CAPITULO 20
TRAQUINAGENS
Gina colou o ouvido na porta do quarto dos pais. Riu baixinho ouvindo os roncos inconfundíveis de Artur Wesley. Nem sinal de sua mãe. Deveria estar dormindo também.
Tentando não fazer barulho, ela andou pelo corredor com passos suaves. Vestia um casado grande sobre a camisola. Pretendia sair da Toca, e aparatar no hotel de Harry. Dormir em seus braços novamente.
Eles tinham um encontro para dali a um dia, mas ela não podia esperar mais. Sentia muita, mas muita saudade.
Infelizmente, seus passos não foram leves o bastante para esconder suas intenções.
-Gina? Onde você vai querida? – era a voz de sua mãe.
Gina parou no alto da escada e virou-se para ela, que abrira a porta e a olhava de cima para baixo.
-Vou beber um copo de leite, mãe – mentiu, um pouco envergonhada por fazer isso.
-Vestida para sair?
Molly era tudo, menos boba.
-Ah, não estou vestida para sair – ela tentou contornar – peguei a primeira roupa que achei e vesti. Estou com um pouco de frio - cruzou os braços para dar ênfase.
-Entendo – ela respondeu desconfiada – deixe que eu faço um leite quentinho para você...
-Não! – disse e arrependeu-se de tanta veemência imediatamente – Estou...estou com muito sono, mãe. Vou beber leite frio mesmo. Mal posso esperar para voltar a dormir...
-Não seja por isso, querida. Volte para seu quarto, eu apanho o leite e levo para você – Molly disse cheia de dedos, olhando-a com olhos de águia, que tudo vê.
Sem opção ela sorriu seu mais decepcionado sorriso amarelo e voltou de cabeça baixa para o quarto.
Melancólica pensou que se não estivesse grávida pularia a janela. Acabou sorrindo a esse pensamento, no momento em que sua filha começou a chutar com força dentro de seu ventre.
-Eu sei, Felicity, você também queria ver o tio Harry, não é? – conversou com ela, tirando o pesado casaco e entrando embaixo das cobertas. – Amanhã a gente estará juntos novamente – acariciou sua barriga com muito carinho, pensativa e sonhadora – estaremos juntos, quem sabe, como uma família. O que você acha? Gostaria disso?
Rindo, ela tomou o forte solavanco como um ‘sim’.
Harry andou pelo quarto nervoso. Queria sair, mas não tinha como descer ao saguão onde era permitido aparatar sem ter que encarar os jornalistas e fotógrafos. Eram onze horas da noite e tudo em que ele pensava era em um modo de sair e encontrar com Gina.
Se fosse cuidadoso, ele poderia entrar facilmente na Toca sem ser visto. Subiria ao seu quarto e passaria a noite agarradinho com ela, como tantas vezes no passado.
Nostálgico ele fitou sua varinha, se perguntando o que Hermione faria num impasse desses. Pode ouvir com clareza sua voz autoritária dizendo algo do tipo: “Por Merlin, Harry! Um simples feitiço de disfarce! Acaso você não sabe fazer um?”
Sorriu a esse pensamento, apontando a varinha para si mesmo. É claro que sabia fazer um feitio que mudasse sua feição.E muito bem, alias.
Em alguns segundos havia um rapaz louro e simpático diante dele. Tinha que ser rápido, pois esse tipo de feitiço de ilusão dura muito pouco.
Feliz com a própria decisão, ele saiu do quarto e desceu para a entrada do hotel. Cumprimentou o rapaz atrás do balcão que nem lhe deu atenção. Passou pelos repórteres rindo por dentro. Quando ele estava prestes a aparatar na calçada, viu o rapaz da recepção correndo e gritando:
-É ele! É Harry Potter!
Mas já era tarde, ele havia sumido.
Mary passava seus cremes distraída, sentada na cama. Era a própria visão da tentação, pensou. Linda, delicada, perfumada pelas poções de beleza. Sua pele muito branca era sedosa e ele pensou em como ela parecia deliciosa naquela primeira noite, há seis anos atrás, quando ele estava bêbado e disposto a esquecer do mundo nos braços de qualquer uma que tivesse disposição para agüentar seu cheiro de Whisky de fogo!
