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17. Tempestade no Horizonte


Fic: A Floresta das Sombras, Aviso


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Capítulo 17





Tempestade no Horizonte




Lily apertou a bandagem com um pouco mais de força que o necessário.

– Au! – reclamou James. – Eu sou a vítima aqui, lembra?

A esposa não se comoveu, pelo contrário, puxou o curativo um pouquinho mais obrigando-o a fazer uma careta.

– Lily!

– Está pronto – ela disse ainda de cara amarrada e se afastou para juntar os apetrechos, que estavam espalhados sobre uma pequena mesa no quarto deles, e que tinham sido usados na troca do curativo.

O duelo entre Lord Potter e o Xerife Snape já virara letra nas cantigas dos bardos, mas apenas três dias haviam se passado desde então. Fora preciso os esforços de um mago do nível de Dumbledore para desfazer todos os feitiços de James em Snape. Já as escoriações de James produzidas pela queda do teto das baias foram curadas rapidamente, porém, o corte em seu peito – obra do feitiço lançado pelo xerife – levara mais tempo para cicatrizar por causa da magia negra contida nele. Lily não sofrera quase nada fisicamente, mas tão logo soube que James ficaria completamente recuperado, pareceu ter resolvido dar início a um período de castigo ao marido, embora jamais tenha saído do seu lado. Os cuidados brutos eram a prova disso.

– Achei que eu mereceria um pouco mais de carinho da sua parte – James choramingou enquanto levantava da cadeira e pegava a camisa que estava estendida sobre a cama para vestir.

Lily se virou para ele com as duas mãos na cintura, os olhos luzindo.

– Carinho? Você quase se matou...

– Correção: Snape quase me matou.

– Você caiu em todas as provocações dele!

– Ah, me desculpe, eu deveria tolerar que aquele seboso filho da mãe saísse calmamente da minha casa após ter insultado aos meus amigos!

– James, você é adulto, estava na sua casa, podia simplesmente pedir para que ele se retirasse! Aquele duelo foi... – o rosto de Lily ia atingindo uma coloração quente na medida em que ela se inflamava – foi... desnecessário, infantil... imprudente e... e... Droga! Minha vontade agora é bater em você!

James ainda segurava a camisa enquanto a observava com os maxilares presos.

– Tudo isso é porque eu machuquei o seu “irmãozinho”?

Os olhos dela saltaram das órbitas e ela jogou os braços para cima num bufo de quem se rende.

– Eu desisto! E... – Lily se virou pronta para sair pela porta, mas abandonou a idéia e voltou ainda mais furiosa – Caso não saiba James Potter, Severus está ótimo! Já anda por aí cavalgando e cobrando impostos com a felicidade de um coletor romano. Quem ficou três dias na cama foi você! Quem perdeu sangue a ponto de quase morrer foi você! Inferno! Você deveria ao menos ter pensado em... em Harry! Se arriscar daquele jeito! Você podia ter morrido e o que seria do Harry, hein? E... e...

As mãos de Lily se apertaram enquanto ela gaguejava fora de si, James, porém, estava sorrindo. Ele jogou a camisa sobre a cama e enlaçou a esposa raivosa pela cintura.

– Está brava porque eu me machuquei?

– É claro, seu...

– Pelo Harry? – Lily abriu a boca para assentir. – Ou por você?

Ela voltou a fechar a boca apertando firmemente os lábios como quem segura o que quer dizer. Depois respirou fundo e fechou os olhos por um instante, quando os abriu, eles estavam mais verdes e brilhantes do que nunca.

– Eu nunca o perdoaria se tivesse morrido, James! Eu iria até o inferno apenas para azará-lo se eu o tivesse perdido por um capricho idiota de menino mimado que não pode ser provoc...

Os lábios de James não a deixaram terminar, grudaram-se em sua boca roubando-lhe o ar e os argumentos. A mão dele que não estava em sua cintura, segurou firmemente a curva do seu rosto impedindo-a de resistir. Não que ela quisesse, é claro.

– É muito bom tê-la de volta, Lily – ele sussurrou afastando o rosto para descer os lábios pela garganta dela. – Prefiro brigar com você a fazer isso com qualquer outra pessoa no mundo, sabia?

– Se não me desse motivos, eu seria um anjo de criatura – ela arfou, segurando-se nele para não cair.

O marido lhe deu um sorriso de lado.

– Eu me casei com você... anjos são para igrejas – ele retrucou com humor e voltou a beijar-lhe o pescoço, enquanto a empurrava suavemente para a cama.

– James... – protestou Lily.

– Não se preocupe querida, ninguém vai sentir a nossa falta, estou doente, lembra? E você está cuidando de mim... – murmurou preguiçosamente no ouvido dela.

– Mas...

– Eu sei... – ele cortou como se adivinhasse a objeção – mas isso não é esforço, é...
Lily o segurou pelos ombros com força e o afastou.

– Aquele não é patrono do Sirius? – ela perguntou apontando para a janela com o rosto afogueado.

James se voltou para trás e pode ver claramente um grande e luminoso espectro de cachorro parado junto à janela com a língua de fora. Parecia muito amigável, feliz e levemente divertido. Conhecendo Sirius, seu patrono tinha visto a cena e resolvido sentar para observar o casal namorando e depois ir contar tudo ao seu dono. James ia lhe dizer um desaforo para que o patrono levasse igualmente para o seu mestre, mas assim que ele se virou, o cão inclinou a cabeça para o lado analisando-o. Depois, saltou pela janela e saiu em disparada.

