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18. Justas e Jogos


Fic: A Floresta das Sombras, Aviso


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 18


 


 


Justas e Jogos


 


 


 


Seis meses depois...


 


 


A espada veio tão rápida na direção de Harry que ele mal teve tempo de erguer o escudo para se defender. Seu coração acelerou muito dessa vez, enquanto ele se apressava em barrar o golpe que veio logo em seguida e conseguia dar dois passos rápidos para trás  fugindo das investidas do adversário.


– Você não está se concentrando, Harry! – reclamou Sirius, enquanto girava a espada ao lado do corpo e começava uma nova sequência de golpes. Harry conseguiu pará-lo com a própria espada dessa vez.


– Você não está me dando tempo... para pensar – ofegou.


– Ah, ok! Pensar é importante – gracejou o padrinho. – Então, pense rápido!


O golpe seguinte passou pelo lado de Harry e não o acertou por um triz. O garoto aproveitou a curva que fez com o corpo e atacou Sirius pelo flanco esquerdo, obrigando-o a uma manobra de deslize para escapar.


– A-há! Finalmente! Há vida em baixo deste elmo! Achei que algum troll tinha substituído seu cérebro durante a noite por bosta de dragão.


Sirius riu da própria piada, mas não deixou de atacar. Ele prosseguiu o treino num ritmo forte e, em pouco tempo, os braços já cansados de Harry começaram a dar mostras de que queriam despencar do corpo para poderem parar de se mexer. Isso não pareceu ser motivo para Sirius mudar sua atitude.


– Erga mais o braço da espada. Ataque! Isso. Mais uma vez – admoestou o padrinho, continuando o jogo de ataque e defesa e se recusando a aceitar que Harry apenas se defendesse.


Era um dia quente do fim de julho e Sirius e James haviam decidido treinar os garotos numa clareira fresca, situada no bosque que cercava o castelo Potter. Ron já havia passado uma hora “apanhando” dos golpes de James e agora descansava, muito vermelho, sentado em um tronco, fazendo de tudo para não perder cada lance da luta entre Harry e Sirius. Hermione, Ginny e Lily tinham vindo assisti-los, mas depois de um tempo o entusiasmo arrefecera e somente Ginny permanecera com os olhos grudados nos combatentes, enquanto Hermione lia um livro e Lily conversava em voz baixa com James.


Desde a primavera, os treinos de cavalaria de Harry e Ron haviam se intensificado. Agora só faltava aos dois, entre os garotos que moravam no castelo Potter, guardarem suas armas. Fred e George o haviam feito na Páscoa. E, embora ainda fosse preciso esperar dois anos para que Harry e Ron pudessem se tornar cavaleiros, havia muito que aprender e, no caso de Harry, muito tempo de treinamento a ser recuperado. Além disso, a notícia de que James comemoraria o aniversário de quinze anos com um torneio não tornara, em absoluto, a vida dos garotos mais fácil. Nenhum dos dois queria fazer feio frente aos outros jovens aspirantes a cavaleiros. Claro, que nenhum deles poderia participar das lutas principais, estas eram apenas para cavaleiros, mas, ainda assim...


O fato é que Harry nem vira os últimos seis meses se passarem, tal a quantidade de tarefas pelas quais estivera assoberbado. Durante o inverno, Hermione se esmerara para terminar sua alfabetização, a qual não era em inglês, a língua que falavam, mas em latim, língua em que tudo era escrito (especialmente os grossos livros de magia). A educação mágica de Harry também foi aprimorada. Lily se tornara verdadeiramente obcecada por isso e muito, muito exigente. Harry tinha aulas de poções com ela (algo para o que realmente não tinha muito talento) todas às manhãs, dividindo o tempo com as aulas de leitura de Hermione. À tarde, alternadamente, Remus ensinava defesas contra magia negra, James dava aulas sobre a arte de duelar em magia (Harry gostava destas aulas) e Sirius lhes dava dicas sobre transfiguração. Estas últimas eram as aulas que rendiam menos. Na maior parte das vezes, o que acontecia era Sirius colocar sua cara de cão e ficar brincando com eles.


Com tanto o que fazer e aprender o tempo tinha voado. Parecia ter sido ontem que Sonja viera morar no castelo. Harry ainda tinha dificuldade em acreditar que ela não era uma mulher, mas uma foca, muito embora fosse bem fácil acreditar que ela não era humana. Seres humanos não tinham aquele tipo de beleza selvagem, quase assustadora. Porém, era preciso reconhecer que, para ela, aquele também havia sido um duro tempo de aprendizagem.


Sonja parecia estranhar tudo o que era normal para as outras pessoas, desde comer à mesa até usar sapatos – não era raro vê-la descalça andando pelo castelo ou em banhos no lago, aos quais Sirius montava guarda como um cão raivoso. E isso não era tudo o de estranho que ela tinha, suas atitudes eram completamente diferentes de qualquer mulher que Harry conhecesse e algumas até complicadas de aceitar pela a maioria das pessoas. A questão da união dos dois era uma delas. Mesmo ligada a Sirius, Sonja deixava bem claro que só fazia o que queria e como queria e que Sirius não mandava nela de jeito algum (alguns homens no castelo ficavam chocadíssimos com isso). Ela não sentia qualquer fidelidade pelos modos humanos ou atração por outra coisa que não fosse estar na água ou com o seu homem (como ela o chamava). Talvez, por isso, ela tenha recusado um casamento da forma como os humanos faziam. Dizia que estava casada com Sirius enquanto ele escondesse sua pele de foca e este era todo o compromisso que ela precisava.


Harry nunca tinha perguntado como Sirius se sentia a respeito disso, porém o padrinho – fora discussões ocasionais com a selkie – parecia feliz. De fato, esse era um sentimento geral no castelo e Harry, por muito tempo, teria aqueles seis meses como os melhores de sua vida.


Um desnível no terreno e uma pedra fizeram com que Harry tropeçasse, um golpe oportuno de Sirius, e ele caiu.


– Excelente – debochou o padrinho. – Era isso mesmo que eu esperava do meu escudeiro: um tombo.


Harry largou a espada e puxou a viseira do elmo pesado que usava. O rosto estava nojento de suor e pó.


– Estou exausto, Sirius.


O padrinho agachou-se ao lado dele e franziu a testa.


– Experimente dizer isso para o cara que estiver segurando a espada contra a sua barriga.