-O jogo acabou, querido? – ela perguntou ao notar que era observada.
-Acabou – mentiu. Ele nem lembrava mais do jogo. Estivera assistindo desenhos infantis na última hora, para distrair as filhas e usar esse tempo para decidir como falar com ela.
-Vem deitar, Rony -ela disse maliciosa, deixando as poções de lado e movendo os cabelos curtos e sedosos para que ficassem ainda mais sedutores.
-Precisamos conversar, Mary – ele não fez nenhum movimento de aproximação. –É um assunto sério.
-O que aconteceu? – ela mudou sua postura, ficando assustada – Quer me dizer alguma coisa sobre seus amigos que voltaram? É isso?
-Não. – ele entrou no quarto e fechou a porta.
As meninas já estavam deitadas, mesmo assim, ele não queria que elas ouvissem.
-Fiquei sabendo dos incidentes que acontecem quando não estou em casa – ele disse sério, esperando que ela pudesse ao menos admitir.
-Incidentes? – ela estranhou, franzindo as sobrancelhas.
-As mãos queimadas de Hermy – ele acusou e ela arregalou os olhos, como se tentasse lembrado que ele se referia – Os puxões de cabelo em Sara. Os gritos.
-Quem te contou isso, Rony? – ela mudou a postura sedutora para uma defensiva.
-Isso não importa. Eu quero saber o que está acontecendo com você!
-Foi o elfo, não foi? Dobby me odeia! É claro que ele faria intrigas contra mim! Eu deveria ter sabido que ficar com o elfo do seu amigo seria uma burrice!
-Não fuja do assunto, Mary! – ele exigiu – Porque fez essas coisas? Quem te deu o direito de machucar as meninas fisicamente ou psicologicamente? Me diz!
Mary levantou-se o olhando com horror.
-Rony, eu nunca machuquei as meninas! Merlin! Outro dia Hermy estava brincando perto do fogão e quando vi estava com a mão queimada! Levei um susto terrível! Foi só isso que aconteceu! Nunca espanquei minhas filhas se é o que está insinuando! – gritou cheia de raiva.
Era a primeira vez desde que se casaram que ela não abafava o assunto.
-E porque eu não fiquei sabendo disso? – ele perguntou desconfiando.
-Rony, você tem dois empregos – ela amenizou o tom, olhando-o como quem implora por algo – Precisa de atenção como auror e precisa estar calmo para ensinar seus alunos a serem aurores de qualidade! Eu pensei que se levasse Hermy ao medico e ela ficasse bem, não haveria razão para preocupá-lo a toa! Não fiz por mal.
-Você grita com elas? – ele perguntou quase convencido.
-As vezes...quando elas fazem bagunça. – ela sorriu como se fosse obvio – Acaso você nunca grita quando elas estão impossíveis?
Era uma pergunta clássica. Ela tinha razão. Hermy não era apegada a mãe, e era natural que pendesse para o pai caso pensasse haver uma possível separação entre eles. Crianças mentem quando sentem medo de algo. Ele mesmo nunca foi um santinho quando pequeno e aprendeu a inventar algumas coisas para se defender. Nunca em assuntos tão sérios, mas de qualquer forma, eles viviam uma vida tensa.
Tão tensa que as meninas estavam sendo atingidas. Com um longo suspiro, ele aproximou-se de Mary e lhe deu um beijo na testa, num mudo pedido de desculpas.
-Rony? – ela chamou com voz frágil quando notou que ele iria sair do quarto – Onde vai, amor?
-Tenho um relatório para enviar amanhã cedo ao ministério – mentiu – Não demoro. Não precisa me esperar acordada se não quiser.
Ela não respondeu nada. Claro que não esperaria. Estava cansada de cuidar da casa e principalmente cansada de esperar por ele.
Com essa certeza, e alivio, ele desceu para a sala, e ligou a TV com volume baixo.
Era noite quando ela acordou. Hermione havia dormido a tarde toda e não se reconhecia por isso. Não era do tipo de dorme de dia, ou precisa de muitas horas de sono para estar bem.
Movendo-se embaixo do fino lençol ela olhou para o teto. Havia esquecido a luz acessa. Seus cabelos estavam secos e os lençóis um pouco menos úmidos do que qundo deitou molhada. Mas ela não ligou.
