CAPITULO 68
Cartada final
O jornal foi posto sobre a mesa com exasperação. Gina sorriu e maneou a cabeça do outro lado da sala, enquanto assistia seu desespero.
-Será que nada abala essa mulher? – Hermione perguntou revoltada – Matéria de capa, três paginas completas falando sobre envenenamento de crianças com o medico das filhas dela, e Mary não moveu um único músculo! Na verdade, parecia bem mais interessada no conteúdo medico da entrevista do que no entrevistado! Gina, você deve conhecê-la um pouco, então me diz: o que estou fazendo de errado?
Gina poderia enumerar uma lista infinita de atitudes que Hermione tivera que considerava erradas. Se não soubesse que o sentimento que a unia a seu irmão era intenso e verdadeiro, ela não os apoiaria. Suspirando, ela desviou a atenção de Felicity e olhou para amiga.
-Mary tem raiva de você, mas por ela está tudo bem, desde que Rony esteja com ela. Ela vai te odiar, vai de lançar pragas e te ridicularizar, mas tudo pelas costas de Rony. O grande e único problema, Hermione, é que apenas você está envolvida nessa missão de enlouquecê-la. Rony está ao lado dela, como sempre. Na cabeça doente de Mary, está tudo bem.
-Porque ela age assim? Ficar com um homem que nunca a amou? Auto flagelação, isso sim! –ela desabafou olhando com desgosto para aquele jornal idiota. – Porque ela não pode colocar isso na cabeça e deixar Rony em paz?
-Porque ela deu seis anos de sua vida para que esse casamento desse certo – Gina explicou complacente – Acredito que antes mesmo de conhecer Rony ela fantasiava com ele. Foram muitas as matérias de jornal e revista na época falando dele e insinuando que ele destruiu Voldemort. Até que Rony desmentisse isso, ela acreditou e idealizou-o! para Mary o marido é a concretização de um sonho. Particularmente nunca acreditei que ela o amasse. Porém, fazê-la desistir de tudo...vai ser quase impossível!
-Não preciso que ela desista! Preciso que ela me envenene e assim Rony possa ficar com as filhas -ela disse raivosa e sorriu – espero que não pareça tão horrível ouvindo como parece ao dizer...
-Bem, parece meio desesperado – Gina sorriu em apoio.
-Não quero o mal de Mary, mas não posso pedir que Rony peça o divorcio correndo o risco de deixar as filha com uma louca! Ele nunca se perdoaria se algo acontecesse a elas. – lamentou – Tenho três dias para conseguir algum resultado, pois depois que as meninas voltarem das férias, não poderemos fazer mais nada.
-Animo, Hermione! – Gina sorriu para dar-lhe incentivo – Não é do tipo que desisti fácil!
-Eu já contei a ela que ficamos de amasso pelas suas costas enquanto ela dorme, eu já desfilei quase sem roupas na frente dela. Já insinuei que sou promiscua e que vou roubar seu marido. Já tentei esfregar seu crimes nas paginas do Profeta Diário! Já estou sem idéias...
-Tenho certeza que vai pensar na coisa certa a fazer – Gina disse com uma ponta de diversão na voz.
-E a minha afiliadinha, já se acostumou com a casa nova? – Hermione perguntou brincando com a bebezinha que estava no carinho olhando para ela com os olhinhos miúdos de sono, azuis e atentos.
-Não estamos morando com Harry! Ter dormido em sua casa duas noites não quer dizer que me mudei para lá! – Gina afirmou rapidamente.
-Porque não conta logo para Harry da dimensão das suas brigas com seu ex-marido e da razão para não se sentir a vontade morando com outro homem? Acabe logo com isso, Gina! – aconselhou.
-Harry vai pensar que estou com medo dele, de que se repita a mesma situação, e não é nada disso! Eu apenas estou assustada. No passado eu casei apenas para ter um filho. Não foi de propósito, mas acabei usando Greg para isso! e agora, eu posso ter uma família com o homem que amei. Que amo. E se estiver usando Harry para realizar esse sonho, da mesma forma que fiz com Greg? - ela desabafou – Amo Harry, não concebo a idéia de fazê-lo sofrer.
