Vários dias se passaram após a prisão de Hagrid e a saída de Dumbledore. Hogwarts parecia mergulhada no pesar e no desânimo. Com o afastamento do diretor, Minerva tomara seu lugar como substituta e tentava manter o moral de alunos e professores o melhor possível, mas a maioria estava profundamente abalada com as duas perdas sofridas. Somente Lockhart e alguns alunos de Sonserina pareciam não se importar muito com as ausências de Hagrid e Dumbledore.
Minerva decidira manter os procedimentos de segurança a fim de evitar que mais alunos fossem petrificados, mas nenhum outro ataque havia acontecido.
O trabalho de tradução da Enciclopédia de Poções estava praticamente parado. Maria havia conseguido traduzir apenas mais um volume mas não encontrara nele nenhuma fórmula que fosse digna de maior atenção. Sentia-se frustrada pois nenhum avanço havia sido feito quanto a resolução do mistério que cercava a fórmula da “visão elementar”. E, como se isso não bastasse, com a ausência de Dumbledore e com as constantes visitas de Lucius Malfoy ao colégio, ela e Severus não teriam a menor change de conseguir o sangue de basilisco tão necessário para o preparo da poção “Semper Fidelis”.
Foi com este estado de espírito nada favorável que ela foi ao seu quarto logo após o café da manhã, pegou um dos livros que estavam na estante e resolveu dar umas voltas para espairecer. Era um lindo sábado de sol naquele muito florido fim de maio.
Maria desceu as escadas com o livro nas mãos e dirigiu-se para o pátio externo. Quando lá chegou, sentou-se na grama verde e perfumada e abriu o livro. Folheou-o a esmo até que seus olhos pararam sobre um poema do Willian Blake, entitulado “My Pretty Rose Tree”: (55)
”A flower was offered to me,
Such a flower as May never bore;
But I said “I’ve a pretty rose tree”,
And I passed the sweet flower o’er.
Then I went to my pretty rose tree,
To tend her by day and by night;
But my rose turned away with jealousy,
And her thorns were my only delight.” (55)
Desde que resolvera dedicar-se a elucidar o enigma do último ingrediente da fórmula “visão elementar”, Maria vira-se obsecada por textos que falavam de flores. Já havia lido dezenas deles, mas nada lhe vinha a cabeça que pudesse concatenar as duas partes do quebra-cabeça envolvendo o último ingrediente. “- O que será que a Primula vulgaris tem a ver com lágrimas ?”, perguntou-se ela pela milésima vez. “- Nada faz sentido.”, respondeu a si própria de maneira exasperada.
Fechou o livro, levantou-se e pôs-se a caminhar lentamente, perdida em seus pensamentos. Ia dirigir-se rumo à floresta proibida quando foi interpelada por Lucius Malfoy. Maria estava tão distraída que não havia se apercebido da aproximação dele.
“- Bom dia, Dra.Gentili.”, disse Lucius, cumprimentando-a com um aceno de cabeça.
“- Bom dia Sr. Malfoy.”, respondeu Maria em tom seco. Lucius Malfoy era um homem muito bonito, do tipo que leva consigo os olhares femininos. Era alto, louro e vestia-se com esmero. Entretanto, Maria não gostara de Lucius desde o primeiro minuto em que pusera seus olhos sobre ele.
“- A senhora saberia de me dizer se o professor Snape está no laboratório de poções ?”, perguntou Malfoy cordialmente. Desde o momento em que havia descoberto ser ela filha do famoso Dr. Gentili, Lucius passara a tratar Maria com uma cortesia que não costumava usar com as outras pessoas.
“- Eu acredito que ele esteja na estufa acompanhando a professora Sprout.”, respondeu ela.
“- Ah sim, as mandrágoras já devem estar quase no ponto para serem colhidas. Finalmente a poção que retirará os alunos de seu estado de petrificação poderá ser produzida.”, especulou Malfoy. “- É bom mesmo que os alunos de sangue ruim possam finalmente voltar ao normal.”, disse ele, desta vez enfatizando as palavras “sangue ruim” com um leve levantar de sobrancelhas.
