No dia seguinte, a família Gentili novamente acompanhada por Dumbledore, chegou ao tribunal do júri cerca de 15 minutos antes do horário marcado.
Enquanto o ex-diretor de Hogwarts encaminhou-se para a tribuna, que agora estava ainda mais cheia do que no dia anterior, o Dr. Gentili e seu clã foram levados mais uma vez até a sala onde aguardariam serem chamados para depor.
Até então, ninguém sabia quem era a misteriosa testemunha que havia aparecido de última hora como um fantasma para acusar Vittorio por crimes horrendos e inimagináveis. “Quem seria esta pessoa ?”, era a pergunta que todos se faziam. Nem mesmo os Gentili teriam conhecimento de quem se tratava, pois a nova testemunha seria colocada em uma sala separada daquela aonde ficariam aguardando para prestar depoimento.
Também Dumbledore estava muito curioso e interessado em assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Após separar-se dos Gentili e subir as escadas da tribuna, ele dirigiu-se a uma das filas onde finalmente conseguiu uma cadeira vazia para acomodar-se. Foi até ela e sentou-se ao lado de um casal de aspecto nobre e distinto. Pelas expressões cansadas e tristes de ambos, o velho bruxo deduziu que deveriam ser os pais do réu. Ficou ali sentado e não pode deixar de escutar o que o homem e a mulher conversavam. Os dois falavam e voz baixa, mas o pouco que o ex-diretor de Hogwarts pode ouvir serviu para confirmar suas suspeitas. Aqueles eram o pai e a mãe de Vittorio e estavam preocupadíssimos com o destino do filho.
“- Mea culpa, mea maxima culpa.”, (64) disse o homem. “- Se eu não lhe tivesse dado tanta liberdade, se não o tivesse coberto de mimos e feito todas as suas vontades, nosso filho provavelmente não estaria aqui.”
“- Não, Antônio.”, retrucou a mulher. “- Eu também fui boa demais, compreensiva demais, nunca o repreendi, mesmo sabendo-o errado. Quando ele agiu de maneira vil com Maria Gentili, por exemplo, eu deveria ter lhe chamado a atenção, deveria tê-lo admoestado e o punido. Mas não ! Ao invés disso, eu lhe passei a mão pela cabeça e aceitei aquele casamento ridículo e de última hora sem retrucar.”
“- Gioconda, Vittorio já está perdido há muito tempo. Os últimos acontecimentos foram apenas um reflexo da criação falha que lhe dei.”
“- Que nós lhe demos, Antônio. Nós dois falhamos juntos, não foi só você.”
“- E agora o estão acusando de ser Comensal da Morte ! A que ponto chegou nosso filho, minha cara ? A que lugar nos levou nossa total falta de pulso em sua criação ?”
A mulher começou então a chorar baixinho, fazendo com que Dumbledore fosse tomado pela pena. Em seus 150 anos de vida, o ex-diretor de Hogwarts já havia visto muitos jovens se perderem e seguirem por caminhos errados exatamente pela falta de regras e de rédeas impostas pela família. Ele mesmo tinha feito das suas e por pouco não se desviara definitivamente do bom caminho, entorpecido pela busca desenfreada por fama e poder. Ainda refletia sobre estas coisas quando o juiz entrou na sala e todos foram convocados a se levantar em sinal de respeito.
Neste momento, Vittorio adentrou o tribunal, acompanhado por dois advogados de defesa e por dois guardas que o seguravam pelos braços. Dumbledore não o conhecia e ficou surpreso com sua figura alta, esguia e de uma beleza clássica. Aquele homem tivera tudo para ser um sucesso e no entanto estava ali, sendo julgado por crimes inomináveis e certamente seria condenado a passar o resto de sua vida na prisão.
O réu foi levado até a mesa onde deveria ficar durante o julgamento e a sessão se iniciou com a longa leitura dos autos. Quando a leitura terminou, o juiz dirigiu-se ao réu:
“- Sr. Vittorio di Trevi, como o senhor se declara quanto às acusações que lhe são feitas em relação ao ataque à família Gentili.”.
