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.:. ENTRE PRESENTES E BILHETES .:.
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"Eita, achei que tinhas morrido lá no banheiro", Hugo ouviu seu amigo dizer enquanto entrava no seu quarto. No quarto de Hugo eu quero dizer, não do amigo. Bem, vocês entenderam. Ah! Outra coisa que preciso explicar, mais uma vez me utilizei das minhas prerrogativas como contadora de histórias e pulei no tempo, mais precisamente para o fim do dia do aniversário do Hugo. Daqui a pouco vai parecer que só gosto de contar o que acontece à noite, mas é que o aniversário dele, como toda a festa em que se reúne a família – ainda mais quando a família é grande –, se resumiu em cumprimentar parentes e amigos, pedir explicações sobre por que alguns não vieram, aturar aquele tio mala falando alguma coisa sobre a barba dele, a avó chorando e dizendo que ele ainda seria pra ela apenas um bebezinho, o padrinho – Carlinhos – totalmente embriagado lhe dando dicas sobre garotas e o pai emocionado fazendo discurso no jardim. E antes do início da festa não foi feito mais nada além de prepará-la. Por essas e outras que resolvi ignorar esta parte. Neste instante, então, Hugo acabara de sair do banho e chegava ao seu quarto onde seu amigo o aguardava.
"Cala boca, Alec", disse enquanto vestia uma camisa, "Passasse quase uma hora lá dentro e não falei nada".
"É porque eu sou visita. A tia Hermione não ia gostar nem um pouco se tu ficasse reclamando do tempo do meu banho", disse Alec deitado em sua cama improvisada com os braços atrás da cabeça. Alec chama Hermione e Ronald de tios desde pouco tempo depois de ter começado a freqüentar a casa de Hugo. Foi algo tão espontâneo e carinhoso que ninguém se incomoda com isso.
"Deixasse de ser visita aqui há muito tempo", disse Hugo rindo e se jogando na cama, "E a Alice?"
"Lá em baixo ajudando a arrumar a cozinha".
"E tu ficasse aqui descansando e deixando elas trabalharem? Grande cavalheiro tu és..."
"Não fiquei aqui descansando. Fiquei arrumando teus presentes", disse ele indicando o canto do quarto. Só então Hugo notou que o que antes era apenas um amontoado de pacotes agora estava enfileirado e, como pode constatar ao se aproximar, organizado alfabeticamente pelo nome de quem havia lhe dado o presente.
"Precisas de terapia urgentemente", riu Hugo. Alec sempre coloca tudo em ordem, seja alfabeticamente, numericamente, por cor, por tamanho ou por gênero. Suspeita-se que seja por esta mania também que Hermione seja tão apegada ao menino, porque dizem as más línguas que ela ficou encantada quando chegou em casa e sua estante de livros estava organizada. Por outro lado, isso sempre foi grande fonte de brincadeiras entre os amigos, simplesmente por que era fácil irritar o Alec: bastava revirar sua gaveta de meias. Bem, voltemos ao presente.
"Assim fica mais fácil de abrires os presentes. Te fiz um favor e ficas aí reclamando...", disse Alec se sentando, "Vamos, escolhe um pra abrir".
"Depois. Vou lá ver se precisam de ajuda". Hugo saiu do quarto e se deparou com sua mãe e seu pai acabando de subir as escadas. "Ia descer pra ver se precisavam que eu fizesse alguma coisa".
"Tudo em ordem, meu anjinho", disse Hermione se aproximando e pegando o rosto do filho entre as mãos, "Parece que foi ontem o teu primeiro dia de aula e agora olhe só, praticamente um homem", ela então o abraçou e beijou sua face. Hugo tentou protestar, mas a mãe não o soltou.
"Querida, assim você deixa o menino sem graça", disse Ronald tentando convencer Hermione de soltar o filho.
