Gina se concentrou no Harry.


- Não vou deixar você morrer. - insistiu com voz estrangulada e brusca - Merda, Harry. Não pode morrer assim e te converter em uma Sombra. Não vou permitir.


A ternura com a que a olhou lhe roubou o fôlego.


- Sinto muito te haver falhado. Oxalá tivesse podido ser o herói que merece.


Gina tomou o rosto entre as mãos e o obrigou a olhá-la aos olhos. Limpou-lhe o sangue que lhe manchava os lábios e o nariz com mãos trementes.


- Não te atreva a te render, ouve-me? Se morrer, quem diz que Desiderius não acabará também com o Talon? Luta por mim, Harry, por favor!


Harry esboçou um sorriso.


- Está bem, Gina. Alegro-me muito de que me tenha encontrado. Não queria morrer sozinho… outra vez.


Ao escutar suas palavras, Gina começou a chorar e o coração lhe subiu à garganta. Não! Gritou sua alma nesse instante.


Não podia deixá-lo morrer. Assim não. Não depois de que a tinha protegido e a tinha cuidado. Não quando se converteu em um pouco tão importante para ela.


Sua mente não deixava de imaginar-se a seu adorado Caçador Escuro vagando pela terra, apanhado entre dois mundos. Sempre faminto. Sempre sozinho. Não podia permitir que acontecesse algo assim.


Nick retornou com uma barra de ferro.


- O que é isso?


O Escudeiro a olhou furioso.


- Não vou deixar que morra desta maneira. Vou tirar ele daí. - e tentou arrancar o prego que imobilizava a mão do Harry que, só de roçá-lo, esticou-se pela dor.


- Não! - gritou Gina.


Nick seguiu tentando-o.


- Que porc…?


Antes que Gina fosse consciente do que fazia, seus poderes começaram a agitar-se e surgiram em cascata, escapando a seu controle. Os pregos saíram disparados dos braços do Harry, que caiu sobre ela ao perder o ponto de apoio.


- Me ajude Nick. - ofegou enquanto tentava manter-se em pé com todo o peso do Harry em cima.


Nick se tinha ficado pasmado, mas fez um esforço por sair do estupor e se aproximou para sujeitar ao Harry. O peso o fez cambalear-se, conseguiu chegar ao carro tão rápido como suas pernas o permitiram.


- Não nos dará tempo a chegar a sua casa antes que amanheça. - disse entrecortadamente, ofegando pelo esforço.


- Podemos levá-lo para casa de minha irmã. Vive muito perto daqui.


- Qual delas?


- Esmeralda. Conheceu-a faz um momento, a do cabelo comprido e negro.


- A Sumo-Sacerdotisa de Vodu?


- Não, a parteira.


O Escudeiro chegou à casa do Essie em um tempo recorde, nenhum dos dois falou durante o caminho.


Custou-lhes bastante trabalho, mas ao final, conseguiram tirar o Harry do carro e levá-lo até o alpendre no mesmo instante em que o sol se levantava sobre o telhado do edifício situado em frente da casa de Esmeralda.


Gina golpeou com força a porta da casa vitoriana de sua irmã.


- Esmeralda? Anda logo! Abre a porta!


Viu a sombra de sua irmã através das cortinas de renda vitoriano um momento antes que o pomo da porta girasse. Gina a abriu de um empurrão e Nick colocou ao Harry no saguão sem perder um segundo.


- Baixa as persianas. - lhe ordenou o Escudeiro a Esmeralda enquanto deixava ao Harry no moderno sofá verde.


- Como diz? - perguntou-lhe Essie - O que está acontecendo aqui?


- Lhe faça caso, Essie, e lhe explico isso tudo em um minuto.


Sem demonstrar muito entusiasmo, Esmeralda seguiu as ordens do Nick.


Gina acariciou o rosto do Harry.


- Deixaram-lhe feito um desastre.


- Como está Tabitha? - perguntou-lhe ele com voz débil.


A Gina enterneceu que demonstrasse essa preocupação por sua irmã, estando tão ferido gravemente.


- Vou chamar a uma ambulância. - anunciou Esmeralda enquanto pegava o telefone.


Nick o tirou.


- Não.


O olhar que lhe dedicou Essie faria retroceder à maioria dos homens, mas Nick se limitou a contemplá-la com uma expressão igual de desagradável.


- Não passa nada, Essie. - a tranqüilizou Gina - Não podemos levá-lo a um hospital.


- Mas se não o transladam, vai morrer.


- Não. - lhe assegurou Nick - Não morrerá.


Esmeralda levantou uma sobrancelha em um gesto de incredulidade.


- Não é humano. - lhe explicou Gina.


Essie a olhou com as pálpebras entreabertas.


- E o que é, então?


- Um vampiro.


A ira desfigurou o rosto de Esmeralda que, nesse momento, lançou-se a por todos eles, jogando fumaça pelo nariz.


- Trouxeste para um vampiro a minha casa? Depois do que aconteceu a Tabitha? Pelo amor de Deus, Gina! É que não tem sentido comum?


- Não vai fazer-te mau. - insistiu Gina.


- Está como uma puta cabra. Vou chamar a…


Nick se interpôs entre Esmeralda e o telefone.


- Se tenta marcar qualquer número, arranco o telefone da parede.


- Tipo. - o repreendeu Essie a modo de advertência - Nem acredita qu…


- Já basta! - gritou Gina - Harry nos necessita, Esmeralda, e, como sua irmã pequena, suplico-te que nos ajude.


- Mas…


- Essie, por favor…


Gina observou a indecisão no rosto de sua irmã e soube que se debatia entre a negativa a ajudar a um não-morto e a impossibilidade de dar as costas a sua irmã.


- Por favor, nunca na vida te pedi um favor.


- Isso não é certo. Pediu-me emprestado meu suéter favorito quando estávamos no instituto, para lhe pôr isso o dia que Bobby Daniels jogava aquele jogo.


- É!


- De acordo, - se rendeu - mas se morder a algum dos habitantes desta casa, cravo-lhe uma estaca.


Harry permaneceu imóvel enquanto Esmeralda e Gina o despojavam das ensangüentadas roupas. Era tal a agonia que estava padecendo que mal podia respirar. Resultava-lhe impossível deixar de ver o momento em que os Daimons o tinham atacado e ansiava desforrar-se exigindo seu sangue.


«Deixemos que o sol acabe com ele», seguia dizendo a voz do Desiderius em seus ouvidos. Esse bode ia pagar com acréscimo. Já se encarregaria dele…


Gina sentiu o coração em um punho ao ver as feridas do corpo do Harry. Tinha os braços e as mãos perfuradas por causa dos enormes pregos. Nunca tinha odiado a ninguém, mas nesse momento odiava ao Desiderius com tanta intensidade que, se o tivesse diante, destroçaria-o tão somente com as mãos.


Separou-se do Harry um minuto para chamar os seus pais e perguntar pelo estado da Tabitha. Enquanto isso, Essie seguiu lhe enfaixando as feridas e Nick continuou passeando-se, nervoso, de um lado a outro do quarto.


- O que quer que faça com o Desiderius? - perguntou o Escudeiro ao Harry.


- Que te mantenha afastado dele.


- Mas te olhe…


- Sou imortal, sobreviverei. Você não o faria.


- Sim, claro. Se tivéssemos chegado três minutos mais tarde você tampouco teria sobrevivido.


- Nick, - o advertiu Gina - sua atitude não nos está ajudando em nada. Harry precisa descansar.


- Sinto-o. - se desculpou inquieto, passando-a mão pelo cabelo alvoroçado - Estou acostumado a atacar quando estou preocupado, é um mecanismo de defesa.


- Não importa, Nick. - o tranqüilizou Harry - Vá para casa e dorme um momento.


O Escudeiro assentiu com uma expressão tensa. Antes de partir, olhou a Gina.


- Me chame se necessitar algo. 


- De acordo.


Esmeralda acabou de atender ao Harry quando Nick saía pela porta.


- Deve doer muito. O que te aconteceu exatamente?


- Fui um imbecil.


- Muito bem, Imbecil. - continuou Esmeralda, com brutalidade - Vamos ter que entalar essas pernas e aqui não tenho o necessário.


- Posso usar o telefone? - perguntou-lhe Harry.


Esmeralda o aproximou, olhando-o com o cenho franzido.


Enquanto marcava, Gina continuou lhe limpando o sangue do rosto.


- Como pode atuar com tanta normalidade? - perguntou-lhe - Deve estar sofrendo uma agonia.


- Os romanos me torturaram durante um mês, Gina. Acredite-me, isto não é nada.


Ainda assim, ela sofria por ele. Como era capaz de suportar toda essa dor?


Não pôde evitar escutar a conversação do Harry com a pessoa a que tinha chamado.


- Sim, sei. Vemo-nos dentro de um momento.


Quando terminou de falar, Gina pegou o telefone para deixá-lo em seu lugar e Harry fechou os olhos para descansar, enquanto Esmeralda se levava a sua irmã à cozinha.


- Quero uma explicação. Agora. Por que há um vampiro ferido em meu sofá?


- Salvou-me a vida. Só lhe estou devolvendo o favor.


Essie lhe lançou um furioso olhar.


- Paraste-te a pensar o que faria Tabitha se o descobrisse?


- Sei, mas não podia deixar que morresse. É um bom homem.


Esmeralda abriu a boca, totalmente pálida.


- Não, Gina. Essa cara não.


- Que cara?


- Esse olhar emocionado que põe quando vê o Brendan Fraser na tela.


- Como diz? - perguntou Gina ofendida.


- Está louca por ele.


Gina sentiu que se ruborizava.


- Gi! Por que não usa o cérebro?


Ela evitou o olhar inquisitivo de sua irmã voltando à vista para o sofá onde jazia Harry.


- Olhe Essie, não sou uma estúpida, nem tampouco sou uma menina. Sei que nunca poderá haver nada entre nós.


- Mas…?


- O que quer dizer com, «mas…»?


- Dá-me a sensação de que há um mas … ao final dessa frase.


- Pois não o há. - lhe respondeu, empurrando-a ligeiramente por volta das escadas - E agora, volta para a cama e dorme um pouco.


- Sim, claro. Vais assegurar-te de que o senhor Vampiro não nos utiliza de aperitivo enquanto durmo?


- Não bebe sangue.


- E como sabe?


- Porque me disse.


Essie cruzou os braços diante do peito e a olhou ofendida.


- Ah, claro! E nós acreditamos nisso com convicção, não?


- Pode deixá-lo já, Essie?


- Venha, Gi. - a repreendeu, assinalando com a mão para o sofá - Esse homem é um assassino.


- Não o conhece.


- Tampouco conheço nenhum jacaré e estou segura de que não deixaria entrar nenhum em minha casa. Merda, Gina! Não pode domesticar a um animal selvagem.


- Não é um animal selvagem.


- Está segura?


- Sim. - Mas Essie seguia mostrando-se cética, os olhos a delatavam.


- Já pode estar no certo, mucosa, ou vamos acabar todos bem fodidos.


 


Horas depois, enquanto Essie se vestia para ir trabalhar, Gina preparou ao Harry um ligeiro café da manhã.


- Agradeço-te a intenção, mas não tenho fome. - o rechaçou ele amavelmente.


Ela deixou o prato sobre a mesa e deslizou um dedo, com muito cuidado, sobre a vendagem que lhe cobria o braço, tinha seguido sangrando e as gazes estavam manchadas.


- Oxalá me tivesse feito caso e te tivesse ficado em casa.


- Não posso fazer isso, Gina. Fiz um juramento e tenho obrigações.


Seu trabalho. Isso era tudo o que lhe importava e ela começava a perguntar-se se a protegia porque sua preocupação era genuína ou como parte de seu dever como Caçador Escuro.


- Mas me disse que confiava em meus poderes e quando te disse que…


- Gina, por favor. Não tinha outra opção.


Ela assentiu.


- Espero que o mate.


- Farei.


Gina lhe pegou a mão e lhe deu um apertão.


- Não parece tão seguro como antes.


- Isso é porque passei a noite preso a uma tabela e esta manhã não estou em meu melhor momento.


- Não tem graça.


- Já sei. - respondeu ele - É que me incomoda que soubesse exatamente onde golpear para fazer mais dano. Direto a…


Ela esperou uns minutos para que continuasse, mas Harry permaneceu em silêncio.


- Direto aonde? - insistiu-o ela.


- A nenhum lugar.


- Harry, conta-me. Quero saber como conseguiu te fazer isto.


- Não quero falar disso.


Antes que pudesse pressioná-lo mais, alguém bateu na porta.


- Por favor. - lhe disse em voz baixa - Deixa entrar o D’Alerian.


- O Guardião dos Sonhos?


Harry assentiu.


Morta de curiosidade levantou-se para abrir a porta principal e, ao fazê-lo, retrocedeu uns passos. O homem que estava no alpendre não se parecia em nada como o tinha imaginado. Muito mais alto que ela, o Guardião dos Sonhos tinha o cabelo negro como a noite e uns olhos tão pálidos que pareciam resplandecer com luz própria. Vestido por completo de cor negra, como se fosse um Caçador Escuro, o teria devorado com o olhar de não ser pela estranha tendência que tinham seus olhos a afastar-se dele. Era muito estranho. Muito curioso. Tinha que esforçar-se para olhá-lo, já que seus olhos o evitavam contra sua vontade, e isso que qualquer mulher arderia de desejo e ficaria boquiaberta da impressão com apenas lhe jogar uma olhada.


Sem pronunciar uma só palavra, o homem passou junto a ela e se aproximou do Harry. A porta lhe escapou da mão e se fechou com uma sonora portada, impedindo a entrada à luz do sol.


D’Alerian se movia com elegância e agilidade. Ao aproximar-se do sofá, tirou a jaqueta de couro e se levantou as mangas da camisa negra.


- Desde quando chamas às portas? - perguntou-lhe Harry.


- Desde que me preocupo com não assustar aos humanos. - o Guardião dos Sonhos observou o corpo do Harry da cabeça aos pés - Parece um desastre.


- Todo mundo se empenha em me dizer o mesmo.


Não havia rastro de humor na expressão de D’Alerian. Nem de qualquer outra emoção. Parecia muito mais sereno e imperturbável que Talon, como se não tivesse sentimentos.


O Guardião dos Sonhos levantou uma mão e uma das poltronas se moveu até ficar ao lado do sofá. Sem emprestar atenção a Gina, colocou a mão sobre o ombro do Harry.


- Dorme Caçador Escuro. - e, antes que acabasse de falar, Harry já estava profundamente dormido.


Gina observou a cena. D’Alerian não moveu a mão que tocava ao Harry, tinha os olhos fechados. E, nesse preciso momento, sua expressão trocou e seu rosto adotou a rigidez daquele que está sendo submetido a uma intensa agonia. De fato, estava refletindo toda a dor que Harry devia ter sofrido.


Depois de uns minutos, afastou a mão e se reclinou na poltrona, respirando laboriosamente. Cobriu a cara com as mãos, como se com esse gesto pudesse afastar o pesadelo. Quando a olhou, a intensidade de seus olhos fez que Gina desse um coice.


- Nunca, em toda a eternidade, tinha contemplado algo assim. - lhe sussurrou com voz rouca.


- O que?


Suspirando entrecortadamente, D’Alerian continuou.


- Quer saber como conseguiu capturá-lo Desiderius?


Ela assentiu.


- Através de suas lembranças. Jamais experimentei tanta dor em outra pessoa. Quando essas lembranças o alagam, Harry fica indefeso e é incapaz de atuar com prudência.


- O que posso fazer?


- Nada, a não ser que te ocorra o modo de erradicar essas lembranças. Se continuam torturando o deste modo, está perdido. - antes de seguir falando, olhou ao Harry - Dormirá até que caia a noite, não o incomode. Quando despertar, poderá voltar a andar, mas ainda estará débil. Tenta que não vá trás do Desiderius durante algumas de dias. Falarei com a Artemisa e veremos o que se pode fazer.


- Obrigado.


D’Alerian lhe respondeu com um leve gesto e desapareceu com um brilho de luz dourada. Uns segundos depois, sua jaqueta também se evaporou.


Gina se sentou na poltrona que o Guardião dos Sonhos acabava de deixar livre e, olhando ao teto, lançou uma gargalhada. Estava histérica. Quão único sempre tinha desejado era uma vida normal. E agora tinha um vampiro por amante e um Guardião dos Sonhos - conceito que ainda não estava muito segura de entender - aparecendo e desaparecendo como por arte de magia da casa de sua irmã, enquanto outro vampiro estava tentando matá-los a todos.


A vida era uma ironia.


Inclinou a cabeça e observou ao Harry. Tinha-lhe normalizado a respiração e o cenho de dor que lhe enrugava a frente tinha desaparecido. As feridas seguiam sendo espantosas, mas algumas delas já começavam a curar-se.


O que lhe teria feito Desiderius?


 


Harry despertou e viu que a luz da lua entrava pelas janelas abertas do salão. Não recordou onde estava até que tentou mover-se e a dor o atravessou. Apertou os dentes e se incorporou lentamente para sentar-se. Nesse momento, viu Esmeralda diante dele, com uma enorme cruz em uma mão e uma réstia de alhos pendurada do pescoço.


- Tipo, não te ocorra te mover daí. E não tente o truque de controlar minha mente.


Apesar da dor, Harry soltou uma gargalhada.


- Sabe uma coisa? Nem as cruzes nem os alhos têm efeito algum sobre nós.


- Sim, claro. - lhe respondeu ela, aproximando-se um pouco mais a ele - Diria o mesmo se te tocar com ela?


Quando esteve o bastante perto, Harry estendeu um braço e lhe tirou a cruz.


- Ai, ai, ai! - gritou, fingindo estar dolorido e aproximando-lhe até o peito - A sério... - lhe disse, dando-lhe de novo - Não tem nenhum efeito. E quanto ao alho, se não te incomoda o aroma, a mim tampouco.


Esmeralda se tirou a réstia de alhos.


- Então, a que é vulnerável?


- Vou dizer isso…


Essie inclinou a cabeça.


- Gi tem razão, é lhe exaspere.


- Deveria ter tido um bate-papo com meu pai antes que comesse ele.


Esmeralda empalideceu e retrocedeu algumas de passos.


- Está brincando, não é?


- Não se comeu a seu pai.


Ele se deu a volta e viu a Gina de pé, no vão da porta que havia a suas costas.


- Está completamente segura disso?


Ela sorriu.


- Sim, completamente. E suponho que deve te sentir melhor, se tiver vontades de brincar. - aproximou-se e afastou as ataduras que lhe cobriam os braços para ver as feridas - Deus Santo! Estão virtualmente curadas.


Harry assentiu, pegou uma das camisas que Nick tinha deixado ali essa mesma tarde enquanto ele descansava, e a pôs, ao tempo que lhes explicava o das feridas.


- Graças a D’Alerian, em algumas de horas mais terão desaparecido por completo.


Gina o observou enquanto se levantava do sofá. O único indício de que ainda não estava em forma era a lentidão de seus movimentos.


- Não acredita que deveria seguir deitado?


- Preciso me mover para aliviar a rigidez. - enquanto passava a seu lado, murmurou de forma quase inaudível - Ao menos, parte dela.


