Dor da perda...
Malfoy comprou uma porção de tíquetes na porta. Parou um instante à porta do salão de danças para deixar os olhos acostumarem-se à luz. Correu a vista em torno. Lá estava ela. Mesmo com um daqueles vestidos baratos que Snape fornecia às dançarinas, destacava-se das outras. Atravessou o salão e parou diante dela.
− Alô, Mione.
− Alô, Malfoy − disse ela com um olhar no qual não se podia distinguir qualquer expressão.
− Quer dançar? − perguntou ele.
− Tem tíquetes?
Ele abriu a mão e mostrou.
− Então podemos dançar − disse ela, levantando-se e encaminhando-se para a pista.
Colocou-se entre os braços dele como se ele lhe fosse completamente estranho. Pegaram automaticamente o ritmo da orquestra.
− Faz duas semanas que você concluiu o curso, Mione. E faz três semanas que não a vejo.
− O tempo voa, não é? − disse ela sem sorrir.
− Por que fugiu de mim?
− Tenho andado muito ocupada. Preciso trabalhar para viver.
− Você não me deu oportunidade de explicar.
− Você não me deve explicação nenhuma. Você já é um adulto e vive a sua vida como bem quiser.
− Por que então não quer me ver?
Ela o olhou bem nos olhos. Havia nele alguma coisa que lhe lembrava um animal selvagem, indomável e inteiramente egoísta.
− Não gosto de servir de instrumento para os outros − disse ela.
A música parou, e ela tomou a direção das mesas. Malfoy bloqueou-lhe a passagem com a mão, mostrando-lhe outro tíquete. Ela pegou o tíquete e ficou esperando que a orquestra recomeçasse a tocar para ir então para os braços dele.
− Pensei que gostasse de mim, Mione.
− E gostava. Mas você não foi correto comigo.
− Desculpe. Mas o que fiz deu bom resultado. Ninguém foi prejudicado.
− Eu fui. Fiquei profundamente magoada. Pensei que você fosse diferente.
− Mas aquilo foi quase brincadeira, Mione − disse ele, sentindo-lhe o calor e revivendo todo o seu velho interesse por ela. − Não foi pelo dinheiro. Foi pela emoção.
− Não! Se você ainda precisasse de dinheiro, eu poderia compreender.
− Mione, querida − murmurou ele. Haviam chegado a um canto mais escuro, e ele tentou beijá-la.
− Pare com isso, Malfoy − disse ela energicamente. − Preciso do dinheiro que ganho aqui.
− Mas, Mione, vou-me embora depois de amanhã e só voltarei daqui a cinco meses. Tenho de ver você antes de viajar.
− Não!
− Por quê?
A música parou de novo, e ela se desvencilhou dos braços dele encaminhando-se para as mesas. Ele pegou-a pelo braço e fê-la rodar violentamente.
− Tome! Tome esses malditos tíquetes. Não fuja de mim toda vez que a orquestra pára de tocar.
Ela tomou em silêncio o maço de tíquetes e guardou-os numa bolsinha. A música recomeçou e ela voltou para junto dele.
− Por que é que você não quer me ver?
− Quer mesmo saber? − perguntou ela, encarando-o.
− Quero.
− Pois então ouça: em primeiro lugar, porque não quero; em segundo lugar, porque não tenho tempo. Minha mãe está doente numa cama. Perdeu o emprego, e tenho de tomar conta dela e de meu irmãozinho pequeno durante o dia. Chega?
− Não − disse ele, rudemente.
Ele a levou de novo para o canto escuro e tentou beijá-la. Ela virou o rosto. Malfoy não a viu fazer sinal com a bolsa. Um momento depois, uma mão forte caiu-lhe sobre o ombro. Virou-se e viu um dos gorilas que mantinham a ordem no dandng. Ao lado dele, estava Severo Snape, sorrindo.
− Proceda direito, mocinho − disse o gorila −, se não quiser ser forçado a sair daqui.
Malfoy sentiu-se empalidecer. Olhou para Mione e viu que ela estava impassível.
− Se é assim que você quer, está bem, Mione − disse ele e saiu em direção à porta.
− Seu amigo ficou muito zangado − disse Severo Snape, quando ela se dispunha a voltar para as mesas.
