Dumbledore deixou que Lockhart ficasse petrificado por vários dias a fim de resolver-se sobre em qual estado ficaria a situação dele como professor em Hogwarts.
Os alunos quedaram-se bastante intrigados com a ausência do professor de Defesa contra as Artes das Trevas, mas foram informados de que ele havia recebido uma missão importantíssima e que por isso precisaria se ausentar por vários dias. Para desespero de Harry e Ron, Snape tomou o lugar de Lockhart como professor de Defesa contra as Artes das Trevas, transformando suas vidas em um verdadeiro inferno.
“- Pelo menos ele sabe do que está falando.” - disse Ron, após uma aula em que teve seus pobres conhecimentos sobre feitiços defensivos mais uma vez ridicularizados por Snape.
“- Grande consolo!” - exclamou Harry. “- Jamais pensei que sentiria saudades de Lockhart.”
“- Eu também sinto muitas saudades dele.” - disse Hermione, com um suspiro.
“- Não é exatamente desse tipo de saudades que eu estou falando.” - retrucou Harry, olhando para a amiga que mantinha seu olhos vidrados no teto e um insuportável ar sonhador.
“- Deixe a Hermione para lá, Harry. Temos que achar algum ponto bom nisso tudo. Snape pode ser insuportável, mas ele é excelente em feitiços e poções. Isso você não pode negar. E Lockhart não nos estava ensinando nada além de baboseiras. Além de tudo, ainda obrigava você a ajudá-lo a responder as cartas de suas fãs. Você é um dos que deveriam estar mais contentes com a ausência dele.”
“- Nisso você tem razão, Ron. Eu já andava com a mão doendo de tando responder àquelas insuportáveis cartas. E ele nunca nos ensinou nada que prestasse mesmo.”
“- Ah, mas ele é um bruxo famosíssimo, não é à toa que foi premiado com a medalha da Ordem de Merlim, Terceira Classe.” - falou Hermione, agora parecendo prestar atenção na conversa entabulada entre seus dois amigos.
“- Você pode dizer o que quiser, Hermione, mas eu não acredito em uma palavra sequer do que Lockhart escreve em seus livros. Ele só faz trapalhada. Lembra-se de quando tentou remendar meu braço após o jogo de Quadribol? Passei a noite mais dolorosa da minha vida na enfermaria, tomando a poção Skele Gro para ter meus ossos de volta.”
“- Isso mesmo Harry. E não se esqueça daquele dia em que ele soltou os diabretes da Cornuália na sala de aula e depois fugiu, deixando-nos sozinhos para dar conta de todos eles. O pobre Neville foi o que mais sofreu.” - disse Ron, indignado com os maus momentos que a simples memória do fato lhe traziam.
“- Ele não fugiu, Ron. Apenas retirou-se para ver se nós éramos capazes de lidar com os diabretes. Ele jamais fugiria, é um homem muito corajoso.” - retrucou a menina, agora novamente fixando seus olhos no teto e voltando ao ar sonhador.
“- Eu desisto de você, Hermione.” - disse Ron. “- Vamos Harry, estou faminto! O almoço já deve estar sendo servido. Ainda bem que amanhã é sábado e poderemos descansar um pouco.”
“- Descansar? Você está se esquecendo de que Snape, além de nos passar um trabalho de poções de dificuldade absurda, agora também nos está entulhando com pesquisas de laudas e laudas sobre os feitiços defensivos? E eu estou totalmente enferrujado nessa matéria. A única oportunidade que tive para praticar feitiços defensivos foi durante o malfadado “Clube de Duelos”. Você se lembra?”
“- Claro que sim. Jamais me esquecerei da cena em que Lockhart foi lançado longe e caiu pesadamente no chão. Nunca gostei tanto de Snape quanto naquele dia.” - respondeu Ron, com uma gargalhada.
“- Vocês dois são muito invejosos mesmo. Sabem que jamais poderão chegar nem aos pés do professor Lockhart. Por isso ficam aí destilando seu veneno contra ele.” - resmungou Hermione.
“- Vamos fingir que não ouvimos o absurdo que você disse, Hermione. Ron, estou sentindo um cheiro maravilhoso vindo do salão principal. Vamos logo!”
Os dois meninos apressaram-se, sendo seguidos de perto por Hermione. Mal chegaram ao salão principal e Harry e Ron sentaram-se à mesa e começaram a comer de maneira voraz.
Hermione assistia a tudo com ar de reprovação. “- Homens ...” - pensava, “- São todos iguais. Todo não ... o professor Lockhart é uma grata exceção!”