– Descarado! – reclamou Lily, indignada. – O patrono dele ia ficar olhando para contar para aquele pervertido? Ainda bem que ele se deu conta e saiu.

– Não foi por isso que ele saiu – disse James com seriedade, largando a esposa e indo em direção a camisa jogada sobre a cama. – Ele viu meu ferimento e voltou para avisar Sirius.

Lily piscou algumas vezes enquanto James vestia a camisa e amarrava rapidamente uma túnica com um cinto sobre ela.

– Sirius...

– Obviamente ele está de volta. O patrono veio avisar. E agora, com certeza, ele vai chegar aqui espumando e querendo saber o motivo de eu estar machucado. Será melhor que ouça por nós o que aconteceu, ainda assim precisaremos segurá-lo para que ele não vá atrás do Snape. Não é o momento para isso.

A mulher deu um longo suspiro.

– Vocês são farinha do mesmo saco, sabia?

James sorriu e a enlaçou pela cintura para descerem juntos até o andar térreo.

– Está reclamando por que ele nos interrompeu? Não se preocupe, minha querida, é apenas um adiamento... – completou com mais um beijo no pescoço dela. Lily se limitou a rolar os olhos e fazer um muxoxo feliz.

Em pouco tempo todos sabiam da chegada iminente de Sirius Black e James e Lily, acompanhados por Remus, Peter, Marian, Harry e Hermione resolveram aguardá-lo no salão principal. James não queria que o amigo recebesse a notícia sem um bom grupo por perto para controlá-lo. Algum tempo depois, e exatamente como James previra, Sirius irrompeu no salão principal como um furacão.

– O que aconteceu? – perguntou indo em direção a James que o aguardava sentado. – Não achei que fosse tão grave, mas quando não o vi no pátio...

– Ele não pode ficar muito tempo em pé – explicou Lily. – E caso não tenha notado que ficou fora por meses, Sirius: olá para você também.

Sirius registrou com um sorriso mínimo o fato de Lily estar em pé ao lado da cadeira de James, com a mão enlaçada na dele, mas ignorou o que ela disse. Na verdade, passou a encarar os dois em busca de respostas.

– O que aconteceu? Isso é ferimento de duelo! – afirmou. – Com quem foi? Por que diabos eu não fui avisado?

– Controle-se, Sirius. Você não poderia fazer nada – disse Remus.

– E por que vocês não fizeram? – rosnou o amigo.

– É que, caso não tenha notado, Sirius – reagiu Peter – James já é bem crescidinho e sabe entrar em encrencas sozinho.

– E pelo visto não sabe sair! – estourou o outro. – Vai ficar aí me olhando com esse sorriso idiota ou vai me contar o que aconteceu? – perguntou furioso para o amigo.

James não mudou a expressão bem humorada.

– Bem vindo de volta, irmão! Então, como foi?

– Não mude de assunto, James!

– Eu já estou praticamente curado – falou James num tom displicente e conciliador. – Você devia ver o estado em que o Snape ficou. Dumbledore gastou um bocado de energia para deixá-lo parecido com um ser humano novamente. E eu não estou certo de que ele tenha tido um completo sucesso. Claro, não falei nada para não magoar os sentimentos de Dumbledore.

– E provavelmente ele não parecia muito com um ser humano antes – prosseguiu Peter e James concordou risonho.

– SNAPE!! – berrou Sirius com os olhos saltando das órbitas.

– Sem drama, Sirius – retrucou James ainda se divertindo. – Se você não sentar e se comportar com um bom garoto, eu juro que não te conto as partes divertidas.

Sirius lhe devolveu uma careta e, finalmente, olhou as outras pessoas na sala. Piscou para Harry como forma de cumprimento e depois voltou a encarar James.

– Não acho que “as partes divertidas” vão conseguir me acalmar.

James deu uma gargalhada.

– Oh não! Tenho certeza que não. Afinal – James se inclinou um pouquinho para frente – você ficou de fora desta.

O resto da sala caiu em risadinhas.

– Ótimo! – debochou Sirius. – Então, temos o “velho” James de volta. – Ele olhou para Lily com uma falsa reprimenda. – Ele é mais prudente quando está só comigo, sabia? Não precisa ficar se exibindo para você.

– Pelo que sei – retrucou Lily – isso é porque você prefere deter toda a irresponsabilidade em si mesmo.

Foi a vez de Sirius gargalhar.

– Ninguém nos conhece melhor que você – ele abriu os braços para todos na sala. – Então, eu não ganho um abraço de boas vindas?

Lily foi a primeira a caminhar até ele e o abraçar, mas murmurou em seu ouvido.

– Se seu patrono entrar no meu quarto outra vez, eu juro que azaro você, seu cachorro.

Seguiu-se uma boa rodada de abraços e palmadas no ombro, desejos de boas vindas, e reclamações pela falta que Sirius fizera. Apenas James, ainda sem se levantar da cadeira é que não parava de perguntar: “e ela? E ela?” Porém, quando Sirius finalmente deu mostras de que iria responder, Ron entrou no salão – usando as portas que davam para a balaustrada sobre o rio – aos berros.

