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3. Amor e Guerra


Fic: O Amor entre nós [Femmeslash] ATUALIZADA 07/03/2009


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Dizem que no amor e na guerra, vale tudo. Acho que é a realidade. Porque tanto no amor e na guerra, o humano fica no seu limite; ele sofre, ele teme, e ele tem esperança. Ele sente que sua vida está em jogo, que pode morrer a qualquer momento – e é a mais pura verdade. A diferença é que na guerra quem pode morrer é o corpo; no amor, quem corre esse risco é a alma.
Bem, eu corri. Tanto no amor quanto na guerra eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir o que eu queria. Nunca deixei de ser uma sonserina, afinal, e todos sabem que um tigre nunca muda suas listras. Mas o fato é que até hoje eu me espanto com o que o amor fez conosco.
Somos como duas correntezas opostas; ela sempre almejou a perfeição, já eu sempre quis ser a que incomoda. Ela sempre foi generosa; eu não me importava com mais ninguém. Ela corre em busca do conhecimento teórico; eu, da experiência prática. Ainda somos assim, duas personalidades totalmente díspares, mas eu não sei se uma cedeu à outra ou se nós nos completamos. A única coisa que sei é que o amor muda as leis da natureza.
ooo
As coisas haviam melhorado consideravelmente entre Pansy e Hermione. Após tantos dias, já não tinha como uma não se habituar à presença da outra, e ter Hermione por perto deixou de ser um aborrecimento para Pansy, transformando-se em uma agradável distração. Hermione, por sua vez, via na loira alguém que, embora fosse quase o seu oposto, tinha alguma história em comum e, assim como ela, via as coisas por trás de uma lente de frieza e abstenção que poucos possuíam.
Já a busca pelas Horcruxes ia de mal a pior; ela não sabia mais por onde tentar e, mesmo, que tudo apontasse para um caminho, a busca era sempre em vão. Harry escrevia cartas com poucas explicações e muitas desculpas ao mesmo tempo em que ninguém da Ordem parecia ter tempo ou paciência para lhe fornecer mais detalhes; apenas Remus era o mais empático com sua frustração, ainda que conversasse muito pouco com ela. Mesmo Ginny não parava ali, e, quando parava, simplesmente não conseguia suportar a presença de Pansy tempo o suficiente para exercer seu papel de amiga.
No fim, a Comensal da Morte desertora acabara sendo a garantia de sanidade de Hermione; se estivesse ali sozinha como Sirius ficara, sem dúvida já teria perdido a cabeça.
Pansy também era grata à Hermione – não só porque a mulher tinha sido sua salva-vidas, mas porque também estava sendo sua âncora. Ela mal podia imaginar como se sentiria sem a morena; numa casa que mais parecia uma cripta, cheia de gente que a expulsaria na primeira oportunidade, sem coisa alguma para fazer. Além disso, conversar trivialidades com a morena era uma bom passatempo – jamais imaginaria pensar isso, mas aprendera bem cedo que a vida prega peças.
Estava pensando sobre isso certa noite quando adormeceu, e sonhou que estava em Hogwarts, com a vida em ordem. Estava com dezessete anos, com Draco e Blaise ao seu lado, sem iminência de guera, sem chantagens dos Comensais, sem medo. Acordou atordoada, a cabeça doendo, e se sentou imediatamente; transtornada, só percebeu que havia alguém no banho quando ouviu o chuveiro se desligar.
Tinha a nítida sensação de que nem um só minuto de sono valera alguma coisa quando a porta do banheiro se abriu e a tirou dos seus pensamentos.
- Bom dia, Pansy. – Hermione disse saindo do banheiro já vestida como de costume, mas com os cabelos ainda molhados. A outra, sonolenta, murmurou a resposta no meio de um bocejo e permeneceu sentada na cama, os cabelos louros bagunçados de tal modo que a morena teve de segurar o riso. Depois de alguns minutos, Pansy se arrastou preguiçosamente até seu criado-mudo e verificou as horas no relógio, soltando uma reclamação.
