Capítulo Nove:
Narrado por Fred Weasley
Após o jogo vitorioso de quadribol, tudo parece ter desandado. Eu sei. Você deve estar pensando que eu sou um idiota por pensar desta maneira principalmente depois de um jogo ótimo como aquele que tivemos, depois do papel que representei em nossa vitória e depois de uma briga bem sucedida - ou quase - na qual o único a apanhar de verdade foi Malfoy, embora eu e Harry não termos ficado em melhor estado do que ele.
Mas sou capaz de te fazer acreditar que mesmo depois de tudo isso as coisas pioraram de leve e quase imperceptívelmente. Depois do jogo, fomos expulsos do quadribol pelo resto de nossas vidas produtivas e Angelina parecia péssima com algo que não queria me contar de maneira alguma. Eu perguntava à ela todas as vezes p, ossíveis o que havia acontecido de errado para que estivesse assim, mas ela nada me dizia. Ao contrário de nós dois, Jorge não poderia estar mais feliz. E eu não fazia a menor idéia do porquê. Ele também não me dizia.
Voltamos nossas atenções para as tarefas diárias: cuidar de desviar o caminho de Filtch para a Sala Precisa; atasanar a Umbrige; fazer as redações e estudar para as N.O.M.S; comparecer à todos os treinos de quadribol - apenas para assistir, pois estávamos expulsos. E apenas uma das minhas tarefas diárias parou de ser feita e essa era a que eu mais sentia falta: Angelina.
Nós estávamos juntos havia alguns poucos meses, escondido de Jorge e de toda a Hogwarts. Ninguém mais sabia que a Sala Precisa tinha outra utilidade além das reuniões da AD.
Porém, depois daquele maldito jogo, os encontros pararam de acontecer. Eu a convidava, mas Angelina arrumava razões ou coisas para fazer e nós acabávamos não indo. Ela estava extremamente distante de mim e de Jorge. Nós não entedíamos o por que e sempre que perguntávamos ela desviava o assunto.
Depois de um pequeno período de tempo na mesma situação, eu finalmente entendi - ou pensei ter entendido - o que estava acontecendo com Angelina. Me parecia tão óbvio que me surpreendi de não ter reparado antes. Me parecia tão fácil que me surpreendi de ter medo disso antes. E o que era melhor: eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa no momento, que me surpreendi de já tê-lo feito.
Me perguntei se ela merecia. Depois de tantas semanas me ignorando, eu não sabia se ela merecia tal atitude. Mas disse à mim mesmo que devia ser pelo fato de eu não ter dado essa determinado passo, que ela estava agindo daquela forma. E, afinal, não adiantava tentar entender. A mente feminina é um dragão de sete cabeças: se você não souber domar, não vai conseguir compreender.
Nossa, essa tentativa de filosofar foi de péssimo rendimento. Voltando ao asssunto...
Eu estava voltando de uma detenção que havia conseguido com o Filtch por caçoar de Snape na ilustre companhia de Jorge, claro. Não fora tão ruim assim; conseguimos dar boas risadas com as coisas que achamos em sua gavetinha, quando ele nos deixou um minuto sozinhos: uma declaração de amor à Umbrige amassada em uma bolinha de papel. Ilário. Sem contar que essa descoberta nos deu uma idéia ótima.
- Podemos fazer uns bombons com aquela poção em que venho trabalhando para o Kit Mata-Aula. - Jorge ia dizendo.
- E endereçar ao Filtch, dizendo que foi a própria velha sapa quem mandou. - completei.
- Ele vai adorar com toda a certeza. - aprovou Jorge.
Andamos em silêncio por algum tempo, observando os quadros que já dormiam, afinal, já era noite. Sabíamos que Angelina estaría nos esperando na sala comunal e isso me fazia pedir mentalmente que tudo já estivesse voltado ao normal, embora que eu mesmo não acreditasse nisso em nenhum momento.
- Jorge, você sabe o que aconteceu com Angelina nos últimos dias? - perguntei. Essa seria a primeira vez que eu e ele teríamos uma conversa a respeito disso. E não havia motivos para não ser agora.
Ele me olhou com curiosidade.
- Para falar a verdade, eu achava que talvez você soubesse de algo. - ele pausou. - Ela esta meio distante, não acha? - perguntou.
- Sim. - respondi, desapontado.
Peguei-me divagando sobre o que poderia ser feito para que ela voltasse ao normal. Eu nunca havia admitido nem mesmo para mim mesmo que ela fazia falta. Muita, por sinal. Parecia que ambos - eu e Jorge - ficávamos incompletos sem a presença dela; as brincadeiras feitas já não surtiam o efeito desejado pela falta de cálculo, que era sempre a parte dela nos planos. Não havia ninguém para nos lembrar das consequências de nossos atos e deixávamos mais lições sem fazer do que antigamente. Muita falta.
- Não entendo. - comentei. - Ela parecia tão bem! E foi logo depois de um jogo ganho que ela começou a ter esse comportamento...
- ... sem motivo. - ele completou para mim.
- Sabe, ela me faz uma falta particularmente forte. - deixei escapar, sabendo que precisava desabafar. Jorge era sempre a pessoa que escutava meus lamentos. Tínhamos um pacto: eu escutava os problemas dele e ele escutava os meus.
