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- Você comeu titica? – perguntei puxando alguns fiapos dos cabelos afogueados de Lilly, sem um pingo de dó. – Eu acho que você tem sérios problemas mentais Lilly!
- Não seja estúpida! Você fode com a sua vida e a culpa é dela? Qual é o problema de a gente estar junto? – Hugo foi em defesa da suposta ‘namorada’, e eu nunca o tinha visto tão aperriado com alguma coisa, quanto isso.
- É mesmo, eu pensei que fosse ficar satisfeita em me ter como cunhada, eu nunca esperava que você fosse chegar com aquela sua ladainha de ‘você não é boa o suficiente pro meu pobre irmãozinho indefeso’ logo pra cima de mim! – ela pareceu um tanto chateada com a suposição, e eu detestava chateá-la...
- Não é esse o problema! – retruquei cruzando os braços de frente ao corpo – Como vocês puderam fazer isso comigo, dar todas aquelas diretas no meio de nossas famílias, e toda aquela situação constrangedora...
- EI, PERAÍII! – Lilly me repreendeu colocando as duas mãos nas cinturas e batendo seu pequeno pé no chão – Rose não era necessário que nenhum de nós fosse indiscreto, vocês dois estavam sendo muito mais indiscretos que todos nós juntos. Todo mundo que tivesse um pouco mais de atenção teria notado, toda aquela tensão e todo aquele clima entre vocês.
- Não tinha clima nenhum! – revirei os olhos voltando a caminhar em um ritmo normal antes que minha mãe e tia Ginny desaparecessem entre as vitrines.
- E eu sou o Ministro da Magia! – Hugo sorriu alegremente apontando para sí mesmo.
- Você é um imbecil, é isso o que você é.
Hugo conseguia ser tão irritante, mas tão irritante que muitas vezes eu tentava entender como tanta coisa idiota cabia em um cerebro tão mau desenvolvido. Não é que ele não fosse inteligente, ele era um crânio, um verdadeiro nerd em pele de Gêmeos Weasley, eu sempre soube – e ele nunca gostou que isso fosse revelado – que, entre nós dois, ele era o melhor aluno, as melhores notas e a maior dedicação. Ele era o amante dos livros e o charme vermelho da biblioteca.
Eu não passava de uma turista, nas aulas, na biblioteca, com deveres... Eu era muito, muito assídua em detenções. Meu nome com certeza estava registrado tantas vezes quanto os de papai e tio Harry, isso eu podia afirmar sem sombra de dúvidas.
Percebi enquanto caminhava que Lilly andava me olhando de rabo de olho, provavelmente muito chateada para assumir que ela realmente imaginou que eu não fiquei satisfeita em tê-la como cunhada – o que não era realmente o caso. – A situação era diferente. Eu gostava dela, e eu não me importava, porque eu sabia que apesar de todo o seu fogo debaixo das saias, quando ela gostava, ela era alma, corpo e coração. Ela seria fiel ao meu irmão até seu ultimo segundo se necessário, e ela gostava dele. Eu não entendia como eu pude ficar tão surpresa por algo que parecia estar o tempo todo estampado na minha cara. Todos os bilhetes, os fins de semana em que ela sumia lá em casa, as pegadas de mão, crises de ciumes... Eu estava feliz por eles, e eu tinha uma faísca de esperança que se ele descobrisse o que era amar alguém e ser retribuido, ele tentasse parar de foder com a minha vida amorosa, seria ótimo. De bom tamanho.
Tia Ginny se aproximou sorrateira, me observando e caminhando ao meu lado, seus braços estavam cruzados de frente ao corpo e ela me examinava com uma expressão de divertida curiosidade, como se quisesse me dizer alguma coisa que não tivesse tanta certeza se deveria. Uma expressão que eu observava constantemente no rosto de Lilly Potter.
- Será que podemos conversar?
- Claro tia, manda! – respondi, tentando ser o mais natural possível.
