CAPITULO 66
Irritante
Mary tirou o bolo quentinho do forno e sorriu aspirando seu perfume delicioso. Era a famosa receita de bolo de chocolate de Molly Wesley, e apenas ela e sua sogra acertavam o ponto exato. A sobremesa preferida de Rony.
Empolgada, ela colocou a forma sobre a pia e deixou-a para esfriar o suficiente para desgrudar da forma e poder ser decorado com a calda que estava fumegante sobre o fogão.
Distraída, Mary nem percebeu que era observada por Hermione que tinha acabado de chegar. Bem cedo, era verdade. Ela havia combinado com Rony passar muito tempo com Mary para tira-la do sério, e como seu trabalho de escrever para o jornal podia ser feito em casa, ali estava ela, as duas da tarde, começando sua longa jornada de irritação diária.
Há três dias esse martírio começara e parecia que nunca teria fim! Com a mesma expressão resignada de sempre, ela maneou a varinha discretamente com um feitiço sem som, e apontou para o bolo fumegante. Mas nem que Merlin viesse pessoalmente ajudar, ela conseguiria tirar aquele bolo da forma sem quebrá-lo! Sabia que essas pequenas coisas do dia a dia acabavam com os nervos de Mary.
-Oi – ela disse depois de guardar a varinha.
Mary nem se virou, ficou reta e tensa retribuindo seu comentário sem se dar ao trabalho de virar-se.
-Pensei em fazer um lanche antes de escrever- Hermione continuou falando como se fossem grandes amigas, rindo por dentro quando Mary virou-se com aquela eterna expressão de paisagem.
-Realmente você tem horários flexíveis – Ela disse entre dentes.
-Oh, sim. Meu chefe tem uma quedinha por mim – provocou.
-Imagino – Mary disse irônica, sorrindo aquele falso sorriso.
Era uma disputa interessante, esperar para ver qual das duas desistiria primeiro. Não seria surpresa para ninguém se aqueles encontros solitários resultassem em uma ferrenha briga de socos. Desde que conhecerá Mary nunca a vira com uma varinha nas mãos e isso a estava incomodando.
-Mary, por acaso você é aborto? – perguntou sorrindo ao vê-la ficar sem palavras – é que notei que não usa magia para cozinhar.
-Isso acontece quando se sabe cozinhar, querida – ela respondeu recuperando autocontrole.
-Bem, mesmo assim não usa magia em nada. Não tem problemas em ser um aborto, Mary. Muitas pessoas são. Não são todas as pessoas que apesar de trouxas tem poder mágico! Para ser franca, nunca conheci ninguém, além de mim com tanto poder mágico apesar de ter pais trouxas – seu tom era tão irritante, que até mesmo Hermione se incomodou em falar assim.
-Meu pai é trouxa, mas minha mãe é bruxa! – ela alterou um tom na voz, e Hermione sorriu.
-Tudo bem, já disse, não há nada de errado em ser um aborto.
Com a ousadia de alguém que deseja irritar e tirar do sério, ela andou livremente pela cozinha de Mary e abriu a geladeira, sorrindo por fora ao encontrar a taça de doce de chocolate que Mary sempre fazia para si mesma.
-Oh, parece que adivinhou! – apanhou a taça e sorriu para Mary – Esse seu doce é delicioso – apanhou a colherzinha, sem afastar os olhos dos olhos de Mary e levou aos lábios sorvendo com prazer o conteúdo.
Pensou ter ouvido um resmungo e abriu os olhos mirando Mary com expectativa. Mary apertava uma faca de cortar bolo nas mãos e parecia prestes a usá-la. Impossível não sorrir satisfeita. Para concluir seu crime, mesmo correndo o risco dela realmente usar aquela faca, Hermione deixou o pote de doce sobre a mesa após uma única colherada.
É claro que Mary não comeria aquilo depois disso. Seu doce favorito. O único que ela comia! Podia imaginar os tipos de pragas que ela estava lhe rogando mentalmente. Olhando para a faca em sua mão, ela a desafiou com sua postura a atacá-la. Desafiou-a a ser a primeira a ceder.
Engolindo em seco, Mary soltou o aperto no cabo da faca e andou em direção ao bolo. Hermione cruzou os braços esperando pelo espetáculo. Com a empáfia de quem nunca erra, ela segurou a forma e girou-a, esperando que o bolo saísse.
Nada. Hermione conteve o riso, vendo-a olhar em sua direção e então, tentar novamente. Mais uma vez, e nada. Outra sacudida suave, e nada!
Uma sacudida com força e ela colocou a forma sobre pia desolada. Merlin, pensou Hermione, o mundo de Mary era tão pequeno!
-Quer ajuda? – perguntou cínica.
A resposta estava na ponta da língua, mas Mary a conteve.
-Por favor -ela indicou a forma, se afastando para o lado.
Mary passaria por cima de seu próprio orgulho quantas vezes fosse preciso só para Rony não saber que era imperfeita. Como se ele não soubesse!!!
-Eu ofereci por educação, Mary. Não conheço nenhum feitiço culinário – disse petulante – para ser franca, não gosto muito de cozinhar.
-Claro, era de se imaginar. – ela respondeu com pouco caso.
Hermione reconheceu o veneno e o ódio nas palavras não ditas. Pobre, Mary, não sabia que o melhor estava por vir.
-Mary, você é tão gentil! Será que pode cortar um pedaço para mim, quando conseguir tirar da forma? Vou estar no quarto escrevendo...obrigada! – disse e não esperou por resposta.
Rindo por dentro, ela disparou para a escada antes que ela pudesse revidar.
