Capitulo 3
O som dos gritos de Gina despertou Harry mais tarde, na noite seguinte. Vestiu um robe de seda e sua máscara antes de correr ao vestíbulo, para o dormitório que lhe tinha destinado. Chamou-a em voz alta, mas não respondeu. Seus gritos continuaram, incitando-o a girar a maçaneta da porta. Ela a tinha fechado com chave, mas isto era algo fácil para aplicar seus poderes telecinéticos e manipular a fechadura.
Logo lhe deu a volta facilmente, entrou no quarto jogando um olhar ao abajur incandescente para acendê-lo com seus pensamentos. A luz iluminou o caminho, Gina se revolvia na cama, empurrando contra invisíveis ataduras, enquanto lançava um grito de medo. Estava ainda dormindo apesar de seus movimentos e ele foi cauteloso quando se sentou na cama e a sacudiu suavemente.
- Desperte, Gina.
Ela soltou um último grito que lhe gelou o sangue antes que seus olhos se abrissem de repente. Eles não estavam enfocados quando o olhou fixamente.
- Herr Potter? - perguntou, depois de uma larga pausa.
- Sim, sou Harry. - Ele acariciou suas costas enquanto ela se apoiava contra ele - Você teve um pesadelo. Estava de retorno com Fraulein Matilda? - Quando ela despertou gritando ontem à noite, ele tinha comprovado as contusões deixadas por Freiherr. Uma vez que ele purgou o horror de seu sistema, assumiu um sono profundo que durou a maior parte do dia seguinte e esta noite.
Ela sacudiu sua cabeça.
- Não, sonhava que estava perdida no bosque. Era a mais escura das noites, e não podia ver. Seguia tropeçando contra tudo, mas ninguém veio por mim. - Ela tremeu, aparentemente inconsciente de que se apertava mais contra ele. - Quando nossa carruagem tombou, estava delirante e vaguei nos bosques a maior parte da noite. Quando me encontraram, dormi durante três dias de repente. Foi só quando despertei que o médico descobriu que tinha perdido a visão.
Harry fechou seus olhos, sentindo sua dor dentro dele antes que ela inclusive falasse. Isto cortou nele como o cristal, e teve muita vontade de aliviar seu sofrimento. Embora não tivesse nenhuma necessidade de mais alimento ainda, poderia tomar sem perigo um pouco de sua angústia, permitindo assim que ela voltasse para um sonho pacífico.
Afastou-a longe dele, colocando suas costas contra os travesseiros, com cuidado ainda que as feridas passassem a ser dores menores durante seu descanso. Parecia aturdida enquanto seus olhos sem vista se moviam ao redor do quarto. Ele se inclinou mais perto, sem falar, quando seus lábios se aproximaram dos seus.
- Harry? - Havia uma nota de medo em sua voz, mas um fio subjacente de excitação.
- Shhii, doçura. - Harry colocou seus lábios contra os seus. Seus olhos se alargaram quando ela moveu sua boca abaixo da dele em um beijo tímido. Só tinha pensado em aliviar seu sofrimento, mas se encontrou aproximando sua boca à sua, devolvendo o tímido beijo com mais paixão do que ele desejava.
Ela se estremeceu quando sua bochecha tocou a porcelana fria de sua máscara, afastou-se elevando sua mão até tocá-la.
- O que é isto, Harry?
Separou sua mão, sustentando-a suavemente na sua.
- Não é nada.
- Por que leva posta uma máscara?
- Por um acidente. - disse ele, tratando de desprezar o tema.
- De que classe?
Ele avançou rapidamente, abrindo sua boca com seus lábios e introduzindo sua língua dentro. Sua intenção pôde ter sido a de distraí-la, mas o sabor dela o sacudiu de seu mundo previsível.
Ele tinha vivido tanto que o tempo estendia a fazer-se impreciso, ficando inalterável para ele. Com este beijo, lembrou-se do que era realmente estar vivo. Havia precaução em seu toque, mas também sentiu a paixão desenfreada e sua sede pela vida. As coisas que ela tinha suportado tinham silenciado, mas esses elementos não se foram.
Era possível apaixonar-se com o primeiro beijo? Tinha passado muito tempo desde que sentiu qualquer emoção além da compaixão para com outra criatura. A última vez que tinha amado, não recordava ter se sentido tão revitalizado. Cada célula em seu corpo zumbiu cheia de energia. Seu coração palpitou em seus ouvidos, e seu membro voltou para a vida. Tinha pensado que o sexo era somente uma doce lembrança, como os séculos pousados sobre ele. Não era velho fisicamente, mas emocionalmente, estava tão envelhecido como os anciões.
Para sua surpresa, sua paixão aumentou e sua tristeza diminuiu quando ela o beijou. Não tinha tomado ainda nada de sua dor, e não podia recordar qualquer das mulheres às que tinha levado para cama nas últimas centenas de anos tivesse este efeito sobre ele.
