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17. Decepção


Fic: 79 Park Avenue Hhr - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Decepção...


O café estava fervendo na chaleira quando bateram na porta.


− Quem é? − perguntou ela, sem sair de junto do fogão.


− Eu − disse uma voz abafada. − Eu, Mac.


− A porta está aberta. Pode entrar.


Mary serviu duas xícaras de café e levou-as para a mesa. Mac entrou com alguns jornais na mão.


− Já leu? − perguntou.


− Não. Estou muito ocupada e não tive tempo para isso.


− Pois devia ler. Você está em todos os jornais.


− Eu? − exclamou ela, incrédula.


− Sim. Todos os jornais dizem que você vai casar-se com Ronald Weasley.


Ela encolheu os ombros e tomou um gole de café.


− Não sei por que foram publicar isso. Que importância tem? Há casamentos todos os dias.


− Mas não com Ronald Weasley! Você sabe que ele é um dos homens mais ricos do Estado?


Ela não respondeu. Pegou os jornais e começou a passar os olhos por eles. Num deles, havia um flagrante dela ao sair do cartório de licenças em companhia de Rony. Nem havia notado quando o fotógrafo batera o instantâneo. Lembrava-se do que Rony dissera antes de irem ao cartório: "Vão fazer grande agitação com o caso. Mas nem ligue. Nada do que fizerem poderá alterar meus sentimentos a seu respeito". Ela olhou para ele com os olhos sombrios e foi tomada subitamente de um grande medo.


− Talvez fosse melhor não fazermos isso, Rony. Seria bom esperarmos um pouco. Você não sabe de nada a meu respeito.


− Sei de tudo o que quero saber. Pouco me importa a vida que você levou até agora. Só quero saber o que você representa para mim. No fundo, é só o que tem importância...


O gerente tomou o café.


− E verdade, Mary? Vai mesmo casar-se com ele?


− Vou.


− Que sorte a sua! E ele...


Ela não o deixou concluir a pergunta.


− Ele diz que isso não tem importância, que nada mais tem importância − disse ela, esquivando-se à verdade.


− Ele deve ser mesmo louco por você − disse o gerente, levantando-se. − Bem, isso quer dizer que vou perder um inquilino.


Ela o olhou um tanto surpresa. Havia uma alteração na sua maneira de tratá-la. Era uma alteração sutil, mas nem por isso menos real. Ela sentia uma subserviência que até então nunca existira.


− Ainda não, Mac − disse ela. − Só sairei daqui três dias antes do casamento.


Ele foi até a porta, abriu-a e disse:


− Se precisar de alguma coisa, Mary, basta chamar-me que eu virei correndo.


− Obrigada, Mac.


− Não quero que se esqueça de que sempre fui seu amigo.


− Não me esquecerei.


Ele saiu e ela levou as xícaras para a pia. Nome e dinheiro significavam muito. Apertou os lábios numa careta amarga. Estava decidida. Mac havia-lhe mostrado o caminho. Queria as duas coisas. E ai de quem atravessasse o caminho dela.


Rony saiu do chuveiro, pegou uma toalha e começou a enxugar-se, cantarolando, cheio de satisfação. Só faltava um dia. Olhou para o espelho enquanto se penteava. Os cabelos estavam começando a rarear na frente, mas ainda pareciam fartos e ondulados. Não sabia até que ponto a hereditariedade influía nessas coisas. Seu pai ficara calvo antes dos trinta. Riu para o espelho, contente consigo mesmo. Começou a vestir-se. O físico ainda estava muito bom. Não era esbelto demais, mas não estava flácido. Mary lhe recomendara que bebesse menos. Nisso ela estava certa. Ele sempre soubera que a bebida não lhe fazia bem, mas tinha continuado a beber porque não tinha outra coisa para fazer. Foi até o quarto e apanhou a camisa que Tom colocara em cima do travesseiro. Um leve cheiro se elevou do travesseiro o perfume que ela usava. Sentiu uma onda de desejo acelerar-lhe o sangue. Ela era perfeita. Ninguém se ajustara tanto a ele quanto ela. Podia ouvir-lhe a voz terna e apaixonada murmurando-lhe ao ouvido: "Mate-me, querido! Sufoque-me!" A pele lhe latejava como se ainda lhe estivesse sentindo as unhas. Nunca se sentira mais homem.


