Hermione Granger deixou a enfermaria no início de fevereiro, conforme o previsto. O sol agora aparecia com mais frequência e os dias ficavam mais agradáveis. Não houve mais qualquer ataque desde o incidente ocorrido antes do Natal que culminou com a petrificação de Justin e Nick Quase Sem Cabeça. Para deleite de todos, Madame Pomfrey informara que as mandrágoras já estavam chegando à sua adolescência, quando finalmente poderiam ser usadas na poção que reverteria o efeito petrificante causado pelo monstro. Portanto, os humores em Hogwarts eram os melhores possiveis.
Para total exasperação dos outros professores, Gilderoy Lockhart parecia firmemente convencido de que sua presença em Hogwarts havia amedontrado o que quer que habitasse a Câmara Secreta. “- Eu acho que a Câmara dessa vez foi fechada para sempre.”, disse ele à Minerva. “- A criatura deve ter percebido que era apenas uma questão de tempo para que eu pusesse minhas mãos nela. O melhor a fazermos agora é dar uma injeção de ânimos em todos.” Minerva não sabia se ria ou chorava quando ouviu tamanho despautério, então limitou-se a revirar os olhos em sinal de impaciência.
A idéia que Lockhart tinha sobre o que seria uma boa “injeção de moral” finalmente se revelou durante o café da manhã do dia 14 de fevereiro. (44) Apesar de ser um domingo, haveria aulas extras para ajudar aos que estivessem em dificuldades. Como o fim do terceiro bimestre se aproximava, vários alunos resolveram aproveitar a ocasião para assistir às aulas extras e poder tirar suas dúvidas.
Quando alunos e professores chegaram ao salão para a refeição matinal naquele dia, logo notaram a espantosa decoração do local. As paredes estavam cobertas de enormes flores cor-de-rosa e confetti em forma de coração caía do teto sobre todos. Lockhart entrou no salão vestido de rosa-fulgurante da cabeça aos pés. Sua clara intenção era a de combinar a roupa com as cores que enfeitavam o ambiente.
“- Feliz Dia dos Namorados !”, ele gritou. “- Gostaria de agradecer às 46 pessoas que me enviaram cartões. Sim, eu tomei a liberdade de preparar essa pequena surpresa para todos vocês – e não acaba por aqui !”, disse ele batendo palmas. Imediatamente entrou no salão uma dúzia de anões usando asas douradas e carregando harpas. “- Meus amistosos cupidos irão andar pela escola hoje entregando os cartões do Dia dos Namorados. E a diversão ainda não acaba aqui ! Tenho certeza de que meus colegas professores irão comungar do espírito que a ocasião requer. Por que não pedir ao professor Snape que ensine a vocês a fazer uma poção do amor ? E que tal pedir ao professor Flitwick um encantamento que lhes permita perder a inibição para se declarar ao ser amado ?
Maria teve usar de um autocontrole absurdo para não gargalhar quando olhou para Severus a seu lado e viu a fisionomia dele diante de tamanha falta de senso personificada em uma só pessoa. O professor Flitwick escondeu o rosto entre as pequenas mãos em claro sinal de reprovação. Minerva mal conseguia conter-se na cadeira, enquanto Dumbledore assistia a tudo impassível, com um sorriso nos lábios. Era visível que estava se divertindo bastante.
Os cupidos estilizados de Gilderoy começaram a passear por entre as mesas a fim de recolher os cartões a serem entregues. Severus então levantou-se, fazendo menção de retirar-se. Aquilo já era o bastante para ele. Mas parou no meio do caminho quando viu que Gilderoy dirigia-se, saltitante e pimpão, na direção em que Maria estava.
“- Olá minha estonteante Maria ! Olhei todos os cartões de felicitações que recebi pelo Dia dos Namorados, mas não achei lá nenhum que fosse seu. Já sei ! Você vai esperar até o fim do dia para enviar o seu cartão. Adora me deixar ansioso, não é querida ?”
Ela não teve a chance de responder porque Gilderoy a pegou pelo braço, tentando arrastá-la consigo.
Maria sentiu-se ultrajada. “- Gilderoy, solte já meu braço !”, disse ela entre dentes. “- Não vou a lugar algum com você ! Por Merlin, será que você não entende que não estou interessada em seus galanteios ?”, perguntou em voz muito baixa para não chamar a atenção dos presentes. Aparentemente a cena não tinha sido notada por ninguém além dos que estavam próximos a eles na mesa dos professores. Felizmente todos os alunos encontravam-se muito distraídos com os anões-cupidos.
“- O que está acontecendo aqui ?”, Severus perguntou com a voz carregada de raiva. “- Lockhart, solte já o braço da professora Gentili !”, ordenou. Estava visivelmente alterado. Ele havia voltado para a mesa quando suspeitou que Gilderoy iria tentar investir novamente sobre Maria.
