CAPITULO 12
AQUI E AGORA
Harry estava calado enquanto eles jantavam. Comida no quarto. Um pouco fria. Ambos sem apetite.
Ele olhava de vez em quando para Hermione querendo lhe contar o que fizera durante a tarde, mas sem coragem. Ela chegara de sua visita a Rita Skeeter completamente calada.
Falara pouco, contando abreviadamente sobre a conversa com a repórter e depois se calara totalmente comendo em silêncio mortal.
Ele tinha até medo de contar que fora atrás de Gina. Ela ficaria irritada e com certeza brigaria por sua inconseqüência.
-Hermione -ele chamou testando o terreno.
-O que foi Harry? -ela perguntou sem olhar para ela.
-Porque está assim? – perguntou abandonando o prato e olhando-a perspicaz.
-Assim como? – ela abandonou a comida fria, que não descia por sua garganta apertada pelo choro que continha desde a tarde.
-Está triste, calada. Eu te conheço, lembra? - ele tentou fazer graça.
Harry estava sentado na cadeira ao lado da cama, com seu prato esquecido no colo. Hermione estava recostada contra o dorsal da cama, e deixou o prato sobre o criado mudo. Ela deu um longo suspiro, resignado.
-Estou bem, Harry – ela garantiu, sem querer contar a ele.
Suspeitava que ele não houvesse visto Ginervra ou não estaria tão bem. Então, porquê ela iria impor a ele aquela sensação horrível que ela sentia? Não, melhor se calar.
-Pode estar tudo, menos bem -ele garantiu irritado com suas fugas – Acreditei que fossemos ser sinceros um com o outro, Hermione. Que não devêssemos mentir.
-Harry -ela encarou seus olhos verdes, tão sofridos e deu um pequeno sorriso – estou triste, Harry. Não vou negar isso, mas não tem uma razão, é só... – sussurrou - ...vi algumas matérias da época, as coisas que diziam sobre nós...as coisas que todos devem acreditar e é horrível demais! Rita me garantiu que amanhã receberei todos os exemplares do profeta diário, e sei o quanto vai ser difícil ler e ver tantas coisas que perdemos. É...é por isso que estou triste – em parte era verdade.
Harry não respondeu nada, calado, e pensativo.
O silêncio não era confortável, era triste.
Ela não podia lhe contar que vira Gina, ouvira sua voz, sentira seu perfume. Se doía tão profundamente ter visto sua melhor amiga, a quem tinha como irmã, e não poder se aproximar e abraça-la, o que sentiria Harry vendo seu amor, tão perto e tão distante?
Ela estava linda, radiante, a maternidade lhe fizera muito bem, e lá no fundo, Hermione sentia não estar a seu lado nesse momento. Quando eram apenas duas colegas de escola, elas falavam às vezes sobre isso. Sobre quando cassassem e tivessem filhos, uma seria madrinha do filho da outra. Essas coisas bobas de criança, que ainda estavam muito presente em Hermione.
Sentia tristeza e falta, uma falta profunda de tudo aquilo que perdera. Que nunca mais teria.
Seu olhar era tão doido que comoveu Harry.
Talvez ele pudesse vir a amá-la um dia. Amar como homem, e não irmão. Se pegou pensando se Hermione pensava nisso também. Naquele momento, talvez não, ela estava muito empenhada em ser forte.
Condoído, ele levantou-se e sentou ao seu lado na cama, recebendo um sorriso compreensivo. Ela repartia com ele a tristeza que sentia. Agradecida por ele não dizer nada, ela recostou a cabeça em seu ombro, sentindo quando ele a abraçou.
Era confortável saber que não estava só. Fechou os olhos saboreando um raro momento de reconhecimento. Reconhecer algo ou alguém que a ajudava a sentir-se parte de algo no mundo.
Eles permaneceram quietos e juntos por algum tempo. Tempo suficiente para Hermione se recompor e afastar do coração as sombras que a faziam melancólica. Estava quase reclamando com Harry por estarem a tanto tempo na mesma posição, brincando e aliviando sua expressão carregada, quando ouviu batidas na porta.