− Sr. Ronald − chamou Tom do andar de baixo.


− Que é que há, Tom?


− Há um cavalheiro aqui que deseja vê-lo.


− Quem é?


−Não quis dizer o nome. Diz que quer conversar com o senhor confidencialmente a respeito da Srta. Granger.


Rony franziu a testa. Que poderia querer o homem? Devia ser algum repórter.


− Diga-lhe que espere. Já vou descer.


Alguns minutos depois, chegou à sala de estar. Um homem se levantou de uma cadeira e perguntou:


− Sr. Weasley?


Rony assentiu com a cabeça, esperando que o homem se apresentasse.


− Chamo-me Joe − disse o homem. − O sobrenome não importa. Vim apenas fazer-lhe um favor. Que é que sabe sobre a moça que se chama Mary Granger?


Rony sentiu uma cólera instintiva crescer dentro dele e exclamou rispidamente, apontando a porta:


− Saia imediatamente daqui!


O homem não se moveu.


− Creio que tem o direito de saber alguma coisa, já que vai se casar com ela.


− Sei tudo o que preciso saber! − disse ele, caminhando nervosamente para o homem. − Saia!


O homem moveu-se nervosamente e meteu a mão no bolso, tirando algumas fotografias que passou a Rony.


− Antes de perder a calma, acho melhor ver isso aí.


Rony olhou. Eram fotografias de duas mulheres nuas. Sentiu um frio correr-lhe pela espinha. Uma delas era Mary. Olhou para o homem e perguntou com voz trêmula:


− Onde conseguiu isso?


− Vou lhe contar tudo. O verdadeiro nome dela é Hermione, mais conhecida como Mione Granger. Saiu de um reformatório em Nova York há menos de um ano. Posso conseguir-lhe os negativos dessas fotografias, se o senhor quiser.


Rony rangeu os dentes. Chantagem. Atravessou a sala e pegou o telefone.


− Polícia − disse ele à telefonista.


− Não adianta nada fazer isso − disse o homem. − Estou lhe oferecendo as fotografias como um favor especial. Se chamar a polícia, os jornais saberão de tudo, darão publicidade ao caso e todo mundo irá divertir-se à sua custa.


Rony largou o telefone e deixou-se cair numa cadeira. Ela devia ter dito a ele. Não era direito. Olhou para o homem e disse:


− Como posso saber se estas fotografias não são falsas?


− Vou dar-lhe uma prova.


Foi até a porta e chamou:


− Luna! Venha cá!


Um instante depois entrou na sala uma mulher de cabelos loiros bem longos. Rony olhou para as fotografias. Era a outra que estava com Mary.


− Conte tudo a ele − disse o homem.


− Mas, Joe... − murmurou nervosamente a mulher.


− Conte tudo! Viajamos a noite toda de Nova Orleans até aqui e não podemos perder a viagem! Conte!


Luna olhou para Rony e disse:


− Conheci Mione na Casa Correcional Geyer no Estado de Nova York. Treinamos um número e viemos para cá. Trabalhávamos em festas só para homens e clubes particulares. Quando a polícia desconfiou e começou a rondar-nos, Joe e eu saímos da cidade. Mary ficou aqui e nós soubemos que...


Rony levantou-se da cadeira e atravessou rapidamente a sala. Abriu o armário do bar e tirou uma garrafa de uísque. Serviu um copo, sentindo uma dor aguda dentro do peito.


− Querem beber? − perguntou ele.


− Acho que não faz mal algum − disse o homem com um sorriso forçado. − Você não quer, Luna?

Saltou do táxi em frente à casa e, chegando à porta tocou a campainha. Foi Rony quem abriu, e ela sentiu o cheiro de uísque no momento em que o viu.


− Você bebeu! − exclamou ela. − E me prometeu que ia deixar!


Ele riu nervosamente e disse:


− Estava apenas fazendo uma comemoração. Não é todo o dia que se recebe a visita de velhos amigos!


− Que amigos são esses?


Ele a fez entrar para a sala. Mary parou à porta, gelada. Luna estava estendida no sofá, vestida apenas de calças e sutiã. As roupas dela estavam espalhadas por toda a sala. Deu um adeus bêbado para Mary. Joe foi ao encontro dela.


− A querida Mary! Tem um beijinho para seu velho amigo Joe?


De repente, começou a trautear a Marcha nupcial


− Que é que estão fazendo aqui? − perguntou ela. Joe riu.