- Não sei se há diferença entre a falta que ela faz em nós dois. - retrucou ele. Parecia temeroso e irritado ao mesmo tempo. Sua expressão se dividia entre as duas emoções.
- Não acho que seja. - eu disse, com calma. - Você não esta sabendo de tudo o que anda acontecendo. - completei.
Você deve estar pensando que eu sou um canalha por estar prestes a contar ao meu irmão um segredo entre eu e minha suposta namorada. Deve estar me xingando de todos os nomes que conhece e dizendo que eu com certeza vou acabar mal nessa história pelo fato de estar revelando os segredos que a autora me proibiu de mencionar. Mas eu pouco estou me lichando para você agora. Precisava compartilhar com alguém a dor de perder uma paixonite da qual ninguém tinha conhecimento. E talvez nem eu mesmo.
Jorge parou e voltou a me encarar com aqueles olhos que transmitiam medo de saber o que eu estava prestes à dizer para ele. Eu mesmo estava apavorado com a idéia.
- O que quer dizer? - perguntou-me ele.
- Eu e Angelina... - comecei. - Estávamos juntos... ou quase. - disse. Ambos estávamos parados agora, olhando um para o outro, no meio do corredor.
- Juntos?
- Sim. - concordei. - Em segredo. Ela não queria te contar. Achava que você fosse se sentir excluído. - eu ri. - Eu nunca acreditei que você fosse se sentir assim, mas queria ficar junto dela e acabei concordando.
Jorge balançou a cabeça afirmativamente como se estivesse analisando a situação.
- Acho que já sei qual é o problema dela... - comentou.
- Eu também. - disse. - Todos esses meses e nós só estávamos ficando. Acho que ela esta triste por pensar que eu não quero nada mais sério com ela. O que não é verdade.
A face de meu irmão empalideceu e ele fechou os punhos, como se ouvir aquilo fosse difícil para ele; como se ele temesse isso, igual à um pesadelo que se transforma na realidade violenta de um acontecimento mútuo. Meu Merlin, essa frase nem eu entendi. Focando no assunto...
Ignorei a reação dele e continuei:
- Vou fazer alguma coisa. - disse, determinado. - Vou estabelecer uma relação séria com ela. Nós nos gostamos e não temos nada a perder.
- É... - Jorge disse, sua voz estava sem o ânimo que eu esperava.
- O que foi? - perguntei, confuso com a reação dele e finalmente dando atenção à esse detalhe.
- Nada. - respondeu. - É meio estranho pensar em você tendo uma 'relação séria' com alguém. - ele fez aspas com os dedos ao proferir essas palavras.
Aquilo me pareceu plausível.
- Vamos. - chamei. - Tenho certeza de que ela estará nos esperando na sala comunal e pretendo aproveitar o momento.
......................................................................................................................................................................................................
O resto do caminho para a sala comunal era pequeno e nós o percorremos em alguns poucos minutos. Sem falar, no entanto, nenhuma palavra sequer. Você é capaz de pensar que talvez eu não mereça nenhuma palavra de encorajamento com relação à situação vivida no momento pelo fato de eu ter contado ao meu irmão um segredo que eu e Angelina lutamos para proteger nos últimos meses.
Mas não pude deixar de esperar que Jorge me dirigisse algumas dessas palavras. Talvez um 'Boa sorte!', ou um 'Você vai conseguir', fossem me ajudar, mas nem isso eu tive o prazer de ouvir sair da boca do meu companheiro. O que verdadeiramente me assustou e tentei não demostrar meu desapontamento ao chegarmos em frente ao quadro da Mulher Gorda.
Eu disse a senha quase que automaticamente. Estava concentrado na garota que pediria em namoro em alguns poucos minutos. Nossa! Isso está me parecendo a coisa mais melosa que eu já pensei na minha vida.
Passamos pelo quadro que dava diretamente na sala comunal da Grifinória. O ambiente estava quente por causa da lareira, levando em conta que estávamos à um mês e meio do Natal. As poltronas estavam todas vazias por conta da hora, exceto por uma delas, ocupada por uma morena concentrada em um livro especificamente fino em seu colo. Estranhei. Angelina sempre preferiu os livros mais grossos.
- Oi. - anunciei nossa chegada, visto que Jorge não o faria. Nós nos sentamos no sofá de dois lugares em frente à poltrona de Angelina.
A garota levantou os olhos do livro e se levantou de súbito; o que me assutou.
- Onde é que vocês estavam? - ela rugiu para nós.
Eu e Jorge nos entreolhamos, preocupados com esta explosão dela.
- Detenção. - respondemos juntos.
- Deviam ter voltado da detenção à uma hora! - acusou.
- Esqueceu que estávamos em uma detenção com o Filtch? - perguntei.
- E essa detenção foi mandada pelo próprio Snape. - acrescentou Jorge.
- A que horas você pensava que voltaríamos? - perguntei, terminando o diálogo.
Angelina se endireitou e ajeitou os cabelos negros, jogando-os para trás. O movimento foi tão elegante que senti uma sombra de admiração dominar minha face e não tentei escondê-la.
Ela levantou uma sobrancelha para nós, cruzando os braços.
- O que vocês estavam aprontando? - perguntou diretamente. Calma e direta. Quando nos fazia essas perguntas ela costumava ser assim, para não nos deixar escapatória.
Foi Jorge quem respondeu:
- Basicamente... Nada.
