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4. Mentira e Verdade


Fic: O Amor entre nós [Femmeslash] ATUALIZADA 07/03/2009


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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É impressionante o quanto às coisas mudam. O modo, a velocidade, a incoerência... As coisas mudam e tudo o que você pode fazer é acompanhá-las. Sei que Pansy diria que o importante é saber usá-las a seu favor; mas eu não acho. Acho que o importante é saber lidar, saber como você pode controlar a sua vida. Mesmo a vida não tendo controle.
Às vezes, viver é como dirigir um carro; tudo vai bem enquanto você está no comando, as mãos fixas no volante, a estrada firme sob as rodas. Porém, os caminhos se complicam, seja quando você se distrai, seja quando tem que mudar de estrada – às vezes, você não sabe onde está e nem para onde está indo. Todos nós, um dia, perdemos o controle... Todos nós ficamos perdidos.
Eu estava perdida no escuro, quando ela reapareceu – e desde então, parece que não tenho mais controle algum sobre minha vida. Ela me tirou da onde eu estava e me levou para um lugar que eu desconhecia completamente; a única coisa que eu pude fazer foi confiar nela, mesmo sabendo que ela também não tinha idéia de onde estava. Mas é diferente se perder sozinho e se perder acompanhado; é diferente estar no escuro com alguém segurando a sua mão. Por mais que eu odeie não estar no poder, ela faz isso não ter importância... Porque eu nunca me sinto perdida com ela ao meu lado.
ooo
Hermione sentia o coração, por algum motivo que ela fingia desconhecer, pular uma batida a cada degrau que descia; Pansy ficou de pé e parou na frente da escada, esquecendo de respirar alguns momentos. A morena se sentia ridiculamente tímida, mas esqueceu disso quando fitou Pansy de cima a baixo, seus olhos marcados e o preto da blusa contrastando contra a pele imaculada.
- Você está linda. – A loira disse lentamente, e algo quase visível atravessou o ar entre as duas quando elas trocaram olhares.
- Obrigada. – Hermione disse, já no chão da sala. – Você também. Está incrível. – Custou para a Comensal desviar os olhos da outra, e elas se sentaram lado a lado. Pansy serviu o whisky sorrindo com ar de quem apronta.
- Gelo? – Perguntou, e Hermione não conseguiu ficar imune ao seu sorriso.
- Dois cubos, por favor. – Pegou seu copo um pouco receosa, e viu a loira erguer o dela com entusiasmo.
- Um brinde. Um brinde a nós; apenas nós, outros assuntos estão proibidos essa noite. – Hermione assentiu, o olhar colado em Pansy e algo se agitando dentro de si. Ergueu o copo também, cruzando as pernas, e disse:
- Combinado. Um brinde a nós. – A Comensal virou o conteúdo do copo olhando de relance para as pernas da outra, sentindo aquela sensação indefinível aumentar dentro do peito. Hermione olhava o copo sem coragem, piscando.
- Vai, Hermione, vira. – Pansy provocou, e a morena tapou o nariz com a outra mão, fazendo-a rir, e virou o líquido âmbar de uma só vez. Bateu o copo vazio na mesa com uma careta no rosto, sentindo a bebida aquecer seu interior.
- Nossa, isso esquenta demais. – A outra ria sem parar, e ela tentou retomar sua dignidade. – Pode encher de novo.
A cada vez que tomava mais uma dose, Pansy a seguia, e eram duas doses e risadas cristalinas; quatro doses e comentários maldosos, seis doses e nenhum resquício de moralismo.
- No começo, - Pansy disse, conseguindo parecer sóbria. – Eu achava que você tinha um caso com o Lupin. – Hermione explodiu em risadas, apoiando um braço sobre o encosto do sofá.
- Eu? Por quê? – A loira também virou em sua direção, sentada mais perto do que no primeiro drinque.
- Ele sempre te tratou tão bem, não sei... Pode ter sido só o meu intenso desejo de que Tonks fosse uma chifruda. - Hermione respondeu no meio do seu riso.
- Imagine. – A outra deu mais um gole, terminando com o copo. – Nossa relação é super paternal... Apesar de que, em Hogwarts, ele fazia o maior sucesso entre as meninas.
- E entre os meninos também. – Pansy replicou, rindo, e se inclinou para pegar mais whisky, Hermione lançando um olhar de cobiça para suas costas. – Não conte a ninguém, mas Draco bem que quis ter umas aulas particulares com o Lupin. – A morena nem conseguiu rir de tanto espanto.
- O quê?! Draco Malfoy? – A Comensal lhe entregou outro copo cheio.
- Ele sempre foi um indeciso... Às vezes, eu achava que era por isso que ele era obcecado pelo Potter, mas acho que no quinto ano virou ódio mesmo. – Hermione e ela sorveram um pouco do líquido frio.
- Mas eu sempre pensei que vocês fossem namorados, ou ao menos coisa assim. Todo mundo pensava. – Ela replicou, e a outra negou.
- Não... Eu amava Draco, mas apenas como amigo. Nossa amizade parecia um namoro, mas não era, e até tentamos uma vez, mas não deu certo. – Ela riu e confessou. – Acho que eu não fazia o gosto dele, nem ele fazia o meu. – Hermione não perguntou nada; mesmo bêbada, conteve a avalanche de sentimentos que teve e sorriu para Pansy com os olhos cintilando. O rádio começou a tocar uma música acelerada, que combinava com o estado de ambas; ninguém mais estava disfarçando que olhava e nem para onde olhava, uma garrafa de whisky já vazia sendo a principal testemunha.
- Já que estamos sendo sinceras, eu também vou te contra uma coisa que não sei por que, escondi até agora. – A morena disse, baixo. – Eu procurei você, depois que saí do hospital. Procurei você em todos os lugares, em todas as listas que tive acesso, com todos os feitiços que eu podia fazer. Te procurei o verão e o outono inteirinhos.
- Por quê? – Pansy replicou, surpresa, e Hermione lhe sorriu um sorriso de bêbada.
- Não sei bem. Queria saber por que você me seqüestrou e depois me soltou. Queria saber como você estava... Queria apenas encontrar você, e entender por que você disse que eu não podia morrer. – Ela completou ainda mais baixo. – Às vezes, eu sonhava com isso.
- Você não iria gostar de saber. – A loira respondeu um tempo depois. – Mas nem eu posso explicar por que gosto tanto de estar com você agora. – Seus olhos cinzas estavam límpidos, e ela estava perto de Hermione o suficiente para sentir sua respiração. De repente a morena sacou a varinha e sumiu com os copos, as garrafas e o rádio, sem explicar nada.
- Eu não quero beber mais. – Disse, e ficou de pé em um pulo. Cambaleou para trás e quase caiu, sendo segurada por Pansy, que conseguia manter os níveis mínimos de equilíbrio e agilidade; ou ao menos os suficientes para ficar de pé. – Quero deitar. – Hermione continuou, tonta e alegre. – Estou num dia tão estranho.
- Eu te ajudo a subir. – Pansy replicou, rindo, as mãos segurando firmemente os braços da outra. Subiram o primeiro lance de escadas com dificuldade; os braços se enroscavam tentando se apoiar em algo, as pernas obedeciam com muito custo. Praticamente desabaram no corredor e Pansy, que seguia atrás tentando evitar que a outra caísse, acabou encurralando a morena contra um canto.
Repentinamente Hermione se sentiu consciente de situação em que estava, e tentou se desvencilhar da loira; porém esta pegou seus pulsos e os segurou contra a parede, deixando-a sem opção.
- Por que você quer fugir? – Falou roucamente, seu nariz quase encostado no da outra, e Hermione sentiu um arrepio atravessar seu corpo. – Por que você sempre foge de mim? – Pansy respirava pesadamente, seu corpo prendendo o da outra contra a parede sem pudor. Sabia o que estava fazendo e sabia que não teria volta, mas sabia também que não tinha nada a perder. Havia caído no rio das paixões já fazia muito tempo.
- Eu não fujo de você. – Hermione replicou. – Mas me solte, me deixe sair... – Pansy sorriu, e a chama que queimava a morena explodiu em mil fagulhas. A casa subitamente pareceu um forno, tomada por um calor sufocante.
- Eu não estou te prendendo com força, você pode me empurrar se quiser. – Aproximou os lábios do ouvido da outra. – Mas você não quer, você não vai. Sabe por quê? – A morena fechou os olhos, estremecendo. – Porque comigo você é livre.
Pansy a beijou sem pedir permissão, e Hermione passou os braços pelo pescoço da loira, perdendo a cabeça. Retribuiu o beijo com fervor, sentindo o perfume de Pansy, sua saliva misturada com whisky, suas mãos a puxando para perto; era uma confusão maravilhosa de aromas, gostos e sensações inexplicáveis que durou longos minutos.
A Comensal partiu o beijo fazendo a outra reclamar, mas sua boca se voltou para o rosto de Hermione, descendo com beijos pelo pescoço macio e indo para a clavícula; e Pansy já não sabia se beijava, mordia ou mergulhava na morena, concentrada apenas em sua pele e seus gemidos suaves.
Hermione enroscou as mãos nos fios claros da mulher e a puxou para cima para iniciar um novo beijo. Apenas alguns segundos depois a loira se afastou e puxou-a pela mão, disparando como uma bala até o quarto que dividiam.
Para Pansy, mesmo embriagada, era tudo brutalmente real: suas roupas espalhadas no chão mescladas às de Hermione, a pele morna do ventre da outra, as unhas curtas fincadas nas suas costas, o aroma de alfazema que parecia impregnado no corpo da outra. Eram violentos e ainda assim infinitamente doces os seus suspiros, suas mãos, seus lábios se misturando sem vergonha nem culpa.
Hermione, porém, sentia-se em um sonho maravilhoso e irreal. Perdia-se sem parar em Pansy indo e retornando pelo seu corpo, perdia-se ouvindo sua voz, perdia-se em sua pele como se não precisasse voltar jamais. Perder-se no meio dos lençóis era a única coisa que desejava; afundar no rio com Pansy segurando sua mão e sonhar com a jovem para nunca ter de acordar.
