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71. Mea Culpa


Fic: Primavera em Flor


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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No dia seguinte, a família Gentili novamente acompanhada por Dumbledore, chegou ao tribunal do júri cerca de 15 minutos antes do horário marcado.


Enquanto o ex-diretor de Hogwarts encaminhou-se para a tribuna, que agora estava ainda mais cheia do que no dia anterior, o Dr. Gentili e seu clã foram levados mais uma vez até a sala onde aguardariam serem chamados para depor.


Até então, ninguém sabia quem era a misteriosa testemunha que havia aparecido de última hora como um fantasma para acusar Vittorio por crimes horrendos e inimagináveis.  “Quem seria esta pessoa ?”, era a pergunta que todos se faziam.  Nem mesmo os Gentili teriam conhecimento de quem se tratava, pois a nova testemunha seria colocada em uma sala separada daquela aonde ficariam aguardando para prestar depoimento.


Também Dumbledore estava muito curioso e interessado em assistir ao desenrolar dos acontecimentos.  Após separar-se dos Gentili e subir as escadas da tribuna, ele dirigiu-se a uma das filas onde finalmente conseguiu uma cadeira vazia para acomodar-se.  Foi até ela e sentou-se ao lado de um casal de aspecto nobre e distinto.  Pelas expressões cansadas e tristes de ambos, o velho bruxo deduziu que deveriam ser os pais do réu.  Ficou ali sentado e não pode deixar de escutar o que o homem e a mulher conversavam.  Os dois falavam e voz baixa, mas o pouco que o ex-diretor de Hogwarts pode ouvir serviu para confirmar suas suspeitas.  Aqueles eram o pai e a mãe de Vittorio e estavam preocupadíssimos com o destino do filho.


“- Mea culpa, mea maxima culpa.”, (64) disse o homem.  “- Se eu não lhe tivesse dado tanta liberdade, se não o tivesse coberto de mimos e feito todas as suas vontades, nosso filho provavelmente não estaria aqui.”


“- Não, Antônio.”, retrucou a mulher.  “- Eu também fui boa demais, compreensiva demais, nunca o repreendi, mesmo sabendo-o errado.  Quando ele agiu de maneira vil com Maria Gentili, por exemplo, eu deveria ter lhe chamado a atenção, deveria tê-lo admoestado e o punido.  Mas não !  Ao invés disso, eu lhe passei a mão pela cabeça e aceitei aquele casamento ridículo e de última hora sem retrucar.”


“- Gioconda, Vittorio já está perdido há muito tempo.  Os últimos acontecimentos foram apenas um reflexo da criação falha que lhe dei.”


“- Que nós lhe demos, Antônio.  Nós dois falhamos juntos, não foi só você.”


“- E agora o estão acusando de ser Comensal da Morte !  A que ponto chegou nosso filho, minha cara ?  A que lugar nos levou nossa total falta de pulso em sua criação ?”


A mulher começou então a chorar baixinho, fazendo com que Dumbledore fosse tomado pela pena.  Em seus 150 anos de vida, o ex-diretor de Hogwarts já havia visto muitos jovens se perderem e seguirem por caminhos errados exatamente pela falta de regras e de rédeas impostas pela família.  Ele mesmo tinha feito das suas e por pouco não se desviara definitivamente do bom caminho, entorpecido pela busca desenfreada por fama e poder.  Ainda refletia sobre estas coisas quando o juiz entrou na sala e todos foram convocados a se levantar em sinal de respeito.


Neste momento, Vittorio adentrou o tribunal, acompanhado por dois advogados de defesa e por dois guardas que o seguravam pelos braços.  Dumbledore não o conhecia e ficou surpreso com sua figura alta, esguia e de uma beleza clássica.  Aquele homem tivera tudo para ser um sucesso e no entanto estava ali, sendo julgado por crimes inomináveis e certamente seria condenado a passar o resto de sua vida na prisão.