– HARRY! HARRY!

O garoto parou abruptamente ao ver a sala cheia. O rosto estava suado, vermelho e muito excitado, como se ele tivesse visto uma maravilha sem tamanho. Ele também não parecia esperar encontrar toda aquela gente, que imediatamente parou e ficou olhando para ele.

– O que foi Ron? – a pergunta espantada de Hermione pareceu ter o condão de intensificar a sua cor de beterraba.

– N-ã... nada... – gaguejou – Harry, será que você poderia...

Nisso, Fred e George avançaram salão à dentro parecendo ainda mais empolgados do que Ron. Os dois seguraram a corrida no meio do salão e George chegou a colocar as mãos sobre os joelhos para voltar a respirar, enquanto Fred segurava um lado do corpo e se apoiava na mesa.

– Ela... – arfou Fred – ela... disse que... se conseguirmos uma... capa

– Ela sai da água – completou George, num resquício de fôlego.

– Ela quem? – quis saber Harry, confuso.

– A mulher que está lá no lago – conseguiu dizer Ron, evitando o olhar atento de Hermione.

– Nua – informou George como se aquilo fosse o mais importante de tudo.

– E não é uma mulher – corrigiu Fred. – É um anjo!

– Uma deusa – disse George sonhadoramente.

Ouviu-se um grunhido e todos se voltaram para Sirius. Harry notou que Lily e Hermione pareciam tão confusas quanto ele, mas que James e Remus trocavam olhares bastante divertidos, enquanto Peter parecia um pouco irritado. Com cara de poucos amigos, Sirius começou a soltar o fecho da capa e se encaminhar para as amplas portas que se abriam para a balaustrada que dava para acesso o rio.

– Definitivamente, ela precisa de traquejo social – resmungou antes de dizer em voz alta se virando para Fred, George e Ron. – Para informação de vocês, a deusa tem dono e o que se atrever a me seguir – ameaçou enrolando a capa no braço e apontando para os três rapazes – eu transformo em cocho para os porcos!

Assim que ele saiu da sala, James explodiu em gargalhadas sendo acompanhado por Remus.

– Afinal do que se trata isso? – quis saber Lily.

Foi Remus quem explicou.

– Nosso amigo Sirius, ao que parece, conquistou a noiva dos seus sonhos.

– Aquilo... aquela... é a noiva dele? – perguntou Fred assombrado.

– Exatamente – disse Remus.

– Eu não entendo – falou Marian, cuidadosamente. – Que espécie de dama tomaria banho num lago... bem, sem trajes? Eu... – ela pareceu um pouco incerta, talvez não se achando capaz de julgar os hábitos dos bruxos – não estou falando do pudor, mas... essa temperatura...

– Não creio que a temperatura possa incomodar a noiva de Sirius – afirmou Peter, sem alterar a expressão incomodada. – Ela teria de ser humana para que o frio a incomodasse.

– Eu disse que ela era uma deusa – resmungou George.

– Ou um anjo – argumentou Fred.

– O que quer dizer com não ser humana? – perguntou Harry, agora mais curioso do que nunca.

– Você está sendo rude, Peter – censurou James e o outro se encolheu um pouco. James encarou Harry e os outros meninos. – A noiva de Sirius é uma selkie.

– Ahh – fez Lily, compreendendo. O rosto de Hermione também mostrou entendimento imediato, mas ela não pareceu tão confortável com a idéia quanto a cunhada.

Harry olhou para os garotos Weasley, eles também haviam compreendido e pareciam ainda mais excitados com a idéia.

– E o que é uma selkie.? – perguntou, sentindo a ignorância arder nele.

– Uma foca – resmungou Peter, mas parou num olhar repressor de Remus. Os olhos de Marian se arregalaram.

– Uma selkie., Harry – começou Remus – é uma das mais impressionantes criaturas que vivem em nosso mundo. O povo selkie. vive nos mares do norte e possui duas formas: quando estão no mar, são focas; em terra, são pessoas, como eu e você. São criaturas mágicas muito amigáveis, de grande sabedoria e protetores dos pescadores. Eles não tem preconceitos em se mesclar com os humanos – ele lançou um breve olhar para Peter – mas, quando isso ocorre, preferem que estas famílias fiquem na beira do mar onde sempre podem ver os seus filhos.

– Er... sem querer ir contra a sua explicação, Sir Remus – disse Ron, timidamente, - mas o que vimos estava na água e... não lembrava em nada uma foca.

– E também não está no mar – completou Lily. – Como Sirius...? Ah meu Deus! Ele não teve coragem de...

– Ele a ama – defendeu James.

– Mas isto não justifica ele arrancá-la de sua família!

– Sirius a raptou? – perguntou Harry, assombrado.

– Não se pode raptar uma selkie., Harry – explicou Hermione, com os braços cruzados sobre o peito. – Sirius deve ter pegado a pele dela.

– O quê?

James respondeu com um pequeno sorriso.

– Quando as selkie. se apresentam na forma humana, elas retiram sua pele de foca. E o único jeito de manter uma selkie. na forma humana é esconder esta pele dela. Assim, ela não pode voltar para o mar. Sirius planejou por quase dez anos como faria com que Sonja ficasse para sempre com ele.