- Nada? - ela perguntou irônica.
- Nada. - confirmamos juntos. - Apenas dando uma volta pelo castelo. - acrescentei sozinho.
Angelina encarou nós dois, um por um, antes de relaxar. Ela balançou a cabeça afifrmativamente e soltou um 'certo', antes de pegar seu livro e começar a se dirigir para as escadas que levavam aos dormitórios.
- Espere, Angie. - pedi, pegando a mão dela, virando-a para mim. - Quero conversar sobre algo sério antes de você sucumbir ao prazer que o sono lhe proporciona. - acrescentei cordialmente.
- Estou cansada. - ela disse tentando se soltar.
- Conversar não cansa. - argumentei.
- Então não me chame de 'Angie'. - pediu, voltando à poltrona em que estava anteriormente e cruzando os braços, esperando que eu falasse algo.
Com um sorriso incontrolável no rosto, sentei-me do lado de Jorge de novo, que parecia extremamente irritado agora, e já não tentava esconder. Irritação parecia uma espécie de nervosismo, que eu não reconheci.
Voltei minha atenção para a garota postada à minha frente.
- Angie, venho notando uma diferença no modo como você vem me tratando nos últimos tempos. - comecei.
- Ele não é o único. - Jorge resmungou. Olhei para ele em um pedido que claramente dizia: 'Cale a boca! Estou tentando dizer algo importante e que não lhe diz respeito.' Ele pareceu entender. - Desculpe. - disse.
Olhei para Angelina que me observava com indiferença.
- Como eu estava dizendo, você esta me tratando diferente. Só fala comigo quando é muito necessário. Não comparece mais aos encontros que eu marcava na Sala Precisa e quando eu lhe perguntava porquê, você desconversava e arrumava desculpas. - continuei.
Ela arregalou os olhos para as minhas afirmações. Prendeu a respiração. Pude perceber isso. Angelina começou a mordiscar o lábio inferior, como costumava fazer quando esta nervosa. Não sabia se interpretava isso como uma reação boa, ou ruim.
- Não há diferença. - ela discordou em um murmurio nervoso. Era tão baixo que eu não sabia se havia entendido direito. Talvez eu só tivesse imaginado.
- Sim. Há diferença. E você sabe disso. - apontei meu dedo indicador para ela, como uma acusação. - A questão é que eu descobri o porquê.
A força de minhas palavras me sobressaltou.
Jorge soltou um gemido de desgosto completamente audível. As mãos de Angelina soltaram o livro - que caiu no chão - e foram parar na boca dela, enquanto seus olhos se arregalavam e sua respiração se soltava de uma vez, em um arfar pesado e quase doentio. Observei meu irmão esconder o rosto na mão e balançar a cabeça negativamente, como se não acreditasse que aquilo estava acontecendo.
Levantei minhas mãos em um gesto de rendição, pedindo a ambos que se acalmassem. Nenhum deles pareceu notar, exceto Jorge, que levantou a cabeça e disse:
- Acho que não é exatamente isso que você esta pensando... - ele começou a dizer, mas eu o interrompi com um gesto de mão.
- Não adianta tentar me impedir, Jorge. - cortei sua tentativa de persuação.
- Sinto muito. - deixou escapar Angelina. - Juro que não queria ter feito isso, mas eu... - eu a interrompi com o mesmo aceno de mão que usei com Jorge. Ela se calou.
- Não se explique. - pedi. - Eu já sei o que esta acontecendo. - me postei diante dela, de pé. - Decidi que, para resolver tudo isso, eu quero estar com você oficialmente. Jorge já sabe de tudo. Contei para ele de nós dois. E estou pronto para assumir um relacionamento com você Angie. Temos dezesseis anos e eu acho que já está na hora.
Não sei exatamente se o que vi deveria me deixar alegre ou não.
Jorge soltou outro gemido de desgosto e voltou a esconder o rosto nas mãos. Angelina adotou uma expressão de alívio que logo foi substituída por um expressão assustada. Lágrimas vieram aos olhos dela.
- Aceita? - perguntei, pegando as mãos dela.
- O que? - ela me perguntou.
- Namorar comigo? - acrescentei.
Sem aviso, ela soltou as mãos das minha e começou a chorar.
- Eu... Eu... - ela correu em direção ao quadro da Mulher Gorda, empurrou-o e foi embora.
Fiquei observando, sem entender, o quadro se fechar e ouvi seus passos morrerem conforme ela se afastava. Sentei-me na poltrona, onde outrora ela estava sentada e senti o calor que o corpo dela deixara ali. Estava meio tonto. As coisas aconteceram com uma rapidez assustadora.
Havia sido tão ruim assim? Eu havia errado tão feio ao constatar qual eram os sentimentos dela? E Jorge ainda me avisou que talvez não fosse essa a razão para as atitudes recentes dela.
Por Merlin, como ela era complexa!
- Acha que fiz mal? - perguntei à Jorge.
- Eu tentei avisar. - respondeu ele.
- Não foi isso que eu perguntei. - retruquei.
Ele suspirou e levantou a cabeça das mãos para me encarar.
- Só acho que deveria ter insistido em falar com ela sobre o assunto antes de ir tomando parte dos sentimentos dela. - critiou ele. Certo, isso me assustou.
- Desde quando você é expert em indivíduos do sexo feminino? - perguntei, com um riso tenso.
