Capítulo 13
Ab irato
Suas pernas estavam entrelaçadas, sua cabeça apoiada no peito dele; seus dedos se perdiam nos cabelos finos e seus olhos se fecharam para sentir mais da essência de Tom. Respirando lentamente seu cheiro e ouvindo com atenção a respiração e as batidas cadenciadas do coração daquele homem.
Era diferente da primeira vez. Parecia que estava deitada nos braços de outra pessoa que em praticamente nada lembrava o primeiro Tom. Mesmo que o beijo fosse o mesmo, o sabor era diferente; o toque era igual, sem pressa, delicado e quente, mas o cheiro era outro; os olhos continuavam sem respostas, mas o negro já não era negro.
Respirou fundo apenas para ter certeza de que não estava errada, perguntando-se uma, duas e até mesmo três vezes se estar nos braços dele era aquilo que realmente desejava.
Mais perguntas. As perguntas.
Aquilo que era mais importante do que as respostas que ele nunca lhe daria.
Sentou-se, observando o homem que dormia indefeso. Era como se visse a pintura de um anjo pálido, tranqüilo e de lábios tentadoramente avermelhados, pedindo para que fossem beijados para que dali pudesse extrair os licores da salvação e da imortalidade. Mesmo que soubesse que aqueles lábios apenas falavam de poder e mistério. Nunca a verdade.
Sentiu raiva.
Ela era poderosa, tinha os ventos, a água, o fogo, a terra e o éter ao seu lado. Se tinha a natureza inteira ao seu favor, por que se deixou levar? Como se deixou levar?
Ela poderia conseguir qualquer resposta que precisasse, ela tinha o poder e não ele. Não no começo, pelo menos. Era sua culpa o desenvolvimento dos poderes de Tom. Se ele agora era forte a culpa fora dela por dá-lo essa força, permitindo que usurpasse seu poder, manipulasse sua mente e tomasse sua alma.
Ela sabia que ele a iludira, mostrando os prazeres e as tentações do Éden. Fazendo com que desejasse estar ao seu lado e depois a tornando alvo de sua chantagem. Ginny sabia que era um fantoche. Mas isso não precisava durar mais.
Ela acariciou o rosto dele e se curvou; beijou os lábios de Tom, passando uma perna por cima do corpo adormecido, sentando-se sobre ele. Suas mãos afundaram nos cabelos negros, sentindo cada uma das particularidades da essência que ele derramava no éter. E então ele acordou e correspondeu ao beijo, segurando-a firmemente pela cintura, deixando que ela se conectasse a ele, prendendo-o em suas teias.
Ela matara por ele mais de uma vez. Tom ensinou-a que a vida era frágil e naquele momento ele era a mais quebradiça das peças. Não deixaria que ele lutasse, sugaria sua vida naquele beijo sem que ele soubesse, deixando-o fraco o suficiente para enfeitiçá-lo para levar sua alma corrompida embora. Assim seria livre para voltar para casa e abraçar seus pais e irmãos mais uma vez.
“Nai omoi”, Ginny sussurrou ao senti-lo entregue, mordendo os próprios lábios com força ao ponto de fazê-los sangrar.
Tom girou seu corpo, colocando-se por cima dela, tomando as citações por gemidos ou palavras sem sentido. Sentiu o gosto do sangue de Ginny invadir a sua boca no beijo que se seguiu.
“Nai naoi”, ela falou prendendo-o entre suas pernas e proferiu as três últimas palavras encarando os olhos dele. “Nai mira rëes”.
Tom parou e seu corpo desfaleceu sobre ela, adormecido em um sono enfeitiçado feito de sonhos passados e futuros. Sorriu, saindo debaixo dele, respirando fundo antes de proferir a maldição da morte que carregaria a alma de Tom para misturar-se ao éter pouco antes de anulá-la por completo.
E assim o fez.
E ficou surpresa ao ver que conseguira de forma tão fácil.
Não doeu como quando matou Miguel ou Dominique, talvez porque isso significasse liberdade;
Talvez por ser uma boa causa.
Sorriu mais uma vez, deitando sobre o peito de Tom, não ouvindo as batidas do coração, não sentindo a respiração. Desejou se levantar e dançar pelo quarto, pois estava livre, mas a dor no peito a impediu de fazê-lo.
O medalhão queimava contra a sua pele como ferro em brasa. Tentou se livrar dele puxando a corrente do pescoço, mas ela não se partiu. A jóia grudara em sua pele e a fazia gritar. Ela rolou pela cama e caiu no chão; a dor a fez delirar ao ver Tom, de pé, estendendo a mão para que se levantasse.
“Você não vai conseguir me matar assim, Ginny”, ele falou baixo.
“O que você fez?”, ela perguntou entre os gemidos de dor, olhando de um Tom para o outro.
Um continuava morto na cama, outro estava diante dela, imponente e intocado.
“Uma ilusão?”, perguntou-se, ficando de joelhos, tentando se levantar.
“Não, garota desafortunada. Sou real e, ao contrário do que você imaginou, tornei-me muito poderoso. A maldição da morte não irá me destruir, mesmo que você tente mais de uma vez”, ele falou e sorriu.