Maria preferiu não responder. Achou melhor ficar calada pois assim ele seguiria caminho e ela não precisaria mais privar de companhia tão desagradável. Infelizmente, suas expectativas foram frustradas.
“- E seu pai, minha cara ? Espero que esteja gozando de boa saúde. Soube por um amigo que ele esteve internado por alguns dias.”, disse Lucius.
“- Ele está muito bem. Sua saúde está ótima.”, respondeu Maria, sem dar maiores detalhes.
“- Fico feliz em saber.”, assentiu Lucius. “- E a senhora ? Está gostando da estadia aqui em Hogwarts ?”
“- Sim, estou gostando muito. Hogwarts é uma escola de excelência. Infelizmente os últimos acontecimentos têm perturbado nossos alunos.”
“- Mas nenhum outro ataque aconteceu, não é ? Quer dizer, depois da saída de Dumbledore e a prisão de Hagrid as coisas parecem andar às mil maravilhas !”
“- Mesmo quando Albus estava aqui, o monstro não atacava com regularidade. Passaram-se meses entre o penúltimo ataque e o último.”, disse ela. Aquela conversa definitivamente já a estava aborrecendo.
“- Significando que a presença de Dumbledore pareceu não ter qualquer influência sobre o comportamento da criatura que foi liberada da Câmara Secreta. Aparentemente nem todos tremem de medo quando estão na presença do nosso estimado ex-diretor. Mas isso não mais importa já que Hagrid foi abviamente o culpado pela abertura da Câmara. Com a prisão dele, não temos mais o que temer.”
Maria já ia responder de maneira nada simpática aos comentários pérfidos de seu interlocutor quando viu que Severus se aproximava. Lucius então pediu-lhe licença e dirigiu-se ao Mestre de Poções.
“- Ah, professor Snape, eu precisava mesmo falar com o senhor !”
“- Sim, Sr. Malfoy. Eu já irei atendê-lo. Mas antes preciso falar com a professora Gentili. O senhor se importa de aguardar por mim no Grande Salão ?”
Malfoy olhou para Severus como se tivesse sido obrigado a tomar um balde de fel. Era óbvio que não estava acostumado a esperar por quem quer que fosse.
“- Se o senhor não for demorar muito …”, respondeu ele. “- Sou um homem muito ocupado.”, completou, em tom muito seco.
“- Não me demorarei.”, disse Severus laconicamente.
“- Muito bem, então eu o aguardei no salão principal. Passar bem, Dra.Gentili.”
“- Passar bem, Sr. Malfoy.”, respondeu Maria.
Lucius Malfoy afastou-se a passos largos, dirigindo-se para o castelo. Severus pacientemente aguardou que ele ficasse a uma distância segura para só então aproximar-se de Maria e lhe falar em voz muito baixa: “- Procurei você por toda a escola e não achei. Já estava começando a ficar preocupado.”
“- Resolvi caminhar um pouco para ordenar as idéias.”, disse ela.
Severus olhou à sua volta e viu que Malfoy já estava muito distante e que não havia mais ninguém por perto. Aproximou-se mais ainda dela. Seus lábios mal se abriram quando ele falou num sussurro: “- Sinto muita falta de estar com você. Nós últimos tempos não tivemos mais chances de ficar sozinhos. Pensei que pudéssemos ficar juntos esta tarde, mas não sei o que Lucius Malfoy quer comigo.”
“- Eu também sinto muito a sua falta.”, respondeu Maria. “- Você acha que este homem insuportável vai tomar muito do seu tempo hoje ?”
“- Não sei o motivo da visita dele. Mas espero que não seja por demais demorada. Mal posso esperar para ter você em meus braços.”
Maria pegou uma das mãos dele e o trouxe para si. “- Por que você não deixa Lucius Malfoy esperando. Vamos dar uma volta pela floresta. Lá poderemos ficar sozinhos sem sermos incomodados.”, disse ela olhando-o fixamente.