"Mas é isso que as mães fazem, deixam os filhos encabulados", ela sorriu mas soltou Hugo, "Agora vamos pra cama então".
"Eu tinha pensado em abrir os presentes agora".
"Pode abrir com seus amigos, filho", disse Ronald passando o braço pelos ombros da esposa, "Sua mãe trabalhou demais hoje, nós vamos pra cama".
"Boa noite, filho. Tenha lindos sonhos", disse sua mãe lhe dando um último beijo. Assim que seus pais entraram no quarto, Rose e Alice subiram correndo as escadas. Hugo mal conseguiu abrir a boca para falar quando Alice se trancou no banheiro e Rose por pouco não bateu com o rosto na porta.
"Sua baixinha metida! Era minha vez no banheiro!", disse Rose dando pequenos socos na porta.
"Não demoro!", Hugo ouviu Alice dizer do outro lado da porta e logo depois começou o som do chuveiro.
Rose saiu xingando baixo para o seu quarto e Hugo voltou para o dele. Mal havia entrado e Alec o abordou com um pacote na mão, "Anda, abre".
"A Alice vai me matar se eu abrir os presentes antes dela chegar".
"Não precisa abrir todos, só esse", disse colocando o pacote nas mãos de Hugo.
Hugo então pegou o embrulho e notou que, como já imaginava, era o presente de Alec. Sentou então na cama e abriu o pacote, que era até relativamente grande. Ao rasgar o papel, Hugo não pode deixar de soltar uma risada, só seu amigo mesmo para lhe dar o jogo de palavras cruzadas 'Scrabble – Runas Antigas'. "Prefeito, Alec", disse, "Será que vai ajudar a gente nos N.I.E.M.'s?"
"Assim esperamos!", disse Alec voltando a se deitar em sua cama, "Posso ler as regras, cara?"
"Claro", disse Hugo jogando a caixa para o amigo e indo dar uma inspecionada nos presentes que recebera, alguns ele já imaginava o que seria, mas outros ele não fazia idéia. Pegou um e começou a apalpar e sacudir pra ver se adivinhava, mas não adiantou muito, então colocou de lado e pegou outro, partindo para o mesmo ritual.
"Não aperta muito que é capaz de quebrar", disse Alice saltitando em direção a ele segurando seu cachorrinho de pelúcia. Ele olhou pra ela sorrindo como quem pergunta 'posso abrir?' e Alice sorriu como quem responde 'claro!'.
Se me permites uma leve divagação, caro leitor, devo dizer que essa é uma das vantagens de se ter uma amizade de longa data, não precisar de palavras para entender um ao outro. Aqui então abrirei um pequeno parêntese para dizer que Alice e Hugo se conhecem 'desde sempre', como eles costumam dizer. Os pais dos dois estudaram juntos em Hogwarts e se tornaram grandes amigos. A mãe de Alice vocês já conheceram, é a dona do Caldeirão Furado, Hannah Abbott, e o pai dela é Neville Longbottom, professor em Hogwarts. Por causa da amizade entre seus pais, os dois praticamente foram criados juntos e acabaram se tornando melhores amigos. Mas agora, fechando este parêntese, voltemos ao rumo da história: Hugo passou a segurar cuidadosamente o embrulho, devido ao aviso de Alice, e abriu o pacote com calma, encontrando por fim uma novíssima câmera fotográfica.
"Alice... Isso deve ter custado uma nota".
"Nem começa com isso! Eu te devia uma desde que joguei a tua no lago no ano passado", disse ela sentando-se no chão com Hugo ao seu lado e colocando seu cachorro de pelúcia ao seu lado. Acho que devo mencionar que Alice não consegue dormir sem o Bob (que é o cachorrinho). Ela trouxe pro quarto porque tinha uma leve suspeita que Rose, sabendo dessa sua dependência, iria escondê-lo como retaliação por ela ter ido primeiro no banheiro.