“Morra!”, ela gritou e seu peito ardeu ainda mais.
Ela deixou o seu corpo cair no chão, em meio aos gritos. As janelas se abriram, o vento se agitou, vidros se quebraram e a neve entrou sem pedir licença.
“Quem vai morrer é você, Ginny”, ele murmurou, ajoelhando-se ao lado dela e tocando seu rosto com delicadeza.
“Não!”, ela gritou, levando a mão ao pescoço dele, mas agarrou o nada em um quarto escuro.
“Ginny?”, ela escutou Tom chamá-la, calmamente.
Olhou a sua volta e tudo estava exatamente como antes, as janelas permaneciam fechadas, os vidros inteiros e o quarto escuro ainda era quente.
“Yumemi?”², ela perguntou para si mesma em voz alta, sentando-se e ensaiando se levantar. Tom estava deitado também, de lado, olhando-a.
“Não levante, permaneça assim. Você é muito bela, muito desejável, Ginny”, ele falou e ela forçou um sorriso, deitando-se novamente.
Ele a puxou para si, acariciando os cabelos vermelhos da mulher em seus braços e Ginny fechou os olhos. Estava tensa, precisava pensar, mas o peso do medalhão que carregava no pescoço não deixava, ao contrário: desde que começara a usar aquele medalhão sua mente estava turva. Sua própria essência estava descontrolada e podia sentir que deixava isso escapar, Tom percebia.
Yumemi... Há muito não era contemplada com uma viagem pelo futuro. Seria Deus lhe dando uma chance de escapar? De se questionar? Sentimentos que desconhecia se apoderaram dela e pela segunda vez na vida realmente desejou do fundo da sua alma extinguir a alma de alguém. De qualquer, forma era diferente de quando quis matar Dominique.
Agora não era apenas raiva e desejo de vingança... Era necessidade.
Se realmente aquele sonho fora um Yumemi, não poderia ser evitado. Tom seria imortal. Aconteceria de qualquer forma, mesmo que em uma situação diferente da mostrada pelo éter. E se Tom já fosse Deus? Ela saberia? Notaria? Se ela tentasse matá-lo naquele instante ele morreria?
No que estava pensando? Por que mataria Tom se também desejava Éden?
Encolheu-se e abraçou os joelhos, ao mesmo tempo em que sentia Tom se levantar da cama.
“Está quase na hora, Ginny”, ele comunicou, começando a se vestir. “Precisamos nos preparar para a nossa última parada antes de conhecermos o paraíso”.
-x-
Já era noite quando eles finalmente ficaram prontos.
“Para onde vamos?”, Ginny perguntou quando Tom abriu a porta e os dois saíram para o corredor escuro.
“Neste mosteiro guardam algo que eu preciso”, Tom respondeu, sem dar detalhes.
“Então vamos entrar em uma biblioteca como a do subterrâneo do mosteiro de nossa vila?”
“Não, Ginny. O que eu procuro não é um livro ou manuscrito. Vamos”, ele respondeu apressadamente, baixando o tom de voz.
Ela o seguiu ainda se perguntando o que procuravam. Lembrava perfeitamente que Tom havia dito que precisava encontrar alguns manuscritos em Paris, mas porque agora era diferente?
“O que precisamos achar?”, ela insistiu.
“Tire do meu caminho todas as pessoas que forem necessárias”, ele começou ignorando a pergunta feita. “Não quero ninguém por perto quando eu entrar na sala de reuniões”.
Ele continuou andando. Sua capa esvoaçando nos corredores mal iluminados. Ele sabia o caminho, ele provavelmente havia estudado cada passo daquele plano antes mesmo de conhecê-la. Tom sabia o que deveria fazer, onde precisava ir e o que procurava. Naquele momento, ficou ainda mais claro para Ginny que a única serventia dela era varrer na frente dele qualquer um que pudesse se tornar um problema. Então a jóia em seu pescoço pesou ainda mais e ela se perguntou quando ela seria varrida.
Respirou fundo e tentou se concentrar naquela missão, mas não captou nenhuma outra essência nos arredores, excerto a dela própria e de Tom. Entraram em um grande escritório por uma passagem dentro dos corredores do mosteiro, próxima aos jardins internos, por trás de uma das estátuas de anjo.
Era uma belíssima visão e praticamente toda adornada por quadros e peças esculpidas em ouro e pedras valiosas. Espalhados pela sala em estantes escuras estavam os livros e pergaminhos de aparência antiga; também viram uma mesa muito longa e com diversas cadeiras ao redor. Em um olhar mais atento, perceberam que no canto perto de uma das janelas havia um poleiro vazio e na parede logo ao lado encontraram uma espada prateada cravejada de rubis. Logo ela se tornou o foco das atenções de Tom.
Ele sorriu satisfeito.
“Lá está... A Sexta”, murmurou para si mesmo, adiantando-se.
Ginny o seguiu, surpresa ao ver aquela expressão na face de Tom. Cobiça. Ele queria aquela espada e ela não duvidava que ele tivesse feito tanta coisa para obtê-la. Viajara dias e atravessara o país para consegui-la; que importância teria aquela arma para que ele ficasse mais próximo de Deus? Seria com aquele objeto que ele lutaria contra o Criador?