-Você quer uma família, mas Harry também quer. Então, quem estaria usando quem? – Hermione perguntou direta – eu respondo que nenhum dois, pois apenas querem ser felizes juntos. Isso não tem nada a ver com seu primeiro casamento. Tem a ver com amor. E amor não se mede por decisões únicas. É uma decisão dos dois.
-A grande estendida de amor – Gina debochou saindo de fininho da situação.
-Gina, meu melhor amigo está de cabeça nessa relação e Harry já viveu muitas coisas ruins, então eu te peço, não o deixe no escuro sobre seus sentimentos. Não faça isso com ele – Hermione disse séria.
-Pois eu te digo a mesa coisa, Hermione. Meu irmão já viveu o inferno atrás de vocês, e tem filhas com quem se preocupar. Então, não mexa com a vida dele se não tiver intenção de fazê-lo feliz – Gina falou tão seria quanto ela.
Hermione baixou o olhar para Felicity entendendo que ambas estavam em uma mesma situação confusa. Melhor não brigarem.
-Hermione, me desculpe, eu não quis dizer isso – Gina sentou-se ao seu lado no sofá – Minha situação e a sua são completamente diferentes, eu sei. Você e Rony estão na mesma sintonia e sabem como agir e lutar para ficarem juntos e eu...tenho tanto medo de magoar Harry e minha filha! Não posso lhe dar um pai e tira-lo depois! – disse exasperada.
-Gina, eu vou dizer algo bem cruel, mas espero que não te magoe – Hermione começou – Seu marido morreu, o pai de Felicity morreu. Deixou para trás uma mulher jovem e muito bonita por dentro e por fora, e que vai atrair os homens e precisará ser feliz novamente, ou quem sabe ser feliz pela primeira vez. Sendo assim, por mais que pareça errado, Felicity terá que conviver com isso. Se o relacionamento com Harry não der certo, haverá outro homem. Tenho certeza que saberá educá-la para entender a vida do jeito que ela é. Ela terá uma mãe linda, tentando fazer o melhor para ela.
Gina não respondeu nada, pois estava emocionada, mas segurou sua mão e apertou com carinho. As duas ficaram caladas, olhando para Felicity, que bocejou e se mexeu no carinho arrancando comentários de como era lindinha e fofinha, e o assunto estava esquecido por enquanto.
-Ela não disse uma palavra negativa sobre a reportagem – Rony disse quando os dois estavam sozinhos na sala, tendo Mary subido para trocar de roupa antes do jantar. – Não pareceu que estivesse incomodada com isso!
-Nada é capaz de incomodá-la! - ela disse chateada.
Estavam de pé conversando perto da lareira. Se Mary precisava se trocar cada vez que chegava a sua própria casa, quem eram eles para reclamar do pouquíssimo tempo que tinham juntos?
-Não fique chateada, Hermione. Vamos dar um jeito nisso –ele garantiu e ela não respondeu o que de verdade estava passando por sua cabeça. Ele fazia carinhos em seu braço e ela se deixou levar sorrindo para ele apesar da preocupação.
Eles trocaram alguns comentários doces até Hermione ouvir o barulho dos saltos batendo no corredor do segundo andar. Sem saber bem de onde tirava a coragem, ela não pensou duas vezes.
Segurando as lapelas do blazer de Rony, o beijou. Ele não demorou a corresponder, apesar da surpresa, provavelmente não tendo ouvido que Mary se aproximava.
Hermione se entregou ao beijo e quase esqueceu o que pretendia, até ouvir o som de algo caindo ao chão. Os dois se separaram arfantes e a bolsa de Mary estava no chão, caída de suas mãos incapazes de segurar o que quer que fosse.
Ela estava no penúltimo degrau da escada encarando-os.
Hermione se afastou de Rony, consciente de ter levado as palavras de Gina ao extremo. Mary só se abalava com a possibilidade de perder efetivamente o marido, e agora, ele estava nos braços de outra mulher.
Não era mais apenas uma suposição; era uma certeza.
Rony espertou pelo grito, pelo choro e pelo escândalo. Esperou e até desejou isso.
-Convidei dr.Taylor para o jantar -ela disse com voz presa, porém tentando parecer nada afetada. – Ele deve estar chegando. Porque não se lavam para comer?
Como se nada houvesse acontecido, ela dirigiu-se a cozinha.
Hermione olhou para Rony sem saber o que dizer.
Ele fez o mesmo.