Gina o ajudou a chegar até a cozinha.


- Essie, tem espaguetes?


- É que come espaguetes?


Gina levantou a cabeça para olhá-lo.


- Come?


Ele olhou a Esmeralda de forma ameaçadora.


- Não resulta tão satisfatório como chupar o pescoço de algumas italianas, mas não estão maus.


Gina soltou uma gargalhada ao ver a expressão espantada de sua irmã.


- Não brinque mais ou te cravará uma estaca enquanto dorme.


Harry se sentou e a olhou de cima abaixo com os olhos carregados de desejo.


- A mim sim que lhe eu gostaria de cravar isso enquanto está acordada.


Ela sorriu ao escutar a indireta enquanto lhe servia o prato de espaguetes.


- Alegra-me muitíssimo ver que tem vontade de brincar. Passei muito medo esta manhã, pensei que ia perder-te apesar de te haver encontrado.


- Como está Tabitha?


- Muito bem. Já lhe terão dado alta.


- Me alegro.


Gina se deu conta de que estava muito preocupado, tinha uma expressão estranha.


- O que te passa? - perguntou-lhe enquanto colocava o prato no microondas.


- Desiderius está aí fora e voltará a matar de novo. Não posso ficar aqui deitado e esper…


Gina lhe tampou a boca com a mão, impedindo deste modo que seguisse falando.


- E o que conseguirá te deixando matar?


- Ajudar ao Nick, já que herdará todos os meus bens.


- Não tem graça.


- Sempre me diz o mesmo.


Ela sorriu fracamente.


- Antes que volte a sair em busca do Desiderius, temos que traçar um plano. Nestes momentos te dá por morto, assim contamos com o fator surpresa.


- Contamos?


- Não vou deixar que volte a lutar sozinho com ele. Está ameaçando a minha família e a mim e não penso ficar na retaguarda esperando que volte a atacar.


Ele alargou um braço e lhe acariciou a cara.


- Não quero que te faça mal.


- Então me ensine o necessário para que possa te ajudar a lhe dar uma boa patada na bunda.


Harry sorriu ao escutá-la.


- Faz dois mil anos que luto sozinho.


- Bom, nunca se é muito velho para aprender.


Harry soprou.


- Não pode lhe ensinar novos truques a um cão velho.


- Conta outra.


- O tempo é ouro.


- Deus ajuda aos que se ajudam.


Ele soltou uma gargalhada.


- Não vai deixar ganhar, verdade?


- Não. Vou acabar de te preparar a comida e depois te contarei tudo o que averigüei enquanto dormia.


Harry observou como jogava queijo sobre a massa. Nunca tinha conhecido uma mulher como ela. Depois de que Desiderius o abandonasse para que o sol acabasse com ele, tinha fechado os olhos para recordar a imagem da Gina em sua cama e a sensação de tê-la entre seus braços.


Pensar nela o tinha reconfortado de um modo que não se merecia.


E se falha de novo e não mato ao Desiderius?


A idéia o horrorizava. Ela ficaria sozinha. Fechou os olhos e a viu em uma cama do hospital, como Tabitha. Ou ainda pior.


Não. Ela tinha razão. Precisava lhe ensinar algumas coisas para que pudesse defender-se. Desiderius era muito perigoso. Muito ladino. Era um bode e não se atirou um farol quando afirmou saber onde atacar.


- Harry?


Ele levantou a vista para olhá-la.


Enquanto pensava, Gina tinha servido a massa e a tinha colocado na mesa, junto com um prato de salada, aproximou-se dele e lhe pôs a mão na frente.


- Não lhe dê mais voltas.


- A que?


- Ao do Desiderius. Estava tão concentrado que quase podia escutar seus pensamentos.


Nesse momento, Esmeralda apareceu à cozinha.


- Cara está de parto e tenho que partir. Está segura de que quer ficar com ele?


- Claro que sim, Essie. Sai fora daqui!


- Muito bem, mas te chamo logo.


Gina lhe respondeu com um grunhido e olhou ao Harry.


- Já tentou alguma vez viver com nove mães?


- A verdade é que não.


Uma vez que acabou de comer e chamou o Nick, Gina o acompanhou ao asseio do segundo andar, para ajudá-lo a dar um banho.


Harry permaneceu totalmente imóvel enquanto lhe desabotoava a camisa, a tirava e fazia o próprio com as calças. Seu membro se endureceu com o roçar de seus dedos.


- Em realidade, faz séculos que não tomo um banho de verdade. Sempre rapidamente.


- Bom, banhar-se é muito mais divertido… prometo isso. - Ficando nas pontas dos pés lhe deu um ligeiro beijo nos lábios.


Harry se deixou levar e se meteu na banheira, seguindo suas ordens. A sensação da água quente deslizando-se sobre sua pele, enquanto ela jogava sabão na esponja, era maravilhosa. Não pôde evitar traçar o contorno do queixo da Gina com um dedo.


Ela tirou a roupa e se meteu com ele na banheira. Rodeou-a com os braços, mas assim que Gina começou a mover-se sobre seu corpo, as velhas lembranças se apoderaram dele. Imediatamente, voltou a estar em seu antigo lar e era Theone a que o banhava, era seu olhar distante a que via.


Gina notou que ficava rígido.


- Tenho te feito mal?


- Te aparte, me deixe sair. - lhe disse, fazendo-a a um lado.


Algo não estava bem. Algo mau lhe estava acontecendo.


- Harry?


Estava evitando olhá-la aos olhos e subitamente, recordou o que D’Alerian lhe disse. Decidida a liberar o de seus demônios, pegou-o firmemente pelo rosto e o obrigou a olhá-la.


- Harry, não sou Theone e jamais te trairei.


- Me deixe…


- Me olhe! - insistiu - Me olhe aos olhos.


E ele o fez.


- Preparei-te a comida e não te droguei. Jamais te faria mal. Jamais.


Harry franziu o cenho.


Ela se deslizou sobre ele, inclinando-se ainda mais sobre seu corpo.


- Me ame, Harry. - o insistiu, lhe agarrando as mãos e as colocando sobre seus seios - Me deixe apagar essas lembranças.


Harry não sabia se isso era possível, mas ao senti-la ali nua, com sua pele úmida e seu quente fôlego, compreendeu que não queria afastar-se dela. Tinha estado muito tempo privado do consolo de uma mulher, da ternura de suas carícias. Gina voltou a mover-se sobre ele, aproximando-se de seu rosto e isso lhe fez perder o fio de seus pensamentos.


- Confia em mim, Harry. - lhe sussurrou ao ouvido, antes de traçar com a língua as sensíveis dobras da orelha.


Harry acreditou arder.


- Gina. - ofegou, o nome saiu de seus machucados lábios a modo de oração. Ela era sua salvação.


Tinha tentado com todas suas forças liberar-se do passado, fazê-lo desaparecer, mas não o tinha obtido, estava ali, sob a superfície, esperando o momento mais inesperado para equilibrar-se sobre ele.


Mas não ia permitir que danificasse esse instante. Não com a Gina em seus braços.


Ela percebeu como caía o véu que ocultava suas emoções. Pela primeira vez, viu em seus olhos a alma desse homem que não tinha alma. E muito mais, viu a paixão e o desejo. A necessidade de possuí-la.


Sorrindo, inclinou-se para beijá-lo com muita ternura, temerosa de lhe fazer ainda mais dano. Para sua surpresa, ele tomou as rédeas do beijo e o aprofundou, abraçando-a com tanta força que começava a lhe custar trabalho respirar. A língua do Harry se enredava com a sua, avivando seu desejo. Introduziu a mão entre ambos e desceu até tomar seu membro na mão. Aproximou até a entrada de seu corpo e começou a introduzir-lhe centímetro a centímetro, muito devagar, até que sentiu dentro em toda sua longitude e, então, começou a mover-se lenta e brandamente sobre ele, por temor a lhe fazer mal.


Ele jogou a cabeça para trás e contemplou a expressão satisfeita da Gina enquanto o acariciava com todo seu corpo. Alargou um braço e a sujeitou pelo queixo.


- É muito mais do que mereço.


Respondeu beijando-o com ferocidade, lhe mordiscando os lábios. Deus Santo! Esse homem sim que sabia beijar. Passou-lhe a língua pelas presas enquanto aumentava o ritmo de seus movimentos e ele gemeu em sua boca, fazendo que todo seu corpo vibrasse.


Harry levantou as mãos e lhe sujeitou a cabeça para aprofundar ainda mais o beijo. Afligida por todas as emoções que a assaltava, Gina gozou em seus braços e ele seguiu beijando-a com mais intensidade.


- Isso, Gina. - murmurou lhe agarrando um peito e lhe beliscando um mamilo com suavidade - Goza pelos dois.


Ela abriu os olhos e viu o desejo voraz nesses abismos negros.


- Mas não é justo.


Ele sorriu.


- Não me importa, de verdade. Estando dentro de ti é suficiente.


Ela não se deixou enganar, mas o ajudou a sair da banheira e o secou com uma toalha. Acompanhou-o até a cama do quarto de convidados e fechou as janelas, assegurando-se de que não ficasse nem uma fresta por onde pudesse passar a luz do sol. Ficou ali um momento, observando-o enquanto dormia. Seu maltratado corpo se curava a olhos vista. Se pudesse curar seu coração com a mesma facilidade…


Maldita era sua esposa pela crueldade com que o tinha tratado!


Nesse momento, escutou que alguém batia na porta. Jogando uma última olhada ao Harry, saiu do quarto sem fazer ruído e baixou para abrir a porta. Era Nick, com uma mala pequena.


- Pensei que necessitaria roupa e algumas coisas mais.


Gina o deixou passar, sorrindo ante a preocupação que demonstrava o Escudeiro.


- Obrigado, estou segura de que Harry apreciará o gesto.


Nick deixou a mala junta ao sofá.


- Onde está?


- Vamos, dormindo, espero.


- Me escute. - lhe disse ele com brutalidade - Talon vai com a Tabitha de volta para casa de sua mãe para assegurar-se de que chega sã e salva. Pus a alguns escudeiros trás da Esmeralda e o resto de sua família. Agora que Desiderius dá por morto ao Harry, não sabemos o que vai fazer nem a quem vai atacar. Diga a toda sua família que tenha os olhos bem abertos.


Harry os escutava da cama. Percebia o medo na voz da Gina, a ansiedade. E sabia qual era o modo de que todos seus temores se desvanecessem. Se Desiderius se inteirava de que estava vivo, iria atrás dele e deixaria em paz a Gina e a suas irmãs. Ele era o primeiro objetivo na lista do Daimon. O resto, meros aperitivos.


Dolorido, saiu da cama muito lentamente e se vestiu.


CAPÍTULO TREZE


 


- Harry, sinto muito incomodar… - Gina deixou de falar quando abriu a porta do quarto e constatou a cama vazia.


- Onde está? - perguntou Nick, que entrou no dormitório atrás dela.


- Não sei. Deixei-o aqui faz um momento.


Nick pegou o celular, soltou um taco e, de repente, parou-se a pensar.


- Merda, se não possui telefone.


- Não acredito que partiu.


Moveu-se para ir jogar uma olhada ao banheiro, mas a expressão do Escudeiro lhe deixou muito claro que estava a ponto de fazer uma estupidez.


- Claro que se largou. - aproximaram-se da janela e, nesse momento, viram como Harry arrancava o Jaguar do Nick e se afastava pela estrada.


 


A primeira parada foi à loja de bonecas. Tinha intenção de encontrar a um dos seguidores do Desiderius, e o último que necessitava nesses momentos era ir desarmado.


Não eram mais que oito da noite quando abriu a porta da loja e escutou a campainha que avisava à proprietária. Liza saiu imediatamente dos fundos da loja, com uma expressão amistosa e cálida em seu enrugado rosto. Até que se deu conta dos hematomas que tinha na cara.


- General… - disse a modo de reprimenda - Está bem?


- Estou perfeitamente, Liza, obrigado. Só vim recolher o pedido.


Ela o olhou e enrugou o cenho.


- O dava ao Nick ontem, não lhe há isso dito?


Harry amaldiçoou em seu interior. Tinha que haver imaginado. A única ocasião em que seu Escudeiro se lembrava de recolher um encargo e dava a casualidade de que fosse a única ocasião em que teria tido que esperar.


Nesse momento, escutou-se um ruído nos fundos, depois das cortinas cor borgonha. Harry percebeu uma estranha vibração, uma que fazia muito tempo que não sentia.


Assim que a sensação se desvaneceu, lhe deixando a pele arrepiada, as cortinas se abriram sozinhas. Entre as sombras se adivinhava a silhueta de um homem cuja presença dominava toda a estadia. Com seus dois metros de altura e vestido por completo de negro, conseguia que todas as criaturas tremessem de medo ou que ficassem imóveis ante sua presença.


Ou, no caso do Harry, que o olhassem com expressão assassina.


Acheron sorriu, e seu rosto adotou uma expressão ainda mais pícara, se pudesse. Embora os Ray-Ban Predator lhe ocultassem os olhos, era capaz de fazer que as mulheres se deprimissem tão somente olhando. Arrogante e duro, nem fazia prisioneiros, nem mostrava compaixão por ninguém.


Era uma criatura com muitas peculiaridades, entre elas, e a que mais chamava a atenção, seu cabelo, que não durava muito da mesma cor. O trocava tão freqüentemente que as maiorias dos Caçadores Escuros faziam apostas sobre a nova cor da semana. Essa noite o tinha tingido de verde escuro, recolhido para trás em um laço e com uma pequena trança que lhe caía da nuca, por cima do ombro, até o peito.


- Acheron. - o saudou Harry, sem ocultar sua irritação - Veio a me vigiar?


- Nunca, irmãozinho. Estou aqui de turismo. O que te parece?


- Sim, claro. Tem toda a pinta de um turista. Esse cabelo verde escuro passaria despercebido em qualquer lugar.


Ao Ash fez graça o sarcasmo do Harry e soltou uma gargalhada.


- Bom, supus que, já que Talon está protegendo a… como se chama…? Tabitha, e você vai atrás do Desi-Desastroso, não lhes viria nada mal que lhes desse uma mão.


- A última vez que pedi que alguém me desse uma mão, Artemisa me enviou uma mumificada.


Ash sorriu.


- Já sabe que, tratando-se dos deuses, terá que ser muito concreto. Além disso… tenho informação.


- Podia havê-la mandado por correio eletrônico.


Acheron se encolheu de ombros.


- Minha presença não significa nada. Sabe que não vou interferir em sua luta com o Desiderius.


E por que não acabava de acreditar-lhe. Claro, porque ao Acheron Parthenopaeus adorava colocar o nariz sempre que aparecia um Daimon interessante.


- Parece-me que já ouvi isso antes.


- Muito bem. - disse, encolhendo-se de ombros com um gesto indiferente - Já que não quer a informação que tenho, guardo-a e me…


- Sei da mensagem dos Oráculos.


- Mas não conhece o resto da história. - os interrompeu Liza.


Acheron a olhou com o cenho franzido.


- Que história? - perguntou Harry.


Ash tirou um chiclete de um bolso e começou a desembrulhar o de forma meticulosa.


- Há dito que não te interessava.


- Muito bem, irei atrás dele sem necessidade de saber mais.


Quando chegou à porta, a voz do Acheron o deteve.


- Não te parece estranho que Desiderius tenha poderes que vão mais à frente do alcance de um Daimon?


- Vá! - exclamou Harry, dando a volta para olhar ele de frente - Deixa que o pense… Sim.


A Liza lhe escapou uma risadinha que fez que Acheron a olhasse de soslaio furioso. A anciã se endireitou e soltou uma gargalhada, desculpando-se antes de retornar correndo ao fundo da loja, onde seguiu se matando de rir.


Acheron a seguiu com o olhar até que desapareceu depois das cortinas e depois voltou a emprestar atenção ao Harry, adotando uma atitude séria.


- Muito bem. Estes são os fatos: parece ser que ao velho Baco lhe deu um esquentamento uma noite e montou com uma neném apolita. Nove meses depois nasceu Desiderius.


- Merda.


- Exato. - comentou Acheron enquanto pegava uma das bonecas que Liza fazia a imagem da Artemisa. O parecido era tão surpreendente que, por um momento, desconcertou-o. Deixou-a de novo na estante e seguiu falando - O bom é que ao papai Baco não importou já que, do começo dos tempos, foi dispersando bastardos pelo mundo. O mal é que Desiderius fez uma pequena manha de criança quando os familiares de seu papai não emprestaram a mais mínima atenção à chegada de seu vigésimo sétimo aniversário, que marcava o fim de seus dias. E, sendo um semi-deus, pensou que se merecia uma vida um pouco mais longa… digamos que… imortal.


- E se converteu em um Daimon.


Ash assentiu com a cabeça.


- Com seus poderes de semi-deus nos iguala em velocidade, força e destreza. E, ao contrário que nós, não o ata nenhum Código.


- Isso explica um montão de coisas, não? Se não vai atrás dos deuses, persegue os seus servidores.


- Exatamente. Somos o objetivo principal do Desi.


- Uma pergunta.


- Tenho que responder?


Harry não emprestou atenção ao sarcasmo.


- Por que tem que ser um Caçador Escuro com alma o que o derrote?


- Porque diz a profecia e já sabe como funcionam essas coisas.


- E você como sabe tudo isto?


Acheron voltou a olhar à boneca que tinha pegado momentos antes.


- Ontem à noite estive falando com a Artemisa. Custou-me um pouco, mas ao final o tirei.


Harry se deteve a pensar um instante. Ash sempre tinha sido o Caçador Escuro favorito da deusa. Que Artemisa o demonstrasse de forma tão aberta despertava a inveja de alguns Caçadores, mas não lhe importava. Ao contrário, agradecia muito ao Ash que lhe arrancasse informação à deusa para poder ajudá-los em sua tarefa.


- Sabe? - disse ao Acheron - Algum dia terá que me explicar que tipo de relação tem e por que é o único Caçador Escuro que pode estar na presença de um deus e não acabar frito.


- Pode que algum dia lhe conte isso, mas não será esta noite. - pegou uma espada retrátil e uma adaga arrojadiza e as ofereceu - Agora move a bunda e retorna à cama. Tem um trabalho que concluir e precisa recuperar as forças.


Harry se aproximou da porta.


- Ouça, por certo.


Harry se deu a volta para olhar ao Ash.


- Não te ocorra voltar sozinho a sua casa.


- Como diz?


- Desiderius tem seu número. Ali não está seguro.


- Importa-me uma merda que…


- Me escute, general. - disse Acheron com tom ameaçador - Ninguém está pondo em dúvida sua capacidade para fazer do Desiderius o próximo aperitivo do Road Kill Diner, mas não esqueça que tem gente a que proteger, incluindo um cajun teimoso, igual de disposto que você a seguir ordens… e a uma bruxa com poderes adormecidos. Assim, por uma vez em sua vida, poderia fazer o que te ordena, sem pigarrear?


Harry compôs um sorriso forçado.


- Só esta vez, não vai se acostumar.


Ash o seguiu com o olhar enquanto saía da loja. Assim que a porta se fechou, Liza retornou da parte traseira.


