Livro dois Mary
Estava de pé à porta aberta, com os cabelos castanhos cintilando à luz do sol. Hesitou um momento, passou a maleta da mão direita para a esquerda a fim de cumprimentar a mulher que estava um pouco atrás dela.
− Adeus, Sra. Foster − disse ela com voz rouca.
A mulher apertou-lhe a mão com força quase masculina.
− Adeus, Mary. Cuide-se bem.
− Fique descansada, Sra. Foster − disse Mary com um sorriso. − Aprendi muito no ano e meio que passei aqui.
− É o que espero, Mary. Não gostaria de vê-la de novo em dificuldades.
O leve sorriso desapareceu dos lábios de Mary.
− Não verá − disse ela tranqüilamente e encaminhou-se para a porta.
A luz brilhante do sol a ofuscou um pouco, e ela parou no alto da escada para habituar os olhos. Ouviu a porta fechar-se às suas costas com um pesado barulho metálico. Sentiu um assomo de liberdade, tão embriagador quanto um bom vinho. Virou-se e murmurou para a porta fechada:
− Nunca mais passarei por aqui. Aprendi muito.
Em seguida, dirigiu-se para a rua. Estava alta e delgada no casaco ralo que as autoridades lhe haviam dado. O vento do fim de novembro comprimia-lhe o casaco de encontro ao corpo, delineando-lhe os seios firmes, a cintura fina e os quadris suavemente arredondados. Andava com facilidade sobre as pernas ágeis e firmes. O velho sentado na casinha ab lado do portão levantou-se quando a viu aproximar-se. Sorriu para ela.
− Vai voltar para casa, Mione?
− Não tenho mais casa, Vovô. Mudei tudo. Até o nome. Sou Mary agora, lembra-se?
− Lembro-me, sim. Mas não adianta. Para mim você ainda é Mione pode ate mudar o nome mas não mudará a si mesma − disse ele, abrindo o portão.
- Mudarei muita coisa ate ficar satisfeita.
- Para onde é que vai?
− Não sei. Mas a primeira coisa que vou fazer é ir para um hotel e ficar duas horas dentro de uma banheira sem ninguém para me tirar de lá. Depois, vou comprar algumas roupas em que me sinta bem e jogar fora esses trapos. Em seguida, vou comer um grande jantar e ir a um cinema, talvez o Radio City. Depois, tomarei dois sorvetes bem grandes e voltarei para o hotel e dormirei até as duas horas da tarde.
− E depois disso, que é que vai fazer?
− Procurar emprego e começar a trabalhar.
− Faça isso em primeiro lugar, que pode precisar do dinheiro. − Acabou de abrir o portão e disse: − O mundo a espera, Mione. Desejo que ele seja bom para você.
Ela beijou o rosto do velho e disse:
− Adeus, Vovô.
− Adeus, Mione − disse ele, com a voz cheia de tristeza.
− Sabe que você é a única coisa aqui de que levo saudades, Vovô?
− É mesmo? − murmurou ele, rindo. − Aposto que diz isso a todos os rapazes.
− Não, Vovô. Só a você. E vou lhe dar uma coisa que me deram para que se lembre de mim.
− Não, Mione − disse o velho.
− Não? Por quê?
− Tudo o que faço é pelas minhas meninas. Para mim, não preciso de nada. Mas sei que elas gostam que alguém se preocupe com elas, ainda que seja apenas um velho como eu. É muito ruim estar aqui dentro, vendo apenas outras mulheres e com a impressão de que ninguém as quer, nem a família, nem ninguém. Assim, preocupo-me com elas, repreendo-as e elas acham graça e sentem-se bem.
Ela tornou a beijar-lhe o rosto.
− Obrigada, Vovô.
− Seja boa, Mione.
− Vou fazer o possível.
O portão se fechou depois da sua passagem, e ela chegou à rua. Saiu do passeio e, no meio da rua, bateu com os calcanhares no chão. Não houve barulho algum. Era asfalto e não cimento. Passara um ano e meio pisando no cimento e ouvindo a todos os instantes o rumor dos próprios passos. Mas isso tinha acabado, e ela continuou pelo meio da rua. Estava livre, livre de verdade. Uma mão forte segurou-a e outra lhe tomou a maleta. Uma voz conhecida disse então:
− Vai ser atropelada andando assim pelo meio da rua. Já se esqueceu de que existem automóveis?