– E vocês aprovam este absurdo? – perguntou Lily. – A pobrezinha deve estar sofrendo por ter sido arrastada para tão longe de seus parentes, da vida que conhece. Ela não é uma criatura do nosso mundo! Como Sirius pode imaginar que vai adaptá-la contra a vontade...

– Acalme-se Lily – pediu Remus. – Ela certamente não está aqui obrigada. Sirius não faria isso. Ele nos garantiu que não a traria caso ela não sentisse o mesmo por ele e não concordasse em vir. E, Marian, não se horrorize com os costumes dela. Creio que a moça, depois de uma viagem tão longa e diferente das que está acostumada, devia estar sentindo muita falta da água. Com o tempo, ela certamente vai entender os nossos costumes.

– Espero que não – sussurrou Fred para George, que sorriu. Apenas Harry ouviu os dois.

– Bem, eu creio que Lily, Marian e Hermione poderão ajudá-la nisso, estou certo? – consultou James e as três pareceram concordar. – Quanto a vocês, meninos, creio que é melhor segurarem o... entusiasmo. Eu não quero Sirius correndo atrás de nenhum de vocês com um machado, estamos entendidos? Isso vale para você também Harry.

Os três Weasley se empertigaram e concordaram, embora os gêmeos o fizessem claramente contragosto. Harry balançou a cabeça junto com eles, mas, como não tinha visto a tal mulher, não soube exatamente com o que estava concordando. Ele só foi compreender à noite, quando ela apareceu no jantar vestindo um dos vestidos de Lily e sendo guiada por esta e por Marian. Aparentemente, focas não se davam muito bem com sapatos. Contudo, se ela não parecia muito graciosa andando, isto sumia toda a vez que ela minimamente sorria. Sonja era, como seu pai e Remus o alertaram, de uma beleza quase irreal, como se não fosse possível existir algo assim num ser humano. O que, de fato, ela não era. Ao mesmo tempo, havia nela algo selvagem, um pouco bruto, uma espécie de dureza e força que parecia desconcertante num rosto tão bonito. E, claro, havia o sorriso. Harry tinha certeza de que era possível ser paralisado de deslumbramento por um único sorriso dela. Talvez, por isso, ela só dirigisse os maiores para Sirius e era de ter pena se houvesse mais um ser humano masculino no seu caminho.

Sirius parecia estar no céu. Aliás, esse foi o clima de toda a noite. Ele e Sonja, James e Lily ocupavam a cabeceira da mesa e iluminavam a sala com uma felicidade que se esparramava pela mesa e atingia a todos. Remus e o casal Weasley não paravam de sorrir para os quatro, até Peter, que Harry tinha notado não aprovar a escolha de Sirius, parecia mais tolerante ao conversar com a bela dama. Marian também parecia fascinada por ela, mas de um jeito curioso. Ela parecia muito interessada em perguntar sobre aquele mundo, tão diferente do seu e, ao mesmo tempo, não separado do seu. Percy ficara deslumbrado ao ver Sonja, mas por causa das troças de Fred e George, agora somente encarava o próprio prato. Ron tentara de todas as formas chamar a atenção da noiva de Sirius, até mesmo se ocupando de servi-la para ganhar seus sorrisos. Isso, de alguma forma, despertou a uma veia sarcástica em Hermione que, com o apoio de Gina, não parou de lançar piadinhas. No fim do jantar, Ron não falava mais com nenhuma das duas. E, se Harry não tivesse se segurado bravamente para não rir junto – o que ele não fez por pura solidariedade masculina –, provavelmente, Ron também não estaria mais falando com ele.

Ron só diminuiu a tromba quando – após Sonja deixar de ser o assunto e a novidade – James e os outros se puseram a debater como seriam os jogos que pretendiam realizar no castelo. A primeira decisão foi a de que os jogos seriam para comemorar o aniversário de 15 anos de Harry. A segunda é de que o evento seria memorável e que seriam convidados bruxos e pessoas comuns para participarem das competições. Haveria prêmios para os melhores e, até lá, Harry já estaria melhor treinado e poderia, até mesmo, montar Segredo.