Na cozinha, Mary sacudiu aquela maldita forma varias vezes, até que o bolo finalmente saiu. Quebrado e espalhando farelos pelo chão. Mary olhou desolada para o que sobrara de seu perfeito bolo. Metade preso na forma, metade sobre o prato na pia. Farelos por tudo.
Apoiando ambas as mãos na pia, ela fechou os olhos sentindo vontade de chorar ao ver seu mundo desmoronando a sua volta. Mas tão rápido quando essa sensação veio, também foi embora ela refez o sorriso, cortando uma fatia, a mais perfeita possível dentro daquela situação, e ajeitou em um pratinho, com direito a colherzinha e uma cereja suculenta para acompanhar.
Rony sempre dizia que o gosto ficava mais doce com uma cereja. Rony, seu marido, aquele que tinha gula pode doces, mas nunca tinha palavras açucaradas para ela. O mesmo homem por quem lutaria até o fim, com unhas e dentes, mesmo que para isso tivesse que ser polida com Hermione.
Hermione podia ser diabólica quando queria e estava exercendo a arte de ser perversa com Mary. Propositalmente deixara a porta entreaberta do quarto e Mary bateu suavemente antes de entrar.
Hermione estava se trocando, na verdade esperando por ela para trocar-se. Usava apenas um sutiã rendado com cores vibrantes e a saia de corte reto que usava no trabalho. As pernas estavam sem as meias e os cabelos soltos nas costas.
Queria que a outra soubesse exatamente o perigo que a rondava!
-Você não existe, Mary. O cheiro está delicioso! – Hermione elogiou falsamente simpática.
-É a receita favorita... – ela começou a contar superior
-Do Rony? Eu sei! – ela disse satisfeita – A receita do bolo de chocolate de Molly Wesley! Infelizmente nunca acertei o ponto!
-Você...sabe a receita? -ela perguntou desconfortável – Molly nunca contou para outra pessoa alem de mim. Nem para Gina...
-Molly é um doce, mas tem muito ciúme de suas receitas. Mas é claro que ela me contou! – omitiu o detalhe dela só ter contado pois estariam correndo o mundo atrás das Hercrox e como mãe, ter a esperança que se alimentassem bem!
-Está trabalhando em um novo artigo? – Mary desviou o assunto, olhando para as revistas, livros e pergaminhos espalhados sobre a cama.
-Oh, sim -ela disse em um tom afetado de entusiasmo demasiado!
-Algo importante? – os olhos de Mary brilharam com algum pensamento secreto.
-Um assunto muito importante e exclusivo -ela disse com arrogância, apanhando a blusa limpa e vestindo-a.
Elas eram água e vinho. Mary usava rosa bebê da cabeça aos pés, com exceção da tiara amarelo claro nos cabelos igualmente descoloridos. Já Hermione preferia cores mais sóbrias como vermelho e preto.
Mary usava gloss de morango. Hermione batom cor pastel. Mary colocava glitter na sobra dos olhos. Hermione contornava-os com lápis negros e esfumaçava os contos! Mary adorava jóias em forma de flor, de preferência vintage. Hermione usava peças lisas, em prata.
Uma ateia fogo, a outra incendeia.
-E você, Mary? Tem estado em casa todos os dias... – ela puxou, na esperança dela se entregar.
-Sim, Rony e eu tínhamos planejado duas semanas juntos longe do trabalho, mas como vê sua vinda atrapalhou – ela foi direto – Rony me pediu uma chance para o nosso casamento, ele lhe contou isso?
-É claro que sim. – ela sentiu um gosto amargo na boca.
-E te contou também como estamos felizes? Tivemos alguns momentos ruins, mas nosso casamento é solido. – sua sempre eterna expressão de boneca de porcelana deu lugar a uma Mary que parecia pronta para implorar – Rony é minha vida e é a vida das minhas filhas, e não iremos abrir mão dele. Não importa quantos dias fique aqui, não importa o quanto se insinue. Ele é meu marido. Não pode mudar isso.
-Eu não posso, mas Rony pode – ela disse em tom de aviso. – Ele pode pedir o divórcio a qualquer momento!
-Isso é o que você quer que aconteça – a voz de Mary se tornou doce – Entenda, Hermione, não é a primeira mulher a achar que pode ser feliz usurpando a felicidade de outra. Rony é feliz comigo, e não vai te dizer isso, porque é fraco, vai inventar historias e ter alguns momentos roubados ao seu lado, e não te culpo por crer que ele vai me deixar. Mas não vai acontecer.
-Tem certeza, Mary? -ela perguntou abusada, sem se abalar – tem certeza que não anda dormindo demais?
Hermione mordeu o lábio de expectativa se ela ia ou não entender.
Seus olhos opacos se arregalaram e ela olhou para Hermione como se ela tivesse uma doença horrível e contagiosa. Totalmente descomposta, ela virou-se e saiu praticamente correndo daquele quarto.
Se Mary não fosse tão falsa, ela teria pena dela. Depois de praticamente admitir que a enfeitiçava para transar com seu marido, com toda certeza, ou Mary pediria o divorcio, ou colocaria um quilo de veneno na sua comida!
Ansiosa,ela apanhou o dito bolo e mordeu.
Hum, estava uma delícia!
Autora: nossa essa Mary é resistente! Eu já teria furado os olhos da Hermione a tempos!!! Não deixo passar nem uma cantadinha desavisada no meu maridinho, quanto mais um descaramento desses!!!!!
Mas a Hermione pode, né gente?
Tô sarando, mas ainda não me arrisquei a escrever. Por isso, paciência...