-Eu abro -ela disse baixo, juntando os pratos e colocando sobre a mesa próxima a porta. – Deve ser o mensageiro, eu pedi que trouxesse todas as correspondências direto para cá quando chegassem. – ela avisou.
-Correspondências? -ele estranhou – Nós temos correspondências?
Hermione sorriu, e abriu a porta, pronta para agradecer ao rapaz.
Mas não era um rapaz. Não um qualquer.
-Posso entrar? – a voz de Rony soou séria demais e ela saiu de seu caminho, olhando para Harry esparramando na cama, apoiado no encosto da cama.
-Oi – Harry disse surpreso – Então, Mione, temos correspondências? – tentou não parecer muito empolgado com a visita de rony. Se ele o esquecera, também poderia esquecê-lo. Ao menos na teoria.
-Oh, sim, somos muito populares – ela brincou ganhando um sorriso dele – Conversei com algumas pessoas, Harry, mas depois falamos mais sobre isso. Agora tenho que ir para o meu quarto.
Notando a decepção na face de Rony e também de Harry ela completou:
-Quero dormir cedo. – não se deu ao trabalho de despedir-se, e praticamente evaporou do quarto antes que Rony pudesse dizer algo que a detivesse.
Sozinhos os dois antigos amigos, agora quase estranhos se olharam profundamente.
Sem dizer nada, Rony olhou com desgosto para a comida congelada sobre a mesa. Riu maneando a cabeça.
-É melhor que a comida da Hermione – Harry se defendeu, e os dois riram, como nos velhos tempos.
-aposto como ela não comeu nada e ficou reclamando – Rony disse.
-Ela está triste – Harry contou, notando a forma como ele ficou tocado – Não quis me dizer o que é, mas na nossa situação atual, razoe não faltam.
Ronald não disse nada, olhando para Harry tão confortavelmente alojado sobre a cama, naquela intimidade devastadora. Será que ela estivera deitada ao seu lado, naquele espaço amarrotado ao lado dele? Era um pensamento infame e doentio.
-então, veio aqui me lembrar do porque não devo procurar sua irmã? – Harry disse, mas não era em tom de ironia, era uma brincadeira.
-Não, eu não sei por que vim – ele foi sincero – Não queria voltar para casa e quando vi estava aqui. Ou melhor, agora sei porque vim - ele disse olhando com horror para a comida mal cheirosa.
Usando sua varinha ele fez aparecer alguns pratos sobre a mesa. Harry olhou para a comida cheirosa com a boca salivando.
-Mary sempre serve o jantar no mesmo horário – ele explicou pegando um bolinho com descaso.
-E o que está fazendo aqui, e não em casa? - ele acusou, provando a comida deliciosa. – Está perfeito!
-Com o tempo a gente enjoa –ele disse sério.
-Não me fale do tempo, estou cheio dele! – Harry garantiu, rolando os olhos.
Não eram mais os mesmos, mas ainda assim, quando juntos, pareciam mais próximos ao que eram de verdade.
Fazia alguns minutos que ela estava em frente ao espelho do banheiro. Uma tesoura afiada em uma das mãos, e uma mexa longa de cabelo na outra. Durante todo esse tempo ela se questionava porque não cortava de uma vez.
Sempre, desde pequena, preferia cabelos curto. Era pratico, pois eram lanzudos e sem brilho. Mas agora, eles eram brilhantes e suaves. Nada práticos, mas eram bonitos.
Não parecia ser ela mesma. Mas não era. Era uma Hermione dez anos mais velha. No auge dos vinte e seis anos, ela tinha cabelos bonitos, era fato. Tinha seios que nenhuma blusa poderia disfarçar, mesmo que ela ficasse um pouco incomodada com eles. Assim como seus quadris redondos se destacavam nas calças e chamavam olhares sobre si.
Infelizmente, não entendia nada sobre sexualidade. Tivera algumas experiências castas com Rony e uma ou outra caricia mais ousada, mas nada que a preparasse para ser sexy de um dia para o outro.