Uma imagem dela nua e retorcendo-se abaixo dele fez que o membro de Harry se endurecesse, quase até o ponto da dor. Suas mãos pareceram ter vontade própria enquanto afagavam seus seios através da fina muda. Ela gemeu quando ele apalpou seus mamilos arrepiados, e um grito de resposta se elevou em sua garganta.
Ela se afastou, girando sua cabeça.
- Espera. Isto não é apropriado. - Ela soou como se as palavras tivessem sido arrancadas com grande relutância.
A paixão governava seus sentidos, coisa que não tinha passado desde sua juventude.
- Solicitarei uma licença especial manhã. Estaremos casados em uma semana.
Ela ofegou e tratou de se separar dele.
- Não!
Ele resistiu a suas tentativas, seguiu massageando seus seios em círculos preguiçosos, percebendo o modo em que ela arqueava suas costas para encontrar seu toque, justo enquanto suas mãos empurravam contra seu peito.
- Por que não? Que o céu me ajude, mas me enfeitiçou.
- Não posso.
Podia sentir sua tristeza enchendo-a outra vez, e liberou seus seios, abraçando-a.
- Isto solucionaria seus problemas. - sussurrou ele contra seu cabelo sedoso - Cuidaria bem de você, Gina. - Suas lágrimas escaparam pela seda de seu robe, e ele a balançou.
- Não seria justo para você. Não posso gerar herdeiros. - Sua roupa amorteceu suas palavras, mas estas eram ainda distinguíveis - O acidente, sabe. Inclusive se pudesse te deixar o encargo de uma esposa cega, não poderia te negar crianças.
- Não me preocupam as crianças. - Harry não sabia, inclusive, se poderia ter descendentes. Em seu tempo como imortal, ele só tinha encontrado a outro vampiro psíquico além de Lilly, a quem ele mesmo tinha transformado, e aquele homem tinha sido seu pai. Um homem que teve saudades do companheirismo de um filho e então tinha feito um.
Um pai que não tomou muito tempo para responder às perguntas de Harry sobre seu novo estado. O ancião nunca quis falar da realidade de ser um vampiro, nem sequer sobre um que era benéfico à humanidade. Em troca, tinha falado de suas lembranças, mantendo ao jovem Harry com ele durante duas décadas antes que terminasse sua longa existência saudando a saída do sol.
- Não os posso ter tampouco. - acrescentou ele como uma ocorrência posterior.
Ela levantou sua cabeça, e sua surpresa era evidente.
- Realmente, Herr Harry? - ela disse suavemente.
- Sim, é verdade.
- É devido a seu... acidente?
Ele sacudiu sua cabeça.
- Não.
Suas sobrancelhas se enrugaram.
- Então como sabe que não pode? Tentou antes? - Um rubor tingiu suas bochechas. - Perdoe minha intromissão, mas devo saber.
- Minha primeira esposa nunca concebeu. - Ele se estremeceu, inclusive pensar em Lilly era doloroso, e quase tocou sua máscara em um inconsciente hábito antes de obrigar sua mão a ficar nas costas de Gina e seguir acariciando sua pele sobre o fino linho.
Ela ficou rígida em seus braços.
- Esteve casado? Quando? Ela morreu?
- Estive casado durante vários anos. - mais de cem, pensou silenciosamente, perguntando-se como tinha suportado à frívola Lilly durante tanto tempo. - Ela se cansou de mim. - Isso era uma ironia.
- Parece infeliz.
Ele se encolheu de ombros.
- Sua ida foi uma boa coisa, mas ela me causou muita dor no processo.
Gina suspirou.
- Ainda assim, se arriscaria ao matrimônio outra vez para me proteger. É um homem nobre, mas não posso depender de outros durante o resto de minha vida.
Uma pequena risada escapou de Harry, e ficou surpreso por ouvir o som. Embora as emoções negativas das quais se alimentava raramente permaneciam nele, não era, por natureza, um homem de sorrisos e risadas.
- Não é a nobreza que provoca minha oferta. Há algo em você que me comove.
- Não posso me casar contigo.
Ele não duvidava de sua resolução de manter sua decisão, mas podia sentir a pulsação ansiosa nela, nesse momento. Sabia que poderia voltar isto a seu favor e seduzi-la. Poderia empurrar dentro de seu sexo em uns minutos, e estaria indefesa ante seus desejos. Quando tivesse terminado, estaria provavelmente paralisada pela culpa e estaria de acordo com a pressa de sua oferta, mas não desejava enganá-la.
- Falaremos mais disto pela manhã.
Gina pareceu querer discutir, mas finalmente cabeceou. Ela interrompeu seu abraço e se tornou para trás contra os travesseiros.
