O dia seguinte era um domingo e amanheceu completamente nublado. Os alunos, que no dia anterior ficaram recolhidos aos salões comunais de suas casas, descansando da festa que ocorrera na noite de sexta para sábado, não se importaram com a ameaça de chuva que pairava no ar e foram todos para o jardim, a fim de aproveitar o dia, enquanto o temporal que se anunciava não caía.
O mês de maio finalmente acabava, trazendo consigo as chuvas que prenunciavam o fim da estação das flores. Junho começaria dali a dois dias e o verão chegaria em menos de um mês.
Também Maria resolveu sair do castelo e passear ao ar livre. Com um livro nas mãos, deixou seus aposentos, seguindo em direção aos jardins. Na noite anterior, ela e Severus decidiram que voltariam ao trabalho de tradução somente na segunda-feira, dia 31 de maio, quando se comemoraria o Feriado da Primavera. Desta maneira, teriam o domingo inteiro para descansar. A princípio, sua idéia era a de passar o dia ao lado dele, mas Severus achou melhor que não fossem mais vistos juntos com tanta freqüência e ela acabou concordando. Portanto, teve que contentar-se em passear sozinha, enquanto seu amado se enfiava no laboratório de poções para, segundo ele próprio lhe disse, “organizar as coisas por lá”.
Quando chegou no pátio externo do castelo, Maria logo percebeu um grupo razoavelmente grande de alunos que conversava animadamente. No centro dele estava Harry Potter, Ronald Weasley e Hermione Granger. Ela resolveu se aproximar, mas sua presença só foi notada quando cumprimentou a todos.
“- Bom dia ! Vejo que estamos bastantes serelepes hoje ! Não sabia que o cancelamento dos testes traria tanta alegria !”
“- Bom dia , professora Gentili”, responderam os alunos em uníssono.
“- Nossa ! A senhora fez muita falta !”, disse Ron Weasley.
“- E também perdeu a melhor festa de todos os tempos.”, emendou Gina.
“- Eu sei. O diretor já me informou sobre isso. Infelizmente não cheguei a tempo para as comemorações. E, a propósito, fico contente que vocês tenham sentido falta de mim.”
“- A senhora voltou a Hogwarts ontem ?”, perguntou Harry.
“- Sim, ontem pela manhã. Mas vocês estavam todos dormindo e depois passaram o dia inteiro enfurnados nos salões comunais, por isso não nos encontramos. Por falar nisso ... meus parabéns, Harry, por sua bravura e astúcia. Você foi mesmo fenomenal !”
O menino sorriu envergonhado e passou a mão pelos cabelos, meio sem saber o que dizer. “- Bem ... er ... não foi bravura não ... eu tive mesmo foi sorte de ter Fawkes a meu lado. Se não fosse por ele, a esta hora eu estaria morto.”
“- É bom saber que você, apesar de ser um herói, continua modesto.”, disse Maria, com um sorriso nos lábios.
“- É que eu não fiz tudo sozinho, professora. Ron me ajudou muito.”
“- Então os dois estão de parabéns por terem uma amizade tão especial a ponto de um arriscar a vida pelo outro.”
“- Obrigado, professora.”, responderam os meninos.
“- Não há de que ! E você, Hermione ? Vejo que está bem disposta. Nem parece que ficou petrificada por tantos dias !”
“- Eu estou bem. Só estou triste porque os testes foram cancelados.”
Maria não pode deixar de rir. “- Bom, acho que você é a única aluna que está pesarosa por este motivo.”
“- Não escute o que Hermione diz, professora. Ela às vezes fala coisas que não fazem sentido algum.”, disse Ron, olhando para a amiga e franzindo o cenho em desaprovação.
“- É mesmo. Detesto concordar com o Ron, mas dessa vez ele está certíssimo.”, falou Gina.
“- Eu não tenho culpa se gosto de estudar.”, resmungou Hermione.
“- Minha querida, estudar é muito bom e deve ser uma prática constante. Entretanto, todos nós precisamos de momentos de descanso e lazer. Você não deve se sentir culpada quando se diverte com seus amigos.”, disse Maria.
“- Viu Hermione ? Todo mundo precisa de diversão ! Até os professores concordam com isso !”, constatou o menino ruivo.