− Ora essa! Viemos festejar o casamento de uma velha amiga. Estou certo?


Ela se voltou para Rony.


− Quando foi que eles chegaram aqui?


− Esta tarde...


Tentava concentrar o olhar nela, mas a cabeça lhe doía demais. Precisava de outro drinque. Pegou a garrafa e perguntou:


− Quer beber?


Ela sacudiu a cabeça. Rony bebeu da garrafa. Teve prazer ao sentir o uísque queimar-lhe a garganta.


− Eu precisava disso − disse ele, olhando para Mary. − Tem certeza de que não quer também um gole?


− Não, muito obrigada − disse ela secamente, acendendo um cigarro.


− Vamos, Mary − disse Joe, − Beba um pouco. Assim ficará com boa disposição para o show.


− Que show?


− Nós estávamos contando ao seu amigo como era o nosso número
− disse Luna, levantando-se do sofá. − Joe achou que seria muito divertido representá-lo agora para ele ver como é.


Ela se voltou para Rony:


− Disseram-lhe, não foi?


Ele assentiu com a cabeça.


− E você ouviu sem me dar uma chance de explicação?


Ele apontou as fotografias em cima de uma mesa.


− Essas fotografias falam por si. Não há necessidade de ouvir mais nada. Você devia ter-me dito antes.


− Você não me deixou − respondeu ela. − Todas as vezes que eu começava, disposta a dizer-lhe tudo, você me dizia que pouco se importava com o que eu tivesse sido, que o que já sabia a meu respeito lhe bastava.


Ele não respondeu, e ela se voltou para Joe, com a voz cheia de desprezo.


− O mesmo Joe de sempre! Capaz de todos os papéis para pegar algum dinheiro. Espero que desta vez tenha tido bom proveito.


− Ainda não sei. Mas não há problema. A polícia já está mais calma e nós poderemos voltar ao nosso velho número.


A mão dela moveu-se com tanta rapidez que ele não teve tempo de esquivar-se. A bofetada estalou-lhe no rosto, deixando uma marca vermelha.


− Cachorra! − exclamou ele, dando um passo na direção dela. − Vou dar-lhe uma lição!


− Pode vir − disse ela, com um olhar de provocação.


Ele parou, vendo a lâmina brilhar-lhe na mão, e recuou. Rony olhou para eles e exclamou:


− Mary!


Ela voltou-se para ele e falou com um tom magoado e colérico:


− Você é tão ruim quanto eles. A mim não quis escutar, mas escutou a primeira pessoa que apareceu para falar de mim. Será que lhe contaram também como fugiram e me deixaram sem uma peça de roupa dentro do apartamento? Aposto que você também achou muita graça nisso!


Ele nada disse. Continuou a olhar fixamente para ela.


− Mas eles não lhe contaram tudo porque não sabiam. Depois que eles me abandonaram sujamente, comecei a fazer a vida. Era preciso pagar o aluguel e viver. Ganhei bom dinheiro. Quarenta dólares por dia. Era isso o que estava fazendo no dia em que você me encontrou.


− Não, Mary! − disse ele, com uma voz que era mais um gemido.


− Tinha me afastado de você, mas isso não lhe bastou. Teve de ir atrás de mim, tinha de mostrar-me seu amor. Se houve alguém enganado em tudo isso fui eu, Rony, porque acreditei em você, porque pensei que havia encontrado o homem perfeito, genuíno, superior, porque pensei que a vida podia reservar-me alguma coisa de bom. Mas como estava errada!


Em seguida deu as costas e dirigiu-se para a porta. Rony pegou-lhe o braço e murmurou:


− Mary...


Havia nos olhos dele um brilho diferente. Ela o olhou com uma chama de esperança a acender-se no coração.


− Você está me retendo, Rony?


Ele não respondeu e a chama se apagou dentro dela. Puxou o braço e saiu rapidamente, fechando a porta. Ele ficou ali parado alguns momentos, depois se voltou para os outros. Joe teve um riso forçado.


− Você viverá muito melhor sem ela, fique sabendo!


− Saiam! − gritou Rony, numa voz cheia de ódio. − Saiam imediatamente daqui os dois antes que os mate!


Mary descia tropegamente o passeio. As lágrimas lhe enchiam os olhos e rolavam pelas faces. De repente, ouviu uma voz delicada que lhe dizia:


− Quer que chame um táxi, Sra. Mary?


