A Verdadeira Profissão...
Mary foi cedo para seu quarto e leu um pouco antes de dormir. Ouvia do outro lado da porta fechada um murmúrio abafado de conversa. Sorriu. Joe aceitara os vinte e dois dólares sem reclamar. Que iriam os dois fazer em seguida? Afinal, apagou a luz e tratou de dormir. No dia seguinte, teria tempo de sobra para preocupar-se.
Quando acordou no dia seguinte, o sol entrava radiosa-mente pela janela aberta. Rolou o corpo pela cama e espreguiçou-se. Era magnífico ir dormir cedo. Quase já se havia esquecido disso. Levantou-se e pegou o robe em cima da cadeira. Não havia armário no quarto dela. O armário ficava no quarto maior, onde estavam Luna e Joe. Vestindo o robe, Mary passou para o outro quarto. Arregalou os olhos, surpresa. A cama estava vazia e sem o menor sinal de que alguém houvesse dormido nela. Foi até a janela e olhou. O carro também não estava mais lá. Foi até a pia e encheu a chaleira para fazer café, ainda pensando na ausência dos dois. Deviam ter saído na noite passada e ainda não haviam voltado.
Acendeu o gás e foi até o armário. Vazio. Não havia mais roupas. Abriu as gavetas da cômoda. Tinham levado tudo. Praguejou baixinho. Tudo o que restava de roupas no apartamento era o que ela trazia em cima do corpo: uma camisola, um robe barato e as sandálias. Tinham levado todas as roupas dela, até o maiô. O café estava fervendo. Serviu-se de uma xícara e sentou-se para pensar no que ia fazer. Estendeu a mão para o maço de cigarros que ficava sempre em cima da mesa. Até isso tinham levado. Foi até o quarto e apanhou o maço que estava dentro da bolsa. Nesse momento, bateram à porta e ela abriu. Era o zelador do edifício.
− Que é? − perguntou ela.
Era um homem baixo e atarracado, que a olhou por entre as cerradas sobrancelhas, dizendo:
− Seus amigos foram-se embora.
− Sei disso − disse ela, sem sair da porta.
Ele fez um movimento para entrar no apartamento, mas ela lhe bloqueou a passagem.
− Disseram-me que pagaria o aluguel − disse ele, tentando olhar por cima do ombro dela, para ver o que ainda restava do apartamento.
− Quanto lhe devem?
− Três semanas. São noventa dólares.
Não dava para saber se ele estava mentindo ou não. Se estava dizendo a verdade, Joe havia embolsado a parte do aluguel que ela pagara.
− Ele me disse que lhe havia pago até a semana passada.
− Tem os recibos?
− Devem estar por aí.
Ele bem sabia que ela não tinha os recibos. Quando ouvira o barulho do motor do carro no meio da noite, saíra do quarto às pressas. Sempre dormia com um ouvido voltado para os inquilinos. Num edifício de apartamentos mobiliados era preciso agir assim do contrário se perderia até a camisa do corpo. Havia sempre quem tentasse sair sem pagar o aluguel. O homem e a mulher estavam arrumando as malas no carro.
− Olá! − dissera ele, amarrando o roupão. − Aonde é que vão?
− Vamos embora.
− E meu aluguel?
− Que é que há com seu aluguel? A outra vai ficar. Não irá conosco.
− Como é que eu vou saber se ela tem dinheiro?
O homem olhara para a companheira e depois levara o gerente para trás do carro, onde ela não poderia ouvi-lo.
− Ela tem dinheiro, sim, e você pode até cobrar-lhe mais duas semanas e não apenas esta.
O gerente baixara inconscientemente a voz.
− Mas os recibos estão na sua mão.
O homem tirou alguns papéis do bolso e disse:
− Posso devolvê-los.
O gerente viu em suas mãos os recibos das duas últimas semanas. Ouviu então o homem dizer-lhe:
−Tenho de sair. Minha garota é muito ciumenta e a outra não me deixa em paz. Quer saber de uma coisa? Você pode até...
− Acha mesmo? − perguntou o zelador, sentindo a boca seca ao lembrar-se de como a vira ir para o carro de maiô.
