Severus acordou e imediatamente olhou ao seu redor. O lugar em que se encontrava era claro e espaçoso. Percebia-se indubitavelmente ser um quarto de mulher. Maria ainda estava dormindo, sua cabeça deitada sobre o peito dele, seu braço esquerdo o abraçava, levemente pousado sobre o seu torso. Passou o braço direito sobre ela, fazendo-a ficar mais próxima, seu corpo agora completamente aninhado contra o peito dele. Sentiu o perfume suave que vinha de seus cabelos e então beijou-a carinhosamente na testa.
Sentia uma paz, uma alegria, uma euforia que jamais sentira antes. Sim, sexo era muito bom, mas sexo com amor era insuperável. E não havia mais dúvida alguma, ele amava Maria de verdade. Respirou profundamente até que seus pulmões se encheram do ar frio que dominava o quarto. Olhou para ela, deitada ali, em sono profundo e seus olhos subitamente encheram-se de lágrimas. Não sabia que tamanha felicidade era possível, não tinha idéia de que a amor correspondido pudesse ser assim, ímpar.
Cerrou os olhos e ficou ainda por algum tempo aproveitando aquele sentimento de bem estar que o dominava. Após alguns minutos, fitou o relógio na parede. Já eram 5 horas da manhã. Viu que ainda estava escuro quando olhou através das frestas da janela que ficava próxima à cama. Queria ficar ali até que ela acordasse, mas não podia. Precisava rumar para seus aposentos enquanto todos ainda dormiam. Não era sua intenção ter alunos a falar pelos cantos se o vissem saindo do quarto dela àquela hora da manhã.
Levantou-se sem fazer barulho e vestiu-se. Quando estava para sair, ouviu a voz dela que o chamava. “- Severus, você já vai ?”
Voltou seus olhos para a cama, de onde agora ela fazia menção de se levantar.
“- Não se levante, não é necessário. Ainda é muito cedo. Preciso voltar aos meus aposentos antes que os alunos comecem a andar pelos corredores. Não quero criar constrangimentos para você.”
“- Eu entendo, meu amor.”
“- O que foi que você disse ?”, ele perguntou. Nunca tinha sido tratado assim, com tanto carinho. Nunca havia sido chamado de “meu amor”, nem mesmo por sua mãe.
“- Eu só o chamei de meu amor”, disse ela sorrindo.
Severus sentiu uma imensa necessidade de abraçá-la mais uma vez. Deitou-se novamente na cama, abraçou-a e beijou-a longamente.
“- Maria, eu a amo tanto. Jamais pensei que isso aconteceria novamente comigo. Mas parece que me enganei redondamente.”
“- Também devo confessar que me apaixonar estava bem longe de ser um objetivo meu quando cheguei a Hogwarts. Para dizer a verdade, lutei muito para escapar desse sentimento. Mas o destino nos reserva muitas surpresas e algumas delas, felizmente, são maravilhosas.”
Ele sorriu levemente, acariciando o rosto dela com as pontas dos dedos.
“- Ah Severus, você fica irresistível quando sorri. Deveria fazer isso mais vezes.”
Ele balançou a cabeça em negativa e indicou com um leve gesto de mão que não concordava com ela. “- Eu preciso ir agora, meu amor. Encontro você mais tarde no grande salão.”
“- Estamos combinados então”.
Severus abriu a porta do quarto e cautelosamente verificou que não havia ninguém à vista. Fechou a porta e rumou sem mais demora para as masmorras.
Maria levantou-se da cama, arrumou-a com esmero. Reacendeu a lareira que agora estava quase apagada. Estava muito frio e ela precisava banhar-se. Era o dia da saída dos alunos que voltariam para suas casas a fim de passar o Natal.
Enquanto estava na banheira, lembrou-se dos primeiros versos da Divina Comédia. As palavras de Dante Alighieri pareciam se aplicar perfeitamente à situação que vivia agora:
"Nel mezzo del camin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura,
Che la diritta via era smarrita." (16)
Sim, quando chegou a Hogwarts sentia-se perdida e sem rumo. Como o poeta Dante, parecia caminhar por uma selva escura que a engolia e de onde não havia escapatória. Mas agora tudo havia mudado, conseguia enxergar claramente as coisas, seu coração aberto novamente para o amor.