Ela levantou os olhos. Era o velho preto que ali estava, com um mundo de compreensão no olhar.


− Não... Muito obrigada, Tom − disse ela com voz rouca. − Prefiro andar um pouco.


− Se me der licença, vou acompanhá-la. É muito deserto por aqui.


− Não vai acontecer nada, Tom. Não tenho medo.


− Sei que não tem, Sra. Mary. A senhora é uma das mulheres mais corajosas que já conheci.


Ela o olhou e de repente compreendeu.


− Quer dizer que sabia todo o tempo, Tom?


Ele assentiu com a cabeça.


− Mas nada disse a ele. Por quê?


− Já lhe disse por quê. Vi que a senhora era corajosa, forte, uma mulher de verdade. O Sr. Ronald não passa de uma criança grande. Eu tinha a esperança de que a senhora fizesse dele um homem. Agora, esse sonho acabou. Não é mais possível!...


− Obrigada, Tom. E adeus!


− Espere um instante, Sra. Mary. Eu tenho algum dinheiro, e caso a senhora esteja desprevenida...


Pela primeira vez naquela tarde, o seu ceticismo em relação à humanidade se abrandou. Segurou a mão do velho.


− Posso arranjar-me, Tom.


Ele baixou os olhos e murmurou:


− A senhora nem sabe como sinto tudo isso!


Ela o olhou enternecidamente e disse:


− Acho que mudei de idéia, Tom. Você pode fazer-me um favor?


− Pois não, Sra. Mary!


− Vou para casa. Quer me chamar um táxi?


− Claro, Sra. Mary.


Ela o viu descer a colina para a avenida lá embaixo, onde sempre passavam táxis. Tirou outro cigarro e acendeu-o. Olhou para cima. As estrelas pontilhavam o céu e a lua se refletia no mar. Da praia vinha o leve murmúrio das ondas e uma brisa suave soprava do lago. De repente, jogou o cigarro fora. Havia tomado uma decisão. Estava cansada da Flórida. Voltaria para Nova York. Também lá as estrelas brilhavam.


Harry levantou os olhos do livro e esfregou-os cansada-mente. Sentia-os arder. Olhou pela janela Ainda estava nevando. Na sala ao lado, o telefone começou a tocar. Ouviu a mãe atender. Fechou os livros. Estava quase na hora de sair para o trabalho. Cabia-lhe naquele mês o turno da noite. Levantou-se e foi para o banheiro. Todos os seus apetrechos de barbear estavam em cima da pia. Estava ensaboando o rosto quando a mãe chegou à porta.


− Já estou preparando seu almoço, meu filho.


− Obrigado, mamãe.


Ela ficou ali a olhá-lo. Ao fim de alguns momentos ele teve consciência do olhar dela.


− Que é, mamãe?


Ela sacudiu a cabeça e foi saindo, mas ao fim de alguns passos, voltou-se e disse:


− Você não dormiu muito. Ouvi-o levantar-se às três horas da madrugada.


− Perdi o sono, mamãe. Além disso, tinha de estudar. Os exames da polícia são daqui a dois meses. Não quer que eu seja um recruta a vida inteira, quer?


− Claro que não. Mas ficaria mais satisfeita se você fosse um pouco igual aos outros rapazes. Seria bom você sair e passear de vez em quando em lugar de viver sempre metido com esses livros. Há por exemplo aquela menina, filha de Gallagher, o farmacêutico. Encontro-me com ela na rua todos os dias e ela nunca deixa de perguntar por você...


− Já lhe disse uma porção de vezes, mamãe, que não tenho tempo para namoros. Depois, haverá tempo de sobra para isso. Agora, tenho mais o que fazer.


Ela o olhou firmemente através do espelho e disse:


− Se fosse Mione, você encontraria tempo.


− Esqueça-se dela, mamãe! − exclamou ele com o rosto vermelho.


− Já não lhe disse que isso acabou?


− Eu posso me esquecer dela, meu filho. Mas será que você pode?


Ficou ouvindo os passos dela, que se afastavam pelo corredor, e levou a navalha distraidamente ao rosto. A sensação de queimadura mostrou-lhe logo que havia se cortado. Enquanto cuidava de estancar o sangue, Mione veio-lhe à lembrança. Mione. Estaria sua mãe com a razão? Acabou de fazer a barba, enxugou o rosto e olhou pela janela. Ainda nevava. Que estaria Mione fazendo àquela hora?