“- Está bem. Vou tentar não ser estraga-prazeres e prometo que não falarei mais sobre o cancelamento dos testes ... pelo menos não por hoje.”, declarou Hermione, encerrando o assunto.
“- Por Merlin ! Nem acredito que você disse isso !”, exclamou Harry Potter, enquanto todos os outros alunos presentes começaram a gargalhar.
“- Muito bem,”- disse Maria – “acho melhor eu me retirar e deixá-los livres para conversar sobre coisas importantes que não interessam aos adultos.”
“- A senhora vai passear por aí ?”, perguntou Harry. “- Acho melhor não ir longe porque a chuva não tarda em cair.”
“- Não pretendo distanciar-me muito. Vou apenas até a cabana de Hagrid. O diretor me informou que ele está de volta.”
“- Está mesmo ! Nossa ! A senhora precisava ver a cara de alegria dele quando voltou a Hogwarts.”, disse a irmã de Ron, com um sorriso no rosto.
“- Então vou já para lá. Preciso ver essa cara de alegria com meus próprios olhos. Um bom dia para vocês. Eu os verei na hora do almoço.”
“Bom dia para a senhora também.”, responderam todos em uma só voz.
Maria saiu dali e foi em direção à cabana de Hagrid, mas lá não o encontrou. Ainda chamou várias vezes por ele, sem obter qualquer resposta. Ficou por algum tempo em frente à porta da cabana, mas Hagrid não apareceu. “- Certamente foi visitar seus amigos na floresta proibida.”, pensou ela, olhando para o céu cor de chumbo, coberto por nuvens carregadas. “- É melhor voltar para o castelo antes que a chuva caia.”
O vento começara a soprar forte, balançando vigorosamente os galhos das árvores. O ar encheu-se daquele cheiro de terra e de verde que sempre precede as tempestades. “- Que aroma delicioso.”, murmurou Maria. Ela sempre gostara da chuva, de sentir a água que vinha do céu a lhe cair no rosto, encharcando-lhe os cabelos, escorrendo-lhe pelo pescoço, ensopando-lhe as roupas. Entretanto, como estava com o livro nas mãos e não queria vê-lo estragado, achou por bem abrigar-se antes que a chuva viesse.
Pôs-se a correr em direção ao prédio principal da escola, chegando rapidamente a um dos corredores cobertos que cincundavam os jardins, agora vazios. Os alunos já tinham todos voltado para o castelo pois a tempestade era iminente. Vendo-se em lugar seguro, sentou-se em um dos bancos que ali ficavam e abriu o livro, folheando-o a procura de algum texto que lhe chamasse a atenção. A obra que tinha em mãos chamava-se “The Book of the Rose”(65), do poeta canadense Charles G. D. Roberts.
Seus olhos vagaram pelas páginas do livro por algum tempo, até que deparou-se com um de seus poemas favoritos deste autor, entitulado “The Rose of my Desire”(66). Começou então a recitar os versos em voz baixa.
“O wild, dark flower of woman,
Deep rose of my desire,
An eastern wizard made you
Of earth and stars and fire.
When the orange moon swung low
Over the camphor-trees,
By the silver shaft of the fountain
He wrought his mysteries.
The hot, sweet mould of the garden
He took from a secret place
To become your glimmering body
And the lure of your strange face.
From the swoon of the tropic heaven
He drew down star on star,
And breathed them into your soul
That your soul might wander far—
On earth forever homeless,
But intimate of the spheres,
A pang in your mystic laughter,
A portent in your tears.
From the night's heat, hushed, electric,
He summoned a shifting flame,
And cherished it, and blew on it
Till it burned into your name.
And he set the name in my heart
For an unextinguished fire,
O wild, dark flower of woman,
Deep rose of my desire.” (66)
A chuva começou a cair grossa e pesada. Os grandes pingos, açoitados violentamente pelo vento forte, rapidamente encharcaram o chão, trazendo às narinas de Maria o delicioso perfume de terra molhada. Raios velozes riscavam o céu com seu clarão, seguidos por trovões cujo barulho ensurdecedor ecoava livremente pelo ar. Ela pensou em levantar-se e entrar no castelo, a fim de ficar mais abrigada, mas desistiu de fazê-lo pois não queria perder o espetáculo de aromas e cores e a cacofonia retumbante que aquela tempestade passageira lhe proporcionava. Ficou ali, em silêncio, lembrando-se dos versos que acabara de ler e refletindo sobre sua vida e sobre todos os fatos que conspiraram para que ela viesse a Hogwarts, trabalhar como professora.
