Apesar dos protestos de seu médico particular, Ângelo Gentili conseguiu sua alta hospitalar na terça-feira imediatamente seguinte ao dia do inquérito. Enquanto Virgínia ficou em casa providenciando que tudo estivesse devidamente arrumado para a volta do marido, o resto da família foi em peso até o hospital a fim de trazê-lo de volta à casa.
E foi assim que, acompanhando por filhos, netos e agregados, o velhor Dr. Gentili deixou o hospital e rumou alegremente de volta ao lar. Quando chegaram à propriedade da família, Ângelo recusou-se a sentar-se na cadeira de rodas que lhe era oferecida e preferiu apoiar-se no filho Marco e caminhar até a porta que o levaria ao interior da casa.
“- Meus queridos,” – disse ele quando toda a família já encontrava-se reunida e confortavelmente acomodada na sala de estar – “vocês não sabem o quanto estou feliz por ter a todos vocês aqui. Não tenho como agradecer a você Severus, por ter salvo a vida de minha filha, de minha esposa e a minha própria. Venha cá e me dê uma abraço, figlio mio.”, continuou, ainda movimentando-se com dificuldade.
Severus aproximou-se e o abraçou. “- Fico muito feliz que você esteja bem e de volta à sua casa.”, disse ele, ajudando Ângelo a voltar a sentar-se.
“- Eu é que fico feliz pela paciência que você demonstrou com aquela gente do Ministério. Eles não têm mesmo o que fazer !”
“- Ainda bem que Gino Mazzetti estava presente ao inquérito.”, falou Marco.
“- Gino esteve no hospital um dia antes da sessão de inquérito. Havia sido convocado para participar e gostaria de saber a minha versão dos fatos. Você sabem que eu e ele somos amigos de longa data.”
“- Eu não tinha conhecimento de que ele foi visitá-lo.”, disse Virgínia. “- Ele deve ter ido ao hospital no momento em que eu voltei para casa a fim de descansar um pouco.”
”- Isso mesmo. Ele chegou um pouco tarde, fora do horário habitual de visita.”, respondeu o Dr. Gentili.
“- E Gino veio falar com o senhor por livre e espontânea vontade ou o senhor mandou chamá-lo ?”, perguntou Maria.
“- Ele veio porque quis. Gino é um homem decente e nunca gostou de Vittorio. Ele veio falar comigo muitas vezes quando você e Vittorio eram noivos. Dizia que não confiava nele e me chamava de pai relapso por não impedir o relacionamento entre vocês dois. Gino é um homem intenso, ele não conseguia entender que eu procuro dar aos meus filhos total liberdade para tomar suas próprias decisões.”
“- Sim, e o que ele queria saber ?”, perguntou Virgínia.
“- Só queria ter certeza de que Severus era confiável. Não há ninguém na comunidade bruxa que esteja alheio à fama de Severus como profundo conhecedor de feitiços defensivos e como Mestre de Poções. Gino só queria ouvir a minha opinião sobre o caráter de Severus pois ele sabe muito bem que eu, apesar de não me meter na vida pessoal de meus filhos, lhe diria com sinceridade o que penso a respeito do futuro marido de Maria. Quando viu que eu tenho por Severus a máxima consideração, ficou resolvido a acabar de vez com o inquérito antes que este pudesse nos trazer mais aborrecimentos.”
“- Gino deve ter ficado muito satisfeito com a conversa que teve com o senhor, papà. Ele calou a boca até mesmo da velha Mafalda Trotta quando ela começou a falar aquelas baboseiras habituais.”, disse Marco, sorrindo.
“- É mesmo ?”, perguntou Ângelo surpreso. “- Essa eu gostaria de ver. Mafalda tem sempre um argumento idiota para defender pessoas abjetas e criminosas.”
“- Mas esse é o trabalho dela, Ângelo. Ela funciona como promotora em casos de inquérito. É o que podemos chamar de advogada do diabo”, retrucou Virgínia.
“- Sim. Eu não discuto isso. Discuto apenas o prazer que ela parece ter em importunar a vida dos outros !”
“- Mamma, papà, vamos deixar isso para trás.”, disse Maria, apaziguando os ânimos. O importante é que nós estamos juntos. Apesar da morte de nosso querido Nero, nossa família saiu deste desastre contando muito mais ganhos do que perdas.”
“- Você está certíssima Maria.”, falou Jean Pierre. “- A família Gentili está mais unida do que nunca.”
“- Então vamos comemorar !”, exclamou Ângelo animadamente. “- E não há melhor maneira de fazer isso do que com uma lauta refeição ! Virgína, a quantas anda o almoço ?”
“- Está quase pronto e os elfos já estão colocando a mesa. Mas você não pode comer de tudo o que vê pela frente. O médico recomendou alimentação leve e balanceada pelos próximos 15 dias.”
“- Ah, sim. Isto significa que eu vou ter que passar as 2 semanas seguintes comendo folhas e frutas como se fosse um boi manso ! Nem pensar !”
“- Mas papà, são ordens médicas.”, protestou Maria.
