Cap. XV
O homem com quem Hermione havia conversado instantes antes estava ali parado, parecia interessado numa peça de decoração: tinha um pequeno vaso em mãos e analisava a peça chinesa com um olhar profundamente concentrado até que Harry questionou sua estadia naquele local.
Ele olhou para Harry como se estivesse surpreso com sua chegada. Pousou cuidadosamente o vaso em seu local de origem e respondeu:
_ Isso é jeito de falar com um velho amigo que você não vê a tanto tempo Harry?
_ Diga logo o que você quer e vá embora.
_ Pra que tamanha rudeza? Não tenho pretensão nenhuma. Só vim fazer uma visita, te parabenizar pela excepcional palestra de hoje, que mal há nisso?
_ Vindo de você há mal até num bom dia.
_ Esperava que sua mãe tivesse lhe ensinado como se comportar quando se encontra velhos conhecidos.
Tal frase causou um efeito grotesco em Harry. Se ele já estava alterado, depois dela havia ficado vermelho e possesso no mesmo instante.
_ Vá embora! - disse já com a voz rouca.
_ Relaxa, já estou indo. Você ainda deve estar nervoso por causa daquele público enorme que acabou de vê-lo falar. Mas em breve entrarei em contato com você de novo.
O tal Malfoy passou por Harry e este não moveu uma fibra muscular sequer, nem para acompanha-lo com os olhos. Ele deu algumas passadas diretamente para a porta mas parou e olhou para trás:
_ Até breve, Harry.
Em seguida fixou a atenção em Hermione que até agora estava estática ao lado da saída sem entender nada e muito menos ousar se intrometer. Para a surpresa dela ele pegou sua mão, deu um leve beijo comportado e a soltou dizendo:
_ Senhora Hermione... - num cumprimento bastante educado e respeitoso. Feito isso saiu pela porta fechando-a atrás de si num clique metálico da tranca se encaixando em seu devido lugar.
Parecia que a própria morte havia passado por ali tamanho era o clima cadavérico que pairava no ar. Hermione não deu um pio mas sabia que Harry faria perguntas, e logo elas vieram:
_ De onde você conhece esse homem?
Harry questionou ainda de costas. A voz estava fria, densa e penetrante como se ela houvesse acabado de tomar uma injeção com água a ponto de congelar. Um arrepio percorreu-lhe toda a extensão da pele. Aquele encontro parecia ter sido bastante sério.
_ Na verdade não conheço. Ele não chegou a se apresentar.
_ De onde você conhece esse homem? - repetiu ele, dessa vez mais pausadamente como se estivesse explicando para uma criança mas ainda com o tom sombrio na voz.
Hermione começou a se sentir boba. Afinal, porque ela estava tão receosa? Se o Potter tinha algum problema com aquele Malfoy aquilo não tinha nada a ver com ela. Eles que se resolvessem sozinhos, e se ela o conhecia ou não, não iria fazer a menor diferença.
_ Porque você não pergunta isso pra ele? - disse se cansando daquela situação inesperada e novamente questionando Harry.
_ Você não entende, não é? - Disse ele finalmente se virando e revelando a expressão mais furiosa que Hermione já havia visto.
Ele deu três passos largos pegou-a pelos braços e a encostou na parede segurando-a com suas mãos.
_ Aquele homem é um abutre! - disse lentamente com o rosto muito próximo ao de Hermione e falando com os olhos irados fixos nos dela – Ele é a pessoa mais sádica e ordinária que qualquer uma que você jamais conheceu ou conhecerá. Para o seu bem: fique longe dele!
Hermione estava chocada com o peso das palavras que Harry havia usado para definir o novo desconhecido, ele realmente não devia gostar daquele sujeito.
_ E desde quando o meu bem é da sua conta?
Harry não respondeu nada. Somente permaneceu na mesma posição, ainda segurando-a contra a parede, continuava encarando-a e ela respondia o gesto à altura. Se deixassem poderiam ficar ali naquele ritual estranho um dia inteiro mas a porta fora escancarada por um Marvin muito empolgado:
_ SURPRESA!!!!!! .... Mas o que... MACACOS ME MORDAM! O que vocês pensam que estão fazendo?
O queixo de Marvin quase foi ao chão quando ao entrar e não ver ninguém na sala olhou para o lado e viu Harry segurando Hermione contra a parede daquela forma.
_ Vocês estão malucos!!!!! Eu chego aqui para fazer uma surpresa e encontro você praticamente grudado com ela! Nem passou pela sua cabeça que outra pessoa pudesse ter entrado aqui nesse momento? Se vissem vocês assim o contrato estaria destruído no mesmo instante.
_ Outras pessoas costumam bater nas portas, Marvin. - Disse Harry já desvencilhado e distante de Hermione, abotoava novamente o terno risca-de-giz.
_ Te garanto que nem todo mundo tem a sua educação Harry.
_ Por favor... não me fale mais em educação hoje...
