O novo ataque do monstro obrigou o diretor de Hogwarts a tomar medidas drásticas que foram devidamente informadas aos alunos: todos os alunos deveriam voltar à sala comunal de suas casas até as seis horas da tarde. Nenhum aluno deveria sair dos dormitórios após essa hora. Um professor os acompanharia a cada aula. Nenhum aluno deveria usar o banheiro a não ser escoltado por um professor. Todos os treinos e jogos de Quadribol seriam adiados e não haveria mais qualquer atividade noturna no colégio.
Severus foi até o salão comunal de Sonserina e passou cuidadosamente cada uma das novas regras aos alunos. Após fazê-lo, perguntou se havia alguma dúvida quanto às normas estipuladas. Como todos permaneceram em silêncio, ele deixou o salão e dirigiu-se imediatamente à sala do diretor.
Quando lá chegou, foi informado de que Dumbledore havia estipulado que os professores fariam ronda em turnos de quatro horas cada, durante toda a noite, a fim de evitar que novos ataques acontecessem. Para facilitar o trabalho, a vigília seria feita em duplas e Severus e Maria foram designados para o segundo turno daquela noite.
“- É melhor que você vá descansar um pouco.”, disse Severus em voz baixa, assim que os dois saíram da sala do diretor. “- O nosso turno começa à meia-noite e vai até às quatro horas da manhã. Aproveite as próximas horas para dormir.”
“- Não sei se vou conseguir pregar o olho. Estou preocupada demais. Ouvi dizer que o Ministro da Magia enviou uma mensagem a Albus e virá a Hogwarts ainda esta noite. Ficom com medo do que possa acontecer se ele afastarem nosso diretor.”
“- Este é certamente um risco que corremos. Mas posso garantir-lhe que, mesmo afastado da escola, Dumbledore dará um jeito de estar sempre a par de tudo o que aqui acontece.”
“- Eu sei, Severus. Mas a ausência de Albus será um prato cheio para certos bruxos. Você sabe bem do que eu estou falando.”
“- Sei e posso garantir-lhe de que já há uma movimentação destes bruxos. Lucius Malfoy mandou-me uma mensagem informando-me de que virá pessoalmente ao colégio a fim de averiguar os detalhes deste novo ataque. Posso garantir-lhe que Lucius não é homem de dar ponto sem nó.”
“- Ele é o pai de Draco, não é ?”, perguntou Maria.
“- Sim, Draco é o único filho de Lucius e Narcissa Malfoy.”
“- Não sei porque, mas nunca gostei deste menino. Ele é arrogante e dissimulado. Não sei como você o suporta !”
“- Não posso levantar suspeitas sobre minha posição em Hogwarts. Lucius Malfoy foi Comensal da Morte e me conhece muito bem. Se eu fizer qualquer movimento que ele considere irregular ou suspeito, certamente não terei chances de manter meu trabalho como agente duplo.”
“- Eu entendo, meu querido.”, disse Maria. “- Bom, acho melhor fazer o que você me pediu e tentar descansar um pouco. Aliás, seria melhor que você também descansasse.”
“- Não se preocupe comigo. Vou levá-la até a porta de seus aposentos e virei buscá-la quando faltarem 30 minutos para o início do nosso turno.”
“- Está bem.”, concordou ela.
Severus a acompanhou até a porta do quarto e só se retirou quando viu que ela já havia entrado e fechara a porta por dentro.
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Maria tentou dormir, mas o sono simplesmente não lhe vinha. Toda vez que fechava os olhos, parecia escutar a voz sibilante da criatura: “Matar dessa vez ... me deixe cortar ... estraçalhar ...”
Virou-se muitas e muitas vezes na cama, mas não conseguiu relaxar a ponto de permitir que o sono chegasse.
Vendo que suas tentativas eram infrutíferas, foi até a estante de livros e para pegar um deles e ler um pouco. Nos últimos dias tinha se dedicado totalmente à tentativa de decifrar o mistério que envolvia o ingrediente faltante da fórmula “visão elementar” e tinha, por conta disso, examinado incontáveis fontes a procura de respostas.