- Nossa, nem são oito da manhã... – Gemeu e se jogou sobre a cama, o rosto afundado no travesseiro. – Que horas você acordou?
- Sete e vinte. – Hermione respondeu, e algo no seu tom de voz fez Pansy erguer o rosto para olhá-la.
- Você está... Feliz? – Perguntou, intrigada, e o rosto iluminado da outra se voltou para ela.
- Esotu com um bom pressentimento. – A loira piscou, sem ter resposta ante a felicidade de Hermione, e a mulher saiu do quarto deixando-a sozinha com um único pensamento: esquecer ou ao menos superar seu sonho.
A morena foi até a cozinha, se sentindo estranhamente alegre aquele dia, e franziu a testa ao ver alguns rolos de pergaminhos sobre a mesa. Que falta de atenção, pensou, já recolhendo-os; mas sua curiosidade a fez separar um para ver o que continha. Mal teve tempo de avistar seu nome em um trecho quando Molly apareceu na cozinha rápida como um furacão, arrancou os rolos de suas mãos e sumiu com eles com um aceno de varinha.
- Bom dia, querida, acordou tão cedo hoje! – Disse simpaticamente, seu tom contrastando com seu semblante abatido. – Deixei esses pergaminhos aí por descuido, o cansaço faz isso... Ainda nem fiz o café. Quer um chá, Hermione?
A jovem, que se sentiu bombardeada, apenas aceitou e perguntou à ruiva na primeira chance que teve:
- O que havia naqueles pergaminhos? – Molly fazia um barulho capaz de despertar a casa inteira batendo a chaleira no fogão, empilhando pratos na mesa, reunindo copos e talheres ao redor de Hermione.
- Ah, nada grave... Informações de uma célula na Escócia, estão preocupados com alguns eventos que aconteceram lá.
- Eu vi meu nome em um deles. – A outra disse, séria e sem se mover um só centímetro. Molly seguiu sem olhá-la, pousando a frigideira no fogão com estardalhaço.
- Eles pediram que você fosse até lá, sabem da sua eficiência... Mas Tonks já respondeu que você tem um trabalho importante aqui, não se preocupe. Ginny! – Olhou a garota parada na porta, esfregando os olhos, como se fosse sua salvação. – Venha aqui me ajudar!
Ginny olhou sem entender um momento, até bocejar e andar lentamente até as duas mulheres.
- Bom dia, Mione. – Deu um beijo na bochecha da amiga. – Se livrou da sebosa essa manhã? – Provocou, se virando para a mãe.
Rapidamente a cozinha se encheu de pessoas, cores e cheiros e Hermione acabou esquecendo a história dos pergaminhos, embora não tivesse comprado a versão da sra. Weasley. Não queria pensar que pudessem estar escondendo algo dela, principalmente porque poderia ser injusta com alguém inocente. O assunto saiu da sua cabeça ao longo do café da manhã.
- Onde está a Parkinson? – George perguntou de boca cheia, e Fred complementou:
- Ela não está demorando para descer? – Hermione acenou com a cabeça e pousou os talheres no prato, sabendo que ir chamar a loira era sua tarefa. Subiu até o terceiro andar com a certeza que veria Pansy na cama, talvez dormindo, mas chegou ao quarto e encontrou a loira trocada e sentada, segurando algo nas mãos. A janela apesar de totalmente aberta, não oferecia o sol que Hermione gostaria; apenas uma intensa claridade prata que se refletia no rosto sério da Comensal.
- Pensei que você estivesse dormindo. – Disse, devagar, e Pansy negou.
- Não, fiquei acordada. – Olhou mais uma vez para o que segurava e estendeu para Hermione. – Estava só matando saudades. Essa é a única foto que eu tenho, porque nunca tirei ela de perto de mim. – A morena segurou o que descobriu ser uma fotografia dos pais da outra; um casal talvez com quarenta anos expressando uma felicidade tranqüila. Viu que Pansy havia obviamente puxado à mãe e seus fios claros e nariz arrebitado.