− Fácil, fácil.
O zelador ficou indeciso. Na realidade, o aluguel só estava com dois dias de atraso.
− Como é que eu vou fazer?
− Ora, ela é uma ninfomaníaca, sabe? Não pode passar sem fazer isso. Basta você mostrar a ela que está querendo.
− Está bem − disse o zelador, dando um suspiro. − Vou tentar.
O carro desapareceu então dentro da noite, e ele voltou para seu quarto. Ainda que o homem não estivesse dizendo a verdade, o pior que podia acontecer era ele conseguir apenas alguns dólares a mais...
Meteu o pé no batente da porta e disse categoricamente:
− Escute aqui, o aluguel não foi pago e eu quero o meu dinheiro.
− Não poderá receber nada agora − disse Mary. − Só depois que eu for ao banco e tirar o dinheiro.
− Nada disso. Acha então que vou cair nessa? Se você sair daqui, não me aparecerá mais e eu ficarei sem o meu dinheiro. Quero tudo agora.
− Não tenho dinheiro aqui − disse ela.
− Tem, sim − disse o homem, correndo os olhos cobiçosa-mente pelo corpo mal coberto pelo robe. − Tem todo o dinheiro de que precisa.
Um sorriso apareceu nos lábios de Mary. Compreendera tudo sem demora.
− Está bem − disse ela. − Mas preciso de algum tempo para me aprontar. Preciso tomar um banho e...
O homem estendeu a mão na direção dela. Sentiu-lhe a rigidez do seio sob o robe, mas ela esquivou agilmente o corpo e disse, sorrindo:
− Agora, não.
O gerente olhou para ela. O sujeito havia dito a verdade.
− Está certo − disse ele magnânima-mente. − Dou-lhe uma hora e então voltarei.
− Obrigada − disse ela secamente.
− Mas não tente enganar-me. A polícia daqui não gosta de caloteiros, especialmente quando se trata de turistas.
Ela fechou a porta e escutou-lhe os passos que se afastavam pelo corredor. Ficou um momento ali e depois foi até a mesa. Pegou a xícara de café e tomou um gole. Estava gelado. Acendendo outro cigarro, foi até o fogão e ficou ali pensativa-mente enquanto esquentava a cafeteira. No fundo do seu ser, sempre soubera o que ia acontecer. Mais cedo ou mais tarde, teria de tomar uma decisão. Quando o café estava quente, levou uma xícara de novo para a mesa e sentou-se. Se ao menos tivesse algumas roupas, poderia ir embora. Mas, nesse caso, o gerente chamaria a polícia. Joe tinha dito que a polícia já estava alerta. Talvez fosse reconhecida como uma das figurantes do ato. Tudo então seria pior para ela. Tomou o café e acendeu um cigarro na ponta do outro. Sorriu tristemente. Não que tivesse alguma coisa a perder. Já não era uma virgem que tivesse de proteger a invisível barreira. O padrasto tratara disso. Também sabia cuidar-se em relação a outras coisas que nunca mais deveriam acontecer. Isso ela havia aprendido no reformatório. Não havia motivo algum para preocupação.
Entretanto, alguma coisa sempre a retivera. Fechou os olhos, quase fatigada. Era o que todos sempre queriam. Os homens eram todos iguais. Ela sabia disso e costumava divertir-se. Gostava de ver até onde podia ir com eles com possibilidade de escapar. Se ao menos houvesse dentro dela alguma coisa que pudesse corresponder aos desejos deles, talvez ela pudesse pensar de maneira diferente a esse respeito. Só ao lado de Harry é que havia sentido alguma coisa surgir dentro dela. Era estranho que ela pensasse nele naquele momento. Parecia que ele pertencia a um mundo completamente diverso. Talvez fosse o amor que sentia por ele que o tornava diferente. Devia ser. Nunca sentira o mesmo com qualquer outra pessoa.