Acabou caindo de um sonho em um sono pesado, sendo acompanhada pela Comensal. Eram duas mulheres quase opostas: a protagonista e a antagonista, a verdadeira e a falsária, a boa e a má, que nada mais queriam com o mundo real e suas contradições. O que tinham em comum bastava para uni-las: o amor.
ooo
A primeira coisa que Hermione percebeu ao acordar, antes mesmo de abrir os olhos, foi que sua cabeça doía horrivelmente e a claridade só piorava a dor. Depois, todas as outras coisas vieram como uma cadeia da fatos irreversíveis: o braço de Pansy em torno da sua cintura, as pernas entrelaçadas, a respiração suave da outra contra seu ombro.
Hermione sentou abruptamente, os olhos arregalados, e sua cabeça explodiu em dor mais uma vez junto com seu estômago, que ardia sem parar. Ela ignorou a reclamação incompreensível que ouviu da loira e foi até o banheiro aos tropeços; sentou-se sobre o vaso sanitário se sentindo tonta e angustiada com o modo como seu corpo reagia após seu primeiro porre. Sua visão estava ligeiramente distorcida e ela preferiu fechar os olhos, ofegando levemente.
Levou um susto quando sentiu, algum tempo depois, alguém afastando seus cabelos do rosto e ombros e passando a mão na sua testa delicadamente. Hermione sentiu o perfume de Pansy e seu coração disparou, enquanto ela tentava desesperadamente não lembrar da noite anterior. Quando a tontura passou ela apontou para o pequeno armário do banheiro, a mão trêmula.
- Pegue a poção para mim, por favor. – Disse, e Pansy obedeceu com rapidez. – A branca. – Ela pegou um vidro de conteúdo branco-perolado, abriu-o e o entregou à morena, que bebeu três longos goles. Se viu obrigada a fitar Pansy que a olhava com preocupação; reparou que a Comensal estava de blusa e calça e isso lhe deu uma consciência vergonhosa da própria nudez.
Agradeceu num murmuro sentindo a poção acalmar seu estômago deliciosamente, se pôs de pé e foi até a pia lavar o rosto. Escovou os dentes com vontade, tentando tirar da boca um gosto amargo e evitou olhar para a loira através do espelho. Não conseguiu nem se livrar do gosto amargo nem fugir dos olhos afiados da outra, que continuava parada perto do vaso.
Pansy sabia que alguma coisa estava errada; e não tinha relação apenas com a ressaca de Hermione. A morena sequer a olhara nos olhos, e, quando o fizera, terminara a escovação num segundo e saíra correndo para o quarto, agitada. A loira foi até a pia e também escovou os dentes, porém lentamente; lavou o rosto e fitou-se no espelho com tristeza, sabendo que não devia esperar muita coisa de Hermione.
Eu tenho que dar tempo à ela, pensou, mas fez exatamente o contrário do que tencionava: saiu do banheiro e cruzou os braços, apenas observando a morena selecionar algumas roupas e pegar sua toalha.
- Com licença. – Disse, os olhos fixados no chão, para a outra. Pansy não se moveu.
- Não. Nós precisamos conversar. Depois você vai tomar banho. –Respndeu, e a morena olhou para a janela, contrariada.
- Eu não tenho nada para falar. – Disse, e Pansy bufou apoiando uma mão no batente da porta.
- Hermione... Nós duas sabemos que você ainda é a mais madura de nós. Não seja infantil logo agora. – Replicou, observando a outra continuar imóvel.
- Tudo bem... O que é? – Disse, aborrecida. Irritada, a loira fechou os olhos um momento. Às vezes Hermione era tão inconstante.
- Pra começar, você poderia me dizer se está bem. – Hermione franziu as sobrancelhas.
- Estou. O mal-estar passou depois da poção.
- Sua cabeça não está doendo? – A Comensal voltou a perguntar, assistindo a outra engolir em seco e lhe dar as costas, sem saber que a bruxa não queria que ela visse seus olhos molhados.
- Só um pouco, o pior já foi. – Ela respirou fundo. – Posso tomar banho agora? – Questionou, e Passy passou a mão pelo rosto, dando o caso como perdido; abriu passagem silenciosamente e observou Hermione entrar, dizendo de dentro do banheiro. – Eu prometo que quando sair, voltarei a ser eu mesma.
A loira não respondeu; sentou na sua cama só então percebendo que sua própria cabeça doía. Soube que não suportaria ficar ali se Hermione começasse a tratá-la daquele modo. Embora quisesse negar, sabia o que estava sentindo – só não sabia onde aquele sentimento iria levá-la. Descobriu que, ao contrário do que diziam todos os livros e músicas, se apaixonar era, antes de tudo, temer.
Hermione ligou o chuveiro e entrou sob a água morna, ciente de que provavelmente havia contado sua pior mentira. Aproveitou o barulho do banho e chorou, despejando ralo abaixo tudo o que queria: a vergonha, o constrangimento, a impulsividade – só não conseguiu se livrar do fato de que a noite anterior, com sua confusão e mistério, havia sido infinitamente melhor do que todas as noites que passara com seu namorado.
Saiu do banheiro igual a como entrou, confusa e dividida; mas ao fitar Pansy a mirando com um misto de melancolia e ardor, percebeu que tinha entrado em um caminho sem volta.
- Voltou a si? – A loira perguntou, desanimada, e Hermione sentou na própria cama de frente para ela.
- Espero que sim. – Respondeu, e a outra aquietou-se. – Desculpa se fui grossa, não estava me sentindo bem. – Ela disse, e o silêncio contínuo de Pansy lhe incomodou. A morena olhou para o chão suspirando.
- Eu sei. – A Comensal finalmente falou, e sua voz estava estranhamente fina. – Acho que ontem foi meio... Emocionante demais. – Hermione a mirou com seriedade.
- Foi. E é... É bom esclarecermos tudo de uma vez. – Voltou a olhar pela janela, sua voz saindo com dificuldade. – Estávamos muito bêbadas, e a bebida faz esse tipo de coisa, todo mundo sabe. Já foi, não tem volta, então só resta esquecer e tocar a vida. – A boca de Pansy se abriu sem ela perceber, e ela piscou repetidamente antes de replicar:
- Hermione, você não acredita de verdade que foi só a bebida, acredita? – A outra não respondeu, e a loira decidiu que não iria se humilhar. – Bêbados não mentem, afinal, e você me disse umas coisas muito interessantes ontem. – Hermione a fitou intrigada, e um pouco irritada com a provocação.
- “Coisas”? Que tipo de coisas? – Replicou, e Pansy sorriu.
- Para começar, disse que eu te fazia queimar por dentro; e imagino que você não tinha a palavra azia em mente. – A morena corou sem querer. – Disse que o seu namoradinho nunca tinha feito você se sentir assim... Mas o que eu mais gostei de ouvir foi você dizer que tudo parecia um sonho. – O sorriso da loira se tornou um pouco mais tranqüilo. – Eu não estou tentando te envergonhar, Hermione, porque eu sei que também disse coisas bem comprometedoras, mas você está sendo hipócrita. O whisky nos fez dizer essas coisas, não inventá-las. O que aconteceu, você sabe... O whisky só nos fez agir, não desejar.
Hermione mordeu o lábio com muita força, o olhar perdido em algum lugar do céu, e manteve o silêncio; sem saber por que, a conversa com Ginny veio à sua cabeça. A vida é curta demais para ser desperdiçada, ela havia dito, e mais de uma vez Hermione ouvira, mesmo de jeitos diferentes, que todas as pessoas tinham um só destino: a morte. Talvez o maior de todos os pecados fosse jogar a vida fora.
Pansy sabia que a outra estava pensando em uma resposta, talvez em um modo de fugir da pergunta inicial, e apenas esperou. A morena juntou as mãos num gesto aflito, e sua voz saiu num fio:
- Não, eu não... Eu sei que não foi só o whisky, o que quis dizer é que se não fosse por ele, nada disso teria acontecido.
- Alguma coisa já estava acontecendo há um tempo, você sabe disso. E só fica maior. – A outra respondeu, resolvendo que era hora de falar a verdade; e Hermione a fitou, os olhos faiscando.
- Não sei do que você está falando, Pansy. Não tinha nada acontecendo até ontem. – Pansy suspirou, e esfregou os olhos tentando ter paciência com as negativas da outra. Já a nascida trouxa esperava que Pansy entendesse o que estava se passando; entendesse que ela estava implorando para deixar as coisas como estavam. Estava a um triz de perder o controle, mas se a loira apenas desistisse do assunto, talvez tudo pudesse ser como antes.
- Sabe qual é o seu problema, Hermione? Você nunca admite as coisas. Se você apenas admitisse... – A outra replicou, mas seu tom de voz era triste, o que fez Hermione fechar os olhos alguns momentos antes de falar.
- Se eu admitir, Pansy, nada mais vai ser igual. Meu mundo, o mundo em que eu vivo e amo, vai virar de cabeça para baixo. – Ela confessou, angustiada. – Não posso me dar ao luxo de perder a cabeça por sua causa. – Pansy sorriu para ela, radiante.
- Três coisas: em primeiro lugar, você já admitiu. Em segundo, seu mundo já se virou depois de ontem. E em terceiro... Você não pode se dar ao luxo de se negar uma chance de ser feliz, Hermione. – A morena não estava com humor e não sorriu de volta; apenas piscou e perguntou, derrotada:
- E o que exatamente você sugere? – O sorriso da loira ficou ainda maior e mais malicioso, e sua resposta deixou a outra honestamente espantada.
- Que pergunta. É óbvio que nós temos que ser amantes. – Hermione abriu a boca, sem nenhuma resposta. Repentinamente se sentiu racional, como se tivesse acordado de um sonho, e percebeu o absurdo da situação; se colocou de pé, balançando a cabeça negativamente, e caminhou até a porta.
- Você está louca. - Disse, virando para Pansy. - Eu nem tenho o que dizer sobre isso. É ridículo. - Abriu a porta e caminhou para fora do quarto, com um aperto incômodo no peito.
Aquilo era insano. Que tipo de mulher era ela? Dormindo com Pansy às escondidas, enquanto Ron arriscava o pescoço na guerra. Seus pés pisavam nos degraus com força, fazendo um barulho alto que ressoava pela casa silenciosa e vazia; e ela queria que fizessem mesmo, o som mais alto que conseguisse. Tinha que acordar de uma vez por todas e se livrar dos seus sentimentos, do seu desejo, das marcas de Pansy em seu corpo que, embora invisíveis, queimavam como trilhas de fogo.
Ouviu os passos de Pansy ainda mais sonoros dos que os seus; a loira resmungava coisas que Hermione fez questão de não ouvir, enquanto fugia energicamente da presença da outra. Quando a alcançou, Pansy agarrou seu braço e a fez virar, mas já era tarde: Molly, Arthur e Ginny entravam pela porta, despertando a Sra. Black e acabando com as chances da Comensal de obrigar Hermione a ouví-la.
