Parte 1. Tela
“Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto”
Acrilic on Canvas – Legião Urbana
Lembro perfeitamente de tia Cassiopéia amarrando a fita de seda do meu vestido e me dizendo que iríamos dar um passeio naquele dia, a primeira lembrança que posso localizar com exatidão no tempo. Tia Cassiopéia tinha a delicadeza de uma pétala de rosa. Sempre tão comedida, tão suave. Era já uma senhora, mas permanecia muito bonita, como se os anos simplesmente não pudessem mudá-la. Era irmã mais nova de meu avô e se dizia que tivera muitos pretendentes quando moça, mas Pollux Black nunca os julgou bons o suficiente, puros de sangue o suficiente, ricos o suficiente. Ela aceitou o veredicto do irmão e permaneceu em casa, ajudando a criar seus filhos e, mais tarde, seus netos. Chovia quando ela me levou pela mão sob o guarda-chuva, meus pés espalhando respingos de água enquanto caminhava pela calçada molhada. Eu não entendia o que estava acontecendo, havia muito movimento em casa, meu pai andava de um lado para o outro amassando um charuto não aceso entre os dentes. Ninguém me explicou nada porque a verdade era que eu não deveria saber de nada.
Quando voltamos, foi tia Cassiopéia quem segurou meu rosto entre seus dedos compridos e disse que minha irmãzinha havia chegado. Era o dia 16 de abril de 1955. Aquelas mãos minúsculas envolveram meu dedo com força, me dizendo que a partir daquele instante eu nunca mais poderia fugir delas.
“Sua irmãzinha...” Irmãzinha? Como eu poderia amá-la? Mal podia olhá-la sem me sentir enjoada. Não suportava o cheiro de leite que exalava de seus ralos cabelos negros. Quando me aproximava, seu primeiro ato era tirar as mãos da boca e tentar me tocar, ao que me esgueirava fazendo caretas. E era repreendida por minha mãe. “Não seja má com a sua irmãzinha, Bellatrix”. Não era má, respondia.
De repente fiquei velha demais para ser mimada. Minha mãe mal me tocava, sempre tão preocupada em manter aquela coisinha chorosa limpa, alimentada, sorridente... Seu sorriso conquistava a todos e em pouco tempo até mesmo tia Cassiopéia já dizia que eu tinha idade suficiente para amarrar as fitas de meus vestidos e pentear os cabelos sozinha. A única pessoa em casa que parecia imune aos sorrisos de Andrômeda era meu pai, que se referia a ela como “aquela menina”. E também ficava incomodado quando assistia aos cuidados de minha mãe com o bebê.
Amá-la? Não demorou muito para que eu passasse a odiá-la, embora fosse muito jovem ainda para compreender isso. Eu a odiava, odiava aquele rosto rosado e rechonchudo me buscando, odiava seus sorrisos barulhentos que mostravam um único e pequeno dente que começava a despontar, odiava a os orbes negros acompanhando-me enquanto eu andava perto dela, odiava aquelas mãos úmidas estendidas para mim, me perseguindo sempre como uma sombra.
Andrômeda não tinha mais que alguns meses de vida quando foi desmamada. Lembro-me de ter ficado feliz com a idéia, sabendo que aquilo faria com que minha mãe pudesse afastá-la um pouco de si e talvez então fosse capaz de perceber que eu ainda existia. Só não sabia que a partir dali seria eu quem teria que ficar perto de Andrômeda. Mal pude acreditar quando vi seu berço no meu quarto. “Cuide da sua irmãzinha, Bellatrix”. Eu a teria sufocado com um travesseiro quando ela chorava estridentemente no meio da noite se não achasse que meus pais pouco se importariam com isso. Ninguém vinha quando Andrômeda chorava. Então eu escalava as grades do berço e, ignorando corajosamente meu desagrado em ficar próxima a ela, deixava que segurasse minha mão entre seus dedos úmidos até que seus gemidos se transformassem em soluços e, então, ela adormecesse.
Meus pais queriam um filho, explicou-me tia Cassiopéia. Não demorou muito para que minha mãe ficasse grávida novamente, grávida e doente, demandando todos os cuidados de minha tia, e eu e minha irmã nos tornamos a única companhia uma da outra. Eu tinha então quase cinco anos de idade, mas ela era ainda um bebê que começava a balbuciar sílabas desconexas. Hoje sei que Andrômeda recebeu de meus pais muito menos que eu havia recebido.
“Segure a mão da sua irmãzinha, Bellatrix”. Seus passos falhos no piso de madeira escura, os pés enfiados em pequenos sapatos brancos, pisando na renda da saia do vestido. Suas pequenas pernas tremiam com o esforço de se equilibrar. Suas mãos rosadas agarrando as minhas, novamente com força. Segura de estar sendo conduzida por mim, ela avançava um pé após o outro, completamente em minhas mãos, acreditando, como só ela poderia acreditar, que eu nunca a deixaria cair. Ela sempre foi confiante assim. “Não a deixe cair, Bellatrix”. Meus dedos deslizaram sob as mãos rosadas e ela se inclinou para frente tentando recuperar o contato, mas eu estava me afastando. Um som fraco saiu de sua garganta quando o piso brilhante se encheu de sangue. Andrômeda não chorou, apenas me olhou com aqueles olhos nublados, seu pequeno queixo manchando de vermelho vivo o colarinho do vestido enquanto os dedos novamente se erguiam na minha direção.
“Não faça sua irmãzinha chorar”. Ela esfregava os olhos com os punhos fechados, espalhando o sangue pelo rosto. Eu me abaixei junto a ela e a ergui colocando as mãos sob seus braços, mordendo os lábios nervosamente. Se alguém visse aquilo, sabia que seria repreendida. “Você deveria estar cuidando dela!”, eu ouvia a voz de tia Cassiopéia ecoando em minha mente. Eu sempre deveria estar cuidando dela, mesmo quando era jovem demais para cuidar de mim mesma. Andrômeda choramingou e agarrou minha saia, deixando marcas vermelhas de seus pequenos dedos no tecido claro. Olhei desesperada para a porta, esperando pela chegada de alguém que tivesse ouvido seus gemidos. Tentei empurrá-la para longe, mas ela continuava voltando, determinada.
“Be-bella”, ela murmurou, em sua dicção quase incompreensível, o rosto manchado de lágrimas e sangue. Eu sentei no chão e a trouxe para meus braços, torcendo para que aquilo a fizesse parar de chorar. Ela se aninhou junto ao meu peito e passou os braços fofos por meus ombros, secando as lágrimas na manga do meu vestido. Suspirava baixinho e ainda soluçava, mas o choro desaparecera completamente, e parecia aos poucos submergir numa aura de serenidade. Puxei um pedaço da saia e comecei a limpar seu rosto, sentindo seu corpo relaxar. Eu era quase pequena demais para segurá-la.
Seus pequenos dedos tocaram meus lábios, os olhinhos entreabertos pregados nos meus. Um murmúrio escapou de seus lábios e a mandei ficar quieta, ao que ela pareceu entender, pois mesmo seus soluços cessaram e ela adormeceu em meus braços.
Não me lembro o que foi feito quando perceberam o corte em seu queixo. Talvez nada tenha acontecido, já que ninguém ligava muito para o destino daquela criança quando pairava a esperança de que minha mãe estivesse enfim esperando o desejado herdeiro dos Black. Mas me lembro ainda hoje das palavras que saíram de meus lábios, baixinho, no ritmo suave de uma canção de ninar, enquanto balançava o corpo para frente e para trás com Andrômeda em meus braços, segurando sua mão junto ao meu rosto, pela primeira vez me sentindo bem com o calor que emanava dela. “Take your hand, and walk away... lonely day...”
Minha irmã. A criança que adormeceu em meus braços quando eu mal podia erguê-la. Eu a odiava tanto. E eu a amei naquele dia porque, vendo o vermelho penetrar lentamente as fibras do tecido do meu vestido, descobri que éramos iguais. Eu fui capaz de amá-la como nunca conseguiria amar mais ninguém, pelo simples fato de partilharmos a mesma tragédia. Sempre vou sentir saudades do tempo em que podia gostar dela daquela forma. Mesmo que hoje saiba que a verdade é que nunca me permiti realmente deixar de odiá-la.
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As cerdas finas do pincel correram pelo tecido grosseiro espalhando a tinta branca. Peguei o tubo de tinta entre os dedos e o espremi sobre a palheta de madeira, liberando mais tinta. Depois mexi um pouco a tinta com o pincel e voltei a levá-la à tela, o pincel deslizando delicadamente, tentando manter a camada sempre com a mesma espessura. Enfim tinha coberto toda a tela de branco e comecei a espalhar outros tons de cores na palheta, parando às vezes para observar a imagem à minha frente.
“Natureza morta”, explicara a professora de pintura na primeira aula. A primeira lição para que aprendesse as noções de perspectiva e profundidade. Meus olhos fitaram a cesta de frutas sobre a mesinha de chá da sala de música. A professora arrumou os óculos e começou a dissertar sobre a iluminação daquela sala de música ser mais adequada à pintura que a do quarto que eu dividia com Andrômeda, onde usualmente eram minhas aulas. Três amplas janelas cobriam uma parede e a luz natural transpassava as cortinas finas, enchendo a sala de uma claridade lírica. Os instrumentos dourados atrás das portas envidraçadas de um armário refulgiam. Uma das cortinas se balançara com o vento até cobrir o piano de calda.
Meus passos fizeram barulhos leves no chão de madeira quando me aproximei do cavalete que sustentava a tela, segurando a palheta da maneira como me fora ensinado. Tentava manter a mão firme enquanto fazia o esboço da pintura com carvão, desviando o olhar sempre para o modelo sobre a mesa a fim de relembrar detalhes. Sempre fora hábil com desenho, motivo pelo qual todos acharam uma boa idéia quando pedi para ter aulas de pintura.
Tinha então nove anos e usava um avental branco sobre o vestido azul para não me sujar com a tinta. Não que precisasse daquilo. Tia Cassiopéia costumava dizer que eu só podia usar magia para me manter sempre tão limpa. Talvez porque Andrômeda não pudesse dar dois passos sem manchar a saia do vestido, fosse caindo (ela tinha propensão a se distrair e tropeçar em seus próprios pés), fosse esfregando nela os dedos sujos. E Andrômeda sempre tinha os dedos sujos de alguma coisa.
Olhei para o armário de instrumentos. A luz incidia no vidro, de modo que ele refletia toda a sala de música, formando a imagem semi-transparente de uma menina magra diante de um cavalete, correndo o pincel pela tela. Agora que finalmente tinha começado, estava achando difícil escolher as cores. Não gostava de falhar, mesmo que a tutora tivesse dito que aquilo era apenas um exercício. Reforçava as sombras, mas não via nenhum volume. Iluminava as superfícies das frutas, mas elas pareciam de algum modo mais inanimadas do que deveriam.
Voltei a olhar para o armário. Meu rosto formava uma careta de frustração. E vi, atrás de mim, parado junto à porta, um vulto. Não precisava me virar para saber quem era. Podia adivinhar a exata expressão curiosa que Andrômeda lançava da porta, os cabelos negros desarrumados, caindo sobre os olhos, o rosto vermelho de correr pela casa e a saia do vestido verde tomada por marcas de dedos. A Andrômeda do reflexo inclinou a cabeça para mim, seus olhos estranhamente transparentes. Uma de suas mãos deixou a moldura da porta e se projetou para mim, e fechei os olhos, suspirando com impaciência.
Voltei minha atenção para as tintas, mas a imagem da mão estendida de Andrômeda se recusava a deixar minhas retinas, se entrelaçando entre meus pensamentos como uma lacuna na minha concentração. A perseguição. Nunca poderia estar sozinha em lugar algum enquanto ela estivesse viva. Seria sempre aquela mão rosada esticada para mim. Os traços do pincel se tornaram mais grossos. Resmunguei baixinho, cobrindo o erro com uma camada de tinta branca. Recomeçar. Mas então a dificuldade de distinguir as cores transformou-se em total incapacidade. A maçã na mesa poderia ser tanto azul quanto vermelha e eu não veria qualquer diferença. O piano poderia ser preto ou branco. O próprio ar parecia ter uma cor indefinida, que eu nunca conseguiria formar com os tubos de tinta.
Concentre-se, Bellatrix, concentre-se. Inclinei-me para a tela, segurando o cavalete. Deixei o pincel cair, num movimento lento, lânguido, deslizando por entre meus dedos. Meus olhos o seguiram enquanto escorregava pelo piso brilhante, o som leve da madeira tomando a sala, até finalmente parar sob a sombra que a porta lançava na sala. Os olhos de Andrômeda se fixaram no objeto, maravilhados. Ela fez menção de pegá-lo, mas parou o gesto no meio, ficando estática. Seus olhos se ergueram para mim, dessa vez não transparentes, mas novamente enevoados, como se não vissem o mesmo mundo que os demais mortais ao seu redor.
“Saia, está me atrapalhando”, resmunguei, as palavras tremendo um pouco na minha boca. Não sabia por que a simples presença dela me irritava tanto. Por que aqueles olhos me desconsertavam de tal maneira. Por que aquelas mãos nunca deixavam de me buscar apesar de tudo. Seus olhos abaixaram novamente para o pincel e voltaram para mim, e apenas sacudi a cabeça, esperando que, se ela tivesse pincel para brincar, não voltasse a importunar minha aula naquele dia.
Andrômeda sorriu. Embora descrever aquilo que ela fazia como um sorriso hoje me pareça uma grande injustiça. Minha mãe e tia Cassiopéia sorriam, estivessem felizes ou profundamente entristecidas. Narcissa sorria o tempo todo e quase todos a acompanhavam por simples inércia, que os impelia a imitar um gesto tão encantador. Andrômeda não sorria, porque o que ela fazia na verdade era iluminar-se. A pequena mudança na expressão facial fazia com que ela inteira brilhasse, quase como os instrumentos dourados atrás das portas transparentes do armário.
Sentia-me pior ainda quando ela fazia aquilo.
Ela se abaixou no chão, arrastando os joelhos até o pincel. Observou-o cuidadosamente, com a curiosidade própria das crianças da sua idade. Roçou os dedos nas cerdas sujas de tinta. Virei-me de volta para o quadro, decidida a me concentrar. Peguei mais uma vez o grafite para refazer a parte apagada do esboço, enquanto ouvia os passos frenéticos de seus sapatos se afastando pelo corredor.
A luz da sala de música se atenuou, como se Andrômeda tivesse levado consigo sua fonte. As cortinas claras sacudiram com mais força e senti um pouco de frio. Olhei mais uma vez para a porta, esperando encontrar minha irmã ali. Era como se ela ainda estivesse presente, mesmo que apenas como uma suspensão, uma atmosfera. Como os minúsculos grãos de poeira que o vento súbito erguia da superfície do piano. Olhei para a tela, percebendo que meus dedos tinham deslizado sozinhos enquanto estava distraída, traçando um arco escuro que cortava o esboço da bandeja de frutas. O sorriso de Andrômeda me assombrava da tela riscada.
Espremi o tubo de tinta branca e a espalhei em grande quantidade sobre a tela, cobrindo o emaranhado de traços de carvão e a tinta ainda úmida. Apoiei a cabeça na mão, respirando fundo antes de recomeçar. A tutora falava alguma coisa sobre uma tempestade e fechava as janelas. A cada som das vidraças correndo, as sombras na sala aumentavam. Eu permanecia imóvel, o pincel há poucos centímetros da tela branca. Ela acendeu os abajures e o lustre sobre nossas cabeças, enchendo o cômodo de uma doentia luz amarela.
“Está muito bom, Bellatrix”, a professora elogiou, horas depois, com um sorriso plástico no rosto, tão artificial quanto as frutas na minha pintura. “Não se preocupe, vai ter muito tempo para melhorar”, ela juntava seus livros na maleta de couro marrom. Os livros que lera para mim por vários dias antes de enfim colocar um pincel em minhas mãos.
Minha tela permaneceu por quatro dias na sala de música, ainda no cavalete, para que a tinta secasse. Eu passava diante dela, examinando-lhe os detalhes, sentindo-me muito mal para chegar a uma conclusão sobre o que havia de tão errado nela. Andrômeda gostava das cores. Foi a primeira a tocá-la, ainda úmida, manchando os dedos de tinta vermelha. Fiquei brava por isso e a proibi de se aproximar novamente. Então, nos vários minutos em que eu passava admirando minha própria mediocridade, ela permanecia três passos atrás de mim, os dedos rosados na boca , os pequenos olhos presos na pintura. Eu me desviava discretamente do quadro para olhar para minha irmã, tentando decifrar o que ela via. Mas me deparava apenas com o reflexo do quadro em seus olhos enevoados. E ali, dentro daqueles orbes escuros, minhas pinceladas pareciam finalmente adquirir alguma vida, tornando-se tão brilhantes quanto os sorrisos de Andrômeda.
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As aulas de pintura continuaram. Porque eu nunca me permiti ser menos que perfeita em nada que me propusesse a fazer. E, quanto mais mergulhava no mundo da pintura, mais obcecada me tornava. Descobri que a beleza da pintura não era apenas a beleza da estética. A estética pouco valia quando era oca de uma idéia, de um sentimento. E eu pensava que talvez meu problema fosse exatamente esse – ser oca de sentimentos e, por isso, só conseguir trazer para a tela a superfície daquilo que pintava.
Minha tutora, obviamente, dizia que eu estava indo “esplendidamente bem”, com um sorriso acompanhando a expressão hiperbólica. Ela provavelmente não sabia que a pintura era muito mais que simples estética.
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N.A.: Porque eu adoro criancinhas psicóticas... |