Tomou outra xícara de café e olhou para o relógio. Quinze minutos ainda. Levantou-se e lavou a xícara. Depois de enxugá-la e guardá-la no armário, tornou a olhar o relógio. Dez minutos. Acendeu outro cigarro e esperou, com os olhos no relógio. Gostaria de sentir alguma coisa naquele momento, nem que fosse medo. Nada sentia, porém. Apenas a fria certeza de que aquilo teria de acontecer e de que tudo fora apenas uma questão de tempo. Estava ainda olhando para o relógio quando bateram na porta. Levantou-se e foi abri-la.
− Entre.
O gerente hesitou um instante e afinal entrou e fechou a porta.
− Então? − perguntou ele, com o rosto ansioso.
Mary notou que ele fizera a barba e vestira uma camisa limpa. Sorriu consigo mesma.
− Então − respondeu ela.
− Está pronta? − perguntou ele, encaminhando-se para ela.
− Estou sempre pronta − respondeu ela automaticamente, com os olhos fitos no homem.
O gerente estendeu as mãos e abraçou-a rudemente. Beijou-a, e ela sentiu-lhe os dentes atrás dos lábios. Não se mexeu. As mãos do homem moveram-se rapidamente, e som de suas roupas sendo rasgadas chegou-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe. Foi então que ela o empurrou. Olhou com pesar para o robe rasgado no chão. Estava mesmo sem roupas de espécie alguma. Olhou para o homem. Ele estava devorando-a com os olhos injetados e uma expressão de furor intenso no rosto. Avançou para ela.
Ela o encaminhou para o quarto. Tudo lhe era naquele momento perfeitamente claro. Demorara muito, mas afinal compreendia. Era aquela a vida para a qual nascera. Algumas mulheres nascem para ser esposas, secretárias, funcionárias ou atrizes. Mas ela nascera para ser prostituta. Era por isso que as coisas tinham sempre corrido de maneira estranha para ela. O que todos viam nela antes de tudo era a prostituta.
− Entre − disse ela calmamente, apontando a porta.
Ele avançou de novo para ela.
− Para que essa pressa toda? − perguntou ela, sorrindo. − Não vou fugir.
Ele hesitou um pouco e entrou no quarto, tirando a camisa. Ela apanhou o robe rasgado e seguiu-o para o quarto, olhando os pêlos que lhe cobriam o peito e os ombros. Lembrou-se das coisas que Luna lhe ensinara para o número e que sempre excitavam a assistência. Se ela tinha de ser uma prostituta, queria ser a melhor que havia. As palavras lhe vieram aos lábios como se as tivesse dito durante toda a sua vida.
− Como é que você gosta?
Entrou no vestíbulo do hotel e foi sentar-se numa poltrona num canto discreto. Abriu um número da Vogue que levara e começou a folheá-la displicentemente. Quem a visse, julgaria tratar-se de uma jovem bonita, queimada do sol e sadia que ali estava à espera do namorado. E era isso que ela estava mesmo fazendo... Até certo ponto. Alguns minutos passaram. Um boy parou diante dela e disse em voz baixa:
− Quarto 311.
− Quarto 311 − repetiu ela com um sorriso nos lábios.
− Isso. Ele já está esperando.
− Muito obrigada − disse ela, estendendo a mão.
− Não há de quê − respondeu o boy, segurando o dinheiro que ela lhe estava dando e afastando-se imediatamente.
Fechou devagar a revista e correu os olhos pelo vestíbulo enquanto se levantava. Tudo normal. O detetive do hotel estava olhando para o outro lado, os empregados da portaria estavam recebendo hóspedes novos e as outras pessoas que estavam por ali eram todas hóspedes. Satisfeita com essa rápida verificação, encaminhou-se para os elevadores. Não tinha nada com que se preocupar. Todas as providências tinham sido tomadas. Mac, o gerente do edifício, a havia orientado.
− Procure um lugar para operar − dissera ele. − Antes de mais nada, não se esqueça de pagar bem a todos os que puderem ter interesse no caso. Eles então a deixarão em paz e poderão até ajudá-la.
− Parece razoável − dissera ela.
− Não quero é que traga ninguém para cá. Procuro fazer disto um edifício respeitável e não quero encrencas.
− Posso sair daqui, se quiser.
− Espere, tenho uma idéia. O chefe da portaria do Osíris é meu amigo. Vou falar com ele e talvez possa resolver tudo para você.