- Por que não lhe disse que Artemisa te deu sua alma? - perguntou-lhe.


Ash colocou a mão no bolso, onde guardava o medalhão.


- Ainda não chegou a hora, Liza.


- E como saberá que é o momento indicado?


- Confia em mim, saberei.


A anciã fez um gesto de assentimento e sustentou as cortinas para que Acheron passasse ao fundo da loja.


- E… falando de gente que não atende suas feridas, vêem aqui e me deixe que te ajude. Por amor de Deus! Não vi em toda minha vida a alguém com as costas tão destroçada. Não entendo por que consente que lhe façam algo assim, e sei que deixa isso, porque um Caçador Escuro com seus poderes jamais deixaria que o maltratassem deste modo sem seu consentimento.


Ash não respondeu. Tinha suas razões. Artemisa nunca estava disposta a entregar a alma de um de seus Caçadores. O preço a pagar era muito alto. Tinha sacrificado parte de sua carne para poder lhe dar ao Harry a oportunidade de acabar com o Desiderius. Mas mais que nada, os hematomas e as cicatrizes de suas costas eram os preços da felicidade do general. Um ritual sangrento ao que se submetia a gosto cada vez que um Caçador Escuro queria recuperar sua alma.


Um ritual que todos eles desconheciam.


O que havia entre a Artemisa e ele era estritamente privado. E já se encarregaria ele de que seguisse sendo-o.


 


Harry se dirigiu ao Bourbon Street, no mesmo lugar onde se encontrou com os dois humanos, seguidores do Desiderius. A dor do lado começava a diminuir, embora ainda fosse horrorosa. Demorou mais de meia hora em encontrá-los.


A expressão que o imbecil pôs ao vê-lo foi impagável.


- Porcaria!


Harry o pegou antes que pudesse sair correndo.


- Diga ao Desiderius que isto ainda não acabou.


O moço assentiu e, quando Harry o soltou, afastou-se correndo rua abaixo.


Sabia que a primeira regra em uma guerra era a de utilizar o fator surpresa como garantia de uma vitória quase segura. Acabava de jogar por terra sua melhor chance para ganhar. Mas não podia manter essa vantagem a risco de que Gina, ou alguém de sua família, acabassem feridos. Desiderius não iria atrás deles enquanto tivesse um Caçador Escuro com o que enfrentar-se.


Voltou coxeando ao carro do Nick e, por fim, retornou junto à única pessoa com a que se sentia em paz.


- Onde estiveste? - perguntou-lhe Gina ao vê-lo chegar.


- Tinha coisas que fazer.


Nick soltou uma maldição.


- Foste em busca do Desiderius, verdade? - e soltou outro taco - Lhe mandaste uma mensagem para que saiba que está vivo.


Harry o ignorou e foi até o sofá para sentar-se.


- Está bem? - perguntou-lhe Gina.


Nick o olhou com cara de poucos amigos. Abria e fechava os punhos enquanto se passeava ao redor do sofá.


- Merda Harry, por que…?


- Nick, me deixe. Não estou de bom humor.


A expressão do Escudeiro se escureceu ainda mais e lhe dilataram as aletas do nariz.


- Muito bem. Sai e deixa que lhe matem. A mim que me importa? Assim fico com a casa, com os carros e com tudo. Vá atrás do Desiderius e lhe diga que está ferido e meio morto. Ou melhor, ainda, por que não deixa a porta aberta e o convida a entrar?


- Nick, assim não vamos a nenhum lugar. - o arreganhou Gina. Via o sofrimento do Nick, amava a seu Caçador Escuro como se fossem irmãos.


- Sabe o que te digo? - seguiu ele, falando entre dentes - Que me importa uma merda, porque não necessito a ninguém. - e assinalando ao Harry continuou - Não te necessito e não necessito seu puto dinheiro. Sempre me arrumei isso sozinho. Assim se quer pode te largar para que lhe matem, porque me dá igual.


Nick se deu a volta para partir, mas em um abrir e fechar de olhos, Harry se levantou e se plantou diante dele. Seu Escudeiro o olhou furioso.


- Te tire do meio.


A expressão do Harry era quão mesma adotaria um pai imensamente paciente frente a um adolescente rebelde.


- Nick, não vou morrer.


- Sim, claro. Quantas vezes acredita que Streigar disse o mesmo a Sharon antes que o convertessem em um Caçador Escuro extra frito? - livrou-se das mãos do Harry encolhendo-se de ombros e saiu da casa como alma que leva o diabo.


Na mandíbula do Harry começou a palpitar um músculo enquanto pegava o celular e marcava.


- Acheron. - disse depois de uma breve pausa - Tenho um Escudeiro renegado que acredito que se dirige ao Bairro Francês em um Jaguar novo, modelo XKR conversível de cor chumbo. Pode detê-lo antes que cometa uma estupidez?


Com o cenho franzido pela preocupação, olhou a Gina aos olhos e seguiu escutando ao Acheron.


- Sim, obrigado.


Fora qual fosse o comentário do Acheron, conseguiu irritá-lo bastante.


- Sim, OH, amo e senhor! Estou descansando.


E, imediatamente, viu-se claramente perplexo.


- Como sabe que estou de pé?


Depois de um momento, soltou um bufido.


- Me beije o traseiro, Ash. Que tenha sorte com o Nick. - e cortou a chamada.


Embora Gina não tivesse escutado exatamente o que Acheron havia dito, pôde imaginar-lhe facilmente.


- Tem razão, precisa te deitar.


Os olhos negros do Harry a fulminaram.


- Não necessito que me mimem.


- Muito bem, Nick. Também vais dizer que não necessita nada nem a ninguém antes de partir com uma exalação?


Ele a olhou com um sorriso tímido.


- Agora já sabe por que o suporto. Somos farinha do mesmo saco.


Gina soltou uma gargalhada, mesmo que lamentava o que lhes estava acontecendo a ambos.


- Deixa que adivinhe… foi igual a ele quando tinha sua idade?


- Em realidade, Nick é muito mais suportável que eu. E tampouco é tão teimoso como eu estava acostumado a sê-lo.


Gina se aproximou dele e lhe rodeou a cintura com os braços.


- Vêem, vamos acima.


Para sua surpresa, Harry permitiu que o levasse de volta à cama, à habitação de convidados.


Enquanto o despia, viu as cicatrizes rosadas das feridas, já quase curadas. Pegou-lhe um braço e acariciou as pequenas incisões provocadas pelos pregos.


- Não posso acreditar que esteja em pé tão logo, depois do que te aconteceu.


Ele suspirou.


- Não pode manter a um Caçador Escuro fora de jogo muito tempo.


Gina mal escutava suas palavras. Enquanto lhe acariciava as feridas, multidões de imagens foram a sua mente, a raiva do Harry, sua dor. E, nesse momento, viu um esboço do futuro: Harry encadeado a um muro, com os braços estendidos, a mercê do Desiderius.


A morte do Harry.


Com um ofego, soltou-lhe o braço e se afastou dele.


Ele a olhou, preocupado.


- O que te passa?


Consumida pelo pânico, deu-lhe uns tapinhas no peito. Tentou lutar contra o ataque de ansiedade e adotar uma atitude normal, mas por dentro, a dor lhe resultava insuportável. Não podia deixá-lo morrer. Assim não.


Olhou-o fixamente, obrigando-se a permanecer calma.


- Tem que superar o passado. Se te segue aferrando a ele, Desiderius acabará contigo.


Ele desviou o olhar.


- Sei.


- E o que vais fazer? Se segue recordando voltará a te apanhar.


- Me posso arrumar isso Gina.


- Ah, sim? - perguntou-lhe, lutando contra as lágrimas que lhe impediam de respirar, ao recordar a visão.


Meu deus, assim não.


Não podia suportar perdê-lo. A idéia de passar um só dia sem sentir seus braços rodeando-a, sem escutar sua voz, ou sua risada… era inimaginável. A dor era insuportável.


- Posso me controlar. - insistiu ele.


Mas ela sabia a verdade. Tinha vivido sua execução em carne própria. Sabia que jamais o superaria. Limitou-se a expulsar essa realidade de sua mente, em lugar de enfrentar-se a ela.


E, de repente, soube como podia liberá-lo de seus demônios.


Ou ao menos tentá-lo.


- Volto em um momento.


Harry observou como saía do quarto, deixando-o com muitas dúvidas. Sabia melhor que ninguém qual era seu ponto débil. Quão único Desiderius tinha que fazer era encadeá-lo com os braços estendidos e o pânico o deixaria fora de jogo. As lembranças eram tão dolorosas que não podia lutar contra eles. Passou-se uma mão pelos olhos. Tinha que haver uma maneira de expulsar a dor de sua mente. Tinha que haver algum modo de enfrentar-se ao Daimon com a cabeça fria.


Enquanto considerava qual poderia ser a melhor solução, os minutos foram passando.


Até que se deu conta de que alguém o observava.


Deu-se a volta na cama, até ficar deitado de lado, e viu a Gina na porta com uma bandeja nas mãos e vestida com um roupão branco de cetim longo e vaporoso. Entrou no quarto, sorrindo com ternura, e deixou a bandeja sobre a cômoda.


Harry a olhou, sentido saudades.


Aproximou-se da cama, movendo-se com sua característica elegância, e se apoiou no colchão, dobrando um joelho. A bata se abriu com o movimento. Inclinando-se para diante, empurrou-o até deixá-lo deitado sobre as costas. Harry não deixava de lhe olhar a perna, coberta com uma meia e, um pouco mais acima, a parte de renda da cinta-liga que a abertura da bata deixava à vista.


O sorriso da Gina se alargou quando tirou do bolso um largo cachecol de seda.


Harry a olhou com o cenho franzido enquanto observava como a enrolava no pulso.


- O que está fazendo?


- Vou fazer que melhore.


- O que?


- O passado.


- Gina. - resmungou, enquanto lhe pegava o braço e o aproximava da cabeceira da cama. Assim que se deu conta de suas intenções se separou dela de um salto - Não!


Ela voltou a agarrá-lo do braço e o aproximou do peito.


- Sim.


Gina observou como o pânico invadia seu olhar.


- Não. - repetiu Harry com firmeza.


Umedecendo-os lábios, aproximou-se a mão do Harry à boca. Separou os lábios e começou a lhe chupar brandamente as pontas dos dedos.


- Por favor, Harry. Prometo-te que não te arrependerá.


Ao contemplá-la, o desejo começou a abrir-se passo em suas vísceras. Viu como a língua da Gina lhe lambia a pele, lhe percorrendo os dedos. E quando lhe chegaram às unhas pela parte interna do pulso e subiu pelo braço, estremeceu-se de cima abaixo.


Gina se afastou a mão dos lábios e a aproximou da abertura do roupão para deixá-la sobre um peito nu.


- Por favor, sim?


Com a respiração entrecortada, Harry fechou a mão sobre o peito. Custava-lhe muito trabalho recordar o que lhe estava pedindo. Sua confiança. Algo que não tinha entregado a ninguém desde fazia dois mil anos.


Aterrorizado pelo que lhe tinha acontecido a última vez que cometeu o engano de confiar em alguém, olhou-a aos olhos e, ao fazê-lo, sua vontade começou a rachar-se. Seria capaz GIna de traí-lo algum dia? Teria o suficiente valor para atrever-se?


Nesta ocasião, quando ela guiou seu braço até o poste da cama, apertou os dentes, mas não se moveu e permitiu que o atasse a cabeceira. Não obstante, seu coração começou a pulsar mais depressa.


Gina sabia que acabava de obter uma pequena vitória. Sem deixar de sorrir, atou o cachecol com um nó muito frouxo.


- Pode te soltar em qualquer momento. - lhe disse - Só tem que me dizer isso e desfarei o nó. Mas, se o fizer, deterei-me imediatamente.


- Deterá-te?


- Já verá o que me refiro…


Pegou-lhe o outro braço e enrolou outro cachecol ao redor do pulso. Harry não deixou de observar o processo com a respiração acelerada. Quando o atou não disse nada, o que surpreendeu gratamente a Gina, embora tinha a frente coberta de suor.


Atirou dos cachecóis e o movimento fez que os músculos dos braços se contraíssem e se avultassem.


- Eu não gosto disto. - lhe confessou, tentando liberar-se.


Engatinhando sobre seu corpo, Gina lhe pegou os pulsos com as mãos e o sustentou. Baixou a cabeça e o beijou com suavidade nos lábios.


Harry se esticou ao sentir a língua da Gina na comissura dos lábios, procurando a entrada de sua boca. Ele o permitiu de boa vontade, separando os lábios e gemendo assim que suas línguas se roçaram e provou seu sabor.


Seus beijos eram o mais próximo ao paraíso que um homem sem alma podia encontrar. O aroma a rosas invadia os sentidos, lhe fazendo perder a cabeça e pondo-o a cem. Deixando-o sem fôlego. O tempo se deteve quando suas mãos lhe acariciaram o torso e sentiu o roçar de seus mamilos sob o cetim.


Quando tentou abraçá-la, recordou que o tinha preso. Com um grunhido de frustração, atirou dos cachecóis.


Ao escutar como a seda se rasgava, Gina interrompeu o abrasador beijo e se afastou um pouco.


- Recorda - lhe disse com voz rouca - se te soltar, quão único conseguirá será uma ducha fria.


Deteve-se imediatamente, mas para seu desgosto, viu como Gina se afastava dele e deslizava as mãos sobre o roupão, dos seios até o cinto. Muito lentamente, tomando-se seu tempo, desatou-o e afastou o objeto até deixar os seios nus à vista.


Harry acreditou que ia estalar em chamas quando o cetim caiu a seus pés.


E, para seu deleite, não estava completamente nua. Tinha colocado a cinta-liga azul marinho que lhe tinha comprado. Nada mais que vê-la lhe deu água na boca.


Muito devagar e de forma sedutora, voltou para a cama e subiu sobre ele, com os sensuais movimentos de uma gata, deixando que os mamilos roçassem conforme subia da cintura até o peito. Harry gemeu ao sentir como se estirava sobre seu corpo.


- Como vamos, general?


Ele tragou saliva antes de responder.


- Muito bem.


Sorrindo, Gina lhe acariciou o queixo com os lábios e a língua.


- Muito melhor quando faz isso. - sussurrou ele com o corpo enfebrecido por suas carícias.


Ela se retirou com uma gargalhada.


- O que te parece então se te deixar cego de prazer?


Ele atirou das ataduras.


- Dá-me a sensação de que sou todo teu, carinho.


Gina desejava com todas suas forças que isso fosse certo. Desceu da cama e se aproximou da bandeja. Enquanto pegava a jarra de mel temperado, recordou o azeite fervendo que os romanos tinham usado para torturá-lo. Recordou a expressão de dor de seu rosto quando o verteram sobre seu corpo, escaldando-o. Com o coração em um punho, retornou à cama, onde Harry jazia a sua mercê. Aproximou-lhe a jarra ao peito e observou como a lembrança dessa tortura lhe escurecia o olhar.


Instintivamente, Harry se encolheu assim que o mel o roçou. Mas ali não havia dor. Não se formavam ampolas nem lhe queimava a pele. Em realidade, era bastante agradável. Relaxou-se e observou como Gina derramava o espesso líquido dourado, riscando pequenos círculos ao redor de seus mamilos para depois estendê-los com as unhas e descender até o estômago, lhe provocando contínuos calafrios.


Uma vez deixou a jarra a um lado, começou a lamber cada gota de mel que tinha derramado sobre seu corpo. Cada lambida lhe provocava um estremecimento de prazer. Quando lhe introduziu a língua no umbigo seu membro se endureceu ainda mais.


Gina soltou uma risada gutural e o olhou, reclinada sobre seu umbigo. Nesse momento, moveu-se para cima, deslizando a língua do ventre até a noz. Gemendo de prazer, Harry jogou a cabeça para trás, lhe facilitando o acesso a seu pescoço e, quando sentiu como seus dentes o arranhavam, estremeceu-se da cabeça aos pés.


- Gina. - ofegou.


Sem deixar de lhe sorrir, voltou a descer da cama e pegou uma pequena terrina. Não sabia de onde tinha saído essa faceta atrevida, jamais se tinha comportado desse modo, mas queria salvar ao Harry a qualquer preço. Além disso, algo estranho lhe estava acontecendo enquanto fazia todo isso por ele, como se uma parte de si mesmo se estivesse liberado.


Afastando essa idéia de sua mente, afundou os dedos na terrina de creme batida e os aproximou dos lábios do Harry. Com o polegar, traçou o contorno dessa boca perfeita.


Harry lambeu o creme enquanto ela se sentava escarranchado sobre sua cintura. Que maravilha sentir a umidade de seu corpo sobre ele. Estava-o voltando louco. E quando se moveu para baixo e roçou seu inchado membro acreditou morrer de prazer.


- Me deixe te dar de comer, general. - lhe sussurrou antes de lhe aproximar o dedo à boca, muito devagar, para que saboreasse o creme batido.


Harry tragou saliva ao sentir a voragem de suas emoções. Estava recriando a crueldade do Valerius. Mas não havia dor com a Gina, a não ser um prazer tão intenso como jamais tinha conhecido. Olhou-a aos olhos e lhe sorriu fracamente.


- Por que está fazendo isto? - perguntou-lhe.


- Porque me preocupo com você.


- E por quê?


- Porque é o homem mais maravilhoso que conheci em minha vida. Claro, que não terá que esquecer que é teimoso e irritante, mas também, amável, generoso e forte. E me faz sentir tão…


Ele levantou uma sobrancelha.


Gina se sentou sobre sua cintura e o olhou.


- O que se supõe que significa isso?


- O que? - perguntou ele com expressão inocente.


- Esse olhar.


Harry franziu o cenho.


- Que olhar? - perguntou enquanto tentava abraçá-la, sem recordar que estava preso. Que estranho que o tivesse esquecido por completo.


Ela baixou a cabeça e o beijou.


Harry soltou um gemido ao sentir os lábios da Gina sobre os seus, ao sentir essa língua que entrava e saía de sua boca, lhe levando o sabor do creme.


Afastou-se um pouco e lhe perguntou:


- Você gosta?


- Muito. - respondeu ele.


- Então, isto te vai encantar.


Seguiu-a com o olhar enquanto descendia por seu corpo, pegava a terrina e começava a lhe estender o creme pela virilha. Seus dedos lhe acariciavam o membro enquanto o cobriam por completo com o frescor do creme.


A sensação o estava levando ao limite e não pôde evitar gemer.


Gina lhe separou as pernas e se deteve um instante a contemplar sua obra de arte. Depois, olhou-o aos olhos e se agachou entre suas coxas para lhe lamber os testículos.


Harry grunhiu ao sentir as carícias de sua língua na parte mais vulnerável de seu corpo. Ela fechou os lábios a seu redor e o lambeu, sugando primeiro o de um lado com suavidade antes de passar ao outro e proceder do mesmo modo. Sentia-se assaltado por contínuas ondas de prazer e atirava das ataduras sem ser consciente do que fazia. Jamais tinha experiente nada tão prazenteiro como os beijos da Gina e as carícias de sua língua sobre a pele.


