CAPITULO 37
Desilusão
Era tarde da noite quando Rony voltou para casa. Esperava que Mary estivesse dormindo e não precisassem conversar. Sentia-se deprimido por Hermione ir embora, e não conseguia disfarçar. Esperava ter mais um tempo ao seu lado, podendo conversar, vê-la e tocá-la de vez em quando.
Claro, era inocência sua acreditar que poderia manter as duas na mesma casa!
Rony entrou em seu quarto, e fechou a porta. A luz estava acesa, então, não precisava se virar para saber o que veria.
Mary estava sentada na cama, embaixo do lençol, lendo. Com sorte ela não tocaria no assunto, e se faria de morta como sempre.
-Estava preocupada – ela disse com voz doce, fechando o livro – Demorou tanto a voltar!
Rony fechou os olhos pedindo paciência. Tirou o casaco e os sapatos, lamentando a própria covardia de não pedir o divorcio e ir embora.
-Rony...
-Escuta, Mary, eu estou cansando e não quero mais brigar! – ele disse sem paciência, e sem olhar para ela também.
-Rony, nós nunca brigamos! – ela disse com voz urgente – Eu entendi, meu amor, que tivemos um mal entendido! Não deveria ter falado mal dos seus amigos, ainda não os conheço tão bem quanto você! Mas tenho certeza que com o tempo, todos seremos muito amigos!
Mary levantou-se e sorriu para ele como se Rony houvesse concordado. Ela apanhou uma pequena cestinha ao lado da cama, onde havia uma xícara de chá, e estendeu a ele:
-Eu fiz depois que saiu. Precisava ocupar minha mente e achar um jeito de pedir desculpas pela minha indelicadeza. Prove, são seus favoritos.
Rony olhou com desgosto para os biscoitos. Bem lá no fundo queria mandá-la colocá-los em um lugar bem impróprio, mas mal tocara no jantar e estava com fome. Melhor deixar o orgulho de lado e comer.
Isso lhe daria desculpa para desviar a atenção dela de qualquer outra coisa quer tivesse em mente.
Mary podia ter todos os defeitos do mundo, mas era uma eximia cozinheira. Pena que não pudessem manter uma amizade. Se um dia se separasse, ele sentiria falta dos seus banquetes. Só podia ser um homem muito insensível, pois em seis anos de casamento era apenas isso que apreciava em sua mulher.
Tudo com Mary era mediano. O sexo era mediano, e Rony sabia que podia ser melhor, pois tivera outras mulheres depois de Mary, e antes de saber que ela estava grávida. As conversas eram inexpressivas e o incomodavam.
Os planos que tinham para o futuro não o atraiam. Nada ao seu lado o contagiava.
-Rony, me diga se gostou? – ela ficou a sua frente e Rony olhou-a sem ver propriamente.
-Estão deliciosos. – disse desanimado, olhando para ela finalmente.
Rony franziu as sobrancelhas quando se sentiu tonto.
-Amor, o que foi? -ouviu sua voz distante, e não respondeu, pois estava fora de foco.
Sentiu os olhos pesados e estendeu a mão para apoiar-se onde quer que fosse, para não cair.
-Rony! -ela disse assustada, e a ultima coisa que ele viu, foi seu rosto apreensivo tentando ajudá-lo.
Hermione saiu do quarto que usara pela última vez, e fechou a porta. Enviara suas malas com magia para o apartamento de Gina, e desceria para despedir-se das meninas. Se Merlin fosse justo, seria a última vez que pisaria naquela casa!
Deu uma espiada na porta do quarto do casal e notou que estava só encostada. A porta do quarto das meninas estava aberta e o quarto vazio. Apurando os ouvidos, escutou o som das vozes das duas e de Mary, na cozinha, obviamente preparando o café da manhã.
Sabia que era errado, pensou. E audacioso, mas não resistiu. Rony deveria estar no banho ou se vestindo e poderia lhe dar um tremendo susto alem de um beijo.
Era tão amoral que ela se arrepiou diante do perigo empurrando a porta suavemente. Sua coragem seria recompensada com uma visão privilegiada, pensou, pega-lo em sua intimidade! Como nos velhos tempos, quando arrumava desculpas para ficar próxima observando-o se barbear ou trocar de roupa.
Ela olhou em volta, esperando encontrá-lo com uma expressão de surpresa por vê-la ser tão audaz. Mas tudo que viu foi o quarto vazio.
Imediatamente seu olhar foi atraído para a cama. Ele ainda dormia.
Demorou um segundo para seu olhar captar o que via.
Rony estava deitado entre os lençóis, obviamente nu. Pouco era coberto pelo tecido fino e ele dormia um sono pesado, satisfeito. Abraçava o travesseiro e estava esparramado na cama. Olhando em volta, notou a displicência de suas roupas atiradas por todo o quarto, assim como a camisola e calcinha de Mary emboladas com suas roupas, no chão.
A realidade demorou a entrar em sua mente. A cama estava revirada, a roupa de cama toda amassada. Um travesseiro estava jogado do outro lado do quarto, provando que o casal usara apenas um para dormir. Ou não dormir, pensou amarga.
Bílis subiu a sua boca, e pensou que vomitaria ali mesmo. Havia cheiro de sexo no ar. Cheiro de traição.
Estava congelada no lugar, diante da exatidão e da prova de que todos os seus medos tinham fundamento. Rony mentia, enquanto se refestelava em noites de amor com Mary.
Era tudo mentira, desde o começo. Cada palavra, cada promessa. Tudo a mais absoluta mentira.
Hermione ficaria ali, estática, pois suas pernas não a obedeciam, não fosse o som de passos na escada.
Apressada, e sem saber da onde saíra tanto esmero, fechou a porta e andou pelo corredor.
-Hermione, você acordou! – Mary disse com seu melhor sorriso, interceptando-a na escapa – Iria acordá-la, querida, para que não se atrase no trabalho! Então, como essa se sentindo?
“Destruída”, sua mente gritou.
-Bem, sinto-me muito bem essa manhã – mentiu, não querendo dar o braço a torcer.
Sem saber como ela enfrentou o café da manhã. Ouviu a conversa animada de Sara e Hermy sobre uma festinha na escola. Ouviu as perguntas de Harry sobre sua saúde e sobre a mudança para o apartamento de Gina. Até mesmo sorriu para Mary quando ela serviu o café.
Quando Harry partiu, ela o acompanhou, despedindo-se das meninas e até mesmo de Mary.
Lá no fundo Mary não tinha culpa. Era usada como ela também o fora.
Na loja dos gêmeos, ela conseguiu sorrir simpática, e entrou para o estoque para vestir seu avental e apanhar a lista de produtos daquele dia, que estariam em promoção.
Sozinha finalmente, Hermione apoiou-se em uma das estantes, e se sentou em um banquinho, quando sentiu uma forte dor no coração. Puxou ar com força, tentando se acalmar.
Como era possível, justamente ela, ter sido enganada dessa forma? Era o ato mais clichê do mundo, o homem casado que engana e consegue uma amante dizendo que é infeliz com a esposa! Então, como em nome de Merlin, ela se deixara enganar?
Sentindo as lágrimas correrem em suas bochechas, ela secou-as com raiva e ódio. Não choraria por ser uma estúpida! Não choraria por Rony!
Havia desviado seu caminho, em vez de reconstruir sua vida, ela construirá sonhos ao lado dele. Mas a realidade era diferente e ela tinha que aceitar.
E chorar? Não. Ele não merecia nenhuma lágrima sua!
Decida, sufocou sua dor, e partiu para o trabalho.
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