- Eu conheço vocês, cada um de vocês como a palma das minhas mãos minha querida. Eu sei, de tudo o que aconteceu. E não é porque nenhum de vocês me falou alguma coisa, é porque eu os conheço perfeitamente. – eu abri a boca em menção de falar, mas ela levantou sua mão ao alto delicadamente e continuou sua frase - Eu sei que você não fez o que fez por mau, sei que teve suas próprias razões e realmente acreditava nelas, e eu sei que James também não foi tão rude e infantil por mau, mas porque ele se sentiu desprezado e você o conhece Ros, você sabe que ele iria tentar fazer com você o que ele acha que fez com ele.
- Tia, não é bem assim, as coisas não são como ele disse...
- A situação Ros, não é o que ele me disse. A situação é o que eu percebi. E eu percebi desde o começo que o que Jay sentia por você era muito distante e diferente dos sentimentos que você tinha por ele. Os olhares eram completamente diferentes, os atos... Ros, era nítido como vitaserum que os seus sentimentos não passavam de uma leve afeição enquanto James te mantinha em um pedestal.
- Não era bem assim tia Ginny – eu senti o meu rosto corar, era vergonhoso que minha tia precisasse me dizer o quanto eu não amava o seu próprio filho, pior do que isso era saber que isso era mais visível do que eu imaginava, mesmo com toda a atuação que eu tentei fazer.
- Não tenha vergonha por isso, não mandamos no coração. Eu quando tinha a sua idade também cometi meus próprios erros e isso é natural. Mas Rose, não venha mentir pra mim, eu sou além de sua tia, sua professora. Eu convivo com você todos os dias, e eu sempre percebi no ar o que acontecia entre você e Scorpius Malfoy. Eu não precisava de palavras para ter certeza, os olhares intensos, as discussões, as detenções que os dois sempre pegavam juntos, Rose tudo isso era óbvio demais. E eu não te julgo, é impossível não ser obvia demais quando se tem ao seu lado a pessoa que você gosta e não pode tocá-la por qualquer razão que seja.
- Tia, olha, não é que eu não goste do James...
- É que você gosta demais do Malfoy, eu te entendo. Eu já disse que eu te entendo. Eu só acho que você teria complicado muito menos as coisas se tivesse feito tudo da forma natural, assumido o que tinha de ser assumido e enfrentado de cara. Errado foi você por os pés pelas mãos e envolver pessoas inocentes nessa brincadeira toda. Leslie Nott e meu filho tem sentimentos, assim como vocês dois. Olha Rose, eu vi muito mais coisas do que você pode imaginar naqueles momentos em que vocês estavam na rua. – e seus olhos me encararam faiscando – Eu sei que quem não quis que tudo fosse à tona foi você.
- Meu pai no mínimo teria um infarto!
- Seu pai no mínimo fingiria um infarto, eu concordo. Mas ele teria que aceitar... E Rosie, só você não viu como Astoria e Mione estavam desesperada para jogar vocês dois um nos braços do outro. Sua mãe acha Scorpius Malfoy um garoto formidável. – e seu sorriso se estendeu de fora a fora ao ver que eu também estava sorrindo - E eu posso afirmar com toda certeza de que se tem alguém que gosta de você nessa história toda como diz, esse alguém é aquele Malfoyzinho. Aliás, ele é bem bonitinho.
- Obrigada tia Ginny... De verdade.
E então ela sorriu. Sorriu, deu uma piscadinha de lado e se afastou tão ligeira quanto apareceu, provavelmente para que mamãe não notasse sua ausencia a tempo de perguntar o que é que ela estava falando comigo assim tão baixinho. Eu amava tia Ginny, creio que eu daria todos os meus galeões de mesada para tê-la como mãe, ela era alguém tão compreensível que chegava a dar medo, e ela sempre sabia de tudo. Mesmo que você não lhe dissesse uma única palavra.