– Não vou sair por aí puxando briga – resmungou ofegante. – Desde quando ficou tão exigente?


Sirius deu um pequeno sorriso e não respondeu, apenas estendeu a mão para ajudar Harry a levantar.


– Descanse um pouco. Quem sabe depois...


– Deixe o menino em paz, Sirius – uma voz conhecida e alegre veio de além das árvores surpreendendo o grupo. – Ele sempre terá uma varinha para usar se for necessário.


Peter surgiu com um sorriso fazendo todos correrem para saudá-lo. Ele estava fora há muitos meses. Logo após o retorno de Sirius e Sonja, ele voltara para a corte levando Marian consigo. Era óbvio para todos que Peter não aprovava a escolha de Sirius inicialmente, mas, já pouco antes de sua partida, ele parecia verdadeiramente conquistado pela selkie. Agora, ele e sua protegida retornavam ao castelo para participar das festividades do aniversário de Harry, como era de se esperar.


 


Sirius e James ficaram felizes com a chegada surpresa. Harry e Rony também, mas porque a visita terminara com o pesado treino de espada. Para Hermione e Ginny, o que importava era o retorno de Marian.


As duas meninas estavam ansiosas para conversar com a amiga, pois Peter não fizera segredo de que sua ida para a corte estava estreitamente relacionada com a possibilidade de casar Marian ainda naquele verão. O seu favorito para desempenhar o papel de marido de sua protegida era um jovem lorde normando com muitas terras no continente. Sir Guy de Gisborne parecia ter todos os predicados necessários a ser um marido perfeito aos olhos de Peter, mas claro, não aos de Marian. Nas cartas que ela escrevia para Hermione seu passatempo favorito parecia ser criticar Sir Guy. Provavelmente, ela o odiaria mesmo que não tivesse a esperança de que Robin um dia fosse voltar da Terra Santa. Infelizmente, a julgar pelos comentários que James fazia a respeito das cartas de Peter, a jovem, agora, só poderia contar com a sorte, pois seu destino parecia traçado por seu tutor. Peter não parava de elogiar a si mesmo por ter conseguido o apoio da própria rainha Eleonor, madrinha de Marian e mãe do rei, para seus planos de casamento.


– Se ele gosta tanto, deveria ele mesmo se casar com Sir Guy – resmungava Hermione quando ouvia James narrar as intenções de Peter. A garota não se conformava com a amiga ser obrigada a casar com alguém que não gostava. Ela chegara até mesmo a pedir ao irmão que intercedesse por Marian, mas James respondeu que, até onde ele sabia, não havia nada suficientemente grande para impedir o casamento. E, como Marian os havia proibido de contar sobre seu relacionamento com Robin, Hermione teve de ficar quieta.


Quando retornaram ao castelo, coube aos exaustos Harry e Ron levar todo o equipamento para o galpão, limpá-lo e guardá-lo. Era seu trabalho como escudeiros e, por isso, Harry nunca reclamava do que tinha de fazer. Todos consideravam esta uma etapa muito importante da aprendizagem do cavaleiro. E, ao fim de tudo, Harry podia até mesmo dizer que pulara etapas. Ele deveria inicialmente ter sido pajem, mas isso deveria começar por volta dos sete anos, mais ou menos. Os pajens cuidavam dos cavalos, limpavam arreios, poliam armaduras, serviam nas festas. Harry chegou a fazer esse serviço por alguns meses, embora, ele reconhecesse que fazê-lo no castelo de seu próprio pai e não de outro lorde – como mandava a tradição – era bem menos trabalhoso. Porém, assim que Fred e George guardaram suas armas, Harry e Ron assumiram seus lugares como escudeiros. Harry de Sirius e Ron de James. Acreditava-se que um pai não seria suficientemente duro com um filho para forjar um real cavaleiro. Quem visse os mimos de James para com Harry, não discordaria.


No caminho para estrebaria, Harry estava tão cansado que mal percebeu o laconismo de Ron, mas assim que eles se livraram do equipamento e começaram a lavar-se para voltar ao castelo, as respostas excessivamente curtas do amigo passaram a incomodar.


– Qual é o problema?


– Nenhum.


– Corta essa. Faz tempo que você está assim.


– Assim como?


– Como se um lobo tivesse comido a sua língua. O que aconteceu?


Ron o considerou por um longo momento, franzindo os olhos.


– Você não está preocupado?


– Com o que?


– Os jogos.


– Ahh... – é claro que Harry vinha pensando nos jogos. Estavam se preparando arduamente para eles. Mas havia outras tantas coisas acontecendo, coisas tão felizes que sua preocupação com os jogos não tomavam a parte mais importante de sua cabeça.


Ron pareceu ler algo parecido com isso em seu rosto e fugiu ao olhar dele.


– Claro... para você é diferente. Você é Harry Potter, é o filho do senhor, não importa muito como você vai se sair.


– Que besteira! É claro que importa. Até mais que para você. Todos vão esperar que eu me comporte como meu pai e ninguém vai levar em conta que eu tive de aprender em meses o que os outros aprenderam em anos.


– Mas você não vai deixar de ser ordenado cavaleiro se fracassar.


– Nem você! – indignou-se Harry.


– É claro que vou! Quem vai ordenar um babaca cavaleiro?


– Não seja idiota, – disse Harry – meu pai vai ordenar você. E você não é babaca, só... está sendo.


Algo no que Harry disse finalmente deixou Ron muito, mas muito vermelho.


– Não quero esmola do seu pai! – berrou.


Harry ficou chocado.


– De onde você tirou isso?


– Eu quero valer alguma coisa, ouviu? Eu não tenho seu nome ou sua fortuna, então, eu tenho que valer alguma coisa! – ele continuou com a voz alterada.


Era difícil entender de onde vinha toda aquela raiva e Harry estava começando a se sentir mal, pois nunca alguém o havia colocado tão acima de si mesmo.


– Você só está dizendo besteira, Ron! – foi a vez de Harry se alterar. – Você tem idéia do que é tentar corresponder às expectativas de todo mundo... EM MESES?


– Tanto faz... seu futuro está garantido de qualquer jeito.