− Não é meu amigo!
− Mas vocês estavam tão juntinhos na última vez em que estiveram
aqui − disse ele, surpreso.
− Naquele tempo, era diferente. Mas não gostei de uma coisa que ele fez.
− Seria, por acaso, uma troca de dados? − perguntou Snape displicentemente.
A surpresa estampou-se no rosto dela, e ele sorriu.
− Pensa que somos tolos, menina? Somos profissionais. Percebemos imediatamente o que ele havia feito. Calculei que foi por isso que você soprou os dados tão depressa. Você sabia o que ele ia fazer?
− Não.
− Calculei isso também.
− Se sabia de tudo, por que não tomou alguma providência?
− O pai daquele rapaz tem muita influência. Um dia, ele voltará e nós lhe tomaremos o dinheiro com juros. Até lá, podemos esperar. Temos paciência. Eles sempre voltam.
Mione pendurou cuidadosamente o vestido de baile no armário. Depois de verificar rapidamente o rosto no espelho, saiu apressada pela porta. Era pouco mais de meia-noite. O trabalho não era tão ruim assim durante a semana, pois só ficava de pé umas seis horas. Às sextas e aos sábados era pior, pois nesses dias trabalhava das cinco da tarde até as duas da madrugada. Saiu para a rua barulhenta e o viu parado e encostado a um carro, à espera dela. Encontrava-o ali todas as noites, desde que começara a trabalhar. Um sorriso chegou-lhe aos lábios.
− Alô, Harry.
− Alô, menina.
Saíram caminhando juntos.
− Você não precisa me esperar todas as noites, Harry. Posso ir para casa sozinha.
− Mas eu quero.
− Assim você não agüenta. Trabalha naquela banca de jornais doze horas por dia.
− Não me tire a alegria da vida, Mione − disse ele delicadamente.
− Quer um café?
− Está bem, mas não se esqueça de que é a minha vez de pagar.
− E você acha que foi por outro motivo que a convidei? − perguntou ele, rindo.
Entraram numa drugstore, sentaram-se nos tamboretes altos do balcão, e Harry pediu dois cafés.
− Mione, quer dividir uma rosca comigo?
Ela aceitou e ele fez o pedido ao garçom. Depois perguntou:
− Como vai sua mãe?
− Hoje está melhor, obrigada. A hemorragia já parou, e o médico disse que, se ela continuar como está, poderá levantar-se amanhã.
− Ótimo − disse ele.
Ela ficou em silêncio por um momento, pensando na mãe. Katti estava de cama havia quase uma semana. Um dia, chegara mais cedo do trabalho e começara a perder sangue. A princípio, o médico pensara que se tratasse de um aborto, mas depois tudo se normalizou. O trabalho pesado da limpeza noturna estava matando-a. Mione lembrava-se de como a mãe ficara preocupada ao saber do emprego no dancing. Mas os vinte dólares que ela ganhava por semana tinham sido uma salvação. Sem isso, teriam todos morrido de fome. Peter não valia coisa alguma dentro de casa. O garçom colocou o café e a rosca diante dela. Ela dividiu-a prontamente, dando a Harry o pedaço maior.
− Como se saiu hoje? − perguntou Harry.
− Muito bem. Trabalhei muito.
− Quem é boa dançarina é assim mesmo − disse Harry, rindo.
− A melhor que há − disse ela com um sorriso que logo se desvaneceu quando acrescentou: − Malfoy apareceu hoje por lá para me ver.
− O que ele queria?
− Disse que ia ausentar-se da cidade e queria que eu saísse com ele.
− Que foi que você disse? − perguntou Harry sem olhar para ela.
− Disse que não era possível. Ele se excedeu e o Sr. Snape apareceu, depois do quê, ele foi embora.
− O pai vai mandá-lo à Europa.
− Puxa! − exclamou ela. − É preciso ter muito dinheiro para fazer isso.
− Você ainda gosta dele, não gosta, Mione?
− Para dizer a verdade, não sei. Ele é diferente de todos os outros rapazes que conheço. Fala diferente. Age diferente.
− Tem dinheiro.
− Não é isso, Harry.
− Que é então?