Sem saber o que dizer, ela engoliu em seco, e perguntou:
- E seus olhos, são de quem? – Pansy ergueu uma sobrancelha. – Seu pai tinha os olhos azuis, sua mãe, castanhos. De quem você puxou os olhos? – Recebeu um olhar de simpatia.
- Da minha avó. – Pansy pegou a foto de volta e a guardou no criado-mudo. – Mulher muito esperta. Quisera eu ter puxado a inteligência também. – Se levantou e ajeitou o cabelo uma última vez.
- Vamos tomar café? Eu ainda não terminei o meu, posso te acompanhar. – A morena falou, e a outra a fitou de canto de olho, contrariada.
- A mesa já esvaziou? – Hermione estava prestes a replicar quando Pansy continuou. – Não, não me culpe se é incrivelmente desagradável sentar junto com a fedelha Weasley, não sou eu quem acorda com um humor de dragão... Aliás, quando eu chego, metade da mesa me olha como se eu fosse o prato principal.
A loira disse aquilo com tamanha seriedade que Hermione se dividiu entre rir e ficar séria. Optou pela segunda opção e rolou os olhos.
- Ninguém quer te devorar, Pansy. É que você já fez sua fama de pé no saco no colégio, agora não tem volta. – Disse em tom simples, e viu Pansy se aproximar dela sorrindo, o sarcasmo brilhando inconfundivelmente no rosto.
- Mas você já não me acha tão irritante, eu sei... Agora você me acha um doce de pessoa, não é? – A outra permaneceu quieta e a loira se livrou da face inocente como quem desmonta uma barraca de camping. – Então vai dizer isso pra sua amiguinha idiota e mande ela parar de implicar comigo. – Hermione se permitiu algumas risadas, e desta vez foi Pansy que não soube dizer o motivo, mas não se importou. Pousando a mão no ombro da outra, a morena disse:
- Vamos, a esta altura não tem mais ninguém tomando o café.
Não tinha. As duas mulheres comeram em um silêncio confortável, tentando não pensar em pais, avós ou Weasleys.
ooo
Hermione coçou a nuca levemente, enquanto observava Pansy redigir longas linhas sobre a possível descendência de Godric Gryffindor. Se aquietou apenas alguns segundos antes de pegar uma mecha de cabelo e começar a brincar com ela entre os dedos, enquanto a outra, de cabeça baixa, sorriu para si mesma.
- O que foi, Hermione? Está inquieta. – Imediatamente a morena pousou a mão na mesa.
- Eu sei, estou agitada. – Seus dedos tamborilaram na madeira. – Tenho a impressão que estamos no caminho certo.
- Tomara. – Pansy nem ergueu os olhos do pergaminho. Sabia que não era apenas aquilo, embora não pudesse dizer com exatidão o que tanto afetava Hermione. Centenas de horas de convivência lhe deram, afinal, alguma experiência no trato com a jovem. – Quer me perguntar algum coisa?
Hermione ficou reta na cadeira, se sentindo pega em flagrante, e a loira a fitou, sua face neutra incentivando à outra.
- Na verdade, sim. Você nunca contou, desde que chegou aqui, o que realmente aconteceu com você. – Disse, timidamente. Pansy pousou a pena, colocou o pergaminho de lado e passou a mão pelo rosto, suspirando. Depois de se ajeitar na cadeira, olhou para a morena e disse:
- Minha vó era uma mulher muito esperta, como eu já disse, e ela me falou uma coisa muito simples que eu demorei para entender. – Se inclinou um pouco de direção à outra e continuou. – Não faça perguntas que você não gostaria de responder. E isso não é uma questão de educação; mas por que você sempre corre o risco de ouvir um “E você?”. Então eu vou contar o que houve, e você pode me perguntar o que quiser mantendo isso em mente. - Hermione concordou silenciosamente, admitindo que a avó da outra era realmente uma mulher perspicaz. Esperou pacientemente Pansy continuar, e a loira molhou os lábios e apoiou os braços na mesa, sua voz soando clara e triste:
- Depois do ataque a Hogwarts, meus pais ficaram apavorados, assim como muitos outros, e resolveram ficar enfiados em casa. Mas os dias passaram e eu saí com a minha mãe para fazer compras em Hogsmeade... Lá, Draco me encontrou e disse que os Comensais estavam me recrutando, e iriam matar meus pais se eu não comparecesse. – Suspirou, desviando os olhos alguns segundos.