- Não sou expert em nada. - ele discordou. - Mas isso é o básico e você praticar com a Mamãe. - brincou fracamente. Era um momento estranho.
- Ela nem me respondeu. - resmunguei aflito.
- A Mamãe?
- Não, idiota. Angelina. - ele estava tentando fazer piada daquilo, mas eu não estava achando graça alguma naquilo.
- Ah.
- Só isso? - perguntei.
Ele me olhou confuso.
- Só isso que? - perguntou.
- Só isso que você me diz? Um simples 'Ah'? Eu acabei de levar um fora! - disse indignado.
- O que quer que eu diga? - perguntou.
- Não sei. Mas eu esperava alguma palavra de consolo. - comentei.
Jorge suspirou e se ageitou no sofá, desarrumando os cabelos e soltando um bocejo longo.
- Primeiramente, você não levou um fora; ela apenas saiu correndo sem te responder. Pode haver várias razões para ela ter feito isso. - argumentou.
- Por exemplo?
- Razão número um: ela te deu um fora quando se afastou de você, mas o seu cérebro é muito cheio de si para dar conta disso. Razão número dois: ela pode estar confusa com a sua mudança repentina. Razão número três: ela pode estar gostando de outra pessoa. - ele finalizou.
Encarei-o com curiosidade no olhar.
- Não pode ser nenhuma dessas razões. - finalizei.
- E porque não? - ele perguntou.
Pensei a respeito. Angelina não era do tipo que saia correndo em uma situação desse tipo. Se ela não gostava do garoto, deixava isso bem claro, para não dar esperanças ao coitado.
- Por que Angelina é o que se pode chamar de 'pessoa sincera'. Se fosse para ela me dar um fora, já o teria feito. - expliquei.
- Ela não te daria falças esperanças. - concluiu Jorge.
Respirei fundo. Isso era com toda certeza um problema que eu não havia previsto.
- O que mais me intriga - desabafei. - é a expressão no rosto dela quando eu disse que havia descoberto o porque de ela estar agindo daquela maneira. Como se eu tivesse descoberto uma coisa que não devia. - acrescentei.
Jorge engoliu em seco com um ruído bem audível.
- Percebi isso também. - ele comentou. - Mas não tenho a menor idéia do que seja. - disse quando eu estava prestes a perguntar se ele sabia de alguma coisa que não era do meu conhecimento.
Baixei meus olhos para o tapete listrado de vermelho e dourado no chão da sala comunal. Comecei a contar as listras calmamente, voltando ao inicio quando me perdia. Havia dado um número ímpar, o que me pareceu incorreto. Por isso comecei mais uma vez. Não entendia exatamente o motivo, mas a contagem das listras tinha que dar um número par.
Desisti.
Voltei minha atenção para o fogo que ainda crepitava vivo na lareira, esquentando o ambiente. A chama não fazia efeito em mim, pois me sentia tão frio como quando chegamos da detenção.
- Angelina é muito complexa. - deixei escapar em meio as minhas divagações. Sem perceber, estava associando as listras do tapete e o fogo da lareira, com a garota que a pouco estivera na sala.
Ela era quente, mas sabia ser fria quando queria. Ela era favorável, mas sabia ser o contrário quando bem entendia.
Incompreencível? Não. Ela apenas mudava de idéia e mudava de novo. Ela não sabia ser permanente e eu sempre respeitei isso da melhor maneira possível.
- Quer que eu tente falar com ela? - ofereceu Jorge. - Descobrir o que se passa naquela cabeça confusa de adolescente problemática?
'Não', eu queria dizer. Sabia que era eu quem tinha que fazer isso. Jorge nada tinha a ver com o assunto e não era obrigação dele descobrir o que se passava com ela. Era minha obrigação. E eu queria poder dizer a você, leitor, que isso que eu fiz. Gostaria de dizer que eu me levantei daquela poltrona surrada e me dirigi ao quadro da Mulher Gorda. Gostaria de afirmar que eu a encontrei chorando pelos corredores do castelo e que conversei com ela sobre tudo. Adoraria deixar claro à você que eu resolvi tudo. E que nós dois estávamos juntos agora.
Mas tudo isso tinha tanta chance de acontecer, quanto a chance de Percy voltar a falar com a nossa família. Se eu disser que aconteceria, seria mentira.
Mesmo porque, não foi isso que aconteceu. E eu era covarde demais para ter a bondade de dar as caras para a garota que me deu um fora, sem nem ao menos me responder.
- Quero. - respondi para Jorge.
Ele deu um tapinha de consolação em meu ombro antes de ir a passos largos até o quadro da Mulher Gorda.
Observei, desolado, quando ele desapareceu pelo quadro, exatamente como Angelina fizera minutos atrás.
Antes de seus passos desaparecerem, eu já estava arrependido.
......................................................................................................................................................................................................
N/A: mais um cap. E nenhum cometário. Mas fiquem tranquilos, porque isso não me afeta. Quando eu começo uma coisa, dificilmente desisto dela. Por isso vou continuar escrevendo o máximo que eu puder, pois isso agrada a mim mesma, já que eu não tenho nenhum leitor. Trágico, não?
De qualquer forma, estou tendo idéias novas que estão apenas iniciadas, mas que logo estarão postadas. (eu acho)
Não custa nada pedir comentários, portanto...
COMENTEM!