Dessa vez, Harry se incomodou de verdade. O que Ron sabia? O que ele podia saber da época em que todo o futuro que ele planejava era o de ter alguma idade e tamanho para fugir com sua mãe da casa dos Dursley. A vida de Ron tinha sido até aquele momento muito mais segura do que ele sequer ousaria imaginar há um ano atrás. Que culpa ele tinha de seu pai ser um senhor de terras? Isso também não o pressionava para ser um grande cavaleiro? Além disso... ora, o que Ron sabia sobre estar com a vida ameaçada por alguém que queria matá-lo desde que ele era um bebê. Harry sabia que estava seguro no castelo do seu pai, mas um dia ele teria de enfrentar aquilo, enquanto Ron... Bem, Ron poderia casar, ter filhos e engordar prosperamente se quisesse.


– Sabe de uma coisa? – disse terminando de se limpar. – Você tem razão.


– Tenho? – ironizou Ron.


– Tem. Você é um babaca e eu, se fosse o meu pai, não ordenaria um babaca cavaleiro – disse saindo o galpão sem olhar para trás.


A briga com Ron deixou Harry chateado o resto do dia e lhe tirou qualquer humor para se animar com o banquete que seu pai ofereceu, naquela noite, para Peter e Marian. Ron não pareceu melhor e, até o fim do jantar, já tinha se indisposto com Hermione, Ginny e cortara até mesmo as tentativas de Neville de conversar. Pareceu a Harry que Ron julgava o outro garoto tão culpado quanto Harry por ser filho de um senhor de terras e já ser, há algum tempo, escudeiro de Peter.


Mas Ron se tornou um problema bem pequeno quando, ao fim do jantar, Hermione o puxou para um canto a fim de conversar.


– O que houve entre você e Ron? – ela começou.


– Foi para isso que você me puxou para cá? A resposta não é óbvia? Ele é um babaca.


Hermione deu um suspiro longo.


– Não, não foi... apenas... ah, deixa para lá! Temos coisas mais importantes... – disse com certa urgência.


– O que?


A garota baixou a voz o mais que pode.


– James recebeu uma carta de Dumbledore – a atenção de Harry imediatamente mudou de foco. – Eu ouvi... por acaso, – ela explicou séria – quando ele comentou com Sirius... – fez uma pausa e respirou fundo deixando Harry ainda mais nervoso. – Capturaram Robert e os outros. – Harry arregalou os olhos. – É, eu sei. Felizmente, ao que parece, foram os muçulmanos e não os bruxos.


– Felizmente? – Harry se lembrou das histórias de prisioneiros capturados que conhecia, e não sabia como alguém poderia classificar qualquer captura de feliz.


– É... – Hermione pareceu compreender sua expressão. – Ao menos é o que James acha. Se fossem os nossos inimigos, eles certamente já estariam mortos. E não se sabe se os muçulmanos não irão vendê-los aos homens de Voldemort, mas não é só isso...


– O quê?


– Dumbledore mandou avisar que o pai de Sheamus Fininghan foi morto.


– Céus!


 – E... ele também, digo,  Dumbledore perdeu qualquer contato com os outros.


– Quando você ficou sabendo disso tudo?


– Pouco antes do jantar – ela respondeu.


– Por que não me contou?


– Não é o que estou fazendo? Não deu para te contar antes, tinha sempre alguém por perto – defendeu-se Hermione.


– E por que o meu pai não me contou? – perguntou Harry um pouco indignado.


– Não seja infantil, Harry! É muito provável que tenhamos um traidor no castelo, afinal alguém informou a localização exata de Robert, não é? Acho que James está certo em não ficar espalhanado esse tipo de notícia.


– Certamente o traidor não sou eu, não é? – Hermione revirou os olhos e, mesmo magoado pelo pai não confiar nele, Harry acrescentou antes que a garota o chamasse novamente de criança.  – Os Weasley já sabem?


– James falou para o Sr. e a Sra. Weasley. Você não percebeu como ela está abatida?


Harry realmente não tinha prestado atenção, tão bravo que estava com Ron. Agora que Hermione falara, ele olhou por cima do ombro dela e era inegável ver as sobras no rosto da mãe dos seus amigos. Uma idéia lhe cruzou a cabeça.


– Acha que o Ron já sabe?


Hermione virou-se para olhar o amigo.


– Eu não sei. Não consegui falar com ele, pois ele ficou impossível depois que voltou do treino. – A garota colocou as mãos na cintura, impaciente. – Vai me dizer o que houve?


Harry apenas bufou e desviou o assunto.


– Ginny sabe? Ela idolatra aquele irmão.


– Não contaram para ela – respondeu Hermione. – Mas, você sabe como Ginny é, ela está desconfiada.


Ele assentiu com a cabeça. A notícia lhe deu um novo senso de realidade. Sabia que seu destino estava atrelado ao de Robin – ao menos era o que afirmava a profecia - assim, se o outro estava em perigo, de alguma forma ele também estava. Por outro lado, imaginava como Ron estava se sentindo. Era seu irmão que tinha sido capturado e que provavelmente estava sofrendo em uma prisão infiel(1) àquela altura. Porém, isso não foi suficiente para esfriar seu ânimo com o amigo. Detestava o fato de Ron considerá-lo um privilegiado, alguém cujo valor pouco importava por ter um “nome” que o precedia.


Assim, os dois continuaram sem se falar enquanto os preparativos para os jogos mostravam-se mais e mais adiantados. A felicidade do início do verão, porém, dera lugar a uma expectativa tensa, cuja pressão aumentava dia após dia em que nenhuma notícia sobre Moody, Will e Robin chegava até o castelo. Não havia demorado muito para que todos os interessados ficassem sabendo da captura e da falta de notícias. Ginny andava cabisbaixa e Marian afundara num mundo mudo do qual ninguém conseguia arrancá-la, sempre com os olhos parados, perdidos. Para cúmulo, Peter não parava de comentar alegremente o noivado próximo da garota com Guy de Gisborne, o que soava mais como tortura do que qualquer outra coisa.


Então, finalmente, chegou a data do aniversário de Harry e os dias dos jogos. Assim que as comitivas chegaram, foi possível perceber o “ar” do castelo mudar. Não era difícil entender o por quê. Era quase impossível ficar alheio ao brilho das armaduras, às cores dos estandartes das comitivas, à música que elas entoavam com seus menestréis e flautistas. Harry ficou ainda mais maravilhado com as comitivas de senhores bruxos, nestas, era possível ver os animais avatares se mexendo nas flâmulas e estandartes. Havia um dragão que cuspia fogo, um unicórnio que saltitava, um cavalo alado voador. Algumas comitivas bruxas faziam espocar estrelas brilhantes em pleno dia. Era uma verdadeira festa, à qual era impossível ficar indiferente. Contudo, a tensão não foi embora completamente, e não só porque a preocupação com Moody e os outros ainda persistia, mas por que nem todos os convidados eram exatamente bem vindos.