"Verdade... Só porque eu tinha uma foto tua abraçando aquele cara no Cabeça de Javali... Foto que tu mesma pedisse pra eu tirar".
"Isso foi antes de eu saber que ele é do tipo que só sai com quem paga por isso, se é que me entendes", disse ela rindo.
"Pois é... Seria uma boa fonte de chantagem...", disse ele pensativamente até que ela pegou Bob e bateu na cabeça de Hugo com ele. Nesse mesmo momento ouviram um ronco e se viraram encontrando Alec deitado sobre as costas com a cabeça pendendo pra fora do colchão. "Juro que há menos de cinco minutos ele estava acordado".
"E eu acredito", riu Alice, "Ainda vou descobrir como ele consegue dormir tão profundamente em qualquer lugar e ainda por cima tão rápido".
"Bem, qual tu queres que eu abra agora?", riu Hugo voltando-se para os presentes.
"Tu que sabes, rapaz... Posso abrir?" disse Alice pegando o presente que dera a Hugo. Ele acenou que sim, então ela começou a tentar desvendar a máquina fotográfica enquanto ele voltava sua atenção aos presentes.
Em pouco tempo já havia desembrulhado o presente de seu padrinho – uma vassoura nova, já que a dele havia sido quebrada no último jogo de quadribol da família –, de seu tio Gui – um perfume, deixando claro que quem havia comprado foi a esposa dele, Fleur –, de seu tio Jorge – um reabastecimento de itens da loja para o ano letivo –, de seu tio Percy – uma camisa, provavelmente um novo lançamento da grife de Lucy –, de sua tia Gina – aulas de aparatação e o pagamento do teste – e de seus avós, tanto maternos quanto paternos – roupas e mais roupas. Enquanto abria, Alice ia tirando fotos com a câmera nova. Hugo então viu um pacote que lhe deixou muito curioso, era de Monica. Não sabia explicar bem o porquê, mas não queria abri-lo na frente de Alice. Disfarçou o quanto pôde e, aproveitando um momento de distração dela com a câmera, pegou o pacote e o colocou atrás dos presentes já abertos.
"O que tás fazendo?", disse Alice erguendo o olhar da máquina ao notar o movimento de Hugo.
"Eu? Eu to procurando o pacote que a Kai mandou", disse torcendo para que Alice não conseguisse perceber que estava mentindo. Se notou, ela não disse nada, apenas alcançou um pacote e lhe entregou.
"Esqueceu que o Alec colocou os pacotes em ordem?", disse rindo, "Pena que ela não pôde vir, né?"
"Pois é...", disse Hugo rasgando o embrulho. Dentro havia um boné de um vermelho berrante e uma carta, Hugo abriu e leu em voz alta.
"E aí, moleque? Tudo certo?
Bem, aqui em Taiwan está tudo ótimo! Estou me divertindo um bocado com os meus primos e primas. É chato não poder contar que sou uma bruxa, tenho que ficar mentindo o tempo todo e inventando coisas sobre esses anos em que estamos morando na Inglaterra e na França. Mas vou parar por aqui, porque as novidades eu conto quando voltar.
Alice e Alec estão por aí? Espero que esteja tudo certo com todo mundo! E mande minhas lembranças. Sinto por não ter mandado notícias antes, mas mandar cartas normais demora muito e é muito caro. E corujas estão proibidas para que eles não descubram a verdade, enfim...
Caso estejas te perguntando sobre o presente, é o boné do time de quadribol mais famoso de Pequim, os Vassouras Vermelhas. Viemos assistir o jogo deles contra os Canhões de Chudley. Nunca vi os Canhões jogarem tão bem (ou será que é o adversário que está jogando muito mal? Não conte para o seu pai que eu cogitei essa possibilidade =P). E estando num ambiente totalmente mágico aproveitei a oportunidade pra mandar teu presente.
Nos vemos no trem!
