O jantar transcorreu normalmente, com a família toda em volta da mesa. Desta vez, as crianças se sentaram junto aos adultos e, como antes, comportaram-se exemplarmente.
Após a refeição, a Sra. Gentili anunciou que a ceia seria servida pontualmente à meia-noite. Portanto, todos se dirigiram a seus respectivos aposentos a fim de preparar-se adequadamente para a ocasião.
Quando o relógio da sala marcava 23:45h, Severus desceu as escadas. Não queria se atrasar para a celebração que se seguiria. Após alguns minutos, os membros da família começaram, um a um, a vir de seus quartos para a sala de estar.
Cada um que chegava, colocava seus presentes sob a árvore de Natal que parecia flutuar em um canto. Severus sentiu-se profundamente incomodado pois não havia trazido presente algum. Tinha sido pego de surpresa pelo convite e não teve tempo para preparar-se e comprar alguns presentes. Maria pareceu ter se apercebido do embaraço dele e lhe falou baixinho: “- O que foi, meu querido ? Aconteceu alguma coisa ?”
“- Eu não trouxe nada comigo. Vejo que sua família gosta dar e receber presentes.”
“- Não seja bobo ! Não precisa se desculpar. Nós não tivemos tempo para nada e minha família sabe muito bem disso. Eles só fazem questão da nossa presença.”
“- Mesmo assim, ainda me sinto mal por estar de mãos vazias.”
Maria ia responder, mas o relógio deu a primeira badalada, anunciando a chegada da meia-noite. Neste momento, todos começaram a se abraçar, cumprimentando-se mutuamente e fazendo votos de Feliz Natal. Severus se viu em meio àquela profusão de apertos de mão, abraços e beijos, e ficou sem saber o que fazer.
Foi então que o professor Gentili se aproximou dele e o cumprimentou calorosamente. “- Professor Snape, sei que já disse isso outras vezes, mas preciso reiterar que é um grande piacere tê-lo aqui conosco.”
Severus não conseguiu responder ao cumprimento pois toda a família passou a saudá-lo também. Primeiro Marco, a esposa e os filhos, depois a Sra. Gentili, e, por último, Jean Pierre, Loumenise e sua prole. Ele não sabia muito bem como agir e limitou-se a corresponder aos cumprimentos que recebia. Percebeu, pelo canto dos olhos, que Maria aguardava pacientemente a sua vez de abraçá-lo e só chegou-se perto dele quando todos os demais já o haviam saudado. “- Um Feliz Natal para o senhor, professor Snape.”, disse ela, olhando-o fixamente nos olhos.
“- O mesmo para a senhora, Dra. Gentili.”, ele respondeu, apertando-lhe a mão e recebendo, um pouco sem jeito, o abraço que ela lhe dava.
“- Bene,”, disse o Dr. Gentili, “agora vamos aos presentes !” A frase foi imediatamente acompanhada de aplausos.
A Sra. Gentili foi até a árvore de Natal e começou a pegar os pacotes, um a um, entregando-os aos seus respectivos donos.
Maria ficou felicíssima quando viu que seu presente era um gramofone novo em folha. “- Mamma, adorei a surpresa ! Eu levei meus discos para Hogwarts, mas não há lá muitos gramofones disponíveis. Acabei por não conseguir ouvir nem sequer uma de minhas músicas preferidas e estou sentindo muita falta delas.”
“- Eu sabia que você gostaria do presente !”, disse o Dr. Gentili. “- Eu e sua mãe o escolhemos com o maior carinho. E, veja, há junto com ele um disco que Jean Pierre trouxe para você, contendo todo o Réquiem de Mozart. Seu irmão, por sua vez, comprou um long play raríssimo, que inclui a ária de Don Giovanni que você mais aprecia.”
“- A cena do Commandatore ?”, perguntou ela, maravilhada.
“- Isso mesmo, respondeu Marco.
“- Que fantástico ! Não poderia receber presentes melhores do que estes !”, ela tinha lágrimas nos olhos e fez questão de novamente abraçar a todos.
“- Bom, ainda falta um presente a ser entregue.”, disse Virgínia.
“- É mesmo, eu quase ia me esquecendo. Professor Snape, este é um presente de toda nossa família para o senhor.”, falou Ângelo, entregando a Severus um pacote finamente embrulhado.