Quando os testículos estiveram livres de creme, aproximou-se de seu membro. Assim que a meteu na boca, Harry se esticou, Gina o estava olhando aos olhos, observando suas reações.


Sem afastar o olhar, passou a língua pelo extremo de sua ereção, atormentando-o e deixando-o sem fôlego, lhe lambendo a glande antes de baixar a cabeça e tomá-lo por completo na boca. Harry acreditou que tudo começava a lhe dar voltas quando baixou a mão e lhe acariciou os testículos de uma vez. A sensação lhe fez gemer e arquear-se baixo ela, de forma instintiva, afundando-se ainda mais em sua boca, embora Gina não tenha protestado.


Soltou um gemido quando notou que sua parte animal começava a tomar as rédeas. O desejo que despertava nele raiava a obsessão.


- Gina. - balbuciou com voz rouca e entrecortada - Quero degustar você.


Deu uma nova lambida e levantou a cabeça para olhá-lo aos olhos.


- Como? - perguntou-lhe enquanto começava a engatinhar sobre seu corpo, fazendo que a respiração do Harry se alterasse mais.


Sentou-se escarranchada sobre sua cintura, colocou as mãos sobre seus lados e o olhou.


- Me diga o que quer me fazer. - lhe disse com as bochechas ruborizadas por seu atrevimento.


Harry percebia os sentimentos da Gina enquanto a contemplava. Estava assustada e insegura, mas queria ajudá-lo a todo custo. Mais emocionado do que deveria, umedeceu os lábios antes de falar.


- Quero provar seus seios. - lhe disse entre ofegos.


- Assim? - perguntou-lhe ela, elevando-lhe com suas próprias mãos a modo de oferenda.


Ele gemeu ao ver como Gina se tocava.


- Sim. - ofegou - E quero lambê-los.


Sorrindo, aproximou-lhe um peito aos lábios.


Harry deu um puxão às ataduras enquanto chupava um endurecido mamilo, saboreando-o. Os murmúrios de prazer da Gina ressonavam em seus ouvidos, estimulando-o ainda mais. Voltou a atirar dos cachecóis e a seda se rasgou.


Ela riu maliciosamente.


- Se te soltar, Harry, ponho-me o robe e aqui se acaba tudo. Isso é o que quer?


Respondeu meneando a cabeça e relaxou os braços.


- O que é que quer, então?


- A você. - A verdade escapou de seus lábios antes de poder detê-la.


- A mim? - perguntou ela iludida.


Incapaz de lhe dar esperanças quando não havia um futuro para eles, Harry acrescentou:


- Quero estar dentro de ti.


E, nesse momento, sentiu a pontada de desilusão que experimentou ela e se sentiu fatal por lhe haver feito mal.


- Gina…


- Shhh. - o silenciou ela, lhe colocando a mão sobre os lábios - Sou toda tua. - lhe sussurrou de uma vez que se empalava sobre seu membro.


Harry fechou os olhos assim que a deliciosa umidade da Gina se deslizou contra seu membro. Ela se inclinou para diante e capturou seus lábios enquanto o montava com arremetidas profundas, seguindo um ritmo pausado. Mordiscou-lhe o pescoço e, quando voltou a beijá-lo ao mesmo tempo em que acelerava o ritmo de seus quadris, sentiu o gemido do Harry sobre a língua. Sentiu-o retorcer-se entre suas coxas. Viu-o jogar a cabeça para trás e grunhir como um animal enjaulado antes de afundar os pés no colchão e tomar impulso para levantar os quadris e afundar-se até o fundo nela.


Gina soltou um grito pela intensidade do orgasmo que experimentou. Mas notou que ele ficava rígido como uma vara.


- Não te mova. - lhe disse entre dentes.


Obedeceu sem lhe perguntar as razões. Tinha os olhos fechados, os dentes apertados e a frente coberta por uma capa de suor. Seu corpo tremia convulsivamente. Depois de um minuto, soltou um fundo suspiro, abriu os olhos e a olhou.


- Já pode me desatar?


Gina assentiu com a cabeça e se deu conta de que ele não tinha chegado ao orgasmo. Tinha lutado com todas suas forças para não fazê-lo. E, embora entendesse o porquê, uma parte de si mesmo se sentiu ferida ao ser consciente de que Harry não confiava plenamente nela.


Deixa-o já! Disse-se. É uma imbecil além de uma egoísta. Necessita seus poderes.


Nesse momento mais que nunca.


Harry rasgou os cachecóis com uma facilidade que a deixou surpreendida e, uma vez suas mãos estiveram livres, abraçou-a com força.


- Obrigado, carinho. - lhe disse, beijando-a com ternura.


Respondeu-lhe com um sorriso.


- Foi um prazer.


Ele soltou uma gargalhada pelo acertado da resposta e a jogou sobre a cama, a seu lado, colocando-a de lado. Tombou-se a suas costas e a abraçou, como se lhe aterrasse o fato de estar separados. Não demorou muito em ficar dormido.


Limitou-se a desfrutar do momento enquanto o quente fôlego do Harry lhe acariciava o ombro nu e desejou com todas suas forças que o que tinha feito essa noite o ajudasse na próxima confrontação com o Desiderius.


 


Gina despertou ao escutar o telefone. Quando se incorporou, deu-se conta de que tinham dormido abraçados e ao recordar tudo o que lhe tinha feito a noite anterior, ruborizou-se intensamente. Jamais se tinha comportado de um modo tão desavergonhado, mas com ele não se havia sentido coibida.


Separou-se de seus braços e correu até o quarto de Esmeralda para responder o telefone.


- Sim?


Era Essie.


- Gi, graças a Deus que está ainda aí. Meu carro se danificou e tive que estacioná-lo no borda. Importa-te vir a me recolher?


- Claro que não.


Anotou a direção, deu-se uma ducha rápida e retornou à habitação de convidados para vestir-se.


Inclinando-se sobre o Harry lhe deu um beijo na bochecha. Quando ia afastar-se ele a sujeitou pelo pulso.


- Aonde vai?


- A recolher a Essie.


- Não é seguro.


- Estamos a plena luz do dia. Não me vai passar nada.


O olhar do Harry era bastante eloqüente, não gostava de nada que saísse.


- Quanto falta para que anoiteça?


- Horas.


- De acordo, mas volta diretamente aqui.


- Sim, meu comandante!


- Não tem graça.


Beijou-o nos lábios e partiu.


 


Despertou pouco tempo depois. Ao levantar-se deu conta de que a maior parte das feridas tinha desaparecido. Tirou as ataduras manchadas de sangue e as atirou ao cesto de papéis, situada junto à porta.


- Gina? - chamou-a, aparecendo ao corredor.


Ninguém respondeu. Na casa não se escutava nenhum som, tudo estava em silêncio. Ainda estava fora.


Pegou sua roupa e entrou no banheiro. Não demorou muito em tomar banho, barbear-se e vestir-se. Uma vez asseado, voltou para o quarto. Deteve-se na porta ao ver a Gina. Levava uns jeans muito ajustados e uma camiseta negra que ocultava essas curvas que ele morria por acariciar. O cabelo solto lhe dava uma aparência muito sensual.


Aproximou-se em silêncio a ela, que estava de costas, e viu que estava olhando o cesto de papéis. Sem falar, inclinou a cabeça e lhe mordiscou o pescoço.


Assim que seus lábios a roçaram captou seu aroma.


Não era Gina.


Era Tabitha.


 


 


CAPÍTULO QUATORZE


 


Harry retrocedeu, afastando-se dela, enquanto Tabitha se girava para olhá-lo frente a frente. Ainda tinha a cara machucada pela surra que lhe tinham dado os seguidores do Desiderius e levava um curativo sobre os pontos de sutura. Agachou-se, meio coxeando, e adotou uma postura de ataque.


Doeu-lhe vê-la assim.


Não tinha sido capaz de proteger a uma das pessoas que Gina mais queria e jurou que jamais voltaria a acontecer.


- Quem é? - exigiu saber Tabitha - Onde está Esmeralda?


Harry deu uma olhada ao espelho e, ao ver que não se refletia, retrocedeu um passo mais, antes que ela o notasse.


- Lhe estragou o carro quando retornava e Gina foi recolhê-la.


Deu-se conta, muito tarde, de que devia ter mantido a boca fechada porque Tabitha o reconheceu assim que o escutou falar, seu acento era inconfundível.


- Você! - chiou - O que tem feito a minhas irmãs?


- Nada, estão bem.


- É uma merda! - exclamou ao tempo que se equilibrava sobre ele.


Harry se deu a volta e se afastou correndo pelo corredor, não queria lhe fazer mal.


- Um vampiro! - gritou Tabitha.


Escutou ruídos no andar de baixo e se deu conta de que a irmã gêmea da Gina não estava sozinha.


- Abram as cortinas! - e enquanto gritava a ordem pegou o cordão do trilho das cortinas do corredor e atirou com força.


Harry gemeu quando a luz do sol o roçou. Saltou sobre o corrimão e aterrissou na sala de estar do primeiro piso.


Dois pares de olhos o olharam atônitos, observando-o de cima abaixo. O homem de cabelo escuro ficou muito pálido, mas a garota loira reagiu com rapidez e se aproximou da janela sem perder tempo para subir as persianas.


Antes que pudesse mover-se, Tabitha estava sobre ele, lhe lançando um golpe com o pé que lhe deu no lado, sobre a ferida.


- Morre, filho de puta!


Harry gemeu, lhe mostrando as presas, e saltou para trás girando no ar, para escapar para a cozinha. Mas teve que deter-se o chegar à porta e ver que a luz do sol entrava em torrentes na estadia. Não havia nem um só lugar em todo o quarto onde não corresse o risco de acabar frito.


Nesse momento, algo duro e afiado o golpeou no ombro. Com um grunhido, deu-se a volta e viu a Tabitha que empunhava uma adaga alongada, disposta a afundar-lhe de novo. Sujeitou-a pelo pulso no mesmo instante que seus dois amigos se equilibravam sobre ele. Os quatro se cambalearam e, de um empurrão, conseguiu desfazer-se de um deles. Tentou retornar à sala de estar, mas de algum modo, Tabitha as arrumou para interpor-se em seu caminho.


Levantou a adaga direta a seu estômago, o ódio que sentia por ele se refletia de forma alarmante em seus olhos. Harry saltou para trás e um raio de sol lhe deu nas costas. A dor o fulminou imediatamente. Gemendo de novo, esquivou-a e correu de volta à sala, tentando permanecer nas sombras.


Tabitha e seus dois amigos se jogaram sobre ele e o lançaram contra a porta. Enquanto o atiravam ao chão, as palavras do Desiderius ressonaram em seus ouvidos.


Tornarão-se sobre ti como uma manada de cães selvagens.


Tabitha se sentou sobre seu peito, lhe rodeando o pescoço com uma mão, e seus dois amigos o pegaram pelos braços, estendendo-os. Se o tivessem atacado desse modo no dia anterior, o pânico teria o tornado louco. Mas nesse momento recordou a Gina enquanto o atava e sentiu uma estranha lucidez.


- O que tem feito com minha irmã? - perguntou Tabitha.


- Nada.


- Não me minta! Vi as ataduras manchadas de sangue no cesto de papéis.


Tentando não lhe fazer mal, levantou as pernas e a pegou com elas para lançá-la para trás, no mesmo momento que tentava lhe afundar a adaga na garganta. Falhou por milímetros. Deu-lhe um murro no estômago ao cara que estava a sua direita e jogou a garota loira sobre o sofá. Quando sentiu que Tabitha lhe mordia na coxa soltou uma maldição, tirou-lhe a adaga e a atirou ao chão, onde ficou cravada em uma das fitas de seda do piso.


- Me escute.


- Não! - gritou ela enquanto se retorcia e tentava golpeá-lo com os punhos.


Harry girou no chão e se colocou sobre ela, imobilizando-a. Todos seus instintos lhe exigiam que a deixasse inconsciente, mas, ao observar esse rosto tão parecido ao da Gina, deu-se conta de que jamais poderia lhe fazer mal.


Esse momento de incerteza lhe custou muito caro. Seus amigos voltaram a apanhá-lo de novo. Os quatro rodaram pelo chão e Harry conseguiu ficar em pé ao tempo que a porta da rua se abria e alagava de luz o quarto.


Soltando outro taco, conseguiu chegar como pôde a um canto escuro.


O grito da Gina ressonou por toda para casa.


- Já basta!


Tabitha e seus companheiros ficaram imóveis ao escutá-la e Harry aproveitou para recuperar o fôlego. Sentia uma dor aguda nas novas feridas e o sangue lhe corria pelas costas. Gina se aproximou correndo a ele e o tocou, inspecionando as feridas.


Sua irmã arrancou a adaga do chão e se aproximou deles com atitude decidida e furiosa, sem deixar de olhar ao Harry aos olhos.


- Te aparte de meu caminho, Gina. Estou a ponto de matar a um vampiro.


- Equivoca-te. - a interrompeu Esmeralda, fechando a porta da entrada e colocando-se entre a Tabitha e Harry - Está a ponto de matar ao namorado de sua irmã gêmea.


Tabitha a olhou com a boca aberta e se deteve imediatamente, olhando ao Harry e a Gina alternadamente.


- Como há dito?


Gina ignorou a sua irmã.


- Está bem?


Harry se passou a mão pela ferida aberta do braço.


- Nunca estive melhor.


- E pergunta a ele? - resmungou Tabitha com incredulidade - E os meninos e eu, o que? Não vejo que esteja muito preocupada conosco. Esteve a ponto de nos decapitar.


Gina lançou um olhar furioso a sua gêmea.


- Parece-me que não estão sangrando. Acredite-me, se tivesse querido lhes fazer mal nenhum de vós estaria de pé agora mesmo.


Tabitha os observou atentamente e soltou um grunhido indignado.


- Está defendendo a um vampiro?


- Estou defendendo ao Harry. - respondeu Gina com ênfase.


Apertando os lábios ainda mais, Tabitha olhou de para o outro.


- O que passa contigo? É que está louca? Quer um namorado que bebe sangue, que vai viver eternamente, que mata para divertir-se e que não pode sair à luz do dia? Vá, Gina, vejo que ao final encontraste ao Rei dos Perdedores. Felicidades. Jamais imaginei que existisse alguém pior que Cliff.


A argumentação da Tabitha era uma corrente de insultos e de grosserias.


- E você fala de perdedores? A que sai com um homem que não trabalhou mais de duas semanas seguida nos últimos três anos…


- Pelo menos, Eric tem alma.


- Harry tem coração.


- Vamos, por favor! E você acredita que com isso se soluciona tudo? Diga-me uma coisa, Gina, está disposta a renunciar a tudo por ele? A sua vida, seu futuro? O que pode lhe oferecer um vampiro a uma contadora? Sempre quiseste meninos, lhe pode dar isso ele?


Harry se afundava cada vez mais no desespero enquanto as escutava discutir. Cada palavra que saía da boca da Tabitha confirmava o que ele tinha pensado de um princípio. Tabitha tinha razão.


Deu uma olhada à luz do sol que entrava pelas janelas. O sol era letal para ele e vital para a Gina. Para os humanos resultava tão necessário como o ar que respiravam. E, enquanto ela estivesse com ele, não encontraria a paz porque teria que sacrificar todos seus sonhos.


E não podia permitir isso.


Com o coração encolhido, se arrastou entre as sombras até chegar à escada.


- Deixem já de discutir! - gritou Esmeralda.


Harry não voltou a prestar atenção enquanto subia a escada.


Passaram vários minutos, e uma nova enxurrada de insultos, antes que Gina se precavesse da ausência do Harry.


- Harry?


- Está acima. - lhe respondeu Esmeralda.


Gina fez o gesto de partir, mas Tabitha a deteve.


- Não pode te fazer isto.


- Não sabe nada dele, Tabby. É um Caçador Escuro, não um vampiro.


- Sim, claro. E Julian Alexander me explicou que, em realidade, não há nenhuma diferença entre eles. Os dois têm características animais e são assassinos.


- Não acredito que Julian te dissesse isso.


- Dá-me igual no que acredita ou não, é a verdade. E enquanto reflete sobre isso, me deixe te dizer outra coisa que me contou Julian: Artemisa matará a seu namorado antes de permitir que seja livre.


Gina se afastou de sua irmã, pensando que não era certo o que dizia. Encontrou ao Harry no quarto, recolhendo suas coisas.


- O que está fazendo?


- Vou.


- Não pode sair. É meio-dia.


Seu rosto tinha uma expressão séria e fria.


- Chamei ao Tate.


- Harry… - o chamou, aproximando-se para tocá-lo.


- Não me toque. - resmungou ele, lhe ensinando as presas - Já ouviste o que te há dito sua irmã. Sou um animal, não um humano.


- Ontem à noite não dormi com nenhum animal.


- Ah, não?


- Não. - lhe respondeu ela, lhe pondo a mão na bochecha.


Não demorou mais de um segundo em apagar a expressão de deleite que sua carícia lhe produzia, mas ela chegou a vê-la.


- Isso é o que você acredita Gina. Sabe quantas vezes tive que me controlar para não te afundar os dentes no pescoço? Quantas vezes senti o fluxo de seu sangue sob a língua e desejei prová-la?


Tragou saliva, espantada. Mas se negava a acreditá-lo. Só estava tentando assustá-la.


- Nunca me tem feito mal e sei que daria sua vida antes de fazê-lo.


Harry pegou a mala sem dizer nada e partiu. Ela o seguiu pelo corredor e se deteve o chegar às escadas.


- Não pode partir assim.


- Sim posso.


Atirou dele para detê-lo antes que baixasse até o saguão.


- Não quero que me deixe.


Harry se parou em seco ao escutá-la. Suas palavras o estavam destroçando. Ele tampouco queria deixá-la, em realidade, o que queria era elevá-la sobre o ombro, ir de volta ao quarto e lhe fazer o amor durante toda a eternidade. Queria fazê-la sua de forma legítima e ter o direito de gritar que lhe pertencia. Mas não estava escrito que acontecesse. Ele era um servente da Artemisa. Sua vida pertencia à deusa.


- Volta para seu mundo, Gina. Ali estará a salvo.


Tomou o rosto entre as mãos. Esses brilhantes olhos azuis o olhavam com um desejo e uma dor tão grandes que o estavam rasgando.


- Não quero estar a salvo, Harry. Quero a você.


Afastou-lhe as mãos, afastou-se de suas tenras carícias e baixou o que ficava das escadas.


- Não diga isso.


- Por que não? - perguntou-lhe Amanda, baixando atrás dele - É a verdade.


- Não pode me ter. - lhe disse entre dentes enquanto girava em metade das escadas para olhá-la aos olhos - Já tenho proprietária.


- Então me deixe te amar.


Sua resolução se veio abaixo ao escutar o rogo da Gina. Por todos os deuses! Que singelo seria confiar nela. Tomá-la entre seus braços e… vê-la envelhecer enquanto ele permanecia igual. Abraçá-la quando morresse já anciã, para deixá-lo só durante toda a eternidade. Sozinho.