Desde criancinha, além de meus padrinhos, tia Ginny e tio Harry eram os meus tios preferidos. As minhas férias eram sempre passadas na casa deles, todos os anos, e pra mim não tinha nada melhor no mundo do que poder ter eles para confiar como meus melhores amigos. Tio Harry era meu quase super-herói.
Ele sempre me tirava de enrascadas que eu achava impossíveis de serem desfeitas – como situações extremamente vergonhosas causadas pelos meus pais, por exemplo.
E se não fosse por eles terem uma opinião muito aberta sobre a crianção de jovens bruxos nos anos de hoje, provavelmente papai e mamãe estariam agindo comigo como se eu fosse um preso em Azkaban e eles fossem meus dementadores.
Cocei a nuca, tentando procurar um fundo de verdade em tudo aquilo que tia Ginny havia me dito, era pouco, porém muito para que eu pudesse finalmente digerir; porém, tudo se tornava impossível quando Lilly Potter te olhava de rabo de olho como se você tivesse roubado todos os seus sapos de chocolate escondidos do closet e corrido na direção dela a chamando de palhaça.
- Não é com você, ok? Eu adorei saber que meu irmão está em boas mãos. – ela me olhou ainda mais profundamente, dessa vez seu rosto expressava deliberadamente uma expressão de descrença – Não seja ridícula Lills, você sabe que é verdade. Sabe que esse não é o problema pra mim, olha eu realmente, fiquei feliz. E pensando assim e olhando por outros angulos, eu não sei como eu nunca tinha notado.
- Talvez porque estava preocupada demais com os seus próprios problemas – Hugo mandou, me encarando também.
- Hugo, não seja ridiculo!
- Mas é verdade Ros, você acha que você tem um grande problema, mas você não tem. James foi pra Romênia, se ele realmente sentisse metade do que quis dizer ele não teria ido, ele teria ficado e tentado te mostrar o quanto você estava errada, VOCÊ sabe disso perfeitamente. E sabe também como eu detesto aquele garoto Malfoy mas ele não está errado.
- Vocês sabem de alguma coisa! – eu gritei sem me conter – Sabem! Hugo jamais defenderia Scorpius, jamais. E se ele está fazendo isso, ele tem uma ótima razão para o tal, então desembuche, desembuche antes que eu te encha de socos!
- Quero ver você tentar! – Hugo sorriu me atiçando - Eu não sei o que tem de errado com você! Reclama quando eu te critico, reclama quando eu te aceito! O que você quer que eu faça? Pode por favor ser mais clara porque eu não consigo seguir suas entrelinhas!
- Hugo, menos – Lills pediu dando tapinhas no ombro do namorado – Rosie, olha, a questão não é essa. Se a gente sabe de alguma coisa, sim a gente sabe. Eu e Hugo sabemos. Não vamos dizer nada, porque não temos certeza. Assim que for algo concreto, você vai ser a primeira a ficar sabendo, eu farei questão de te contar tudo, mas por enquanto, se contente com a nossa aceitação e ajuda, porque por enquanto é tudo o que você vai ter. Corra atrás do seu prejuízo, porque se você não fizer isso logo, os urubus vão voar em cima da sua carniça. – e então ela apontou, uma mesa negra da Florean&Fortescue onde haviam dezenas de garotas amontoadas, e um único garoto. O meu garoto.
- Por favor, seja discreta e eu te dou cobertura – Hugo sussurrou no meu ouvido ao puxar o meu braço carinhosamente.
- Isso tudo é pra me comprar? – retruquei sem conseguir não sorrir pra ele.
- Não, isso tudo é pra te mostrar que eu não sou o pior irmão do mundo. – e beijou minha bochecha me soltando enquanto ele e Lills iam na direção de nossos pais tagarelando.
Se tinha uma coisa que eu tinha em comum com os meus pais, era o ciúmes. E acho que pelo fato de os dois serem extremamente ciumentos eu consegui que o meu ciume fosse em uma escala inacreditável. Ver todas aquelas meninas quase montando em cima do meu cara, era inaceitável. Eu tinha vontade de arrancar os seus cabelos, fio após fio, e arrastar suas lindas faces pelo asfalto. Eu queria torturá-las como Filch descrevia serem os ‘velhos tempos’ de Hogwarts.