O grande relógio do vestíbulo marcava oito horas quando Mary saiu do hotel. A neve cobria as ruas com um lençol branco e amortecia todos os ruídos do tráfego. Entrou pela 49th Street em direção à Sixth Avenue. Devia haver mais movimento nas imediações do Rockefeller Center. De qualquer maneira, seriam fregueses de mais classe. Os turistas e os funcionários de escritório daquela zona tinham mais para gastar. A Broadway, a Seventh e a Eighth Avenue no máximo rendiam dois dólares de cada vez. Na Sixth Avenue havia chance para uma mulher ganhar cinco ou dez dólares de uma vez.


Olhou para o céu. Ainda estava nevando pesadamente. Não iria fazer muito naquela noite, mas não podia dar-se ao luxo de ficar em casa. Estava quase sem dinheiro e teria de pagar o aluguel daí a alguns dias. Saiu caminhando devagar, com o rosto afastado da rua e voltado para as vitrinas, como se estivesse interessada em comprar o que elas ostentavam. Na realidade, olhava para as vitrinas como se elas fossem espelhos. Cada homem que passava era examinado e instintivamente avaliado. Virou à esquerda na Sixth Avenue e chegou até a esquina da 50th Street. Quase não havia ninguém na rua. Entrou na cafeteira da esquina e pediu uma xícara de café. Levou-a para uma mesa perto da janela, de onde podia observar a entrada do music hall do outro lado da rua. O show devia acabar daí a uns vinte minutos. A multidão saía para a rua e havia sempre uma oportunidade nessas ocasiões.


A xícara estava quase no fim quando as pessoas começaram a sair. Acabou prontamente o café e foi para a rua. Ficou num canto da entrada do teatro como se estivesse esperando alguém com quem houvesse marcado encontro.
Um porteiro passou, olhando-a, e ela olhou impacientemente para o relógio, como se estivesse cansada de esperar. Muita gente passava, mas nada havia senão rostos. O fluxo de espectadores foi diminuindo. Mais alguns minutos e ela teria de sair de novo para a neve. Parecia que aquela noite seria perdida.
Já ia saindo quando o instinto a fez levantar os olhos. Um homem a estava olhando do outro lado da porta do teatro. Olhou-lhe prontamente os sapatos. Eram marrons. Isso automaticamente lhe dava segurança. A gente da polícia só usava sapatos pretos. Olhou de novo para o homem, sem qualquer expressão nos olhos.


Depois, voltou-se e saiu para a rua. Ela esperou na esquina que o sinal se abrisse. Sem virar-se para olhar, sabia que o homem a havia seguido. Quando o sinal abriu, ela atravessou a rua e entrou no edifício da RCA. Subiu alguns degraus para a galeria e parou em frente a uma vitrina. Viu pelo reflexo o homem passar por ela e parar junto a uma vitrina pouco adiante. Ela passou lentamente por ele e parou em frente a um restaurante cujas janelas envidraçadas eram pintadas de preto na parte inferior para que não se pudesse espiar para dentro. Ali, ela tirou um cigarro da bolsa e ia acendê-lo, quando viu a chama de um isqueiro brilhar perto dela. A mão do homem tremia um pouco quando ela o olhou. Tinha rosto redondo e olhos pretos. Parecia direito.


− Muito obrigada − disse ela, acendendo o cigarro.


− Posso oferecer-lhe um drinque? − perguntou ele, sorrindo, mas com voz gutural e pesada.


Ela levantou as sobrancelhas e falou com voz amistosa e sem qualquer intenção de insulto.


− É só isso o que deseja?


− Não − gaguejou o homem. − Mas...


− Por que é então que vai aumentar a sua despesa? Não é preciso gastar dinheiro comigo.


Ele tossiu um pouco e aprumou o corpo como se esperasse assim parecer um homem do mundo.


− E... Quanto é?


− Dez dólares − disse ela prontamente, observando-o para baixar o preço se ele quisesse desistir.


− OK− disse ele.


Ela sorriu e tomou-lhe o braço. Desceram juntos a escada e foram para a rua. Ela o levou para o hotel.


− Não há nada que se compare à neve do inverno − disse ela.