A simples idéia era suficiente para deixá-lo paralisado. A vida sem ela não merecia a pena. E se deixá-la depois de algumas de dias doía tanto, o que se sentiria ao perdê-la depois de algumas décadas? Era muito mais do que seu machucado coração podia suportar.


- Não pode.


- Por quê? - perguntou ela.


- Alguns desejos são impossíveis.


Tocou-lhe o braço, lhe suplicando com o olhar que visse as coisas tal e como ela as via. Mas não podia fazê-lo. Não se atrevia.


- Possivelmente isto sim seja possível.


- Equivoca-te.


Nesse momento bateram na porta.


Gina viu como Essie abria a porta e Tate entrava com a maca. A expressão resignada e atormentada do Harry ao ver a bolsa negra ficaria gravada para sempre na memória.


- Não vá, Harry. - lhe pediu uma vez mais, rezando para que a escutasse.


- Não tenho escolha.


- Sim que a tem. Merda, Harry! É muito teimoso. Tem mais opções. Não me deixe.


Ele se esfregou os olhos, como se lhe doesse a cabeça.


- Por que quer que fique?


- Porque te amo.


A furiosa maldição da Tabitha se escutou no saguão, vinda da cozinha e o silêncio que seguiu, resultou ensurdecedor.


Harry fechou os olhos enquanto a agonia o consumia. Tinha esperado uma eternidade para escutar a uma mulher lhe dizer essas palavras de coração.


Mas era muito tarde.


- A última vez que acreditei que uma mulher me amava, perdi um império e acabei crucificado enquanto ela ria de mim. Não seja tola, Gina. O amor não existe. É uma ilusão. Não me ama, não pode me amar.


Antes que ela pudesse protestar, saltou à maca e se meteu na bolsa, fechando o zíper de dentro.


- Não me deixe! - gritou-lhe Gina, agarrando-o pelo braço através do plástico.


- Me leve para casa, Tate.


Tate lhe sorriu com tristeza e empurrou a maca para sair da casa. Gina soltou um grunhido de frustração.


- É um idiota, Harry Hunter. Um idiota.


Harry a escutou, sua voz lhe chegava amortecida pela grossura da bolsa. Suas palavras o estavam matando. Estava atuando como um imbecil.


Não a deixe, suplicava-lhe seu coração.


Mas não tinha outra opção. Este era o caminho que tinha escolhido. Tinha tomado essa decisão tendo em conta as conseqüências e todos os sacrifícios que teria que fazer.


Gina era um ser de luz e ele formava parte das trevas. De algum modo, acharia a forma de recuperar sua alma sem implicá-la e, uma vez o fizesse, mataria ao Desiderius.


Gina e Tabitha seriam livres e ele poderia retomar sua vida. A vida a que estava preso por um juramento. Mas, no mais fundo de seu coração, sabia a verdade: amava-a. Mais do que jamais tinha amado a ninguém.


E tinha que deixá-la partir.


 


 


CAPÍTULO QUINZE


 


Eram cinco em ponto da tarde e começava a escurecer quando Gina chegou a casa do Harry. Estacionou seu Taurus azul diante da mansão, caminhou até a porta principal e chamou.


Esperava que Nick lhe respondesse, mas em lugar disso, a porta se abriu, muito lentamente, e não viu ninguém no saguão. Franzindo o cenho, entrou. Imediatamente, a porta se fechou dando um forte golpe a suas costas. O sobressalto fez que soltasse um ofego. Acabava de dar-se conta de que a grade da entrada também se abrira sozinha, claro, que tinha suposto que Harry tinha visto seu carro no monitor e tinha aberto a porta antes que tivesse a oportunidade de utilizar o porteiro automático.


Já não estava tão segura.


Cada vez mais nervosa, deu uma olhada sem ver ninguém. O silêncio da casa dava a entender que estava vazia.


- Olá? - perguntou, avançando muito devagar através do saguão - Nick? Harry?


- Assim que você é Ginevra Weasley…


Ao escutar a voz procedente do salão ficou gelada. Era uma voz grave e incitante, com um acento que não se parecia com nenhuma que tivesse escutado anteriormente. Recordava-lhe ao som profundo e rouco do trovão.


Por um momento, temeu que se tratasse de um Daimon, até que os olhos lhe adaptaram à escuridão e pôde distinguir ao esplêndido espécime masculino deitado no sofá. Estendido de costas e com as pernas pendurando sobre o braço da poltrona, tinha os braços dobrados sob a cabeça e a observava atentamente das sombras.


Estava nu da cintura para cima e descalço. Levava umas calças de pele e tinha uma longa juba de cor verde escura. No ombro esquerdo, Gina distinguiu a estilizada tatuagem de um pássaro, cuja cauda descendia em espiral e se enrolava ao redor do bíceps. Sua pele era do mesmo tom dourado que a do Harry e a cor ressaltava o pequeno pendente de ouro que levava no pescoço.


- E você é…? - lhe perguntou ela.


- Acheron Parthenopaeus. - lhe respondeu com essa voz profunda e serena - Prazer em conhecê-la. - suas palavras careciam de qualquer sinal de emoção ou calidez.


Bom, não se parece em nada a Ioda. Bom… os dois têm o cabelo verde.


O cara do sofá não aparentava mais de vinte e cinco anos, mas a aura de crueldade que o rodeava empanava essa aparência juvenil. Ao olhá-lo, dava a impressão de que tinha visto os fogos do inferno de primeira mão e que a experiência o tinha transformado em um ser muito mais sábio. Até deitado, provocava-lhe calafrios de terror ao tempo que despertava sua curiosidade. Havia algo no tal Acheron que resultava horripilante, embora não fosse capaz de expressá-lo com palavras.


A fazia sentir-se muito incômoda.


- Assim que você é o infame Acheron…


O devastador rosto do homem desenhou um sorriso brincalhão.


- Amo e senhor da horda de bárbaros que vivem de noite.


- Você os dirige?


Ele se encolheu de ombros com indiferença.


- Em realidade, não. Seria muito mais fácil governar ao vento.


Gina soltou uma risada nervosa.


Acheron se levantou muito devagar e se aproximou dela com todo o aspecto de uma besta à espreita. Conforme se aproximava, o magnetismo de sua presença e sua enorme altura a deixou aflita. Com seus bons dois metros, levantava-se sobre ela como uma torre e a diferença de altura lhe davam uma aparência bastante poderosa.


- Pelo amor de Deus! - ofegou enquanto dobrava o pescoço para poder olhá-lo aos olhos - É que há alguma lei tácita, pela qual todos os Caçadores Escuros tenham que ser gigantes?


Acheron riu, lhe mostrando um brilho de suas presas.


- O que posso dizer? Artemisa quer que seus Caçadores sejam altos. Não se admitem solicitudes de homens baixinhos.


Quando chegou frente a ela, Gina viu seus olhos com claridade.


E ficou boquiaberta.


A diferença dos do Harry, estes lançavam brilhos. Não se podia descrever de outra maneira. Enquanto os observava, trocaram de cor, de um azul profundo a um matiz prateado. Como se fossem feitos de mercúrio, as cores trocavam e se mesclavam entre eles em ambas as íris. Recordava-lhe a superfície do mar, agitada por umas ondas tranqüilas.


- Desconcertantes não é? - perguntou-lhe ele sem deixar de olhá-la, consciente de que o estava observando.


- Supõe-se que é normal que façam isso?


Ele sorriu sem separar os lábios, mas não respondeu. Tirou uns óculos escuros do bolso traseiro da calça e os pôs. Com os olhos cobertos, Gina se fixou na estranha cicatriz que tinha no pescoço. Parecia o rastro de uma mão, gravada a fogo. Como se tivessem querido estrangulá-lo. Muito, muito estranho.


- O que te traz por aqui, pequena? - perguntou-lhe Acheron.


- Vim ver o Harry.


- Não quer que o incomodem.


- Bom. - disse ela, endireitando as costas para não deixar-se amedrontar por um Caçador Escuro que, estava segura, poderia destroçá-la em um nanosegundo - Nem sempre sabemos o que nos convém.


Acheron soltou uma gargalhada.


- Muito certo. Então… acredita que pode salvá-lo?


- É que dúvida de mim?


Ele inclinou a cabeça, como se estivesse sopesando sua têmpera, e caminhou a seu redor sem deixar de observá-la. Quando lhe deu as costas, Gina viu que estava coberta de feridas, já quase curadas. Dava a impressão de que o tivessem golpeado, sobrepondo e entrecruzando as chicotadas até formar um complicado desenho, tão lindo como macabro.


O estômago lhe contraiu ao pensar nas incontáveis horas de sofrimento que devia ter suportado, dado o estado que apresentava.


Ao descender o olhar por essas amplas e musculosas costas, descobriu a marca da Artemisa, um arco duplo idêntico ao que Harry tinha no ombro. A diferença estribava em que o do Acheron estava localizado no quadril direito.


- Se por acaso não sabe, senhora. - continuou falando com esse tom funesto e grave - Levo caminhando pelo mundo há onze mil anos. - deteve-se e se inclinou para seguir lhe sussurrando ao ouvido - Vi coisas que jamais poderia chegar a imaginar-se, e me pergunta se duvido de você? - Retrocedeu uns passos para poder olhá-la à cara antes de acabar a frase - Senhora, duvido até do ar que respira.


- Não lhe entendo.


Ele fez pouco caso de sua confusão.


- Quer sua alma.


- Como diz? - perguntou-lhe enquanto os nervos a faziam tremer.


- Posso sentir suas emoções, senhora. Escutá-la. Sua mente é um torvelinho de sentimentos e temores: Pode conseguir que seja dele? A ama? Poderá amá-la algum dia? Ama-o de verdade? Há a mais mínima oportunidade de estar juntos ou se está enganando a si mesmo?


Gina tremeu ao escutar suas dúvidas mais íntimas na boca do Acheron.


Deteve-se ao chegar frente a ela e lhe levantou o queixo para olhá-la aos olhos.


Gina sentiu que esses olhos lhe brocavam a alma, enquanto que ela era incapaz de ver um indício dos sentimentos do Acheron nessas profundidades prateadas. Quão única via era seu próprio reflexo nos lentes escuros dos óculos.


Quando ele voltou a falar, Gina escutou sua voz diretamente na cabeça.


- E a pergunta que mais te inquieta é como salvá-lo sem perder a sua irmã no processo.


- Como sabe todo isso?


Dedicou-lhe um estranho sorriso.


- Não pode imaginar até onde chegam meus poderes.


- E então, por que não mata ao Desiderius antes que volte a fazer mal ao Harry?


Soltou-lhe o queixo.


- Não posso.


- Por que não?


- Pela mesma razão que Harry não pode: não tenho alma. Desiderius acabaria comigo e, o jogo de dados os pecados que cometi no passado, tremo com apenas pensar no uso que poderia fazer deles.


Gina refletiu um instante. Desiderius tinha tentado matar ao Harry recreando o modo em que morreu quando era humano, o que significava que a morte do Acheron devia ter sido muito mais cruel que a crucificação.


Como teria morrido este temível Caçador Escuro?


E, ao fio desse pensamento, veio-lhe à mente outra incógnita.


- Como recupera sua alma um Caçador Escuro?


Acheron a encurralou contra a parede, exatamente igual a um leão faria com sua presa. O ar do quarto parecia estalar com a energia mística e o poder que exsudava.


- As almas são entes muito estranhos, senhora. Só se transladam por vontade própria, sempre e quando quem as possua as deixem partir.


- Segundo que, tenho que convocar a Artemisa, já que é ela a que possui a alma do Harry, não é certo?


Pergunta-a fez que Acheron soltasse uma gargalhada perversa.


- Comeria-te viva pequena.


O tom desse homem estava começando a irritá-la. Pode que estivesse frente ao ser mais malvado do universo, mas ela não era uma tonta.


- Não me fale como se fosse uma menina.


- Vá! Se não o estou fazendo… só te estou avisando. É incapaz de te enfrentar à deusa. Ela é o vento, é a proprietária de nossos destinos e você, pequena, não é mais que um tenro salgadinho ao que adoraria lanchar-se por pura diversão e logo, possivelmente, cuspí-lo de novo.


- Obrigado por uma descrição tão gráfica. - lhe disse ela com um nó no estômago tão somente de pensá-lo.


Ele sorriu ao escutá-la e suavizou sua expressão.


- Quer salvá-lo, verdade?


De novo teve a sensação de que Acheron voltava a lhe ler o pensamento.


- É obvio que quero. Harry é tudo para mim.


Ele assentiu.


- Tem um coração puro. Pode ser que isto funcione.


Esse comentário a assustou mais que qualquer outra coisa das que havia dito antes. O tom de voz que usou dizia bem às claras que o que estava pensando era bastante arriscado.


- A que te refere?


Acheron se aproximou até uma mochila negra que estava em cima da mesa-ataúde. Rebuscou em seu interior e tirou uma caixa negra de madeira esculpida, coberta por estranhos símbolos de prata e inscrições gregas.


- Aqui está o que buscas.


Abriu a caixa e lhe mostrou o interior, estava forrado de veludo negro e sobre a suntuosa malha descansava um medalhão vermelho. Brilhava exatamente igual a seus olhos. Mas a cor da pedra variava do vermelho ao alaranjado, com matizes de amarelo. As cores pareciam mover-se em espiral da inscrição central do medalhão até os borde.


- É precioso. - ofegou, alongando a mão para tocá-lo.


Acheron o afastou.


- Toca-o e sentirá que lhe abrasam os fogos do inferno.


Ela baixou a mão imediatamente.


- O que é?


- A alma do Harry.


O coração da Gina esteve a ponto de deixar de pulsar ante o tom enfastiado do Acheron. Tragou saliva e olhou fixamente o medalhão. Seria certo?


Não. Era impossível.


- Está-me mentindo.


- Nunca minto. - replicou ele sucintamente - Não tenho necessidade de fazê-lo.


Mesmo assim, não estava preparada para acreditar que Acheron tinha em suas mãos o que ela mais ansiava no mundo.


- E o que vais fazer com ela?


- Tinha a esperança de que me ajudasse a devolver-lhe para que pudesse acabar com o Desiderius.


- Devolver-lhe como?


Acheron pegou o medalhão, fechou os dedos a seu redor e deixou a caixa a um lado.


- Não te queima? - perguntou-lhe ela.


Lhe respondeu com um matreiro sorriso.


- Já lhe hei isso dito, meus poderes vãos além de sua imaginação.


- E então, por que não a devolve você?


- Porque não confia em mim e porque, ao contrário do que ocorre contigo, eu não tenho coração, nem puro nem de nenhuma outra maneira. - Girou o medalhão na palma da mão, como se o estivesse estudando - Já vê, só existe um modo de que um Caçador Escuro recupere sua alma. Uma pessoa de coração puro e tenro deve sustentar o medalhão na mão enquanto o Caçador perde seus poderes sobrenaturais. Só quando a parte humana controla seu corpo poderá morrer de forma natural.


- Como diz?


Ele levantou a cabeça e, embora Gina seguisse sem lhe ver os olhos, soube que a estava observando com intensidade.


- O único modo de devolver a alma a um Caçador Escuro é fazendo que seu coração humano deixe de pulsar. Durante o último pulsado, o medalhão deve colocar-se sobre a marca que indica o lugar onde a alma foi apanhada, uma vez ali, a alma abandonará o medalhão e voltará a entrar no corpo de onde saiu.


Gina sentia uma aguda dor de cabeça enquanto tentava compreender as palavras do Acheron.


- Não o entendo. Como se detém seu coração?


- Primeiro terá que conseguir que seus poderes de Caçador Escuro desapareçam e, depois, lhe atravessa o coração com um objeto agudo.


Ela retrocedeu com a mente feita uma confusão.


- Não! Evaporar-se-ia como um Daimon. Está tentando que o mate, verdade?


- Não. - lhe respondeu com brutalidade - Todos os Caçadores Escuros são meus meninos e antes de fazer mal a qualquer deles, converter-me-ia em uma Sombra. Perguntaste-me sobre o modo de lhe devolver sua alma e te respondi. Se quiser liberá-lo, tem que conseguir que perca seus poderes e, depois, matá-lo.


Antes que pudesse dizer uma só palavra mais, Acheron lhe pegou a mão e a pôs sobre a que sustentava o medalhão. O calor que desprendia era insuportável. Era como tocar um queimador de gás.


- Imagina que o toca diretamente. - lhe sussurrou - E agora imagina que o sustenta na mão. Deverá o ter na mão do momento em que lhe atravesse o coração até que este deixe de pulsar e a alma passe de novo a seu corpo.


Pegou-a com mais força pelo pulso e Gina sentiu que esses olhos ocultos depois dos óculos a perfuravam.


- Ama-o o suficiente?


- Eu… - duvidou ela - Quanto tempo terei que sustentá-lo?


- Tanto tempo como dure o processo. Não lhe posso dizer isso com exatidão. É distinto para cada Caçador Escuro.


- E se o solto antes que a alma se libere?


- Então Harry estará condenado a vagar durante toda a eternidade sem ser um Caçador Escuro nem um humano. Será uma Sombra, apanhada entre este mundo e o seguinte. Desejará comer e não poderá fazê-lo. Terá sede e nunca poderá beber. Sofrerá durante toda a eternidade.


Gina contemplou horrorizada o medalhão.


- Não posso me atrever.


Acheron lhe soltou a mão e devolveu o medalhão à caixa.


- Desse modo, também morrerá quando enfrentar ao Desiderius.


- Tem que haver outra saída. - sussurrou ela.


- Não a há.


Com o coração em um punho, imaginou que drenava os poderes do Harry e o deixava vulnerável. Seria capaz de lhe fazer isso?


Acheron se aproximou da mochila para voltar a guardar a caixa.


- Espera. - o repreendeu ela, detendo-o - Há dito que o medalhão deve colocar-se no mesmo lugar onde a alma foi capturada.


- Sim.


- Como saberei qual é o lugar exato?


Ele assinalou a marca que tinha no quadril.


- O arco duplo assinala o lugar que Artemisa tocou enquanto capturava nossas almas.


Gina abriu a boca para falar, mas uma voz ensurdecedora a impediu.


- O que está fazendo aqui?


Girou-se e descobriu ao Harry atrás dela, olhando ao Acheron.


- Por que a deixaste entrar?


Acheron a olhou com uma silenciosa advertência.


Não diga nada, sussurrou-lhe sua voz na mente.


- Simplesmente gostei. - respondeu ao Harry, já em voz alta.


O rosto do Harry adotou uma expressão crispada.


- Disse-te que não o fizesse.


Acheron sorriu, mostrando as presas por um instante.


- E desde quando te faço conta?


Harry lhe lançou um olhar furioso.


Gina deslizou o olhar pelo corpo do Harry e notou que havia tornado a vestir-se de negro por completo: jeans, camisa e botas.


- Não irás sair esta noite atrás dele, né?


- Não tenho alternativa.


Ela olhou para trás, procurando a seu chefe.


- Acheron…


Este se encolheu de ombros despreocupadamente.


- É sua decisão.


- Está ferido. - insistiu Gina.


- É um Caçador Escuro. Conhece suas debilidades e sua força. Ele é quem decide.


A frustração tomou por assalto a Gina e lhe entraram vontades de matar aos dois ali mesmo.