− É o jeito dele. Age sempre como eu gostaria de agir de vez em quando. É como se ele estivesse no alto do mundo e todo mundo tivesse de se esforçar para chegar lá. Deve ser bom estar no alto de tudo. E quer saber de uma coisa? O Sr. Snape sabia que ele trocou os dados naquela noite.
− Por que não o desmascarou então?
− Por causa do pai de Malfoy. O Sr. Snape disse que o velho é um homem de muito prestígio.
A voz dela demonstrava admiração, e Harry perguntou:
− É disso que você gosta?
Ela acendeu um cigarro e murmurou:
− Talvez. Eu gostaria de ter um pouco de luxo. Quem não gosta disso? De qualquer maneira, é melhor do que viver como eu vivo.
Katti largou a costura e olhou para o relógio. Quase onze horas. Levantou-se da cadeira e foi até a janela. À noite de agosto estava pesada e úmida. Ela enxugou o suor do rosto com uma toalha que trazia ao pescoço. Sentiu uma forte pontada de dor nas costas e começou a cambalear. Apoiou-se prontamente numa mesa e ficou esperando até que a tontura passasse. O médico tinha avisado que ela iria sofrer aqueles acessos. Recomendara-lhe passar a maior parte do tempo na cama, sem trabalhar. Havia na sua gravidez alguma coisa que sujeitava o coração a grande tensão.
A tontura passou, e ela voltou para a cozinha, guardando a costura. Ia deitar-se durante algum tempo e procurar descansar. A casa estava em absoluto silêncio. Na escuridão de seu quarto, ela ficou, porém, de ouvidos atentos aos menores ruídos. Quase nunca podia dormir antes de Mione chegar, mas naquela noite a sua inquietação era maior do que de costume. Peter havia saído depois do jantar e ainda não voltara. Ela sabia o que isso prenunciava. Ele ia voltar para casa irritado e bêbado de cerveja, e ela teria de conservá-lo longe de Mione para não haver discussão. Alguns minutos depois, começou a sentir-se melhor, mas ainda assim não conseguia conciliar o sono. O quarto estava muito quente, e ela sentia o calor de seu corpo pesar sobre ela na cama.
Levantou-se e foi até o quarto de Mione. A criança estava dormindo agitada no berço, com o corpinho rosado cheio de brotoejas. Enquanto ela o olhava, o pequeno Peter acordou de repente e começou a chorar. Levou-o para a cozinha e deu-lhe um pouco de água fria. Ele se acalmou, adormeceu de novo, e ela o levou para o berço. Ouviu um barulho na porta da cozinha e voltou-se para olhar. Devia ser Peter. Era muito cedo ainda para Mione. Bastou ver-lhe o rosto vermelho para saber onde ele estivera.
− Ainda acordada? − perguntou ele, com os olhos injetados.
− Ainda − disse ela, encaminhando-se para o quarto. − Venha deitar-se.
− Está quente demais − disse ele, dirigindo-se para a geladeira.
− Vou tomar uma cerveja.
− Não chega o que já tomou? − perguntou ela.
Sem responder, ele abriu uma lata e levou-a a boca. Quando acabou, voltou-se para ela e disse asperamente:
− Meta-se com a sua vida.
Ela o olhou por um momento. Depois, virou-se e foi para a sala da frente. Debruçou-se na janela e olhou ansiosamente a rua. Estava quase na hora de Mione chegar.
− Que é que está fazendo? − perguntou ele, agressivamente.
Ela não respondeu. Ele sabia perfeitamente o que ela estava fazendo.
− Esperando sua filha, não é?
− É isso mesmo − disse ela − Há algum mal nisso?
− Não se preocupe com ela. Deve estar fazendo mais alguns dólares em algum canto escuro com aquele camarada que vem com ela para casa todas as noites.
− Vá dormir, você está bêbado − disse ela, friamente.
− Você pensa que não sei o que estou dizendo? − perguntou ele, agarrando-lhe grosseiramente o braço.
− Sei muito bem que não sabe − disse ela, puxando o braço e voltando para a janela. Viu então Mione e Harry, que vinham descendo a rua em direção a casa.
