Maria e Jean Pierre ficaram ainda conversando longamente, sem que se dessem conta do passar das horas. Falaram sobre os mais variados temas: música, poesia, livros novos que valiam à pena serem lidos, assuntos familiares e até mesmo sobre frivolidades como os mexericos publicados em jornais.
O tempo assim se passou rapidamente para os dois que só suspenderam a conversa quando as primeiras luzes começaram a despontar no horizonte. A nevasca havia cessado e a noite dado lugar a um dia que nascia cinzento, mas com a promessa de alguns raios de sol.
“- Por Merlin, Jean Pierre, o dia já está clareando ! Passamos a noite toda tão entretidos, que nem percebemos o tempo correr !”
“- É sempre muito bom estar com você, mon chérie. Mas acho que preciso ir para os meus aposentos a fim de tomar um banho e trocar de roupa.”
“- Você trouxe roupas limpas ?”
“- Você me conhece, estou sempre preparado. Tenho roupas limpas guardadas aqui comigo. Sabia que não passaríamos apenas algumas horas em Hogwarts. De um jeito ou de outro, tinha certeza de que você conseguiria nos manter no castelo por mais tempo do que apenas uma tarde.”
“- Fico feliz de que você seja precavido. Aposto minha reputação como papà e Marco não tiveram a mesma idéia. Agora devem estar mutuamente se acusando por terem que usar as mesmas roupas de ontem.”
“- Os dois devem estar mesmo discutindo. Mas pelo menos estão em seus aposentos. Quanto a mim ... bem ... tenho que conseguir chegar ao quarto que o professor Dumbledore me reservou. Eu nem mesmo sei em que corredor fica.”
“- Isso não é problema. Vou pedir que um dos elfos domésticos o leve até lá.”
Maria puxou a campainha que pendia do teto sobre a cabeceira da cama e Manpac apareceu em um piscar de olhos.
“- Mapac pode ajudar Dra. Gentili ?”, perguntou o elfo.
“- Sim, Manpac. Por favor, leve o Sr. Rappaport para os aposentos que lhe foram reservados.”
“- Manpac obedece. Senhor pode seguir Manpac.”
“- Nos vemos no salão principal, durante o café.”, falou Maria, se despedindo de Jean Pierre.
“- Combinado.”, disse ele, enquanto seguia Manpac.
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Severus, por sua vez, não teve uma noite tão tranqüila. Permaneceu todo o tempo em seu laboratório, tentando concentrar-se no preparo da poção Veritasserum para repor seu estoque que estava quase no fim. Entretanto, por mais que tentasse se focar no trabalho, seus pensamentos teimavam em distanciar-se dali, indo invariavelmente parar em frente à porta do quarto da Dra. Gentili.
“- Será que ela passou a noite com ele ? Será que os dois são mesmo apenas amigos ? Um homem e uma mulher não podem ser tão amigos a ponto de passarem a noite juntos em um mesmo quarto, sozinhos, sem que nada aconteça além de abraços e carinhos fraternais. Mas o que tenho eu a ver com isso ? Por que isto me perturba tanto ? Preciso parar de pensar nela ...”
Olhou para o caldeirão que fumegava à sua frente. Já era a terceira vez que adicionava ingredientes errados à poção, arruinando-a completamente. Levantou-se e foi até a lareira apagada, acendendo-a. Não que estivesse com frio, mas porque precisava de algo que o distraísse. Pôs-se assim a admirar as chamas que exibiam vários tons de vermelho e alaranjado. O crepitar do fogo lhe trouxe um calor súbito ao corpo. Sentiu necessidade de tomar um banho frio ... sim, talvez desta maneira seus pensamentos se acalmassem e ele pudesse voltar ao trabalho sem mais distrações.
Pegou a varinha que jazia sobre a mesa e conjurou o aparecimento de uma banheira de água fria. Despiu-se e mergulho o corpo nela. A princípio sentiu o desconforto que a água quase gelada trazia a seus músculos tensos. Mas depois, quando seu corpo ficou totalmente amortecido e seus músculos mais relaxados, passou a sentir um torpor prazeroso a dominar-lhe os sentidos. Fechou os olhos e adormeceu.
Estava em um corredor largo, tomado por sombras difusas. Passava por ele correndo, abrindo e fechando muitas portas que se seguiam. Sentia-se preso, com num labirinto. Seu peito ardia, faltava-lhe o ar. O ambiente era claustrofóbico. Após transpor muitas passagens que se cerravam assim que ele as deixava pra trás, viu-se diante de uma porta fechada. Ele sabia que aquela era a porta que se abriria para o quarto dela. Tentou abri-la, mas ela estava trancada. Usou contra ela todos os feitiços que conhecia e nada funcionou. Estava desesperado, precisava entrar, precisava vê-la. Quando se preparava para lançar-se contra a porta, em uma última e desesperada tentativa para fazê-la ceder, viu-a destrancar-se sozinha, abrindo-se lentamente. Começou a ouvir sussurros que vinham de dentro do aposento. Murmúrios, suspiros, gemidos ... não podia ser ... não podia ser verdade. Quando a porta finalmente se abriu por completo, viu claramente os corpos nus sobre a cama a entrelaçar-se, Maria e Jean Pierre se beijavam, sem dar-se conta da presença dele. A visão se lhe escureceu, seu peito parecia que iria explodir, parou de respirar, parou de pensar, sentiu-se desfalecer. As sombras o engoliram, percebeu que caía rapidamente em um abismo sem fim, não havia mais esperança ...
Severus acordou muito assustado. Ainda encontrava-se mergulhado na banheira, a água agora estava mais fria do que antes. Seu corpo estava totalmente amortecido, provavelmente entrando em hipotermia.
Saiu rapidamente dali e procurou enxugar-se. Vestiu-se e foi para perto da lareira. Precisava aquecer-se imediatamente. Enquanto olhava novamente para as chamas, deu-se conta de que seu coração ainda batia em disparado. Tinha sido apenas um sonho, sim, apenas um sonho, nada mais. Respirou profundamente a fim de acalmar-se. Seus exercícios de oclumência o ajudaram a livrar a mente de todos os pensamentos. De todos, menos de um ... a imagem de Maria Gentili permanecia, como uma marca indelével, como que lá gravada a cinzel.
Olhou para o relógio da parede que viu que já eram 6 horas. Sentia um cansaço enorme a dominar-lhe o corpo e a mente. Resolveu que o melhor seria caminhar um pouco. O exercício da caminhada sempre o ajudava a centra-se. Saiu das masmorras e entrou no salão principal. Pensou em sair do castelo, mas não pode. Seus pés pareciam querer levá-lo em direção ao quarto dela. Ele resolveu não mais resistir. Precisava tirar a dúvida, tinha que ver com seus próprios olhos, certificar-se de que estava errado.
Quando chegou próximo à porta dos aposentos de Maria, percebeu que a mesma estava se abrindo. Resolveu esconder-se em um vão que havia entre duas paredes. Ficou ali parado até que viu que um elfo doméstico saía do quarto. Já ia rumar em direção à porta ainda aberta, quando, para sua surpresa e indignação, viu que Jean Pierre Rappaport também deixava o aposento.