Ela não teve de levantar os olhos para saber quem era. Esperava-o desde o momento em que saíra do portão. Não largou a maleta e disse com voz pausada, levantando lentamente os olhos:
− Há muitas coisas que se esquecem em um ano e meio, Harry.
− Vim buscá-la para levá-la para minha casa, Mione − disse ele, com um sorriso nervoso.
Ela não respondeu.
− Estou esperando aqui desde que amanheceu o dia.
Ela respirou fundo, sacudiu a cabeça e disse:
− Não! Não!
− Mas, Mione, eu...
Ela podia ver a tristeza que lhe enchia os olhos, mas arrancou a maleta das mãos dele e disse:
− Houve um engano de pessoa, Harry. Tudo está mudado, até o nome.
− Não quero saber o que foi que mudou, Mione. Não quero saber o que aconteceu. Você nunca respondeu às minhas cartas, mas vim para levá-la para minha casa.
Ela subiu para o passeio e olhou para ele.
− Quem foi que lhe pediu?
− Amo-a, Mione. E você disse que me amava.
− Éramos muito crianças naquele tempo e não sabíamos o que estávamos dizendo.
− Crianças! Você é muito mais velha do que era? Dois anos fazem tanta diferença assim?
− Fazem, Harry. Podem equivaler a mil. Cresci muito depressa.
− Eu cresci também, mas ainda tenho o mesmo amor por você. E sempre terei.
− Mas eu não.
− Que foi que fizeram com você, Mione?
Havia uma profunda angústia na voz dele.
− Nada − disse ela, sacudindo tristemente a cabeça. - Tudo veio de mim mesma. Está tudo acabado. Não podemos voltar ao que já passou. Nunca mais seremos crianças.
Começou a afastar-se dele, mas Harry a segurou pelos ombros.
− Por quê, Mione? Que foi que aconteceu?
Ela não respondeu.
− Ao menos em atenção ao que já representamos um para o outro, diga-me o que foi que houve!
Ele nunca mais poderia esquecer a máscara que caiu sobre os olhos dela naquele momento. Era como se de repente ficassem tão profundos que nada se refletia neles, nem mesmo o sol da manhã.
− Diga-me, Mione!
− Tive um filho, Harry. Enquanto estava aí, tive um filho e nem sei se é menino ou menina. Desisti dele, antes que nascesse. Quer ainda saber o que aconteceu, Harry?
Havia no rosto dele uma expressão de incredulidade.
− Quem foi o pai? − perguntou com voz entrecortada. − Malfoy?
− Não podia ser. Ele estava ausente, lembra-se?
O rosto dele era uma máscara de dor.
− Quer dizer que havia outros?
Ela não respondeu.
− Como pôde fazer isso, Mione? − perguntou ele com lágrimas nos olhos. − Você me amava.
− Houve outras coisas também, Harry − disse ela com voz fria e calma. − Havia lá dentro uma moça que gostava de mim. Ensinou-me a fazer coisas para ajudar o tempo a passar. Quer saber que coisas foram essas, Harry? Era divertido.
− Não quero saber − disse ele, com a voz trêmula. − O que está me dizendo é que Malfoy tinha razão e você era apenas...
Não conseguia dizer a palavra e ela disse por ele:
− Uma puta.
− E era, Mione? Você era o que ele dizia?
Ela não respondeu.
− Por que mentiu para mim, Mione? Eu teria feito tudo por você! Por que fez isso comigo?
− Nada disso tem mais importância, Harry. A verdade é aquilo em que se acredita e não o que nos dizem.
Um táxi apareceu na rua, e ela fez sinal ao motorista. O táxi parou, e ela disse:
− Deixe-me ir, Harry. O táxi está esperando.
Ele tirou as mãos dos ombros dela. Ela entrou rapidamente no táxi e fechou a porta. Quando o carro se afastou, ela olhou pelo vidro de trás para Harry. Ele continuava de pé, com os olhos fitos no táxi em que ela saía da sua vida. Sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos. Lutou contra elas até sentir os olhos arderem. A liberdade era tantas coisas que ela já havia até esquecido. Era também gente que se amava e gente que se magoava. "Amo-o, Harry", murmurou consigo mesma.
