O quarto estava em total penumbra quando Maria acordou. As tochas que pendiam acesas das paredes tinham um brilho fraco e bruxuleante e a lareira do canto já estava quase apagada.
Severus dormia tranquilamente ao seu lado, seu torso nu exposto ao frio. Ela puxou as cobertas para agasalhá-lo, passando-lhe levemente os dedos pelo rosto. Sentia-se tão feliz, tão completa. Aninhou-se ternamente no peito dele e olhou para o relógio da parede cujos ponteiros marcavam 3:42h. Ainda era muito cedo, então decidiu ficar ali imóvel para não acordá-lo. Sabia que ele não poderia permanecer em seu quarto até o amanhecer. Isso era realmente uma pena. Queria tanto poder dormir e acordar com ele.
Estava absorta em seus pensamentos quando sentiu a mão de Severus a acariciar-lhe os cabelos. Voltou os olhos para ele e sorriu.
“- Acordei você ?”, ele perguntou.
“- Não, eu já estava acordada há alguns minutos. Você dormia tão tranquilamente que tive pena de chamá-lo.”
“- Que horas são ?”
“- São 3:50h. Ainda é cedo, você não precisa ir agora.”, ela retrucou com um muxoxo.
“- Eu não estava pensando em ir. Estou apenas com muita fome, por isso imaginei que já fosse hora do café da manhã.”
“- Deve ser porque você não jantou. Percebi que mal tocou a comida ontem à noite.”
“- Eu não estava com ânimo para comer. Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse em estar com você.”
“- É mesmo ?”, questionou ela, “- Pois saiba que a recíproca é totalmente verdadeira.”, continuou, brevemente roçando seus lábios nos dele.
Severus lançou seu olhar para o bolo que ainda jazia sobre a mesa. As velas agora totalmente apagadas. “- Não sou muito de comer doces, mas até que este bolo está me apetecendo.”
“- É claro ! Vamos degustá-lo agora mesmo !”, disse Maria pegando um robe que pendia próximo à cabeceira da cama. Vestiu-o rapidamente e levantou-se indo até o armário. Achou lá um outro robe e o levou para Severus. Enquanto ele o vestia, ela pegou sua varinha e foi até a mesa, fazendo com que novas velas acesas aparecessem sobre o bolo. Para exasperação do Mestre de Poções, ela começou então a cantar parabéns para você. Quando terminou, olhou inquisidoramente para ele, mas não obteve qualquer resposta.
“- Você não vai apagar as velas ?”, perguntou sorrindo.
“- Há mesmo necessidade para tanto ?”, respondeu ele, com outra pergunta.
“- Mas é claro que sim.”
Severus fez um gesto resignado e levantou-se da cama, sentando-se logo em seguida em uma das cadeiras que estava junto à mesa. Apagou todas as velas com um só sopro.
“- Está satisfeita agora ?”
“- Muito ! Você quer que eu corte o bolo ?”
“- Por favor.”, disse ele. “- Não tenho o mínimo jeito para essas coisas.”
Maria cortou o bolo e colocou uma fatia dele sobre cada um dos dois pratos que estavam sobre a mesa. Depois abriu uma garrafa de vinho tinto e encheu duas taças. Os dois começaram a comer vorazmente. Quando finalmente se deram por satisfeitos, ela foi até a estante e trouxe o embrulho que lá havia sido deixado, entregando-o a ele.
“- Você ainda não abriu seu presente.”
“- Ah sim. Vou abri-lo agora.”, disse ele desfazendo o embrulho. Dentro dele havia uma caixa de papelão branco. Severus abriu cuidadosamente a caixa e encontrou em seu interior um porta-retratos contendo a fotografia que havia tirado com a família Gentili durante o Natal.”
“- É um presente maravilhoso, minha querida. Vou colocá-lo em meus aposentos, sobre a mesa de cabeceira, para que você e sua família sejam sempre minha última visão antes de dormir e a primeira após acordar.”, disse ele, levantando-se para abraçá-la.
“- Fico feliz que tenha gostado. Jean Pierre me enviou uma cópia da fotografia logo após o Ano Novo. Achei que seria um bom presente mas não sabia quando era seu aniversário. Então decidi ontem que o melhor seria perguntar a Albus. Para minha surpresa e alegria, fiquei sabendo que seu aniversário era ontem mesmo. Ainda bem que perguntei a tempo !”, disse ela animadamente.
