A Revelação e o Jogo...
Subiu lentamente as escadas para o apartamento. Não estava se entendendo. Os rapazes eram todos iguais. Eram apenas um jogo com que ela se divertia. Eram instrumentos impessoais, como a bola com que se jogava vôlei. Divertiam-na e davam-lhe uma impressão de energia, de força, de superioridade. Com Harry, era diferente. E ela não sabia por quê. Ouviu o barulho de alguém que vomitava no quartinho do corredor. Olhou para a porta fechada, imaginando quem estaria se sentindo mal. Era uma das coisas que mais a revoltavam naquela casa. Não se podia nem passar mal particularmente, pois o banheiro ficava no corredor.
Nisso, a porta do banheiro se abriu e o padrasto apareceu. Viu-a na porta da cozinha e disse-lhe:
− Apanhe depressa um copo de água para sua mãe, ela não está passando bem!
Ela encheu rapidamente um copo de água na pia e voltou para o corredor. A porta do banheiro estava aberta e ela viu a mãe, encostando-se muito agoniada à parede, enquanto o padrasto a sustentava. Peter tomou o copo e levou-o à boca de Katti. Esta lavou a boca, cuspindo a água no vaso e, depois, bebeu devagar o resto da água.
− Que é que há, mamãe? − perguntou então Mione.
− Nada... Senti-me enjoada.
− Mas... − murmurou Mione, admirada.
A mãe tinha um estômago de ferro. Nunca enjoara, a não ser quando estivera esperando Peter. Não podia ser de novo isso. O médico havia dito que ela não podia.
− Está bem, mamãe?
Katti assentiu com a cabeça. Ia dizer alguma coisa, mas o marido falou por ela.
− É claro que está bem − disse ele, rudemente. − Não há nada demais em uma mulher grávida vomitar.
− Não, mamãe! − exclamou Mione, sem acreditar. − O médico disse que era muito perigoso.
− Nem sempre a gente deve acreditar nos médicos − disse Katti, tentando sorrir. − A profissão deles é assustar os outros.
− Vai ser outro menino - disse Peter, orgulhosamente. − Já calculei tudo.
− Calculou tudo, não foi? − disse Mione, friamente.
− Claro! − disse ele, sorrindo.
− Veja então se calcula também como é que vamos comer quando mamãe parar de trabalhar. E calcule também como é que vai conseguir a sua cerveja, porque não sou eu quem lhe vai dar.
− Hermione! − gritou Katti. Mas era muito tarde. Ela já havia desaparecido e estava descendo rapidamente as escadas.
Katti voltou para o apartamento, sentindo-se muito fraca. Queria deitar-se um pouco. Talvez depois se sentisse melhor e aquela depressão desaparecesse. O Padre Janowicz tinha razão. Devia ter tido a coragem de contar tudo a Mione. Talvez assim a filha tivesse compreendido.
—Snape está com uma casa de jogo no salão dos fundos − disse
Malfoy.
Harry levantou os olhos e viu no rosto do amigo o brilho de exaltação que já conhecia.
− E daí? − perguntou Harry.
− Acho que vou até lá, Harry.
− Já se esqueceu do que seu pai disse? Se por acaso se meter ainda em alguma encrenca, ele o mandará para o interior pelo resto do verão.
− Não vou me meter em encrenca nenhuma. Estou apenas com vontade de jogar um pouquinho.
− Foi o que você disse da outra vez, e seu pai ficou furioso quando teve de ir tirá-lo da cadeia.
− Ele não vai saber − disse Malfoy, lembrando-se da vez em que tinha sido preso com uma turma que estava jogando dados nos fundos de uma garagem. − Snape diz que está bem protegido.
− Então vá - disse Harry. − O que acontecer será por sua conta e risco.
− Queria que você fosse comigo, Harry.
− Para quê? Não tenho dinheiro.
− Vou levar Mione e não quero que aquela gente comece a assediá-la assim que virar as costas.
− Por que não a deixa em casa então? − perguntou Harry com novo interesse.
− Não. Acho que ela vai me dar sorte − disse Malfoy, com o fingido desdém do jogador pelas suas superstições. − Acho que vou ganhar muito com ela ao meu lado.
− Você está é louco − murmurou Harry.
− Tem coisa melhor para fazer?
Harry abanou a cabeça. Estava pensando em Mione. Fazia mais de uma semana desde que a vira no elevador. Ainda não tivera coragem para procurá-la de novo.