Em dias assim, era fácil se esquecer do mundo que havia lá fora.




~~~~ xxx~~~~


A cela era úmida, estreita e exalava o cheiro de mil corpos humanos masculinos muito perto da podridão. A areia que se acumulava nos cantos era infestada larvas, percevejos e mais parecia com os excrementos que tapava do que com sua forma original. Em torno deles, as paredes de pedra nua e fétidas davam a ilusão fechar-se dia a dia, como que prontas a esmagá-los a qualquer momento. E ainda havia os gritos.

Eram de todo o tipo e nem sempre os piores pareciam vir da cela ao fundo, para onde os prisioneiros eram arrastados e, de onde, nem sempre saíam. Havia os gritos dos que enlouqueciam, dos que tinham pesadelos – os quais, como não sabiam se era dia ou noite, duravam existiam quase o tempo todo –, os gritos dos mutilados, dos que tiveram os olhos queimados por ferros em brasa, dos que pediam pelo amor de Deus ou de Alá que os carcereiros os matassem. Não raro um deles conseguia essa sorte. Outras vezes, cavava a própria sorte, e até mesmo uma ponta de osso enfiada na garganta podia abrir as portas do paraíso. Afinal, ninguém ali duvidava que aquele era o inferno e que todos ali eram cadáveres esperando ansiosamente pelo dia em que parariam de respirar. E de sentir.

Robin conhecia alguma coisa das prisões cristãs para afirmar que não havia qualquer preponderância entre elas e as prisões muçulmanas. Nenhum dos povos poderia vangloriar-se. Os dois eram exímios em criar e colher desespero. Fazer os homens desejarem ser animais.

Se as contas de Will estivessem certas, havia pouco mais de uma semana que eles haviam caído prisioneiros dos infiéis, mas parecia mais, muito mais. Não houvera muita escolha. Eles haviam ficado presos entre uma batalha com os sarracenos e a perseguição de um bando de bruxos enviados para caçá-los. A boca de Robin se curvou num ricto amargo enquanto sua mente o corrigia. Um bando de bruxos enviados para matar a ele! Não aos outros. Will, Moody e Finnighan não eram os alvos, eram seus... guardiões. Sua cabeça pendeu para trás. Bruxos! Ele sabia de sua existência, claro, todos sabiam. Conhecê-los, tê-los como amigos, não chegava a ser algo completamente estranho, mas estar no meio de uma conspiração bruxa. Ter homens enviados ao outro lado do mundo apenas para matá-lo era uma loucura! O suficiente para deixar a cabeça de qualquer um fora de si.

Seus olhos penderam para o lado em que Will estava encolhido, agarrado às longas pernas. Havia plastas de sangue quase indiscerníveis no longo cabelo vermelho pendendo sobre o rosto cansado e semi-escondido pelos joelhos. Provavelmente, pela idade próxima, os dois tivessem se identificado mais. E, naquele exato momento, Robin já o via como o irmão que ele não tinha. Talvez por isso, ver sua dor aumentava a dele próprio. Ele sabia que, naquele momento, Will se sentia sozinho. Seus dois companheiros originais de viagem pareciam prestes a abandoná-lo irremediavelmente.

Primeiro fora Claytus. Não havia como não sentir a perda de Finnighan. Ele era louco, divertido, impulsivo, os metera mais vezes em encrencas do que os tirara delas, mas ainda assim, Robin não podia pensar em melhor companheiro de batalhas do que ele. Will ainda pensava em voltar para a Inglaterra e em como daria a notícia para a sua esposa e o filho. Robin já não tinha tanta esperança.

Quando foram aprisionados, um bruxo sarraceno havia roubado as varinhas de Moody e Will. O assassino de Finnighan, porém, fora um bruxo da Bretanha, um dos que viera matar Robin. O feitiço verde que matara Finnighan era, originalmente, para Robin; teria sido, se o maluco não tivesse se jogado na sua frente. No fim, foi o fato de caírem nas mãos dos sarracenos que os salvara momentaneamente. Os bruxos que os perseguiam tentaram negociar, trocá-los por ouro, informações, outros prisioneiros. Porém, o interesse dos assassinos apenas aguçara a curiosidade do comandante e do bruxo que era seu braço-direito. Eles queriam saber qual o interesse dos cristãos naquele minúsculo bando mestiço. Sem suas varinhas, Will e Moody pouco puderam fazer a não ser deixar-se levar, a eles e a Robin, para aquelas masmorras.

Um novo grito rasgou o ar. Rouco, áspero, rebelde. Cheio de dor. Will levou as mãos aos ouvidos como se assim pudesse aplacá-lo, mas Robin sabia que era em vão. Eles não conseguiriam deixar de ouvir Moddy berrar enquanto era torturado barbaramente pelos sarracenos em busca de uma resposta que eles não teriam e, talvez, nem entendessem. Nem Robin, que era o centro de tudo aquilo, entendia. Sabia apenas que um poderoso bruxo de sua ilha natal acreditava no fato de que Robin, um homem comum, estaria no futuro aliado a um jovem mago e que ambos seriam a chave de sua ruína. Mas quem era esse bruxo e qual a extensão de seu poder? Ele não sabia. Se os sarracenos tinham com o que se preocupar? Ele também não sabia. Provavelmente, seus captores os torturariam até perceber que não havia o que extrair dali e, depois, entregariam suas carcaças aos chacais britânicos.

Num rompante, Will ficou em pé. Tinha uma constituição forte e a semana de fome ainda não pesara suficientemente sobre ele.

– Temos de sair daqui!

– Estou aberto a sugestões – resmungou Robin sem sequer se mexer.