“- Não tenho palavras para agradecer. Nada que eu possa dizer poderá expressar o quão feliz me sinto nesse momento.”
Maria o abraçou ternamente. Os dois ainda ficaram ali juntos por algum tempo até que Severus decidiu que já era hora de voltar para seus aposentos. Vestiu-se, pegou o presente que havia ganho e beijou-a mais uma vez antes de se retirar.
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Aquele domingo transcorreu normalmente. Maria tinhas várias aulas para preparar e ficou muito absorvida durante todo o tempo livre pois também precisava corrigir os trabalhos de idiomas que requisitara aos alunos. Encontrou Severus durante o café da manhã e o almoço, mas não trocaram mais do que algumas palavras. Estavam ambos ocupadíssimos. Só puderam se encontrar novamente com calma durante o jantar.
Quando terminaram a refeição, rumaram imediatamente para o laboratório de poções, onde o trabalho de tradução foi retomado a partir do ponto onde havia parado.
Ficaram absorvidos pelo trabalho por mais de uma hora. Como de costume, enquanto ela traduzia as poções, ele se preocupava em selecionar e começar a preparar as fórmulas que mais valiam à pena.
O início do volume 55 parecia não conter conteúdo de muito interesse. Aparentemente não haveria nesse tomo nada de especial. Foi quando Maria deus com os olho em uma coisa que imediatamente lhe chamou a atenção.
“- Severus, venha cá. Venha ver isso.”
Ele imediatamente aproximou-se, atendendo ao chamado dela. Seus olhos se detiveram no ponto do livro que ela lhe apontava. No topo da página estava a inscrição “Semper fidelis, non excidet”.
“- Mas isso é latim !”, disse ele admirado.
“- Exatamente !”, emendou ela. “- Você certamente conhece o significado.”
“- É claro. Latim é a primeira língua que um Mestre de Poções deve aprender.”, concordou Severus, já traduzindo a expressão. “- Sempre fiel, não fenecerás.”
“- Isso mesmo.”, disse ela. “- Mas não é absolutamente inusitado ? Quer dizer ... como uma expressão latina foi parar no meio de um livro escrito pelo povo Celta-Élfico ?”
“- Você acha que esse volume pode ser uma fraude ? Plantado em meio à enciclopédia para enganar os curiosos ?”
“- Essa idéia também me veio à cabeça, mas me parece pouco provável. A lombada do livro tem a numeração correta e não há nela qualquer rasura. Este volume me parece muito autêntico. Além disso, se fosse uma fraude, meu pai teria desconfiado e o teria separado dos outros tomos. Sei que antes de enviar a enciclopédia para Hogwarts, ele e Marco examinaram minuciosamente todos os livros à procura de mais informações sobre o povo Celta-Élfico. Agora ... pensando melhor ... Lembrei-me de um fato: em suas pesquisas, meu pai descobriu que esse povo teve convivência com os romanos durante muito tempo. Talvez seja este o motivo de encontrarmos a inscrição em latim em meio a um dos livros da enciclopédia.”
Severus voltou a olhar atentamente para a página que estava à sua frente.
“- Esta é a única frase em latim. O resto da fórmula está escrito na língua Celta-Élfica.”, disse ele, após examiná-la novamente.
“- Eu percebi isso. Mas há um texto escrito antes dos ingredientes que explica a utilidade desta poção. E, como sempre, parece cifrado. Deixe-me ver se consigo traduzi-lo sem gastar muito tempo.”
Ele manteve-se em silêncio enquanto ela rabiscava frases em um pedaço de pergaminho que usava como rascunho.
Após o tempo que pareceu uma eternidade e depois de conferir várias vezes suas anotações contra o que estava escrito na página do livro, ela disse: “- Acho que é isso.”, e entregou a ele uma folha aonde havia passado a limpo a seguinte inscrição:
“Aos feridos em batalha, aos sempre fiéis,
aos corajosos, a morte não tocará.
Poupados serão por sua bravura e lealdade,
se sua vida derem para as de outrem salvar.