− Para onde, moça?
A voz do motorista fê-la tirar os olhos do vidro.
− Hotel Astor, na Broadway − disse com voz trêmula.
Quando tornou a olhar pelo vidro, não o viu mais. De repente, não conseguiu conter as lágrimas. Ela não servia mais para ele. Muitas coisas haviam acontecido. Trazia aquela feia mancha e nunca mais se livraria dela. Ele merecia alguém melhor. Uma mulher limpa, nova e resplandecente, que brilhasse como ele. Não alguém como ela, que só poderia privá-lo do que ele merecia.
Olhou para a ficha de registro que o empregado da portaria colocou à frente dela. Hesitou um instante. Três dólares e meio por dia era muito dinheiro, mesmo por um quarto de luxo com banheiro. Seu dinheiro naquele ritmo não iria muito longe. Tinha apenas pouco mais de cem dólares. Mas havia esperado tanto, que aquilo não poderia detê-la. Sonhara com tudo isso desde que entrara para a prisão. Escreveu então.
"Mary Granger... Yorkville, Nova York... 20 de novembro de 1937".
Entregou a ficha ao empregado, que a olhou e, em seguida, tocou uma campainha.
− Está voltando da escola, Srta. Granger? − perguntou ele, sorrindo.
Ela acenou com a cabeça. Ele nunca saberia como estava certo. Um boy pegou a maleta e o empregado entregou-lhe uma chapa, dizendo:
− Leve a Srta. Granger para o quarto 1204.
Esperou que o boy saísse e jogou-se na cama. Afundou-se, deliciada, nos colchões macios. Era como se estivesse repousando numa nuvem. Aquilo, sim, era uma cama, uma cama de verdade. Não aquelas imitações que havia lá. Depois de rolar muito tempo na cama, abriu a porta do banheiro. Tudo cintilava, e ela olhou admirada para a banheira, um modelo novo embutido no chão. Passou a mão por dentro e sentiu que era lisa, muito diferente das velhas banheiras de ferro. Correu então os olhos pelo banheiro. Havia toalhas felpudas no cabide. Pegou uma delas. Era leve, macia e cheirosa. Muito diferente das toalhas de algodão. Aquilo é que era vida.
Olhou para o relógio. Quase meio-dia. Tinha de fazer ainda algumas compras antes do banho demorado e preguiçoso com que tanto havia sonhado. Quase com relutância, colocou a toalha no lugar e saiu do banheiro. Abriu a bolsa e tornou a contar o dinheiro. Cento e dezoito dólares. Era o que restara do dinheiro que lhe haviam pago pelo seu trabalho na lavanderia da prisão. Sacudiu a cabeça um instante como se quisesse livrar-se do cheiro horrível de sabão grosso e água sanitária que havia pairado tanto tempo sobre ela. Com decisão, fechou a bolsa e saiu do quarto.
Olhou para a Broadway da entrada do hotel. Era hora do almoço e as ruas estavam ainda mais cheias do que de costume. Todo mundo estava indo para algum lugar. As pessoas tinham rostos preocupados e sérios e em momento algum olhavam à volta. Coitadas! Acreditavam em tantas coisas em que ela nunca acreditaria! O Paramount estava levando um filme de Bing Crosby no qual ele trabalhava com Kitty Carlisle. O Rialto exibia dois filmes de terror e o New Yorker, dois westerns. O Nedick's, na esquina, do outro lado da rua, estava cheio de gente que formava fila tríplice em torno do balcão. O restaurante chinês entre a 42nü Street e a 43rü Street ainda anunciava um almoço de trinta e cinco cents. A Cafeteria Hectors, defronte do hotel, ainda proclamava possuir a melhor confeitaria da cidade e o remoto rumor da música no dancing da 45th Street misturava-se com o barulho dissonante do tráfego.