“- Culpado, meretíssimo.”
“- Muito bem.”, continuou o juiz, “e quanto às outras acusações que contra o senhor pesam ?”
“- Sou inocente !”, protestou Vittorio com veemência. “- Jamais fui um Comensal da Morte !”
“- Que fique registrado nos autos que os réu declara-se culpado das primeiras acusações e inocente das segundas. Vamos começar a audição das testemunhas de defesa.”
Duas horas já haviam se passado entre o início dos trabalhos e a convocação da primeira testemunha. Tratava-se de Ângelo Gentili. Assim que ele apresentou-se, o promotor lhe requereu que se identificasse diante do júri e então pediu-lhe para relatar todos os fatos ocorridos no sábado de Aleluia e que culminaram com o ataque à sua família.
O Dr. Gentili foi extremamente minucioso em sua narrativa, contando toda a história em seus mínimos detalhes, não se esquecendo de mencionar nenhum pormenor.
Tendo o promotor se dado por satisfeito, o juiz voltou-se para a defesa a fim de dar-lhes a palavra. Os advogados de Vittorio, entretanto, disseram não ter qualquer pergunta a fazer e a testemunha foi dispensada.
Jean Pierre foi o próximo a ser chamado para dar depoimento. Também ele contou com detalhes tudo o que sabia sobre os acontecimentos. Quando o promotor dispensou Jean Pierre e o juiz já preparava-se para permitir que o haitiano se retirasse, um dos advogados de defesa do réu dele aproximou-se.
“- Sr. juiz, eu gostaria de fazer algumas perguntas à testemunha.”
“- A testemunha é sua.”, assentiu o juiz.
O advogado então começou seu inquérito.
“- Sr. Rappaport, é verdade que o senhor já foi ligado às Artes das Trevas ?”
“- Protesto, meretíssimo !”, exclamou o promotor. “- A vida pregressa do Sr. Rappaport não está em julgamento aqui.”
“- A resposta a esta pergunta é de vital importância para que a defesa desenvolva sua linha de raciocínio.”, retrucou o advogado.
“- Está bem.”, concordou o juiz. “- Sr. Rappaport, por favor responda à pergunta que lhe foi feita.”
“- Sim, é verdade.”, respondeu Jean Pierre. “- Eu fui ligado às Artes das Trevas no passado.”
“- O senhor chegou a cometer algum ato homicida durante este negro período de sua vida ?”
“- Meretíssimo, isto é um absurdo !”, protestou o advogado de acusação.
“- Protesto negado.”, disse o juiz. “- Peço a testemunha que responda a todas as perguntas que lhe forem feitas. Caberá a mim como juiz decidir se elas são apropriadas ou não.”
“- Nunca cometi homicídio.”, respondeu o haitiano.
“- Mas o senhor chegou muito perto disso, não é ?”
“- É verdade. Entretanto, jamais cheguei a matar outro ser humano.”
“- Muito bem.”, continuou a defesa. “- Sr. Rappaport, é verdade que o senhor sempre teve máguas em relação ao meu cliente ?”
“- Não, isso não é verdade.”
“- Mas o senho tentou impedi-lo de manter um relacionamente amoroso com a srta. Maria Gentili, não é ?”
“- Apenas tentava protegê-la de um homem que eu sabia não ser o melhor para ela.”
“- Pode ser. Mas talvez o senhor tenha tido este comportamento porque a queria para si. Porque casando-se com ela e senhor faria finalmente parte da família, por fato e por direito.”, acusou o advogado com um olhar carregado de malícia.
“- Eu já sou parte da família. Não preciso usar destes artifícios.”, retrucou Jean Pierre com ar indignado.
“- Meretíssimo, por favor, isto não tem o mínimo cabimento !”, implorou o promotor.