Capítulo Nove:
Narrado por Fred Weasley
Após o jogo vitorioso de quadribol, tudo parece ter desandado. Eu sei. Você deve estar pensando que eu sou um idiota por pensar desta maneira principalmente depois de um jogo ótimo como aquele que tivemos, depois do papel que representei em nossa vitória e depois de uma briga bem sucedida - ou quase - na qual o único a apanhar de verdade foi Malfoy, embora eu e Harry não termos ficado em melhor estado do que ele.
Mas sou capaz de te fazer acreditar que mesmo depois de tudo isso as coisas pioraram de leve e quase imperceptívelmente. Depois do jogo, fomos expulsos do quadribol pelo resto de nossas vidas produtivas e Angelina parecia péssima com algo que não queria me contar de maneira alguma. Eu perguntava à ela todas as vezes p, ossíveis o que havia acontecido de errado para que estivesse assim, mas ela nada me dizia. Ao contrário de nós dois, Jorge não poderia estar mais feliz. E eu não fazia a menor idéia do porquê. Ele também não me dizia.
Voltamos nossas atenções para as tarefas diárias: cuidar de desviar o caminho de Filtch para a Sala Precisa; atasanar a Umbrige; fazer as redações e estudar para as N.O.M.S; comparecer à todos os treinos de quadribol - apenas para assistir, pois estávamos expulsos. E apenas uma das minhas tarefas diárias parou de ser feita e essa era a que eu mais sentia falta: Angelina.
Nós estávamos juntos havia alguns poucos meses, escondido de Jorge e de toda a Hogwarts. Ninguém mais sabia que a Sala Precisa tinha outra utilidade além das reuniões da AD.
Porém, depois daquele maldito jogo, os encontros pararam de acontecer. Eu a convidava, mas Angelina arrumava razões ou coisas para fazer e nós acabávamos não indo. Ela estava extremamente distante de mim e de Jorge. Nós não entedíamos o por que e sempre que perguntávamos ela desviava o assunto.
Depois de um pequeno período de tempo na mesma situação, eu finalmente entendi - ou pensei ter entendido - o que estava acontecendo com Angelina. Me parecia tão óbvio que me surpreendi de não ter reparado antes. Me parecia tão fácil que me surpreendi de ter medo disso antes. E o que era melhor: eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa no momento, que me surpreendi de já tê-lo feito.
Me perguntei se ela merecia. Depois de tantas semanas me ignorando, eu não sabia se ela merecia tal atitude. Mas disse à mim mesmo que devia ser pelo fato de eu não ter dado essa determinado passo, que ela estava agindo daquela forma. E, afinal, não adiantava tentar entender. A mente feminina é um dragão de sete cabeças: se você não souber domar, não vai conseguir compreender.
Nossa, essa tentativa de filosofar foi de péssimo rendimento. Voltando ao asssunto...
Eu estava voltando de uma detenção que havia conseguido com o Filtch por caçoar de Snape na ilustre companhia de Jorge, claro. Não fora tão ruim assim; conseguimos dar boas risadas com as coisas que achamos em sua gavetinha, quando ele nos deixou um minuto sozinhos: uma declaração de amor à Umbrige amassada em uma bolinha de papel. Ilário. Sem contar que essa descoberta nos deu uma idéia ótima.
- Podemos fazer uns bombons com aquela poção em que venho trabalhando para o Kit Mata-Aula. - Jorge ia dizendo.
- E endereçar ao Filtch, dizendo que foi a própria velha sapa quem mandou. - completei.
- Ele vai adorar com toda a certeza. - aprovou Jorge.
Andamos em silêncio por algum tempo, observando os quadros que já dormiam, afinal, já era noite. Sabíamos que Angelina estaría nos esperando na sala comunal e isso me fazia pedir mentalmente que tudo já estivesse voltado ao normal, embora que eu mesmo não acreditasse nisso em nenhum momento.
- Jorge, você sabe o que aconteceu com Angelina nos últimos dias? - perguntei. Essa seria a primeira vez que eu e ele teríamos uma conversa a respeito disso. E não havia motivos para não ser agora.
Ele me olhou com curiosidade.
- Para falar a verdade, eu achava que talvez você soubesse de algo. - ele pausou. - Ela esta meio distante, não acha? - perguntou.
- Sim. - respondi, desapontado.
Peguei-me divagando sobre o que poderia ser feito para que ela voltasse ao normal. Eu nunca havia admitido nem mesmo para mim mesmo que ela fazia falta. Muita, por sinal. Parecia que ambos - eu e Jorge - ficávamos incompletos sem a presença dela; as brincadeiras feitas já não surtiam o efeito desejado pela falta de cálculo, que era sempre a parte dela nos planos. Não havia ninguém para nos lembrar das consequências de nossos atos e deixávamos mais lições sem fazer do que antigamente. Muita falta.
- Não entendo. - comentei. - Ela parecia tão bem! E foi logo depois de um jogo ganho que ela começou a ter esse comportamento...
- ... sem motivo. - ele completou para mim.
- Sabe, ela me faz uma falta particularmente forte. - deixei escapar, sabendo que precisava desabafar. Jorge era sempre a pessoa que escutava meus lamentos. Tínhamos um pacto: eu escutava os problemas dele e ele escutava os meus.
