Muitos dias já haviam se passado desde o episódio que culminou com a petrificação da gata do Sr. Filtch.
A escola parecia voltar lentamente ao normal. Aos poucos o incidente era esquecido. Agora o assunto era o jogo de Quadribol que aconteceria no próximo sábado. Grifinória jogaria contra Sonserina e a rivalidade entre as duas casas era tão antiga quanto a própria fundação de Hogwarts.
Maria e Snape continuavam a trabalhar juntos todas as noites. Os dois agora mantinham um clima de paz e nunca mencionavam a discussão que tiveram no laboratório de poções. O trabalho fluía rápido. Enquanto ela concentrava-se na tradução do volume 35, Severus encarregava-se de produzir as poções e de catalogá-las para que fossem posteriormente utilizadas.
Entretanto, para decepção de ambos, Maria até agora não havia encontrado nos livros traduzidos qualquer pista que os ajudasse a resolver a outra parte do enigma envolvendo a poção da “visão elementar”.
Por outro lado, ambos estavam agradavelmente surpresos com a quantidade de informação que tinha sido resgatada da enciclopédia. Realmente aquela coleção de livros era uma fonte inesgotável de conhecimento. Havia nela fórmulas para remédios que curavam doenças até então sem tratamento, poções que ajudavam a aumentar a resistência física e mental, beberagens para acalmar os nervos, unguentos para cicatrizar feridas renitentes. É claro que lá também havia uma gama de coisas fúteis como tônicos para fazer o cabelo e as unhas crescerem, pomadas que causam bolhas nos pés, xaropes para acabar com o soluço e as inevitáveis poções do amor.
Snape não perdia seu tempo com essas frivolidades. Concentrava-se basicamente no que poderia ser útil para enfrentar os Comensais da Morte quando o Lorde das Trevas finalmente retornasse. Ah sim, ele iria retornar ! Severus não tinha dúvida alguma sobre isso. A marca da morte antes tatuada em seu braço ainda não estava visível, mas o local onde ela ficara gravada comichava e doía de vez em quando.
O sábado chegou e todos tomaram o café da manhã cheios de expectativa para o jogo que logo aconteceria. Severus fez a refeição matutina no salão principal, junto com os outros professores. Como chefe da casa de Sonserina, ele deveria estar presente ao jogo não só como mero espectador.
Após o café, foi até o salão comunal de sua casa e fez uma breve preleção para a equipe de Quadribol: “- Não preciso dizer”, ele começou, “que ganhar este jogo é imperativo para nós. Portanto, dêem o máximo de si. Outro resultado além da vitória não será aceitável.”
“- Pode deixar, professor Snape”, disse Draco Malfoy, “nós não faremos vergonha desta vez.”.
“- Assim espero, Sr. Malfoy”, disse Severus. “Vou agora para os meus aposentos preparar-me para o jogo. Encontro os senhores na quadra.”
Rumou para seu quarto a fim de banhar-se e trocar de roupa. Apesar dos usuais comentários sobre seus cabelos ensebados, Severus era um homem muito asseado. Como exímio mestre de poções, sabia muito bem da importância da assepsia no preparo de suas fórmulas. Tomava banho pelo menos 2 vezes por dia e lavava seus cabelos diariamente. Entretanto, acontecia com ele um fenômeno inusitado e raro. Assim como os cabelos de Harry Potter teimavam em crescer, não importando quão curtos Tia Petúnia os cortasse, assim também os cabelos de Snape permaneciam sempre com a mesma aparência, não importando quantas vezes por dia ele os lavasse.
Vestiu-se rapidamente após o banho. Conferiu o relógio da parede e viu que ainda lhe restava meia-hora. Decidiu dedicar este tempo para rever suas anotações.
Seus aposentos ficavam ao lado das antigas masmorras do castelo e não tinham espelho nem janelas. O lugar era austero, frio e escuro. Havia uma lareira no canto norte, mas ela estava constantemente apagada e apesar de ser relativamente grande, o quarto era totalmente desprovido de qualquer luxo. Continha apenas uma cama, um criado mudo, um armário e uma cômoda para roupas, um baú onde ele guardava alguns ingredientes, 2 estantes apinhadas de livros e uma mesa com duas cadeiras. Ele sentou-se em uma delas e começou a trabalhar.