O clima ficou absurdamente tenso. Entretanto, os alunos pareciam ainda alheios a tudo. Minerva achou que era melhor acabar com aquilo antes que o pior acontecesse. Lockhart não era e nunca seria páreo para um bruxo como Severus. O Mestre de Poções o faria em pedacinhos com um único golpe de sua varinha. Era melhor intervir agora. “- Gilderoy, meu querido, por favor, venha comigo.”, disse ela de mansinnho.
“- Sim, eu e Minerva precisamos lhe falar.”, emendou Dumbledore, agora de pé e dando-se conta da seriedade da situação.
Severus continuava a fitar com insistência o seu oponente e visivelmente tentava controlar a raiva que o dominava. “- Por favor, tenha calma.”, sussurrou Maria de maneira que só a ele ouvisse.
Para alívio geral, Lockhart decidiu seguir Minerva e Dumbledore rumo à sala do diretor. Apesar de não querer deixar transparecer, ele parecia bastante intimidado com a presença imponente de Severus.
“- Ah sim, Minerva. É claro, precisamos combinar os detalhes da minha festa de aniversário.”, disse ele, caminhando na companhia da professora de transfiguração e do diretor de Hogwarts.
Maria esperou que os três saíssem para voltar a dirigir-se a Severus: “- Lembre-se de que ele é um pobre coitado. Não é páreo para você, meu querido. Tenho certeza de que não haveria satisfação alguma em derrotá-lo. Você bem sabe que ele não tem chances contra você.”
“- E aí que você se engana.”, disse Severus, agora voltando seus olhos para ela e demonstrando já ter dominado a sua raiva “- Me daria um prazer imenso ver Lockhart novamente caído no chão como uma fruta podre. Mas você tem razão, não posso fazer nada diante de tamanha platéia. Minha ação seria um mau exemplo para os alunos.”
“- O melhor que fazemos é cuidar de nossas tarefas. Vamos esquecer este incidente lamentável.”
Severus ia concordar com ela quando um dos anões-cupidos de Lockhart dele se aproximou. “- O senhor quer mandar algum cartão de Dia dos Namorados ?”, perguntou a pequena criatura. “- Quem sabe a dama ao lado não gostaria de receber um?”, completou, mirando os dois professores com olhinhos inocentes.
“- Por Salazar, que mal fiz eu para merecer isso ?”, perguntou-se Severus, respirando profundamente antes de responder ao anão. “- Não, eu não quero cartão algum.” O cupido estilizado pareceu dar-se conta de que não estava agradando e saiu rapidamente de perto dos dois. “- Pelo menos ele tem mais senso do perigo do que Lockhart !”, disse Severus, virando-se para Maria. Ela agora estava sorrindo abertamente.
“- O que foi ? De que você está rindo ?”
“- De nada em especial.”, respondeu ela. “- É que você fica absolutamente irresistível quando está zangado.”
“- Me desculpe.”, disse ele com sinceridade enquanto ela ainda o olhava com um sorriso nos lábios. “- Eu perco o controle quando vejo Lockhart aproximar-se de você. Não deveria deixar que isso acontecesse. Sei que você não corresponde aos galanteios dele.”
“- Não há o que desculpar meu querido.”, falou, aproximando-se. “- Mais tarde, quando estivermos a sós, prometo que compensarei você enchendo-o de beijos e carinhos.”
Ele sorriu levemente. “- Vou cobrar a promessa feita.”
“- A cobrança não será necessária. Cumprirei minha palavra com o maior prazer.”, disse ela marotamente piscando um dos olhos para ele e já indo em direção à sala de aula onde os alunos a aguardavam.
Severus se preparava para também rumar à sua classe, quando outro dos anões-cupidos de Lockhart o interpelou. “- Cartão de Feliz Dia dos Namorados para o professor Snape.”, disse a pequena criatura, entregando-lhe um envelope cor-de-rosa.
O Mestre de Poções olhou ao seu redor e viu uma aluna que tentava esconder-se atrás de uma das pilastras do salão. As roupas da menina denotavam claramente as cores de sua casa. Ela era de Grifinória e obviamente era a remetente do cartão. A aluna agora olhava insistentemente para Severus, parecia ansiosa por sua resposta. Mas ele não disse nada. Pegou com a mão esquerda o cartão que lhe era entregue, enquanto com a direita puxava sua varinha do bolso. “- Lacarnum Inflamarae.”, conjurou. O delicado envelope consumiu-se em meio a chamas azuis, rapidamente transformando-se em cinzas que voaram em todas as direções. “- Vinte pontos serão tirados de Grifinória pelo atrevimento e pela total falta de senso crítico.”, disse ele, guardando a varinha no bolso e rumando para os degraus que o levariam em direção às masmorras.
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(44) – 14 de fevereiro – Valentine’s Day - Dia dos Namorados em vários países, incluindo a Inglaterra. |