- Não sei se há diferença entre a falta que ela faz em nós dois. - retrucou ele. Parecia temeroso e irritado ao mesmo tempo. Sua expressão se dividia entre as duas emoções.
- Não acho que seja. - eu disse, com calma. - Você não esta sabendo de tudo o que anda acontecendo. - completei.
Você deve estar pensando que eu sou um canalha por estar prestes a contar ao meu irmão um segredo entre eu e minha suposta namorada. Deve estar me xingando de todos os nomes que conhece e dizendo que eu com certeza vou acabar mal nessa história pelo fato de estar revelando os segredos que a autora me proibiu de mencionar. Mas eu pouco estou me lichando para você agora. Precisava compartilhar com alguém a dor de perder uma paixonite da qual ninguém tinha conhecimento. E talvez nem eu mesmo.
Jorge parou e voltou a me encarar com aqueles olhos que transmitiam medo de saber o que eu estava prestes à dizer para ele. Eu mesmo estava apavorado com a idéia.
- O que quer dizer? - perguntou-me ele.
- Eu e Angelina... - comecei. - Estávamos juntos... ou quase. - disse. Ambos estávamos parados agora, olhando um para o outro, no meio do corredor.
- Juntos?
- Sim. - concordei. - Em segredo. Ela não queria te contar. Achava que você fosse se sentir excluído. - eu ri. - Eu nunca acreditei que você fosse se sentir assim, mas queria ficar junto dela e acabei concordando.
Jorge balançou a cabeça afirmativamente como se estivesse analisando a situação.
- Acho que já sei qual é o problema dela... - comentou.
- Eu também. - disse. - Todos esses meses e nós só estávamos ficando. Acho que ela esta triste por pensar que eu não quero nada mais sério com ela. O que não é verdade.
A face de meu irmão empalideceu e ele fechou os punhos, como se ouvir aquilo fosse difícil para ele; como se ele temesse isso, igual à um pesadelo que se transforma na realidade violenta de um acontecimento mútuo. Meu Merlin, essa frase nem eu entendi. Focando no assunto...
Ignorei a reação dele e continuei:
- Vou fazer alguma coisa. - disse, determinado. - Vou estabelecer uma relação séria com ela. Nós nos gostamos e não temos nada a perder.
- É... - Jorge disse, sua voz estava sem o ânimo que eu esperava.
- O que foi? - perguntei, confuso com a reação dele e finalmente dando atenção à esse detalhe.
- Nada. - respondeu. - É meio estranho pensar em você tendo uma 'relação séria' com alguém. - ele fez aspas com os dedos ao proferir essas palavras.
Aquilo me pareceu plausível.
- Vamos. - chamei. - Tenho certeza de que ela estará nos esperando na sala comunal e pretendo aproveitar o momento.
......................................................................................................................................................................................................
O resto do caminho para a sala comunal era pequeno e nós o percorremos em alguns poucos minutos. Sem falar, no entanto, nenhuma palavra sequer. Você é capaz de pensar que talvez eu não mereça nenhuma palavra de encorajamento com relação à situação vivida no momento pelo fato de eu ter contado ao meu irmão um segredo que eu e Angelina lutamos para proteger nos últimos meses.
Mas não pude deixar de esperar que Jorge me dirigisse algumas dessas palavras. Talvez um 'Boa sorte!', ou um 'Você vai conseguir', fossem me ajudar, mas nem isso eu tive o prazer de ouvir sair da boca do meu companheiro. O que verdadeiramente me assustou e tentei não demostrar meu desapontamento ao chegarmos em frente ao quadro da Mulher Gorda.
Eu disse a senha quase que automaticamente. Estava concentrado na garota que pediria em namoro em alguns poucos minutos. Nossa! Isso está me parecendo a coisa mais melosa que eu já pensei na minha vida.
Passamos pelo quadro que dava diretamente na sala comunal da Grifinória. O ambiente estava quente por causa da lareira, levando em conta que estávamos à um mês e meio do Natal. As poltronas estavam todas vazias por conta da hora, exceto por uma delas, ocupada por uma morena concentrada em um livro especificamente fino em seu colo. Estranhei. Angelina sempre preferiu os livros mais grossos.
- Oi. - anunciei nossa chegada, visto que Jorge não o faria. Nós nos sentamos no sofá de dois lugares em frente à poltrona de Angelina.
A garota levantou os olhos do livro e se levantou de súbito; o que me assutou.
- Onde é que vocês estavam? - ela rugiu para nós.
Eu e Jorge nos entreolhamos, preocupados com esta explosão dela.
- Detenção. - respondemos juntos.
- Deviam ter voltado da detenção à uma hora! - acusou.
- Esqueceu que estávamos em uma detenção com o Filtch? - perguntei.
- E essa detenção foi mandada pelo próprio Snape. - acrescentou Jorge.
- A que horas você pensava que voltaríamos? - perguntei, terminando o diálogo.
Angelina se endireitou e ajeitou os cabelos negros, jogando-os para trás. O movimento foi tão elegante que senti uma sombra de admiração dominar minha face e não tentei escondê-la.
Ela levantou uma sobrancelha para nós, cruzando os braços.
- O que vocês estavam aprontando? - perguntou diretamente. Calma e direta. Quando nos fazia essas perguntas ela costumava ser assim, para não nos deixar escapatória.
Foi Jorge quem respondeu:
- Basicamente... Nada.