– Eles vão matá-lo! – Will apontou para a origem dos gritos. A sala cheia de instrumentos de tortura no final do corredor.

– Com certeza – avaliou Robin. – E a nós também. Confesso que não estou especialmente ansioso por isso.

Will cruzou os braços e o olhou com aspereza como que para lembrá-lo que era pelo menos uns dois anos mais velho e, portanto, havia uma certa hierarquia ali.

– Pois bem, ficar aqui sentado, esperando, também não é a minha atitude favorita.

Aquilo mexeu com os brios de Robin e sua postura mudou.

– O que quer fazer? Estamos sem armas e você, sem a sua varinha de condão. A não ser que consiga se transformar em um rato... eu não vejo saída, meu amigo.

Will lhe deu um meio sorriso.

– Conheço um homem que consegue se transformar em rato, para sua informação. E ainda assim, seria preciso uma varinha. Mas... minha idéia é sair daqui sem magia.

– Mesmo? – Robin caçoou. – E como funcionaria a sua idéia, bruxinho?

No instante seguinte o punho de Will estourou do lado direito da sua orelha. Ainda atordoado, Robin se viu erguido pelas vestes e suas costas foram jogadas com força contra a parede.

– E aí? – perguntou Will. – Quanto tempo você acha que precisa para reagir?

– Um... – ofegou Robin roucamente – instante!

E no outro momento era seu punho fechado que batia sem dó na altura do estômago de Will, obrigando o outro a largá-lo. Não houve trégua. Antes que Robin chegasse a um segundo soco, Will já voltava pronto para revidar. Um pouco zonzo, Robin precisou de alguns instantes para entender o porquê do ataque, quando o fez, pensou seriamente que Will tinha perdido a sanidade, mas agora não havia como voltar atrás. Os dois continuaram a falsa briga com o máximo de barulho que conseguiram fazer. Não demorou muito para dois guardas aparecerem na porta da cela. Deram uns berros numa língua que lhes soava incompreensível e logo a porta foi aberta. Não entraram dois, mas três guardas, cada um com a largura de dois Robins ou dois Wills.

“Estamos mortos”, pensou Robin. Contudo, Will devia ter passado um bocado de tempo pensando no que fariam. Assim que um dos guardas o agarrou por trás para afastá-lo de Robin, ele girou o corpo com rapidez e cravou a ponta da fivela de seu cinto – a qual Robin não notara escondida em seu punho fechado – na garganta do carcereiro, rasgando-a e fazendo-o tombar quase imediatamente. Robin não teve dúvidas. Assim que sentiu ser manietado por trás, pelo outro guarda, jogou a cabeça com toda a força num movimento agressivo. O barulho dos ossos se chocando foi um baque seco que o deixou quase tão tonto quanto o seu oponente, porém, ele tinha o elemento surpresa. Virou-se rapidamente e acertou as partes baixas do guarda com toda a força do pé. O homem caiu grunhindo. Will estava se digladiando com o terceiro e, apanhando feio. Isso deu pouco tempo para Robin pensar. Ele arrancou a corda com a qual o carcereiro caído tentara prendê-lo e saltou sobre o oponente de Will. Seus braços mal circulavam os ombros do homenzarrão, mas ele teve espaço para jogar a corda e apertá-la. O gigante começou a se debater tentado de toda forma pegar Robin, jogando socos para trás com punhos que pareciam achas de lenha. O oponente que Robin havia derrubado antes de mostras de tentar se levantar para ajudar o companheiro, mas Will lhe deu um chute no rosto, desacordando-o enquanto roubava sua espada.

O grandalhão sob os braços de Robin afrouxou as pernas e caiu de joelhos. Suas mãos tentaram inutilmente livrar-se do aperto da corda, mas já não perecia ter mais forças. Ele ofegou enquanto Robin via suas orelhas arroxearem e, por fim, caiu de borco no chão. O rapaz finalmente soltou a corda e pegou a espada que ele trazia na cintura. Will já o aguardava, tinha nas mãos as espadas dos dois outros guardas caídos.

– Vamos! – disse. – Temos de chegar até Moody antes que outros venham atrás da gente.

– Virão de qualquer forma.

Will concordou, sem fôlego.

– Alguma ideia?

– Achei que o líder era você – Will rolou os olhos. Mas Robin não lhe deu tempo para voltar a pensar, dobrou o corpo e tirou o molho de chaves de um dos guardas. – Acho que nós podemos dar a eles um pouco de trabalho, não é mesmo?

Com um sorriso de anuência, Will pegou outro molho de chaves de outro carcereiro e pouco tempo depois, os corredores da prisão haviam se transformado em puro caos. Os guardas desciam pelas escadarias das masmorras, mas eram barrados por prisioneiros furiosos, armados do que conseguissem por as mãos, e dispostos a qualquer coisa para salvarem suas vidas. Lutavam como demônios famintos e enfurecidos, com as forças dobradas pelo ódio.

Robin e Will demoraram a chegar ao lugar em Moody estava sendo torturado. Encontraram a sala praticamente vazia, exceto por ele e o bruxo sarraceno, o resto dos guardas estava em luta pelos corredores e celas. O fato de haver um homem só contra quem lutar não equilibrou as coisas. O bruxo atacou sem piedade e Robin teve o cuidado de manter-se fora do alcance da tal varinha. Embora fizesse pouco de Will, ele podia admitir a si mesmo que jamais vira uma arma com o poder daquela. Seria muito difícil se aproximar de Moody enquanto o bruxo estivesse lançando raios contra eles. Will parecia impotente quanto a isso, como se não soubesse como lutar com um bruxo sem usar magia.

