“- E então, Severus ?”, perguntou Maria assim que ele entrou no laboratório de poções.
“- Nós liberamos Lockhart do seu estado de imobilidade, apesar de eu achar que ele deveria ser mantido assim até que fosse enviado para Azkaban.”, respondeu Snape, demonstrando não estar nada satisfeito.
“- É uma pena que a poção inventada por meu pai não possa ser usada nas pessoas afetadas pelo monstro que habita a Câmara Secreta. Infelizmente, só serviu para livrar Gilderoy de um estado no qual ele deveria permanecer para sempre.”
“- Isso é bem verdade.”, concordou Severus.
“- Ele tentou fazer alguma coisa para ferir vocês ? Tentou reagir quando finalmente se viu liberado do estado pétreo ?”
“- Não, nem Lockhart seria tão estúpido a esse ponto. Apenas conseguiu ser mais patético do que sempre foi. O homem é um poço de surrealismo, uma piada de mau gosto.”, disse Severus visivelmente irritado.
“- Provavelmente alegou que não havia feito nada. Que tinha certeza de que era correspondido por mim.”
“- Exatamente isso. Eu tive que me controlar muito para não agir da maneira que gostaria quando o ouvi falando tantos absurdos. Aquele ... aquele sujeitinho desprezível!”
“- Você fez bem, meu amor. Gilderoy não merece que você suje suas mãos.”, falou Maria, chegando-se bem próximo a ele.
Severus pareceu acalmar-se e aceitou de muito bom grado a proximidade do corpo dela com o seu. Abraçou-a, beijando-lhe carinhosamente os cabelos, o rosto e os lábios.
“- Venha.”, disse ela, pegando-o pela mão. “- Sente-se aqui.”
Severus foi então até a cadeira de espaldar alto que ela lhe apontava, acomodou-se e a trouxe para perto de si, fazendo-a sentar-se em seu colo.
“- Meu único consolo foi que o diretor já colocou Lockhart a parte de que não poderá ficar a menos de 50 metros de você. Ele também deverá fazer suas refeições no quarto e ficarei pessoalmente encarregado de que ele cumpra estas regras à risca. E ai dele se não segui-las. Vai arrepender-se amargamente, isso eu lhe garanto.”
“- Espero que ele não seja tão tolo a ponto de descumprir o que lhe foi ordenado por Albus.”, assentiu Maria. “- Mas, vamos afastar nossas mentes deste assunto desagradável ... acho que agora poderemos voltar ao nosso trabalho de tradução !”
“- Sim, é claro. Nós tínhamos parado na início da tradução do volume 69. Deixe-me levantar para pegá-lo.”
“- Pensando bem ...” - disse ela sorrindo e acariciando o rosto dele com as pontas dos dedos – “gostaria de deixar para recomeçarmos amanhã. Sei que você teve trabalho demais nas últimas semanas e precisa descansar.”
Severus não protestou. Na verdade, concordou rapidamente com a proposta dela. “- Muito bem. Amanhã retornaremos ao trabalho.”, assentiu ele. “- Na verdade, eu preciso mesmo falar com você sobre um assunto antes que eu me esqueça.”
“- Sobre o quê ?”, perguntou ela, curiosa.
“- Enviei hoje uma carta a seus pais.”
“- Enviou ? Por que ? Aconteceu alguma coisa ?”
“- Bem, como você aceitou meu pedido de casamento, achei que o próximo passo natural seria falar com sua família para que pudéssemos oficializar o compromisso.”
Maria olhou para ele com um sorriso aberto no rosto. Ficara obviamente feliz e encantada com a notícia. Severus era mesmo surpreendente. Ele havia lhe dito que precisava falar com a família dela sobre o relacionamento que havia entre os dois, mas ela achou que ele esperaria um pouco mais.
“- Eu pensei que você fosse falar com meu pai quando nós fôssemos passar a Páscoa lá em casa.”
“- Eu achei melhor não esperar. Além do mais, não sabia se seria convidado para acompanhar sua família nesta ocasião.”