“- Protesto aceito.”, concordou o juiz. “- Senhor advogado de defesa, sua linha de raciocínio é obscura. Devo admoestá-lo de que tirar o foco do réu para colocá-lo sobre a testemunha de acusação não será atitude tolerada neste tribunal.”
“- Peço desculpas, meretíssimo. Vou refrasear minha pergunta ... Sr. Rappaport, não é verdade que se o Sr. Di Trevi tivesse se casado com a srta. Gentili, o senhor teria perdido toda a ascenção que tem sobre ela ?” – esta pergunta causou imediato burburinho entre os presentes.
“- Silêncio no tribunal !”, pediu o meirinho.
“- Nunca tive qualquer ascenção sobre Maria. Tudo o que fiz foi aconselhá-la pois a considero como irmã. Minha intenção sempre foi a de protegê-la.”, respondeu o haitiano, assim que as outras vozes se calaram.
“- Protegê-la a ponto de guardá-la só para si ?”, alfinetou o advogado. Novamente o tribunal foi invadido pelas inúmeras vozes de pessoas que ali estavam assistindo ao julgamento.
Ouvindo isso, o juiz bateu o martelo sobre a mesa, a fim de restabelecer o silêncio.
“- Senhor advogado, se insistir novamente neste tipo de abordagem, terei que pedir que ser retire do tribunal.”
“- Está bem meretíssimo. Não haverá necessidade para isso. Dou-me por satisfeito. Não tenho mais perguntas.”
“- A testemunha está dispensada.”, disse o juiz. Jean Pierre levantou-se da cadeira e lançou um olhar de raiva em direção a Vittorio. Sabia muito bem que ele havia instruído seus advogados a seguirem esta linha de raciocínio. Sua arrogância era mesmo impressionante e ele não se abatia nem mesmo em situação que lhe era tão desfavorável.
Assim que o haitiano saiu de seu lugar, ouviu-se a voz do juiz: “- O tribunal agora entrará em recesso para o almoço. A sessão recomeçará exatamente às 14:30h”, disse ele, batendo o martelo sobre a mesa e retirando-se logo em seguida.
Quando a sessão recomeçou, a próxima testemunha de acusação chamada foi Maria. Assim que ela entrou e sentou-se no lugar que lhe era cabido, olhou para Vittorio e ficou admirada com a fragilidade que ele demonstrava. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, ele estava abatido e mais magro que o de costume. Seu rosto parecia muito cansado e o brilho tão característico de seus olhos azuis estava obliterado e esmaecido.
Estava absorta nestes pensamentos quando mentalmente lembrou-se do que Jean Pierre havia dito a Marco na noite em que vieram de Hogwarts a fim de participar do julgamento: “Ele a conhece. Jurará que está sinceramente arrependido pois sabe bem que ela não consegue guardar mágoa e que provavelmente já o perdou.”
Foi pensando nisso que Maria começou a responder às perguntas do promotor e contou com riqueza de detalhes tudo o que se lembrava sobre o ataque. Seu depoimento foi demorado pois o advogado de acusação, após ouvir todos os pormenores relativos ao dia do crime, achou por bem também lhe fazer várias indagações sobre fatos ocorridos enquanto ainda era noiva de Vittorio. A intenção clara da promotoria era a de mostrar ao júri que o réu sempre tivera caráter duvidoso, aproveitando-se da condição de noivo da testemunha para tirar proveito de seu excelente e respeitado trabalho como tradutora. Ele então, sem qualquer pudor, apoderava-se deste trabalho e apresentava-o como de sua própria autoria.
Assim que a acusação finalmente deu-se por satisfeita, a defesa declarou que nada tinha a questionar à testemunha e Maria foi dispensada pelo juiz.
Ela já ia retirar-se do tribunal quando Vittorio levantou-se em prantos, sem que ninguém esperasse, e começou a falar alto, para que todos os presentes pudessem ouvi-lo:
“- Maria, mea culpa, mea maxima culpa ! (64) Mas tudo o que fiz foi por amor ! Minha intenção nunca foi a de machucá-la ! Só queria tê-la de volta para mim ! Estou muito arrependido do que fiz !” – a voz dele era constantemente entrecortada por soluços e lágrimas. “- Meu amor, me desculpe por amá-la tanto a ponto de cometer um crime !”, implorou ele. “- Não posso viver sem o seu perdão.”