“- E quem foi que disse que eu acredito em médicos ? Eu vou comer muito bem, obrigado. Senão, como terei forças para voltar à ativa ? Vou acabar raquítico se seguir à risca as ordens daqueles açougueiros.”
“- Está bem, está bem.”, contemporizou Virgínia. “- Mas não vá exagerar.”
“- Mulher, e quando é que eu exagero ? Sou um exemplo perfeito de controle à mesa. A gula não está listada entre meus pecados capitais.”
“- Isso porque você não considera a gula como pecado !”, retrucou ela.
“- Está bem, agora você me pegou. Mas como alguém pode ser feliz com o estômago vazio ? Severus, eu costumo dizer que há quatro direitos que um homem, ou mulher, deve ter e que são inalienáveis: um trabalho ao qual possa dedicar-se e onde possa ser útil, uma família que lhe dê apoio e suporte, um prato cheio de comida deliciosa à mesa nas refeições e uma cama confortável onde possa dormir e aproveitar outras coisas boas da vida, juntamente com sua cara-metade.”, disse o velho, piscando marotamente em direção a Virgínia.
“- Ângelo, não me faça vergonha !”, retrucou ela, completamente sem graça. “- Agora vamos todos para a mesa que o almoço já está servido.”
A família levantou-se em peso e se dirigiu para a mesa posta. O Dr. Gentili recusou a ajuda dos filhos, preferiu apoiar-se no braço que Severus lhe oferecia para levantar-se e também seguir na direção do delicioso aroma de comida que agora enchia o ar.
“- Severus,” - disse ele em tom confidencial, enquanto os dois caminhavam juntos para a sala onde a refeição era servida - “quero que saiba que jamais o condenarei por ter usado “Sectumsempra” contra Vittorio. Se eu estivesse em seu lugar, teria feito o mesmo, ou até coisa pior. Obrigado mais uma vez por salvar nossas vidas.”
“- Não é necessário o agradecimento, fiz apenas ....”
“- Apenas o que você considerava ser seu dever.”, completou Ângelo. “- Mas às vezes o que consideramos que seja nosso dever pode nos custar muito. Poderia ter custado sua própria vida.”, continuou o velho, com um sorriso triste nos lábios.
“- Perder a vida não seria preço tão alto a pagar, considerando que a única alternativa restante seria permitir que Maria, você e Virgínia fossem mortos. Não ... definitivamente minha vida vale muito menos do que a vida de qualquer um de vocês.”
“- Ah Severus, você é um homem de valor inestimável. Quero que saiba que, enquanto eu estiver vivo, jamais permitirei que duvidem de sua honra ou que contestem a sua moral.”
“- Eu já cometi de atos horríveis do quais tenho vergonha.”, disse Severus, com a voz carregada de culpa.
“- Sim, mas não é isso o mais importante, figlio mio. Todo nós cometemos erros, um mais graves, outros mais leves.”, falou Ângelo, agora parando e colocando a mão direita sobre o ombro de seu interlocutor. “- O mais importante é que aprendamos com os erros cometidos e tiremos deste aprendizado forças para continuar a vivendo e aprendendo. O homem não veio a este mundo para ter felicidade plena pois esta só existe na total ignorância.”
Severus parou por um segundo e ficou olhando pensativo para o homem que estava à sua frente. “- Eu jamais pensei sob esse aspecto.”, disse ele finalmente.
“- Quanto mais sei, mais sei que nada sei.”, continuou Ângelo. “- Essa frase é atribuída a um filósofo trouxa chamado Sócrates e resume nossa real finalidade neste mundo. Quanto mais aprendemos, mais queremos aprender e mais vemos que nada sabemos. Por isso, só tem felicidade completa aquele que nada sabe, que de nada tem ciência. Mas esses ou são loucos, ou são velhos gagás, ou são crianças recém-nascidas. E nós, meu caro, felizmente não fazemos parte de nenhuma destas três categorias.”
“- Não, definitivamente não fazemos.”, respondeu Severus com um sorriso nos lábios.
“- E nem queremos fazer ! Porque nós nunca vamos ficar loucos e muito menos caducos ! Agora vamos comer, que meu estômago já está a ponto de cometer autofagia!”
Os dois foram finalmente juntar-se ao resto da família que já os esperava para o almoço.
Enquanto fazia mais uma refeição cercado por aquela gente maravilhosa, Severus Snape refletia sobre os quatro direitos do homem segundo a concepção de Ângelo Gentili. Durante muito tempo em sua vida ele havia sido privado de todos eles, relegado a uma posição secundária, sentindo-se sem importância para o resto do mundo, sem família que o apoiasse, sem ter o que comer ou o que vestir, tendo por cama apenas um lençol estendido sobre chão nu, sem ter alguém que o amasse e o valorizasse. Mesmo após tornar-se adulto, por anos e anos a fio, ele havia sido condenado por si próprio a uma vida sem direitos, sem esperança, sem conforto e sem alegrias. Mas ali, cercado pelos Gentili, ao lado de sua amada Maria, Severus finalmente entendia e aceitava de bom grado que os quatro direitos inalienáveis do homem também eram seus. |