- Obrigado por me despertar, Herr... Harry. Os sonhos se mantêm, às vezes, inclusive depois de acordada. Não posso dissipar as imagens abrindo meus olhos.
Ele sentiu a tristeza esmagadora nela outra vez, e se inclinou para frente, pressionando um beijo sobre sua fronte antes de posar sua boca sobre a dela. Esta vez, aspirou, em vez de ceder a tentação de beijá-la. Uma grande abundância de angústia o alagou, e ele sugou com cautela, com paciência, para não envenenar seu sistema. Seus músculos tensos se afrouxaram quando alcançou seu limite, e se separou dela.
- Boa noite, Gina.
Seus olhos se fecharam, e ela parecia estar perto de dormir outra vez. Sua voz era um pouco mais que um aspecto impreciso sonolento quando respondeu.
- Boa noite.
Não pôde resistir a roubar um pequeno beijo antes de levantar-se e abandoná-la. Fez uma pausa para olhar para trás, intrigado por seu ar de inocência e pelo rubor do desejo que ainda manchava suas bochechas. Seu sangue palpitou quando pensou em lhe fazer amor, e a ferocidade de suas emoções o afligiram outra vez. O que era tão irresistível nesta jovem mulher para tê-lo atraído com tanta intensidade?
Saiu do quarto, tomando tempo para fechar com chave, antes de voltar para sua residência. Quando se aproximava de sua porta, congelou-se a metade do caminho. Um pensamento desconcertante entrou em sua mente, e lutou para expulsá-lo. Sua cegueira era uma vantagem, fazendo improvável que rechaçasse seu horrível semblante, mas isso não era pelo que a queria. Ele não sabia sobre sua condição quando a resgatou, recordou-se.
Entretanto, não foi até que averiguou que ela não podia ver que lhe ofereceu seu refúgio em Midnight Manor. Certamente, não estava tão desesperado para unir-se a aquela alma rota para aliviar sua própria solidão. Não, ele rechaçou acreditar que pudesse ter tais infames motivos. Algo indefinível sobre ela o tinha atraído, e faria todo o possível para persuadi-la a ser sua esposa.
A lembrança dos acontecimentos da noite passada voltou para Gina logo que abriu seus olhos, antes que estivesse, inclusive, totalmente acordada, pensou na oferta do Harry. Parte dela tinha ânsia em aceitar o caminho fácil, lhe permitindo-o ser nobre e protegê-la. Uma parte mais profunda, uma com a que tinha estado mais em contato esta manhã que em qualquer momento nos treze meses passados, resistia.
Esta lhe disse que deveria aprender a ser independente outra vez. Alguma vez seria esposa de algum homem, por que como poderia trazer a carga da infertilidade a uma relação? Apesar da tranqüilidade de Harry de que ele não podia ter filhos tampouco, ela rechaçou carregar ao seu companheiro com uma mulher estéril. Não, devia ser forte e forjar seu próprio destino. Acreditava firmemente que uma mulher podia ser feliz com uma carreira, em vez de casar-se e ter filhos. Ela só tinha que encontrar um objetivo uma vez mais.
Enquanto deslizava da cama, seus mamilos roçaram contra a roupa. Estavam ainda sensíveis por seu toque, e uma dor correspondente entre suas coxas se fez notar quando recordou o modo que ele tinha acariciado seus seios.
Sua mãe tinha sido forte e independente. Molly também tinha sido algo excêntrica, até entre a vertiginosa e evoluída sociedade de Londres. Nunca tinha duvidado de sua igualdade com os homens, e tinha irradiado essas mesmas crenças a sua filha.
Tinha sido a que introduziu a Gina no movimento sufragista, e quando Artur, seu marido, opôs-se a sua participação, não fez caso e tinha seguido a luta por sua causa, até que ele finalmente deixou de protestar por sua participação.
Também havia um lado suave em sua mãe. Poderia estar em desacordo com os decretos de seu marido por um momento, e contente por satisfazer seus caprichos no seguinte. Pelo geral tinha uma expressão sonhadora em sua face ao falar de seu marido, e freqüentemente dizia que esperava que Gina encontrasse o mesmo grau de paixão quando se casasse. Teve muita vontade de que sua filha experimentasse a união de coração e mente.
O coração de Gina doeu ao saber que nunca poderia experimentar essa união especial com um homem. Sentia-se atraída por Harry Potter de uma maneira que a aturdia. Faz um ano, ela teria colocado suas miras em ganha-lo como marido. Agora, era impossível, mas se encontrou contemplando uma idéia embriagadora. Um sentimento de liberdade se estendeu por seu corpo, e esteve mais alegre do que podia recordar ter estado nos últimos meses. Tudo o que devia fazer era convencê-lo dos méritos de sua idéia.
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