Com um sentimento de satisfação, saiu pela rua para fazer compras. Havia algumas casas onde ela sabia que podia comprar roupas por preço muito em conta. Atravessou a rua cantarolando. Não dissera a verdade a Vovô naquela manhã. Sentia-se em casa. Estirou-se preguiçosamente na banheira, e um langor delicioso a invadiu. A água estava coberta de bolhas que cintilavam e estouravam, e o perfume se espalhava pelo ar. Correu as mãos pelo corpo. Podia sentir ainda o ardor do sabão barato que usavam na prisão e que nunca lhe tinha dado qualquer sensação de limpeza.
Parecia-lhe sentir a carne amaciar dentro da água. Pegou uma toalha no cabide ao lado da banheira e enrolou-a para formar um pequeno travesseiro. Colocou-a na borda da banheira e pousou a cabeça. Isso impediria que os cabelos se molhassem e lhe permitiria um descanso mais completo. Fechou os olhos. Era tão bom. Tão bom. Sentia-se aquecida, confortável, segura. Ninguém a incomodaria. Ninguém a chamaria. Ninguém lhe daria ordens. Começou a dar uns leves cochilos. O tempo ali não era como o tempo na prisão.
Lembrou-se de repente do nascimento da criança. As dores tinham sido intensas durante quase toda a manhã. Afinal, a enfermeira a tinha levado para a enfermaria. O médico a examinara rapidamente e dissera à enfermeira: "Prepare-a que não vai demorar". Ela se esticara arfante numa cama branca e dura. A enfermeira começou a prepará-la para o parto. Entre as ondas de dor, teve a consciência de um choque quando viu a enfermeira raspar-lhe o púbis. Por fim, a enfermeira cobriu-a com um lençol branco e saiu do quarto.
Ela fechara os olhos, respirando pesadamente. Estava contente de que aquilo já estivesse para acabar. Era muito penoso carregar tanto tempo dentro de si uma marca de vergonha e violação. Ouviu um rumor ao lado da cama e voltou-se.A diretora estava ali de pé, os cabelos grisalhos acima dos óculos. Tinha uma folha de papel na mão.
− Como está se sentindo, Mary?
− Mais ou menos, Sra. Foster.
− Ainda não me disse nada sobre a criança, Mary.
Ela conseguiu sorrir fracamente. Nada havia para dizer. Dentro em pouco estaria no mundo. Ficou calada.
− Quero saber quem é o pai, Mary. Ele terá de pagar a manutenção da criança.
Sentiu nesse momento uma dor fortíssima e teve de fechar os olhos. Um momento depois, disse com voz trêmula:
− Isso não tem importância. Nunca teve.
A Sra. Foster encolheu os ombros e disse:
− Está bem, Mary. De acordo com este papel que vai assinar, você desistirá de todos os direitos sobre a criança para que ela possa ser adotada.
Mary fez um sinal de assentimento.
− Sabe o que significa isso? Você talvez nunca mais veja a criança nem saiba com quem ela está. Será como se nunca tivesse nascido, pelo menos em relação a você.
Ela ficou em silêncio.
− Está ouvindo, Mary?
− Estou....
− Você nunca saberá nada sobre seu filho! − disse a mulher implacavelmente.
A dor e a raiva se misturaram na voz de Mary.
− Ouvi sim! Ouvi desde a primeira vez! E que é que acha que eu posso fazer? Posso tomar conta de meu filho aqui? A senhora deixaria?
− Se soubéssemos o nome do pai, ele poderia contribuir para criá-lo. Ele ficaria então numa creche, até que você pudesse ir buscá-lo.
− E quando poderá ser isso? − perguntou Mary com voz trêmula.
− Quando provar que pode mantê-lo moral e financeiramente.
− Quem é que decide isso?
− O juiz.
− Nesse caso, só poderei ter meu filho quando ele concordar. Se não concordar, ele ficará na creche. Certo?
− Certo.
− Mas, do contrário, ele será adotado e terá imediatamente um lar, não é?
− E, sim.
− Pois é assim que eu quero.
− Mas...
A dor voltou, dominando-a. Quando passou, ela estava quase sentada na cama.
− Não entende que é assim que eu quero? − exclamou. − Não compreende que é a única oportunidade que posso dar ao inocente?
A mulher deu-lhe as costas e saiu do quarto. Mary só voltou a vê-la três horas depois. Estava tudo terminado. A Sra. Foster aproximou-se da cama e olhou-a. Mary estava muito pálida e seu lábio superior estava coberto de gotículas de suor. Os olhos estavam cerrados.