Ressurgirão das asas da morte
e viverão para sua história contar.
Poderá também ser usada para a vida prolongar
dos justos que estiverem em perigo de capitular,
mas não por muito tempo da morte os irá salvar.
Sua existência por um ano esta poção irá poupar.”
A inscrição terminava com uma admoestação:
“E ai daquele que sem merecimento
deste elixir degustar.
Lenta e dolorosa a sua morte será.”
“- É uma poção para prolongar a vida.”, concluiu Severus, após ler e reler o texto.
“- Sim. Isso e muito mais !”, exclamou Maria. “- Promete trazer da morte àqueles que morreram em batalha, se estes foram bravos o bastante e deram sua vida para salvar as de outrem.”.
“- Sim, e serve também como lenitivo para os mal inflingido aos justos que quase pereceram, mas cujas feridas não foram causadas por batalha. Contudo, só os livrará da morte pelo período de um ano”, emendou ele. “- É definitivamente letal se for usada com impropriedade.”, concluiu.
“- Essa poção é importantíssima Severus. Ainda mais neste momento em que o mal parece voltar a nos estender suas garras, ameaçando a todas as pessoas de bem.”
“- Você consegue traduzir os ingredientes ?”, perguntou ele, comungando do interesse que ela demonstrava pela fórmula.
“- Acredito que sim. Vai me dar bastante trabalho, mas não é nada que eu não consiga traduzir após um período de dedicação exclusiva.”
“- Muito bem. Vamos fazer assim: você vai dedicar-se à tradução desta fórmula pelo tempo que for necessário. Nosso trabalho ficará paralisado até que consiga traduzi-la por completo.”.
“- Está bem, concordo plenamente.”
“- Você copia os ingredientes em uma folha de pergaminho para poder tê-los sempre consigo e a fim de dedicar-se à tradução em qualquer tempo que tenha livre. Mas não coloque nesta folha qualquer indicação que a conecte com a enciclopédia ou com a fórmula em questão. Quanto ao livro, vamos guardá-lo em lugar de máxima segurança. Posso colocá-lo em meu cofre pessoal, que somente pode ser aberto sob o comando de minha voz.”
“- Me parece uma excelente estratégia, meu querido.”
Severus olhou para ela, seu cenho ainda carregado, mas logo desanuviou o rosto ao vê-la sorrir.
“- Vamos parar por aqui, então. Você deve estar cansada.”
“- Estou um pouquinho cansada sim. É que um certo cavalheiro não me deixou dormir apropriadamente na noite passada.”, disse marotamente.
“- Eu não culpo o cavalheiro em questão. Você é absolutamente irresistível.”, respondeu ele sorrindo, pegando-a gentilmente pelo braço e trazendo-a para muito perto de si. “- Você é uma luz acesa em meio à escuridão que sempre foi minha vida. Antes de conhecê-la eu não tinha noção de que o amor pudesse trazer tanta felicidade.”
“- E você me deixa sem jeito, falando dessa maneira.”, disse ela, agora totalmente ruborizada.
“- Temos uma situação ímpar. Nunca pensei que pudesse deixá-la sem jeito. Você é uma das poucas pessoas que conheço que não se intimida com a minha presença.”
“- Talvez porque as outras pessoas não o conheçam como eu.”
“- Ou talvez porque você saiba muito bem que me tira completamente do prumo.”, sussurrou Severus, aprisionando-a em seus braços.
Ficaram ali abraçados durante algum tempo sem dizer palavra, simplesmente apreciando a companhia um do outro.
O silêncio só foi quebrado quando Maria olhou para o relógio e viu que estava mesmo muito tarde. “- Severus, preciso ir agora. Estou bastante cansada e preciso dormir um pouco. Amanhã nos vemos.”
“- Está bem. Já é mesmo hora de nos recolhermos. Mas espere um pouco, vou guardar o volume 55 no cofre e acompanho você até seu quarto.”
Assim procedeu. Os dois então deixaram o laboratório e caminharam juntos até a torre de Corvinal. Ao chegarem à porta do quarto dela, vendo que não havia ninguém no corredor, despediram-se com um beijo. Severus a esperou entrar e só aí voltou para as masmorras, rumo a seus aposentos.