CAPITULO 65
Sorte no amor
Gina embalou Felicity pela sala, cantando uma musica antiga, que sua mãe cantava para ela. A pequena não parecia muito feliz com sua voz e chorava ainda mais cada vez que Gina tentava o refrão.
Para ela era o som mais lindo do mundo. Há dois dias, o novo médico que cuidava dela, lhe dera poções que ajudavam a reverter os danos em suas cordas vocais e ela chorava como qualquer bebê, o que não garantia que fosse falar no futuro, mas era uma esperança.
Uma esperança que ela se apegava todos os dias e noites. Lá no fundo, Gina agradecia a Harry, pois sem ele não teria tido forças para encarar o problema e sair do seu quarto escuro, procurando ajuda a tempo. Segundo o medibruxo, era um problema de ordem natural, que poderia ser revertido, ao menos parcialmente, nos primeiros meses de vida.
Gina não sabia nada sobre medicina bruxa, e naquele momento, estava mais contente que pudesse ter cura a se ater no porque ou como. Felicity tinha quatro dias de vida e era a coisa mais linda e perfeita desse mundo e era seu único pensamento, o de agradecer a Merlin pela filha que tinha.
Seu mais lindo sonho realizado. Sua vida estava tão bem, tão colorida, que era quase inacreditável que fosse ela quem estivesse tão feliz. Houvera um tempo, quando tinha pouca idade, e era namorada de Harry que se sentira assim, esperançosa de um amor ao lado dele, de uma grande família unida como a que crescera. Mas a guerra destruiu seus sonhos e tudo que lhe restou foi um casamento triste ao lado de Greg.
Até engravidar e sua vida reascender. Com a volta de Harry o que era um pálido colorido se tornou vivo e intenso e todos os dias ao acordar ela se perguntava como alguém poderia ser tão feliz!
Engraçado como as pessoas podem lembrar da sensação de dor e sofrimento por toda a vida, mas não podem recordar como é a sensação de ser feliz. Agora, ela recordava, e revivia essa sensação e olhando para Felicity agora, ela entendia que a felicidade esteve todo o tempo ao seu lado. Esperando por ela, em seu futuro, mesmo que houvesse dez anos de espera!
-Posso saber a razão desse sorriso? – Harry perguntou parado no meio da sala olhando para ela a alguns minutos.
Ele sorria para ela e Gina fez um ar de desinteresse só para deixá-lo curioso.
-Felicity não gosta que a balancem – Harry disse maneando a cabeça e se aproximando e tirando a menina de seu colo.
-Harry, eu sei do que a minha filha gosta! – protestou indignada.
-Não, não sabe. Ela não gosta de movimentos bruscos. Você é muito hiperativa, Gina. Ela não. Felicity é calminha -ele abriu um grande sorriso quando a pequena se acalmou e bocejou, fechando os olhinhos azuis.
Era uma fadinha esperta, e chorava a seco quando lhe interessava. Harry suspeitava que teria duas mulheres voluntariosas em sua vida, atazanando-o. de uma forma estranha não era um mal pensamento, não mesmo!
Com as mãos na cintura, Gina apenas ergueu uma sobrancelha em deboche mais não respondeu nada. Afinal,era nos braços dele que Felicity se acalmara, não era?
-A casa está pronta – ele disse de repente, alguns segundos depois.
Harry tentou dar um ar desinteressado em sua voz, mas não conseguiu. Notou como ela ficou tensa, e sorriu para acalmá-la.
-Apressei o mestre da obra e eles terminaram ontem à tarde. Claro, faltam muitos detalhes, e o decorador ainda não começou o trabalho interno, por isso achei que gostaria de falar com ele, dar algumas sugestões. Você sabe, não entendo nada de decoração.
Sua ultima frase despertou nela uma grande ternura. Harry se esforçava para fazê-la ficar a vontade, sem pressioná-la, porem levando-a exatamente para onde queria!
-Posso vê-lo amanhã a tarde...aproveito para levar Felicity para seu primeiro passeio fora do âmbito hospitalar – brincou, olhando a filha que havia adormecido em meio a manta rosa que a envolvia. Era tão lindinha que seu coração se apertava sempre que olhava para ela.
-Ela vai gostar de conhecer seu quartinho – ele disse sem pensar e olhou para ela, que fingiu não ouvir, afinal, ela já tinha um quarto. Mas era melhor não brigar, eles ainda teriam que ter uma longa e desgastante conversa sobre isso, e não estávamos prontos para isso ainda.
-Sabe, Harry, falei com Madame Albertina e ela me garantiu que em quatro semanas posso...posso voltar a minha vida normal. – disse com um tom diferente que ele não entendeu imediatamente – você sabe, minha vida COMPLETAMENTE normal – como Harry ainda parecia desconfiado ela corou ao dizer – Sexo, Harry. Estou falando de sexo.
-Sexo não, amor – ele disse beijando-a rapidamente – não fazemos sexo, Gina, nunca fizemos só sexo -ele disse docemente.