− É verdade.


− Mas na cidade a neve não é tão agradável. Tudo fica molhado e não se pode fazer nada.


− Nada? Pois agora mesmo estou fazendo uma boa coisa.


Ela riu e agarrou-lhe com mais força o braço. Já estava perto do hotel e ela largou o braço do homem.


− Vou entrar ali − disse ela. − Espere cinco minutos e suba para o quarto 209, no segundo andar. Entendeu?


− OK. Quarto 209. Cinco minutos.


Ela estava usando um quimono quando bateram na porta. Atravessou prontamente o quarto e abriu-a. O homem ali estava, embora com sinais de hesitação.


− Entre.


Ele entrou com passo lento e ficou no meio do quarto enquanto ela fechava e trancava a porta.


− Não vai tirar o sobretudo? − perguntou ela. − Vou, sim.


Tirou o, sobretudo, que ela pegou e foi pendurar num cabide. Quando voltou, ele já havia tirado o paletó e estava desatando a gravata. Ela sorriu e sentou-se na cama, balançando as pernas. Ele a olhou enquanto tirava a camisa e mostrava os ombros musculosos.


− Como é seu nome, menina?


− Mary.


− Como foi que acabou nessa vida, Mary? Você parece uma garota tão boazinha...


Ela teve uma expressão de enfado. Todos eles faziam a mesma pergunta. Às vezes, pensava até que eles gostavam mais de ouvir a história de sua vida do que qualquer outra coisa.


− Ora, a gente tem de comer...


O homem começou a afrouxar o cinto.


− Não esqueceu alguma coisa? − perguntou ela.


Ele a olhou espantado, mas logo compreendeu. Meteu a mão no bolso e tirou uma nota que entregou a ela. Ela guardou o dinheiro na bolsa que estava em cima da cômoda. Depois, tirou o quimono e foi para a cama. Estendeu-se na cama completamente nua e olhou para ele, que ainda estava de pé no meio do quarto, sem ter tirado as calças.


− Venha − disse ela. − Que é que está esperando?


Ele correu a língua pelos lábios. Tornou a meter a mão no bolso e tirou uma carteirinha de couro preto. Abriu-a e ela viu brilhar uma insígnia da polícia.


− Sou o detetive Millersen, da Repressão ao Vício. Está presa.Trate de vestir-se.


Ela se sentou na cama, com o coração a bater forte. Aquilo tinha de acontecer. Sempre soubera disso. Só não esperava que fosse tão depressa. Ela forçou um sorriso.


− Errei, mas que é que vou fazer? Mas venha. Será por conta da casa.


− Vista-se.


− Sabe que nunca vi um polícia mais simpático? − disse ela, aproximando-se dele.


Ele se afastou e plantou-se diante da porta, ao mesmo tempo que vestia a camisa.


− Não adianta, menina. O melhor que tem a fazer é vestir-se logo.


Ela começou a vestir-se e perguntou:


− Qual é a pena por isso?


− É a primeira vez?


Ela assentiu com a cabeça, tentando prender um colchete nas costas. Os dedos lhe tremiam tanto que não conseguia.


− Quer ser bonzinho pra variar? Veja se esquece um instante que é polícia e me prenda isto aqui.


O detetive fez o que ela pedira e disse:


− Trinta dias.


− Trinta dias o quê? − exclamou ela, que já havia esquecido a pergunta que fizera.


− Trinta dias, se é a primeira vez − disse ele, voltando para o seu lugar junto à porta.


− E que dia é hoje?


− Vinte e sete de fevereiro.


Ela abriu o armário e tirou o casaco.


− Lá se foi o mês de março − disse ela. − Escute: posso arrumar o que é meu? Senão, quando voltar, não encontro mais nada.


− Está bem. Mas ande depressa.


Ele a viu tirar uma maleta do armário. Não havia muito o que arrumar e tudo coube dentro da maleta.


− Estou pronta agora. Muito obrigada.


Ele abriu a porta e saiu depois dela. Ela se voltou, olhou-o e disse:


− Deve haver maneiras mais fáceis de viver.


Ele a olhou com súbito respeito. Aquela garota tinha fibra. Concordou sombria-mente.


− Deve haver de fato.


Ela lhe tomou o braço como se fossem velhos amigos que saíssem para um passeio. Murmurou em voz baixa e rouca:


− Para nós dois, sabe?

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