Nos vários dias seguintes as tentativas de Pansy se mostraram consecutivamente fracassadas; nenhum dia passava sem que ela atentasse a morena, tentando fazê-la ver a verdade. Não sabia mais se aquilo era paixão ou se havia se transformado em raiva; Hermione evitava-a de todas as formas possíveis, e mesmo na sua presença fingia que a loira não existia.
É simplesmente revoltante, Pansy pensava, Revoltante que ela seja tão hipócrita e egoísta. Covarde. Porém não importava quantas ofensas tentasse arrumar, não acreditara em nenhuma delas e continuara sentindo seu coração sufocar cada dia um pouco mais. Acordar e dormir ao lado da morena, observá-la e acompanhá-la, era apenas parte da sua rotina; admirá-la e desejá-la acabara também sendo parte do seu dia-a-dia. Depois de algum tempo, desistira de falar e insistir no assunto com Hermione; mas seu olhar permanecia o mesmo. Seu olhar não deixara e provavelmente jamais deixaria de dizer tudo o que sentia.
Aquele olhar. Não bastasse o trabalho que Hermione tinha para não pensar na maldita noite, o silêncio não lhe dava nenhum consolo. Bastava Pansy erguer os olhos e a fitar, com aquele olhar, que a jovem sentia o ar fugir dos seus pulmões; e a sensação não passava enquanto não desviasse os olhos. Freqüentemente, sequer conseguia fazê-lo: corava ferozmente enquanto praguejava para si mesma contra "aquela coisa" crescente dentro de si. Aquela coisa que ela se recusava a chamar de amor.
Estava encostada contra a janela da sala, vendo a rua vazia que não podia vê-la. Promessas que você apenas faz, refletiu consigo mesma, deprimida, Mas que você não consegue cumprir, se tornam mentiras. Tantas coisas haviam mudado, tantos fatos haviam se transformado desde que Pansy entrara em sua vida... Se lembrou de seu seqüestro, pensamento que procurava manter afastado o máximo possível de sua cabeça; pois aquele cativeiro era sinônimo de medo e dor. Cada vez que um Comensal diferente entrava, uma dor maior lhe era infligida; e mesmo quando Hermione pensava que era impossível sofrer mais, outra pessoa lhe mostrava que estava errada.
Balançou a cabeça, tentando espantar as lembranças, e foi para a cozinha tentar achar algo para fazer. No meio do caminho, cruzou com Pansy, que apenas a fitou em silêncio, e subiu as escadas sem olhar para trás. Hermione suspirou, mirando o espaço vazio que a loira ocupara com tristeza.
ooo
Pansy acordou aos poucos, ouvindo algo estranho. Sentou-se na cama repentinamente ao perceber que o som vinha de Hermione; seus olhos se desviaram rapidamente para o relógio que marcava 3:40 da madrugada, antes de ela se aproximar, sonolenta, da cama da morena.
Não era um barulho agradável, e a única conclusão óbvia era que Hermione devia estar tendo um sonho mais desagradável ainda. A mulher rangia os dentes, choramingando muito baixo, e seus dedos estavam tão firmemente presos ao lençol que ficaram brancos; sua respiração parecia difícil, e Pansy ficou tão angustiada com aquela visão que seu sono pareceu evaporar.
- Hermione. Hermione... - Chamou-a, tocando seu braço com calma. Ao perceber que a gentileza não surtia efeito, Pansy se agachou ao lado da morena e insistiu, agitando seu braço com mais força.
Finalmente Hermione acordou, arfando e com os olhos aterrorizados; examinou o quarto com rapidez e só relaxou quando teve certeza de onde estava. Ainda respirava com esforço, mas estava aliviada, quando Pansy se pronunciou.
- Você estava tendo um pesadelo, eu acho... - Se levantou, olhando-a com cautela. - Não sei se devia ter te acordado, mas você não parecia estar muito bem, então... - Deu de ombros, pronta para rumar de volta à sua cama, mas Hermione segurou sua mão com firmeza, deixando-a surpresa. Ainda estava ressentida pelos últimos dias.
- Não vá. - Murmurou, seus olhos vacilantes. Pansy demonstrou intenção de falar, mas suspirou e replicou:
- O que você quer, Hermione? O que você realmente quer? - A morena mordeu o lábio inferior.
- Não sei. Só não quero que você vá... Fique aqui comigo. Por favor. - A outra ponderou, segurando as mãos mornas de Hermione, e por fim sentou-se na cama.
- Quer que eu segure suas mãos até você dormir? - Perguntou e sua voz estava bem-humorada, mas seu semblante, sério. Hermione sorriu levemente, e confirmou. A quietude que pairou no quarto, ao contrário de muitas outras, era agradável e tranqüila.
- Eu sonhei com aquele lugar. - Hermione disse, longos minutos depois, e sua voz era baixa. - Aquele lugar horrível. Foi a primeira vez, desde que você me tirou de lá... Acho que foi porque pensei muito nisso hoje.
Pansy não resistiu ao impulso de tocar a outra e passou a mão levemente pela sua testa, seu cabelo, o contorno de seu rosto; sua irritação se dissipara. Não havia nenhuma célula de seu corpo que não havia sido conquistada por Hermione. A morena apenas piscou lentamente, fitando-a sem medo.
- Foi só um sonho. Aquilo nunca mais vai voltar. - A loira respondeu, e sorriu sem querer para a outra. Meu Deus, Hermione pensou, Eu estou perdida. Seu desejo por Pansy ficara tão evidente que ela não se sentia capaz de negar nem para si mesma. A queria mais do que conseguia entender; do que conseguia explicar. Esticou seu braço e tocou o rosto de Pansy com cuidado, deslizando a mão para sua nuca. Estou tão perdida...
Não sabia se puxara a loira ou se esta viera por que desejara; porém, quando seus lábios se encostaram, já não importava. Pansy não conseguia decidir o que era melhor: o beijo, a pele de Hermione ou seus braços quentes envolvendo-a e puxando-a para perto. Deitou-se devagar, e afastou seu rosto para fitar a morena.
Hermione não tinha mais defesas. Todas suas desculpas voaram pela janela quando voltou a beijar Pansy, seus lábios se partindo e deixando o beijo se aprofundar; suas mãos navegaram pelos contornos da loira, suas costas, seu quadril, seus ombros pálidos. A sobriedade tornava tudo estranho: nítido, muito mais físico e ainda assim, lento. Suas mãos entraram debaixo da blusa da outra como se tivessem vontade própria.
Com as mãos totalmente enroladas nos cabelos de Hermione, Pansy refletia se estava sonhando. O perfume da morena parecia flutuar no quarto e preencher seus sentidos; ela interrompeu o beijo apenas para aproximar o rosto das mechas castanhas da outra, sua boca se voltando para seu rosto, seu queixo, o topo de seu pescoço e o lóbulo de sua orelha. Era como mergulhar num delírio morno e perfumado.
Ao sentir os beijos e as leves mordidas que Pansy plantava em seu pescoço, Hermione achou que a blusa da loira estava atrapalhando demais, e segurou sua barra, puxando-a para cima. Pansy sentou-se por um momento, se livrou da peça e voltou e deitar junto da morena, sem nenhuma timidez; Hermione a abraçou com força enquanto virava na cama, fazendo-a ficar sob seu próprio corpo. Sorriu, imaginando que devia estar muito vermelha e agradecendo à pouca luz; porém Pansy riu, como se pudesse vê-la com clareza, antes de puxá-la para outro beijo.
Os dedos frios da loira provocaram arrepios quando começaram a deslizar pelo corpo de Hermione; subiam e desciam com calma, pelas suas pernas, suas costelas e seus seios. Repetiu o ato da outra, jogando sua blusa para longe, e suas carícias faziam o batimento de Hermione aumentar cada vez mais; ela parava o beijo para respirar, e prendeu a respiração quando Pansy escorregou a mão pela sua barriga, descendo cada vez mais, até chegar exatamente onde queria.
Pansy aproveitou a vacilada da outra e virou novamente, desfrutando da sua posição para olhar a face rubra da outra. Hermione era tão linda, terrivelmente linda, constatou, quando ela fechou os olhos e murmurou seu nome; seu sangue corria com velocidade pelas veias, e ela sentia seu batimento acelerando, fazendo sua respiração difícil. Pansy voltou a mergulhar na clavícula da morena, enquanto sentia seu corpo se tensionar sob o seu. Queria se infiltrar nela; se pudesse, se tornaria Hermione em cada partícula de seu corpo e sua alma. Sabia perfeitamente bem o que estava fazendo e sabia o efeito dos seus toques conforme a morena agarrava seus ombros, ofegante, e tentava inutilmente ficar em silêncio.
Por um impulso, a loira mordeu seu pescoço sem medir a força. Hermione soltou uma exclamação e só então Pansy se deu conta de que poderia ter machucado-a; porém a outra arqueou o corpo e suspirou longamente, cravando as unhas curtas em suas costas e deixando oito marcas perfeitas na pele alva. Quando a morena relaxou Pansy fitou-a, sorrindo de um modo traquinas, e observou-a sorrir também, satisfeita porque Hermione parecia feliz.
Não só parecia. A mulher estava imensamente feliz, sem culpa ou vergonha nenhuma, e segurou o rosto de Pansy entre as mãos sem intenção de soltá-lo jamais. Ajeitou-se contra o corpo magro da loira, e sentiu os braços da outra lhe envolverem calidamente. Um silêncio confortável se instalou durante algum tempo; Hermione riu para si mesma, despertando a curiosidade de Pansy.
- O que foi? - A morena apoiou-se em um cotovelo, e sorriu com malícia para ela.
- Uma amiga da minha mãe vivia dizendo uma coisa pra quem quisesse ouvir que eu nunca entendi totalmente: ela dizia que a mulher é como o forno a lenha; demora para acender mas, quando acende, não apaga tão cedo. - Pansy riu ruidosamente.
- Ela tinha razão. Mas qual é o ponto? - Hermione voltou a sorrir, e murmurou antes de beijá-la:
- Agora eu entendo.
