Maria entrou no castelo acompanhada por Canino e imediatamente pediu a um dos elfos-domésticos que alimentasse o cão. Logo depois, rumou para o salão principal, onde era servido o almoço.
Quando chegou ao salão, percebeu que Lucius Malfoy estava sentado à mesa ao lado direito de Severus. Ela não gostou nada de ter que fazer a refeição acompanhada por aquele homem desagradável. Porém, ponderou mentalmente que não deveria fazer desfeitas ao “convidado” sob o risco de que Hogwarts ficasse de vez à mercê dos desmandos do Conselho e do Ministério. Pensando nisso, sentou-se à mesa, em seu lugar habitual e, enquanto se servia olhou em direção a Minerva e percebeu que ela não estava nada bem. Os últimos acontecimentos definitivamente a haviam deixado muito abatida. Maria então achou melhor deixar a amiga absorta em seus pensamentos e manteve silêncio enquanto comia. Entretanto, apesar de tentar a qualquer custo concentrar-se apenas na tarefa de comer, ela não conseguiu deixar de prestar atenção ao que Lucius Malfoy dizia a Severus. Sua audição apurada era um grande estorvo algumas vezes e, mesmo estando os dois a falar em tom muito baixo, Maria conseguia ouvi-los perfeitamente.
“- Eu acho que agora Hogwarts entrará nos trilhos, Severus. Tenho certeza de que você será nomeado diretor em breve.”
“- Isso não depende só de mim, Lucius e Minerva está fazendo um ótimo trabalho como diretora substituta.”
“- McGonagall é uma bruxa poderosa, mas já está velha. Não vai agüentar o ritmo por muito tempo. Vou usar de minha influência para garantir que o cargo seja seu.”
“- Agradeço pela confiança, mas acho que não devemos chamar a atenção para nós. É melhor que tudo permaneça como está.”
“- Se você prefere assim, então que seja. Agora ... me diga uma coisa ... o que você acha da Dra. Gentili ? Ouvi dizer que ela é uma verdadeira sumidade na matéria que leciona. Será que ela é mesmo tudo isso o que dizem por aí ?”
“- Sim, ela é muito competente.”, respondeu Severus.
“- Também, pudera ! É filha de uma família com dezenas de gerações de bruxos de sangue-puro ! O pai dela, o Dr. Gentili, tem fama de ser excêntrico. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de topar com ele.”
“- Tive o prazer de conhecê-lo. Ele é um homem de cultura e conhecimento imensuráveis.”
“- Então o homem merece a fama que tem ?”, perguntou Lucius.
“- Sua fama é totalmente merecida.”
“- Eu também soube por fontes seguras que a Dra. Gentili tem um irmão que, como ela, é versado em idiomas e que sua mãe é renomada arqueóloga.”, continuou Malfoy. Ele parecia muito interessado em conhecer mais detalhes sobre a família de Maria.
“- A família toda tem formação acadêmica ímpar.”, assentiu Severus.
“- Bom saber disso.”, disse Lucius, com um sorriso no lábios. “- Quem sabe não conseguimos neles mais aliados para a nossa causa ?”
“- Acho que devemos ter a máxima cautela possível. Neste momento, precisamos evitar exposições desnecessárias.”
“- Você tem toda razão, meu caro, precisamos ser prudentes. Mas ... me diga uma coisa ... é mesmo verdade que a Dra. Gentili fala mais de 50 idiomas ?”
“- Mais de 90 idiomas.”, corrigiu Severus.
“- Por Salazar ! Como ela conseguiu isso ?”
“- A Dra. Gentili é extremamente inteligente e tem uma aptidão ímpar para aprender novas línguas.”
“- Estou impressionado, Severus ! Se a Dra. Gentili fala mais de 90 idiomas estando apenas na meia-idade, quantos mais falará quando for velha como Minerva !”
“- Não faço idéia. Com certeza muitos mais.”
“- Severus, se essa família tem tantos predicados, muito nos interessará quando voltarmos à nossa luta.”, insistiu Malfoy. “- Você sabe que o Lorde não tardará a reaparecer. Os sinais de que sua volta está próxima são claros como a água.”
“- Eu sei disso. Mas ainda acho melhor esperarmos pelo momento propício para tentar amealhar novos simpatizantes. Por enquanto, precisamos ter paciência.”, ponderou Severus.
“- Sim, é claro ... é claro ...”, concordou Lucius.
Maria não entendia como Severus conseguia manter uma conversação civilizada com Lucius Malfoy pois ela tinha vontade de vomitar somente de ouvir a voz daquele homem. Virou-se para Minerva a fim de conversar um pouco e afastar sua mente do diálogo que se passava a seu lado.
“- Minerva, está tudo bem com você ? Parece abatida ...”
“- Eu estou bem, minha querida.”, respondeu Minerva com um sorriso triste no rosto.
“- Sei que você sente muito a falta de Albus, mas tenho certeza de que ele voltará em breve.”
“- Assim espero, minha amiga. Assim espero ...”