Ao que parece, o príncipe John achou que seria interessante lembrar Sir James Potter que ele era o atual governante da Inglaterra e – numa lembrança que mais parecia afronta – enviou uma comitiva para representá-lo. Uma comitiva que, por conta de estarem carregando o estandarte real, não poderia ser convidada a se retirar. A ofensa ficou por conta do rosto fino e arrogante do chefe da comitiva. Sir Lucius Malfoy encabeçava seu grupo como se fosse o próprio rei, vinha ladeado pela esposa Narcisa, pelo filho Draco e por Guy de Gisborne (que mais tarde revelou ter vindo a pedido da rainha, por conta de seu futuro compromisso com Lady Marian). James havia achado o esquema todo hilário, enquanto os avistava do alto de uma das janelas. Teria continuado a debochar da empáfia dos Malfoy junto com Sirius, não fosse pelo fato de que, logo atrás de Lucius, vinha ninguém menos que o Xerife de Nottinghan, Severus Snape.


– Não dá para negar que ele é corajoso – comentou Remus quando viu o sorriso de James sumir.


– É muito topete aparecer aqui depois de quase matar James! – rosnou Sirius.


– James quase o matou também – contemporizou Peter.


– Ainda há tempo para terminar o serviço – resmungou James, com os olhos fixos no pátio.


– Comporte-se, James – Dumbledore não pareceu levar a ameaça a sério. Ele havia chegado pela manhã e agora degustava um bom cálice de vinho dos elfos com seu anfitrião e os amigos. – Tudo o que o príncipe John quer é que você reaja, de qualquer forma. Há muito tempo ele quer um rosto para simbolizar os barões rebeldes e o seu é o primeiro da fila. Lembra-se do que o pai dele fez ao Conde de Huntington?


– Huntington não era um bruxo.


– E desde quando ser bruxo nos torna menos vulneráveis? Esquece que o outro lado também tem bruxos? Bruxos bem menos éticos que você ou eu? Bruxos que não hesitariam ao mais horrível dos ataques? Sem medir qualquer consequência?


– Dumbledore... – tentou argumentar James.


– Meu amigo – tornou calmamente o alquimista – seria bom que você não esquecesse que suas ações não afetam mais apenas você mesmo. Não estou falando somente do fato de que você tem sua família de volta agora, estou falando do fato de que Harry se espelha em tudo o que você faz. Seria bom se você desse como exemplo para o seu filho um pouco mais discernimento e menos impulsividade. O que me diz?


James cruzou os braços e encarou Dumbledore com seriedade.


– Eu digo que você quer que eu sente à mesa e confraternize com os meus inimigos.


– Meu caro... quando se trata de política, fazemos isso o tempo todo. Eu mesmo, sentaria à mesa e confraternizaria com o próprio Voldemort se tal fosse necessário para vencê-lo.


– Suas concessões não me agradam, Dumbledore.


O velho alquimista sorriu.


– E acredite, meu amigo, eu faço bem poucas. Entenda, não digo que isso me dá prazer, mas eu sei que quando o inimigo se aproxima tanto assim, é melhor conhecê-lo o melhor que se puder antes de atacá-lo, você não acha? Tudo o que digo é: seria mais interessante, antes de expulsar Severus, tentar saber por ele quais as intenções dos Malfoy em estarem aqui.


– Isso é uma medida inteligente – comentou Remus que se escorara à janela e observava a conversa.


– Sou conhecido por isso, meu caro Remus – lhe respondeu Dumbledore.


– E por que Snape nos contaria qualquer coisa? – perguntou Sirius.


– Bem, Sirius, eu acho que ele faria isso porque apesar de sua rixa com James e com você, ele está do nosso lado.


– Rá! – debochou James.


– Estou falando de política, James, de política.


Apesar da cara fechada com que James recebeu o comentário, ele se portou magnificamente ao receber as comitivas. Saudou Lucius Malfoy e sua família com uma civilidade tão ampla que ninguém teve dúvidas do fingimento, mas tampouco se pode lhe acusar de qualquer coisa. Portando-se como o mais agradável e lisonjeador dos anfitriões, ele passou um tempo (quase longo demais) elogiando a beleza da senhora Malfoy e a robustez do jovem Draco. Cumprimentou Sir Guy educadamente (afinal nada tinha contra o rapaz) e, por último, fez questão de notar a presença de Snape.


– Meu caro Xerife! Seja bem vindo de volta a minha casa – exclamou com falsa alegria. – E... surpreendentemente inteiro.


Snape prendeu fortemente o maxilar e rosnou a guisa de cumprimento.


 – Estou igualmente deslumbrado em vê-lo, mylord, digo, em pé.


Somente quando o sorriso de James tomou todo o seu rosto é que Snape percebeu que a troca de palavras encerrava uma armadilha. De fato, ele poderia ter ido para a cama sem o que veio a seguir.


– Dumbledore é um curandeiro incrível. Mas minha esposa é uma excelente enfermeira. Que doente não ficaria perfeito sob os cuidados dela, não é mesmo?


Antes que Snape tivesse condições de responder a provocação, James já se voltava para outros recém chegados. À noite, um banquete de proporções gigantescas foi servido para saudar os convidados e homenagear o aniversariante. Harry gostaria de dizer que ficou desconfortável com a atenção, isso poderia ser acrescentado em sua personalidade como uma saudável modéstia, mas a verdade – difícil de esconder até para si mesmo – é que ele adorara. Ganhara uma bela adaga de Sirius e um anel com brasão dos Potter de seu pai. Hagrid, que há dias o rondava para entregar seu presente, deu-lhe magníficas rédeas mágicas para serem usadas em Segredo. Harry já andava montando seu belo cavalo de fogo, porém tinha que ter enorme cuidado quando o fazia, num único dia que tentara soltar o galope fora parar quase na fronteira do país de Gales.