“Tom, eu não entendo”, Ginny sussurrou, mas ele não prestou atenção.
“Apenas mais uma Ginny, falta apenas mais uma”, ele falou aparentemente fora de si. Ela viu o fulgor vermelho passar pelos olhos de Tom. “Quando eu transformar essa espada na Sexta, eu serei Deus”, ele completou e o medalhão em seu peito vibrou.
“Transformar a espada?”, perguntou atordoada. “Em quê?”
Não havia mais ninguém ali, então por que tanta perturbação no éter? Queria se concentrar para identificar a essência que sentia, mas não conseguia. Era como se algo a impedisse de se conectar com as forças da natureza ao seu redor. O ar estava pesado e Ginny não conseguia fazê-lo chegar aos seus pulmões normalmente.
“Ainda não posso entrar em detalhes”, ele falou, ignorando a agonia de Ginny e se aproximando da espada.
“Quer dizer que tudo o que precisamos é transformar isso e teremos o Éden?” ela perguntou se apoiando na parede.
O vento abriu as portas e as janelas da grande sala, deixando o ar frio e a neve entrar. Tom olhou para o pátio interno do mosteiro e, para sua surpresa, confirmou se estava vazio. Se não fora ninguém de fora que havia aberto as portas, que tinha sido? Só então olhou para Ginny e percebeu que algo errado estava acontecendo.
“O que há?”, perguntou, mantendo distância. “O que está fazendo, Ginny?”
“Eu não consigo controlar”, ela falou sem fôlego. “Algo está me confundindo, perturbando, eu...”
Ela caiu de joelhos e as velas se apagaram. Os vitrais se quebraram e gritos foram ouvidos do lado de fora. Tom desviou o olhar de Ginny para as portas e sua expressão era de incredulidade e fúria.
“Faça parar. Controle-se!”, ordenou, mas ela não escutava. “Preciso de mais tempo”.
Ginny caiu no chão e os seus cabelos escorregaram pelos ombros ao mesmo tempo em que seu corpo começou a se debater. O medalhão em seu peito vibrou ainda mais quando Tom se aproximou e estava extremamente pesado; confundia a sua cabeça, exalando uma essência que não podia existir em um objeto sem alma.
“Tem alguém na sala de reuniões”, Tom ouviu um dos criados gritar.
“Chamem o bispo”, era outra voz, no mesmo tom de urgência.
Tom se afastou, olhando mais uma vez para espada. Teria que deixá-la para trás, pois não iria arriscar todo o plano, não queria que desconfiassem. Podia voltar depois e conseguir o que queria, já tinha cinco delas – seis com o fragmento que permanecia em seu corpo – faltava apenas mais uma e essa poderia aguardar um pouco.
Escondeu-se entre as estantes quando três homens entraram no salão ao mesmo tempo. Logo depois dois padres entraram, acompanhados de um homem que trajava vestes roxas.
Ginny gritou pela primeira vez, atordoada pelo poder do medalhão.
“Jesus Cristo”, um dos criados murmurou, fazendo o sinal da cruz.
“Ela está possuída?”, o outro perguntou.
“Esse não é o criado do Padre Gabriel?”, perguntou o terceiro criado.
“Está com as mesmas roupas, mas é claramente uma mulher”, o padre mais velho respondeu. “Mas eu o vi quando eles chegaram e era homem! Como ficou com cabelos compridos?”, perguntou ao bispo.
“Obra do demônio”, ele sussurrou sombriamente.
Ginny gritou mais uma vez, pronunciando feitiços para tentar se controlar. Os ventos se agitaram e outro vitral se espatifou, fazendo os padres recuarem dois passos.
“Finite”, Ginny gritou, deixando lágrimas escaparem de seus olhos, enquanto suas articulações se dobravam em esparmos de dor. “Dae eth namu! Finite! Finite...”
“Bruxa...”
“Tom, me ajuda! Faz isso parar!”, choramingou.
Os padres se entreolharam.
"Tom?"
"Deve ser o nome do demônio que ela adora", um dos serviçais sugeriu.
“Pára!", ela berrou mais uma vez. "Finite... Finite Incantatem!”
Algo finalmente aconteceu.
Ginny parou de se debater, tomando fôlego de uma vez só. Arqueou as costas, abrindo os braços, gritando uma última vez. Os ventos pararam, as velas se acenderam instantaneamente e seu corpo caiu imóvel no chão. Tom se escondeu ainda mais entre as sombras quando os padres e serviçais se aproximaram para olhar Ginny mais de perto.
O bispo encarou a todos e falou sério.
“Prendam a bruxa na torre. Enviarei imediatamente uma carta à Inquisição”.
¹ “Nai omoi” “Nai naoi”, “Nai mira rëes”. “Sonhos do passado, sonhos do futuro, sonhos transformam-se em prisão” em Hïrico (língua criada por mim para o meu livro Elementais)
² Ato de ver e contemplar o futuro em sonhos.