Então eu resolvi ser uma dama, caminhei frenéticamente em direção à sorveteria com o celular na mão, parando há apenas alguns metros de distância. Chamou uma, duas, três, quatro vezes.
- Eu posso te ver daqui. – ele falou com um tom divertido, acenando pra mim com um sorriso desdenhoso.
- E eu posso ver o quanto essas garotas estão sendo depravadas – resmunguei – Faça com que elas tirem suas patas imundas de cima dessa mesa antes que eu vire um Hipógrifo e acabe com a cara de cada uma delas?
- Wrong answer. – ele respondeu rindo um pouco – E se eu não quiser tirá-las? Eu digo, as patas sra. Hipógrifo.
- Quer mesmo que eu responda? – retruquei fazendo sinal pra ele de onde eu estava.
- Que eu saiba você não tem namorado. – sua voz ficou abruptamente séria.
- Não, na verdade o meu foi pra Romênia depois de tentar foder com o meu caso. – agora foi a minha vez de rir.
- É uma pena que ele tenha conseguido não é mesmo?
- Então é isso o que você pensa?
Ele não respondeu imediatamente, apenas ficou me encarando enquanto todas aquelas garotas tagarelavam em sua frente, parecendo uma dezena de hienas no cio. Suas expressões mudavam rápidamente como se ele tivesse buscando a melhor resposta porém estivesse com medo de pronunciá-la.
- É, é isso o que eu penso. Sinto muito.
- Não sinta, eu não sinto nenhum pouco.
Eu apertei o ‘end’ do aparelho, pronta para virar as costas e voltar para onde eu nunca deveria ter saido, tentando ser forte e não deixar escorrer uma lágrima sequer dos meus olhos, mais nenhuma. Então um grito muito familiar veio da mesa cheia de hienas ecoando insistente e me obrigando a olhar pra trás.
- Ei Ros, ROS!
Dominique estava sempre no lugar certo e na hora certa, como eu AMAVA ter uma prima sonserina. Acenei frenéticamente e sorri, o melhor dos meus sorrisos. Ajeitei meu vestido preto puxando o decote um pouco mais para baixo, enquanto caminhava tirei os óculos de dentro da bolsinha de contas os colocando. Nique me olhava com o sorriso mais satisfeito do mundo – é uma pena que eu não podia dizer o mesmo de todas as hienas que ela tinha por amigas.
- WOW, quem você pretende matar? – ela perguntou me abraçando e dando um beijo na bochecha – Você tá muito boa nesse vestido! Tem alguma festa trouxa e eu ainda não estou sabendo?
- Não, na verdade não. É sempre bom dar um up quando se está solteira e disponível no mercado. – respondi sorrindo e quase soletrando a ultima expressão.
- Eu não sabia que as mulheres ultimamente se auto-nominavam mercadorias. – Scorpius retrucou, levando a cadeira um pouco mais para o lado de Leslie Nott, sua suposta namorada em nossa mentira mau-bolada. Ela sorriu, levando sua mão a mão dele e me encarando sorridente.
- Não seja ridiculo Scorp, você entendeu perfeitamente o que minha prima quis dizer, não se faça de sonso – Nique me defendeu dando um tapa na cabeça do amigo – E você não seja tão puta Leslie, porque com certeza a carne que o Scorpius está imaginando levar pro abate hoje não é a sua.
- UUUHHH. – as sonserinas fizeram um coro, com suas vozinhas gralhantes, zoando Leslie Nott.
- E então Ros, aqui está, temos uma pequena festa na Mansão Malfoy, Draco e Astoria estão indo daqui para um dia em família com os pais de Draco. Scorpius tem as chaves de casa e vai ficar sozinho até amanhã de manhã, o que me diz? – eu sabia todas as suas intenções com aquelas palavras, e somente tive mais certeza delas quando os olhos azuis-acinzentados de Scorpius me encararam com intensidade.