Sentiu-se por um momento satisfeita. Aquele Harry era um excelente rapaz. E eles faziam um par tão bonito andando assim juntos. Talvez um dia... Mas isso ainda estava bem longe. Às vezes, tinha de se esforçar para compreender que Mione ainda era uma criança. Afastou-se da janela, ainda com um sorriso de satisfação a franzir-lhe os cantos da boca.
− Vou para a cama − disse ela ao marido. − É melhor você vir também.
− Não vou, não. Está fazendo muito calor, e eu vou tomar outra cerveja.
Katti entrou no quarto e começou a despir-se. Ouviu o marido andar pela cozinha, o ruído da porta da geladeira, da lata de cerveja sendo aberta. Vestiu um quimono leve sobre a camisola e foi até a cozinha lavar-se. Ele estava sentado à mesa, com a lata meio vazia na mão e os olhos voltados para a porta.
− Que é que está esperando? − perguntou ela. − Vá para a cama.
− Não. Vou lhe mostrar quem é que sabe o que está dizendo. Espere até ela chegar.
Ela tentou sorrir.
− Não seja bobo, Peter. Deixe a menina em paz e venha dormir.
− Uma puta é o que ela é.
A bofetada impulsiva de Katti marcou-lhe o rosto, e ele ficou a olhá-la, muito espantado. Katti estava pálida de raiva. Ele nunca a tinha visto assim.
− Cale-se! A menina tem mais cabeça e coragem do que você! Se não fosse ela, já teríamos morrido de fome. Não se esqueça de que foi Mione que conseguiu um emprego quando precisávamos de dinheiro, e não você. Ela saiu ao pai. Você não é nem a metade do homem que ele era. Só espero é que seus filhos sejam como ele, não como você. Do contrário, Deus os proteja!
Ele se levantou bruscamente e foi para a porta da cozinha.
− Você vai ver se eu sou ou não sou homem! − gritou ele, abrindo a porta que dava para o corredor. − Pelo menos, não quero putas dentro de minha casa!
Ela agarrou-lhe o braço e procurou fazê-lo entrar.
− Deixe-a em paz, bêbado! Ela é minha filha e não sua!
Ele a empurrou violentamente, e ela foi tropeçando até bater com o corpo na mesa da cozinha. Uma onda de dor percorreu-a toda. E ela sentiu tudo turvo diante dos olhos. Ele estava tirando o cinto das calças. Depois, sacudiu-o na mão, olhando para ela.
− Engula essa língua! Senão, vai apanhar com isto mais do que ela! Quando eu acabar com ela, você verá o que ela é!
Dizendo isso, saiu para o corredor. Katti deu um suspiro e saiu atrás dele. O homem era mesmo doido! Mione é que tinha razão. Se ela a tivesse escutado... Sentiu um começo de vertigem, mas procurou reagir. Ele já ia descendo as escadas, mas ela segurou-o pelos braços.
− Deixe-a! − gritou desesperadamente e conseguiu, com uma força quase sobre-humana, contê-lo. − Se tocar nela, nunca mais porá os pés dentro de minha casa!
As palavras caíram-lhe no cérebro como uma ducha de água fria. Seus olhos voltaram de súbito a ter aspecto normal. Ela se apoiou ao corrimão para não cair. Ele passou por ela em direção à porta da cozinha, de onde se voltou e exclamou:
− Ela é sua filha! Que os pecados dela caiam sobre a sua cabeça!
A vertigem tornou a acometê-la, e o rosto dele ficou turvo diante de seus olhos. Tentou dar um passo vacilante para o apartamento, mas a dor que sentia nas têmporas estendeu sobre ela um manto de escuridão.
− Mione! − gritou ela da beira do doloroso vácuo em que caía.
E a hora final foi ao encontro dela sob a forma de um lance de escadas. Ouviram o barulho e, antes que Harry pudesse mover-se, Mione já havia galgado metade do primeiro lance de escadas. Harry correu atrás dela, com o coração a pulsar de temor ante aquele grito lancinante. Chegou ao terceiro patamar um passo atrás dela.
− Mamãe!
A voz de Mione era como a de uma criança amedrontada. Harry viu-a cair de joelhos ao lado do corpo estendido da mãe. Ficou ali parado e em silêncio, sabendo que nada mais podia fazer.
− Mamãe!