− Mary! − sussurrou a Sra. Foster.
Ela não se moveu.
− Mary! − repetiu a mulher. − Mione!
Mary abriu devagar os olhos, e a mulher percebeu que ela não estivera dormindo.
− Você está bem, Mione − disse a Sra. Foster. − E a criança é...
− Não me diga! − exclamou ela ferozmente. − Não diga porque eu não quero saber!
− Mas... − murmurou a mulher, hesitando.
Mary virou a cabeça para o travesseiro.
− Não diga mais nada. Como é, já é duro demais.
A Sra. Foster calou-se. Sentia-se unida a ela pela servidão comum do sexo. Apertou a mão da moça por baixo da colcha fina. Mary virou o rosto para a mulher e esta, olhando-lhe para as pupilas profundas e negras, teve um choque como se estivesse contemplando os abismos insondáveis do tempo. Sentiu a leve pressão dos dedos da moça, que começou a falar.
− Doeu... − murmurou Mary, com um eco de dor na voz. − Doeu muito para chegar.
− Eu sei, minha filha − disse a mulher, delicadamente. − Sempre dói.
− Sabe mesmo, Sra. Foster? Não doeu da mesma forma que doeu quando o pai a deixou lá dentro quase me despedaçando, mas como dói ganhar uma coisa com que se sabe que não se pode ficar.
A mulher de repente compreendeu. Lembrou-se do que Mary tinha feito para ir para ali. Os olhos se encheram de compaixão por trás dos óculos. Podia perceber toda a dor que geravam as sombras nos olhos da pobrezinha. Olharam-se por um momento, e Mary disse suavemente:
− Deixe as coisas como estão.
− Está bem, Mary.
As lágrimas encheram em silêncio os olhos da moça e começaram a rolar pelas faces. Não havia o menor rumor de pranto, apenas as lágrimas que caíam inexoravelmente.
O detetive era um homem magro e cerimonioso. Segurou a cadeira para ela se sentar diante de sua mesa. Estudou-a por um momento em silêncio antes de dar a volta à mesa e sentar-se de novo em sua cadeira. Chegara à conclusão de que ela nascera para viver em dificuldades. Era a impressão que dava. Não era pelo seu aspecto, pois não havia a menor rudeza nela. Até os cabelos muito castanho, que desvalorizavam tantas mulheres em virtude da sua gritante artificialidade, assentavam perfeitamente nela e deviam ser naturais. Mas o rosto, o corpo, o andar tudo mostrava que ali estava uma mulher feita para os homens e, portanto, para os problemas.
Olhou o cartão e leu o nome: Mary Granger. Arregalou os olhos. Já estava compreendendo. Perguntou:
− Onde está hospedada, Srta. Granger?
− No Hotel Astor − disse ela, tirando um cigarro.
Ele mais que depressa riscou um fósforo para acendê-lo. Julgou ter visto nesse momento a sombra de um sorriso. Mas devia estar enganado. Nenhuma mulher podia ser tão segura de si na sua primeira visita à polícia. Devia ter sido um reflexo de luz.
− É um hotel muito caro.
− Prometi a mim mesma tudo do bom e do melhor − disse ela, como se isso explicasse tudo.
− Já tem emprego?
− Ainda não. Saí há dois dias apenas. Não procurei ainda.
− Não acha que já devia ter começado? Os empregos não estão tão fáceis assim.
− Vou procurar.
− Não lhe deve restar muito dinheiro − continuou ele. − Pelo que vejo, comprou roupas novas.
Um tom de desafio apareceu-lhe na voz.
− O dinheiro não é meu? Há alguma coisa que me proíba de gastar o dinheiro como eu bem entender?
− Claro que não, Srta. Granger. Queremos apenas ter certeza de que não se verá em dificuldades. E há sempre dificuldades para quem está sem dinheiro.
− Ainda não estou sem dinheiro − disse ela prontamente.
Ele não disse nada. Ficou a observá-la calmamente enquanto acendia um cigarro. Ela não deveria ter dificuldade em conseguir dinheiro. O problema consistiria talvez no excesso de homens dispostos a dar-lhe dinheiro. Esperou que ela falasse. A única coisa que elas não podiam suportar era o tratamento do silêncio. Mas aquela era diferente. Deixou-se ficar tranqüilamente calada, com os olhos fitos nele. Ao fim de algum tempo, foi ele quem começou a sentir-se constrangido. Era como se os papéis se invertessem.