- Não, acho que não dá certo pra mim. – respondi para não responder na frente de todas aquelas peruas ‘minha mãe não deixa’, Merlim como aquilo era ridiculo – Lills e eu andamos bolando alguns planos para noite de hoje.
- Vai passar a noite com o seu namorado, fazendo algumas loucuras pra variar, Weasley? – Scorpius cutucou com palavras, e eu pude percerber sua mão se fechando com força, ele sempre dava o máximo de sí porém nunca era muito bem sucedido em esconder o ciumes insistente que ele tinha de mim.
- Não está sabendo ainda? James foi curar sua dor de corno na Romênia, Scorp, junto com os Dragões. E provavelmente muito regado a Firewhiskey, se vai mesmo morar com Carlinhos. – Nique sabia dizer as palavras certas, com as expressões certas e na hora mais perfeita – Sabe como é, ele descobriu que nem toda Weasley é santa como minha querida irmã.
- Ei Nique, sinto muito, preciso ir. – me levantei instantaneamente ao ver tio Harry vindo e minha direção e obviamente me vendo em uma mesa cercada de Sonserinos. Ele era o tio mais compreensível que eu tinha, mas eu não sabia se eu podia arriscar a tanto.
- Tarde demais – ela sussurrou quando tio Harry colocou uma mão no meu ombro.
- Ros, preciso de você para me ajudar a escolher um presente para Lilly, pode vir comigo ou estou te atrapalhando? – ele perguntou com um sorriso bondoso enquanto cumprimentava Nique. – Olá pra vocês garotos. – e as garotas sonserinas resmungaram um oi, mau educado.
- Ah, claro, não é incomodo algum. A gente se esbarra por ai Nique! – acenei acompanhando tio Harry, agradecendo aos céus por não precisar passar mais nenhum minuto no meio daquelas olhadas.
Scorpius me acompanhou com os olhos levantar da mesa e colocar o braço envolta da cintura de meu tio, minha cabeça pendeu levemente se escorando em seu corpo, e eu tentava parecer o menos vulnerável possível tanto quanto ele tentava parecer não se importar o máximo que podia. Nós dois estávamos falhando como ninguém.
- Não acho que todos saibam que você ia tomar sorvete. – ele comentou, seus olhos verdes me analizavam como se pudessem ler minha alma.
- E eu acho que também não pretende comprar nenhum presente para Lills estou certa? – e ele sorriu.
- Sua mãe estava te procurando como uma louca, então Lilly se desesperou e me ligou pedindo que eu fosse te procurar e avisasse sua mãe que eu o faria.
- Já mencionei o quanto eu amo sua filha?
- Creio que eu sei disso já há algum tempo.
- Você não deveria estar no serviço? Papai mencionou algo do tipo...
- Na verdade eu fiz uma pausa para uma pequena emergência – seus olhos verdes cintilaram e eu pude enteder que eu era a emergência a qual ele se referia.
- ROSE WEASLEY! – mamãe berrou da entrada da madame Malkin, seus cabelos despenteados e sua expressão fatal. – Onde você esteve?
- Estava com Dominique, Mione. Dê a ela algum crédito! – tio Harry disse afagando o ombro de minha mãe – Agora deixe que ela escolha seus uniformes com a Lilly enquanto vamos pegar as listas na Floreios e Borrões.
- E deixar essa peste sozinha? Não mesmo! – mamãe resmungou.
Posso dizer com cem por cento de certeza que todas as pessoas que passavam por ali olharam aterrorizadas para os gritos de mamãe, eu e meu pai estávamos tão vermelhos que poderiamos nos esconder em uma banca de tomates sem nenhum medo de sermos pegos.
- Hermione, sua filha é quase maior de idade, não seja ridicula. – Tia Ginny respondeu puxando mamãe na direção oposta.