Frustrada, abandonou a tesoura e se conformou. Ela queria ter cabelos longos. Era fato. Suspirando ela guardou a tesoura numa gaveta e andou descalça pelo quarto. Havia vestido um short e uma regata, pois ainda não sabia se deveria comprar camisolas ou as camisetas que usava para dormir quando tinha dezesseis. Não sabia o que gostava. O que queria.
Mentira. Ela sabia sim o que queria.
Queria ter Rony ao seu lado, abraçando-a e sussurrando em seu ouvido palavras quentes. É, ele não era um namorado muito romântico, mas era bem malicioso. Pegou-se sorrindo pelas lembranças. Do jeito dele, ele dizia o quanto gostava dela, e nos amassos calorosos ela sentia tudo que ele não era capaz de dizer com palavras.
Mas eram só isso, lembranças.
Conformada sentou-se na cama, e puxou os pés sobre o colchão, mirando as unhas dos pés com atenção. Precisava cuidas das unhas da mão também. E comprar maquiagens. Um batom quem sabe. Sentia-se mal pedindo dinheiro a Harry, mas com a venda da reportagem a Rita, ela poderia devolver parte do que ele vinha lhe emprestando.
Além disso tinha sua herança por parte dos pais. Precisava procurar sua tia e saber como havia sido dividido. Não que fosse ambiciosa, mas não podia depender de Harry para sempre.
Ele vinha tendo umas idéias estranhas sobre não ficarem sozinhos, e havia notados uns olhares desconcertantes em sua direção, e não queria que sua dependência financeira causasse um incentivo a mais.
Com o olhar perdido no nada, ela tentou imaginar o que acontecia no quarto ao lado. Eles deviam estar conversando. Sobre o que? Gina, talvez. Ou sobre ela...
Tentou ignorar a vozinha chata que insistia em dizer-lhe que a porta de ligação não tinha chave e que poderia entrar lá quando quisesse e vê-lo uma última vez.
Vê-lo não significava falar com ele, ou voltarem a ser amigos. Significava apenas que ela ainda tinha sonhos bobos. Que era apenas uma adolescente, só que com peitões.
Com um sorriso, ela levantou-se da cama num impulso e antes que pudesse se conter, havia girado o trinco e entrado.
Os dois pararam de conversar e a olharam como se visse uma intrusa.
-Harry... –ela parou, sem saber o que dizer – Eu esqueci de avisá-lo sobre amanhã...
-O que tem amanhã? – Harry perguntou mordendo uma tortinha, aparentemente deliciosa.
-Hum... – evitou propositalmente olhar para Rony. – Vou sair bem cedo e só devo voltar à tarde. Terá que almoçar sozinho outra vez e...acho que já sabe o que mais tenho para dizer, não é?
-Nada de correr atrás de Gina – ele concordou, sorrindo.
-Só que dessa vez é sério, Harry – foi categórica.
Harry desistiu de questioná-la, pois teria que admitir na frente de Rony que andara atrás de sua irmã frágil e emocionalmente instável.
-Quer tortinhas? -ele desviou o assunto.
-Depende de onde as conseguiu – ela rebateu sorrindo involuntariamente.
-Rony conjurou – ele disse estendendo a mão em sua direção.
Ela não queria aceitar, mas estava atrás de uma desculpa para não precisar sair e poder olhar para ele mais livremente. Estar ali não queria dizer que precisavam conversar, queria?
Rony observou calado enquanto ela andava descalça pelo quarto, apanhando o doce e levando aos lábios carnudos. Ela arrumou uma das alcinhas da blusa que descera pelo ombro fino, e escorou-se contra a penteadeira, mordendo a massa. Ele engoliu sem seco, se perguntando se Harry também percebia o quanto ela estava sensual com as pernas nuas, a pele lisinha e sem manchas, levemente bronzeadas, a cintura marcada e os quadris do tamanho perfeito para suas mãos apertarem.
Os seios eram médios e se destacavam, e ele podia jurar que os mamilos estavam ficando rijos diante da intensidade do seu olhar, tanto que ela cruzou os braços sobre o peito, descartando a tortinha mordida.