- Eu aparatei com ele em um lugar que até hoje não sei onde é, que foi o seu e o meu cativeiro, e me deram instruções para seguir você e te raptar. Eles sabiam que eu era boa em Transfiguração; não pássaros, cadeiras e outras coisas idiotas. – Pansy acenou com a mão. – Meu pai me ensinava a me tranfigurar desde os meus doze anos. Enfim, eu te segui tranfigurada, assisti o casamento do Weasley e da Delacour, segui você e aqueles dois até o Três Vassouras e fiquei de tocaia no banheiro, esperando ter a sorte de você ir lá. Nenhum segredo até aí. – Completou friamente, ao ver o olhar estranho que Hermione lhe lançava. Ela mordeu o lábio inferior antes de falar:
- Pode ter sido isso que aconteceu, mas... – Parou, tentando selecionar as palavras. – Mas é claro que não foi simples assim pra você. É uma situação totalmente anormal. – As sobrancelhas pálidas da outra se ergueram, e ela soltou antes que pudesse se controlar:
- O que, você quer saber como eu me senti? – Hermione assentiu com a cabeça, e Pansy não sabia se ria ou se abria a boca de surpresa. - Para quê?
- Como “para quê?”, Pansy? – A morena replicou exasperada. – Foi você quem passou por tudo isso. Não quero um depoimento do que aconteceu, quero saber a sua versão pessoal. – A loira titubeou, pensando em simplesmente responder. Mas ela não era esse tipo de pessoa, e a guerra não havia mudado-a a esse ponto.
- Por quê? – Hermione rolou os olhos. Como Pansy era difícil.
- Apenas porque eu quero saber. – A outra torceu os lábios ligeiramente numa careta sutil, e se resignou.
- Eu me senti a mais desgraçada de todas as pessoas no mundo. Como se um demônio tivesse apontado o dedo pra mim e dito “agora é sua vez de se foder”. – Ela disse, em tom de desabafo. – Draco estava tão acabado quando me deu a notícia que eu não conseguia entender por que todas as pessoas que eu amava pareciam estar caindo, uma a uma. Quando eu raptei você, fiquei brava e aliviada ao mesmo tempo; tudo o que me importava era que os meus pais estivessem a salvo. Durante o tempo em que fiquei em cativeiro – porque eu também não tinha permissão para sair dali, só conseguia pensar neles, neles... Mas quando me soltaram, já com a Marca no braço, eu... – Pansy parou, o rosto contraído e abaixado. – Eu fui para casa, e eles não estavam lá. Pelo estado do lugar, era óbvio que não voltariam, estava tudo revirado, mesa, cadeiras quebradas, e no quarto deles... Tinha tanto sangue, Hermione.
Para sua surpresa, Hermione se pegou com lágrimas nos olhos, e estendeu a mão impulsivamente para segurar a mão fria de Pansy, que não teve reação imediata.
- Eu sei que foram eles e sei que meus pais estão mortos, não é preciso nenhuma investigação para saber disso. – Falou, e fitou a morena. – Daí, então, eu já não tinha nada a perder. Fui chamada para cuidar de você, mas quando te vi naquele estado, eu percebi que não podia te deixar morrer. E não tinha nenhum motivo para ser fiel a Você-Sabe-Quem. Te levar ao hospital foi a única coisa que me ocorreu. – Hermione piscou repetidamente e a outra puxou a mão de debaixo da dela, dando tapinhas gentis. – Não sou nenhuma santa.