– Com estas – explicou Hagrid muito satisfeito consigo mesmo – você poderá cavalgá-lo como se fosse um cavalo normal e quando quiser correr... basta tirá-las.


– Nossa, Hagrid!! Eu adorei! Obrigado.


O grandalhão inchou de orgulho.


– Little Jonh trançou a corda e eu a enfeiticei. É um presente de nós dois.


– Puxa! Agradeça a ele por mim – disse Harry com sinceridade. Little Jonh estava cuidando das cavalariças, agora cheias com os animais que participariam dos torneios. Hagrid não se demorou e logo foi ajudar o irmão.


 Alguns convidados lhe entregaram seus presentes, outros preferiram esperar para entregá-lo no banquete que haveria no dia de seu aniversário.


Os menestréis cantavam histórias depois da ceia quando Draco Malfoy se aproximou dele. Harry estava ladeado por Hermione, Neville e Ginny


– Nossos pais nos apresentaram hoje pela manhã – ele disse num tom cheio de importância e Harry lhe deu um cumprimento de cabeça. Como não disse nada de volta para o garoto, recebeu um discreto cutucão nas costelas de Hermione. Havia todo um protocolo de cumprimentos a ser seguido e Harry teve de forçar um pouco a memória para lembrar o que deveria dizer.


– Er... sim, meu pai e eu estamos honrados com a presença dos Malfoy em nossos jogos.


Draco deu um meio sorriso, aparentemente satisfeito com a resposta. Depois de outro olhar de Hermione, Harry continuou.


– Deixe-me apresentá-lo, estes são Neville de Longbotton...


– O filho de Sir Franklin de Longbotton – reconheceu Draco cumprimentando o rapaz. Neville lhe fez uma pequena reverência com a cabeça.


Harry prosseguiu.


– E estas são: minha tia, lady Hermione e... – ele não soube bem como intitular Ginny, então, não disse nada – Ginevra Weasley.


Draco ergueu a sobrancelha para as meninas e, acintosamente, ignorou Ginny antes de considerar Hermione.


– Você disse... sua tia? Pensei que Sir James fosse filho único. – É claro que o fato de Hermione ser filha bastarda de Sir John Potter era embaraço, mas o tom de Draco foi tão malévolo, tão cheio de despeito que Harry o encarou como se o desafiasse a dizer qualquer coisa.


– Bem, ele não é.


O garoto ergueu o queixo fino e mediu Hermione de alto à baixo como se ela fosse algo um pouco nojento que ele tivesse de examinar.


– Nesse caso – Draco inclinou a cabeça para Hermione, mas não havia cortesia no gesto.  – Hã... devo crer que sua tia é uma...


– Bruxa? – ajudou Harry. – Sim, ela é.


– Eu ia dizer... mestiça.


– Qual a importância disto? – retorquiu Harry começando a perder a paciência.


Draco deu ombros.


– Se você não vê...


– O que eu vejo é que você não se portou como um legítimo cavaleiro – afrontou-o Harry. – Eu lhe apresentei duas damas e você não dirigiu seus cumprimentos a nenhuma delas com a propriedade exigida, creio que isso é um insulto, não é?


Se Malfoy não baixasse o topete com a pergunta, teria de se retirar ou duelar com Harry. Estando em sua casa, Harry esperava que Draco optasse por seguir o protocolo. Malfoy não se abalou.


– Milady – disse inclinando a cabeça na direção de Hermione, com evidente má vontade. – Contudo, Potter, você não pode me obrigar a cumprir um código que, certamente, não se aplica à criadagem – disse lançando um olhar de esguelha para Ginny. – Seria exigir demais de minha dignidade, mesmo que eu, de forma alguma – assegurou falsamente – queira ofendê-lo.


Ginny ficou imediatamente cor de beterraba e vindo, não se sabe de onde, Rony irrompeu ao lado de Harry e precisou ser contido por ele e Neville. Draco, porém, não esperou pela réplica de Harry. Com um rápido movimento de cabeça, ele saiu dali e foi se refugiar junto ao pai.


– Aquele... aquele... – vociferava Ron ainda seguro por Harry e Neville.


– Deixe de ser ridículo, Ron – falou Ginny com uma autoridade que Harry não reconheceu.


– Mas ele...


– Não disse mais do que a verdade – ela completou e Ron parou de lutar contra os dois amigos imediatamente, chocado. – É exatamente o que somos.


– Ginny! – exclamou Hermione, ela ainda estava pálida com os insultos destilados por Malfoy.


Mas a garota ergueu a cabeça e encarou-os firmemente.


– Apesar da gentileza de seu irmão, Hermione, e da sua, da de lady Lily e de Harry, este é o nosso papel nessa casa e não há porque nos ofendermos por isso. Malfoy é desagradável sim, mas falou apenas o que é um fato.


– Ginny – interpelou Harry – meu pai não os vê assim. Vocês são... amigos e...


– Somos Harry. Mas Ron não é ainda um cavaleiro que mereça qualquer tipo de deferência e eu nunca serei mais do que minha própria mãe é, isto é, a governanta de um castelo. Não há qualquer razão para um jovem lord como Malfoy me cumprimentar.


Harry queria dizer que ela estava errada, mas notou que Hermione – com quem ele sempre contava para entender o mundo que passara a viver desde que encontrara o seu pai – e Neville baixaram a cabeça como que concordando. Ron ainda estava alterado, tinha uma cor esquisita, meio marrom, mas também não a contestou. Ele se soltou de Neville e Harry e rosnou em voz muito baixa.


– Ainda teríamos nossas terras se não fosse pelo pai dele.


– E por Voldemort, e pelo falecido rei Henrique... a culpa deles não muda nossa condição.


– Ginny... – tentou mais uma vez Hermione – entre os bruxos...


– A nobreza e as posses são menos consideradas? Mesmo? Você não prestou muita atenção no comportamento dos convidados Hermione? Na maneira como olham para meu pai ou para a minha mãe? E eu estou falando dos convidados bruxos. – Ela deu um suspiro e um pequeno sorriso. – Isso me fez lembrar, acho que devo procurar a mamãe para ver se ela precisa de ajuda em alguma coisa. Com a sua licença...


Ginny dobrou os joelhos numa reverência curta e sumiu antes que eles pudessem lhe dizer qualquer coisa. Harry ainda estava em choque. Num dia, ele sabia que ocupava um lugar na sociedade dos homens muito abaixo do da família Weasley, no outro, um lugar muito acima e mal sabia como lidar com essas diferenças. De fato, ele sequer as entendia completamente.