O réu foi levado até a mesa onde deveria ficar durante o julgamento e a sessão se iniciou com a longa leitura dos autos.  Quando a leitura terminou, o juiz dirigiu-se ao réu:


“- Sr. Vittorio di Trevi, como o senhor se declara quanto às acusações que lhe são feitas em relação ao ataque à família Gentili.”.


“- Culpado, meretíssimo.”


“- Muito bem.”, continuou o juiz, “e quanto às outras acusações que contra o senhor pesam ?”


“- Sou inocente !”, protestou Vittorio com veemência.  “- Jamais fui um Comensal da Morte !”


“- Que fique registrado nos autos que os réu declara-se culpado das primeiras acusações e inocente das segundas.  Vamos começar a audição das testemunhas de defesa.”


Duas horas já haviam se passado entre o início dos trabalhos e a convocação da primeira testemunha.  Tratava-se de Ângelo Gentili.  Assim que ele apresentou-se, o promotor lhe requereu que se identificasse diante do júri e então pediu-lhe para relatar todos os fatos ocorridos no sábado de Aleluia e que culminaram com o ataque à sua família.


O Dr. Gentili foi extremamente minucioso em sua narrativa, contando toda a história em seus mínimos detalhes, não se esquecendo de mencionar nenhum pormenor.


Tendo o promotor se dado por satisfeito, o juiz voltou-se para a defesa a fim de dar-lhes a palavra.  Os advogados de Vittorio, entretanto, disseram não ter qualquer pergunta a fazer e a testemunha foi dispensada.


Jean Pierre foi o próximo a ser chamado para dar depoimento.  Também ele contou com detalhes tudo o que sabia sobre os acontecimentos.  Quando o promotor dispensou Jean Pierre e o juiz já preparava-se para permitir que o haitiano se retirasse, um dos advogados de defesa do réu dele aproximou-se.


“- Sr. juiz, eu gostaria de fazer algumas perguntas à testemunha.”


“- A testemunha é sua.”, assentiu o juiz.


O advogado então começou seu inquérito.


“- Sr. Rappaport, é verdade que o senhor já foi ligado às Artes das Trevas ?”


“- Protesto, meretíssimo !”, exclamou o promotor.  “- A vida pregressa do Sr. Rappaport não está em julgamento aqui.”


“- A resposta a esta pergunta é de vital importância para que a defesa desenvolva sua linha de raciocínio.”, retrucou o advogado.


“- Está bem.”, concordou o juiz.  “- Sr. Rappaport, por favor responda à pergunta que lhe foi feita.”


“- Sim, é verdade.”, respondeu Jean Pierre.  “- Eu fui ligado às Artes das Trevas no passado.”


“- O senhor chegou a cometer algum ato homicida durante este negro período de sua vida ?”


“- Meretíssimo, isto é um absurdo !”, protestou o advogado de acusação.


“- Protesto negado.”, disse o juiz.  “- Peço a testemunha que responda a todas as perguntas que lhe forem feitas.  Caberá a mim como juiz decidir se elas são apropriadas ou não.”


“- Nunca cometi homicídio.”, respondeu o haitiano.


“- Mas o senhor chegou muito perto disso, não é ?”


“- É verdade.  Entretanto, jamais cheguei a matar outro ser humano.”


“- Muito bem.”, continuou a defesa.  “- Sr. Rappaport, é verdade que o senhor sempre teve máguas em relação ao meu cliente ?”


“- Não, isso não é verdade.”


“- Mas o senho tentou impedi-lo de manter um relacionamente amoroso com a srta. Maria Gentili, não é ?”


“- Apenas tentava protegê-la de um homem que eu sabia não ser o melhor para ela.”


“- Pode ser. Mas talvez o senhor tenha tido este comportamento porque a queria para si.  Porque casando-se com ela e senhor faria finalmente parte da família, por fato e por direito.”, acusou o advogado com um olhar carregado de malícia.


“- Eu já sou parte da família.  Não preciso usar destes artifícios.”, retrucou Jean Pierre com ar indignado.


“- Meretíssimo, por favor, isto não tem o mínimo cabimento !”, implorou o promotor.