Seu beijo parecia mais tranqüilo, ao contrário de suas mãos, que haviam ganhado ousadia. A maravilhosa dança recomeçara; e naquela noite, Pansy não conseguiu dizer mais nada que não fosse o nome de Hermione.
ooo
Ao contrário da primeira noite, a claridade não fora a responsável por fazer Hermione despertar. Alguém batia na porta fechada insistentemente, chamando seu nome de forma nada discreta. A morena despertou rapidamente, e foi abrir a porta sem notar que não estava vestida; as batidas continuaram e ela se viu obrigada a gritar de volta:
- Espera um pouco! Já vou! - As batidas pararam e ela começou a enfiar a roupa de qualquer jeito, chamando Pansy baixo. - Pansy, acorda, acorda... - A loira abriu os olhos preguiçosamente. - Se veste, eu tenho que abrir a porta.
Pansy murmurou qualquer coisa, e se arrastou para fora da cama, recolhendo as peças e vestindo-as com muito menos rapidez do que Hermione gostaria. Por fim, ela abriu a porta, descabelada e ainda sonolenta, e encarou Tonks e um outro auror que ela só conhecia de vista.
- O que aconteceu? - Perguntou, mas eles olhavam para Pansy, que coçava a cabeça displicentemente em pé perto da cama. Sem responder, entraram no quarto e o homem virou-a como se fosse uma boneca de pano.
- Que merda é essa? - A loira perguntou, alarmada.
- É uma boa pergunta! - Hermione replicou, agitada, sentindo seu sono desaparecer. – Você pode me explicar, Tonks?
- Acho que é melhor você perguntar para Molly. – A auror respondeu, sua face séria, e conjurou algemas mágicas nos pulsos de Pansy, que olhou para Hermione obviamente desesperada.
- Eu não vou sair daqui até alguém me explicar o que está acontecendo! – Ela esbravejou entre os dentes trincados, e resistiu quando os aurores tentaram tirá-la do quarto. Porém, por mais que tentasse era uma só, e desceu a escada se debatendo como um peixe fora d’água. – Eu não fiz nada! Me soltem! – O homem a segurou pelos ombros e a fez parar um momento, falando:
- Você pode colaborar ou não; o que prefere?
- Pansy, pare. – Hermione interviu, pensando rápido. – E vocês dois parem também; ninguém vai sair dessa casa enquanto não tiver uma acusação formal. Vocês têm alguma? – Perguntou, quase cínica, e Tonks bufou.
- Hermione, isso é sobre a Ordem. – A morena puxou Pansy de perto dos outros dois, nervosa.
- Vou tomar isso como um não. E se é da Ordem, você devia saber melhor do que ninguém que é para tratar comigo; ela está sob a minha supervisão. Se fez alguma coisa, a culpa é minha por tê-la deixado escapar. – Passou um braço na frente da loira num gesto inconsciente de proteção, e a mulher mais velha andou pelo corredor inquieta. – E então?
O outro auror puxou Tonks de canto e comentou alguma coisa, que deve ter sido uma boa idéia, pois a mulher fitou Hermione diretamente.
- Então, falou. Deixe ela trancanda no quarto e desça para ouvir qual é o problema. – Disse, e depois completou. – Mas não tire as algemas. – Foi a vez de Hermione puxar Pansy e perguntar baixo:
- Vou ter que fazer isso. Tudo bem por você? – A loira, que ainda estava irritada, assentiu.
- Tudo desde que você esclareça isso. – As duas subiram para o quarto novamente com rapidez, e Pansy disse lentamente, como que falando para si mesma. – Não acredito nisso, não acredito que isso está acontecendo comigo... – A morena sentiu um aperto no peito, mas quando deixou a outra no quarto seu cérebro a alertou e ela perguntou antes de fechar a porta:
- Pansy... Você tem alguma coisa para me contar? – Seu tom era suave, e isso fez a outra não ficar ainda mais furiosa. Pansy apenas suspirou e replicou:
- Sim. Eu não fiz nada, Hermione. – A morena apenas piscou e trancou a porta, deixando a Comensal sozinha com a certeza de que ir do céu ao inferno em apenas vinte e quatro horas era perfeitamente possível.
Descendo até o primeiro piso com passos duros, Hermione tentava pensar racionalmente, mesmo sabendo que esse era um feito impossível. Sabia que, antes de tomar qualquer atitude, deveria ouvir quais eram os indícios e provas que levaram Tonks àquele papel ridículo (além de sua implicância com Pansy); mas já havia se posicionado ao lado da loira. Seguiu até a sala de jantar, onde estavam também Arthur e Molly, e se recusou a sentar, permanecendo de pé perto da mesa. Tentou manter a frieza, mas não conseguiu.
- Muito bem. – Disse de braços cruzados. – Alguém pode me explicar o que foi aquela cena ridícula? – Arthur coçou a testa, demorando para responder.
- Você sabe que estamos procurando alguém que possa estar passando informações daqui para Você-Sabe-Quem. – Sua voz saiu rouca e cansada. – E eu pude verificar algumas coisas no Ministério, e descobri que alguém fez contato com um Comensal da Morte da lareira do quarto de Remus. – A morena balançou a cabeça indicando que esperava a continuação, mas esta não veio. O casal e os dois aurores permaneceram olhando-a como se a história se auto-explicasse, e Hermione suspirou.
- E isso é motivo para querer prender Pansy? – Respondeu, incrédula.
- Não íamos prender ela. – Tonks replicou, um pouco embaraçada. – Só queríamos interrogá-la.
- De novo? – A morena questionou, e abriu os braços no ar. – Me interroguem dessa vez. Eu garanto que não a deixei sozinha nem um só minuto, e se tivesse deixado ela não teria o que falar por que ela não sabe de absolutamente nada. Estão duvidando da minha fidelidade, por acaso?... E mesmo que soubesse, ela nunca iria alimentar um grupo que destruiu a vida dela. – De repente, como um raio de luz lhe atingindo, um pensamento lhe ocorreu. – Me digam: McGonnagal sabe disso? – Perguntou, e Molly se apressou em responder.
- Ela já tem coisas demais para se preocupar; e ninguém quer torturar a Parkinson, Hermione...
- Ah, eu acho que quer, sim. – A jovem replicou, fitando-a com seriedade. – A morte de George e Bill foi uma perda muito grande, principalmente para vocês, e aumentou a paranóia de que há um espião entre nós. Claro que todos estão loucos para pegar os culpados e virar eles do avesso, mas isso não justifica pegar Pansy e acusá-la sem provas.
- Mas só pode ter sido ela! – Tonks argüiu quase histérica.
- Mas vocês não têm provas! Não têm como provar que foi ela quem usou a lareira. – Hermione disse, tentando injetar um pouco de sensatez no grupo. – E se foi, me acusem de traição por ter permitido isso.
- É impossível você ficar colada nela o tempo todo, Hermione. – O homem ruivo voltou a falar, exasperado, e ela respirou fundo.
- Eu sei. Mas eu também sei que não foi ela. Além disso, não acredito que realmente exista um espião entre nós... Se existisse, duvido que seus filhos fossem as únicas vítimas. – As vozes pausaram alguns minutos, antes da auror voltar a falar:
- Você parece cega, Hermione. Como se confiasse nela cegamente. – A sala inteira concordou sem demonstrar, e a morena sabia que Tonks estava certa, quando deveria estar errada. Mas Hermione não prometeu a si mesma que aquilo iria passar, estava cansada de fazer promessas que não poderia cumprir.
- Não é isso. – Mentiu, e andou até a porta. – Eu só não imagino que motivos ela teria para cavar sua cova deste lado também. Chamem McGonnagal e conversem sobre essa suspeita com ela; talvez vocês estejam certos, talvez não. – Saiu sem esperar resposta, deixando o lugar em silêncio. Molly suspirou profundamente antes de pegar a moeda que chamaria Minerva.
No quarto, Pansy, totalmente inquieta, andava de todos os modos que poderia. Perturbada, sentou-se e começou a bater os pés no chão, tentando se distrair da vontade de chorar quando a porta abriu e Hermione entrou, sentando ao seu lado.
- E aí? – A loira perguntou, as mãos unidas como se estivesse rezando, e Hermione reparou que ela havia pulado as próprias mãos.
- Bem... – Tomou fôlego, resolvendo soltar tudo de uma vez. – Acham que você é uma espiã e tem passado informações internas para outros Comensais. – As gargalhadas da outra a interromperam.
- Espiã? Você só pode estar brincando comigo! - Pansy replicou, ainda rindo estranhamente.
- Não, não estou. Para piorar, descobriram que fizeram contato com um Comensal daqui. Da casa. – Hermione replicou seriamente e o riso nervoso da outra morreu. – É estranho, mas não é suficiente para te acusar... Pedi para chamarem a McGonnagal para ver se talvez ela saiba algo que mais ninguém sabe. Estou esperando ela chegar. Estamos. – Corrigiu. – Vou ficar aqui com você até essa situação se resolver. – Pansy olhou para o chão, se sentindo esgotada.
- Eu quase não estou me importando, na verdade. – Disse baixo, sob o olhar da outra. – Parece que já gastei toda a minha energia, já lutei o máximo que pude. Acho que se chegassem aqui dizendo que iriam me prender, eu não iria me importar. Não mesmo. – Hermione abriu e fechou a boca, sem saber se devia dizer o que queria. Mirou a outra mulher; a mulher que a levara para o hospital, a mulher que dependera dela, a mulher que entendia sua personalidade, a mulher que a beijara como se disso dependesse sua vida.
- Mas eu iria. – Disse, sentindo o coração vacilar. – Eu iria me importar, e nunca deixaria que prendessem você, Pansy. E se você fosse culpada eu não iria tentar justificar seu crime ou coisa assim; eu iria apenas continuar do seu lado. – Pansy a olhou e quando viu seus olhos intensos e doces, simplesmente parou de pensar. – Eu iria ficar do seu lado, Pansy. Eu vou ficar.
A loira estendeu as mãos e segurou as de Hermione com mais força do que deveria sem perceber. Só havia os olhos das duas, interligados por algo inquebrável e invisível; e mais nada no mundo.
- Eu quero que fique. Eu preciso que você fique. – A Comensal confessou num murmuro. – Eu não posso mais dormir sem ver você, não posso acordar sem te olhar, não posso comer. E eu quero te seguir, Hermione, pra onde quer que você vá. – A morena entreabriu os lábios, sem saber o que dizer; seu coração galopava dentro do peito. Ela então envolveu o rosto de Pansy com as mãos e a beijou com fervor, por minutos incontáveis. Quando se afastaram, de faces coradas e lábios vermelhos, a loira continuou:
- Não vou ficar pressionando você... Não sei o que você sente, às vezes acho que nem você sabe, mas isso não interessa. – Ela suspirou, piscando lentamente. – Eu tenho que confessar que estou apaixonada por você. – Hermione sorriu, e seus olhos brilhavam.