O episódio teve ao menos um ponto positivo. Ron e ele se esqueceram da discussão que haviam tido e se colocaram a xingar os Malfoy com o apoio total de Hermione e Neville. No dia seguinte, os dois se encaminharam juntos para assistirem a primeira prova do torneio. Tradicionalmente, as disputas de arco e flecha eram as únicas que reuniam nobres e plebeus em pé de igualdade. Os bruxos não poderiam usar magia e era, acima de tudo, a habilidade com a arma que contava mais. Harry nem pensou em competir. Mesmo com as lentes que Dumbledore lhe presenteara, ele ainda era muito pouco destro com um arco. Ron participou, mas não foi muito brilhante e Neville não conseguiu passar nem da primeira fase. Para a felicidade deles, Draco saiu imediatamente a seguir. A disputa final ficou entre Little John e Sirius, que venceu mais por sorte que por habilidade. Contudo, o fato de receber a flecha dourada das mãos de Sonja, pareceu alertar Narcisa Malfoy que seu primo tinha, para todos os efeitos, uma esposa e que era uma esposa de que a família Black não gostaria nadinha. Antes do fim da noite, todos os convidados que tinham alguma ligação com os Black olhavam de forma depreciativa para Sonja e não lhe dirigiam a palavra. Sonja importou-se pouco, mas Sirius e James pareciam prestes a subir pelas paredes de tão furiosos.


O segundo dia de competições amenizou um pouco o clima ruim que se instalara. Era o dia das competições entre os escudeiros. Encilhar cavalos, montar armaduras, destreza com nós e facas. Harry, Ron e Neville se saíram muito bem em todas e, para sua decepção, Draco também, mas nenhum deles ganhou o primeiro lugar, este ficou para um garoto mais velho chamado Cedric Diggory. Até onde Harry ficou sabendo, Cedric estava apenas a algumas semanas de guardar suas armas, logo fazia sentido que eles perdessem para um “quase” cavaleiro. No combate simulado com espadas de madeira (as únicas que os escudeiros podiam empunhar), Harry torceu para que o sorteio lhe indicasse Malfoy como dupla, queria dar uma lição no garoto, nem que fosse com os punhos, contudo, o felizardo, desta vez, também foi Cedric que venceu Draco sem dificuldade, mas isso não ajudou os meninos a se sentirem vingados como queriam. Até Neville, sempre calmo, estava com ganas de pegar o jovem Malfoy.


Foi só no terceiro dia que as competições mais importantes – as justas entre os cavaleiros – começaram a ser realizadas. Harry teve muito trabalho como escudeiro de Sirius que, como foi bem nas competições, fez um maior número de disputas. Neville parou seus trabalhos na segunda rodada, quando Peter foi derrotado pelo Xerife Snape. Embora indo muito bem nas disputas, como que por “mágica”, Snape não chegou a competir nem com Sirius, nem com James,e acabou sendo derrotado por Sir Guy. Dumbledore assistiu a todas as competições parecendo muito satisfeito com tamanha “sorte”.


A grande final ficou entre James e Sir Guy, que se mostrara um cavaleiro quase perfeito nas competições e vencera Lucius Malfoy nas semi-finais. Harry estava exultante, não tinha a menor dúvida de que seu pai venceria e isso era exatamente o contrário do sentimento de Ron. Sendo escudeiro de Sir James, Ron ficara apavorado com o fato de ele ir para a final. Tinha certeza de que, se James perdesse, seria por algo que ele houvesse feito de errado.


– Não se preocupe tanto, Ron – alentou-o Remus. – Você está indo muito bem até aqui.


Os três estavam em uma das tendas que margeavam o campo de Marte(2). As tendas serviam para os cavaleiros se vestirem e se concentrarem antes das lutas e também para se atendidos e descansarem após cada combate. Cada um dos competidores ergueu a sua e, como era de esperar a de Sir James era uma das que ficava mais próximas à arena.


– Posso enumerar cada erro que cometi até aqui, Sir Remus – respondeu Ron muito vermelho enquanto verificava os cascos do cavalo de James.


– Bem, eu acho isso muito bom. Se você sabe, é sinal que tomará mais cuidado da próxima vez.


Ron deu gemido audível e não respondeu. Agora, Harry também estava um pouco preocupado. Confiava em Ron, mas não queria que James perdesse. Remus, parado ao seu lado, pareceu notar sua expressão e baixou a voz para lhe falar.


– Seu pai é um dos melhores cavaleiros do país, Harry. Lembre-se disso. Ele tem uma inteligência rara para o combate e que desconheço cavaleiro que tenha igual. Não é fácil batê-lo ou a Sirius, tanto que foi James quem tirou seu padrinho da competição, acho que isso é o bastante para você não se preocupar.


Uma justa de cavaleiros é uma disputa muito interessante. É chamada de justa porque se acredita que o vencedor não é apenas o melhor cavaleiro, mas também aquele que Deus considera melhor, mais fiel, mais justo e o que tem a vontade de Deus ao seu lado. Os cavalos são pesadamente ornamentados. Usam longas mantas coloridas e bordadas por cima das selas e, por vezes, até mesmo armaduras de ferro por baixo delas. Não raro suas cabeças também recebem elmos, alguns com córneos pontiagudos e, virtualmente, mortais, caso atinjam o cavaleiro inimigo. Sobre o animal, o cavaleiro monta todo aparamentado com sua armadura mais imponente e fechada – isso torna complicado o trabalho do cavalo quando os cavaleiros já não tem mais a forma e o peso dos anos de juventude.


Como escudeiro, Ron sabia que não poderia cometer nenhum erro ao paramentar Sir James para a luta. Ele o ajudou a vestir a longa cota de malha e amarrou as perneiras de ferro com especial cuidado, depois o ajudou com o colete metálico fechando as amarras de couro que o prendiam ao corpo. Calçou as braçadeiras e, por fim, a longa túnica vermelha com o brasão e as cores dos Potter. Sendo o homem forte que era. Sir James montou seu cavalo sem ajuda, mesmo com todo o peso extra. Ron tomou o elmo sob o braço esquerdo e com o direito ajudou a conduzir o cavalo para fora da tenda.