O Osíris era um dos novos hotéis da praia. O chefe da portaria mostrou-se mais do que disposto a cooperar. Havia sempre procura de mulheres novas. Em pouco mais de um mês, ela ganhara mais dinheiro do que havia visto em toda a sua vida, mas quando acabava de pagar a todos só lhe restava uma parte bem pequena. Fazia em média quatro visitas por dia, como ela dizia. Dividiam-se pelos vários hotéis com que o chefe da portaria tinha contato, a fim de que ela não ficasse muito conhecida. A dez dólares por visita, andava tudo em quarenta dólares. Trinta se consumiam nas gratificações. Apertou o botão e esperou o elevador. Enquanto esperava, tirou outra nota da bolsa. O ascensorista tinha também de ser gratificado. De repente, sentiu uma mão no ombro. Teve um sobressalto e voltou-se para ver Ronald Weasley sorrindo para ela.
− Não tive a intenção de assustá-la, Srta. Granger.
− Sr. Weasley! − exclamou ela.
− Pensei muito no que poderia ter acontecido − disse ele. − Nunca mais apareceu na praia.
− O meu contrato terminou justamente naquele dia. E tenho andado muito ocupada à procura de outra coisa.
− Venha tomar alguma coisa comigo no bar − disse ele. − Precisamos ficar em dia.
A porta do elevador se abriu e o ascensorista olhou-os, dizendo:
− Sobe.
Ela olhou para Ronald e disse:
− Não posso. Estou com hora marcada.
− Isso não pode esperar alguns minutos? Tenho vasculhado a cidade à sua procura.
Ela sorriu intimamente. Era tão fácil encontrá-la. Bastava conhecer as pessoas que sabiam, hospedar-se no hotel e pedir uma jovem de cabelos castanhos.
− Infelizmente, tenho de ver esse homem agora. É a respeito de um contrato.
− Posso esperar − disse Ronald. − Vai demorar muito?
− Muito não. Talvez resolva tudo em meia hora ou uma hora.
− Vou então esperá-la no bar. Será fácil encontrar-me. Estarei tomando um Martini...
− Está bem, Sr. Weasley.
− Você já havia começado a chamar-me de Ronald.
− Está bem, Ronald − disse ela, entrando no elevador. − Procurarei não demorar muito.
A porta se fechou e o ascensorista perguntou curiosamente:
− Amigo ou freguês?
− Quarto andar, abelhudo − disse ela, entregando-lhe a nota de um dólar que trazia na mão.
− Não faz desconto para ninguém, Mary? - perguntou ele, sorrindo.
− Não posso. As despesas operacionais são grandes.
O elevador chegou ao quarto andar, e ele abriu a porta, perguntando:
− E na sua noite de folga?
− Guarde o seu dinheiro, rapaz. Não tenho noite de folga.
Seguiu pelo corredor e foi bater na porta do 311. Uma voz de homem perguntou abafada-mente atrás da porta:
− Quem é?
Ela respondeu com voz apenas suficiente para ser ouvida do outro lado da porta:
− Serviço da portaria.
Olhou para o relógio, entrando no bar. Três quartos de hora. Parou um instante para habituar os olhos à penumbra. Ele estava sentado a uma mesa ao fundo e fez-lhe um aceno quando a viu.
− Conseguiu emprego? − perguntou ele, fazendo-a sentar-se.
− Mais ou menos.
− Outro Martini para mim − disse Ronald ao garçom que chegou à mesa. − E você?
− Cassis e soda.
− Vermute, cassis e soda − repetiu o garçom.
− Vermute, não − disse ela. − Apenas cassis e soda.
Quando o garçom saiu, Ronald comentou:
− Estranha bebida a que pediu, Mary.
− É assim que eu gosto.
− Aliás, você é mesmo uma pequena estranha, sabe?
Ela olhou, pensando que algum dos boys poderia tê-lo esclarecido a esse respeito, mas nada disse.
− Nunca mais apareceu, não telefonou, nem nada. Se eu não a houvesse encontrado por acaso hoje, talvez nunca mais a visse.
− E talvez fosse melhor para você − disse ela, muito séria.