- Você sabe, sim, o que eu sinto. Sabia até antes de mim. Eu não preciso realmente dizer, preciso? – Ela voltou a segurar as mãos de Pansy, que sorriu tolamente para a janela.
- Na verdade, não. – Permaneceram assim alguns momentos, desfrutando da deliciosa consciência da paixão, quando Pansy soltou suas mãos e envolveu o seu rosto carinhosamente entre os pulsos algemados. Voltou a beijá-la, com delicadeza e força ao mesmo tempo, sentindo a outra abraçá-la com vontade.
Hermione, decididamente, estava farta de mentir - tanto para os outros quanto para si mesma. A verdade, por mais inconveniente que pudesse ser, tinha um sabor muito melhor do que as melhores mentiras que pudessem ser inventadas. Segurou a blusa da loira firmemente, querendo que o beijo durasse eternamente; Pansy fazia-a se sentir nas nuvens.
Que loucura. Que loucura maravilhosa, a Comensal pensou distraidamente, fazendo carinho no rosto da outra do jeito que podia. No fundo, sentia uma satisfação imensa apenas pelo simples fato de beijar Hermione à luz do dia; era como se não tivesse que se ocultar de todas as outras coisas do mundo - inclusive o sol. Não importavam as portas trancadas ou os sorrisos que escondiam milhares de segredos. Entre elas, tudo estava maravilhosamente claro.
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O clima obscuro e desagradável da sala já não era nenhuma novidade para a velha senhora, que adentrou o ambiente séria como de costume; aquele dia, porém, estava especialmente preparada para ouvir alguma má notícia. Ela puxou uma cadeira e sentou-se, suspirando.
- Que tamanha emergência foi essa? – Minerva perguntou, curiosa.
- Bem... – Molly começou, e suspirou. – Você sabe, Minerva, que nós suspeitamos que alguém esteja espionando a Ordem da Fênix. – A outra tirou os óculos, se esforçando para não demonstrar o desdém que sentia sobre aquela insistente neurose que dominava a Ordem.
- Sei, Molly...
- Acabei descobrindo uma coisa que me levou a suspeitar da Parkinson. – Arthur completou a fala de sua mulher, e Minerva prestou um pouco mais de atenção.
- E o que foi? – Perguntou, impaciente, e patriarca respondeu ansiosamente:
- Alguém fez contato dessa casa com Johannes Sarsgard, um Comensal da Morte. – A senhora se petrificou, e ele tomou aquilo como um bom sinal. – Pouco antes do ataque a Hogsmeade. Naturalmente, quando descobrimos isso, pensamos em interrogar novamente a Parkinson...
- E mobilizaram dois aurores para isso? – A outra replicou, enérgica.
- Não, eu estava junto. – Tonks rapidamente justificou. – E a essa altura, como Byrnes estava comigo, nós viemos para fazer um interrogatório correto.
- E por que não me comunicaram? – Minerva interrompeu, nervosa, e todos se aquietaram, surpresos. – Mais que nunca o que será falado aqui não pode sair dessa sala. – Ela passou a mão pela testa num gesto cansado. – Vocês se meteram em um assunto sigiloso.
- Como? Sigiloso? – Arthur perguntou, sem saber se tinha entendido.
- Um segredo dentro do outro. – Minerva respondeu, tentando não ser grossa. – Sarsgard faz parte de um projeto do qual apenas eu e Remus temos conhecimento; ou devíamos ter, pelo menos. Embora Sarsgard esteja inclinado a desertar, é perigoso e traiçoeiro; não vi necessidade de envolver todos em uma missão que designei exclusivamente para Remus. Ele o contatou através da lareira.
O silêncio se abateu sobre a sala e as pessoas, que não sabiam se ficavam surpresas ou envergonhadas.
- Eu entendo sua revolta, Arthur, é um sentimento do qual todos nós compartilhamos. Mas não adianta ficar procurando coisas que não existem... – Ela o fitou, compreensiva. – Não há nenhum espião. E chega de transformar a Parkinson em bode expiatório, Hermione está encarregada dela e eu confio totalmente em sua competência. – Tonks murmurou algo inaudível, e Minerva pediu para ela repetir.
- Hermione a defendeu. – A outra disse mais alto. – Alegou até o fim que ela era inocente. E eu falei que ela estava cega. – Terminou de cabeça baixa, a voz esmorecendo. A mais velha suspirou profundamente e a fitou alguns momentos, antes de responder:
- Então creio que você deve desculpas a duas pessoas.
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- Hermione... – Pansy disse, olhando para as algemas que não passavam de duas pulseiras interligadas feitas de luz azul. – Eu pensei uma coisa.
- O quê? – A outra perguntou, enfiando a mão entre as duas da loira.
- Você está sendo minha defensora. Não devia estar presente lá embaixo, para ver o que está acontecendo? – Hermione, que estava com o queixo apoiado no ombro da Comensal, ficou ereta como quem leva um choque.
- Você tem toda razão, eu vou descer. – Ficou de pé pronta para sair, com raiva de ter deixado passar uma coisa tão importante, mas Pansy segurou sua mão sorrindo marotamente.
- Antes eu quero mais um beijo. – Hermione balançou a cabeça e sorriu levemente, e foi o tempo certo de ela ouvir vozes e soltar a mão da loira para a porta se abrir revelando Minerva, Tonks e o casal ruivo.
- Bom dia, srta. Parkinson, Granger. – A antiga professora cumprimentou, e a morena se afastou um pouco de Pansy.
- Bom dia, McGonnagal. – Respondeu, e a mulher sacou a varinha e eliminou as algemas da loira, que imediatamente ficou de pé, esfregando os pulsos.
- Obrigada, sra. – Disse educada mas seca, fato que Minerva entendeu.
- Não me agradeça, Parkinson. Sinto pela acusação e o seu constrangimento, não permitiria nada disto se soubesse. – Ela atalhou, e sua frase deixou Pansy um pouco mais satisfeita, embora sua face continuasse fria. A mulher olhou para trás e sumiu de vista, sendo substituída por três pessoas vermelhas e embaraçadas.
- Desculpa por termos te acusado, Parkinson. – Molly disse a fitando com um misto de pesar e orgulho, e Pansy cruzou os braços fazendo uma ligeira careta.
- Foi injusto da nossa parte. Estamos... – Arhtur começou, parando no meio da frase e olhando para algum ponto. – Acabamos descontando nossa raiva em você. É o tipo de coisa que acontece quando se perde dois filhos. – Ele desabafou, e a loira os deixou ali mais alguns momentos antes de responder:
- Eu entendo. Estão desculpados. – Os dois olharam para Hermione um minuto antes de saírem porta afora, deixando Tonks aborrecida no quarto. A mulher mexeu nos cabelos cor-de-rosa e Pansy intensificou sua expressão arrogante.
- Desculpa aí, Parkinson. Só estava cumprindo o meu dever. – Disse, contrariada, e a loira deu um sorriso torto.
- Nossa, não sabia que formavam aurores para acusar inocentes. Deve ser um trabalho muito desgastante. – Hermione, que estava apenas assistindo, suprimiu um resmungo e um riso ao mesmo tempo. Estava se acostumando demais com as alfinetadas da outra.
- De inocente você não tem nem o ouvido, Parkinson. – Tonks replicou, mau-humorada, e o sorriso de Pansy aumentava na mesma medida de seu nervosismo. A outra continuou sem lhe dar atenção. – Bom, já terminei com você. Hermione... Você me desculpa? – Disse, chateada, e a morena sorriu.
- Desculpo, Tonks. Fique tranqüila. – Mais do que rápido, a mulher saiu do quarto, deixando as duas sozinhas, e Pansy riu e fechou a porta, falando:
- Esqueci de como é divertido irritar os outros. – Hermione suspirou, lançando um olhar falso de repreensão; a loira ignorou o olhar e pousou as mãos na cintura da outra, sorrindo. Permaneceu assim, apenas admirando o rosto da morena, os olhos castanhos amendoados, o nariz delicado e a boca rosada, e Hermione ficou sem graça e disse:
- O que foi, Pansy?
- Nada. – A Comensal replicou. – Estou só olhando minha namorada secreta. – Hermione riu e Pansy se aproximou mais dela. – Porque é o que você é, ora. Minha namorada secreta.
Deu um selinho na mulher, depois outro e outro. Falou em tom bem-humorado:
- Soa bem, não? – A morena concordou em silêncio, antes de beijá-la. Sim, soa muito bem, pensou, Bem até demais. Mas não me importo com isso... Não me importo com mais nada. Parou de pensar para se entregar completamente ao momento, mas a consciência de aquilo poderia facilmente se transformar não a deixou totalmente.
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A primavera passou tranqüila e durante ela, Hermione conseguiu cumprir o que havia dito a si mesma. Talvez fosse o clima agradável, o sol que atravessava as janelas e banhava a casa ou os pequenos vasos de flores que Ginny insistia em espalhar pela mansão, mas ela não conseguia se sentir mal com relação a Pansy. Passava os dias ocupada com as pesquisas – embora Arthur lhe mandasse “tirar folga” com muita freqüência – e as noites com a loira, que roubava todos os seus pensamentos diurnos.
No meio da confusão que estava sua vida, ela só encontrava tempo para sentir a consciência pesada quando recebia alguma carta de Ron; e, estranhamente, os Weasleys pareciam mais felizes de um modo geral. Apesar da saudade, do luto e do medo, era como se o sol também lhes banhasse as almas. A morena ainda sentia, às vezes, que era a única que não sabia de uma notícia boa, mas não podia imaginar por que esconderiam dela algo assim.
- Eu não sei, Hermione, talvez seja só impressão sua. – Pansy disse quando a outra compartilhou seus pensamentos, mas, entrementes, concordava com ela. – Talvez você esteja mais feliz e fique vendo isso refletido nos outros.
- Acho que não. – Hermione respondeu depois de pensar um pouco. – É uma coisa que vem de fora, não tem a ver com o que eu sinto. Parece até que a guerra está se dissipando...
- Pode estar mesmo. Você pode ver que até as notícias sensacionalistas estão sumindo; só Rita Skeeter permanece firme no seu posto de corvo agourento. – A loira disse, aérea, fitando a mesa. – Se a guerra não está diminuindo, são as pessoas que estão voltando à velha defesa automática.