_ O que foi, que aconteceu? - Marvin olhava do Harry pensativo para a Hermione que encarava o mesmo com cara de poucos amigos ainda com as costas coladas na parede.
_ Adivinha só quem acabou de sair dessa sala...
_ Quem?
_ Draco Malfoy.
_ Aquele crápula? O que ele estava fazendo aqui? - exclamou surpreso
_ Não sei, pergunte para a nova amiguinha dele aí. - indicando Hermione com um aceno de cabeça.
_ Você conhece Draco Malfoy??? - perguntou surpreendendo-se novamente em tempo recorde.
_ Não. - disse finalmente olhando para Marvin – eu conversei com ele aqui nos fundos do palco agora há pouco. Foi tão rápido que ele nem teve tempo de me dizer seu nome. Foi logo antes do Potter terminar a palestra e vir encontrá-lo aqui. Eu me apresentei mas o barulho das palmas chamou a atenção e ele desapareceu antes que pudesse se apresentar também.
_ Acho que não houve nada demais Harry. Sabe Hermione, Harry e Draco têm uma inimizade porque... - Harry lançou um olhar tão cheio de significado para Marvin que este mudou o discurso na hora - ... acho que esse porque não tem muita importância no momento. E então Harry, o que vai fazer agora?
_ Não sei... a única coisa que tenho certeza é que pelo menos por hoje eu não vou conseguir trabalhar mais. Preciso espairecer, já tinha tanto tempo que eu não tirava uma folga que acho que agora será a oportunidade ideal. Você pode cancelar qualquer outra coisa que esteja marcada para hoje e também pode tirar o dia de folga. - disse para Hermione numa frase seca e sem olhar para ela enquanto recolhia seus pertences – Acho que podemos ir Marvin. Não tenho nem quero fazer mais nada aqui.
Saíram os três da pequena sala e seguiram viagem em carros separados: Hermione no mesmo carro da empresa no qual chegara que a conduzia para casa e Harry no carro de Marvin, junto com ele para algum lugar desconhecido.
***
Harry chegou casa ainda meio bêbado. Porém já estava bem mais recuperado do estado em que se encontrava há 3 horas atrás quando o dia seguinte havia oficialmente começado.
Depois de sair da palestra fora com Marvin para um restaurante e almoçaram demoradamente. Em seguida, a pedido de Harry, seguiram para um bar. Marvin não pôde ficar por muito tempo porque tinha que voltar a trabalhar, mas como boa praça e extrovertido que era Harry rapidamente tratou de fazer novas amizades que duraram a tarde inteira e se estenderam até aquela hora da madrugada.
Mostrando uma bela coordenação motora ele conseguiu entrar em casa sem muitos problemas com chaves, fechaduras e seus orifícios minúsculos. A casa estava na quase completa escuridão exceto por uma luz fraca vinda da sala da lareira. Atraído como um inseto curioso ele foi até lá e surpreendeu-se com sua visão:
Hermione estava sentada no chão em frente à mesa de centro que estava totalmente ocupada com livros. Ela estava debruçada sobre a mesa com a cabeça deitada sobre um dos braços e ... dormia?
Harry achou aquela cena um tanto engraçada. Hermione com o rosto colado numa folha dormia profundamente. Após raciocinar um pouco percebeu que aquela era uma chance de ouro para descobrir o que ela tanto lia naqueles livros. Pegou um dos velhos exemplares na mão e leu seu título gravado em dourado na capa Marrom: “Achados Arqueológicos da Grã-Bretanha e Escócia do Século XIX, por Friederich Zewlieshkov ”.
Então era aquilo que ela fazia nas madrugadas? Por isso sempre ia dormir extremamente cedo todas as noites. Ela acordava mais cedo para estudar. E aparentemente seguia o mesmo rumo de Noel Granger, estudando arquelogia. Pegou outro volume: “Artefatos Incas, por Helena Aires”; e outro “A Maçã de Artemis, por Sam Zatz”.
Achou estranho pois aparentemente esses temas nada tinham a ver um com o outro, não conseguia formar uma conexão entre eles e não sabia dizer o que ela pesquisava, mas aquilo devia ser coisa de arqueólogo e provavelmente ele não entenderia nunca. Ainda assim sentou-se na poltrona atrás de si e pegou um dos volumes e começou a folhear despreocupado.
Foi o instante em que Hermione acordou.
A primeira coisa que ela sentiu foi o cheiro forte de whisky. Olhou para frente e viu o que temia: Harry Potter estava sentado bem ali e tinha bebido. Por experiência própria achava que encontrá-lo naquele estado não era algo muito saudável, ainda mais hoje que eles estavam num clima ainda menos amistoso que o normal, por sorte ele estava lendo um dos livros que ela estava estudando e a forma como ele o segurava criava um ângulo que não permitia ver que ela havia acordado. Resolveu fingir que ainda estava dormindo. Quem sabe dessa forma ele iria embora e não faria nada. Abaixou novamente a cabeça e fechou os olhos condenando a si mesma por ter dormido quando não podia.
