Severus e Maria chegaram ao grande salão quase que ao mesmo tempo, mas vindos de direções opostas. Os dois se olharam e se cumprimentaram brevemente, dirigindo-se imediatamente para os seus lugares reservados na mesa que ocupava totalmente um dos lados ambiente. A cadeira reservada a ele ficava, como sempre, ao lado da cadeira a ser ocupada por Maria. Eles se sentaram como de costume. Minerva, que também sentava-se perto de Maria, logo puxou conversa com ela.
Severus preferiu ficar calado e passou a observar atentamente à sua volta. O lugar estava especialmente decorado. A primeira coisa que qualquer um notaria ao entrar era a neve que parecia cair lentamente do teto e que se dissipava a apenas alguns centímetros das cabeças mais altas. A iluminação parecia vir de toda a parte, dando especial ênfase às enormes árvores de Natal que enfeitavam cada um dos quatros cantos do salão. Delas pendiam enfeites de cores que representavam as quatro casas de Hogwarts: o vermelho e dourado de Grifinória, o azul e bronze de Corvinal, o amarelo e preto de Lufa-Lufa, e finalmente o verde e prata de Sonserina.
Albus Dumbledore estava sentado ao centro da grande mesa e parecia divertir-se muito. Sibila Trewlaney, sentada ao lado do diretor, observava a tudo extasiada. Seus olhar como sempre perdido, preso a lugar algum, vagava sem rumo.
Os alunos faziam sua costumeira algazarra, banqueteando-se com as guloseimas que eram servidas. As mesas por eles ocupadas ficavam perpendicularmente posicionadas em relação à grande mesa e estavam repletas das mais diferentes iguarias, fazendo com que fosse muito difícil escolher o que mais lhes apetecia o paladar. Como não queriam perder coisa alguma, acabavam por abarrotar seus pratos com todas as gostosuras que suas mãos pudesse alcançar.
Gilderoy Lockhart, hoje totalmente vestido de vermelho, alegremente caminhava pelo salão, seguido por suas indefectíveis fãs que pareciam nunca se cansar de lhe pedir autógrafos.
Severus ficou ali por quase uma hora sentado. Precisava inventar uma desculpa convincente para sair. Seus ânimos continuavam soturnos e o barulho da festa agora o incomodava bastante. Além disso, queria desesperadamente ficar a sós com Maria, mas esta possibilidade lhe parecia bastante remota naquele momento.
Olhou-a discretamente a fim de chamar sua atenção e percebeu que ela estava muito entretida conversando com Minerva. Decidiu sair para caminhar um pouco. Procuraria momento mais propício para estar com ela.
Mal levantou-se quando foi praticamente abalrroado por Lockhart. Ele estava apenas esperando o momento certo para ficar ao lado de Maria. Severus não permitiria que Gilderoy se sentasse ao lado dela e ali passasse a noite inteira a lhe fazer galanteios. Não, aquilo já era demais ! Não iria aturar tal despautério !
Vendo que não podia voltar para a cadeira, porque Gilderoy já havia dela se apoderado, resolveu arriscar-se:
“- Dra. Gentili, será que nós poderíamos conversar a sós ?”
A princípio Maria pensou em não aceitar o convite. Mas quando olhou para Lockhart, já devidamente empoleirado na cadeira ao lado, decidiu que o melhor seria sair dali. Pediu licença a Minerva e se levantou, seguindo Severus.
Gilderoy fez clara menção de acompanhá-la, mas teve seu braço seguro pela professora McGonagall, que parecia particularmente interessada em ouvir, pela enésima vez, a encantadora narrativa que contava como ele havia derrotado, sozinho e desarmado, o horrível Lobisomen de Madagascar.
Maria olhou para Minerva com gratidão e recebeu um leve piscar de olhos como retorno. Ainda bem que a professora de transfiguração havia agido rápido, livrando-a de enfrentar uma noite inteira ouvindo os galanteios e as histórias nada verossímeis contadas por Gilderoy.
Severus e ela dirigiram-se para longe da balbúrdia. Andaram por alguns tempo e acabaram saindo do castelo. A noite estava fria, mas o céu continuava estrelado. Pararam junto a um dos portais e ficaram olhando um para o outro. O silêncio só foi finalmente quebrado quando Maria falou:
“- Posso ajudá-lo em alguma coisa ?”, a voz dela era tão fria quanto a noite.
Severus não respondeu. Ficou ali, olhando para ela, sem dizer palavra e sem se mexer, fazendo com que ela se sentisse muito incomodada. Maria ainda esperou alguns minutos para que ele falasse alguma coisa, mas como nada foi dito, ela fez menção de retirar-se para voltar à festa.
“- Por que a pressa ?”, era a voz de Severus. “- Será que a senhora não pode ficar nem um minuto longe de Lockhart e seus galanteios ?”
Ela olhou para ele desafiadoramente. “- Quantas vezes eu vou ter que dizer-lhe que não tenho qualquer interesse por Gilderoy Lockhart ? Nem por ele, nem por suas histórias estapafúrdias e nem por suas roupas espalhafatosas.”
Para seu espanto, Severus não disse nada. Apenas puxou-a gentilmente pelo braço e a trouxe para muito perto de si. Ela sentiu um calor súbito e um rubor que lhe tomavam conta do rosto. Fechou os olhos para tentar controlar-se. Quando os abriu, ele estava ainda mais perto.
“- Então fique comigo, Maria.”, a voz dele era só um murmúrio. Era a primeira vez desde que se conheceram que ele a chamava pelo primeiro nome.