O dia estava quente, um pouco abafado, com uma brisa quase imperceptível que, apenas de vez em quando, soprava refrescando o público que cercava a arena. Mesmo sob o sol, ninguém parecia disposto a procurar uma sobra e perder o combate e, quando Sir James apareceu, foi ovacionado por uma platéia entusiasmada. Logo depois, Sir Guy saiu de sua tenda e foi aplaudido também, embora não com a mesma admiração, visto que ele era o cavaleiro visitante.


Ron passou o elmo para James, que o vestiu e, depois, com algum esforço, entregou-lhe a lança. Do outro lado da arena, Sir Guy repetiu os mesmos gestos. O público continuava a aplaudir e chamar pelo nome de seu cavaleiro favorito. Os dois cavaleiros, então, desfilaram até a tribuna de honra, presidida por Dumbledore, para se apresentarem. Assim que receberam o cumprimento do Alquimista, os dois se dirigiram para suas respectivas damas. James inclinou a ponta de sua lança até onde Lily estava, e ela, sorrindo, deu-lhe a prenda de um lenço dourado amarrado frouxamente na ponta da lança. Com um sorriso presunçoso, James fez o lenço escorregar pela lança até pegá-lo com a mão e, num gesto galante, cheirou-o antes de escondê-lo sob a luva da mão direita. Sir Guy fez o mesmo com Lady Marian que, com uma expressão educada, concedeu ao cavaleiro a prenda de um lenço branco. O compromisso entre os dois não permitia a  Sir Guy um gesto tão impetuoso quanto o de James, afinal, Marian ainda não era sua esposa para que ele ousasse buscar o cheiro da dama no lenço. Assim, Sir Guy limitou-se a agradecer a prenda com um gesto de cabeça, porém, num arroubo, colocou o lenço sob o colete de ferro, no lado esquerdo do peito. Lady Marian deu um sorriso amarelo e voltou a sentar ao lado de Dumbledore.


Numa competição amigável, como aquela, as pontas das lanças podiam ser cobertas por bolas de madeira, para diminuir o risco de ferimentos. Porém, se a bola quebrasse, não poderia ser substituída, pois, quando a justa começava, o que acontecia, era a vontade de Deus. Contudo, como os dois cavaleiros deviam lutar em igualdade, caso a proteção da lança de um deles se partisse, a do outro também seria retirada. De qualquer forma, o objetivo final era levar o oponente ao chão.


James e Sir Guy conduziram seus cavalos até os extremos do campo de Marte e cada um postou-se de um dos lados de um estrado de madeira que chegava a altura dos flancos de seus cavalos. Os dois baixaram as viseiras dos elmos quase ao mesmo tempo e empunharam suas lanças compridas e pesadas, depois, a um toque de trombeta que seguiu à ordem de Dumbledore, os dois partiram um em direção ao outro. Os cavalos imponentes e coloridos galopavam velozes e, ao contrário do que se pensa ou do que fica preso na memória, o embate é muito rápido. Na primeira passagem, Sir Guy atingiu James na perna e, felizmente, a proteção não se quebrou. Na segunda, James acertou Sir Guy no braço direito e ele quase perdeu a lança. Na terceira passada, as lanças se chocaram e a de James se partiu. O fato, apesar da “vontade de Deus”, obrigou aos dois cavaleiros a mudarem suas lanças. Passaram para lanças mais curtas, mais perigosas, mas ainda assim foi possível manter a proteção de ambas.


Os dois cavalos resfolegavam já. Os dois cavaleiros também pareciam cansados sob seus elmos, mas nenhum deles pretendia entregar a disputa. Caso houvesse novo problema com as lanças, eles provavelmente teriam de resolver a disputa na espada. Assim, mais uma vez, os cavalos e os cavaleiros se prepararam cruzar um pelo outro. O perigo das lanças curtas fez com que, quando os animais partiram, o público que assistia chegou a prender a respiração. Harry viu Lily segurar a mão de Hermione na tribuna de honra e sentiu a mão de Remus sobre seu ombro e o de Ron, para acalmá-los. Sirius estava junto ao público, bem perto do combate, ao lado de Peter que roia as unhas da mão. Harry teve certeza de que ouvir os gritos do padrinho antes mesmo que percebesse que seu pai já havia acertado Sir Guy no peito e que este estava indo direto para o chão.


Depois, a sequência de acontecimentos ficou meio confusa na cabeça de Harry. Num instante ele estava lá com Remus e Ron gritando muito e pulando no mesmo lugar e, no outro momento, ele estava abraçando o pai e a mãe, esquecendo seu papel de escudeiro e sendo filho. Lembrava de James comemorando com os seus três melhores amigos, sem nunca tirar o braço da cintura da esposa e de como continuaram a festejar por um longo tempo. Então, tudo tinha acabado e todos já estavam ansiosos pelo banquete da noite, o que celebraria o aniversário de Harry. O público se dispersou, mas já seguiu para as longas mesas postadas no pátio do castelo para que todos celebrassem. Harry e Ron foram com James para a sua tenda, a fim de ajudá-lo a tirar a armadura e descansar enquanto se preparava para a noite. Peter anunciou que iria para seus aposentos, trocar de roupa. Sirius sumiu. Remus seguiu com eles. E Lily, depois de mais um beijo no marido, disse que iria ver se tudo estava pronto para a grande festa.


Detendo-se para receber os cumprimentos dos convidados, Lily demorou algum tempo até conseguir chegar às cozinhas e fiscalizar os trabalhos. Não havia muito que fazer, já que Molly Weasley estava ali, porém, lhe dava uma sensação de utilidade, simplesmente conversar com a governanta para se assegurar de que tudo estava em ordem. Também não havia grande necessidade de fiscalizar o trabalho dos elfos que estavam preparando as mesas para os convidados, assim, Lily resolveu que trocar-se era o melhor a fazer e ir logo recepcionar as pessoas que estavam se acomodando para o banquete.


Foi quando subia as escadas para ir para o seu quarto, que viu Sirius entrando na sala de audiências de James. Estranhou sua atitude, olhando para os lados, como se estivesse se escondendo, ele não a viu e entrou. Quase sem pensar Lily o seguiu, não podia imaginar de quem Sirius poderia querer se esconder ao entrar naquela sala, a menos... a menos que estivesse querendo pregar alguma peça em James.