A voz de Mione era um som que se ligava aos choros do berço. Seus cabelos brilharam quando ela beijou o rosto imóvel.
− Katti!
Harry ergueu os olhos. O homem estava no alto da escada, muito pálido, e os olhava.
− Que foi que houve, Mione?
Mione sacudiu a cabeça apática. Voltou-se para Harry, e ele viu que os olhos dela estavam magoados e sem brilho. Tocou-lhe o ombro e sentiu o tremor que sacudia o corpo.
− Há algum telefone aqui no prédio? − perguntou ele.
Mione não respondeu, e Harry compreendeu que ela nem o tinha ouvido. O homem vinha descendo a escada bem devagar, agarrado ao corrimão como se tivesse medo de cair. Uma porta ao lado se abriu, e um homem apareceu.
− Houve um acidente − disse prontamente Harry − Tem um telefone de onde eu possa falar?
O homem fez um sinal afirmativo e saiu para o corredor a fim de que Harry pudesse passar. Dentro do apartamento, uma mulher que colocava um agasalho sobre os ombros lhe mostrou em silêncio o telefone. Quando Harry tirou o receptor do gancho ouviu no patamar um leve rumor de soluços. Foi essa a única vez em sua vida em que ouviu Mione chorar.
Mione só voltou ao trabalho no dancing uma semana depois. Seu rosto emagrecera e havia fundas olheiras que a desfiguravam levemente. Antes, tinha havido o funeral de Katti. A missa na St. Augustine tinha sido simples. O Padre Janowicz se mostrara bondoso e compreensivo. Falou gentilmente da grande coragem de Katti e de sua devoção aos princípios católicos e rogou a Deus que seus filhos pudessem seguir seu exemplo. Mione sentou-se ao lado de Peter em silêncio, no carro que acompanhou o féretro até o cemitério. O sepultamento foi rápido e, dentro em pouco, voltaram para casa.
Duas assistentes sociais estavam à espera deles. A mãe de
Gina, que tinha tomado conta do pequeno Peter enquanto eles haviam estado fora, deixou-os e subiu. As assistentes estavam preocupadas com a capacidade de eles cuidarem devidamente da criança. Mione convenceu-as de que tudo correria bem. Ela estaria em casa durante o dia e Peter se encarregaria do garoto à noite, quando ela fosse trabalhar. As assistentes concordaram em deixar as coisas nesse pé até o outono, quando Mione teria de continuar os estudos.
Parou um instante na entrada do dancing. Parecia-lhe estranho que tanta coisa houvesse mudado em sua vida e o dancing continuasse o mesmo. A decoração barata, as mortiças lâmpadas azuis, a orquestra cansada com seus falsos ritmos tudo era o mesmo. O leão-de-chácara aproximou-se.
− O Sr. Snape está chamando no escritório.
Mione atravessou a pista e bateu na porta do escritório.
− Entre − disse Snape.
Estava sentado à mesa com alguns papéis abertos à sua frente. Ela fechou a porta e postou-se diante da mesa.
− Mandou me chamar?
− Mandei, sim. Sente-se que falarei com você logo que acabar isto aqui.
Mione sentou-se numa cadeira ao lado da mesa e ficou a observá-lo. O rosto era duro e cheio de rugas, e os cabelos grisalhos davam aos olhos azuis um tom ainda mais frio. O queixo era firme e quadrado, mas os lábios finos mostravam uma distinção quase estranha. Por fim, ele levantou os olhos e disse delicadamente:
− Meus pêsames pela morte de sua mãe, Mione.
− Obrigada − disse ela, sentindo um aperto na garganta. Ainda lhe era difícil falar sobre o triste fato.
− Esteve aqui um investigador da Assistência Social. Querem informações a respeito de seu emprego.
Um medo súbito se estampou no rosto dela. Snape sorriu, tranqüilizando-a.
− Fique descansada. Eu disse que você trabalha na caixa.
− Não sei como posso agradecer-lhe, Sr. Snape − murmurou, com a voz alterada pela emoção.
Snape olhou para os papéis que tinha em cima da mesa e perguntou de repente:
− Por que não me disse qual era sua idade, Mione?
− Se eu dissesse, o senhor me empregaria?
− Acho que não.
− Foi por isso que eu não disse. Por outro lado, o senhor nunca me perguntou.