Enquanto os alunos comiam animadamente, Dumbledore aproximou-se de Snape e lhe pediu que fosse à sua sala logo após a refeição. Precisavam conversar sobre um assunto muito importante.
“- Está bem, diretor. Eu o acompanharei logo após o almoço.”
Maria ficou curiosa quando ouviu a conversa entre os dois e mais curiosa ainda quando os viu saindo juntos, rumo à sala de Dumbledore.
“- Minerva, você sabe o motivo pelo qual Albus quer conversar com Severus?” - perguntou ela quando viu que os dois homens já estava distantes e não podim ouvi-la.
“- Não faço a menor idéia. Mas não deve ser nada de grave. Alguma coisa relacionada às poções que Severus vem preparando.”
“- Ah sim, pode ser. Os dois têm estado de segredos há uns 3 ou 4 dias. Perguntei várias vezes a Severus do que se tratava, mas ele não me deu qualquer resposta objetiva.” - disse Maria com ar intrigado. “- A propósito, você tem visto Firenze por aí?”
“- Não, querida. Não o vejo desde o sábado passado quando esteve aqui acompanhado por Hagrid.” - respondeu Minerva.
“- Pensei que ele fosse ficar conosco por mais algum tempo. É uma pena que ele tenha se ido sem que pudéssemos colocar as conversas em dia.”
“- Tenho certeza de que você terá outras oportunidades para ver Firenze. Ele é assim mesmo, meio nômade.”
“- Tomara que você esteja certa.” - disse Maria.
“- Será que Albus já resolveu o que fará com Gilderoy?” - perguntou a professora de transfiguração em voz baixa. Ela, Maria, Severus e Dumbledore eram os únicos que sabiam da verdade sobre o sumiço de Lockhart.
“- Não sei, Minerva. Mas devo confessar que gostaria que ele ficasse petrificado para sempre. Só de pensar que voltarei a vê-lo saltitando pelo castelo me dá nojo.”
“- Eu entendo você perfeitamente. O que ele fez não tem perdão. Mas Albus não conseguirá contratar um professor de DCAT nessa altura do ano letivo. E Severus está mais do que assoberbado de trabalho depois que assumiu as aulas de Gilderoy.”
“- Eu sei. Os trabalhos de tradução da enciclopédia foram paralisados por conta disso. Eu e Severus só conseguimos nos ver à noite, muito depois do jantar, quando ele finalmente sai do laboratório.” - lamentou Maria.
“- É mesmo um estorvo tudo isso ter acontecido. Ainda mais quando vocês estão se entendendo tão bem.”
“- Isso é, mas já não sei o que pensar sobre Gilderoy. Se ele continuar petrificado, Severus ficará entulhado de obrigações até o fim do ano letivo. Ao mesmo tempo, se ele voltar ao normal, não sei qual será a reação de Severus ao vê-lo.”
“- Que situação difícil! Espero que tenhamos a melhor resolução possível. O que foi que Severus lhe disse sobre o assunto?” - perguntou Minerva.
“- Ele me prometeu que não faria nada contra Gilderoy. Isso é, a promessa foi feita após eu implorar quase de joelhos para que ele não tomasse uma ação impensada e acabasse fazendo uma besteira.”
“- Bom, então fico mais tranqüila. Severus é um homem de palavra. Se ele prometeu a você que não faria nada, tenho certeza de que cumprirá sua promessa.
“- É com isso que eu conto, minha amiga.”
“- Para onde você vai agora?” - perguntou Minerva.
“- Para a sala dos professores. Minha próxima aula começa somente daqui a uma hora. Vou aproveitar o tempo livre para colocar a leitura em dia. Minha mãe me enviou um livro de edição rara contendo os sonetos de Luis de Camões. Você já ouviu falar nele?”
“- Creio que não. Não me esqueceria de um nome tão peculiar. Qual a nacionalidade deste poeta?”
“- Luis de Camões era português. É considerado o maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos.” - respondeu Maria.
“- Você é impressionante, Maria. Parece conhecer todas as línguas do mundo! Como consegue isso? É realmente um prodígio!”
“- Não fale assim que você me deixa com vergonha. Esse é o meu trabalho, conhecer e aprender a falar vários idiomas. Não há nada demais nisso.”
“- Está bem, adoro gente modesta!” - falou Minerva. “- Posso acompanhá-la até a sala dos professores? Isso é, se não for atrapalhar sua leitura. Agora que você falou, gostaria de conhecer alguma coisa desse tal Luis de Camões. Se você não se incomodar de traduzir algo para mim, ficarei deleitada em ouvir pelo menos um de seus sonetos. Adoro poesia.”