Com carinho,
Kai ***
P.S.: Dia 1o de setembro tá chegando! Nosso último ano! Mal posso acreditar!
P.S.2: Acabei de encontrar o apanhador do Canhões! Consegui uma foto autografada! Na verdade duas, estou mandando uma pro teu pai!"
Hugo ergueu os olhos e Alice mostrava a foto que havia encontrado. "Seu pai vai amar!", riu ela, "E falando no dia do jogo, quando é que vais me contar sobre estar de castigo?"
"Não queria dar chance para a minha mãe lembrar disso", disse Hugo colocando o boné.
"Bem, acho que ela não está aqui agora né?", disse Alice tirando uma foto de Hugo.
"É uma longa história, mas para resumir foi porque eu voltei levemente bêbado de uma festa", disse Hugo ficando corado.
"Que festa?"
"Uma que o velho Henry Flint estava divulgando, sabe?", Alice acenou positivamente e depois soltou um 'desembucha' e ele continuou, "Eu fui tomar café lá no Caldeirão e uma moça acabou esbarrando em mim e derrubando meu café. Então ficamos conversando e tal e ele apareceu vendendo os convites e ela comprou. Daí resolvi ir na festa..."
"Tudo isso no bar da mamãe e ela não me conta nada?!", disse Alice boquiaberta, "Ela está levando essa história de não comentar nada que acontece lá muito a sério! Quer dizer, não é como se eu não tivesse o direito de saber quando o meu melhor amigo fica de papo furado com uma guria! Quem é ela?"
"Amanhã eu te conto, ok?", ao receber um olhar de protesto de Alice disse, "Tá tarde já, e se eu bem te conheço essa história vai longe".
"E como que eu vou conseguir dormir, posso saber?"
"Sem drama, Alice. Amanhã eu juro que conto tudo".
"De amanhã não me escapas, Hugo Edward Weasley", disse ela se levantando emburrada e indo para a porta. Antes de passar para o corredor ela se virou e disse, "Não escapas".
Hugo esperou ouvir a porta do quarto de Rose se fechar e então apagou as luzes do quarto, acendendo apenas o abajur de sua mesa de cabeceira. Então ele pegou o pacote de Monica e se deitou na cama. Dentro havia um pequeno aparelho de música com fones de ouvido e um cartão. Colocou os fones de ouvido e ligou a música. Pegou então um cartão, de um lado trazia a lista de músicas.
"Rush, Blur, Led Zepelin, The Who, The Police, Pixies, Pink Floyd, Eric Clapton...", leu em silêncio enquanto seu sorriso crescia, "Bandas trouxas...". Do outro lado havia um recado:
"Oi, Hugo!
Sabe, é como dizem: o presente é simples mas é de coração.
Não tive muito tempo pra pensar, então resolvi mandar algumas das músicas que ouvimos ontem à tarde e que disseste que tinhas gostado e acrescentei outras. Quem sabe com o tempo consigas distinguir o som do baixo nas músicas, né? Ou será que isso é esperar demais? Acho que não, te dei o toque ontem, preste atenção que tenho certeza que vais conseguir.
Te desejo felicidades! E espero que tua mãe realmente tenha esquecido o castigo.
Monica"
Hugo sorriu ao ler aquelas palavras. Ajeitou-se na cama e ficou ouvindo as músicas até adormecer.
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N.A.: Ae! Os coelhinhos criativos foram tão bonzinhos! Vieram rápido, não é mesmo? Vai ver que se inspiraram com os parentes fazendo ovos e resolveram também trazer presentes para os leitores! Viva os coelhinhos! (ou vai ver que foi porque a Aninha resolveu parar de ameaçar matar eles pra fazer chaveirinhos...) Bem, deixemos o momento loucura de lado. Espero que tenham gostado do capítulo! É o maior até agora acredito eu... Espero também que votem e deixem um comentariozinho pra alegrar meu feriado! Feliz Páscoa pra todos!