- Se você arredar um pé de dentro dessa loja mocinha você vai arrepender de ter nascido! – ela ia falando enquanto estava sendo arrastada por tia Ginny, papai e Harry.
- Seja boazinha querida, obedeça sua mãe! – papai acenou.
Abri a porta da Madame Malkin, ouvindo seu velho sininho tocar dando sinal de vida de que algum bruxo estava entrando para gastar alguns galeões com todas suas vestes de um preço absurdo. Eu encontrei Lilly facilmente no meio da montoeira de pessoas que iam e vinham experimentando mil e um trajes diferentes. Era fácil, duas cabeças vermelhas no meio de várias comuns, levantei o braço no alto acenando e abri a boca a chamando educadamente.
- Hey Lills, estou...
Aconteceu tudo tão rápido que eu não consegui nem perceber o que se passava e nem terminar a frase que havia começado. Em um minuto eu estava chamando Lilly para derramar meu poço de xingamentos, em outro uma mão sedosa e macia tapava minha boca enquanto braços me puxavam para dentro de um dos milhares de provadores da velha e caduca Madame Malkin.
Eu não sei se foi pelo susto, mas no momento eu não conseguia entender o que estava acontecendo – podia ser qualquer coisa, qualquer coisa como por exemplo James surtando e me dizendo que eu era a mulher de sua vida.
Meus pensamentos não acompanhavam os acontecimentos na mesma velocidade, quando eu senti meu corpo bater em uma das paredes de um dos provadores eu ainda estava me perguntando se eu estava sendo sequestrada por alguma espécie de Lorde das Trevas JR.
A mão se afastou por alguns segundos da minha boca, e eu pensei que talvez aquela fosse a deixa perfeita para que eu enfim pudesse me expressar.
- Mas que...
E então o gelo. O gelo que anestesiava todos os meus sentidos, eu podia senti-lo chegar em flocos de neve, um a um contra o meu rosto, deslizando devagar, provocando uma reação do meu fogo. O fogo que mostrava suas labaredas vorazes contra os flocos insistentes de neve – o fogo queimava, a neve cortava.
O corpo dele estava pressionado ao meu como se estivessemos em um espaço tão pequeno, que só caberiamos ali dessa forma, minhas mãos desobedientes atacaram rápidamente as costas dele, deslizando para cima e para baixo reconhecendo cada centimetro de sua pele alva e fria, eu o abraçava comigo como se pudesse perdê-lo a cada instante que se passava.
Ele me beijava com tanto desejo que parecia ter guardado tudo aquilo por anos, entalado na garganta. Sua boca era apressada e inquieta, roçava na minha descuidadosamente, deixando que nossos lábios sentissem um ao outro por diversas vezes seguidas antes de aprofundar nosso beijo colocando sua lingua contra a minha. Era como um choque, meu corpo inteiro se eletrizava quando isso acontecia, era como se eu não pudesse soltá-lo, como se eu precisasse de cada toque e cada carícia que sua lingua proporcionava a minha, como se eu precisasse sentir sua lingua em meus lábios, e fosse incapaz de querer parar.
As mãos dele estavam praticamente atadas à parede, como se ele quisesse me manter presa entre o pequeno espaço existente entre o seu corpo e a parede, ele parecia não perceber que eu não fazia e nem tinha a minha intenção de sair dali tão cedo.
Sem conseguir raciocinar muito bem, deixei que minhas mãos atravessassem o pequeno espaço de sua blusa para tocar suas costas nuas com a ponta dos meus dedos, acariciando seu corpo e tentando recordar cada centimetro percorrido por eles. Minhas unhas se cravavam em alguns segundos na cintura dele quando eu não exitava em puxá-lo um pouco mais pra perto, eu podia sentir o meu fogo lutar contra o seu gelo, e a luta estava perdida como sempre, para ambos os lados.
Os lábios dele deslizavam nos meus indo em direção ao meu pescoço, mordiscando e puxando minha pele de leve, minha respiração já não me obedecia me deixando ofegante e desesperada por mais a cada novo segundo, a cada novo toque. Ele se aproximava verozmente da minha orelha, beijando o meu pescoço dócilmente.