- Nada? - ela perguntou irônica.
- Nada. - confirmamos juntos. - Apenas dando uma volta pelo castelo. - acrescentei sozinho.
Angelina encarou nós dois, um por um, antes de relaxar. Ela balançou a cabeça afifrmativamente e soltou um 'certo', antes de pegar seu livro e começar a se dirigir para as escadas que levavam aos dormitórios.
- Espere, Angie. - pedi, pegando a mão dela, virando-a para mim. - Quero conversar sobre algo sério antes de você sucumbir ao prazer que o sono lhe proporciona. - acrescentei cordialmente.
- Estou cansada. - ela disse tentando se soltar.
- Conversar não cansa. - argumentei.
- Então não me chame de 'Angie'. - pediu, voltando à poltrona em que estava anteriormente e cruzando os braços, esperando que eu falasse algo.
Com um sorriso incontrolável no rosto, sentei-me do lado de Jorge de novo, que parecia extremamente irritado agora, e já não tentava esconder. Irritação parecia uma espécie de nervosismo, que eu não reconheci.
Voltei minha atenção para a garota postada à minha frente.
- Angie, venho notando uma diferença no modo como você vem me tratando nos últimos tempos. - comecei.
- Ele não é o único. - Jorge resmungou. Olhei para ele em um pedido que claramente dizia: 'Cale a boca! Estou tentando dizer algo importante e que não lhe diz respeito.' Ele pareceu entender. - Desculpe. - disse.
Olhei para Angelina que me observava com indiferença.
- Como eu estava dizendo, você esta me tratando diferente. Só fala comigo quando é muito necessário. Não comparece mais aos encontros que eu marcava na Sala Precisa e quando eu lhe perguntava porquê, você desconversava e arrumava desculpas. - continuei.
Ela arregalou os olhos para as minhas afirmações. Prendeu a respiração. Pude perceber isso. Angelina começou a mordiscar o lábio inferior, como costumava fazer quando esta nervosa. Não sabia se interpretava isso como uma reação boa, ou ruim.
- Não há diferença. - ela discordou em um murmurio nervoso. Era tão baixo que eu não sabia se havia entendido direito. Talvez eu só tivesse imaginado.
- Sim. Há diferença. E você sabe disso. - apontei meu dedo indicador para ela, como uma acusação. - A questão é que eu descobri o porquê.
A força de minhas palavras me sobressaltou.
Jorge soltou um gemido de desgosto completamente audível. As mãos de Angelina soltaram o livro - que caiu no chão - e foram parar na boca dela, enquanto seus olhos se arregalavam e sua respiração se soltava de uma vez, em um arfar pesado e quase doentio. Observei meu irmão esconder o rosto na mão e balançar a cabeça negativamente, como se não acreditasse que aquilo estava acontecendo.
Levantei minhas mãos em um gesto de rendição, pedindo a ambos que se acalmassem. Nenhum deles pareceu notar, exceto Jorge, que levantou a cabeça e disse:
- Acho que não é exatamente isso que você esta pensando... - ele começou a dizer, mas eu o interrompi com um gesto de mão.
- Não adianta tentar me impedir, Jorge. - cortei sua tentativa de persuação.
- Sinto muito. - deixou escapar Angelina. - Juro que não queria ter feito isso, mas eu... - eu a interrompi com o mesmo aceno de mão que usei com Jorge. Ela se calou.
- Não se explique. - pedi. - Eu já sei o que esta acontecendo. - me postei diante dela, de pé. - Decidi que, para resolver tudo isso, eu quero estar com você oficialmente. Jorge já sabe de tudo. Contei para ele de nós dois. E estou pronto para assumir um relacionamento com você Angie. Temos dezesseis anos e eu acho que já está na hora.
Não sei exatamente se o que vi deveria me deixar alegre ou não.
Jorge soltou outro gemido de desgosto e voltou a esconder o rosto nas mãos. Angelina adotou uma expressão de alívio que logo foi substituída por um expressão assustada. Lágrimas vieram aos olhos dela.
- Aceita? - perguntei, pegando as mãos dela.
- O que? - ela me perguntou.
- Namorar comigo? - acrescentei.
Sem aviso, ela soltou as mãos das minha e começou a chorar.
- Eu... Eu... - ela correu em direção ao quadro da Mulher Gorda, empurrou-o e foi embora.
Fiquei observando, sem entender, o quadro se fechar e ouvi seus passos morrerem conforme ela se afastava. Sentei-me na poltrona, onde outrora ela estava sentada e senti o calor que o corpo dela deixara ali. Estava meio tonto. As coisas aconteceram com uma rapidez assustadora.
Havia sido tão ruim assim? Eu havia errado tão feio ao constatar qual eram os sentimentos dela? E Jorge ainda me avisou que talvez não fosse essa a razão para as atitudes recentes dela.
Por Merlin, como ela era complexa!
- Acha que fiz mal? - perguntei à Jorge.
- Eu tentei avisar. - respondeu ele.
- Não foi isso que eu perguntei. - retruquei.
Ele suspirou e levantou a cabeça das mãos para me encarar.
- Só acho que deveria ter insistido em falar com ela sobre o assunto antes de ir tomando parte dos sentimentos dela. - critiou ele. Certo, isso me assustou.
- Desde quando você é expert em indivíduos do sexo feminino? - perguntei, com um riso tenso.