Desconfortável. Ela estava desconfortável pela forma que era observada e ele desviou o olhar, se perguntando por que todos estavam tão silenciosos.
Harry tinha uma sombra de sorriso no ar, e pretendia achar uma razão qualquer para sair e não precisar ficar ali, no meio daquela onda de tensão.
O olhar intenso de seu amigo, mirando cada curva dela o fez olhar também. Era bonita, mas algo não batia nele. Talvez os cabelos crespos escuros, caindo soltos e longos por suas costas e ombros, tão diferentes do vermelho intenso que alegrava suas lembranças. Ou apenas os olhos de chocolate, tão diferentes do mar azul que sempre o atormenta em seus sonhos.
Fosse o que fosse, os dois podiam incendiar o hotel com a intensidade daquela troca de olhares e ele limpou a garganta para se fazer notar.
-Foi à mulher do Rony quem fez – ele disse para por fogo nos dois e conseguiu um olhar de desgosto de Hermione.
-Parabéns – ela disse com uma incontrolável vontade de vomitar – Ela cozinha bem...
-Obrigado – ele disse olhando direto em seus olhos.
-E lava e passa também, olhe as roupas dele, estão impecáveis! – Harry atiçou e ela corou, observando-o da cabeça aos pés.
Não havia um amassadinho em sua camisa. Tudo perfeito. Limpo e perfeito.
-Mary é muito cuidadosa com a casa – ele disse irritado, cruzando os braços assim como ela e a fitando a espera de um comentário ácido, mas ela apenas ergueu uma sobrancelha irônica.
-No que mesmo ela trabalha? – Harry se fez de bobo, pois já sabia, eles estavam conversando há quase uma hora e já sabia muita coisa sobre sua vida.
-Professora de feitiços numa escola primaria. Só meio turno. Pela manhã ela cuida das meninas – e lá se foi outra sobrancelha irônica.
Porque ela não dizia logo de uma vez o que estava pensando?
-Aposto que deve ser loura também – Hermione deixou escapar e o viu corar pego no flagra. Sorrindo sádica, ela olhou para Harry – Vou deitar, tenha uma boa noite, Harry.
-Sem um beijo de boa noite? – ele provocou e ela sorriu de volta.
-Sem um beijo de boa noite – ela avisou andando para a porta, sem saber que era acompanhada. Dentro do quarto, antes que pudesse fechar a porta, Rony já havia passado e fechado à porta atrás de si.
-O que está fazendo? – praticamente gritou tentando empurra-lo para fora.
-Conversando com você! -ele avisou sem mover um músculo do lugar.
-Não temos nada para conversar! Saia agora!
Tentou empurra-lo novamente, sem sucesso, e Rony segurou suas mãos sobre seu peito.
Droga.
Sentia o calor de sua pele através da camisa impecável e sentiu o sangue correr para as bochechas. Droga. Droga. Droga.
E agora, o que ela ia fazer?
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Comentário da autora (euzinha):
Oi, eu adorei os comentários, mas quero defender a Hermione. Ela tem dezesseis anos em sua cabeça. E nessa idade, ela é impulsiva e dominadora. Vemos isso nos livros originais de HP. Harry sempre se deixa levar, não por ser submisso, mas porque ela realmente os leva ao caminho certo. Já Rony sempre bateu de frente com ela e isso garantiu boa parte do interesse dela por ele.
Nessa fic ela perdeu os pais, não tem amigos e tem Harry desestruturado ao seu lado. Então ela age como um gato assustado, ou seja, arranha o dono. Ela agride, e é rude. Machuca para não ser machucada. É alto defesa, e faz isso para que Harry não o faça.
Ele por sua vez, só pensa em Gina e em seu próprio bem estar, e esquece dela, pois sempre foi assim. Hermione é uma rocha, ele não tem porque se preocupar com ela.
Ao longo da fic, eles vão amadurecer e as mascaras vão cair. É só um comecinho, gente, nem sei se a fic vai vingar, vai depender da inspiração e se estão gostando ou não.
Mas já reescrevi tantas vezes essa fic, que estou aberta a novas sugestões.
Abraços!
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