- Vai permitir que morra?


- Isto não tem nada que ver com o Acheron. - a interrompeu Harry - Como já te há dito sou eu quem decide.


- Sim, claro. Pois vá, porcaria de decisão.


- Sim, claro… Tabitha disse o mesmo de ti.


Ela o olhou furiosa.


Devolveu-lhe o olhar até que ela afastou os olhos. Harry deu uma olhada ao Acheron antes de falar.


- Vigia-a por mim.


- Isso é uma ordem? - perguntou-lhe Acheron com incredulidade.


- Não seja asno.


Ele levantou uma sobrancelha com um gesto zombador.


- Perdão, Ash, não Ash não.


Na mandíbula do Harry começou a palpitar um músculo.


- Tenho um encontro. Até mais tarde. - e dando a volta saiu do quarto com ar ofendido.


Gina ficou paralisada no salão. E o coração lhe deteve quando escutou que a porta da garagem se abria para, segundos depois, ouvir o motor do carro do Harry. Esse homem era mais teimoso que uma mula!


- Harry estava equivocado, Acheron. Você não é o asno, ele sim que o é.


O homem riu com vontades.


Gina se esfregou os olhos enquanto tentava esclarecer-se. No fundo de seu coração, tinha muito claro o que devia fazer. Harry ia morrer de um modo ou outro. Ao menos, se ela o matava teria uma oportunidade.


- Me dê o medalhão.


Acheron lhe ofereceu a caixa.


- Está segura?


- Para nada.


Ela alargou a mão para pegar a caixa, mas Acheron o impediu.


- Faça o que faça não te ocorra trocar de opinião uma vez tenha o medalhão na mão. É o pior que pode lhe fazer. Em seu lugar, eu preferiria mil vezes morrer às mãos do Desiderius antes de fazê-lo às mãos da mulher que amo. Pela segunda vez.


A mão da Gina tremia embaixo da dele.


- Jamais poderia lhe fazer mal.


- Não lhe leve a mal, mas a última vez que ouvi isso, a mulher atirou o medalhão ao chão dez segundos depois de agarrá-lo. Não me decepcione.


- Não o farei.


Ele assentiu com um olhar severo e lhe entregou a caixa.


- Recorda, tem que agarrá-lo no mesmo momento que lhe atravesse o coração. Sustentá-lo até que morra e, então, coloca-o sobre a marca.


- Como saberei que tudo acabou?


- Confia em mim, saberá.


Gina guardou o medalhão em um dos bolsos de sua mochila, junto à caixa da Barbie que Liza lhe tinha dado. Tinha começado a levar a Starla consigo a noite que Tabitha tinha sido atacada. Provavelmente se tratasse de uma estupidez, mas se sentia mais tranqüila sabendo que a boneca estava aí em caso de necessidade. Além disso, era melhor que levar uma pistola, muito mais segura, embora levasse essas adagas escondidas nas pernas.


Enquanto fechava o bolso, seu celular começou a soar. Tirou-o e respondeu.


- Gina, é você?


Ela enrugou o nariz ao reconhecer a voz nasal do Cliff.


- Acreditava que…


- Me escute. - a interrompeu - Aconteceu algo horrível…


Dava a impressão de que tinha estado chorando. E, embora no plano sentimental tivessem acabado não podia evitar preocupar-se com ele. Pode que fosse um imbecil, mas não fazia nem duas semanas que tinha estado pensando em casar-se com ele.


- O que?


- Trata-se de minha mãe. - lhe disse com um soluço - Olhe, já sei que nossa relação não é precisamente amistosa, mas não tenho a ninguém mais a quem acudir. Pode vir por favor? Não quero estar sozinho.


Ela duvidou. Sentia um nó no estômago, uma sensação muito estranha. Atribuiu-o ao feito de ter que voltar a vê-lo de novo e se deu conta de que negar-se a ajudá-lo seria muito egoísta de sua parte. Necessitava-a. Iria a sua casa, estaria um momento com ele e retornaria a esperar que Harry voltasse.


- Muito bem, vou para lá.


- Obrigado.


Acheron a olhou e levantou uma sobrancelha.


- Passa algo?


- Um amigo em apuros.


Ele assentiu.


- Vê, enquanto isso, ocupar-me-ei de procurar a sua irmã para vigiá-la. - vestiu uma camiseta de manga curta negra antes de voltar a falar - Por certo… tome cuidado.


- Com o que?


- É de noite e rondam muitas criaturas malignas por aí fora.


O medo lhe produziu um calafrio que a percorreu de cima abaixo.


- Deveria estar assustada?


- Segue seus instintos, pequena. Faz o que tenha que fazer.


Odiava que a chamasse pequena todo o tempo, mas não parecia muito apropriado lhe jogar a bronca…


- Você gosta de ser misterioso, não é certo?


- A coisa estava entre ser Caçador Escuro ou profeta. Pessoalmente, eu gosto muito mais o de lutar e matar que o de rezar na posição de lótus.


Sem dúvida nenhuma, Acheron Parthenopaeus era um indivíduo muito estranho.


Gina pegou as chaves do carro e subiu ao Taurus. Enquanto conduzia pela estrada, a caminho da auto-estrada, caiu na conta de quão estranho era que Acheron a deixasse ir sozinha…


Por que o tinha permitido se Harry lhe tinha pedido que a vigiasse?


Porque é mais provável que Tabitha se meta em confusões percorrendo as ruas que você indo para casa do Cliff.


Sim, claro. Isso o explicava tudo. O único perigo que podia correr na casa de seu ex, era morrer de aborrecimento.


Não demorou muito em chegar. Subiu ao afastamento, situado no primeiro piso, bateu na porta e esperou a que lhe abrisse.


Seu ex levava uns Levi’s e uma camisa amarela.


- Que surpresa. - lhe disse, olhando mais à frente do ombro da Gina - Hoje não te trouxe nenhum amigo?


Ela o olhou furiosa, ao reconhecer o ciúme implícito no comentário. Como se atrevia!


- E o que se supõe que significa isso?


Cliff se encolheu de ombros e abriu mais a porta.


- Nada. É que esta noite estou um pouco nervoso. Obrigado por vir tão rápido.


Gina voltou a escutar a voz interna que a insistia a partir, não obstante, cometeu a estupidez de ignorar a advertência e entrou no afastamento.


Ele fechou a porta e jogou a chave uma vez Gina passou ao interior.


- Bom, bom. - disse uma voz conhecida da cozinha - O que temos aqui?


Gina ficou petrificada quando viu o Desiderius sair de entre as sombras.


 


 


CAPÍTULO DEZESSEIS


 


- Você? - gritou Gina, ao mesmo tempo em que corria para a porta.


Cliff a apanhou.


- Não tão rápido.


- Como pudeste? - perguntou a seu ex, antes de girar-se para lançar um furioso olhar ao Desiderius - Não entendo por que está aqui. Como…?


O Daimon sorriu.


- Por favor, não converta a situação em um maldito clichê. Já é bastante odioso ter tido que recorrer a um plano tão áspero para capturar ao Harry. O que esperava, que agora abandone o plano para que possa escapar e me matar? - meneou a cabeça - Eu também vejo filmes maus, sabe?


Nesse mesmo instante, sentiu ao Desiderius em seus pensamentos. Sentiu-o pinçar e rebuscar entre suas lembranças. A cabeça começou a lhe doer e tudo começou a dar voltas a seu redor, enquanto por sua mente passavam as imagens mais horríveis. Imagens do Desiderius abraçando-a, acariciando-a. E de seu fôlego sobre o pescoço…


E, se por acaso isso fosse pouco, a coisa piorou. Gina sentiu que as barreiras que protegiam sua mente caíam sob a pressão de seu brutal assalto.


- É tal e como me prometeu Cliff. - sua voz soava longínqua, como um débil sussurro, miserável pelo vento - Seus poderes são puros, imaculados.


- Sei. Isso foi o que me atraiu nela a primeira vez que a vi. - Cliff sorriu - E com a informação que reunimos sobre a forma de lutar do Harry naquela noite no beco, não deveríamos ter nenhum problema para vencê-lo.


Desiderius se deteve para contemplar a esse ser inferior. Considerava os humanos como as bestas mais baixas da criação. Era, depois de tudo, alimento para os deuses. Só havia uma coisa inferior a um humano: os mestiços como Cliff. Meio apolita e meio humano, ele se tinha aproveitado de semelhante covarde chorão para seus próprios fins.


Contudo, devia estar agradecido ao pai apolita do Cliff por ter morrido antes de poder lhe explicar a verdade sobre a metade de sua herança genética.


E com respeito à mãe do Cliff… bom, tinha resultado ser um delicioso bocado.


Sempre tinha sabido que ter um mestiço como mascote resultaria útil algum dia. Todos esses anos, obrigado a acreditar essa asquerosa criatura não pareciam tão repulsivos nesses momentos.


E quando Cliff descobriu a essa pequena feiticeira em seu escritório, ele se tinha limitado a esperar que seu mascote desentupisse e desenvolvesse as habilidades psíquicas da garota antes que ele tomasse sua alma junto com esses poderes.


Mas ela resistiu.


Quem ia imaginar se o resultado de tudo isto? Depois do ataque de pânico do Cliff o dia que conheceu a irmã da Gina, e que o levou a romper com ela, soube que tinha que atuar com rapidez para reclamar à bruxa antes que escapasse de suas garras. Mal Cliff lhe contou quão unidas estavam as gêmeas e as freqüentes visitas que tinha feito como namorado da Gina para casa da Tabitha, seu plano começou a tomar forma.


Quando encadeou a Gina e ao Caçador Escuro, esperando que ele a confundisse com sua gêmea, pensava que ela recorreria a seus poderes, presa no pânico, e os usaria para acabar com ele e, desse modo, proteger a sua irmã. Jamais lhe tinha passado pela imaginação que ela usasse seus poderes para proteger ao Caçador.


Mas tampouco é que isso importasse muito. Agora que tinha destampado por completo esses poderes, a garota estava pronta para o empurrãozinho.


- Fará agora? - perguntou-lhe Cliff - Me converterá em imortal?


- É obvio.


Gina apenas se deu conta de que o Daimon se aproximava do Cliff e o abraçava. Viu o brilho de suas presas, décimos de segundo antes que Desiderius os afundasse no pescoço de seu ex.


A cabeça começou a lhe dar ainda mais voltas e sentiu que se levantava sobre o chão. Muito tarde, compreendeu que seus pensamentos já não lhe pertenciam.


 


Harry se deteve no centro do Bairro Francês e olhou a seu redor, o comprido casaco de couro negro se formava redemoinhos ao redor de suas pernas. Bourbon Street estava infestado de turistas, totalmente alheios ao perigo. Alguns se detinham ao vê-lo vestido de negro e com os óculos de sol que lhe protegiam os olhos das potentes luzes.


A seus ouvidos chegavam à cacofonia provocada pela mescla de jazz, rock e as risadas que arrastava o frio vento invernal.


Afastando a mente dessas distrações, jogou mão de seus poderes e da tecnologia para achar ao Desiderius, mas não havia rastro dele.


- Merda! - resmungou.


Esfregou-se o ombro, ainda dolorido pelo ataque da Tabitha. Enquanto tentava diminuir a dor, a imagem da Tabitha foi substituída pela de sua irmã. Viu a Gina com um sorriso nos lábios e estendida sobre ele à noite anterior enquanto o fazia o amor da forma mais tenra. Nunca tinha sentido por ninguém o que sentia por ela.


«Porque te amo.»


Essas três palavras flutuavam em seu coração. Sabia que eram certas porque os sentimentos da Gina se transpareciam em sua voz. Tinha sido sincera com ele como ninguém o tinha sido jamais.


Amava-o.


E ele a ela.


Amava-a tanto que queria morrer se não podia tê-la. As Parcas eram umas putas retorcidas. Fazia séculos que sabia, não obstante, em metade da noite gelada, esse fato lhe queimava as vísceras.


Vêem por mim, Gina, necessito-te.


O rumo de seus pensamentos fez que pusesse uma careta de dor.


- Não pense nisso. - se disse a si mesmo em um murmúrio, sabendo que era inútil.


Oxalá pudesse pedir um desejo…


Obrigou-se a pensar em outra coisa. Tinha uma missão que cumprir. Devia deter o Desiderius. Nesse momento, seu celular começou a soar. Pegou-o da capa que tinha assegurada ao cinto e respondeu. Era Talon.


- Ash quer que te diga que se está acontecendo algo estranho. Os Daimons estão atacando em grupos grandes esta noite. Eu pulverizei já a dez e ele vai trás de quatro agora mesmo. Quer que esteja alerta.


- Diga ao vô que não se preocupe. Tudo está tranqüilo no Bairro Francês.


- Bom, mas não te mova daí.


- Não se preocupe. Sei arrumar isso sozinho.


- Por certo. - lhe disse Talon - Eric está com a Tabitha. Diz que saiu em busca do Desiderius.


- Está me tirando o sarro.


- Oxalá. Ash ia atrás dela no Garden District, mas teve que deixar de segui-la ao ver um grupo do Daimons que perseguiam uns turistas.


Enquanto pendurava, o localizador começou a soar. Era o sinal que avisava da presença dos Daimons nos arredores. Tirou o dispositivo do bolso e seguiu o rastro da atividade neuronal dos vampiros até um beco situado na rua paralela a que ele estava.


Ao chegar à zona, totalmente escura, encontrou seis Daimons atacando quatro humanos.


- Né! - chamou-os, distraindo sua atenção das vítimas. Fez a um lado o casaco e tirou a espada retrátil. Pressionou o botão do punho e a folha se estendeu, alcançado o metro e meio de longitude - Me digam, - seguiu falando enquanto girava a espada a seu redor - alguma vez viram a um general da Antiga Grécia de saco cheio?


Os Daimons se olharam, cautelosos, entre si.


Harry se agachou, sujeitando a espada com ambas as mãos, sem deixar de observá-los.


- Não é uma imagem muito agradável, a verdade.


- Agarrem! - gritou o líder.


E, ao uníssono, todos se lançaram a por ele.


Desviou ao primeiro com uma estocada que acabou convertendo-o em uma nuvem de pó. Imediatamente, girou-se com a habilidade de um felino e lançou um golpe direto ao estômago do segundo. O vampiro ofegou e se desintegrou.


Antes que pudesse recuperar-se, um dos vampiros o pegou pelo braço ferido e lhe tirou a espada. Harry se girou e o golpeou com a ponta da bota. Também desapareceu.


Outro o pegou pela cintura e o lançou contra a parede enquanto dois mais se aproximavam. Deu uma patada na cintura ao primeiro deles, ao mesmo tempo em que os dois que se aproximavam se convertiam em pó… e viu a Tabitha que se sustentava em pé com muita dificuldade.


- Chupem essa, asquerosos vampiros. - exclamou enquanto lançava um shuriken ao Harry.


Perplexo ante o fato de que Tabitha estivesse ajudando-o em lugar de atacá-lo, pegou a estrela e a utilizou para acabar com o último vampiro.


Quando chegou junto a ela, encontrou-a ajoelhada no chão. Tinha uma ferida no pescoço que sangrava profusamente e apenas se via cor em seu rosto. Harry se rasgou a camisa para fazer uma compressa e chamou uma ambulância.


- Eric? - perguntou ela com voz tensa, tentando distinguir entre a escuridão às outras vítimas que jaziam no estou chão - Está morto?


- Estou aqui, neném.


Eric chegou a tropeções junto a eles e se deixou cair junto à Tabitha, ao tempo que a abraçava.


- Não vai morrer. - lhe assegurou Harry.


O moço assentiu com a cabeça.


- Tentei convencê-la de que não saísse esta noite, disse-lhe que as coisas iriam ficar feias, mas não me escutou.


- É coisa de família.


Tabitha roçou o braço do Harry enquanto lhe dava a direção aos 911. Quando acabou de falar, viu-a olhando-o fixamente. Tinha o cenho enrugado e seus olhos observavam incrédulos.


- Por que me salvaste?


- Isso é o que faz Harry, Tabby. - sussurrou Eric.


Enquanto Eric se ocupava de sua noiva, Harry se aproximou dos outros dois amigos que ainda jaziam no chão.


Eram os mesmos que o tinham atacado na casa de Esmeralda. Por desgraça, não tinham deslocado a mesma sorte que Tabitha e Eric.


- Eric, - o repreendeu, voltando junto a eles - o que aconteceu?


O moço se encolheu de ombros.


- Tínhamo-los apanhados e, em um abrir de olhos, equilibraram-se sobre nós.


- Disseram algo?


Erik ficou muito pálido e abraçou a Tabitha com mais força.


- «Vou tragar-me sua alma».


Harry o olhou fixamente um instante e apertou os dentes ante o retorcido senso de humor dos vampiros.


- Os Daimons vêem muitos filmes de série B.


Tabitha alargou um braço e tocou a mão do Harry.


- Obrigado.


Ele assentiu.


- Não tenho feito mais que te devolver o favor.


- Harry, tipo... - ofegou Eric - Tinha razão. Nunca vi a nenhum Daimon mover-se como se moviam estes. Deveria ter escutado sua advertência.


Franzindo o cenho, Tabitha os olhou alternativamente.


- Conhecem-lhes?


- Meu pai trabalhava para o Talon, o amigo do Harry. - Eric olhou ao Harry aos olhos - Conheci ao Harry, durante toda minha vida Tabby. Acredite, é um dos bons.


Antes que ela pudesse responder, chegou a ambulância.


Harry esperou até que os dois estivessem dentro, aos cuidados dos para-médicos, e chamou a Gina para lhe contar o acontecido.


Não atendeu ao telefone.


Chamou a sua mãe, a sua irmã e marcou o telefone de sua própria casa. Ninguém respondia.


Com um nó no estômago provocado pelo medo, correu para o carro. Possivelmente Gina estava ainda em sua casa, esperando-o.


Ou possivelmente Desiderius a apanhou…


Imaginou sendo atacada como Tabitha. Viu ela morta em um atoleiro de sangue como os amigos de sua irmã. A dor e o pânico lhe retorciam as vísceras. Gina tinha que estar bem. Não poderia seguir vivendo se algo lhe acontecia.


Conduziu como um possesso para sua casa, tão rápido como o Lamborghini o permitiu.


Tremendo de angústia, atravessou a garagem à carreira e entrou na casa, atento a qualquer som.


Por favor, Zeus, algo menos que lhe tenham feito mal.


Escutou-a na planta alta, cantarolando a canção do Grieg em seu quarto. O alívio e a gratidão que sentiu foram tão intensos que esteve a ponto de tropeçar-se. Tinha que vê-la para saber que estava bem. Inspirou fundo, aliviado, e subiu as escadas de dois em dois.


Ao abrir a porta do quarto ficou gelado.


Gina tinha acendido todas as velas dos candelabros e levava a camisola branca mais curta e transparente que tinha visto em sua vida. Suas longas pernas estavam cobertas por umas meias, sujeitas por uma cinta-liga de renda branca. Estava de costas a ele, inclinada sobre a cama, perfumando os lençóis com o azeite de aroma a rosas que estava acostumada a usar depois do banho. O contorno de seu corpo alcançava a perfeição sob a luz das velas.