- Que defesa automática? – A outra perguntou curiosa, mas não gostou da expressão de desprezo que se desenhou no rosto de Pansy.
- Você sabe, a da esperança. Chega um ponto em que cansam de tanta desgraça, e começam a alimentar esperanças que, na maioria das vezes, nem vão levar a nada. Mas têm que fazer isso, ou não conseguem viver direito.
- É o que você fez. – Hermione replicou, intrigada. – Você também só está aqui por causa da esperança. – A loira sorriu levemente, e algo se acendeu no fundo dos seus olhos.
- Claro que não, eu estou aqui por dois motivos: teimosia e paixão. Esperança é algo irreal, é quando você se agarra numa coisa que não existe; a teimosia é diferente porque é uma força que você tira da sua raiva. – Seus olhos faiscavam, e a outra replicou em tom de desafio:
- E a paixão, Pansy? Queexplicação você me dá?
- A paixão é totalmente oposta da esperança. É o que move a vida, que faz o mundo funcionar. As pessoas têm instinto de sobrevivência por que são apaixonadas pela vida... Ora, os suicidas odeiam viver. Os bebês nascem porque há paixão entre seus pais; as empresas, por causa da paixão pelo dinheiro, as bandas pela paixão pela música. A paixão é o que move você, eu, e todos nós.
Hermione deu um sorriso relutante, entendendo o que Pansy queria dizer, mas sem saber se concordava totalmente. A esperança, afinal, também fazia o mundo girar... Fazia as pessoas viverem dia após dia, na torcida de que algo acontecesse. Mas, por um lado, a loira estava certa, porque a esperança nunca é baseada em algo concreto; ela apenas surge, como algo que não tem apoio mas é onde milhares de pessoas se apóiam. Pansy inclinou-se em sua direção por cima da mesa, e sua voz soou estranhamente profética:
- É exatamente como eu e você, Hermione. Você é a esperança, o sonho, a fé. Eu sou a paixão, a realidade, a descrença.
Era como se os olhos da loira pudessem atravessar seu coração e preenchê-lo como mais ninguém poderia fazer. Dezenas de coisas passaram pela cabeça de Hermione como um filme de milésimos de segundo, e então a jovem percebeu que estava totalmente perdida, sem a menor possibilidade de voltar; só poderia ir para a frente, e só poderia seguir com Pansy. Seus olhos castanhos arderam e as lágrimas vieram antes que ela pudesse impedir, fazendo a loira se transtornar.
- O que foi, Hermione? Foi algo que eu disse? – Perguntou, preocupada, e Hermione respondeu, tentando controlar os soluços:
- Nada, não foi você, não. - A Comensal levantou e pôs a cadeira ao lado da de Hermione, sem saber o que fazer para consolar a mulher que já havia irrompido num pranto baixo. Cada soluço era como uma flecha no seu peito e a fazia repensar com histeria o que poderia ter falado de tão errado.
- Hermione, poxa, me diz o que foi... – Disse, tocando o rosto da morena com cuidado. Hermione a fitou alguns momentos, vendo toda a preocupação e estranheza clara nos olhos da loira, e se levantou de repente com medo do que havia descoberto. Deu as costas para Pansy angustiada, e falou com dificuldade:
- Pansy, eu acho que... Devíamos parar.
- Parar com o quê? – A outra respondeu, desconfiada e séria.
- Com isso que há entre nós. Antes que alguém se machuque. – Hermione começou a andar de um lado para o outro da sala, sem coragem de encarar a Comensal de frente; e Pansy riu, incrédula, sem conseguir formular nenhuma resposta. Acabou se levantando também e perseguindo a morena, tentando ter sua atenção.
- Só eu tenho a sensação que estou em um livro ruim? – Replicou, irritada. – Essa é a pior desculpa que existe!
- Não é desculpa! – Hermione respondeu virando-se, ainda chorando. – Você não pensa, não vê o que nós estamos fazendo?
- E o que tem? – A loira replicou de pronto. – O que estamos fazendo não machuca ninguém, e é só da nossa conta.
- Pois nós podemos nos machucar. É melhor terminarmos antes que isso aconteça. – Hermione falou, respirando fundo e segurando o pranto. Pansy a segurou pelos braços e a fitou de uma forma tão profunda que foi quase insana. Era óbvio que estavam sendo levadas por algo com que não podiam lutar.
- Já é tarde demais, Hermione... Eu vou me machucar, e você também vai, porque nós estamos apaixonadas. – Ela foi se aproximando devagar da outra, que recuou inutilmente como se pudesse também se recusar a ouvir. – Imagine se amanhã tudo isso desaparece, se nós morrermos, se não restar mais nada; ao invés de ter feito o que você queria, ter vivido, você vai morrer pensando no futuro. – Hermione piscou, os cílios molhados e embaraçados.
- Mas há o Ron... Ele é meu namorado, Pansy, você já viu bem o que eu estou fazendo com ele? – Desabafou num fio de voz. – Ele está na guerra, e eu aqui com você. E os meus pais, imagine se eles... – A loira pousou a mão sobre a boca dela devagar interrompendo o fluxo de palavras. Estava tão próxima de Hermione que as duas estavam ficando tontas.
- Você nunca perdeu alguém, não é, Hermione? Alguém que você realmente amasse. – Pansy sussurrou, seus olhos como duas lanças. – Porque quando você perde, vê que o que você faz nessa vida é tudo. Todas as vezes que você disse as coisas que queria ou deixou de dizer; que você fez o que quis ou deixou de fazer, aparecem e somem. No fim, só resta o que você fez de verdade, e um dia isso desaparece também. Tudo desaparece; você tem que fazer enquanto está viva. Enquanto está aqui. – Ela deslizou a mão para o pescoço da outra, e continuou num murmuro. – E agora, seus pais não estão aqui; nem o Weasley, nem ninguém. Agora é a mim que você quer. E agora eu sou sua namorada.
Ela beijou Hermione com força, que retribuiu na mesma medida vendo seus temores e dúvidas se dissolverem. Não tinha que ter medo do presente; e se Pansy estava certa, ela não tinha mais por que se preocupar. O que estava feito estava feito; e ela ainda tinha muita coisa a fazer. Enfiou as mãos mornas dentro da blusa da loira e acabou encostada na parede, com Pansy provocando-a deslizando as mãos pelos ombros, descendo pelas costas e parando no ventre. A morena se arrepiou com os dedos frios da outra na sua pele, e cravou as unhas na cintura nua de Pansy, descendo as mãos para seu quadril. Passaram minutos que poderiam ser horas ou dias apenas se beijando.
Hermione ofegava dentro do beijo, aproveitando as mãos de Pansy enroladas no seu cabelo, quando a porta se abriu abruptamente fazendo as duas quase quebrarem o pescoço.
- Hermione, está fazendo o... – Remus entrou sem avisar e viu as duas o fitarem chocadas, sem sequer esboçarem algum movimento, e não conseguiu disfarçar a surpresa. – Eu... Desculpem. – Murmurou depois de alguns momentos, e saiu da sala voltando a fechar a porta.
As duas estavam na mesma posição, mirando a porta sem reagir, até a morena afastar Pansy e sentar novamente tremendo.
- Meu Deus, eu não acredito. Não acredito. – Murmurou, cobrindo o rosto com as mãos e tentando raciocinar. Pansy respirou fundo e se forçou a pensar rápido; andou até a outra e pousou a mão no ombro dela.
- Vá falar com ele. – Disse baixo, e recebeu um olhar de desespero.
- Falar o quê? – Pansy a fitou com determinação.
- A verdade. – Hermione continuou numa espécie de estado catatônico, ainda passada com o flagra, e a outra teve de agitar seu ombro com impaciência. – Vá, antes que ele comece a pensar demais no que viu!
Hermione se levantou e só quando lançou um último olhar a Pansy e saiu da sala, a loira percebeu o tamanho do problema que tinham. Remus poderia acreditar na teoria de que Hermione estava enfeitiçada e se voltar contra a Comensal; ou talvez ficasse revoltado com o que vira e contasse à primeira pessoa que encontrasse na frente.
De qualquer forma estavam nas mãos do lobisomem – e ainda que Pansy o achasse confiável o bastante para guardar segredo, ele poderia sem querer revelar o que vira sob efeito de alguma poção ou feitiço. Para ela, não faria a menor diferença; mas ela sabia que Hermione teria um ataque se a história se espalhasse. Ela sentou-se no divã querendo que Deus existisse.
- Remus! – Hermione chamou o homem e ele parou no meio da escada e a olhou. – Eu preciso conversar com você. – Ele suspirou e assentiu, acenando para ela o acompanhar; subiram as escadas enquanto a morena ainda estava fora de órbita, tentando planejar sem sucesso o que diria. Os dois entraram no quarto que ele usava para dormir, e Remus tratou de selar e silenciar a porta antes de se acomodar.– Pronto, Hermione. – Disse, quando os dois já estavam sentados, e sua voz pareceu calma; exatamente o contrário da voz de Hermione, que tremeu quando ela falou.
- Eu quero explicar o que você viu na sala. – Disse, fungando.
- Você não tem que me explicar nada... – Ele respondeu, e ela o fitou com as mãos unidas e apertadas e a face angustiada. Remus percebeu que ela precisava falar, e apenas suspirou. – Mas eu sou todo ouvidos.
Hermione respirou fundo várias vezes, a maldita vontade de chorar lhe assaltando de novo; mas sabia que tinha de tentar ser um pouco firme para contar o que queria direito.
- Não quero que você pense mal de mim ou dela, apenas... Aconteceu, sabe? – Disse, tentando se acalmar, e cobriu os olhos com as mãos um momento. – Talvez a gente passe tempo demais juntas, não sei. Nem eu sei direito como começou, mas quando eu vi, eu... Já tinha acontecido. Eu já estava apaixonada. – Murmurou, olhando o chão como se ele fosse a coisa mais interessante do mundo.