Meia-hora depois levantou-se, guardando os pergaminhos que continham suas notas e rumou diretamente para a quadra de Quadribol. Sentou-se junto aos alunos na torre dedicada à sua casa e impacientemente aguardou pelo início do jogo.
Tudo transcorreu como o esperado, quando começou a chover torrencialmente. Agora Sonserina ganhava de Grifinória por 60 pontos a zero e o jogo tornava-se cada vez mais perigoso. Snape não era muito chegado aos esportes, mas gostava de ver sua casa ganhando de seus insuportáveis rivais. Foi então que aconteceu o inesperado. Harry Potter conseguiu pegar o pomo de ouro e Grifinória ganhou a partida.
Todos comemoravam a vitória, menos, é claro, os Sonserinos. Snape estava muito desapontado com seus alunos. Desde que Harry Potter entrara para o time de Quadribol, a mesma cena se repetia. Ele sempre conseguia pegar o pomo de outro e Grifinória ganhava no fim. “- Não posso negar que este pirralho tem sorte.”, resmungou. Já estava para descer as escadas, preparando-se para lidar com o risinho de vitória que veria no rosto de Minerva, quando percebeu que Potter estava caído no chão. Parecia ter um braço quebrado. O pior é que Lockhart correu rapidamente para ajudá-lo. “- Por Merlin”, pensou Snape, “eu preferia ser socorrido pelo Vampiro Rubro da Transilvânia.. Com certeza a emenda será pior do que o soneto.”
E foi exatamente o que aconteceu. Lockhart usou um feitiço totalmente impróprio para aquele tipo de situação, fazendo com que todos os ossos do braço de Harry Potter sumissem. O menino teve que ser levado para a ala hospitalar.
A chuva agora ficara ainda mais forte. Todos se recolheram ao castelo completamente ensopados. Severus foi até o salão comunal de Sonserina e passou uma carraspana no seu time de Quadribol. Os meninos estavam cabisbaixos e não entendiam ainda o que havia acontecido. Estavam com ampla vantagem, mas Potter, sempre ele, havia conseguido pegar o pomo de ouro. Que maçada !
O almoço foi servido e o resto da tarde passou tranquilamente. Apesar de ser um sábado, Severus e a Dra. Gentili haviam marcado de trabalhar por algumas horas para adiantar a tradução. Ele ficou por um tempo em seus aposentos e um pouco antes das 15:00 dirigiu-se para o laboratório de poções.
Maria já estava esperando-o na porta quando ele chegou. Entraram imediatamente e começaram a trabalhar.
Ficaram ali até a hora do jantar, quando subiram juntos para o salão principal a fim de fazer a refeição noturna. Sentaram-se à mesa para comer. Snape viu que Minerva insistia em olhá-lo com um irritante risinho nos lábios. Ela ainda saboreava a vitória que sua casa conseguira no jogo de Quadribol. Fingiu que não a notava e começou a olhar em volta enquanto se servia da comida. Lockhart, para seus espanto e júbilo, não estava na mesa para jantar. Mas o mesmo acontecia com Dumbledore. Ambos chegaram juntos algum tempo mais tarde e, pela direção de onde vieram, parecia que tinham saído da sala do diretor. Severus se perguntava o que os dois estariam fazendo sozinhos no gabinete de Dumbledore. Será que o velho estava mesmo caduco e agora trocava confidências com Lockhart ? Será que estava dando a ele alguma missão especial ? Esses pensamentos o deixaram perturbado. Albus sempre confiara nele, sabia que podia contar com Snape para qualquer situação. Então por que estava conversando a sós com Lockhart ? Teria o velho bruxo ficado tão impressionado com Gilderoy que agora lhe incumbia de tarefas especiais, sem dar a Snape qualquer satisfação ?