“- Protesto aceito.”, concordou o juiz.  “- Senhor advogado de defesa, sua linha de raciocínio é obscura.  Devo admoestá-lo de que tirar o foco do réu para colocá-lo sobre a testemunha de acusação não será atitude tolerada neste tribunal.”


“- Peço desculpas, meretíssimo.  Vou refrasear minha pergunta ... Sr. Rappaport, não é verdade que se o Sr. Di Trevi tivesse se casado com a srta. Gentili, o senhor teria perdido toda a ascenção que tem sobre ela ?” – esta pergunta causou imediato burburinho entre os presentes.


“- Silêncio no tribunal !”, pediu o meirinho.


“- Nunca tive qualquer ascenção sobre Maria.  Tudo o que fiz foi aconselhá-la pois a considero como irmã.  Minha intenção sempre foi a de protegê-la.”, respondeu o haitiano, assim que as outras vozes se calaram.


“- Protegê-la a ponto de guardá-la só para si ?”, alfinetou o advogado.  Novamente o tribunal foi invadido pelas inúmeras vozes de pessoas que ali estavam assistindo ao julgamento.


Ouvindo isso, o juiz bateu o martelo sobre a mesa, a fim de restabelecer o silêncio.


“- Senhor advogado, se insistir novamente neste tipo de abordagem, terei que pedir que ser retire do tribunal.”


“- Está bem meretíssimo.  Não haverá necessidade para isso.  Dou-me por satisfeito.   Não tenho mais perguntas.”


“- A testemunha está dispensada.”, disse o juiz.  Jean Pierre levantou-se da cadeira e lançou um olhar de raiva em direção a Vittorio.  Sabia muito bem que ele havia instruído seus advogados a seguirem esta linha de raciocínio.  Sua arrogância era mesmo impressionante e ele não se abatia nem mesmo em situação que lhe era tão desfavorável.


Assim que o haitiano saiu de seu lugar, ouviu-se a voz do juiz:  “- O tribunal agora entrará em recesso para o almoço.  A sessão recomeçará exatamente às 14:30h”, disse ele, batendo o martelo sobre a mesa e retirando-se logo em seguida.


Quando a sessão recomeçou, a próxima testemunha de acusação chamada foi Maria.  Assim que ela entrou e sentou-se no lugar que lhe era cabido, olhou para Vittorio e ficou admirada com a fragilidade que ele demonstrava.  Seus olhos estavam cheios de lágrimas, ele estava abatido e mais magro que o de costume.  Seu rosto parecia muito cansado e o brilho tão característico de seus olhos azuis estava obliterado e esmaecido.


Estava absorta nestes pensamentos quando mentalmente lembrou-se do que Jean Pierre havia dito a Marco na noite em que vieram de Hogwarts a fim de participar do julgamento: “Ele a conhece.  Jurará que está sinceramente arrependido pois sabe bem que ela não consegue guardar mágoa e que provavelmente já o perdou.”


Foi pensando nisso que Maria começou a responder às perguntas do promotor e contou com riqueza de detalhes tudo o que se lembrava sobre o ataque.  Seu depoimento foi demorado pois o advogado de acusação, após ouvir todos os pormenores relativos ao dia do crime, achou por bem também lhe fazer várias indagações sobre fatos ocorridos enquanto ainda era noiva de Vittorio.  A intenção clara da promotoria era a de mostrar ao júri que o réu sempre tivera caráter duvidoso, aproveitando-se da condição de noivo da testemunha para tirar proveito de seu excelente e respeitado trabalho como tradutora.  Ele então, sem qualquer pudor, apoderava-se deste trabalho e apresentava-o como de sua própria autoria. 


Assim que a acusação finalmente deu-se por satisfeita, a defesa declarou que nada tinha a questionar à testemunha e Maria foi dispensada pelo juiz.


Ela já ia retirar-se do tribunal quando Vittorio levantou-se em prantos, sem que ninguém esperasse, e começou a falar alto, para que todos os presentes pudessem ouvi-lo:


“- Maria, mea culpa, mea maxima culpa ! (64) Mas tudo o que fiz foi por amor !  Minha intenção nunca foi a de machucá-la !  Só queria tê-la de volta para mim !  Estou muito arrependido do que fiz !” – a voz dele era constantemente entrecortada por soluços e lágrimas.  “- Meu amor, me desculpe por amá-la tanto a ponto de cometer um crime !”, implorou ele.  “- Não posso viver sem o seu perdão.”