"Amor, che a nullo amate amar perdona”(17)
Decidiu que era infrutífero resistir àquele amor avassalador. Entregar-se a ele era a única alternativa lógica e sensata. Entre ela e Severus havia o principal para um relacionamento dar certo: amor e respeito mútuo. O que havia acontecido na noite anterior e o bem-estar que ela sentia agora eram provas irrefutáveis de que este conceito era verdadeiro.
“- Meu querido Jean Pierre”, seus pensamentos agora se voltavam para o amigo. “- Você tinha toda razão. Não há ingrediente mais compatível com o amor do que o respeito e não se deve mesmo colocar nossa felicidade nas mãos de outrem. Eu tenho que ser dona do meu próprio destino. Não vou mais me deixar levar pelo medo de sofrer, preciso tomar as rédeas de minha vida. E é exatamente isso que vou fazer.”
Saiu da banheira, enxugou-se e vestiu-se com calma. Verificou no relógio que já eram quase 7 horas. Saiu do quarto e rumou para o salão principal.
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Severus chegou até seus aposentos sem ser perturbado por ninguém. Não passou por viva alma em seu caminho para as masmorras. O castelo estava no mais absoluto silêncio. Todos pareciam ainda dormir.
Entrou no quarto com um sorriso nos lábios. Ainda não acreditava que tanta felicidade era possível, não podia crer que ela o chamara de “meu amor”. Como era bonita essa expressão que ele nunca pensara que ouviria.
Encaminhou-se para o armário a fim de pegar roupa limpa. Tomou seu costumeiro banho frio e vestiu-se. Foi até a mesa verificar uns pergaminhos que lá havia deixado na noite anterior. Percebeu que tinha cometido alguns erros quando anotara as quantidades dos ingredientes necessários para uma nova poção que estava preparando. “- Por que será que cometi erros tão crassos ?”, perguntou-se. “- Talvez porque você tivesse coisa muito melhor em mente quando escreveu isso.”, respondeu a si mesmo mentalmente.
Era verdade, ele havia se sentado para escrever a fórmula logo após ter saído do salão principal. Tinha ficado em seus aposentos até o momento propício para que fosse procurar Maria a fim de conseguir um instante a sós com ela. Mas cada minuto de espera tinha valido à pena. Aquela tinha sido a noite mais feliz de sua vida.
Parou para relembrar os momentos que havia passado com ela. Fechou os olhos e respirou fundo pois ainda podia sentir o perfume que ela usava a lhe dominar as narinas. Tudo havia sido tão perfeito, tão além das expectativas. Ela era de verdade, era real, palpável. Não era uma lembrança ou uma paixão platônica, mas sim uma mulher de carne e osso que não o rejeitava, que correspondia ao seu amor. Com os olhos ainda fechados repassou mentalmente cada minuto da noite anterior. Os beijos, os carinhos, as palavras faladas ao ouvido, os murmúrios ditos em voz baixa.
Maria não era a primeira mulher que ele tivera nos braços. Mas as outras tinham sido encontros casuais, acontecidos por pura necessidade física. Ele não teve qualquer sentimento especial por nenhuma delas e, com certeza, nenhuma delas o havia amado. Contudo, o que acontecera entre ele e Maria era único em sua vida. E, mas uma vez pensou, era REAL ! A realidade é a melhor das fantasias !
Ficou assim de olhos fechados por ainda alguns minutos. Depois, decidiu que já era hora de ir. Verificou mais uma vez a mesa para certificar-se de que não tinha se esquecido de nada. Só então saiu de seus aposentos e dirigiu-se sem muita pressa para o salão principal.
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(16) Divina Comédia – Dante Alighieri – Inferno – Canto I, versos 1-3 -
“No meio do caminho de nossa vida
Achei-me a errar por uma selva escura,
Longe da boa via, então perdida”
(17) Divina Comédia – Dante Alighieri – Inferno – Canto V, verso 103 –
“Amor, que a amado algum de amar não priva”
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