– Distraia-o – lhe disse Robin por entre os dentes.

Os dois ainda estavam parados do lado de fora da sala, um de cada lado da porta que não parava de ser alvejada com raios vermelhos e verdes.

– Como?

– Cante, dance, não sei... faça com ele tente atingir apenas a você. – Will lhe ergueu a sobrancelha. – Eu serei rápido – garantiu Robin e o outro concordou.

Num intervalo entre os raios lançados pelo feiticeiro, Will deu uma cambalhota, escapando por pouco, mas conseguindo esconder-se atrás de um caldeirão onde era colocado óleo fervente. O bruxo passou a atacar seu esconderijo sem piedade e sua pequena distração era tudo o que Robin precisava. Ele pegou uma adaga – que havia surrupiado durante a luta até ali – focalizou a mira como se sua mão fosse uma flecha e seu braço, fazendo as vezes de arco, impulsionou a lâmina. O bruxo percebeu tarde demais. A lâmina afundou-lhe no meio das costas roubando-lhe o fôlego. Sua varinha agitou-se ainda algumas vezes, mas a mira se perdera. Num movimento rápido, Will saltou sobre ele e a luta acabou em instantes. Quando o jovem se ergueu já trazia nas mãos quatro pedaços cilíndricos de madeira. Robin não precisava perguntar para saber que eram as varinhas dele, de Moody, de Claytus Finnighan e do feiticeiro infiel.

Contudo, os dois acharam que a luta não fora nada comparado ao resto de homem que encontraram amarrado à mesa da roda de tortura. Moody parecia ter diminuído nas horas que ficara longe deles e só um fio de vida o mantinha respirando. Robin não precisou inspecionar duas vezes o seu rosto para perceber que um dos olhos fora arrancado de sua órbita e, ao baixar a cabeça para desviar a visão, pode enxergar a tíbia branca aparente em uma das pernas. O velho gemia, o que significava que ainda não havia perdido os sentidos. Ele até deu mostras de querer falar, mas a mandíbula parecia trancada, provavelmente quebrada.

– Me ajude a tirá-lo daí – disse Will.

Robin ajudou, embora não visse sentido nisso. O mais misericordioso a fazer era matar o homem, libertá-lo de toda aquela dor. Will pareceu ler seus pensamentos.

– Não vou deixá-lo para trás, Robin!

– Tudo bem, tudo bem! Mas me diga como vamos sair daqui com ele? Quer mesmo passar pela aquela guerra lá fora, arrastando-o no estado em que está?

Will sustentou o corpo flácido de Moody com a ajuda de Robin e o tirou da roda, depois, olhou as quatro varinhas e escolheu uma delas. Deu as outras três para Robin.

– Prenda-as no cinto, eu perdi o meu.

Robin as pegou, mas a mão nodosa e ensanguentada de Moody segurou seu pulso e ele deu um gemido alto.

– Não creio que possa, Moody – disse Will, mas o velho voltou a gemer.

– O que ele quer?

– A varinha dele.

– Ele tem condições de fazer magia? – perguntou Robin, cético.

– Ele acha que tem.

– Então lhe dê, não temos tempo para luxos por aqui.

Will retomou rapidamente uma das varinhas e a colocou na mão de Moody, apesar de machucado, o velho a segurou com firmeza. Depois, ele inclinou sua cabeça para Will e tentou murmurar algo em seu ouvido.

– Isso é muito arriscado! – reagiu Will. – Podemos estrunchar os três.

– Ou morrer... – rosnou Moody num esforço asmático.

Por alguns instantes, Will pareceu remoer a proposta, então, virou-se para Robin e disse com o que ele achava ser uma voz tranqüilizante.

– Se segure firmemente a nós dois e relaxe o corpo.

– O que vai fazer?

– Não pergunte, apenas faça!

– Ok, a coisa de relaxar já era! O que vai fazer?

– Vou nos tirar daqui, Robin! Agora quer fazer o favor de fazer o que eu disse?

– Mas...

– É isso ou eles – falou apontando para a luta que continuava furiosa além da porta. – Você não tem escolha!

Robin olhou aflito para todos os lados, mas sabia que não tinha outra saída senão confiar. Prendeu-se aos dois homens e quando viu ambos erguerem as varinhas, fechou os olhos. Não queria ver o que viria a seguir. E não viu. Porém, seus pulmões também não respiraram e, por um instante longo demais, ele teve certeza de que seu coração não bateu. E então havia ar novamente. Ar fresco e vento, e cheiro seco de terra e o maravilhoso silêncio do campo aberto e da liberdade.

Quando abriu os olhos pode ver que era noite alta e que eles estavam nos montes que existiam nas cercanias da cidade, não era longe o bastante de seus captores, mas...

– Você está inteiro? – perguntou Will com uma voz ansiosa.

– Hã?

– Não está sentindo falta de nenhum pedaço?

Robin apalpou a si mesmo de forma frenética e preocupada.

– Está tudo aqui – disse com alívio. – Por quê?

– Era o risco – comentou Will. – Mas acho que perdemos um pouco mais da perna do Moody.

Robin constatou que ele tinha razão com uma careta.

– E agora?

– Ajude-me a levá-lo para uma das pequenas cavernas aqui atrás. Precisamos ficar escondidos até podermos partir.

Os dois se puseram a arrastar o homem mais velho pendurado em seus ombros para uma abertura pequena na terra seca do monte, o lugar não acomodaria um homem em pé, mas teria de ser o suficiente para os três. Na entrada, eles deitaram Moody no chão e, depois, buscaram arrastá-lo para dentro tentando causar o menor dano possível. A impossibilidade de tocar na perna descarnada de Moody fez com que Will o levitasse até acomodá-lo. Em seguida, ele usou magia para movimentar algumas pedras para encobrir a boca da caverna e lhes permitir acender uma pequena fogueira.