Notando que ela estava desconfortável, ele se perguntou porque. Ginervra sempre fora uma moça muito bem resolvida sobre sua sexualidade, e nunca tivera pudores extremados sobre seus desejos.
-Quer falar comigo sobre isso? – ele perguntou esperando que não tivesse receio de se abrir.
-É que não sei mais fazer amor. Eu me acostumei só com sexo. Sem...grandes sentimentos. Desculpe. – ela ficou sem jeito e Harry ser pegou pensando que o estrago daqueles dez anos era maior que o simples ‘antes e depois’.
-Você não desaprendeu, apenas não praticou – ele tentou soar menos incomodado do que se sentia ao pensar que ela tivera uma vida sexual com outro homem – não fique se preocupando com isso agora, não estou lhe cobrando nada. Eu quero ficar com você desse modo mais intimo, mas não nesse momento, e não com tanta presa! Que tipo de homem eu seria se não esperasse por você?
-Harry, eu sei que pode esperar, sou eu quem mal pode esperar por esse momento – ela sorriu um pouco, sentindo-se boba e ingênua novamente, como fora aos quinze anos ao se entregar a ele pela primeira vez – eu...fico com medo de te desapontar.
-E porque acha que isso aconteceria? -ele ficou curioso sobrerudo pela sua expressão de culpa.
-Nos últimos meses, antes da morte de Greg, nos vínhamos brigando muito...e ele sempre reclamava que me achava distante. Desinteressada. E por mais que me esforçasse, eu sei que era verdade.o tempo que vivia ao seu lado estava ficando muito difícil para mim, e quando soube da gravidez tudo ficou ainda pior entre nós. – propositalmente escondeu dele alguns detalhes, como as agressões. – ele dizia que só pensava no bebê e lamentava o tempo que estivemos casados...e em parte era verdade.
-Verdade ou não, ele tinha opção que não incluem te magoar -ele foi sincero com o que pensava e sentia – poderia ter se separado. Gina, entenda, seu casamento não foi feliz, Poe que você não o amava. Isso não quer dizer que nenhum outro relacionamento vai dar certo. Você me ama, não ama?
-Amo – ela disse baixo, triste, pois ele tinha toda a razão do mundo.
-Estive ausente durante dez anos, Gina e se pudesse voltar no tempo, sem causar tantos danos, eu voltaria. E ficaria ao seu lado, mas tenho medo do preço disso para o mundo. Medo de não vencê-lo e o mundo em que vive, e vive Felicity deixe de existir. Esse tempo de ausência deixou marcas profundas em você, e senti muito que tenha que ser assim, mas vou conquistar sua confiança, eu juro que vou. – ele apanhou sua mão e beijou com delicadeza, arrancando dele um suspiro profundo, pois Harry a enxergava de uma forma tão bonita, e profunda como ela nunca fora antes vista.
-Eu confio em você, só...tenho medo – ela admitiu recostando a cabeça em seu ombro, enquanto Harry a envolvia pela cintura com o braço livre – Medo de te fazer infeliz...
-Impossível -ele disse beijando sua testa – Vocês duas só me dão alegria. É sério, estou confortável com a idéia de ter uma família. Uma mulher, uma filha. E não é de brincadeira, Gina. É de verdade. E não importam os problemas, ou os percalços, a escolha é minha e escolho vocês duas.
Gina escondeu o rosto na curva de seu pescoço, para que ele não visse como suas palavras entravam profundamente em seu coração, deixando-a frágil e insegura.
-Podemos ser felizes. Basta me deixar entrar na sua vida – ele arrematou, sentindo seu corpo contra o dele.
Não houve resposta, pois Felicity acordou e resmungou e Harry sorriu:
-Isso, diga para a mamãe dar uma chance ao seu tio Harry. –ele brincou com a menina, que tinha os olhos sonolentos, fixos nele. Não era sua filha, pensou Harry, mas havia conquistado-o desde o momento em que vira aquela barriga enorme e sentira seus movimentos lá dentro. E agora, em seus braços, Felicity já fazia gato e sapato dele, bastava um olhar displicente e ele desmanchava.
-Vai acabar mimando-a – Gina alertou notando o entrosamento entre eles.
-Está com ciúmes? – ele perguntou sorrindo. – De mim ou dela?
-Não sei...dos dois,eu acho – ela admitiu, adorando aqueles momentos de ficar com as duas pessoas mais importantes da sua vida, sem pensar em nada sério, sem medos ou duvidas.
-Não sinta ciúmes de nós -ele sugeriu – Uma família não deve sentir ciúmes. – ele tentou.
-Harry... –ela disse em tom de falso lamento – não force!
-Está bem – ele concordou rindo. Gina riu também, e eles se olharam nos olhos.
Era maravilhosa a sensação de estar apaixonada. Apaixonada e feliz, e quase era difícil reconhecer aquela sensação como sendo felicidade.
Gina fechou os olhos quando Harry a beijou, ambos tomando cuidado com Felicity entre eles. A pequena não se incomodou com o que a mãe fazia, ou o ‘tio Harry”, adormeceu novamente e os dois nem viram, perdidos naquele mundo de sensações que os unia e atraia cada vez mais.