Pegou um dos livros a esmo e voltou para a cama, abrindo-o. Só então se deu conta de que tratava-se de um exemplar da obra “De Contemptu Mundi” (51), escrita no século XII pelo monge beneditino Bernardus Morlanensis. Abriu o volume no início do Líber I e passou os dedos pelos parágrafos até que chegou aos versos 951 e 952, lendo-os em voz alta: “Nunc ubi Regulus aut ubi Romulus aut ubi Remus ? Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus”. (52)
Fechou o livro após alguns minutos e ficou pensando sobre o assunto. O verso 952, que acabara de ler, havia sido usado, com uma pequena alteração, para fechar com chave de ouro um outro livro que ficara muito famoso entre os trouxas e que denominava-se “O Nome da Rosa”, do escritor italiano Umberto Eco. Neste livro, que é nada mais nada menos que uma história detetivesca passada durante a Idade Média, o monge inglês Guilherme de Baskerville é chamado para resolver misteriosas mortes ocorridas em uma abadia italiana. Lá chegando, Guilherme percebe que todas as mortes estão ligadas a um segredo guardado a sete chaves dentro da biblioteca da abadia. Após meses de trabalho árduo, enfrentando os mais diversos perigos, inclusive o de ser julgado e quase enviado à fogueira pela Inquisição, Guilherme consegue desvendar todo o mistério. A frase “Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus” (53) é a última do livro. Ou seja, a palavra “Roma” do verso 952 original foi inteligentemente substituída pela palavra “rosa”, dando à frase uma interpretação inovadora e que tinha tudo a ver com a história contada por Umberto Eco.
Maria não sabia o porquê, mas aquela expressão a intrigara desde o minuto em que abrira o livro e nela colocara os olhos. William Shakespeare, um outro escritor também renomado já havia utilizado expressão semelhante em um de seus livros mais famosos:
“What’s a name ? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.” (54)
Todas estas frases não lhe saiam da cabeça, deixando-a com os miolos a fervilhar. Ela então desistiu de tentar dormir e resolveu que o melhor seria continuar sua pesquisa. Foi novamente até a estante e pegou outro livro, pondo-se prontamente a lê-lo. Seu trabalho só foi interrompido quando ouviu alguém bater à porta. Olhou para o relógio da parede e viu que já eram 23:30h.
Foi até a porta e abriu-a. Severus estava do lado de fora aguardando por ela para que se dirigissem ao seu posto de vigília.
“- Vejo que você não conseguiu descansar.”, disse ele, enquanto rumavam ao lugar onde montariam guarda.
“- Não houve meios para isso. Achei melhor utilizar meu tempo continuando a pesquisa sobre o ingrediente que falta para finalizarmos a fómula da “visão elementar”. Entretanto, minhas tentativas foram infrutíferas. Por mais que eu pense, não consigo concatenar as idéias.”
“- Isto é porque você está muito cansada. Tenho certeza de que este mistério se resolverá.”
“- Espero sinceramente que sim.”, disse ela, quando os dois chegaram ao lugar determinado onde deveriam ficar.
A primeira hora passou arrastada e Maria começou a sentir o sono a pesar-lhe nas pálpebras. Severus logo apercebeu-se disso.
“- Você não quer ir até o banheiro para passar um pouco de água no rosto ?”, perguntou ele. “- Isso a ajudará a manter-se acordada.”
“- Não quero deixá-lo aqui sozinho.”, respondeu ela.
“- Não se preocupe. Vá sem pressa.”
“- Você tem certeza ?”
“- Sim, pode ir. Aguardarei por você aqui.”
Maria dirigiu-se ao banheiro mais próximo e lavou o rosto com bastante água fria. Enxugou-se e voltou imediatamente para seu posto.
“- Tudo tranquilo ?”, perguntou ela assim que voltou.
“- Sim. Por um minuto achei ter ouvido um barulho. Mas acredito que tenha sido apenas impressão. Você está se sentindo melhor agora ?”
“- Muito melhor, obrigada. Você não quer sair um minuto para também lavar o rosto?”, perguntou ela.
“- Não há necessidade. Estou acostumado a ficar sem dormir. Quando estiver sentindo-se cansada, basta apenas me dizer, está bem ?”
Maria ia responder ele quando Minerva aproximou-se dos dois, parecendo bastante transtornada.
“- O que foi Minerva ? Aconteceu alguma coisa ?”, perguntou Maria vendo a exasperação no olhar da amiga.
“- O Ministro da Magia, Cornélius Fudge, acabou de chegar a Hogwarts. Ele está decidido a levar Hagrid consigo.”
“- Hagrid ? Por que ?”
“- Eu imagino que seja por um fato ocorrido há 50 anos. Nesta época, a Câmara Secreta também foi aberta e uma aluna acabou morrendo. Hagrid foi acusado de ser o autor deste ato. Certamente o Ministério o está culpando novamente.”, respondeu Severus, com o cenho carregado.
“- Mas Severus, Hagrid seria incapaz de fazer mal a uma mosca !”
“- Concordo com você. Mas o Ministro aparentemente não pensa assim.”, respondeu ele.
“- Não pensa mesmo ... e agora o pobre Hagrid será levado para Azkaban !”, falou Minerva entre lágrimas. “- Que tragédia !”
“- Temos que fazer alguma coisa para impedir que isso aconteça !”, exclamou Maria.
“- Infelizmente só podemos esperar, minha querida. Albus irá até a cabana de Hagrid para acompanhar o Ministro. Ele tentará defendê-lo da melhor maneira possível mas, no momento, acredito que nem mesmo Albus possa fazer muita coisa.”