Parte da tribuna levantou-se, uns aplaudindo e outros vaiando o réu. A balbúrdia tomou conta do ambiente.
“- Ordem no tribunal !”, gritou o juiz, batendo vigorosamente com o martelo sobre a mesa.
“- Sr. di Trevi, cale-se ! O senhor não tem permissão para falar ! Senhores advogados de defesa, por favor contenham o seu cliente ou serei obrigado a suspender a sessão !”, continuou o magistrado.
Os ânimos imediatamente se acalmaram e todos os que agora estavam de pé voltaram a sentar-se.
“- Meretíssimo,” - disse então Maria assim que as vozes se calaram, “o senhor me permite dizer algumas palavras ?”
“- Permissão concedida. A testemunha pode falar.”, assentiu o juiz.
“- Vittorio,” – começou ela, agora dirigindo-se ao ex-noivo – “- Eu já o perdoei. Entretanto, meu perdão não o exime da culpa e nem o livra da punição merecida pelos crimes que cometeu. Se você realmente me ama como diz, deveria falar a verdade e aceitar com hombridade a pena que lhe for estipulada. Haja como homem pelo menos uma vez em sua vida.”, finalizou.
O réu pareceu chocado diante daquelas palavras. Era claro como água que ele realmente acreditava que suas juras de amor e pedidos de perdão amoleceriam o coração dela. Completamente boquiaberto e surpreso, ele limitou-se a balançar a cabeça enquanto ela se retirava do tribunal e se dirigia novamente para a sala das testemunhas.
Marco sucedeu a irmã, entrando logo em seguida. Assim como as testemunhas que o antecederam, também ele teve que contar sua versão dos fatos acontecidos. Entretanto, seu depoimento foi bem mais breve do que os anteriores e ele foi rapidamente dispensado tanto pela promotoria, quanto pela defesa.
Já eram quase 6 horas da tarde quando Marco retirou-se da sala de julgamento. Todos os presentes agora estavam apreensivos e ao mesmo tempo ansiosos para finalmente conhecer a misteriosa nova testemunha de acusação. Neste momento, o silêncio no tribunal era absoluto e a tensão perceptível. Foi então que o Meirinho finalmente se pronunciou, convocando o depoente a apresentar-se.
“- Próxima testemunha de acusação, Srta. Valentina Dagoberti.”, anunciou ele.
Dumbledore imediatamente ouviu um grito a seu lado e constatou que tinha vindo da mãe de Vittorio, que agora jazia desmaiada nos braços do marido. “- Quem será essa mulher ?”, pensou o velho bruxo, voltando seus olhos para a figura que adentrava o tribunal.
Assim que a testemunha entrou, o barulho de muitas vozes dominou o ambiente. Todos estavam estupefatos diante da bela mulher que postava-se para depor. "- Tinha que ser Valentina !", gritou um bruxo que sentava-se à frente de Dumbledore. "- Isso é vingança !", exclamou uma bruxa do outro lado da tribuna.
“- Ordem ! Ordem ! Ordem !”, gritou o juiz. Mas seus pedidos de silêncio não foram obedecidos e o barulho aumentou ainda mais, a ponto de tornar-se ensurdecedor.
“- A sessão está suspensa até amanhã às 9 horas !”, disse ele, dando-se por vencido ao ver que a ordem não era restabelecida. “- E a tribuna deverá estar vazia quando houver reinício dos trabalhos. Não tolerarei mais interrupções ao julgamento e falta de respeito por este tribunal !”, terminou o magistrado batendo o martelo, levantando-se e se retirando sob o ruído intenso de vaias.
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(64) “Mea culpa, mea maxima culpa” – em latim – “minha culpa, minha máxima culpa”