Analisar os machucados do ancião os deixou ainda mais apreensivos.

– Eu não tenho certeza de que possa fazer muito – disse Will. – Meus feitiços curativos são toscos. Tudo o que aprendi foi a esconder algumas cicatrizes para evitar umas surras da minha mãe e só apliquei esses feitiços em mim, ou nos meus irmãos pelo mesmo motivo.

– Acha que é o suficiente para... fazê-lo sobreviver?

– Eu não sei – Will estava próximo ao desespero. – Ele perdeu muito sangue, e continua perdendo. Eu...

– Calma! Vamos fazer uma coisa de cada vez, certo? – Will concordou. – Talvez, um pouco de medicina comum ajude. Primeiro, temos de estancar o sangue.

Robin rasgou uma tira da barra de sua camisa imunda e, com algum esforço a amarrou bem apertada logo acima do joelho de Moody.

– O que vai fazer agora? – perguntou Will.

– Bem... acho que não há como salvar a perna dele... Então, temos de tirar o que está aí.

O corpo de Will tremeu visivelmente e Moody deu um gemido de protesto.

– Não há muita escolha, amigo – Robin falou olhando para o rosto massacrado de Moody. O osso está quebrado e descarnado, ou o tiramos, ou você morre.

Moody respondeu com um suspiro, como quem assente.

– Seria melhor – continuou Robin para Will – colocá-lo à nocaute. O melhor seria um bom trago, mas...

– Deixe comigo.

Will apontou a varinha para o peito de Moody.

– Vá com calma – pediu Robin – ele está fraco.

O outro concordou. A varinha tremia em sua mão, mas ele executou o feitiço e, aparentemente, Moody apagou. Os dois começaram a trabalhar rezando para que, mais tarde, Moody conseguisse voltar a si.

Passaram a noite toda agachados sobre o corpo dilacerado do homem mais velho, mal podendo de cansaço e incapazes de parar. Iam combinando os poucos feitiços conhecidos por Will com as coisas que Robin sabia, na maioria das vezes, apenas por ouvir dizer que assim era feito ou por ter visto ser aplicado pelos curadores dos exércitos. Em alguns casos, usaram até mesmo o que sabiam funcionar para o trato de animais.

Deram por encerradas suas tentativas quando o dia amanheceu. Tinham feito tudo o que podiam, agora, era esperar que o velho reagisse. Quando Moody acordasse, se ele acordasse, e se sentisse melhor, talvez, ele pudesse melhorar o que os dois rapazes haviam feito. Robin e Will sentaram-se então do lado de fora da caverna, sentindo o vento fresco da aurora, sabendo que logo ele se tornaria incandescente sob o sol e os dois teriam de se espremer com o moribundo na pequena caverna. Estavam exaustos e famintos.

– Precisamos de comida – disse Will, num fio de voz. – Ervas para Moody também viriam a calhar.

Robin não respondeu imediatamente. Seus olhos se fixaram na cidade abaixo.

– Não estamos tão longe assim – disse em resposta.

– Estão nos procurando lá embaixo.

O outro rapaz sacudiu os ombros.

– Sempre podemos usar um disfarce.

– Eu não sou bom nisso – disse Will.

– No quê?

– Magia de disfarce.

– Bruxos! – caçoou Robin. – Vocês não sabem fazer nada sem esses pauzinhos, não é?

Will endireitou o corpo e o encarou.

– É mesmo? E o que você sugere, gênio?

Robin olhou para a cidade lá em baixo e analisou as possibilidades por um longo segundo. Vir a um país estrangeiro e morrer lutando era heróico, mas morrer de fome, seria patético. Por outro lado, morrerem agora invalidaria o ato de Claytus e a bravura de Moody. Desfaria em areia todo o esforço deles. E, acima de tudo, Robin não tinha a menor intenção ou vontade de morrer. Virou o rosto e encarou Will mais uma vez.

– Faremos que qualquer homem comum com algum talento sabe fazer: – Robin sorriu e abriu os braços como se aquela fosse a mais óbvia das decisões – vamos roubar.




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N/A: Amigos
Obrigada pela paciente espera. Não prometo nada, mas farei tudo para que o próximo capítulo demore bem menos do este. Até porque no próximo as coisas começam a esquentar novamente. Teremos jogos medievais e o aniversário de 15 anos do Harry. E este será um marco!

Mil perdões por não poder responder a cada um de vocês que comentou, mas, infelizmente, o tempo realmente não permite. (Nem as fics que acompanho tenho conseguido ler, para meu desespero.) Quero apenas agradecer enormemente a cada uma das pessoas que, ao longo de três anos de escrita de fic tem me acompanhado com sua leitura entusiasmada e comentários carinhosos. Agradeço àqueles que nem sempre conseguem comentar, mas sempre acham um tempo para ler. E, por fim, meu muito grato obrigada a quem apareceu por aqui e me mandou o recado: leitor novo, estou gostando. Fico imensamente feliz em ver que essa mistura de universos é capaz de conquistar mais e mais gente.

Por fim, não há como não agradecer o carinho de vocês pelo meu momento especial e, claro, a compreensão. O baby também agradece. =D

E, não menos importante: esse capítulo teve a enorme ajuda do meu maridinho que praticamente me trancou em casa para que eu pudesse escrever, enquanto ele organiza a nossa vida para a chegada do novo membro da família. Seria injusto não contar isso e não dedicar o capítulo a ele.

Beijo enorme em todos
Sally

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