− Isso nunca me passou pela cabeça. Você parece ter idade suficiente.
− E tenho mesmo − disse ela, com um leve sorriso.
Snape levantou-se e aproximou-se dela. Pôs-lhe a mão no ombro e meneou a cabeça, lembrando-se de sua mocidade. Criara-se num bairro muito parecido com o de Mione.
− Acho que tem − disse ele.
− Posso voltar então a trabalhar, Sr. Snape?
− Pode. Mas fique de olhos abertos. Se houver alguma desordem ou qualquer coisa assim, saia o mais depressa possível. Se a polícia a prender e apurar que você é menor, a casa será fechada.
− Terei cuidado, Sr. Snape − disse ela, levantando-se. − Prometo-lhe.
Ele lhe abriu a porta, e ela ficou ali um momento com um sorriso de gratidão nos lábios.
− Muito obrigada, Sr. Snape. Nunca esquecerei como o senhor foi bom para mim nesta ocasião.
Ele ficou na porta, vendo-a dirigir-se para o vestiário. Balançou a cabeça. Mesmo sabendo, não acreditava. Não tinha nem dezesseis anos completos. Riu sozinho, enquanto fechava a porta e voltava à sua mesa. O calendário nunca significaria grande coisa para ela. Tinha já todo o juízo de que precisaria na vida. Tinha faro para homens.
Era o sexto sentido que muitas mulheres passam a vida toda sem adquirir.
Ela abriu a porta e entrou na cozinha. O padrasto estava lendo um jornal aberto em cima da mesa.
− Como está o garoto? − perguntou ela.
− Bem. Dormiu calmamente a noite toda.
Ela entrou no quarto e olhou para o berço. Peter estava dormindo com o dedo na boca. Tirou-o com cuidado. De repente, sentiu o olhar do padrasto e virou-se prontamente. Ele estava na porta do quarto, olhando-a. Ficou de repente vermelha.
− Que deseja? − perguntou ela.
− Nada − respondeu ele e voltou para a cozinha.
Mione tirou o vestido e a combinação, vestiu um robe e foi para a cozinha, onde abriu a torneira da pia. Peter olhou-a de sua cadeira e perguntou cautelosamente:
− Esse tal Harry veio para casa com você?
− Veio − disse ela, lavando o rosto vigorosamente.
− Gosta de você, não gosta?
− Acho que sim.
− Você passa um bocado de tempo com ele lá embaixo antes de subir.
Ela se voltou para ele e perguntou friamente:
− Que é que está querendo saber?
− Nada − respondeu ele, sem poder sustentar-lhe o olhar.
− Trate então de sua vida e deixe a minha em paz − disse ela, saindo para o quarto.
Quando voltou à cozinha, ele a esperava na porta. Agarrou-lhe o braço. Ela o encarou, apertando os olhos, sem falar.
− Você é muito bonita, Mione − disse ele, num tom suplicante.
Ela nada disse.
− Talvez algum dia você resolva ser boazinha para mim, e todo mundo será então feliz, hem?
Ela puxou o braço, cansada demais para zangar-se.
− Peter − disse ela com a voz neutra, notando que era a primeira vez que se dirigia a ele pelo nome, sem chamá-lo de tio −, não seja desagradável. Só estou aqui porque era assim que mamãe queria. Só por isso. Nada mais.
Ele a seguiu até a porta do quarto e fez outra pergunta:
− Mas, Mione, você sabe o que sinto a seu respeito?
− Sei, mas não me interessa. Se precisa tanto de mulher, saia e vá procurar uma na rua.
Bateu-lhe a porta na cara e passou a chave. Esperou um instante até ouvir seus passos se afastarem. Depois, acabou de despir-se e meteu-se na cama. Estendeu os braços para trás da cabeça e deixou a leve brisa que entrava pela janela beijar-lhe o corpo. Sentia uma surda angústia. Fechou os olhos, e o rosto de sua mãe surgiu-lhe na escuridão. "Seja boa, Mione", parecia que Katti lhe estava dizendo.
− Fique descansada, mamãe − murmurou baixinho Mione, virando-se para o lado. Ouviu o estalo da porta da geladeira, quando já estava pegando no sono.