“- Infelizmente não posso, meu amor. Não agora. Lucius Malfoy não é alguém que eu queira ter como inimigo neste momento. Mas lhe prometo que ficaremos juntos ainda hoje e poderemos compensar todo o tempo em que estivemos impossibilitados de usufruir de maior intimidade.”
“- Está bem.”, concordou Maria, com um sorriso. “- Espero você em meu quarto esta tarde.”, completou.
Severus assentiu e afastou-se, rumando em direção ao castelo.
Vendo-se mais uma vez sozinha, Maria pôs-se a caminhar novamente e foi dar na cabana que servia de lar para Hagrid. Ela sentia muita falta do gigante de ar bonachão e morria de pena em saber que ele agora estava em Azkaban. “- Que coisa mais sem cabimento.”, pensava ela. “- Hagrid jamais cometeria um crime. Como podem acusá-lo desta maneira ?”.
Chegou à cabana e viu que a porta estava destrancada. Abriu-a e olhou para dentro, avistando Canino, o cão de estimação de Hagrid. O enorme animal veio imediatamente a seu encontro, praticamente implorando para que ela lhe fizesse companhia. Maria assim o fez. Entrou e sentou-se na enorme cadeira que ficava no centro da cabana. Canino logo postou-se a seus pés e ela pôs-se a lhe fazer carinhos na enorme cabeça. O cão adormeceu rapidamente e Maria decidiu ficar mais um pouco ali para não deixá-lo sozinho. Acabou fechando os olhos e também adormecendo.
Seu sono foi intranquilo, cheio de imagens difusas, povoado por flores de cores diversas e por versos e frases soltas. De repente, viu-se em um enorme jardim todo florido. O perfume das flores era intenso, enchendo o ar. Ela andou um pouco pelo local, admirando sua beleza. Foi então que percebeu que não estava sozinha pois avistou um homem sentado em um banco. Este homem aparentava estar absorto na leitura de um livro e não notou a presença dela. Ele tinha cabelos escuros que lhe vinham até o ombros e vestia-se de maneira peculiar . Maria aproximou-se dele com cuidado para não incomodá-lo. Quando já estava bem próxima, o homem virou-se para ela e sorriu. “- Ele me é familiar.”, pensou Maria. “- Sim … é claro … é William Shakespeare ! Mas o que ele faz aqui ?” Neste momento, sem que ela esperasse, Shakespeare levantou-se de seu lugar, foi até ela e recitou:
“For women are as roses, whose fair flower
Being once display’d, doth fall that very hour.” (56)
Maria acordou assustada. Acalmou-se apenas quando viu que ainda estava na cabana de Hagrid, com Canino deitado a seus pés. “- O que William Shakespeare fazia em meus sonhos ?”, perguntou-se, esfregando os olhos. Olhou então para o relógio que ficava sobre a mesa e viu que já se aproximava a hora do almoço. “- Vamos Canino.”, disse ela, pegando o livro que trouxera e levantando-se da cadeira. “- Venha comigo. Vamos almoçar !”. O enorme cão pôs-se imediatamente de pé e ambos saíram da cabana, rumando para o castelo.
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(55) “My Pretty Rose Tree” – em inglês – “Minha Linda Roseira” –
"Uma flor a mim foi oferecida,
Uma flor que maio nunca teve;
Mas eu disse: "Eu tenho uma linda roseira",
E devolvi a doce flor.
Então fui à minha linda roseira,
Para cuidá-la de dia e de noite;
Mas minha rosa virou-se com ciúme,
E seus espinhos foram meu único prazer.”
(56) “For women are as roses, whose fair flower
Being once display’d, doth fall that very hour.” – em inglês –
“As mulheres são como rosas cuja formosa floração, uma vez aberta,
não perdura por muito tempo.” –
Versos de William Shakespeare em “Noite de Reis” (Twelfth Night), Ato II, cena IV -
O título original desta peça, “Twelfth Night”, refere-se à décima segunda noite
depois do Natal - noite de 6 de janeiro, Dia de Reis.