Porém, algo lhe dizia que não era nada disso. Instintivamente, mexeu na porta bem devagar e foi abrindo-a lentamente. Sirius estava debruçado sobre a mesa de James procurando alguma coisa. Lily viu quando ele pegou o anel com brasão que estava em uma caixa sobre a mesa, o que James usava para selar suas cartas. Com um pequeno sorriso, Sirius colocou o anel em uma pequena bolsa de couro e a amarrou ao cinto. Ele já pretendia sair quando viu Lily parada à porta.


– Lily!


Sirius pareceu assustado em vê-la. Demasiadamente assustado. Isso lhe deu uma sensação desagradável na boca do estômago.


– O que está fazendo aqui, Sirius? – perguntou calmamente. – Achei que estaria comemorando com James.


– Eu... vim... er... – Lily continuou parada junto à porta olhando-o incisivamente. Ela não se deixaria enganar facilmente. Insistiria, acabaria estragando tudo, todos os planos cuidadosamente preparados. Ele forçou um sorriso e levou a mão ao cinto. – É só uma peça, Lily. Vamos rir um pouco.


– Mesmo? – ela não acreditou. – E por que pegou o anel de James? É isso a “peça”?


– Hã... é, é sim. Eu... Entre – ele pediu untuosamente – eu vou lhe explicar o que vamos fazer.


Lily arqueou a sobrancelha, avaliando e depois entrou, fechando a porta atrás de si.


– “Vamos”? Quem mais está envolvido?


Ele deu um pequeno sorriso satisfeito e começou a se mover rapidamente na direção dela.


– Ora, eu... Remus...


Foi num átimo. Lily nem teve chance de pensar. Ele escorregou a mão pelo cinto, puxando um punhal e, agarrando-a pelo braço, enfiou-o até o punho bem no meio da barriga dela. Os olhos de Lily se arregalaram chocados, mas antes que ela gritasse, ele sussurrou silêncio e a garganta dela se fechou. A faca saiu e entrou mais duas vezes, então, ele soltou o braço de Lily e ela caiu.


Sem olhar duas vezes para mulher, Sirius limpou o punhal no vestido de Lily e depois saiu da sala apressadamente. Assim que se viu no corredor, se voltou para porta e selou-a com um feitiço. Demorariam muito tempo para encontrá-la. Tempo suficiente.


Caminhou acelerado até o fim do corredor, saiu por uma das sacadas, inverteu os passos e chamou pelo nome de um dos elfos da casa. Escolheu um jovem, pressuroso e tolo, para que não houvesse perguntas.


– Gamão!


Imediatamente o serzinho minúsculo apareceu na sua frente e fez uma longa reverência.


– Sim, mestre Sirius.


– Estou armando uma surpresa para o mestre James, você pode me ajudar? – O jovem elfo sorriu encantado.


– Será um extraordinário prazer, meu senhor.


– Ótimo! – ele poderia alongar aquilo para ter menos problemas, mas a interferência de Lily lhe dera pressa. – Chame Harry e avise-o, sem que ninguém veja – salientou – para encontrar-me no ancoradouro atrás do castelo. Entendeu?


– Sim, meu senhor.


– Então, vá. E não deixe que o vejam, ou ouçam o recado, certo?


– Sim, meu senhor – e sem esperar outra ordem o elfo sumiu num poc.


Excelente. Em questão de minutos, Harry Potter estaria longe das seguras muralhas do castelo. O mestre ficaria muito satisfeito com seu servo mais fiel.


 


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(1) O termo “infiel” não pretende aqui ter qualquer conotação religiosa, política ou muito menos pejorativa. É apenas um termo da época. Os ocidentais cristãos usavam contra os muçulmanos e os muçulmanos contra os cristãos.


(2) Campo de marte era como eram designadas as arenas de luta na época.


 


NB Pri: AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!  Esse deve ser o grito agora ouvido em muitas (talvez centenas, milhares) de lugares nesse momento. Alguns serão ouvidos dentro de lan houses, shoppings, escritórios (nestes, os funcionários serão taxados como inegavelmente loucos), casas e apartamentos. Até eu, que ouso dizer que sei um pouquinho do que vem por ai (olha a beta abusada!!!), resfoleguei e fiquei sem chão. Hummmm taí, eu gostaria de saber onde vocês estavam quando gritaram ao ler esse final surpreendente! Mas eu confio em você, Nika. Muito!!! Tanto que não estou com raiva, nem apreensiva. E continuo te amando comadre. Esse capítulo todo foi maravilhoso.


 


N/B Sônia: É, ela voltou! E que volta! – Anam, você não tem idéia da saudade que eu estava... Da felicidade em receber o e-mail! – “capítulo novo” soou para mim como, “Oba, Natal em outubro!” ;D – Dito e afirmado o quanto essa história fez falta... VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO??? Quem é esse lazarento, filhote de mequetrefe com Deus nos acuda que tomou a forma do Sirius?????? E a Lily???? Quem vai encontrá-la???? Misericórdia, eu tive de ler duas vezes para acreditar que estava acontecendo! :O – sobre as justas... Sabe Anam, um dos livros que eu li várias vezes na vida foi Ivanhoé, principalmente por ser fascinada por tal época e seus costumes, hábitos e tradições. E hoje, hoje você me levou até lá. Hoje eu sentei-me à direita da Marian, de olho no Sirius, (sorry Paty, é mais forte que eu),e assisti às disputas, e torci, e aplaudi... Fantástico, Anam! Obrigada! =D – É inútil te desejar bom retorno... Ele JÁ É fenomenal! – Beijos muitos! Até o próximo! Beijo nos guris! – Te amo, talentosa!


 


N/A: Depois de um longo e tenebroso inverno (e há mais verdade nessas palavras do que eu gostaria) finalmente um novo capítulo de A Floresta das Sombras. Antes de tudo quero agradecer a todos que esperaram pela fic, me mandaram e.mails cobrando e, especialmente a todos os que vieram aqui desejar saúde e felicidade para mim e o meu bebê. Informo orgulhosamente que ele está enorme e muuuuiitoooo saudável e quando sorri deixa o mundo um lugar melhor para se viver.


Eu adoraria responder com carinho cada comentário, mas isso atrasaria a postagem, então, creio que vocês me perdoam, não é? Vou tentar fazer isso no próximo, então comentem, ok?


 


Beijos estalados nas bochechas de cada um


Sally




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