- Eu não vou te julgar, Hermione, fique calma. – Remus respondeu, pousando a mão no joelho da mulher. – Alguém da minha idade já viu todo o tipo de coisa. Se quiser falar, fale; se quiser chorar, chore. Mas saiba que eu não vou me meter na sua vida e muito menos contar a alguém. – Completou com sinceridade, e ela suspirou antes de voltar a falar:
- Não entendo como ou por que; acho que nós fomos ficando próximas demais. A gente desenvolveu uma amizade, mas de repente... – Ela balançou a cabeça. – Bebemos um dia em que a casa ficou vazia, e simplesmente explodiu. Então eu fui obrigada a admitir que não era só coisa de bêbada, era... Paixão. – Seus dedos brincavam com a barra da blusa, e ela completou de forma quase inaudível. – Tentei terminar com ela agora há pouco, mas não consegui por que descobri que eu... Ah, meu Deus. – Ela mordeu o lábio, não querendo acreditar no que iria falar. – Eu descobri que a amo.
Remus apenas ouvia em silêncio, absorvendo tudo o que a jovem falava. Sempre pensou que se pudesse escolher os filhos que teria, Hermione estaria no topo da lista; admirava-a principalmente pelo seu senso de justiça e capacidade de pensar friamente quando precisava. Mas agora estava ali, chorando como uma menina e se comportando como se amar fosse um crime. Tinha que admitir que não entendia como aquilo acontecera entre duas pessoas tão diferentes, mas como já havia dito, já vira coisas mais estranhas.
- Hermione, não fique se culpando por algo que está fora do seu controle. – Respondeu baixo, com a paciência de um pai e a compreensão de um amigo. – Amar é como cair em um rio por acidente; não importa o quanto você lute, você vai se molhar. Ninguém controla ou escolhe quem ama; e ninguém pode deixar de amar como se tivesse um botão para isso. Você tem que saber lidar. – A mulher o mirou um pouco mais serena.
- É o que eu estou tentando fazer. Mas ainda é muito difícil, eu não esqueci que o Ron é meu namorado, e que ela é outra mulher. É novo e estranho demais, mas ao mesmo tempo parece tão... Natural. – Sorriu levemente. – É como um sonho, um sonho bom dentro da guerra, mas que é interrompido o tempo todo pela culpa.
Os dois ficaram em silêncio algum tempo, imersos nos próprios pensamentos sobre culpa, paixão e amor.
- O que você está fazendo com Ronald não é nada bonito. – Remus disse num tom simples, tentando não parecer duro demais. – Mas isso tem solução. Termine com ele quando ele voltar; não precisa contar tudo, mas assim você vai ser mais sincera com ele, com a Parkinson e com você mesma.
- Você está certo, mas ele vai ficar arrasado. – Ela respondeu tristemente. – Acabou de perder dois irmãos, nem pôde comparecer ao enterro deles, está lutando ao lado de Harry e de repente, perde a namorada? É coisa demais.
- Concordo com você, - O outro falou com seriedade. – Mas ficar com uma pessoa só por pena só traz tristeza, Hermione, eventualmente para os dois lados. E se você realmente ama a Parkinson, vai descobrir que isso se torna insuportável. – Completou, e algo em seus olhos fez Hermione acreditar que aquilo era pura verdade.
- Eu vou terminar. – Disse com certa firmeza. – Só que não agora.
- Você é quem sabe, eu só estou lhe passando isso por que me preocupo tanto com você quanto com eles. – Remus disse, e se lembrou de outro tópico. – E se você se sente culpada por ela ser outra mulher, imagino que isso tenha algum fundo religioso. – Ela concordou, quieta, e ele fez um gesto com as mãos tranqüilizador. – Isso é mais uma questão pessoal, mas eu particularmente acho que se você gosta dela e ela de você, é por que era pra ser assim. Todos nós sentimos coisas que não sabemos explicar. E no fim, eu acho que Deus não comete erros.
Ele fitou Hermione com carinho e ela sorriu com uma mistura de alívio e alegria. Remus desfez os feitiços da porta e andou até a saída.
- Remus, obrigada. Você não faz idéia do que fez por mim. – Hermione disse com emoção, e ele deu um dos seus sorrisos calmos.
- Por nada, Hermione.
- Bom, eu vou descer; Pansy deve estar enfartando nesse momento. – Respondeu bem-humorada, e já estava no corredor quando Remus a seguiu e a parou.
- Só mais uma coisa, Hermione. – Murmurou. – Seja mais cuidadosa com as portas. Teve sorte de eu ter entrado, e não outra pessoa. – Ela sorriu nervosamente e agradeceu, indo para a saleta rapidamente.
Remus observou-a desaparecer atrás de uma parede, pensativo. Tinha um pouco de pena de Hermione, pela complicada situação em que a garota se metera; mas sabia que se ela não se apaixonasse naquele momento, o faria em algum outro. Ninguém jamais escapa de ser pego pelo rio vermelho.
Ao entrar na pequena sala, a mulher percebeu que podia estar certa quanto ao enfarte: Pansy estava com o semblante de uma jovem a beira da morte; pálida, ereta e com os olhos vidrados.
- Tudo bem? - As duas perguntaram ao mesmo tempo, e Hermione teve todo o cuidado de selar a porta antes de responder.
- Melhor é impossível. Remus nunca vai falar nada, além de ser mais compreensivo do que sua coruja. - Disse, feliz, e a loira desmontou-se no divã, relaxando.
- Ainda bem, você não tem idéia de cada coisa que eu pensei. - Falou, olhando para o teto. - Coisas tão horríveis que poderiam facilmente ser verdade. - Hermione a mirou intrigada, e ela continuou com a voz estranha. - Nada disso vem ao caso agora.
A morena se espremeu e deitou ao lado de Pansy, também fitando o teto.
- Você desistiu daquela idéia imbecil de terminar, não? - A Comensal voltou a falar encostando sua mão na da outra, que a segurou.
- Desisti. Não tenho outra opção mesmo. - Replicou, conformada.
- Eu percebi uma coisa bizarra enquanto você estava lá. - Pansy disse um tempo depois, num tom suave. - Pensei em dezenas de coisas que poderiam acontecer se ele falasse para alguém, dezenas de situações; e percebi que em todas elas eu iria continuar com você. Quem em todas eu iria segurar sua mão como eu estou fazendo agora, mesmo que fosse na frente de todo mundo. - Ela lutava para que seus olhos não enchessem de água, sentindo a garganta arder. - Que eu fugiria com você, se você quisesse. Percebi que eu te amo, Hermione.
Hermione respirou fundo, abriu um sorriso enorme para o teto sentindo o coração bater descompassado. Apertou a mão da outra, sem saber por que tudo aquilo estava acontecendo, mas gostando imensamente do rumo que as coisas tomavam.
- Pode parecer mentira, - Ela respondeu baixo, virando o rosto para a loira. - Mas eu te amo também, Pansy.
A loira a fitou surpresa, um sorriso tonto no rosto, e minutos depois se inclinou para beijá-la. Hermione suspirou tocando-lhe o queixo, e a última coisa que viu antes de fechar os olhos foram as partículas de poeira douradas sob o sol, dançando continuamente sem direção.
ooo
Pansy estava sentada à mesa da cozinha observando Hermione lavar louça ao modo trouxa. No princípio ficava inconformada de a morena fazer aquilo quando poderia se livrar da louça com um aceno de varinha, mas acabara entendendo que aquele era o "momento de paz" da sua namorada. Incomodá-la nunca dava bons resultados.
Saboreava sua mousse de chocolate em silêncio, sabendo que se dependesse de quem pediu a receita - a pentelha Weasley - ela estaria lambendo as colheres dos outros. Porém Molly se recusava a negar comida para qualquer um, principalmente se o motivo da recusa fosse um capricho da filha. Molly Weasley era uma boa mulher, que provavelmente não merecia perder dois irmãos e dois filhos em batalhas diferentes da mesma guerra; mas Pansy não fazia a menor idéia de quem era que regia os castigos sobre os humanos, e só podia chegar a conclusão que não havia ninguém. Preferia pensar nos fatos reais a acreditar em suposições e teorias religiosas.
- Hermione, posso fazer uma pergunta? - Ela arriscou, e a outra assentiu. - Entendo se você não puder me dizer, mas... Como as coisas realmente estão indo na Ordem?
- Bom... - Hermione afastou o cabelo para longe do rosto, a mão ensaboada. - Eu não tenho certeza, pra falar a verdade. Odeio pensar nisso, mas não acho que o meu trabalho esteja sendo muito útil ultimamente... Mas parece que estamos ganhando. - Virou-se e a fitou, sem conter um sorriso. - Parece que dessa vez, estamos ganhando de verdade.
- Que ótimo. - Pansy respondeu, continuando a comer. - E eu também odeio pensar nisso, mas afinal, vocês grifinórios não são tão incompetentes fora da escola quanto dentro dela. - Disse de forma simples, para tentar espantar o assunto, e Hermione fez uma careta que ela não viu.
- Não sei como você ainda tem dificuldade de aceitar isso. Eu já me conformei com o fato de vocês, sonserinos, continuarem sendo os mais chatos mesmo depois de Hogwarts. - Ela respondeu lavando os talheres, sua voz soando risonha, e loira ficou contente de sua tática ter funcionado. - Por mais que a guerra tenha unido as pessoas, algumas rivalidades não vão acabar nunca. Não importa quantas vezes o Chapéu Seletor cante sobre união, sonserinos sempre detestarão grifinórios e vice-versa.
- Tem lógica. - A outra replicou, rindo. - Mas eu não detesto você. Ao menos, não totalmente. - Terminando de lavar a louça, Hermione enxugou as mãos e a mirou, sorrindo sem saber porque. Acostumara-se com seu próprio comportamento de gente apaixonada.
- Pena que eu não possa dizer o mesmo. - Falou se sentando, e a outra ergueu as sobrancelhas, tentando ficar séria.
- Ah, não? - A morena fez um gesto displicente com a mão.
- Oh, você sabe do que eu estou falando. Suas roupas jogadas pelo quarto... A sua toalha molhada no corrimão. - Continuou, observando a loira cruzar os braços, e sua voz saiu tão baixa que Pansy teve que prestar atenção nos seus lábios. - E quando você me morde? Não faz nenhum sentido ficar andando de cachecol em pleno verão. - Não conseguiu mais segurar o riso, e a loira a fitou como se fosse mãe de uma criança travessa.
- Sei. Sou simplesmente detestável. - Pansy replicou, rindo também. - Não sabia?... É por isso que você me ama. - Sussurou, fitando-a maliciosamente. - E é por isso que eu te amo. Porque você é terrivelmente irritante. - Balançou a cabeça, suspirando, e voltou a saborear sua sobremesa com prazer sob os olhos atentos de Hermione.
