Capítulo 12
Erga omnes
“Acorde”, ele pediu com a voz baixa, sussurrando em seu ouvido.
Ginny despertou dos seus pesadelos e encarou os olhos de Tom, muito próximos. Ele sorriu, satisfeito, indicando que ela olhasse para fora do coche. Estavam em Paris. A viagem de Nizza até ali durou quase vinte dias e ela estava satisfeita por rever sinais de civilização e mais ainda por saber que estavam muito próximos de alcançar o tão desejado sonho do Éden.
Tom puxou as rédeas e os cavalos pararam diante dos muros de um mosteiro. Ginny prendeu os cabelos, escondendo-os sob o nobre chapéu. Tom mudara os planos e não a colocaria dentro da corte, pois não queria levantar qualquer tipo de suspeita ao chegar à cidade ao lado de uma mulher. E se era assim, então que ela se passasse por homem. Seu criado, que permanecia próximo o suficiente para ser vigiado, mas discreto.
Desceram e Tom amarrou os animais em local apropriado, enquanto Ginny observava os arredores.
Havia muita gente, em todos os cantos, para todos os lados nas ruas e nas construções que chegavam a ter mais que três andares. Nunca vira tanta gente junta em sua vida, nunca sentira tanta perturbação em sua própria essência. O ar estava tão agitado que mal conseguia respirar direito, pois sentia o cheiro de cada uma das criaturas que estava ali chegarem até ela.
“Tom, eu não estou bem”, ela falou baixo, tentando não perder a consciência.
“O que há?”, ele perguntou, sem demonstrar nenhum sinal de que poderia sofrer do mesmo mal.
“O ar daqui é muito agitado e pesado. Os pensamentos são muitos, não consigo impedir que venham e as cores estão me deixando confusa”, falou rápido demais, mas ele entendeu perfeitamente.
“Vamos entrar”, pediu indicando o caminho como se conhecesse o local, mesmo sem nunca ter estado lá.
Eles adentraram na construção de pedras através das portas talhadas em carvalho. Ginny sempre se perguntava como pessoas que pregavam humildade e faziam votos de pobreza viviam em locais tão luxuosos. Então olhou para Tom e se lembrou de que ele era um padre e que fora por causa disso que tudo tinha começado. Perguntou-se se existiam outros como ele, se a Igreja pregadora da palavra de Deus abrigava em seu seio assassinos corruptos e descrentes. Depois se lembrou que Tom não era um descrente, ele acreditava no Deus dos cristãos, apenas não respeitava a sua superioridade.
Apenas?
Ginny fechou os olhos e suspirou, tentando acalmar o ar a sua volta. Onde estava a sua sanidade quando decidiu ir com ele? Não seria melhor ter arriscado tudo? Ficar e lutar com a sua família. Eram bruxos de verdade, não morreriam por qualquer coisa lutando contra seres sem magia. Ainda poderia fugir? Daria tempo? Nos últimos dias tinha voltado a se fazer perguntas, que há tanto já havia desistido por não ter respostas e por acreditar que já pertencia a Tom. Que não havia volta.
“Ginny”, ele sussurrou e ela retornou de suas reflexões. “Este mosteiro guarda algo que eu preciso e, essa noite, o pegaremos”.
“Tão rápido?”, perguntou surpresa. “Tom, não acha que deveria ser mais prudente?”, ela aconselhou.
“Estou perto demais para esperar, Ginny. Não agüento mais esperar”.
Definitivamente ele estava diferente. Tom aguardaria; Tom planejaria; Tom esperaria quanto tempo fosse necessário para ter certeza de que tudo sairia certo. Fora assim quando ele a conheceu, aguardando o momento mais propício para encurralá-la com provas de que ela era uma bruxa. Bolara um plano perfeito, ameaçara a sua família, agregara aliados. O que ele pretendia agora? Estavam mais fortes, mas ainda assim sozinhos.
Ele estava sozinho, pois ela o deixaria.
Continuou caminhando ao lado dele e foram recepcionados por um padre idoso, usando ouro demais para ser considerado humilde. Ele sorriu ao ver Tom e logo Ginny percebeu que aquele senhor já deveria se corresponder com ele por cartas. Tom era excelente com palavras e sabia envolver, conquistar, enganar e fazer com que a pessoa se entregasse a ele e fizesse o que desejava. Era um dom. Um dom que ele dizia que fora dado por deus sem saber que aquilo poderia causar sua própria destruição.
Tom não era humilde. Ele sabia que podia fazer qualquer coisa e ter tudo, se quisesse.
“Como foi a viagem?”, o homem perguntou em latim.
“Extremamente cansativa”.
“Este é o seu criado?”, o padre perguntou e Tom confirmou com um aceno. “Imaginei, embora seja realmente interessante”.
“Algum problema dele permanecer aqui? Se assim for, não me incomodo de colocá-lo em uma estalagem”.
“Problema nenhum, Padre Gabriel, mas geralmente os criados são mulheres. Belas mulheres, diga-se de passagem, você sabe”, ele falou com um sorrisinho afetado. Ginny sentiu nojo do homem.
“Sim, eu sei, mas prefiro seguir fielmente os votos que fiz”, Tom respondeu em seu tom de voz mais educado.
“Compreendo”, o padre falou sem dar muita importância. “De qualquer forma, seja bem vindo. Espero que possamos contribuir com os seus estudos”, falou.
“Muito obrigado”.
“Agora posso levar seu criado para os aposentos junto aos demais?”, ele perguntou.
“Não. Ainda precisarei dele para me ajudar a arrumar as coisas e repassar algumas instruções. Temos alguns baús no coche”.
“Não se preocupe que quanto aos baús, já mandei alguém cuidar disso, entre e conheça o seu aposento, mais tarde envio algum criado para apresentar o seu aos demais”.
“Grato”.
O homem os deixou diante de uma porta dupla em um corredor comprido e Tom a abriu. Ginny entrou logo em seguida e se deslumbrou com o tamanho do aposento... Os padres franceses viviam muito bem ao que parecia.
O quarto tinha grandes janelas, embora estivessem fechadas para evitar que o frio do inverno incomodasse. Havia castiçais dourados por toda a parede, com velas acessas, iluminando tudo. A cama era grande demais para um padre que supostamente deveria dormir sozinho e confortável demais para alguém que fizera votos de pobreza.
“Agora vejo porque há tantos querendo se tornar clérigos em Paris”, Tom falou sem conseguir esconder a divertida surpresa. “Tranque a porta”, ele pediu.
Ginny não questionou. Caminhou até a porta e girou a chave uma vez. Parou ao sentir que Tom estava bem atrás dela, segurando-a pela cintura, aproximando o rosto lentamente do seu pescoço. Sentia a respiração dele cada vez mais próxima e seu coração acelerou. Fechou os olhos quando ele a beijou no rosto e tirou-lhe o chapéu, deixando seu cabelo comprido cair soltos nos ombros. Ela girou a chave mais uma vez e se virou para encará-lo.
“Hoje a noite estarei mais próximo de Deus do que nunca estive”, ele murmurou, empurrando-a delicadamente contra a porta. “Falta tão pouco que eu quase posso sentir o desespero Dele. Serei eu contra ele e contra todos que interferirem”, murmurou, encostando sua testa a dela, tocando os lábios dela com a ponta dos dedos, enquanto encarava os olhos castanhos que resistiam em se fechar.
Ele segurou o rosto de Ginny entre as suas mãos e roçou seus lábios nos dela.
“Feche os olhos e se entregue para mim mais uma vez, Ginny”, sussurrou.
Ela sequer questionou.