“- Acho que o professor Dumbledore deu um belo puxão de orelhas em Gilderoy.”, era a voz de Maria.
Severus olhou para ela com surpresa. Essa idéia não lhe havia passado pela cabeça. “- O que a faz pensar assim ?”, perguntou.
“- É só olhar para ele. Nunca o vi tão murcho.”
“- Agora que a senhora mencionou, vejo que ele está mesmo meio cabisbaixo.”, disse ele. “- Acha mesmo que o diretor lhe passou uma descompostura ?”
“- Tudo indica que sim. E ele mereceu. O que fez hoje após o jogo foi um absurdo. Harry Potter ainda está na ala hospitalar, esperando que os ossos de seu braço cresçam novamente.”
Severus não sabia se estava mais contente com a visão da cara de desânimo que Lockhart apresentava ou se pelo fato de saber que Potter agora sofria horrores, tendo que esperar paciente e dolorosamente que seus ossos se recompusessem.
O jantar terminou. Os alunos saíram das mesas e foram para suas respectivas casas. Severus rumou imediatamente para o laboratório de poções. Uma das beberagens que estava preparando exigia que se lhe acrescentasse determinado ingrediente em um horário específico.
Maria, por sua vez, não queria recolher-se agora. Decidira meditar um pouco sobre a fórmula da “visão elementar”. Ela tinha conseguido, após horas árduas de trabalho, traduzir todos os ingredientes desta poção, com exceção de um: “corrente cristalina, do âmago destilada, da primavera flor primeira”. Já havia determinado que a flor primeira era a Primula vulgaris vulgaris, mas a outra parte do enigma parecia sem solução. Nenhuma flor conhecida derramava de seu âmago uma corrente cristalina.
A princípio ela pensou que a tal corrente se tratasse da seiva que corre do interior da planta. Mas isso não fazia sentido porque as plantas não derramam sua seiva através das flores.
Continuou caminhando distraidamente e sem querer foi parar em um corredor escuro e silencioso. Quando deu por si, estava bem próximo a um dos banheiros reservado para as alunas. Maria havia tinha sido informada de que as meninas evitavam usá-lo porque diziam que ele era assombrado. Foi então que ouviu sussurros que pareciam vir de dentro do banheiro. Agora identificava claramente a língua falada pelas cobras: “- Sangue, eu preciso de sangue. Matar ! Matar !”.
Sentiu que alguma coisa saía do banheiro. As sombras não a permitiam ver direito do que se tratava, mas era uma coisa grande e sinuosa. Maria imediatamente procurou esconder-se atrás de uma das portas que se abriam para o corredor. Sentiu quando a criatura passou ao lado da porta que a escondia, arrastando-se lentamente. O ser monstruoso parou inesperadamente. Maria ouviu um sibilar que logo identificou. Era a língua da criatura que entrava e saía de sua boca, a farejar o ar. Definitivamente aquilo era da família das cobras pois estes animais percebem os odores através das papilas gustativas. Sentiu o sangue a lhe gelar nas veias. O monstro havia sentido o seu cheiro e iria atacá-la. Alguns segundos, que lhe pareceram um eternidade, se passaram e nada aconteceu. De repente, sem mais e nem para quê, a criatura moveu-se novamente. Maria suspirou aliviada. Precisava falar urgentemente com o professor Snape sobre o que havia acontecido.
Esperou por alguns minutos até que não pudesse ouvir mais nenhum barulho e deixou seu esconderijo. Rumava para o laboratório de poções quando se deparou com uma cena horrível: um menino jazia petrificado no chão. Ela aproximou-se e reconheceu que se trava de Colin Creevey, um aluno do primeiro ano, estudante da casa de Grifinória.
Pensou em ir às masmorras para chamar Severus, mas elas ficavam muito longe dali. Então, correu imediatamente até os aposentos do diretor e bateu à porta que logo se abriu. Tinha terror nos olhos quando se dirigiu a Dumbledore: “- Albus, houve outro ataque. Colin Creevey foi petrificado !”