Não ligou para nada. Fechou novamente os olhos e tentou dormir outra vez.
Esquecer os repórteres. Esquecer as pessoas. Esquecer o que se tornara sua vida. Esquecer que ainda estava viva e teria que construir uma vida diferente da sonhada por ela e Rony.
E principalmente, esquecer Rony.
O pós guerra trouxera uma segurança as famílias e os inúmeros feitiços de segurança haviam sido substituídos por feitiços de segurança leve. Menos mal, pensou Harry, enquanto subia a escada da casa da família Wesley.
Havia burlado os feitiços de tranca, e entrado pela porta dos fundos. Um feitiço contra o ranger dos degraus, que lembrava-se no passado serem bem chamativos. No corredor ele passou em frente ao quarto que fora de Rony, e que ele muitas vezes dormira como hospede. Tinha saudades daquele quarto que contava um tempo em que fora tão feliz.
Bem de leve ele testou o trinco do quarto de Gina torcendo para que ela ainda dormisse no mesmo quarto. A porta cedeu e ele empurrou sem presa. A luz estava apagada e ele apressou-se a entrar e fechá-la com um feitiço de tranca. Não queria ser pego no flagra e causar problemas para Gina.
Haviam voltada a sua fisionomia e observou o corpo pequeno encolhido na cama. Ela deitara de lado e ele podia ver o contorno do seu quadril e de sua barriga. Isso despertou uma grande ternura dentro dele.
Com passos muito leves ele deixou a varinha no criado mudo e ascendeu o abajur ao lado da cama, observando-a dormir.
Era um pecado acordá-la e ele se arrependeu de ter ido até ali atrapalhar seu sono profundo.
Com o toque de uma borboleta, ele afastou os cabelos ruivos e lisos de seu rosto, e fitou a pele branquinha e cremosa de suas bochechas, seus cílios longos e claros. Seus lábios rosados e entreabertos num suave roncar. Muito suave, e engraçadinho, ele pensou.
Lembrava-se disso também. De seus ronquinhos engraçados. Sorriu, acariciando sua pele macia e vendo-a entreabrir os olhos sonolenta e confusa.
-Harry? -ela sussurrou muito baixo e ele curvou-se beijando seus lábios convidativos com muita sutileza e carinho.
-Estou aqui, meu amor -ele disse no mesmo tom e ela fechou os olhos novamente.
-Eu senti sua falta, Harry... – sua voz não era mais que um sussurro e ele se perguntou se ela estaria mesmo acordada.
-Eu também senti muito sua falta, Gina – confessou.
-Não...eu senti sua falta antes...quando a dor era imensa... – ela entreabriu os olhos novamente e eles estavam úmidos e o coração de Harry se apertou ao ponto de doer terrivelmente.
-Estou aqui agora – garantiu – Não há mais dor.
-Humhum – ela concordou voltando a fechar os olhos, caindo novamente em seu mundo de sonhos.
Cheio de um sentimento de amor incontrolável, Harry tirou os sapatos, a camisa e deu a volta na cama, deitando-se atrás dela, e a abraçando com todo seu amor.
Incerto se podia, ele descansou a mão sobre seu ventre, se perguntando se teria direito a fazer isso, pois aquela criança não era sua, e talvez não devesse sentir-se dessa forma. Sentiu um pequeno movimento e reconheceu os movimentos da noite em que passara ao lado de Gina no hotel. Era a filha de Gina, Felicity.
Sentiu-se bobo e alegre fazendo isso. Era certo sim, pensou. Felicity perdera o pai, como ele também perdera seus pais. Merecia conhecer uma figura paternal e ele sentia-se capaz de ser um bom pai. Um pai de um filho de Gina, a mulher da sua vida.
-Durma bem, amor -ele sussurrou no ouvido de Gina quando ela mexeu-se na cama, talvez incomodada pelos movimentos dentro dela, e sorriu dizendo mais baixo, inclinado na direção da barriga proeminente – hei, Felicity, vamos deixar a mamãe dormir, ok? – sorriu quando ela mexeu sob sua mão e se acalmou – Boa menina, não vejo à hora de te conhecer, sabia? Boa noite.
Sentindo muita paz ele acalmou-se e relaxou ao seu lado, pegando no sono instantaneamente.
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