“- Para mim ? Dr. Gentili, eu não sei o que dizer.”
“- Não diga nada, homem. Apenas abra o presente e veja se gosta.” Dessa vez era Marco quem falava.
Severus pegou cuidadosamente o pacote e o abriu, tentando não destruir o lindo papel que o envolvia. Dentro dele havia uma caixa preta que continha a seguinte inscrição em letras douradas: “Para nosso novo amigo Severus Snape. Que nossa amizade perdure enquanto nossas almas existirem”. Ele abriu a caixa e viu que lá dentro estava uma caneta belíssima, toda feita de ouro, com seu nome gravado em letras pretas. Nunca havia recebido um presente tão magnífico.
“- Dr. Gentili, eu estou sem palavras.”
“- Isso quer dizer que gostou do presente ?”, perguntou a Sra. Gentili, sorrindo para ele.
“- Sim,”, disse ele mal conseguindo conter a emoção. “- É uma caneta esplêndida, eu sinto não poder retribuir a tanta generosidade. Não tive tempo para comprar coisa alguma.”
“- Não precisa se preocupar, professor Snape.”, disse Marco. “- Nós só queremos que saiba que o temos em altíssima estima. Além do mais, não desejamos retribuição alguma. Só o fato de minha irmã poder trabalhar com o senhor já nos deixa muito felizes. Na verdade, meu pai somente enviou a enciclopédia Celta-Élfica para Hogwarts porque já sabia de sua fama como mestre de poções. Jamais confiaríamos um achado tão raro às mãos de qualquer um.”
“- Eu fico muito agradecido pelo presente e lisonjeado com a confiança que em mim depositam.”
“- Não há o que agradecer.”, disse Ângelo. “- E agora basta ! Vamos comer ! Estou faminto !”
“- Mas antes, padrino, precisamos tirar nossa tradicional foto de família.”, retrucou Jean Pierre.
“- Ah sì, é claro. Já ia me esquecendo. Vamos Gianino, pegue a máquina fotográfica.”
Jean Pierre retirou-se e logo voltou, trazendo consigo a máquina que posicionou sobre um tripé em um canto da sala. A família se dirigiu para o canto oposto, preparando-se para a fotografia. “- Professor Snape,” – disse Jean Pierre, “o senhor se importa de ficar ao lado de Maria?”, disse, dando um discreto piscar de olhos na direção da amiga.
Severus, que havia se distanciado para deixar que a fotografia fosse tirada, viu-se intimado a dela participar. Ainda meio sem jeito, rumou para a posição que lhe havia sido indicada. Para sua surpresa, sem que o resto da família parecesse dar-se conta, Maria lhe tomou uma das mãos e chegou-se mais para perto dele.”
Jean Pierre terminou de ajeitar a máquina e rapidamente postou-se ao lado da esposa. Ouviu-se o barulho característico da foto sendo tirada e o flash disparou, eternizando aquele momento.
“- Muito bem, agora podemos comer !”, comemorou o Dr. Gentili.
A família prontamente dirigiu-se para a sala de jantar, onde a mesa já posta continha as mais diversas iguarias da comida italiana e mundial. A refeição foi magnífica. Até mesmo Severus, sempre tão comedido, acabou por comer demais.
Após a ceia, o Dr. Gentili pediu licença e retirou-se da sala. Voltou quase imediatamente, carregando consigo um violino.
“- Agora que já estamos todos de barriga cheia,”, disse ele, “vamos desfrutar de um pouco de música.”
Snape então acompanhou seus anfitriões de volta à sala de estar, a lareira acesa já crepitava, trazendo ao lugar um calor aconchegante. Sentaram-se nos sofás que lá ficavam para apreciar o concerto.
Maria acomodou-se ao piano e a Sra. Gentili aproximou-se, trazendo consigo uma clarineta.
O Dr. Gentili, sua esposa e filha começaram a tocar uma melodia que Severus conhecia e que não lhe trazia boas lembranças, pois fazia com que se recordasse dos Natais tristes que passara. Seus pensamentos foram cortados quando a família toda, com exceção da Sra. Gentili que estava na clarineta, cantou em uníssono:
“Adeste fidelis, laethe triumphantes
Venite, venite in Bethlehem
Natum videte regem angelorum.