- Pansy... - Disse, piscando repetidamente e fazendo um charme que em nada combinava com sua personalidade. - Me dá uma colherada?
- Pensei que você não gostasse de chocolate. - Pansy respondeu, intrigada, ao ver a face marota da morena.
- É que você faz parecer tão bom. - A Comensal riu e lhe deu mousse na boca com delicadeza. De repente, soltou a colher com tanta rispidez que o talher foi parar no chão, e sibilou de dor.
- O que foi? - Hermione perguntou preocupada, a olhando com atenção. A loira fez uma careta segurando o pulso esquerdo, e trincou os dentes tentando se controlar. Soltou um grito abafado e estranho, mais parecido com um rosnado, e a outra ficou ainda mais alarmada. - A Marca está ardendo?
- Quase como quando foi feita. - Pansy respondeu com dificuldade, fechando os olhos para tentar suportar a sensação de ter o braço colocado no fogo; gritou mais uma vez e tão rápido quanto apareceu, a dor se foi. Suspirou profundamente, tensa, e ergueu a manga da blusa fina que vestia. Ficou chocada com o que viu - ou com o que não viu.
Tampouco Hermione conseguia desviar o olhar do pulso branco e imaculado da outra, sem nenhum sinal da Marca Negra. Era como se nunca tivesse sido colocada lá, e a loira olhou para ela minutos depois com a expressão confusa.
- Isso significa o que eu estou pensando...?
- Provavelmente. - A jovem respondeu, se sentindo tão perdida quanto ela. - Não sei como, mas parece que Voldemort... Morreu.
- Não diga o nome dele. - Pansy reclamou. - Vivo ou morto, ainda é um nome maldito.
Hermione não replicou como de costume; estava ocupada demais tentando entender como aquilo era possível. Talvez Voldemort tivesse sido reduzido a um ser sem corpo novamente, mas se fosse o caso a Marca estaria fraca, e não simplesmente desapareceria. Somente Harry poderia matar o bruxo, e ele só poderia fazê-lo se tivesse destruído todas as Horcruxes - e se assim fosse, quem estava de fora das informações da Ordem não era só Pansy, mas Hermione também.
A mulher já estava pensando em quem iria pegar para cobrir com todas as suas indagações quando Tonks apareceu na cozinha, ofegante e com os olhos arregalados, e mirou a morena.
- McGonnagal precisa conversar com você, Hermione. - Algo em sua face fez a outra se agitar e levantar de imediato, esquecendo suas perguntas.
- O que houve? - A auror olhou para Pansy e ficou em silêncio, fazendo a Comensal bufar e se retirar da cozinha.
- Eu não devia contar... - Murmurou, angustiada. - E não diga que fui eu, mas só pra você se acalmar, Harry e Ron estão voltando.
Hermione abriu a boca, sentindo as emoções passarem pelo seu corpo como um raio. Abriu um sorriso enorme sem saber se ria ou se chorava; mas sua alegria foi sendo substituída por aflição sob o olhar da outra.
- Onde eles estão? - Tonks pousou o dedo indicador sobre os lábios, pedindo segredo, e a puxou pela mão.
- Não vem ao caso agora, Mione. McGonnagal está te esperando. - Ela a arrastou até a sala de jantar, fazendo centenas de coisas atravessarem a mente nervosa da mais nova.
Só havia a velha mulher sentada à grande mesa da sala, e Hermione teve de segurar sua ansiedade para não voar sobre ela. Sentou-se e Tonks saiu deixando apenas as duas; Minerva deu um sorriso cansado que não passou de rugas nos cantos de seus olhos.
- Vejo que Tonks contou que eles estão retornando. - Disse complacente, e a outra confirmou. - Mas acalme-se, Hermione, não é por isso que foi chamada. - A morena sequer piscou antes de responder.
- Então por que foi? - Minerva cruzou as mãos sobre a mesa, apertando os lábios numa linha fina.
- Saiba que estou preparada para qualquer tipo de reação sua, pois sei o quanto tem se esforçado para colocar seus amigos na trilha das Horcruxes. - Suspirou, a fitando por trás dos óculos. - O fato é que, ao contrário do que você tem sido levada a acreditar, suas principais suspeitas se confirmaram. Harry e Ronald encontraram todas as Horcruxes restantes graças as suas pesquisas, Hermione.
A jovem parou de respirar, fitando Minerva sem a menor capacidade de responder. Sorriu como se fosse uma contração involuntária do seu rosto, pensando se havia ouvido corretamente, e ficou séria novamente, sentindo o sangue descer do seu rosto. Sua perna começou a tremer sob a mesa.
- A sra. está mesmo falando sério?
- Totalmente. - A outra respondeu, ajeitando os óculos no rosto com alguma culpa. - Todas as Horcruxes foram destruídas e a última foi, como você sabiamente tinha certeza, a espada de Gryffindor.
Suas mãos estavam frias de forma assustadora, mas Hermione só notou isso quando cobriu o rosto com elas, sentindo como se tivesse levado um soco; não conseguia acreditar, era simplesmente surreal. Era impossível que tivessem feito aquilo com ela... Não podiam ter feito aquilo com ela. Respirou fundo mais uma vez, enquanto uma bola de raiva e revolta crescia dentro de si e ameaçava explodir. Levantou com brutalidade arremessando a cadeira para longe sem querer.
- Vocês sabiam...? Sabiam que estava tudo certo, que eles estavam encontrando as Horcruxes...? E esconderam, me deixaram aqui me achando uma idiota enquanto o que eu falava estava certo?! - Gritou, as mãos batendo na mesa. - Isso é ridículo, ridículo! Honestamente! Eu me desesperei porque achei que tudo o que estava acontecendo era culpa minha, culpa da minha maldita incompetência, e vocês sabiam tudo o tempo todo! Sabiam que Harry estava encontrando aquelas merdas! - Despejou, os olhos arregalados e a raiva corroendo suas entranhas. Fitou McGonnagal com tamanha revolta que a mulher poderia morrer fulminada pelo seu olhar; sentiu seus olhos arderem, e por mais que tentasse segurar o choro, não conseguiu. Estava simplesmente descontrolada demais para reter as lágrimas.
Minerva apenas assistiu o surto da menina, com a paciência de quem sabia que ela tinha todo o direito de agir daquela forma. Alguns soluços e palavras inacabadas depois, Hermione parou de chorar e a fitou com os olhos faiscando.
- De quem foi a idéia? - A outra tossiu levemente.
- Inicialmente do Harry; ele se sentiu muitíssimo culpado depois do seu seqüestro e quis protegê-la. Como ele foi apoiado por todo o resto da Ordem, incluindo eu, ficou decidido que você seria mantida à parte das buscas. - A morena passou a mão pelos cabelos e puxou outra cadeira, sentando-se novamente, ainda aturdida. - Nosso intuito foi evitar que você corresse mais riscos, Hermione; tanto é que Ginevra também foi excluída das reuniões. E seu trabalho foi de extrema importância, sem suas suspeitas e pistas achar as Horcruxes seria tão difícil quanto montar um hipógrifo furioso.
A voz serena da mulher impediu Hermione de ficar ainda mais irritada, e ela olhou a mesa por vários minutos tentando se acalmar. A tensão no ar quase podia ser tocada quando ela perguntou:
- Então ele morreu? Voldemort morreu, ele realmente está morto? - Minerva suspirou novamente, e seu rosto parecia bem mais calmo.
- Sim. Depois da destruição das Horcruxes Harry e Ronald iniciaram uma busca definitiva atrás de Você-Sabe-Quem e... O encontraram. Porém ele não estava sozinho, como pode imaginar, e esse encontro resultou na pior batalha que seus amigos tiveram de enfrentar.
Hermione viu sua irritação escorrer como água entre as mãos e estava completamente séria quando perguntou:
- Mas se eles estão voltando, digo... São eles, não é? Não seus... Seus corpos ou... – Ela não conseguiu nem terminar a frase, e a senhora respondeu rapidamente:
- Não. Eles estão vivos. – Hermione soltou um longo suspiro, e riu levemente de alívio. McGonnagal sorriu com bondade e talvez alguma alegria por trás de seu rosto preocupado. – A srta. deve saber muito bem que isso não significa que tudo se resolveu. Com Você-Sabe-Quem morto, eu poderia dizer que a guerra acabou, mas ainda há muitas coisas a resolver, muitas pessoas a punir e muitos corpos a enterrar. – A morena acenou com a cabeça, mostrando que concordava. – E tampouco os vivos vão voltar ao que eram antes.
A verdade contida naquelas palavras ecoou pela sala por um longo tempo, se intensificando conforme o silêncio pesava.
- Mas os vivos, pelo menos, ainda estão entre nós. – Hermione replicou, sorrindo, e seus olhos estavam alagados de lágrimas que, pela primeira vez em muito tempo, não eram de tristeza ou angústia.
Sim, sabia que a guerra havia mudado e destruído vidas... Mas pelo menos, ela constatou sorrindo para si mesma, tanto o mundo bruxo quanto o trouxa tinham um ótimo motivo para comemorar. Ainda que não fosse uma garantia de que suas vidas voltariam ao normal, era um começo. Era um recomeço para um número incontável de pessoas.
Hermione era uma delas. Sabia perfeitamente bem que muita coisa teria de ser reparada, e muitas não poderiam ser consertadas jamais – mas era tempo de olhar para a frente. Seu sorriso aumentou quando pensou em Pansy, e percebeu que já estava acostumada a não conseguir pensar no futuro sem pensar na loira. Não pôde conter o impulso de subir as escadas correndo para lhe contar a grande novidade, e deixar McGonnagal sentada à mesa sozinha com seus próprios pensamentos.
Apertou a outra num abraço surdo e desequilibrado, sem saber se ficava parada ou se pulava de alegria. Pansy a afastou e quando mirou seu sorriso, entendeu imediatamente a notícia. Exultante, a loira sorriu também de uma forma ofuscante, apertando as mãos de Hermione com empolgação. Em meio à descarga de emoções, segurou o rosto da morena e a beijou ardentemente, sentindo os dedos de Hermione se agarrarem, felizes, à sua blusa.
Não mais importavam as tragédias ou as dores do passado, tinham muitas coisas a celebrar; coisas demais para desperdiçarem tempo se afundando em lembranças dolorosas. Céus azuis estavam adiante, refulgindo assim como seu amor. Entre seus beijos, o mesmo pensamento passou pelas mentes de Pansy e Hermione: o fim da guerra.

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