− Vamos, então. Você precisa viver um pouco, Harry. Quer passar o resto da vida com o nariz metido dentro dos livros?
− Está bem, Malfoy.
Mione estava esperando no carro. Arregalou os olhos de surpresa quando viu Harry aproximar-se. Malfoy abriu a porta do carro.
− Há muito que espero reunir os dois − disse ele. − Mione, meu amigo Harry. Harry, esta é minha garota.
O rosto de Mione ficou vermelho, mas ela sorriu e estendeu a mão.
− Tenho ouvido falar muito em seu nome − disse ela.
Harry ficou um pouco embaraçado, mas seguiu a sugestão dela.
− Também eu tenho ouvido falar no seu − disse ele, apertando-lhe a mão, que vibrou visivelmente ao seu contato. Retirou prontamente a mão.
− Chegue mais para cá − disse Malfoy, entrando no carro. − Harry vai conosco.
Nem Mione, nem Harry falaram até chegarem à porta do dancing. Conseguiram uma mesa peno da pista de danças. Eram quase nove horas e o salão estava bem cheio. Malfoy pediu cerveja para si e Harry e um refrigerante para Mione. Correu a vista em torno, com os olhos cintilando.
− Vou cumprimentar Snape e saber a que horas o jogo começa.
− Com certeza, vai começar mais cedo do que devia − resmungou Harry. − Por que não dança antes com sua garota?
− Não. Dancem vocês dois. Vou ver primeiro como estão as coisas.
Mione levantou-se e Harry olhou-a, surpreso.
− Então? − disse ela, sorrindo.
Harry levantou-se e levou-a para a pista. A orquestra estava tocando um fox ligeiro. Sentiu-se estreitado, quando ela entrou no círculo dos seus braços. Tropeçou quase imediatamente, pisando-lhe o pé.
− Desculpe − murmurou ele com o rosto vermelho.
− Calma − disse ela, sorrindo. − Não vou comê-lo.
Dançaram durante algum tempo em silêncio e ela tornou a falar.
− Pensei que fosse procurar-me.
− Tenho andado muito ocupado. Além disso, você é a garota de Malfoy.
− Nunca lhe disse isso.
− Mas ele disse e você não contestou.
− Não posso impedi-lo de dizer o que quiser. E você não disse que me conhecia.
− De qualquer maneira, você não disse nada. E tenho a impressão de que não quis dizer.
A música parou, e ela se afastou dele. Harry seguiu-a até a mesa. Ela parou diante de Malfoy e disse:
− Quero cerveja.
− Está bem, menina, está bem − disse Malfoy, sem olhar para ela, voltando-se para uma porta nos fundos do salão. Harry puxou a cadeira para ela, e ela se sentou. Depois, empurrou o seu copo para ela.
− Beba este. Vou pedir outro copo para mim.
Ela pegou o copo e tomou um bom gole. Harry ficou pensando no que teria dito que a fizera zangar-se.
− Então? − perguntou ele a Malfoy.
− Estou esperando. O garçom ficou de vir avisar-me.
− Avisá-lo de quê? − perguntou Mione, admirada. − Pensei que tínhamos vindo dançar.
Malfoy olhou para ela quase como se fosse uma estranha.
− Explique-lhe, Harry − disse ele, com um gesto displicente.
Harry sentiu a raiva crescer-lhe dentro do peito. Malfoy não mudava.
Sempre deixava o desagradável para os outros fazerem.
− Explique você − disse ele.
Malfoy olhou para ele, com os olhos subitamente brilhantes.
− Que é que há com vocês dois? − perguntou ela.
Não responderam e ele disse a Mione:
− Vim para o jogo de que Snape me falou. É só isso.
Mione levantou-se num repelão.
− Para que me convidou então? Por que não disse logo?
Malfoy agarrou-a pelo braço e disse com um sorriso:
− Quis que você viesse para dar-me sorte. Tenho a impressão de que você vai dar certo comigo.
− E Harry? Você só o trouxe para tomar conta de mim?
− Foi, sim, Mione. Acha que eu iria facilitar com esse pessoal daqui? Harry, ao menos, é meu amigo e sei que posso confiar nele.
Harry olhou para ele e disse com um leve sorriso.− Não tenha muita certeza disso, Draco.
− Que quer dizer com isso? − perguntou Malfoy, fechando a cara.
− Você disse a verdade. Ela é mesmo formidável.
− Está bem, rapazes − disse Mione, sentando-se. − Podem começar a lutar por minha causa.
Os três começaram a rir, muito satisfeitos.