Harry estalou em chamas enquanto a observava. Afligido por suas emoções, aproximou-se da cama e a abraçou pelas costas. Sujeitou-a com força e apoiou a cabeça sobre a dela, tremendo de alívio.


Gina estava sã e salva.


Ela gemeu de prazer e Harry sentiu que esse som lhe sacudia todo o corpo, intensificando o desejo.


- Me toque, Harry. - ofegou ela, lhe afastando as mãos da cintura para levar-lhe aos seios - Esta noite preciso te sentir.


Ele também o necessitava. Depois do medo de pensar que a tinha perdido, precisava sentí-la com tanto desespero que a cabeça lhe dava voltas se parava pra pensar.


Baixou a cabeça para saborear a pele desse pescoço perfumado ao tempo que grunhia de satisfação ao sentir nas mãos esses mamilos erguidos, cobertos pela camisola de gaze.


Ela se girou entre seus braços, levantou as mãos e lhe tirou os óculos de sol antes de reclamar seus lábios.


- Gina. - balbuciou, enquanto o aroma a rosas invadia seus sentidos, enfeitiçando-o - O que me tem feito?


Respondeu lhe lambendo o queixo, descendendo dali até o pescoço. Milhares de calafrios lhe percorreram o corpo enquanto Gina lhe tirava o casaco, deixando que se deslizasse por seus ombros e que caísse livremente ao chão. Pegou sua camisa para tirá-la de debaixo da cintura da calça e colocou a mão por debaixo dela, deixando um rastro de fogo no torso do Harry.


Seu instinto lhe dizia que se afastasse dela, mas não podia fazê-lo. Nem agora, nem nunca.


Amava a essa mulher. Não havia outro modo de explicá-lo. Era a outra metade de sua alma, não podia seguir negando-o. E, embora só tivesse esse pequeno instante, desfrutaria do amor que sentia por ela. Desfrutaria do desejo que despertava nele.


Com os olhos enfebrecidos pela paixão, Gina lhe desabotoou as calças e deslizou as mãos por seu endurecido membro.


- Eu adoro te acariciar. - murmurou ela, começando a mover as mãos - Me diga, Harry, pode me ler a mente?


Ele fechou os olhos, extasiado ante suas carícias. Quando sentiu que Gina cobria os testículos com uma mão se estremeceu da cabeça aos pés.


- Não. - ofegou - Prescindi desse poder quando me pediu que não voltasse a fazê-lo.


Levantou-a e a sentou no bordo da cama enquanto ele ficava de pé entre seus joelhos. Sorriu de um modo que o deixou flutuando e começou a desabotoar parte dianteira da camisola, lhe oferecendo seus seios nus.


Ardendo de desejo, Harry lhe separou as pernas para poder olhá-la. Pelos deuses! Como gostava de contemplá-la. Ficou de joelhos e tomou com a boca.


Ela deixou escapar um grito afogado ao sentir a boca do Harry sobre seu sexo. Ele fechou os olhos, acariciou-a com a língua e notou como lhe tremiam as coxas, a ambos os lados de sua cabeça, enquanto a levava ao orgasmo. Pegou-o pelo cabelo e começou a mover os quadris, esfregando-se contra ele.


- OH, sim! - gemeu.


Harry esperou até que passou o último estremecimento e, só então, levantou-se.


Gina o olhava com os olhos carregados de desejo. Incorporou-se até ficar de joelhos na cama e acabou de despi-lo. Uma vez esteve nu, desceu do colchão e se colocou diante dele, lhe dando as costas.


Sem necessidade de explicações, Harry soube o que queria. De sua garganta escapou um grunhido ao tempo que se introduzia nela desde trás com uma poderosa investida.


Ela gemeu de prazer, levantou-se até ficar nas pontas dos pés e voltou a descender para receber seu membro até o fundo.


Harry tremia de cima abaixo.


Beijou-a no ombro e deslizou a mão pela lisa pele de seu ventre antes de procurar os cachos de sua virilha para lhe acariciar o clitóris. Começou a mover a mão muito devagar e deixou os quadris imóveis. Queria que fosse ela a que tomasse o controle da situação.


E ela se encarregou de mover-se até que voltou a correr-se de novo, gritando seu nome.


Harry saiu dela ao sentir que seus poderes se desvaneciam ante a proximidade de seu orgasmo. A dor do desejo insatisfeito era tão grande que teve que concentrar-se em seguir respirando para não dobrar-se em dois.


Mas, por uma vez, Gina não parecia estar disposta a compadecer-se dele, ao contrário, deu-se a volta e o beijou com avidez.


- Gina. - ofegou ele, tentando afastar-se.


- Shhh, Harry. - murmurou sobre seus lábios - Confia em mim.


Contra todos seus instintos, fez-o. Deixou que o tombasse na cama, que subisse sobre ele e voltou a estremecer-se quando guiou seu membro de novo ao interior de seu corpo. Era tão maravilhoso estar dentro dela… sentir o prazer da Gina enquanto o montava.


Quando sentiu que seu orgasmo era iminente, deixou-se guiar por ela e deu a volta no colchão até que a teve debaixo, com suas pernas ao redor da cintura. Sentindo-se um pouco melhor nessa posição, começou a penetrá-la com investidas fortes e rápidas.


E, esta vez, quando estava a ponto de retirar-se, ela o envolveu com todo seu corpo e o abraçou com força. Harry franziu o cenho ao sentir que Gina movia os quadris, introduzindo-se seu membro até o fundo e gemendo enquanto sua vagina se fechava a seu redor.


- Gina, para. - ofegou sem fôlego. Se seguisse fazendo isso, estaria perdido.


Tentou retirar-se outra vez e, de novo, ela o impediu, esfregando-se contra ele. Harry apertou os dentes tentando deter o orgasmo. E o conseguiu até que sentiu que ela se corria de novo. Os gritos da Gina, combinados com os espasmos de seu corpo, foram mais do que podia suportar.


E, contra sua vontade, alcançou o clímax. Jogou a cabeça para trás e gritou pela intensidade do prazer. Não havia nada melhor que estar entre os braços da Gina. Em seu corpo.


Pela primeira vez em dois mil anos, sentiu-se em casa.


Enquanto esses sentimentos o embargavam, notou que seus poderes de Caçador Escuro se desvaneciam.


Não!


Gina lhe deu um beijo ligeiro nos lábios e se girou, com ele nos braços, até que o deixou apoiado sobre o colchão, com ela em cima. Estava muito fraco para protestar. Quão único podia fazer era olhá-la.


Ela saiu da cama e ficou uma bata.


- Gina? - chamou-a.


Retornou ao momento com uma taça de vinho.


- Não passa nada. Estou aqui, meu amor. - lhe disse.


Aproximou-lhe a taça aos lábios e ele bebeu totalmente crédulo. Depois de uns minutos, o quarto começou a girar a seu redor.


- O que está fazendo? - perguntou Harry, consumido pelo terror.


Mas sabia. Como Theone fez tantos séculos atrás, Gina o tinha drogado.


Quão último conseguiu ver foi como ela abria a porta do quarto para deixar passar ao Desiderius.


 


 


CAPÍTULO DEZESSETE


 


Harry despertou atado, com as mãos sobre a cabeça. Estava de pé, sobre um muro escuro e úmido em uma casa desconhecida. O quarto, que parecia antiga, estava iluminada por velas cuja luz projetava sombras dançarinas a seu redor. Escutavam-se murmúrios de vozes. Pelo aspecto do lugar, supunha que se tratava de uma velha mansão, provavelmente não muito longe de sua própria casa, no Garden District.


Ao observar com mais atenção a estadia, deu-se conta de que Gina e Desiderius estavam muito perto dele. O Daimon a abraçava pelos ombros.


A incredulidade da situação o deixou afligido.


Outra vez não. Deuses do Olimpo! Outra vez não.


Como podia ter sido tão imbecil?


Sua mente tinha tentado lhe dizer que algo ia mau. Tinha sabido, de um princípio, que Desiderius seria capaz de apanhá-la. Mas não tinha feito caso de seus instintos. Tinha deixado que seu amor por ela, e a necessidade que despertava nele, cegassem-no.


Fechou os olhos com força.


O que mais doía era saber o que o Daimon planejava fazer com ela uma vez acabasse com ele. Sem seu amparo, Gina estava a mercê do vampiro.


Ocorreria o mesmo que Theone. Quando Valerius o executou, jogou sua esposa à rua lhe dizendo que não queria a uma puta na cama que, algum dia, pudesse entregá-lo impassivelmente a seus inimigos.


Já que Theone tinha traído o líder do exército macedônio e tinha sido a causadora de sua derrota, resultou-lhe impossível retornar para casa. A vila que tanto tinha amado tinha sido incendiada, só ficaram os alicerces. Todas suas posses foram confiscadas. Perseguida por seus compatriotas, fugiu da Grécia a Roma e acabou como prostituta, caindo cada vez mais baixo.


Morreu de uma enfermidade venérea, apenas dois anos depois que ele. Ao final, enfrentou-se ao destino que tanto tinha tentado evitar.


Ao abrir os olhos, Harry olhou a Gina. Levava uns jeans e um suéter negro de gola alta. O cabelo penteado para trás deixava seu perfil bem à vista. Pegava com força uma boneca.


Como tinha sido capaz de lhe fazer isto?


Mas, nesse momento, soube a verdade. Os poderes do Desiderius tinham sido muitos para ela. Apesar dos esforços de D’Alerian, o Daimon tinha invadido seus sonhos e agora controlava sua mente.


A ira lhe escureceu a visão. Não ia permitir que a matasse. Assim não. Esquecendo a debilidade que o invadia, pegou as cordas e atirou com toda a força da que foi capaz.


- Vá, está acordado.


Desiderius e Gina se aproximaram até ficar frente a ele. Com um olhar zombador, o Daimon colocou uma mão sobre o ombro da Gina.


- Dói, não é certo? Saber que vou deitar-me com ela antes de matá-la, e que não poderá fazer nada para me deter.


- Vá para ao inferno.


Desiderius riu.


- Você primeiro, comandante, você primeiro. - passou um dedo abusado e de aspecto diabólico pelo queixo da Gina, não obstante, ela não reagiu. Dava a sensação de estar sumida em uma espécie de transe - A possuiria diante de ti, embora nunca gostasse de ter espectadores. Nunca fui tão retorcido. - riu de sua própria brincadeira.


Harry sentiu que a corda cedia um tanto. Concentrando-se nisso, esforçou-se por soltar-se.


As ataduras voltaram a esticar-se imediatamente.


Desiderius soltou outra gargalhada.


- De verdade pensa que sou tão estúpido para te deixar livre? - deu um passo adiante e se colocou diante dele até ficar nariz com nariz - Desta vez não correrei o risco de que sobreviva.


Harry o olhou com um sorriso satisfeito, como se o vampiro não era mais que um mosquito zumbindo ao redor de sua cabeça.


- Ooooh! Olhe como tremo…


Desiderius o observou com incredulidade.


- É que não há modo de te assustar?


Harry lhe lançou um direto olhar.


- Enfrentei a uma legião romana com apenas uma espada para me proteger. Por que ia assustar-me um Daimon de três ao quarto, que não passa de ser um semi-deus com complexo de inferioridade?


Desiderius gemeu e lhe ensinou as presas. Pegou uma arma de flechas que havia na mesa e a carregou com uma flecha de aço.


- Aprenderá a não te burlar de mim. Sou um inimigo muito poderoso.


- Por quê? O que te faz tão especial?


- Meu pai é Baco. Sou um deus!


Harry soprou. A primeira regra da guerra: faz que o inimigo perca a paciência. As emoções nublam a razão e fazem que cometa estupidez. Desse modo, teria a oportunidade de liberar-se e sair dali com a Gina.


Além disso, gostava do modo em que palpitava essa veia na têmpora do Desiderius. Era uma forma de saber que não tinha perdido seu «toque» na hora de burlar do inimigo.


- É patético, além de um psicopata e um valentão. Não sente saudades que papai não quisesse nem verte.


Desiderius chiou de fúria e golpeou o rosto do Harry com a arma de flechas. O golpe lhe provocou uma terrível dor. Sentia o sabor do sangue nos lábios. Lambeu-se o corte e estalou a língua.


- Não sabe nada de minha vida, Caçador Escuro. Não sabe o que se sente quando está destinado a morrer desde dia que nasce.


- A todos ocorre isso.


- Sim, claro. Aos humanos com suas vidas mortais, que são três vezes mais extensas que as nossas. Como os compadeço! - pegou ao Harry pela garganta e lhe empurrou a cabeça contra a parede - Sabe o que se sente quando vê a mulher que amas desintegrar-se diante de seu nariz? Eleanor só tinha vinte e sete anos. Vinte e sete! Fiz tudo o que esteve em minhas mãos para salvá-la. Inclusive lhe levei um humano, mas se negou a ficar com a alma que a tivesse salvado. Foi um ser puro até o final.


O olhar do Desiderius se escureceu pelas lembranças.


- Era tão linda… tão doce. Supliquei para meu pai que me ajudasse e ele me deu as costas. Assim vi como minha bela esposa se convertia em uma anciã em algumas horas. Vi como seu corpo envelhecia até que se desintegrou entre meus braços.


- Sinto-o por ti. - disse Harry em voz baixa - Mas isso não te exime do que tem feito.


Desiderius gritou, enfurecido.


- E o que é o que tenho feito? Não tenho feito outra coisa que nascer dentro de uma raça maldita e ver como os humanos esbanjam o presente que lhes foi concedido. Faço-lhes um favor ao matá-los. Os Libero de suas insípidas e aborrecidas vidas. - os olhos azuis se obscureceram perigosamente. - Não sei se sabe que consegui uma cópia de seu manual quando matei a um de seus companheiros, faz noventa anos. O que mais me surpreendeu foi a recomendação de ir sempre atrás do coração de um Daimon, golpeá-lo no lugar mais vulnerável. - apontou a Gina com a arma de flechas - Seu coração é ela, verdade?


Harry mascarou o terror que sentia. Embora estivesse muito débil, aferrou-se às cordas e levantou as pernas para golpear ao Desiderius com as poucas forças que ficavam antes que pudesse fazer mal a Gina. O Daimon se cambaleou e a arma de flechas deixou de apontá-la.


- Corre, Gina! - gritou-lhe.


Ela não se moveu.


Harry voltou a apoiar-se na parede.


- Merda, Gina. Por favor, corre. Faz isso por mim.


Ela não parecia sequer ouvi-lo. Limitava-se a permanecer de pé, olhando ao infinito enquanto sustentava a boneca e lhe cantarolava uma canção.


Desiderius soltou uma gargalhada e se endireitou. Lambeu o sangue que lhe corria pelo lábio e olhou sorrateiramente ao Harry.


- É minha, Caçador. Pode morrer sabendo que farei um bom uso dela antes de ficar com sua alma e com seus poderes.


Compôs um diabólico sorriso antes de disparar a flecha diretamente a seu coração. A força do golpe fez que seu corpo se esmagasse contra o muro. Ofegou ao sentir a dor do aço que lhe rasgava a carne.


O vampiro se aproximou até que, de novo, esteve diante dele. Com um olhar alegre, passou o dedo sobre o sangue que rodeava a ferida.


- Uma pena que o sangue dos Caçadores resulte venenoso. Estou seguro de que é mais saboroso e espesso do que tomo normalmente.


Harry mal ouvia suas palavras, seu coração se esforçava por seguir pulsando. Zumbiam-lhe os ouvidos. Era a dor mais intensa que tinha sofrido jamais. Com o olhar impreciso, girou a cabeça para contemplar a Gina por última vez.


Parecia muito pálida enquanto o olhava e, por um momento, Harry imaginou que o recordava. Que sabia que estava morrendo e que lhe importava.


Se tivesse sido ela mesma, teria deslocado para estar a seu lado. Ao contrário que sua esposa, teria chorado ao saber que ia morrer. E, de um modo estranho, saber isso o reconfortava.


Desiderius se separou dele e se aproximou da Gina para lhe dar tapinhas no ombro.


- Vamos, Gina. Dê-lhe um beijo de sua despedida a seu amante.


Harry lutou por seguir respirando ao tempo que a via aproximar-se. Havia tantas coisas que queria lhe dizer… tantas coisas que desejava lhe dizer enquanto ela podia escutá-lo…


Ao menos não morreria sozinho.


- Amo-te, Gina. - lhe sussurrou, desejando que, de algum modo, recordasse-o mais tarde e soubesse que tinha sido sincero.


Ela se inclinou para diante, com um olhar perdido, e o beijou nos lábios enquanto pressionava uma mão sobre seu ombro. Nesse momento sentiu a proximidade da morte, a escuridão que se abatia sobre ele e, enquanto morria, escutou o murmúrio da Gina:


- Amarei-te eternamente, meu guerreiro escuro.


E, nesse instante, tudo se desvaneceu.


Gina conteve o fôlego ao sentir como o medalhão se esfriava encerrado em sua mão, sob o vestido da Starla, e o calor passava ao corpo do Harry. Tremia-lhe a mão esperando que ele despertasse. Com cada segundo que passava tremia cada vez mais.


Não ocorre nada… Deus, não!


Acheron lhe tinha mentido, depois de tudo!


Os olhos lhe ardiam pelas lágrimas e o medalhão se esfriou até parecer uma pedra de gelo, antes de cair ao chão.


E Harry seguia sem mover-se. Seguia apoiado, inerte, sobre a parede, com o rosto cinzento e o corpo frio.


Não!


Tudo tinha acabado. Harry estava morto.


Não!


A perversa risada do Desiderius ressonou nas paredes do escuro quarto, e fez que a alma da Gina soluçasse de angústia.


Ela também quis morrer nesse mesmo instante. Era a culpada de tudo o que tinha acontecido. Limitou-se a permanecer ali quieta, vendo como Harry morria, sem fazer nada para salvá-lo. Sentia como a dor lhe fechava a garganta e quão único queria fazer era gritar.


«Amo-te, Gina».


As últimas palavras do Harry a perseguiriam durante toda a vida.


Soluçando, passou os braços ao redor do corpo do Harry e o abraçou com força, desejando que despertasse e lhe falasse.


Por favor, Meu deus, me leve a mim, mas deixa que ele viva.


- Gina? - a voz do Desiderius estalou com dureza, lhe ordenando que retornasse para seu lado.


Ela se aferrou com mais força ao Harry e apoiou a cabeça sobre seu peito, junto à flecha, desejando poder lhe dar sua própria vida.


Ficou gelada ao escutar algo. Um som muito fraco que a fez voar.


Os batimentos do coração do Harry.


Tornou-se para trás e viu como piscava.


Harry contemplou os olhos azuis escuro da Gina, brilhantes pelas lágrimas. Já não tinham um olhar vazio, ao contrário, olhavam-no fixamente com uma expressão decidida. E com amor.


Seu rosto se suavizou enquanto lhe acontecia uma mão pelo peito e a flecha saía disparada.


E, então, Harry soube que não o tinha traído. Tinha-o liberado.