− Conhece os regulamentos, Srta. Granger − disse ele, afinal. − Foram-lhe explicados antes de sua saída.
Ela assentiu com a cabeça, mas ele repetiu tudo assim mesmo.
− Deve apresentar-se aqui todos os meses. Não pode ter ligação nem convívio com qualquer pessoa que tenha antecedentes criminais.
Deverá informar-me de qualquer mudança de endereço. Deverá comunicar-me onde está trabalhando logo que conseguir emprego. Não poderá sair do Estado sem nossa autorização. Não poderá possuir armas de fogo nem quaisquer outras armas perigosas...
— Parou surpreso, ao ver que ela estava sorrindo. − Qual é a graça, Srta. Granger?
Ela se levantou, ainda com o sorriso nos lábios, e deixou o casaco cair-lhe dos ombros em cima da cadeira. Parecia que se havia despido.
− Acha que eu preciso de armas?
Ele sentiu o rosto vermelho. As leis pareciam as vezes tremendamente insensatas. Nada havia que se pudesse fazer em relação às armas naturais.
− Estou apenas lembrando-lhe as determinações que deve cumprir em seu benefício, Srta. Granger.
− Obrigada, tenente − disse ela, sentando-se de novo.
− Que espécie de emprego está procurando, Srta. Granger? Talvez possamos ajudá-la.
− Sabe de algum que preste?
− Garçonete ou vendedora de uma grande loja.
− Quanto é que pagam?
− Doze a quinze dólares por semana.
− Muito obrigada − disse ela, secamente.
− Por quê?
− Isso não pagaria nem o hotel. Preciso de um emprego que me dê muito dinheiro.
− Nem todo mundo é obrigado a viver no Hotel Astor − disse ele ironicamente.
− Mas gosto de morar lá − disse ela, ainda sorrindo. − Já vivi demais em pardieiros. Isso acabou.
− Onde vai conseguir o dinheiro que deseja?
Ela não respondeu.
− Prostituição? − perguntou com voz fria e impessoal.
− Isso dá bom dinheiro, tenente?
− Pode dar, mas também pode trazer complicações sérias de que não faz nem idéia. A prisão de mulheres é uma coisa muito diferente da Casa Correcional. Verá por si mesma.
− Não tenha tanta certeza assim, tenente. Não fiz nada... Ainda.
− A senhorita é que deve ter certeza de não fazer coisa alguma de que se arrependa. − Empurrou a ficha dela por cima da mesa e
ofereceu-lhe a caneta: − Assine.
Ela o assinou olhou a assinatura e disse:
− OK. Pode ir. E não se esqueça do que eu lhe disse.
Ela levantou-se, vestiu o casaco e encaminhou-se para a porta. Depois que a abriu, voltou-se para ele, com um sorriso zombeteiro nos lábios, e disse:
− Obrigada pelo estímulo que me deu, tenente.
− Para seu governo, não sou tenente. E basta manter-se em contato conosco.
− Está bem, tenente. Mas alguma tarde, quando as coisas estiverem muito aborrecidas aqui e quiser matar o tempo, apareça. Poderemos continuar a nossa conversa.
Ele quis falar, mas não soube o que dizer. O rosto começou a ficar vermelho.
− Sabe onde é que eu moro, tenente. Quarto 1204. Peça na portaria que o façam subir.
Ela saiu antes que ele pudesse dar-lhe uma resposta. O detetive ficou durante alguns momentos pensativo. Depois, tomou algumas notas a lápis na ficha dela e pegou o telefone.
− Quero falar com Severo Snape − disse ele à pessoa que atendeu.
Pouco depois, tornou a falar:
− Snape? É Egan, da delegacia da 54th Street. A garota por quem você perguntou acaba de apresentar-se... Sim... Só que agora se chama Mary e não Mione... Que mulher! E como é venenosa! Parece não ter medo de coisa alguma peste mundo de Deus... Obrigado,
Snape... Foi um prazer ajudá-lo.