− Que quer dizer com isso?
− Não sirvo para você. Não sou a espécie de pessoa com quem você costuma ter relações.
Ele sorriu. Ela devia ter ouvido falar nele.
− Que espécie de pessoas? − perguntou ele.
− Sociedade e essas coisas. Sabe muito bem o que quero dizer.
− É, só porque é uma moça que trabalha, não devo interessar-me por você?
Ela não respondeu e ele disse sem sorrir:
− Você é que é a verdadeira esnobe, Mary, Não tenho culpa de não precisar trabalhar. Isso podia ter acontecido a você. Ninguém escolhe seus pais.
− Decerto − disse ela, sorrindo. − Podia haver coisas piores.
− Também acho − disse ele pegando na mão dela por cima da mesa.
O garçom trouxe as bebidas.
− Vamos fazer um brinde − disse Weasley pegando o seu Martini.
− Um brinde a quê?
− A nós. E ao nosso jantar desta noite. Tom há muito aguarda a oportunidade de fazer um pato assado para você. Não aceito qualquer recusa − disse ele antes que ela falasse. − Vou levá-la para a praia assim que acabarmos de beber isto.
Ela respirou fundo, sentindo um toque de decepção. Ele não era diferente dos outros. Queria a mesma coisa.
− OK − disse ela.
− E ao fim dos mistérios − disse ele, ainda fazendo o brinde. − De agora em diante, quero vê-la constantemente.
Ela sorriu e ele continuou.
− Tom e eu achamos que você é a moça mais bonita de Miami Beach. Acho que estamos ambos apaixonados por você.
Ela colocou o copo em cima da mesa e disse:
− Não diga isso. Não diga isso nem brincando. Não é preciso.
− Vamos tomar o café e o conhaque no terraço, Tom − disse Ronald, levantando-se da mesa.
Tom puxou a cadeira de Mary para que ela se levantasse.
− Uma delícia tudo, Tom − disse ela, sorrindo. − Nunca em minha vida comi tanto.
− É porque estava com apetite. E a senhora come com gosto, como uma pessoa deve comer.
− Obrigada, Tom. Mas a verdade é que ninguém pode resistir à sua comida.
− Obrigada, senhora − disse ele, com o rosto todo aberto de felicidade.
Ronald abriu a porta, e ela passou para o terraço. O céu estava límpido, a noite fresca, batida pelo vento suave que soprava do mar. Ela respirou fundo e murmurou:
− É como se a gente estivesse no céu.
Ele sorriu, satisfeito.
− Você costuma convidar todo mundo para a sua casa assim, Ronald? − perguntou ela.
− Que quer dizer com isso?
− Costuma convidar as pessoas sem conhecê-las? Afinal de contas, eu poderia ser uma pessoa mal-intencionada e ser para você uma fonte de problemas e aborrecimentos.
− Você é o tipo de problema de que eu gosto − disse ele, rindo. − Pode aborrecer-me à vontade.
− Estou falando a sério, Ronald. Você é um homem rico e bem conhecido. Alguém poderia explorá-lo.
− Não faria mal. Isso me pouparia o trabalho de explorar os outros.
Ela foi até a balaustrada. A lua cintilava lá embaixo na água.
− Já vi que não dá para conversar.
Ele colocou os braços nos ombros de Mary e fê-la voltar-se.
− Continue a falar, menina. Para variar, é ótimo ter alguma pessoa que se preocupe comigo. Em geral, todo mundo quer alguma coisa de mim.
− Você é uma ótima pessoa. Não quero nada de você.
− Sei disso. Se você quisesse, teria voltado.
Ela não disse nada.
− Você é a primeira pessoa há muito tempo que não se importa que eu seja Ronald Weasley ou não.
− Gosto de você porque é decente − disse ela.
Ela acabou de tomar o café e disse:
− Você bebe demais. Por quê?
Ele acabou de tomar o quarto conhaque e disse:
− Bebo porque gosto. Além disso, não tenho nada mais para fazer.
− Nada?
− Nada. Não me meto em negócios porque toda vez que tento fazer alguma coisa tenho prejuízo. Agora, desisti de vez. Tenho tudo de que preciso sem ter de trabalhar. Acha que está errado?