A testa de Malfoy estava visivelmente perolada de suor quando ele pegou os dados. Estendeu os dados para Mione na palma da mão e disse:
− Sopre para dar sorte, menina.
Mione soprou.
− Veja se ganha − disse ela, olhando para a pilha de dinheiro que diminuía diante de Malfoy. Ele não ia bem no jogo e ela calculou que já estivesse perdendo uns quarenta dólares.
− Sopre com mais força disse ele numa voz carregada de tensão, aproximando mais os dados dos lábios dela.
Mione tomou fôlego profundamente e soprou na mão dele. Notou como ele alisava os dados com os dedos. Abriu os dedos por um segundo e ela parou de soprar, olhando para ele, com os olhos arregalados. Por uma fração de segundo, os olhos dele ficaram frios e, em seguida, ele sorriu. Mas sabia o que ela havia visto.
− Obrigado, menina − disse ele, virando-se para a mesa.
Ela ficou imóvel, observando a mesa. Parecia impossível que ninguém tivesse visto. Compreendeu então. Malfoy tinha sido esperto. Os outros jogadores estavam com os olhos fitos nela.
− Vamos, dadinhos − exclamou Malfoy, com voz áspera.
Os cubos saíram rolando pelo pano verde, bateram na borda e voltaram. Rolaram, rolaram e afinal pararam. Era o maior ponto possível no jogo. Malfoy puxou o dinheiro com uma das mãos e com a outra pegou os dados. Começou a sacudir os dados na mão.
− Casem logo o dinheiro! − gritou ele. − Casem logo antes que minha sorte acabe!
Começou a fazer as apostas, e Mione se afastou da mesa, indo para onde estava Harry, que, encostado à parede, os observava. Sorriu quando ela chegou.
− Você dessa vez deu sorte.
Ela não teve qualquer expressão no rosto. Harry tampouco vira Malfoy trocar os dados.
− Para mim, chega. Quero ir embora − disse ela.
− Mas Malfoy ainda não acabou.
− Não faz mal. Quero ir.
− Vou dizer a Malfoy.
− Não. Deixe-o - disse ela, segurando-lhe o braço. Olhou para a mesa. Malfoy ganhara de novo e havia no seu rosto um ar de ardente exultação. − Ele já conseguiu o que veio procurar.
− Houve alguma coisa, Mione?
− Não. Apenas quero sair daqui.
− Está bem − disse ele, tomando-lhe o braço. Gritou então: − Já vamos, Malfoy.
O outro deu adeus displicentemente. Talvez nem tivesse compreendido o que Harry dissera. Estava sacudindo de novo os dados. A orquestra estava tocando quando chegaram ao salão de danças.
− Quer dançar? - perguntou Harry.
Ela sacudiu a cabeça e continuou a andar. Um homem bloqueou-lhe a passagem e disse:
− Alô, beleza.
Ela não o olhou. Virou-se para o lado para passar, mas o homem tornou a fechar-lhe o caminho.
− Está fugindo dos amigos? − perguntou ele.
Ela levantou os olhos e viu Severo Snape.
− Estou cansada e vou embora − disse ela secamente.
O sorriso desapareceu dos lábios de Snape. Ele olhou para Harry, e este encolheu os ombros. Snape deixou-a passar, mas estendeu a mão em frente dela.
Mione parou.
− Não sei o que é que há com você − disse Snape − Mas quando isso passar, tenho um lugar à sua espera aqui.
Pela primeira vez, ela mudou de expressão e disse:
− Obrigada, Sr. Severo. Olhe que posso aparecer e cobrar-lhe a promessa.
Em seguida, virou-se e começou a descer a escada.
− Obrigada por ter me trazido − disse a Harry, parando à porta de sua casa.
− Foi um prazer − disse Harry, sorrindo.
− Não tive a intenção de estragar sua noite.
Quando ela já ia entrando, Harry perguntou:
− Quando é que vou vê-la de novo?
− Não sei.
− Por quê? − perguntou ele, aproximando-se dela. − Porque é a garota de Malfoy?
− Não sou a garota de Malfoy, já lhe disse.
− Quando posso ver você?
− É difícil dizer. Termino o curso na semana que vem e tenho de procurar emprego.
Harry sentiu uma pontada de ciúme e disse sarcasticamente:
− Enquanto isso, irá procurar Malfoy. Ele tem dinheiro para gastar.
− E não vou procurar Malfoy. Ele pode pegar o dinheiro dele e fazer o que bem quiser. Pode dizer a ele que eu disse isso.