Harry desistiu de tentar encontrar alguma coisa que fizesse sentido naquele livro. Pousou-o novamente no lugar que o encontrara quando algo diferente lhe chamou a atenção...
_ Harry querido, você não me trouxe aqui para me deixar esperando não é? - uma voz lânguida e sedutora veio do lado de fora da sala.
Mas o que é isso? Ele trouxe uma mulher pra cá? O que diabos ele está fazendo aqui então? Porque ele não vai logo com ela e me esquece? - pensou Hermione ainda com os olhos fechados.
_ Já vou minha linda, pode ir para o meu quarto que eu já estou subindo, você sabe onde é.
_ Não demore, viu!
Harry se voltou novamente para aquilo que havia chamado sua atenção. Uma pasta branca e moderna no meio daquela quantidade de livros antigos se destacava. Ele a pegou e leu que era originária de uma clínica de saúde, abriu e se chocou com o conteúdo: eram as transparências da 1ª ultra-som de Hermione. Tentou botá-la contra a claridade para enxergar alguma coisa mas devido à fraca fonte de luz, prematuridade do feto ou mesmo sua falta de olho clínico não o deixaram entender muita coisa da imagem. O exame estava datado de duas semanas atrás. Acho que com três meses e meio não dá pra ver muita coisa, ou então eu estou muito bêbado - pensou Harry.
Hermione já estava angustiada. Fazia muito tempo que a mulher havia o chamado mas ele continuava ali, parado, em silêncio. Era impossível saber o que estava fazendo pois não podia abrir os olhos.
No instante seguinte ela descobriu.
Para seu total espanto e surpresa Harry cuidadosamente a pegou no colo. Por muito pouco ela não entregara que não mais dormia. Pôde sentir um dos braços dele sob suas coxas e outro enlaçando seu tórax. Graças ao formato anatômico natural daquela posição sua cabeça acabou por se apoiar no ombro dele deixando seu rosto exatamente onde o pescoço se une ao tronco e sua mão que estava livre acabou por se acomodar sobre o peito largo.
Aquela foi a viagem mais conflitante que Hermione já fizera na vida.
Ao mesmo tempo em que ela queria correr para longe dali, empurrá-lo e maldize-lo, pegar seus livros na sala e se trancar em seu quarto. O cheiro de perfume amadeirado que emanava do pescoço dele diretamente para o seu nariz passando por cima de qualquer cheiro de bebida e o calor dos braços que a envolviam estavam deixando-a letárgica.
Era toda a sua consciência de ser humano racional lutando contra aquele instinto primitivo, intruso, e nem um pouco esperado. A cada momento um parecia subjugar o outro, era literalmente ide¹ e superego² numa briga de foice.
Ela não entendia porque. Em todos os seus devaneios sobre sua situação atual nunca cogitou a possibilidade de se sentir daquela forma se estivesse nos braços dele. Na verdade ela nunca nem pensou que estaria naquele lugar novamente. Mas era tão... confortável. Quando se deixava relaxar sua respiração ficava mais pesada, o calor do corpo dele a envolvia e acalentava, era quase como se estivesse se sentindo protegida. Mas ela deveria se sentir daquela forma tão perto da pessoa que já havia causando uma violência tão grande contra ela? Era incoerente!
Seu corpo deveria responder com repulsa àquele gesto. Mas ela não conseguia pensar por muito tempo, pois, quando Harry a apertava um pouco mais forte contra o peito para manter a firmeza toda sua linha de raciocínio ia para o espaço.
Ao fim de alguns metros chegaram à entrada do quarto dela. Por sorte Hermione havia deixado a porta entreaberta então Harry só precisou empurra-la com o pé. Entraram. Ele não acendeu a luz. Lentamente pousou-a na cama com ajuda do apoio de um dos joelhos. Da mesma forma que ele a deixara ela ficou, com os olhos fechados e respirando profundamente, estava um pouco vermelha.
Ele saiu sem fechar a porta. Hermione não se moveu prevendo que ele voltaria, e, de fato, o fez. Trouxe uma pilha com todos os livros que estavam na sala e botou em cima da pequena mesa que havia no quarto. Abriu o armário e de lá tirou um cobertor que usou para protege-la do frio. Feito isso, finalmente saiu do quarto fechando a porta.
Hermione abriu os olhos.
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Um breve [bem breve] esclarecimento:
¹ - Psic.: Id - Instintos, impulsos orgânicos, desejos inconscientes. Toda a vontade imediata.
² - Psic.: Superego - Conjunto de deveres da pessoa boa e vituosa. É construído de acordo com a educação e da sociedade.
Logo... O "Ego" [ou "Eu"] é o equilíbrio desses dois elementos, os desejos primitivos e a consiciência racional humana. |