“That your soul might wander far (...) But intimate of the spheres”(67), dizia o poema. Sim, sua alma vagara para longe e quem diria que teria que andar por tantas esferas para finalmente encontrar o amor verdadeiro. Aquele que não é relação de dependência ou de dominação, mas sim de igualdade e de cumplicidade. Aquele que não é a junção de duas partes, mas a união de dois inteiros que se complementam por escolha própria e não por obrigação. O amor de alegria, de júbilo, de livre arbítrio e não o sentimento doentio de posse, nascido da necessidade de auto-afirmação. O amor real, terno e belo que experimentava agora e do qual não abdicaria, mesmo sabendo que esta escolha lhe traria ainda muito desafios e sofrimentos. Este puro amor que ela e Severus cultivaram juntos desde que era apenas plantinha frágil e singela, transformara-se, dia após dia, em árvore frondosa e cheia de frutos doces e tenros. “- Mesmo as árvores mais majestosas precisam de podas para ficarem mais fortes e darem frutos maiores e mais gostosos.”, pensou ela, sorrindo. E não seriam essas podas que a fariam desistir daquele sentimento lindo que tinha por Severus. Era opção sua e dele continuarem juntos, sem temer as intempéries que, porventura, tivessem que enfrentar.
Maria fechou seus olhos e respirou fundo, sentindo o ar fresco a lhe entrar pelas narinas, assim como a felicidade lhe invadia a alma, dando-lhe um sentimento de plenitude que jamais experimentara antes. Deixou-se dominar por este súbito bem-estar e sentiu-se grata por poder desfrutá-lo. De repente, deu-se conta de que todas a escolhas que fizera em sua vida, tanto as certas quanto as erradas, a haviam trazido àquele ponto. Qualquer passo diferente que tivesse dado, poderia tê-la afastado irremediavelmente daquele momento único em que se encontrava. Era como se sua vida antes fosse um quebra-cabeças de múltiplas peças soltas à esmo. Somente a colocação de cada pedacinho em sua posição correta daria a visão completa da paisagem final. Agora o quebra-cabeças estava montado e a figura que ele mostrava era perfeita e estonteantemente bela. Concluiu, por fim, que todas as decepções que tivera em relacionamentos anteriores, foram, como aquela chuva grossa e inclemente que caía, apenas prenúncio tempestuoso e breve da chegada do cálido verão em sua vida. “A pang in your mystic laughter, a portent in your tears.” (68)
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(65) “The Book of the Rose” – em inglês – “O Livro da Rosa”
(66) “The Rose of my Desire” – em inglês – “A Rosa do Meu Desejo” – tradução livre -
"Ó selvagem e sombria flor de mulher,
Obscura rosa de meu desejo,
Um mago do oriente fez-te
De terra e estrelas e fogo.
Quando a lua alaranjada balançou debilmente
Sobre as árvores de cânfora,
Nas hastes prateadas da fonte
Ele laborou seus mistérios.
O cálido e doce molde de jardim
Ele pegou de um lugar secreto
Para se tornar teu corpo tremeluzente
E o chamariz de tua estranha face.
Do desmaiar do tropical firmamento
Ele trouxe estrela por estrela,
E as soprou dentro de sua alma
Que sua alma poderia vagar longe –
Na terra, para sempre sem lar,
Mas íntima das esferas,
Uma dor em seu sorriso místico,
Um presságio em suas lágrimas.
Do calor da noite, silencioso, elétrico,
Ele convocou uma chama movediça,
E dela cuidou, e nela soprou
Até que a chama formou seu nome
E ele forjou seu nome em meu coração
Com um fogo que não se extingue,
Ó selvagem e sombria flor de mulher,
Obscura rosa de meu desejo.”
(67) “That your soul might wander far (...) But intimate of the spheres” – em inglês – “Que sua alma poderia vagar longe (…) Mas íntima das esferas.”
(68) “A pang in your mystic laughter, a portent in your tears.” – em inglês - “Uma dor em seu sorriso místico, um presságio em suas lágrimas.”