- Não sou expert em nada. - ele discordou. - Mas isso é o básico e você praticar com a Mamãe. - brincou fracamente. Era um momento estranho.
- Ela nem me respondeu. - resmunguei aflito.
- A Mamãe?
- Não, idiota. Angelina. - ele estava tentando fazer piada daquilo, mas eu não estava achando graça alguma naquilo.
- Ah.
- Só isso? - perguntei.
Ele me olhou confuso.
- Só isso que? - perguntou.
- Só isso que você me diz? Um simples 'Ah'? Eu acabei de levar um fora! - disse indignado.
- O que quer que eu diga? - perguntou.
- Não sei. Mas eu esperava alguma palavra de consolo. - comentei.
Jorge suspirou e se ageitou no sofá, desarrumando os cabelos e soltando um bocejo longo.
- Primeiramente, você não levou um fora; ela apenas saiu correndo sem te responder. Pode haver várias razões para ela ter feito isso. - argumentou.
- Por exemplo?
- Razão número um: ela te deu um fora quando se afastou de você, mas o seu cérebro é muito cheio de si para dar conta disso. Razão número dois: ela pode estar confusa com a sua mudança repentina. Razão número três: ela pode estar gostando de outra pessoa. - ele finalizou.
Encarei-o com curiosidade no olhar.
- Não pode ser nenhuma dessas razões. - finalizei.
- E porque não? - ele perguntou.
Pensei a respeito. Angelina não era do tipo que saia correndo em uma situação desse tipo. Se ela não gostava do garoto, deixava isso bem claro, para não dar esperanças ao coitado.
- Por que Angelina é o que se pode chamar de 'pessoa sincera'. Se fosse para ela me dar um fora, já o teria feito. - expliquei.
- Ela não te daria falças esperanças. - concluiu Jorge.
Respirei fundo. Isso era com toda certeza um problema que eu não havia previsto.
- O que mais me intriga - desabafei. - é a expressão no rosto dela quando eu disse que havia descoberto o porque de ela estar agindo daquela maneira. Como se eu tivesse descoberto uma coisa que não devia. - acrescentei.
Jorge engoliu em seco com um ruído bem audível.
- Percebi isso também. - ele comentou. - Mas não tenho a menor idéia do que seja. - disse quando eu estava prestes a perguntar se ele sabia de alguma coisa que não era do meu conhecimento.
Baixei meus olhos para o tapete listrado de vermelho e dourado no chão da sala comunal. Comecei a contar as listras calmamente, voltando ao inicio quando me perdia. Havia dado um número ímpar, o que me pareceu incorreto. Por isso comecei mais uma vez. Não entendia exatamente o motivo, mas a contagem das listras tinha que dar um número par.
Desisti.
Voltei minha atenção para o fogo que ainda crepitava vivo na lareira, esquentando o ambiente. A chama não fazia efeito em mim, pois me sentia tão frio como quando chegamos da detenção.
- Angelina é muito complexa. - deixei escapar em meio as minhas divagações. Sem perceber, estava associando as listras do tapete e o fogo da lareira, com a garota que a pouco estivera na sala.
Ela era quente, mas sabia ser fria quando queria. Ela era favorável, mas sabia ser o contrário quando bem entendia.
Incompreencível? Não. Ela apenas mudava de idéia e mudava de novo. Ela não sabia ser permanente e eu sempre respeitei isso da melhor maneira possível.
- Quer que eu tente falar com ela? - ofereceu Jorge. - Descobrir o que se passa naquela cabeça confusa de adolescente problemática?
'Não', eu queria dizer. Sabia que era eu quem tinha que fazer isso. Jorge nada tinha a ver com o assunto e não era obrigação dele descobrir o que se passava com ela. Era minha obrigação. E eu queria poder dizer a você, leitor, que isso que eu fiz. Gostaria de dizer que eu me levantei daquela poltrona surrada e me dirigi ao quadro da Mulher Gorda. Gostaria de afirmar que eu a encontrei chorando pelos corredores do castelo e que conversei com ela sobre tudo. Adoraria deixar claro à você que eu resolvi tudo. E que nós dois estávamos juntos agora.
Mas tudo isso tinha tanta chance de acontecer, quanto a chance de Percy voltar a falar com a nossa família. Se eu disser que aconteceria, seria mentira.
Mesmo porque, não foi isso que aconteceu. E eu era covarde demais para ter a bondade de dar as caras para a garota que me deu um fora, sem nem ao menos me responder.
- Quero. - respondi para Jorge.
Ele deu um tapinha de consolação em meu ombro antes de ir a passos largos até o quadro da Mulher Gorda.
Observei, desolado, quando ele desapareceu pelo quadro, exatamente como Angelina fizera minutos atrás.
Antes de seus passos desaparecerem, eu já estava arrependido.
......................................................................................................................................................................................................
N/A: mais um cap. E nenhum cometário. Mas fiquem tranquilos, porque isso não me afeta. Quando eu começo uma coisa, dificilmente desisto dela. Por isso vou continuar escrevendo o máximo que eu puder, pois isso agrada a mim mesma, já que eu não tenho nenhum leitor. Trágico, não?
De qualquer forma, estou tendo idéias novas que estão apenas iniciadas, mas que logo estarão postadas. (eu acho)
Não custa nada pedir comentários, portanto...
COMENTEM!