- Recuperas-te sua alma, Harry da Tracia. - murmurou ao tempo que as cordas que lhe aprisionavam os pulsos se desatavam - Agora, vamos fazer que este bode pague pelo que tem feito.


Desiderius gritou de fúria ao dar-se conta do que acontecia.


Harry já não tinha seus poderes de Caçador Escuro, mas lhe dava igual. Pela primeira vez em dois mil anos, tinha sua alma e essa sensação, somada à certeza de que Gina não o tinha traído, dava-lhe forças.


Desiderius podia dar-se por morto.


O vampiro correu para a porta, mas antes que chegasse, esta se fechou com uma portada.


- Não quero que vá tão logo da festa. - lhe disse Gina - Não depois de todas as moléstias que te tomaste para nos trazer aqui.


- Gina? - repreendeu-a Harry, inseguro.


Ela o olhou. Seus olhos lançavam uns tênues brilhos que recordavam aos do Acheron.


- Desiderius liberou meus poderes. - lhe disse em voz baixa - Pensou em usar a telecinesia e a telepatia para si mesmo. - olhou ao Daimon e lhe sorriu - Surpresa. Ao liberá-los perdeu o controle de minha mente.


Desiderius lutou para abrir a porta.


Harry foi atrás dele, qual pantera faminta atrás de sua presa.


- O que te passa, Desiderius? Assusta-te uma simples mortal?


O vampiro se deu a volta com um grunhido.


- Posso te vencer. Sou um deus.


- Então, faz.


Desiderius lançou uma maldição e se equilibrou sobre ele. Pegou-o pela cintura e o lançou contra a parede antes de abrir a boca para lhe morder o pescoço.


- É uma merda! - resmungou Harry - Não vás acreditar que recuperei minha alma para que agora fique com ela. - e, ato seguido, deu-lhe uma patada na virilha.


Desiderius se afastou dele, cambaleando-se.


- Harry!


Ao girar-se, viu que Gina tinha sua espada e a lançava.


Estendeu a folha e foi trás do Desiderius. O Daimon esquivou o ataque e levantou a mão para lançar uma descarga astral. Harry soltou uma maldição quando a descarga o feriu no peito, no mesmo lugar onde a flecha o tinha atravessado. Retrocedeu a ponto de cair ao chão.


Vá se doía.


Atordoado, deu-se conta de que não seria capaz de defender do ataque do Desiderius. Quão único fez foi encolher-se, em espera do golpe.


Mas este não chegou.


Gina acabava de ferir o Desiderius com uma descarga de sua própria colheita.


Harry a olhou com o cenho franzido.


- Neném, deixa-me que me encarregue disto, por favor?


Ela o olhou, fazendo uma careta.


- Só tentava ajudar. Além disso, é que não está já o bastante machucado?


Gina conteve o fôlego enquanto os via lutar. Até débil, Harry era surpreendente. Saltou sobre o Desiderius e voltou a pegar a espada. O Daimon pegou uma que havia sobre a mesa e a brandiu contra ele. O som do aço reverberava na estadia cada vez que as espadas se encontravam.


- Vamos, carinho. - sussurrou, agarrando a boneca com força.


Harry ganharia. Tinha que ganhar. Ela não tinha passado por semelhante inferno para vê-lo morrer depois.


Enquanto os observava lutar, deu-se conta de que o sol estava saindo. A luz começava a filtrar-se através das janelas fechadas. Desiderius também se precaveu e soltou uma maldição. Atacou ao Harry com um movimento ascendente da espada que o deixou desarmado.


Gina ficou gelada.


O Daimon sorriu e começou a afastar ao Harry, muito devagar, do lugar onde tinha cansado sua espada.


- Só te direi uma coisa. - lhe disse com entonação perversa - Por que não dá lembranças ao Hades de minha parte?


- Harry!


Deu-se a volta e viu que Gina lhe lançava a boneca. Pegou-a instintivamente e soltou um taco quando as folhas ocultas nos pés da Barbie lhe feriram a mão.


Em seu rosto apareceu um sorriso.


Com uma gargalhada, agachou-se para esquivar o golpe do Desiderius e afundou as folhas da boneca, no coração do Daimon.


- Dê você mesmo. - lhe respondeu, observando ao Desiderius, que o olhava boquiaberto.


O tempo se deteve sem que nenhum dos dois desviasse o olhar. Pelo rosto do vampiro desfilaram multidão de emoções: incredulidade, medo, ira… e dor.


E então, em um abrir e fechar de olhos, Desiderius se desintegrou.


Harry e Gina ficaram petrificados ao compreender a enormidade do acontecido.


Tudo se tinha acabado. Desiderius estava morto. Tabitha e Gina estavam a salvo.


Harry tinha sua alma.


E a mulher que amava lhe tinha salvado a vida.


Com o coração na garganta, Harry deixou cair a boneca ao chão e se aproximou da Gina.


- É uma atriz consumada.


- Não. Estava aterrorizada. - passou-lhe a mão pelo peito sem poder evitar que tremesse - Estive a ponto de gritar quando disparou a flecha. Não pode imaginar quão duro foi. Acheron me disse que tinha que morrer para poder ser livre e sabia que eu não seria capaz de te matar. Sabia que a única oportunidade que tínhamos era deixar que Desiderius o fizesse por mim.


Harry a tirou da mão e, quando seus dedos lhe acariciaram a palma, notou a queimadura. Girou-lhe a mão e viu que tinha os símbolos do medalhão gravados a fogo na pele.


- Foi espantoso.


- Estou bem.


Ele se esclareceu garganta ao escutar o tom indiferente com o que o havia dito. Por que lhe subtraía importância ao que tinha feito por ele? Arqueou uma sobrancelha, sem poder acreditar-lhe destroçou-se a mão por salvá-lo.


- Terá uma cicatriz para toda a vida.


- Não. - lhe respondeu com um sorriso - Acredito que é o mais formoso que vi na vida. - inclinou-se para diante e lhe sussurrou ao ouvido - Depois de ti, claro.


Tomou o rosto com as mãos e a beijou.


- Obrigado, Gina.


Enquanto o olhava, a alegria se desvaneceu de seu rosto e, em seu lugar, apareceu uma expressão temerosa.


- Julian e Acheron me disseram que podia convocar a Artemisa e lhe devolver sua alma se queria.


- E por que ia querer fazer isso?


Ela se encolheu de ombros.


- É um Caçador Escuro.


Deu-lhe um ligeiro beijo nos lábios.


- O que sou é um homem apaixonado por uma mulher. Amo-te, Gina. Para o resto de minha felizmente curta vida como mortal. Quero despertar ao amanhecer contigo nos braços e ver como nossos filhos jogam e brigam. Porcaria! Até quero ver como me replicam.


Sorriu-lhe.


- Está seguro?


- Nunca estive tão seguro de algo.


Ela o pegou da mão e o guiou até sair do quarto.


Petrificado, deteve-se a contemplar os primeiros raios do sol iluminando a sala de estar. Por costume, retrocedeu só de vê-los.


Mas a brilhante luz não fazia mal aos olhos. Nem lhe queimava a pele.


Apertando com mais força a mão da Gina, obrigou-se a seguir caminhando até atravessar a porta.


E, pela primeira vez em dois mil anos, caminhou sob a luz do dia. A sensação do sol sobre a pele era incrível. A calidez, a brisa do amanhecer lhe provocando um ligeiro calafrio. Com o coração lhe pulsando nos ouvidos, levantou a vista e contemplou o céu, de um azul pálido, sulcado por umas nuvens brancas.


Era um dia glorioso.


E o devia a Gina.


Atirou dela para estreitá-la entre seus braços e a apertou com força.


- Salve Apolo. - sussurrou.


Gina sorriu enquanto o abraçava com ternura.


- Não. Salve Afrodita!


 


 


CAPÍTULO DEZOITO


 


Harry observava assombrado, o anel de casado em sua mão esquerda. Ainda não podia acreditar que a boa fortuna tivesse posto a Gina em seu caminho.


Tinham passado sete meses desde que ela o devolvesse à luz. Sete maravilhosos meses de passar noite e dia sem separar-se da Gina. Ajudando-a a aceitar, desenvolver e controlar seus poderes, que agora eram inclusive maiores que os seus. E não é que isso lhe importasse, os poderes que conservava de seus dias de Caçador Escuro eram suficientes para mantê-la a salvo. A segurança da Gina era o mais importante para ele.


Isso e despertar cada manhã para ver um sorriso em seu lindo rosto.


E agora estavam casados.


Gina o abraçou desde trás e o apertou com força.


- O que está fazendo aqui sozinho? - perguntou-lhe.


Deu-se a volta para contemplá-la com seu vestido de noiva. A cor branca ressaltava a perfeição de sua pele. Tinha as bochechas ruborizadas pela excitação e a luz da lua se refletia em seus olhos.


- Tomando um pouco de ar fresco.


Dedicou-lhe esse sorriso que o desarmava e de uma vez o fazia sentir o ser mais poderoso da terra.


- Quer que abandonemos a festa e saiamos correndo?


Ele soltou uma gargalhada.


- Só oito pessoas dessa monstruosa multidão são convidados meus, o resto são teus.


- Vá! - exclamou Gina, enrugando o nariz - Não importa. A coisa poderia ficar feia. Além disso, minha tia Xenobia poderia nos lançar uma maldição.


Passou-lhe o braço pelos ombros enquanto Gina o guiava de novo para o interior do salão de baile de sua mansão. Ao ritmo da orquestra, os cento e cinqüenta membros do clã Weasley dançavam, comiam e falavam. Miguel, Rosa e Liza estavam sentados em uma mesa com a irmã da Gina, Selena, rindo-se das gracinhas do bebê da Grace.


Gina deixou ao Harry um momento para aproximar-se de seus pais.


Talon, Nick, Julian e Acheron o rodearam. Julian o felicitou.


- Esta é uma daquelas que valem à pena. - disse-lhe


Harry assentiu.


- Sim, é-o.


- Tipo. - disse Talon com tom melancólico - Vou sentir falta de nossos bate-papos das três da manhã e Wulf já se está subindo pelas paredes porque diz que se ficou sem seu melhor adversário no Doom.


Harry sorriu ao recordar as solitárias noites que tinha passado chateando com seus irmãos e irmãs Caçadores.


- Lhe diga ao viking que não se preocupe. Escaparei-me de vez em quando para desafiá-lo a uma partida.


Acheron bebeu um sorvo de champanha.


- E o que vais fazer com sua curta vida?


Harry observou a Gina, que tinha pegado ao Niklos, o filho de três anos do Julian, e dançava com ele. Algum dia seria uma mãe estupenda.


- Vou vivê-la. E ser feliz.


Nick, que tinha as mãos nos bolsos das calças, uniu-se à conversação.


- Suponho que terei que começar a procurar outro Caçador Escuro… - e olhou de forma intencionada ao Talon.


- Uma merda, aperitivo de jacaré! Não me faça olhinhos. Eu não sou tão paciente como Harry e, além disso, em minha cabana mal há espaço para meu computador e eu.


- Não se preocupe. - lhe assegurou Ash - Já encontrarei a alguém.


Nick o olhou, horrorizado.


- Nem te ocorra me fazer um favor. Já te vejo me enviando ao Alaska como Escudeiro desse psicopata do Zarek.


Harry riu até que Gina se aproximou deles com expressão carrancuda.


- O que acontece, neném? - perguntou-lhe.


- É que há… istoooo… mmm…


Os homens a olhavam, espectadores.


- O que? - insistiu-a Harry.


- Uma frota de caminhonetes do UPS na entrada da casa.


Todos se olharam, sentindo admiração, antes de encaminhar-se em grupo à porta principal, onde estavam alinhadas sete caminhonetes do UPS.


Um dos condutores se aproximou do Harry.


- Olá! - saudou-o - Estou procurando o senhor K. Hunter.


- Esse sou eu. - lhe respondeu Harry.


- Bem. Diz-me onde podemos deixar a mercadoria?


- E o que é a mercadoria?


O condutor lhe entregou uma tabuleta com os nomes de todos os que enviavam os objetos.


- Wulf Tryggvason, Zoe, Blade Fitzwalter, Diana Porter, Cael, Brax, Samia, Arien, Kyros, Rogue, Kell, Dragon, Simon, Xander St. James, Alexei Nikolov, Badon Fitzgilbert...


A lista seguia e seguia com os nomes dos Caçadores Escuros.


- Sabe o que te digo Harry? - comentou Acheron entre risadas - Que vais ter que comprar uma casa maior.


- Sim. - afirmou Talon - Mas espera a que tenha filhos. Você pode esperar que seja o dobro disto.


Todos estalaram em gargalhadas.


Gina se aproximou mais ao Harry e o olhou aos olhos enquanto ele a rodeava com os braços.


- Acredito que seus amigos Caçadores vão sentir saudades. Está seguro de que não te arrepende?


Harry lhe deu um beijo ligeiro na bochecha.


- Para nada. E você?


- Jamais.


Acheron observou como os recém casados se perdiam no interior da casa.


- Apostamos aonde vão? - perguntou Talon.


Ash riu.


- Eu não. Já sei. - deu-se a volta para olhar ao condutor e lhe disse que deixasse os presentes no salão - Acredito que meu presente de bodas vai ser contratar a uma companhia que se encarregue de desembrulhar pacotes.


Nick se uniu às gargalhadas.


- Vou dizer-lhes onde colocar tudo para que Harry não se encha o saco.


- Ajudo-te. - lhe disse Talon.


Ash os observou afastar-se, Nick abria a marcha diante dos condutores e Talon os seguia a um passo mais tranqüilo. Enquanto isso, aos seus ouvidos chegava os sons da escuridão e da noite que conhecia tão bem. De repente, sentiu um ligeiro estremecimento a suas costas.


Tratava-se de uma presença que conhecia muito mais intimamente que a mesma noite.


Apurou a taça de champanha antes de falar.


- O que está fazendo aqui, Artie? Não sabia que estava convidada.


Uma mão delicadamente esbelta se pousou em seu ombro e seu calor se filtrou através do smoking. A deusa era de uma altura pouco comum entre os humanos e se movia com a graça e a sensualidade do vento. Era elegante e delicada.


E capaz de destruir algo se agitava muito.


- Sou uma deusa. - lhe disse com seu acento grego suave e refinado - Não necessito convite.


Acheron girou a cabeça e viu que Artemisa estava a sua esquerda. Seu espesso cabelo de cor acobreada brilhava sob a luz da lua e esses olhos verdes, iridescentes, olhavam-no lançando brilhos.


- Espero que tenha vindo a lhes desejar boa sorte. - lhe disse Acheron.


Ela o olhou de soslaio enquanto brincava de forma distraída com uma mecha de seu cabelo, recém tingido de negro. Em seus lábios se desenhava um ligeiro sorriso.


- É obvio. Mas a questão aqui é: e você?


Ash se esticou pela indireta.


- Que tipo de pergunta é essa? Já sabe que os desejo o melhor.


- Só queria comprovar que esse pequeno monstro de olhos verdes não te colocava idéias na cabeça.


Ele a olhou com as pálpebras entreabertas.


- O único monstro de olhos verdes que conheço é você.


Ela ofegou ao escutá-lo, sem deixar de sorrir.


- Ooooh! - cantarolou com um tom definitivamente erótico - Acheron se está voltando grosseiro à velhice. - apoiou o queixo em seu ombro e começou a lhe acariciar o queixo com uma unha - Menos mal que eu gosto porque, de outro modo, agora estaria guisado.


Ele deixou escapar um suspiro.


- Sim, que sorte tenho… E, por certo, diz-se «frito».


Artemisa nunca conseguiria adaptar-se ao vocabulário guia de ruas, mas parecia desfrutar de muito o usando. Ou, bem pensado, fazendo um mau uso dele. Acheron suspeitava que, em ocasiões, o fazia intencionadamente para desafiá-lo a que a corrigisse.


- Mmm, - murmurou ela, abraçando-o pela cintura em atitude brincalhona - eu adoro quando fica tão agressivo.


Acheron se afastou dela.


- A quem vai transladar à Nova Orleans para que ocupe o posto do Harry?


Ela se umedeceu os lábios com um gesto travesso e um brilho brincalhão nos olhos, mas antes que pudesse lhe responder, Julian se aproximou deles.


- Priminha Artemisa. - lhe disse, a modo de saudação.


- Julian da Macedônia. - respondeu ela com frieza - Não sabia que estava aqui.


- O mesmo digo.


- Bom. - os interrompeu Acheron - Já vejo que as apresentações não são necessárias.


A deusa lançou um ameaçador olhar ao Julian.


- Sim, bom. Eu gostaria de ficar, mas não posso.


Antes de desvanecer-se, inclinou-se para o Acheron e lhe sussurrou algo ao ouvido. Ele ficou petrificado ao escutá-la. Artemisa se esfumou deixando um rastro vaporoso atrás dela.


Às vezes era a zorra maior da terra.


Julian o olhou, elevando uma sobrancelha.


- O que te há dito?


- Nada. - quão último queria era deixar cair essa bomba sobre o Julian e Harry. E menos ainda em metade de umas bodas, assim trocou o tema - Então, general, seu melhor amigo está de volta. Aposto-me o que queira a que acabarão metidos a sérios problemas.


Julian riu.


- Para nada.


Mas ao Acheron resultava muito difícil de acreditar.


Tão difícil como imaginar que Artemisa o deixasse em paz durante um tempo.


 


 


EPÍLOGO


 


Gina lhe afastou o cabelo da cara ao Harry enquanto o beijava nos lábios. Seu vestido de noiva jazia no chão, junto com o smoking, e eles estavam embaraçados entre os lençóis de seda.


- Estamos sendo muito mal educados, não acredita? - perguntou-lhe ela.


Harry sorriu.


- Sim, e eu adoro.


Ela soltou uma gargalhada e, quando ele a beijou, esqueceu-se do resto do mundo.


- Me diga. - lhe disse Harry enquanto lhe mordiscava o pescoço, sob a orelha, com suas presas humanas - Sente falta do de ser contadora?


- Absolutamente, e você?


- Eu não fui contador na vida.


Beliscou-lhe o nariz.


- Já sabe ao que me refiro. Sente falta de ser um Caçador Escuro?


Lambeu a orelha fazendo que a pele lhe arrepiasse.


- Às vezes sim. Mas prefiro estar contigo.


- Diz a sério?


Harry se incorporou para olhá-la aos olhos.


- Do fundo de minha alma e meu coração.


- Bem. - lhe sussurrou ela, beijando-o de novo  Porque agora que é de novo mortal, o bebê e eu queremos que tenha muito cuidado.


Harry ficou gelado.


- O que?


Sorriu-lhe.


- Estamos grávidos, senhor Hunter. Desde seis semanas.


Harry a beijou com ânsia e a encerrou em um forte abraço.


- Essa, senhora Hunter, é a melhor notícia que recebi na vida.


Gina tomou o rosto entre as mãos.


- Amo-te, Harry da Tracia, e não quero te perder jamais.


- Amo-te, Gina, e te juro que jamais me separarei de seu lado.


Gina voltou a beijá-lo e soube, nesse momento, que sim existia o de ser felizes para sempre.


Embora, para consegui-lo, teve que casar-se com um vampiro.


Fim.


 


 


 


 

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