Venite, adoremus, venite, adoremus,
Venite adoremus Dominum.” (23)
A música maravilhosa encheu a sala. Apesar das más recordações trazidas a princípio pela melodia, Severus logo começou a sentir-se novamente confortável. Não quis acompanhar as vozes, porque não se sentia bem em cantar, mas apreciou verdadeiramente a oportunidade que tinha de privar da companhia de pessoas tão acolhedoras.
À primeira peça musical, seguiram-se várias outras. Quando o grupo deu por si, já passava das 3 da manhã.
“- Já é hora de nos recolhermos !”, disse a Sra. Gentili olhando para o relógio. “- Como o tempo passa rápido quando nos divertimos !”
“- Sì, sì, mia cara, precisamos mesmo dormir um pouco. Mas foi uma noite maravilhosa, valeu à pena perder algumas horas de sono !”, completou o Dr. Gentili.
Todos bateram palmas efusivamente e, um a um, foram saindo da sala de estar, dirigindo-se às escadas que levavam aos quartos.
Severus os acompanhou, rumando para os seus aposentos, carregando consigo o presente que recebera. Entrou no quarto e foi banhar-se, antes deixando cuidadosamente a caixa com presente sobre a mesa de cabeceira. Após seu costumeiro banho frio, apesar de sentir-se relaxado, estava ainda sem sono algum. Mesmo assim, encaminhou-se para a cama a fim de tentar descansar um pouco.
Já estava deitado quando ouviu que alguém batia suavemente à porta. “- Será que o Dr. Gentili quer aproveitar este tempo para trabalhar ?”, pensou. “- Até que seria bom para mim, serviria para distrair-me.”
Foi até a porta e a abriu. Maria estava do lado de fora do quarto e sorria para ele.
“- Eu o acordei ?”, perguntou.
“- Não, estou sem sono.”, respondeu Severus olhando-a surpreso.
“- Vim aqui para desejar-lhe Feliz Natal mais apropriadamente.”, disse ela, já entrando no quarto e cerrando a porta.
“- Maria, eu não acho que isto seja adequado. Eu realmente não quero que sua família faça mal juízo de mim.”, protestou Severus.
Ela simplesmente ignorou o que ele dizia e dele se aproximou, abraçando-o. “- Não mereço nem mesmo um beijo de boa noite ?”
Severus não respondeu. Já havia aprendido que não adiantava argumentar com ela. Enlaçou-a pela cintura e a trouxe para perto de seu corpo. Beijou-a com paixão, mas não se deixou levar pela vontade que tinha de tomá-la novamente para si. Ao invés de fazer o que seu corpo lhe suplicava e levá-la consigo para a cama, ele a liberou de seus braços.
“- Eu gostaria muito de passar esta noite a sós com você, mas é melhor esperarmos por uma ocasião melhor.”
“- Está bem, você tem razão.”, disse ela acariciando-lhe o rosto, “não nos faltarão outras oportunidades. Tenha uma boa noite de sono, querido.”
“- O mesmo para você, meu amor.”, ele falou, enquanto a via retirar-se, fechando a porta atrás de si. Teve vontade de trazê-la de volta, chegou mesmo a colocar a mão direita na maçaneta da porta, a fim de abri-la novamente, mas acabou não o fazendo. Valeria à pena esperar por um momento mais propício.
Retornou com relutância para a cama, mas antes pegou sobre a mesinha de cabeceira a caixa preta que lá deixara. Abriu-a e retirou de dentro dela a caneta dourada, prendendo-a delicamente entre os dedos para admirá-la mais uma vez, seus olhos agora úmidos de lágrimas que insistiam em brotar alheias à sua vontade, fisicamente expressando o sentimento de gratidão que o inundava. Nunca havia se sentido tão acolhido, tão aceito, tão querido, tão ... tão amado.
Pousou a caneta novamente dentro da caixa que lhe servia de abrigo. Não se perdoaria jamais se, mesmo que involuntariamente, causasse algum dano ao presente que recebera. Deitou-se na cama macia e perfumada, cobriu-se e ali ficou, com os olhos fechados, até que o sono finalmente o arrebatou.
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(23) Letra cantada nas igrejas na época do Natal – Em latim – tradução livre –
“Vinde fiéis, alegres e triunfantes.
Ó venham, ó venham para Belém!
Vejam nascido o Rei dos anjos !
Ó vinde adoremos, ó vinde adoremos,
Ó vinde adoremos, o Senhor !” |