Parte da tribuna levantou-se, uns aplaudindo e outros vaiando o réu.  A balbúrdia tomou conta do ambiente. 


“- Ordem no tribunal !”, gritou o juiz, batendo vigorosamente com o martelo sobre a mesa.


“- Sr. di Trevi, cale-se !  O senhor não tem permissão para falar !  Senhores advogados de defesa, por favor contenham o seu cliente ou serei obrigado a suspender a sessão !”, continuou o magistrado.


Os ânimos imediatamente se acalmaram e todos os que agora estavam de pé voltaram a sentar-se.


“- Meretíssimo,” - disse então Maria assim que as vozes se calaram, “o senhor me permite dizer algumas palavras ?”


“- Permissão concedida.  A testemunha pode falar.”, assentiu o juiz. 


“- Vittorio,” – começou ela, agora dirigindo-se ao ex-noivo – “- Eu já o perdoei.  Entretanto, meu perdão não o exime da culpa e nem o livra da punição merecida pelos crimes que cometeu.  Se você realmente me ama como diz, deveria falar a verdade e aceitar com hombridade a pena que lhe for estipulada.  Haja como homem pelo menos uma vez em sua vida.”, finalizou.


O réu pareceu chocado diante daquelas palavras.  Era claro como água que ele realmente acreditava que suas juras de amor e pedidos de perdão amoleceriam o coração dela.  Completamente boquiaberto e surpreso, ele limitou-se a balançar a cabeça enquanto ela se retirava do tribunal e se dirigia novamente para a sala das testemunhas.


Marco sucedeu a irmã, entrando logo em seguida.  Assim como as testemunhas que o antecederam, também ele teve que contar sua versão dos fatos acontecidos.  Entretanto, seu depoimento foi bem mais breve do que os anteriores e ele foi rapidamente dispensado tanto pela promotoria, quanto pela defesa.


Já eram quase 6 horas da tarde quando Marco retirou-se da sala de julgamento.  Todos os presentes agora estavam apreensivos e ao mesmo tempo ansiosos para finalmente conhecer a misteriosa nova testemunha de acusação.  Neste momento, o silêncio no tribunal era absoluto e a tensão perceptível.  Foi então que o Meirinho finalmente se pronunciou, convocando o depoente a apresentar-se. 


“- Próxima testemunha de acusação, Srta. Valentina Dagoberti.”, anunciou ele.


Dumbledore imediatamente ouviu um grito a seu lado e constatou que tinha vindo da mãe de Vittorio, que agora jazia desmaiada nos braços do marido.  “- Quem será essa mulher ?”, pensou o velho bruxo, voltando seus olhos para a figura que adentrava o tribunal.


Assim que a testemunha entrou, o barulho de muitas vozes dominou o ambiente.  Todos estavam estupefatos diante da bela mulher que postava-se para depor.  "- Tinha que ser Valentina !", gritou um bruxo que sentava-se à frente de Dumbledore.  "- Isso é vingança !", exclamou uma bruxa do outro lado da tribuna. 


“- Ordem !  Ordem !  Ordem !”, gritou o juiz.  Mas seus pedidos de silêncio não foram obedecidos e o barulho aumentou ainda mais, a ponto de tornar-se ensurdecedor. 


“- A sessão está suspensa até amanhã às 9 horas !”, disse ele, dando-se por vencido ao ver que a ordem não era restabelecida.  “- E a tribuna deverá estar vazia quando houver reinício dos trabalhos.  Não tolerarei mais interrupções ao julgamento e falta de respeito por este tribunal !”, terminou o magistrado batendo o martelo, levantando-se e se retirando sob o ruído intenso de vaias. 


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(64) “Mea culpa, mea maxima culpa” – em latim – “minha culpa, minha máxima culpa”

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