“- Mas é claro que você irá comigo. Não tem o menor cabimento que eu vá sozinha.”
“- Maria, eu vou falar com sua família toda quando formos para sua casa. Mas não posso simplemente convidar-me e aparecer lá em sua companhia sem ter o aval de seus pais. Penso ser de bom tom avisar a eles sobre minhas intenções em relação a você. Além do mais, não quero causar aborrecimentos aos seus parentes. O Dr. Gentili terá tempo para enviar-me uma resposta negativa se me considerar “persona non grata”, antes que eu lá apareça sem prévia notificação.”
“- Que tipo de aborrecimento você causaria ? Meu pai adora você. Tenho certeza de que ficará muito feliz quando receber sua carta. Na verdade, eu acho que ele e a mamma já desconfiavam de tudo.”, disse ela.
“- Eles já sabiam ? Mas seu pai nunca me perguntou nada sobre esse assunto. Ele chegou a perguntar a você ?”
“- Não, claro que não. Papai é discretíssimo com essas questões e não se envolve muito nos meus relacionamentos, a não ser, é claro, que veja algum problema. Ele foi contra meu noivado com Vittorio desde o início, mas deixou a decisão final em minhas mãos. Pappà sempre diz que não quer inteferir na felicidade pessoal dos filhos. Já a mamma é um pouco mais incisiva. Quando estivemos lá no Natal, ela me falou, em tom muito confidencial, que achou você um homem muito correto e que ficaria felicíssima em tê-lo na família.”
“- Ela disse isso ?”, questionou Severus, demonstrando embaraço.
“- Sim. Com todas as letras. E, apesar de não termos tido muito tempo para conversar sozinhas naquela ocasião, tenho certeza de que ela ficou impressionadíssima com você. Ainda mais depois que a ajudou a arrumar a mesa, demonstrando tanta habilidade. Meu pai, Marco e Jean Pierre são um verdadeiro desastre na arrumação de qualquer coisa.”
“- Ela me falou disso. Mas achei que estivesse apenas brincando.”
“- Não é brincadeira. É a mais pura verdade. Lembro-me de um aniversário surpresa que os três tentaram fazer para a mamma há uns 2 anos. Eles conseguiram destruir toda a porcelana chinesa que ela havia herdado de minha bisavó. Foi um desastre completo. Ela só não ficou mais brava com o trio porque eles estavam munidos das melhores intenções e, é claro, consertaram tudo depois.”
“- Bom, posso garantir que não sou tão desastrado.”
“- Você não é nada desastrado.”, disse ela, beijando-o. “- E, além de tudo, é irresistivelmente charmoso e tem o sorriso mais lindo do mundo. Só precisa mostrá-lo mais para as outras pessoas.”, completou.
Severus sorriu, balançando a cabeça em negativa. “- Agora você está fazendo troça de mim. Eu nunca fui do tipo charmoso e muito menos irresistível. Posso dizer que sempre estive muito longe de ser popular.”
“- Isso é porque você tem a mania de esconder o que há de melhor em você, enquanto todo o resto da humanidade se esforça ao máximo para fazer exatamente o oposto. Gilderoy, por exemplo, tenta demonstrar a todos o quanto é competente quando qualquer pessoa com o mínimo senso crítico consegue rapidamente compreender que ele é uma farsa.”
“- Sim, todo mundo menos o nosso diretor.”, disse Severus em tom contrariado.
“- Todos temos direito a cometer erros. Albus pode ter se enganado em relação a isso. Talvez alguém tenha lhe dado excelentes recomendações a respeito de Gilderoy e ele aceitou a indicação sem maiores questionamentos.”
“- Pode ser, mas eu acho muito estranho que o nosso diretor tenha cometido um erro tão crasso. Ele é um homem bastante inteligente. Ainda não consigo entender os motivos que o levaram a essa absurda contratação.”
“- Também pode ser que ele tenha motivos que não possa revelar a ninguém.”, disse Maria. “- Eu tenho muita consideração por Albus e tenho certeza de que ele sempre quer o melhor para Hogwarts.”