“- Mas é claro que eu traduzo para você. Vamos à sala dos professores, lá teremos mais tranqüilidade.”
As duas professoras rumaram para seu destino. Quando lá chegaram, encontraram Sibila e a professora Sinistra, ambas sentadas em confortáveis poltronas.
“- Olá meninas.” – cumprimentou Minerva. “- Maria vai brindar a mim com a leitura de um soneto de Luís de Camões. Vocês querem se juntar a nós?”
“- Luis de Camões!”, exclamou Sinistra. “- O poeta português? Eu adoraria!”
“- Você já ouviu falar dele, Sinistra?” - perguntou Minerva.
“- Já sim. Sei que ele escreveu um poema épico chamado “Os Lusíadas”. Este poema é parecido com a “Odisséia” e conta os feitos do navegador português Vasco da Gama na sua viagem para as Índias. Isto é, se eu não estou completamente enganada.
“- Você está certíssima, Sinistra. É esse mesmo. O livro que eu tenho aqui contém vários sonetos deste poeta. Vou traduzir para vocês o meu preferido.” - disse Maria, já sentando-se, abrindo o livro e selecionando uma página.
“Soneto XI de Luiz Vaz de Camões
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Terminou de ler com voz embargada. Emocionava-se sempre que lia este soneto.
“- Que magnífico! O amor é isso tudo mesmo! Uma tempestade de contradições, uma redemoinho de sensações diversas!” - exclamou Sibila.
As três mulheres olharam para ela totalmente surpresas. Sibila nunca prestava atenção em nada. Estava sempre aérea. No entanto, havia não só ouvido como também entendido o poema.
“- Sibila, você acabou de resumir tudo em uma frase genial.” - disse Maria, incentivando Sibila a integrar-se na conversa.
“- Eu disse?” - perguntou a professora de Advinhações, voltando a ter seu costumeiro olhar perdido.
“- Sim, você disse. O que mais você acha sobre o soneto que li?”
Não houve resposta. Sibila havia voltado para seu mundo particular.
”- Eu o achei lindíssimo.” - disse Minerva. “- Leia mais um pouco para nós, querida. Eu acabo limitando minhas opções de leitura por não conhecer outros idiomas. Já que estamos aqui matando o tempo, não custa nada incrementar meu conhecimento de coisas belas. Vamos lá, brinde-nos com um pouco mais de poesia.”
“- Você também quer ouvir mais, Sinistra?” – perguntou Maria.
“- Mas é claro que sim! E depois gostaria que você traduzisse nem que seja um pequeno trecho de “Os Lusíadas” para mim. Eu comprei o livro em português, apesar de não entender patavinas do que está escrito. Mas fiquei tão curiosa quando soube que se tratava de um poema épico que não consegui resistir.”
“- Eu o traduzirei com prazer. Só não posso garantir que acompanharei a qualidade poética de Camões. Isso seria praticamente impossível. Traga-me o livro que eu lerei os trechos que mais gosto para você.”
“- Ah, que maravilha! Não sei nem como agradecê-la.” - respondeu Sinistra.
“- Não há o que agradecer. Será um prazer para mim. Agora, vou escolher um outro soneto para ler para vocês.”
As mulheres ficaram ali, deleitando-se com a leitura até que chegou a hora de irem para as salas de aula onde os alunos as aguardavam.
Minerva e Sinistra saíram primeiro, enquanto Maria ficou para acompanhar Sibila. A professora de adivinhações estava totalmente perdida em seus pensamentos e Maria a pegou pelo braço a fim de levá-la ao encontro de sua turma. Foi então que Sibila a fitou com aqueles imensos olhos azuis, ainda mais aumentados pelas grossas lentes fundo-de-garrafa.
“- Você terá em breve uma grande alegria e um grande aborrecimento.” - disse Sibila. “- Mas não se preocupe, o passado ficará para trás.”
Maria não deu muita atenção ao que Sibila lhe dizia. Afinal, ela era conhecida por dizer coisas totalmente sem nexo e era fato notório que as advinhações dela nunca davam em nada.
“- Está bem, Sibila. Agradeço pelo aviso. Agora vamos, nossas turmas esperam por nós e não devemos nos atrasar.”
Sibila não disse mais nada. Limitou-se a acompanhá-la até a torre onde eram ministradas suas aulas.
Maria a deixou lá, desceu 2 andares de escadas e dirigiu-se ao corredor que a levaria até o seu destino, onde os alunos já a aguardavam.