“- Você quer conversar após o almoço ? Podemos falar de amenidades e eu posso ler um pouco de poesia para você.”, disse Maria, tentanto animar a amiga.
“- Está bem. É uma ótima idéia. Isso é, se você não se incomodar de ter que traduzir a poesia para mim. Não tenho e nem jamais terei a sua fluência em tantos idiomas.”
“- Traduzirei com prazer. Você tem algo em mente ?”
“- Ah, gostaria muito de ouvir uns versos do poeta chileno Pablo Neruda. Já escutei maravilhas sobre ele. Você o conhece ?”
“- Conheço sim. E acho que já tenho em mente o poema que lerei para você.”
“- Nossa ! Mal posso esperar !”, disse Minerva, agora bem mais animada. “- Estou pronta para acompanhá-la quando você terminar a refeição.”
“- Pois saiba que já me dou por satisfeita. Vamos para a sala dos professores. Vi lá outro dia um livro de Pablo Neruda em uma das estantes.”
As duas mulheres pediram licença e levantaram-se da mesa. Continuaram sua conversa enquanto rumavam ao seu destino. Quando entraram na sala dos professores, encontraram Sinistra e Filius que pareciam também não suportar a presença de Lucius Malfoy à mesa e decidiram terminar seu almoço mais cedo.
“- Filius, Sinistra,” – falou Minerva, convocando os dois – “Maria vai ler para mim um poema de Pablo Neruda. Vocês também gostaria de ouvir ?”
“- Mas é claro que sim, Minerva.”, respondeu prontamente o professor de Feitiços.
“- Certamente.”, disse Sinistra.
“- Então venham, vamos nos sentar em volta da mesa.”
Enquanto os três se ajeitavam em suas cadeiras, Maria foi até a estante e achou o livro que procurava. Abriu-o e pareceu procurar por alguma página específica. Sua busca não demorou muito pois ela logo juntou-se aos demais, sentando-se perto eles.
“- Bem, eu sou suspeita para falar deste poeta ao qual admiro tanto. Vou ler para vocês os versos que ele escreveu em homenagem ao sorriso de sua amada. Acho que esse texto é muito apropriado para o momento em que vivemos. Necessitamos mesmo de um pouco de riso e alegria, não é ?”
“- Sim, precisamos mais do que nunca.”, concordou a professora de Astronomia.
“- Muito bem, iniciarei lendo em espanhol e depois farei a tradução.”
Minerva, Filius e Sinistra assentiram com a cabeça e ela então começou:
Tu risa
Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.
No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.
Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.
(…)
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría. (57)
“- Maria, que coisa maravillosa !”, exclamou Sinistra, assim que ouviu a tradução do poema.
“- É mesmo.”, concordou Filius. “- Ainda bem que a temos aqui conosco para encher nossas vidas de beleza e poesia.”
“- Ah, Filius … você é mesmo um amor. Eu não fiz nada demais. Pablo Neruda escreveu os versos e eu apenas os li para vocês.”
“- Mas é preciso colocar alma quando se lê poesia.”, disse Minerva. “- E você sabe muito bem como fazer isso, minha querida.”
“- E o faz magistralmente.”, emendou o professor Flitwick.
“- Bom, assim eu fico envergonhada.”
“- Por que ?”, perguntou Minerva. “- Isto não é um elogio e sim a mera e cabal constatação da verdade. Você é mesmo uma luz em nossas vidas, é como uma flor em meio à charneca infértil e nua.” (58)
“- Nossa Minerva ! Agora foi você quem fez poesia.”
“- Até parece, Maria ! Não tenho a mínima veia poética !”
“- Pois fique a senhora informada de que existe um soneto da poetisa portuguesa Florbela Espanca que se denomina “Charneca em Flor”. São versos belíssimos. Posso ler para vocês, qualquer dia desses.” (59)
“- Certamente este soneto deve ter sido feito em homenagem a alguém como você.”, disse Filius sorrindo. “- E eu concordo com Minerva quando ela diz que não lhe estamos fazendo elogios. Apenas constatamos o que vemos e percebemos. Você é mesmo uma pessoa maravilhosa !”
“- Está bem … está bem … mas vou tomar o que vocês chamam de “constatação da verdade” como um elogio e fico muito lisonjeada por ser chamada de flor. E … basta de falar de mim ! Agora … será que ainda gostariam de ouvir mais um pouco de Neruda ? ”
As três cabeças imediatamente assentiram, concordando com a idéia. Os rostos, antes abatidos, agora se iluminaram, os lábios se abrindo em largos sorrisos.
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(57) – “Tu Risa” – em espanhol – “Teu Riso” – Pablo Neruda –
"Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
(…)
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."
(58) – Charneca - Terreno inculto e árido onde há apenas vegetação arbustiva e rasteira
(59) – Florbela Espanca – poetisa portuguesa – nasceu em 08/12/1894 e morreu (suicidou-se) em 08/12/1930:
"Charneca em Flor
Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas ...
Sob as urzes queimadas nascem rosas ...
Nos meus olhos as lágrimas apago ...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago !
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade ...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor."