Harry e Mione...
Severo Snape olhou para Mione, que estava em pé diante de sua mesa.
− Já resolvi tudo − disse ele. − A Assistência Social concordou em que você curse a escola à tarde e continue a trabalhar aqui.
− Muito obrigada. O senhor é sempre tão gentil comigo.
− Talvez porque goste de você − disse ele, sorrindo.
Ela não falou.
− Você é assídua e estável, Mione. Nunca falta e nunca me cria problema como as outras. Talvez seja por isso.
− Ainda não sei como possa retribuir-lhe.
Ele ia dizer alguma coisa, mas nesse momento o telefone tocou e ele atendeu. Ouviu durante alguns instantes, olhando para ela. Ela já ia sair, mas ele com um gesto a fez parar e disse ao telefone:
− Espere um instante.
Cobriu o fone com a mão e disse:
− Aqui está uma oportunidade para você me retribuir. Estou falando com um camarada muito importante. Vai dar uma festa esta noite, mas falta-lhe uma dama. Você ganhará cinco dólares se quiser ir.
− Não sei, Sr. Snape. Acho que ficarei deslocada lá...
− Deixe disso. O homem é legal. Não tomará liberdades com você. Basta você dançar um pouco com ele e mostrar cara alegre. Tudo estará terminado às três e meia.
− Tem certeza?
− Claro que tenho.
− Mas eu não tenho roupa. É melhor não ir.
− Pode levar o seu vestido. Amanhã, você o trará. Com isso, você estará me fazendo um favor, um grande favor.
Mione não via como poderia recusar isso a quem tinha sido tão bom com ela.
− Está bem, Sr. Snape.
− Ótimo! Vá buscar sua bolsa e volte aqui que vou dar-lhe o endereço.
Esperou que ela saísse e fechasse a porta para falar de novo ao telefone.
− Vou lhe mandar uma novata, Jack. Vá com jeito, portanto não quero que ela se assuste, está ouvindo?
Ficou em silêncio, ouvindo a pessoa que estava do outro lado do fio. Depois, disse:
− Pois olhe, é a coisa mais linda que você já viu. Mas não se engane. Ela é menor e haverá encrencas se houver alguma coisa errada. Seja correto e tenha um pouco de paciência. No fim, vai dar certo.
Desligou no momento em que Mione voltava. Saltou do táxi à porta do grande edifício de apartamentos. O porteiro abriu a porta do carro enquanto ela pagava ao motorista.
− Onde é o apartamento do Sr. Ostere?
− Décimo sétimo andar. Apartamento D. O ascensorista envolveu-a no mesmo olhar que já lhe dirigira o porteiro.
− À esquerda − disse ele, quando o elevador parou no décimo sétimo.
Tocou a campainha do apartamento e a porta se abriu. Um homem de casaca olhou-a.
− Sr. Ostere. Sou Hermione Granger.
O rosto do homem estava muito sério.
− Entre − disse cerimonioso. − Vou dizer ao Sr. Ostere que está aqui.
Esperou no vestíbulo. O homem saiu e voltou daí a um momento em companhia de outro. Este era mais baixo e vestia um terno escuro. Foi ao encontro dela de mão estendida.
− Sou Jack Ostere − disse ele, sorrindo.
− Hermione Granger − disse ela, apertando-lhe a mão.
Ele recuou um pouco para olhá-la e disse teatralmente:
− Meu Deus! Snape teve razão uma vez na vida! Você é mesmo linda!
− Obrigada, Sr. Ostere − disse ela com um sorriso satisfeito.
− Chame-me de Jack. Entre que vou preparar-lhe um drinque antes que os outros cheguem.
Tomou-lhe o braço e levou-a para a maior sala de estar que ela jamais vira.
− Que prefere? − perguntou ele, parando diante de um pequeno bar portátil sobre rodas. − Manhattam? Martini?
− Coca? − perguntou ela, hesitante.
O homem franziu as sobrancelhas, mas logo depois sorriu.
− Muito bem − disse ele, puxando uma corda perto da parede.
O mordomo apareceu quase imediatamente.
− Jordan, uma Coca para a Srta. Granger.
− Está bem, senhor - disse o mordomo impassivelmente, afastando-se.
− Bem gelada - disse Mione.
− Bem gelada, senhora − disse o mordomo, olhando-a. Em seguida, saiu da sala.
Mione voltou-se para o dono da casa:
− Espero não ter chegado cedo demais. O Sr. Snape me disse que viesse imediatamente.
Ostere serviu-se de um copo de uísque com gelo e disse:
− Quem é tão bonita como você nunca chega cedo demais, Mione.
A campainha tocou:
− Com licença − disse Ostere − alguns dos meus convidados estão chegando e tenho de recebê-los.
O mordomo trouxe o refrigerante de Mione, e ela olhou para a sala. Devia ter uns doze metros de comprimento, e numa das extremidades havia portas que davam para um terraço. O dono da casa voltou com os recém-chegados, e Mione arregalou os olhos. Uma das mulheres era uma estrela de cinema cujos filmes ela tinha visto muitas vezes no cine RKO, da 86th Street. E um dos homens era um jornalista famoso cuja coluna ela lia quase sempre no jornal da manhã.
Antes de Ostere terminar as apresentações, a campainha tocou de novo, e ele foi receber outros convidados. Mione estava cada vez mais deslumbrada. Embora não conhecesse todos os nomes, podia ver que era gente importante. Ficou calada e intimidada a maior parte do tempo, porque não sabia o que ia dizer a gente como aquela. Pelas conversas que ouvia, chegou à conclusão de que Ostere era um homem muito rico que de vez em quando financiava peças de teatro.
Era, porém, um homem muito gentil porque, embora andasse sem parar pela sala para dar atenção a todos os convidados, aproximava-se dela a todo instante para saber se tudo ia bem e se queria alguma coisa. Simpatizou com ele. Era tão atencioso, tão delicado. Em dado momento, o jornalista aproximou-se dela e perguntou-lhe o que ela fazia. A princípio, não soube o que dizer, mas resolveu chegar o mais perto possível da verdade.
− Sou dançarina.
Ostere apareceu nesse momento e aprovou a resposta com um sorriso.
− Onde trabalha? − insistiu o jornalista. − Posso dar-lhe uma promoçãozinha na minha coluna.
− Não estou ainda nessa fase − disse ela sorrindo. − Mas espero que se lembre de mim quando eu estiver.
O colunista já havia bebido além da conta. Sabia que espécie de garotas Ostere convidava para ocasiões como aquela. Resolveu então ser desagradável.
− Pois se você é dançarina, vamos vê-la dançar. Não acredito no que está dizendo.
Fez-se um silêncio pesado quando o jornalista disse isso. Todos ficaram olhando com curiosidade para Mione, a fim de ver qual seria sua reação. As garotas de Ostere não eram segredo para ninguém. Mione abriu bem os olhos para vencer a timidez e disse:
− Eu bem que gostaria de fazer-lhe a vontade, mas infelizmente não é possível. Nesse momento, estou atacada da doença profissional das dançarinas.
− Doença profissional? − exclamou o colunista, com uma nota de triunfo na voz. − Nunca ouvi falar disso.
− Pois olhe que pensei que conhecesse tudo − disse Mione suavemente. − Nunca ouviu falar em pés doloridos?
As gargalhadas que ressoaram na sala atenuaram a tensão, e Ostere bateu-lhe no ombro, murmurando:
− Muito bem!
Os convidados começaram a sair por volta das duas e meia da manhã, e às três horas Mione e Ostere estavam sozinhos de novo. Ele deixou-se cair numa cadeira, olhou para ela e exclamou:
− Graças a Deus, agora estou livre disso por uma semana!
− Se não gosta disso, por que o faz? − perguntou Mione, admirada.
− Sou forçado. É importante para meus negócios. Além disso, todos ficariam decepcionados se eu não os convidasse. Isso já se tornou um hábito semanal.
− Quer dizer que isso acontece todas as semanas?
− Claro. Nova York não seria a mesma sem a recepção da meia noite em casa de Jack Ostere − disse ele, com certa satisfação.
Mione sacudiu a cabeça. Estava além de sua compreensão. Não sabia que diferença fazia haver essa festa ou não.
− Bem, está na hora de eu ir, Sr. Ostere − disse ela, afinal.
Ele a olhou com o que julgava uma expressão suplicante.
− Tem de ir mesmo? Tenho lugar de sobra aqui.
− Tenho de ir, Sr. Ostere. Meu pai está acordado à minha espera.
Ele se levantou, murmurando:
− É verdade. Eu devia ter compreendido isso. Tirou uma nota do bolso e fechou-a na mão dela. Ela não olhou para a nota e disse, estendendo a mão:
− Muito obrigada, Sr. Ostere. Gostei muito.
Ele apertou-lhe a mão e disse:
− Eu é que gostei de tê-la aqui, minha cara. Espero que venha de novo. Talvez na semana que vem.
− Não sei. Terei que falar com o Sr. Snape.
− Quanto a isso não se incomode. Eu falarei com Snape − disse ele, levando-a até a porta.
− Boa noite, Sr. Ostere.
− Boa noite, Hermione.
A porta do elevador se abriu e ela entrou, dando adeus a Ostere, que ainda estava à porta do apartamento. Foi só quando o elevador já ia descendo que ela olhou para a nota que ainda apertava na mão esquerda. Não pôde conter uma exclamação de surpresa. Eram vinte dólares, tanto quanto ela fazia em toda uma semana de trabalho.
Guardou o dinheiro na bolsa, com a vaga idéia de que havia cometido um erro. O porteiro mostrou surpresa quando a viu.
− Táxi, senhora?
Ela olhou um instante e encolheu os ombros. Por que não? Naquela noite ela podia.
Eram três e meia quando o táxi parou à porta de sua casa. Ela saltou e começou a subir a escada.
− Mione!
Um vulto surgiu da escuridão ao lado da porta.
− Harry! Que está fazendo aqui?
− Estava esperando por você, muito preocupado. Tudo bem?
Ela acendeu um cigarro e respondeu:
− Tudo bem.
− Esperei perto do dancing até meia-noite e meia. Perguntei então e soube que você havia saído mais cedo. Vim para cá pensando que você não estivesse passando bem, mas seu pai me disse que você ainda não tinha chegado.
− Não precisava ter esperado. Fui a uma festa.
− Onde?
− Na casa de Jack Ostere − disse ela, sem pensar. − Você não o conhece.
− Como é que foi parar lá?
− Snape me pediu que fosse.
− Não gosto disso − murmurou ele.
− Por quê? − perguntou ela sem disfarçar sua irritação.
− Não é justo ele mandar você a lugares assim.
− Ninguém pediu a sua opinião − disse ela, furiosa.
− Você não devia ter ido.
− Se você não me andasse espionando, nunca teria sabido.
− Não a ando espionando, Mione − disse ele com voz magoada.
− É que tive receio que houvesse acontecido alguma coisa!
− Mas já viu que não aconteceu e agora pode voltar para sua casa. Você está começando a me irritar!
Depois de dizer isso, subiu precipitadamente a escada e entrou no prédio, deixando-o sozinho na rua. Harry ficou ali parado durante algum tempo. Depois, uma estranha tristeza caiu sobre ele, e começou a voltar para casa. Havia ocasiões em que ele achava que não a conhecia de modo algum. Peter estava sentado à mesa, com a inevitável lata de cerveja à sua frente. Voltou para ela os olhos injetados e perguntou:
− Por onde andava?
− Trabalhando − respondeu ela laconicamente.
− Seu namorado diz que você saiu cedo. Mas não veio para casa.
Ela não respondeu e saiu da cozinha para ir para seu quarto. Ele deu um pulo da cadeira e lhe tomou a frente.
− Onde foi que esteve com esse vestido?
− Já lhe disse que estava trabalhando.
− Vestida assim? Com os peitos todos de fora?
− Estas são as minhas roupas de trabalho. Estava tão cansada que não quis trocar de roupa e vim para casa assim mesmo. E tenho de devolver o vestido amanhã, pois não é meu.
Antes que ela pudesse impedi-lo, ele lhe arrebatou a bolsa da mão e abriu-a, espalhando o seu conteúdo em cima da mesa. Viu logo a nota de vinte dólares e pegou-a.
− Onde conseguiu isso?
− Foi uma gorjeta.
− Não se ganha gorjeta assim só dançando.
Ela não respondeu. Ele estendeu a mão e deu-lhe uma bofetada que a atirou de encontro à parede. A alça do vestido desceu e o vestido começou a cair. Ela o apertou contra o peito.
− Eu bem disse a sua mãe quem você era, mas ela não acreditou em mim. É bom que ela não esteja mais aqui para ver isso.
− Bom para você, não é?
Ele começou a tirar o cinto das calças e a avançar ameaçadoramente para ela. Ela se esquivou dele com o corpo e, abrindo a gaveta da mesa, tirou uma faca de cozinha muito afiada, que segurou com firmeza, ao mesmo tempo que dizia:
− Venha! Experimente!
Ele olhou para a faca com os olhos chamejantes de ódio e recuou.
− Mione! Você não sabe o que está fazendo!
− Não? − exclamou ela, rindo.
Ele respirou fundo. A moça estava alucinada. Afastou-se dela cautelosamente.
− Está bem, está bem − disse ele, ansiosamente.
− O dinheiro! − disse ela.
Ele jogou a nota de vinte dólares em cima da mesa, e ela a guardou prontamente na bolsa com o resto do que era seu.
− Se você voltar a se aproximar de mim − disse ela com voz grave e pausada −, ou se tentar tocar em mim, juro que o matarei!
Ele nada disse. Não duvidava de que ela estivesse falando a sério. Ela entrou para o quarto e fechou a porta, enquanto ele se dirigia para a geladeira com a mão subitamente trêmula. Mione encostou-se à porta fechada e cerrou os olhos. Era como se mil anos houvessem passado desde que sua mãe morrera e, entretanto, havia pouco mais de um mês. Abriu os olhos e viu a faca que tinha na mão. Sentiu um arrepio no corpo e tremeu convulsivamente. Jogou a faca em cima da cama e começou a despir-se. Só viu a faca de novo quando foi se deitar. Escondeu-a debaixo do colchão. Desse dia em diante, nunca se deitava sem antes verificar se a faca estava no lugar.
Daí em diante, ia para onde Snape a mandava. Passara pouco a pouco a confiar nele. Nunca tivera a menor dificuldade com qualquer dos homens com quem se encontrava. Tratavam-na com mais respeito do que os colegas de escola. Os colegas viviam a cercá-la tentando agarrá-la. Ela não se incomodava muito. Sentia-se de muitos modos superior a eles. Afinal, o que sabiam do que acontecia no mundo?
Durante o inverno, viu cada vez menos Harry. Várias vezes tinha marcado encontro com ele e se vira forçada a faltar porque
Snape aparecera com algum serviço para ela. Desde a noite em que ele a esperara diante da porta da casa dela, deixara de ir esperá-la no dancing. Uma noite, ela foi chamada ao telefone.
− Alô − disse ela, atendendo.
− Mione? É Harry quem fala.
Sentiu de repente o corpo todo fraco. Compreendeu de súbito quanto sentia a falta dele.
− Olá, Harry. Como vai você?
− Muito bem. E você?
− OK.
− Venho querendo muito falar com você, mas tenho andado ocupado na escola.
− Fiquei muito contente de você ter telefonado, Harry − disse ela com voz meiga. − Estava com saudades.
− Sério? − perguntou ele numa voz cheia de felicidade.
− Sério, Harry.
− Quer me ver hoje depois do trabalho?
− Claro.
− Lá embaixo. No mesmo lugar. O primeiro carro depois da esquina.
− Feito.
− Mione?
− Que é, Harry?
− Não vai faltar desta vez?
− Não. Fique descansado, Harry - disse ela, desligando.
Harry estava encostado ao carro quando ela saiu. Aprumou o corpo ao vê-la. Parecia cansado e magro.
− Alô − disse ela.
− Alô − respondeu ele, com um sorriso tímido.
Ficaram durante algum tempo a olhar-se em silêncio e afinal Mione disse:
− Não vai me convidar para tomar café?
− Claro. Era nisso mesmo que eu estava pensando.
Ela se encaminhou para a drugstore a que costumavam ir, mas ele lhe tomou o braço e levou-a para um restaurante da vizinhança. Entraram e sentaram-se a uma mesa. Ela olhou para a toalha branca da mesa e disse:
− Estamos melhorando muito!
− Tudo do bom e do melhor! − disse ele rindo.
Mas ela notou que ele estava dando muita atenção ao que pedia.
− Que é que tem feito, Harry?
− Nada de mais. Escola. Estudo. Trabalho.
− Você emagreceu.
− Isso é bom − disse ele, encolhendo os ombros. − Andava muito gordo ultimamente.
O garçom trouxe o café e bolos. Mione tomou um gole de café e esperou que ele falasse.
− Como vai o garotinho? − perguntou ele.
− Muito bem − disse ela sorrindo. − Já está andando e querendo falar. Está me chamando de Mi.
Notou que ele não tinha perguntado pelo padrasto.
− E o seu trabalho, Mione?
− Tudo bem.
Ele ficou em silêncio, vendo-a tomar café, e afinal ela lhe chamou a atenção.
− Não vai tomar o seu café?
− Não estou com vontade − disse ele. Levantou-se abruptamente e jogou uma nota em cima da mesa. −Vamos?
Ela o acompanhou e perguntou quando chegaram à rua:
− Que foi que houve, Harry?
− Tenho um recado para você.
− Para mim?
− Sim, de Malfoy. Pediu que lhe dissesse que voltará no mês que vem.
− Foi para isso que me telefonou? − perguntou ela, tirando a mão do braço dele. − Para me dar esse recado?
Ele não respondeu. Estava muito carrancudo.
− O que acha que devo fazer? Dar cambalhotas de alegria?
Ela parou. Harry ainda deu dois ou três passos até perceber que Mione não estava mais ao seu lado.
− Que foi? − perguntou ele, admirado.
− Está bem, recebi o recado. Muito obrigada.
− Ele ainda pensa que você é a garota dele.
− E você, que é que pensa?
− Não sei o que devo pensar − disse ele, com voz triste. − Ele parece ter muita certeza!
Ela recuou para um portal escuro.
− Harry!
− Que é?
− Venha cá, Harry!
Ela o puxou para o portal. Colocou as mãos nos ombros dele e beijou-o. A princípio, ele ficou imóvel, mas depois estendeu os braços e abraçou-a com força. Ficaram assim durante vários minutos enquanto explodiam foguetes na cabeça de Harry. Por fim, ela se afastou com todo o corpo vibrando.
− E agora, que é que você pensa, Harry?
− Mas você nunca me disse nada − murmurou ele confusamente. − Não parecia que gostasse de me ver. Como da última vez em que você faltou ao nosso encontro. Esperei mais de uma hora e você não apareceu.
Os olhos dela brilhavam no escuro como os de um gato.
− Tenho de trabalhar, Harry. Preciso de dinheiro. Você sabe muito bem disso.
− Nem tudo se pode fazer por dinheiro − murmurou ele.
− Está enganado, Harry. Nada faço de errado. Quero apenas ter o bastante para não viver como minha mãe vivia. Você viu o que aconteceu a ela...
− Mas você nunca...
− Cale essa boca − disse ela meigamente, tocando-lhe os lábios com a ponta dos dedos. − Você nunca tentou beijar-me. Já estava até pensando que havia alguma coisa de errado com você.
Ele sorriu como se seu rosto todo se iluminasse. Aproximou o rosto do dela, dizendo:
− Talvez assim seja melhor. Tenho de recuperar o tempo perdido.
A rua estava em silêncio quando chegaram a casa dela. Os últimos ventos de março os atingiam de leve quando entraram para o vestíbulo. Ela fechou a porta e olhou para ele.
− Amo você, Mione − disse ele num sussurro. − Sabe disso, não sabe?
− Sei.
− Amo você desde aquele dia no elevador, mas nunca imaginei que você me quisesse. Malfoy tem tanto e eu não tenho nada.
− Nunca pedi nada.
− Eu sei. Mas você pode conseguir o que quiser. Todo homem que você conhece fica louco por você.
− Sei disso. Mas não ligo para eles. São todos uns idiotas. Pensam que podem conseguir alguma coisa de mim, mas não podem.
− E eu também sou idiota? − perguntou ele, rindo.
− É o maior de todos. Mas ainda há quem seja mais idiota do que você. Sou eu, que o quero.
Abraçaram-se e beijaram-se. Os lábios e a língua de Mione lhe acendiam fogueiras na boca, e Harry se sentiu tomado de verdadeira vertigem. Ela se afastou de repente com um brilho diferente no olhar.
− Harry, você está me fazendo ficar maluca.
− Ótimo - murmurou ele.
− Não compreendo. Ninguém ainda me fez sentir essas coisas.
Ele tornou a abraçá-la.
− Foi bom para você aprender a não fazer pouco de mim, menina!
Agora, sim. Você realmente tem quem lhe queira bem.