- Eu quero tanto você que as vezes eu não respondo por mim.
- Você é um estúpido. – eu disse ainda ofegando e incapaz de conseguir formular uma frase com sentido. – Minha mãe...
- Hoje a noite. – ele retrucou ignorando o que eu tinha tentado dizer – Eu quero você, chega de me atormentar.
- Mas...
Ele nunca me deixava terminar nenhuma frase que fosse significar uma negativa a qualquer coisa que ele desejasse muito.
Suas mãos já agarravam minha cintura possessivamente me abraçando, sua boca encontrou a minha – ele conhecia o caminho cegamente. Eu respondia todos os seus movimentos, aprofundando o beijo, mordiscando seus lábios e puxando os cabelos de sua nuca a cada vez que eu sentia toda aquela corrente elétrica percorrer o meu corpo, sabendo que ela ia de encontro ao dele.
Ele desceu uma de suas mãos até a minha perna, a puxando para cima, e eu – sem que ele precisasse repetir cada um de seus movimentos – deslizei a outra perna, prendendo as duas na lateral de seu corpo, uma após a outra, o beijando com uma intensidade tão grande que eu tive medo de que as pessoas pudesse acabar nos escutando sem querer.
- MEU DEUS! – Hugo soltou com um tom de voz aterrorizado – ROSE!
Meu sangue gelou completamente me paralisando por inteira enquanto eu pulava do colo de Scorpius ainda mais rápido do que eu havia conseguido subir. Ele segurava minha cintura forte, como se estivesse tentando me dar forças para simplesmente não tentar inventar uma desculpa qualquer ou cometer qualquer ato sem pensar.
- Como você veio parar aqui? Você não sabe, não faz a mínima noção do que os nossos pais fariam se sequer imaginassem que você e minha irmã estavam tirando um sarro daqueles num provador da Madame Malkin? – ele falava extasiado, incapaz de qualquer outra coisa. Eu podia sentir o ciúmes correr em suas veias.
- Weasley, isso não é um sarro. É um beijo carinhoso de saudade. – Scorpius respondeu tentando parecer ríspido e cínico, porém seu sorriso esticado de fora a fora do rosto não o deixava ser tão grosseiro, nem se ele quisesse.
- E que beijo, aliás se um beijo desses é capaz de fazer você sorrir pros quatro ventos, eu não quero nem imaginar o que um sarro daqueles faria com você Escorpião Albino... – Lilly sorriu dando um tapinha no ombro de Scorpius.
- Sinto muito se o seu namoradinho é um tanto casto para aproveitar a vida.
- Se continuar me enxendo o saco eu vou mudar de opinião. – Hugo ameaçou, me encarando.
- Scorp, deixa ele em paz vai... – eu pedi, foi a única coisa que eu consegui pensar no momento em que nossas mãos estavam entrelaçadas uma na outra. – Suma daqui antes que mamãe apareça.
- Hoje. – ele falou, como um lembrete.
- Hoje o que Rose Weasley? – Hugo retrucou cruzando os braços pra mim, me encarando com a mesma expressão de papai quando desconfiava que eu estive com algum garoto.
Então ele virou as costas e saiu como se nada tivesse acontecido, caminhando elegantemente entre as pessoas que olhavam suas vestes e deixando uma Lilly completamente pasma, um Hugo envergonhado e eu voando pelos ares, eu parecia um balão enchido a gás, se alguém me soltasse eu provavelmente estaria alcançando os céus, sem nenhuma sombra de dúvida!
- Agora eu sei o que você quis dizer com ele é bom de pegada.
- E que pegada. – eu suspirei.
- O que você quer dizer com isso Lilly Potter? Pretende experimentar a pegada dele? – Hugo cutucou.
- Não Guinho, tenha absoluta certeza que eu gosto do seu modo casto de ver a vida, às vezes. |