“- Não duvido e nunca duvidei disso.”, assentiu Severus. “- Mas acho que Lockhart merecia um castigo muito severo pelo que fez a você. Entretanto, vejo-me de mãos atadas diante daquele crápula e não posso agir como gostaria e deveria. Se não fosse pelo diretor e pela palavra que ele me fez lhe empenhar, eu já teria dado a Lockhart uma punição da qual ele jamais se esqueceria.”
“- Severus, certamente Albus fará o que for melhor. Não vamos pensar mais nesse assunto. Aliás, eu não deveria ter tocado no nome de Gilderoy. Prometo-lhe que não falarei outra vez sobre isso.”
“- Você tem todo o direito de falar sobre o que lhe incomoda. Eu sou seu noivo agora e em breve serei seu marido. Não devemos ter segredos um para o outro.”
Maria sorriu para ele e o beijou. “- Pode estar certo de que não tenho segredos para você, meu futuro esposo.” Disse isso e pos-se de pé, pegando-o pela mão.
“- Agora vamos, você precisa descansar depois de tanto trabalho nestes últimos dias.”
“- Para onde iremos ?”, perguntou ele.
“- Para seu quarto, é lógico.”, respondeu Maria, já dirigindo-se para a porta.
Severus sorriu. Nos últimos tempos ele não mais escondia o sorriso quando os dois estavam sozinhos. “- Se nós formos juntos para meus aposentos, garanto-lhe que não descansarei nem um pouco.”
“- Mas e quem disse que eu vou ficar no quarto com você ? Não senhor, vou deixá-lo lá para que tenha uma merecida noite de sono. Temos todo tempo do mundo para “outras coisas” quando você tiver compensado o sono perdido. Sei muito bem que ficou várias noites sem dormir preparando as aulas de DCAT e corrigindo as tarefas e provas dos alunos. Tenho noção do trabalho hercúleo que teve para recuperar toda a matéria que Gilderoy deixou de ministrar.”
“- O pior de tudo é que ele agora voltará a ser responsável pelas aulas e acabará atrasando a matéria novamente. Infelizmente não há nada que eu possa fazer a este respeito.”
“- Então é melhor seguir os meus conselhos e dormir um pouco. Afinal, o que não tem remédio, remediado está.”
“- Você tem razão, não posso me amofinar por algo que está fora do meu controle e não nego que eu precise realmente de repouso. Mas antes, venha cá.”, disse ele, já puxando-a para perto de si. “- Eu estou cansado, mas não estou morto. Ficar perto de você e me privar de tocá-la é uma tortura para mim.”
Maria não resistiu aos carinhos dele. Já havia algum tempo que estavam limitados a um contato menos íntimo por conta de todo o trabalho que Severus tinha acumulado sobre si. Havia dias em que apenas se cumprimentavam, não tendo ocasião nem mesmo para conversar.
Os dois ficaram no laboratório trocando carinhos, afagos e beijos, até que Severus por fim capitulou ao desejo que o dominava: “- Mesmo estando tão exausto, não conseguirei dormir essa noite se não a tiver comigo. Venha, vamos para meu quarto.”, disse ele.
“- Ah Severus, mas eu quero que você descanse.”, retrucou Maria.
“- Não há descanso melhor para mim do que aquele que tenho quando estou perdido em seus braços. Você é o porto seguro aonde encontro abrigo, a fonte de tudo o que mais quero nessa vida.”, sussurou Severus.
Maria não disse mais nada. Na verdade, ficar com ele era tudo o que ela mais desejava. Limitou-se a aceitar a mão que ele lhe estendia e a acompanhá-lo. Saíram do laboratório e dirigiram-se para os aposentos dele, onde a porta se abriu para recebê-los e se fechou para isolá-los de tudo o que não mais importava.
A noite foi a única testemunha daquele momento, abraçando os amantes com seu manto negro, permitindo aos dois a paz e a completude que só encontravam quando estavam juntos e tornavam-se apenas um. |