− Por que eu? Diga você mesma.
− Sabe muito bem por quê − disse ela friamente. − Vocês dois me levaram para lá, e você certamente sabia o que Malfoy ia fazer.
− Você também sabia que ele ia jogar dados. Por que vem com isso agora?
− Eu sabia que ele ia jogar, mas não que ia ser um jogo roubado. Não sabia que ele ia trocar os dados.
− Trocar os dados?
− Sim, quando ele me pediu que soprasse, sabia que todos estavam olhando para mim e que não prestariam atenção. Não me agrada ser cúmplice dessas coisas.
Harry deu um suspiro, compreendendo afinal por que ela saíra de repente.
− Você pode não acreditar, mas eu também não sabia.
Ela o olhou cheia de dúvidas.
− Não gosto disso também, Mione.
− Não sei. Eu poderia compreender se você jogasse assim porque precisa de dinheiro, mas Malfoy não precisa de nada.
− Não sabia disso, Mione, acredite − disse ele.
− Está bem − disse ela. − Acredito. Boa noite.
− Boa noite.
Viu-a entrar, e então tomou o caminho de casa.
Entrou na travessa que levava ao apartamento de sua família, no porão do grande edifício. Malfoy surgiu de repente da escuridão.
− Harry!
− Que é, Draco? − perguntou Harry, parando.
− Onde vocês se meteram? Ganhei mais de cento e vinte dólares!
− Mione quis ir para casa.
Malfoy não deu muita atenção ao que ele disse. Tirou uma maço de dinheiro do bolso.
− Quero dar a sua parte. Vinte dólares são seus.
Harry olhou para a mão estendida de Malfoy, mas não fez qualquer menção de pegar o dinheiro.
− Que é que há com você? Pegue.
− Não, muito obrigado. Não quero esse dinheiro. É todo seu.
− Não seja bobo. Pegue o dinheiro. Acha que tem veneno?
− Fique com ele, Malfoy. É todo seu. Foi você que o ganhou.
− Ah! Já sei! − exclamou Malfoy. − Mione deu com a língua nos dentes.
Harry nada disse, e Malfoy continuou, rindo:
- Foi muito fácil. Foi quase como tirar um bombom das mãos de uma criança, enquanto eles estavam olhando para Mione debruçando-se sobre a mesa, foi genial!
Harry continuou calado, e Malfoy bateu-lhe no ombro.
− Ora, rapaz, tome o dinheiro. Amanhã de manhã, você já estará vendo as coisas de maneira diferente.
− Não quero esse dinheiro! − exclamou Harry, fazendo um gesto brusco. Bateu na mão de Malfoy e o dinheiro caiu no chão.
− Que é que há com você?
− Nada. Apenas não gostei do que você fez. Enganou a pobre moça. Se você fosse surpreendido, todos nós teríamos de pagar, inclusive ela. Não seria tão agradável assim, não acha?
− Mas ninguém me pegou. Por que toda essa zanga?
Harry não respondeu. Malfoy se abaixou para pegar o dinheiro.
− Não compreendo por que você ficou assim. Espere aí − disse ele, levantando-se de repente. − Para onde foi que você a levou?
− Para a casa dela, já lhe disse.
− Demorou muito. Estou esperando você aqui há mais de uma hora.
− Fomos a pé. Meu pai nunca me deu um Buick.
− Não passou um instante pelo parque e não a levou para um canto escuro, para fazer uma porção de coisas com ela? A taradinha gosta disso, sabe?
Harry sentiu a cabeça estalar. Agarrou Malfoy e apertou-o de encontro à parede.
− Não fale dela assim!
− Então eu tinha razão! − exclamou Malfoy, triunfante-mente. −
Você ficou caído por ela! A garota é formidável, rapaz! Mas não se deixe enganar por ela. Aquela lá é de todo mundo.
Harry bateu com toda a força da sua raiva. A cabeça de Malfoy virou para trás e ele começou a cambalear, a boca sangrando. Harry recuou um pouco e disse-lhe:
− Da outra vez, aprenda a calar a boca.
Malfoy levantou-se e sentou-se no chão. Depois, levou a mão lentamente até a boca. Olhou para Harry, com os olhos fuzilando de raiva, apesar da dor que sentia.
− Você me paga, Potter − disse ele. − E vai me pagar dobrado.
− Quando você quiser!
− Sua hora chegará. Não se preocupe.
− Não estou preocupado − disse Harry, dando-lhe as costas e seguindo para casa.