“- Pensei que o senhor não aprovasse informalidades no trato com os colegas de trabalho.”, ela rebateu. Tinha subitamente sido tomada por uma raiva que não conseguia entender. Mas precisava muito deste sentimento de ira para tentar resistir ao inexorável.
“- Acredito que formalidades não sejam mais necessárias entre nós dois. Principalmente depois do que ocorreu hoje pela manhã.”, falou Severus, sem tirar os olhos dela.
“- O que houve hoje de manhã foi um erro, não deveria ter acontecido.” Maria mal acabou a frase quando sentiu os braços dele em volta de sua cintura. Ele a puxou ainda mais para si, procurando avidamente sua boca.
Ela tentou protestar, mas não teve forças. Tudo o que conseguia fazer era corresponder aos carinhos que vinham dele. Sentiu um arrepio a subir-lhe pelo corpo quando ele a encostou na parede. Os lábios dele agora percorriam suas orelhas e seu pescoço.
“- Severus”, a voz dela era somente um sussuro. “pode chegar alguém. Se os alunos nos virem, eu, eu ...”
Não conseguiu dizer mais nada. Não havia mais como resistir. O mundo à sua volta simplesmente não existia mais. Tudo o que conseguia perceber era aquele momento.
Ficaram ali por algum tempo, os corpos a se tocarem, as bocas unidas, até que finalmente ele a pegou outra vez pelo braço e lhe disse ao ouvido: “- Vamos para um lugar melhor, quero ficar a sós com você sem a perspectiva de sermos interrompidos.”
“- Não ! Precisamos voltar para a festa !”, ela protestou em voz baixa. “Vão sentir a nossa falta. Minerva e Gilderoy viram quando saímos juntos.”
Severus olhou para ela por alguns instantes. Seus olhos estavam carregados de desejo. “- Você tem razão. É melhor voltarmos para o grande salão. Mas eu preciso muito encontrá-la novamente após a festa.”
“- Está bem”, ela achou melhor concordar. “- Mas é melhor voltarmos rápido antes que alguém nos venha procurar.” Dito isto, afastou-se dele para evitar que a puxasse novamente para junto de si. Ele entretanto não disse ou tentou mais nada para demovê-la da idéia de voltar à festa. Limitou-se a segui-la.
Quando finalmente chegaram ao grande salão, Severus foi interpelado por Gilderoy Lockhart. Maria rapidamente afastou-se dos dois e foi sentar-se de novo ao lado de Minerva. Seu coração batia tão rápido que ela achou que todos podiam ouvi-lo. “- Você tem que se controlar.”, dizia a si mesma mentalmente. Mas aquilo estava fora de seu controle. Nunca havia se sentido assim, nem mesmo com Vittorio, nem mesmo quando estavam no auge da paixão. Percebeu-se excitada como uma colegial que encara um amor proibido. “- Isto é ridículo, você não é mais uma menina”, dizia sua voz interior. Olhou na direção Severus e viu que ele já havia se livrado de Lockhart e se dirigia para as masmorras. Teve um ímpeto súbido de acompanhá-lo, mas foi imediatamente impedida por seu lado racional, que agora tentava desesperadamente tomar o controle da situação.
Respirou fundo várias vezes e percebeu que Minerva a olhava com curiosidade: “- O que foi, querida, você está se sentindo mal ? Foi alguma coisa que Severus falou ?”
“- Não Minerva, eu estou bem. Apenas um pouco cansada. Não é nada demais.”
Minerva sorriu levemente para ela. “- Você tem certeza de que não precisa de nada ?”
“- Tenho sim. Obrigada por perguntar. Eu preciso apenas de uma boa noite de sono. Amanhã estarei como nova.”
O resto da festa transcorreu normalmente. Severus não mais apareceu no salão principal. Quando a meia-noite chegou, Dumbledore encerrou os festejos e pediu que os alunos se dirigissem aos seus dormitórios. Precisavam dormir um pouco antes da viagem de volta para casa. Todos obedeceram sem reclamar.
Maria despediu-se de Albus e de Minerva e dirigiu-se para seus aposentos antes que Gilderoy pudesse chegar até ela. Os pensamentos lhe fervilhavam os miolos. Quando percebeu, já estava diante da porta de seu quarto.
Olhou para os lados e viu que não havia qualquer sinal da presença de Severus. “- Melhor assim, pensou. Preciso de algum tempo para me recompor. Amanhã eu vou acabar de vez com este ridículo quase-romance.”
Entrou nos aposentos e foi imediatamente tomar um banho. Ainda sentia a pressão das mãos dele em seu corpo. Ficou bastante tempo imersa na banheira até que conseguiu acalmar-se por completo. Quando percebeu que se sentia totalmente controlada, saiu da banheira, enxugou-se e vestiu-se para dormir.
Encaminhou-se para a cama e puxou as cobertas. Já aprontava-se para se deitar quando escutou que alguém batia levemente à porta. Olhou para o relógio. Mais de uma hora havia se passado entre o fim da festa e aquele momento.
Afastou-se da cama e foi até a porta. “- Quem é ?”, perguntou. Não houve resposta.
Pegou sua varinha pois sentia uma estranha sensação de perigo. Conjurou o feitiço que usava para destrancar a porta e esperou que ela se abrisse. Conservava a varinha em punho, preparada para contra-atacar se necessário.
Quando a porta se abriu completamente, seus olhos não podiam acreditar no que viam. Para seu total espanto, do lado de fora de seu quarto, parado como uma estátua, estava Gilderoy Lockhart. |