Ela sacudiu a cabeça.
− Mas no fundo acha mesmo, não é? − disse ele, segurando-lhe o braço. − Todo mundo acha. Dizem que é terrível que eu não faça nada enquanto metade do mundo passa fome.
− Pouco me interessa o resto do mundo − disse ela. − Só me preocupo comigo.
− Pois eu não sou assim − disse ele com uma voz incrivelmente triste. − E acho terrível tudo isso.
− Por que não faz então alguma coisa?
− Não me deixam. Meus advogados me controlam e não posso nem dar o meu dinheiro, se quiser.
− Pobre Rony − murmurou ela, batendo-lhe na mão.
-Ei! Gostei de ouvir você me chamar assim, a partir de hoje pode me chamar sempre assim.
- Porque gostou tanto?
- A maioria das pessoas me chama de Ronald. Nunca me dão apelidos e você disse a pura verdade. Pobre Rony.
− Gostaria de ter pena de você.
− Como assim? - perguntou ele, levantando a cabeça.
− Ninguém ainda suportou tão bem a infelicidade.
Ele começou a rir. As gargalhadas ressoavam pelo terraço e desciam até a praia.
− De que é que está rindo, Rony?
Ele conseguiu parar de rir e disse com voz ainda entrecortada:
− Afinal encontrei uma mulher honesta! E logo onde! Em Miami Beach!
− Que há com Miami Beach? Gosto muito daqui.
− Eu também − disse ele, ainda rindo. Foi até a balaustrada, olhou para o mar e disse: − Tenho maiôs lá dentro. Vamos entrar na água agora?
Ela assentiu com a cabeça. Voltaram para o terraço embrulhados em grandes toalhas felpudas.
− Tom! − gritou Ronald. − Café bem quente que estamos gelados!
Ninguém respondeu. Ronald chegou até as portas e gritou:
− Tom! Venha arrumar um pouco de café para a gente!
− Não posso, patrão − respondeu afinal a voz de Tom. − Já estou deitado.
Ele voltou sacudindo a cabeça.
− Nada posso fazer com ele. Já está há muito tempo comigo.
Ela sorriu.
− Deixe que eu faço o café.
− Isso é que não!
− Mas eu quero. Também estou sentindo frio. A água é ótima, mas é preciso a gente estar habituada.
Ele a levou até a cozinha, e ela acendeu o gás. Alguns minutos depois, estavam no terraço tomando o café nas canecas fumegantes.
− Ótimo − disse ele, acabando a sua caneca. Estendeu-se na cadeira, olhou para cima e perguntou: − Já notou como as estrelas são grandes aqui à noite?
− Não − disse ela, tranqüilamente. − Para mim, parecem as mesmas que se vêem em toda parte.
Ele a olhou, surpreso.
− Será que você não tem nem um pouquinho de romantismo dentro dessa alma?
Ela sorriu e disse:
− Já é bem tarde. Tenho de me vestir para ir-me embora.
Ele pegou-a pelo braço e murmurou:
− Mary Granger.
− É o meu nome.
− Mary Granger, não desapareça agora que tornei a encontrá-la.
− Você não sabe o que está dizendo.
Ele abraçou-a. Beijou-a depois com uma boca macia e quente. Era bem diferente dos outros. Ela sentiu um calor correr-lhe pelo corpo e fechou os olhos. Sentiu a mão dele nos seus seios. Encolheu os ombros, e as alças do maiô caíram. Ouviu a exclamação de espanto dele e abriu os olhos. Ele a estava olhando e murmurava:
− Você é linda! Linda!
Ela passou os braços pelo pescoço dele e encostou-lhe a cabeça no seu peito. Mal podia ouvir-lhe a voz.
− Desde o primeiro dia em que a vi sair da água, sabia que você era assim.
Ela desceu as mãos para a cintura dele e ouviu-o dar um suspiro quando ela o tocou.
− Esperei tanto por você − disse ele. − Esperei tanto tempo.
− Cale a boca! − exclamou ela. −Você fala demais!
Dois dias depois, ele a pediu em casamento.