Maria aproximou-se da amiga a fim de consolá-la quando percebeu que uma outra pessoa se aproximava dos três. Olhou na direção da figura e viu tratar-se de um homem que lhe era totalmente desconhecido, mas que guardava feições muito similares a um dos alunos de Hogwarts. Ele era alto, louro e tinha um olhar insuportavelmente arrogante. “- Certamente trata-se de Lucius Malfoy.”, pensou ela, mas não teve tempo de certificar-se deste fato pois o homem veio com passos rápidos até eles e dirigiu-se a Severus, simplesmente ignorando a presença das duas mulheres que o acompanhavam.
“- Professor Snape, o senhor saberia me dizer para onde foi o diretor de Hogwarts ? Fui até o gabinete dele procurá-lo, mas ele não se encontra lá. Fico surpreso que mesmo após mais um ataque do monstro, Dumbledore esteja a passear por aí, pouco se importando com o bem-estar e segurança de seus alunos.”
Severus não teve tempo de responder pois Minerva adiantou-se a ele.
“- Boa noite, Lucius.”, disse ela com a voz carregada de raiva. “- Seria muito melhor para todos se você deixasse de tirar conclusões apressadas e parasse de disparar sua metralhadora de acusações antes de certificar-se dos fatos. Para seu governo, Albus não está por aí a passear. Ele foi com o Ministro da Magia até a cabana de Hagrid.”
“- Perfeito !”, exclamou Lucius Malfoy, aparentemente ignorando a maneira dura com a qual fora interpelado pela professora de transfiguração. “- É bom mesmo que o Ministro esteja aqui. Trouxe comigo uma Ordem de Suspensão contendo as doze assinaturas que aprovam o afastamento de Dumbledore do cargo de diretor de Hogwarts.”, disse ele de modo triunfante.
“- Não pode ser !”, gritou Minerva. “- Isto é um absurdo, um despautério !”
“- Absurdo ou não, minha cara, a ordem está redigida e devidamente assinada e é meu dever entregá-la ao Ministro e fazer com que seja cumprida imediatamente.” Disse isso abrindo um pedaço de pergaminho e praticamente o esfregando no rosto de Minerva. “- Veja com seus próprio olhos !”
Minerva pegou o pergaminho com as mãos trêmulas e ficou lendo e relendo o papel. Parecia não acreditar no que seus velhos olhos viam.
“- Muito bem,” - falou Lucius Malfoy após um ou dois minutos - “acredito que você já esteja satisfeita. Agora preciso ir ao encontro do Ministro a fim de cumprir o propósito de minha missão.”, finalizou, retirando bruscamente o pergaminho das mãos da professora de transfiguração e dirigindo-se a passos largos para a área externa do colégio.
“- Primeiro Hagrid, agora Albus ... duas baixas irreparáveis ... não sei o que será de nós ...”, balbuciou a velha professora. Seus lindos olhos azuis estavam cheios de lágrimas.
“- Ah Minerva, minha amiga, não sei o que dizer.”, falou Maria, aproximando-se da amiga e a abraçando-a. “- Severus, como você acha que devemos proceder agora ?”
“- Neste momento, não há nada que possamos fazer além de continuar a montar guarda em nosso posto. Tenho plena confiança de que o diretor agirá de melhor maneira possível. Infelizmente, a nós só resta esperar pelo curso natural dos acontecimentos.”, concluiu o Mestre de Poções.
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(51) “De Contemptu Mundi” – em latim – “O Desprezo do Mundo” – obra em verso escrita no século XII pelo monge beneditino Bernardus Morlanensis e composta das seguintes partes: “Prologus”, “Liber I”, “Liber II” e “Liber III” – Defende que somos concebidos na impureza, nascemos aos gritos e lágrimas, vivemos na inquietação, no sofrimento e no pecado, morreremos na angústia e apodreceremos no túmulo. Resumindo-se a lágrimas e penar o destino do Homem sobre a Terra. – Este poema obscuro defende a desvalorização da vida terrestre, exaltando e glorificando apenas o sofrimento e a dor que são indispensáveis à santificação do Homem e transcendência de seu espírito após a morte. Segundo os seguidores desta doutrina, “Jesus jamais riu”.
(52) “Nunc ubi Regulus aut ubi Romulus aut ubi Remus ? Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus” – em latim – “E agora onde está Régulo, ou Rômulo ou Remo ? A Roma antiga está no nome e nada nos resta além dos nomes.”
(53) “Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus” – em latim – “A rosa antiga está no nome e nada nos resta além dos nomes.”
(54) “What’s a name ? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.” – em inglês –
“O que é um nome ? O que chamamos de rosa teria o mesmo perfume se tivesse outro nome.” – William Shakespeare – Romeu e Julieta.