- Ninguém é, Pansy, mas você não é nem de longe a pessoa mais cruel ou cretina que eu já conheci. – A morena disse, inclinando a cabeça para a direita. – E depois, o que você fez? – Pansy suspirou.
- Aí, eu já era persona non grata tanto do lado das trevas quanto deste. Me escondi em uma casa abandonada e passei meses ali, transfigurada, arrumando comida e tudo mais com magia e assistindo televisão. – Hermione soltou uma risadinha de espanto. – Devia ser uma casa de mestiços. Mas os Comensais rastrearam minha varinha e um deles, Mulciber, veio atrás de mim; eu lutei com ele, fugi, e fiquei instalada no Caldeirão Furado comendo e bebendo até escrever sua carta. – Ela disse com uma naturalidade fria.
- Você lutou com ele? Duelou, quer dizer? – A outra questionou, curiosa, e Pansy negou.
- Não, lutei mesmo... As nossas varinhas voaram para longe, e nós ficamos nos embolando no chão; eu caí, ele caiu, braços, pernas, mordidas e etc. – Deu de ombros. – Se bem me lembro, ele quase conseguiu me sufocar, mas eu mordi a perna dele e saí chutando tudo o que via na frente para pegar as varinhas. Quebrei o tornozelo, mas consegui aparatar. E este é o final da minha história. – Ela disse, melancólica. O silêncio preencheu o ambiente, e Pansy se sentiu um pouco mais leve de colocar tudo para fora. Só a reação de Hermione a surpreendeu: a mulher estava ouvindo com toda a atenção e encarando normalmente.
- Acho que você tem um coração enorme, Pansy. – A morena disse, com total sinceridade. – Tem que amar muito alguém para cometer um crime por essa pessoa. Imagino que se você quisesse apenas se salvar, teria me deixado morrer e continuaria se escondendo atrás dos Comensais.
- Eu nunca seria capaz, depois do que eles fizeram. – Pansy reforçou, e uma dúvida lhe surgiu de repente. – Hermione... Você acredita em mim? Acredita em tudo o que eu disse?
A morena se remexeu na cadeira, incomodada com a pergunta, mas não teve que pensar muito para responder.
- Acredito. Talvez... Talvez seja um erro, mas eu acredito. – Estranhou saber que aquilo era verdade. Pansy lhe sorriu, o primeiro sorriso aberto que oferecia a Hermione, e a morena teve a forte sensação que olhá-la sorrindo era como sentar perto de uma lareira que solta fagulhas.
- Obrigada, Hermione. – A loira disse, e a outra acabou sorrindo também. – Isso é um grande consolo.
ooo
- Não é possível... – Hermione murmurou, a mão na testa. – Não é possível, está tudo levando à espada de Gryffindor. – Tonks tamborilou os dedos na mesa, a cabeça abaixada.
- Mas a espada não é uma Horcrux. – Disse, com o olhar fixo na mesa. Hermione sentia um misto de desespero com frustração, e olhava ao redor da mesa esperando que alguém contrariasse a jovem auror, mas nada aconteceu; Molly e Arthur estavam neutros e sérios, porém a mulher ruiva parecia chateada e constrangida e, olhando bem, Tonks também. Apenas Remus e Minerva estavam como sempre, quietos e com rostos preocupados, mas vozes razoavelmente serenas. Toda aquela austeridade estava deixando a morena com os nervos à flor da pele.
Só percebeu que suas mãos tremiam quando apoiou os cotovelos na madeira, sem falar mais nenhuma palavra, e permaneceu assim até o resto da reunião que lhe soou como moscas voando pelo lugar. Não conseguia acreditar que aquilo iria continuar – as buscas, a guerra, as pessoas correndo perigo – por causa da sua incapacidade de encontrar uma simples pista firme até uma Horcrux... E o mais impressionante era que suas pesquisas tinham melhorado muito desde a chegada de Pansy, que mesmo sem saber para quê serviam, tinha um senso apurado para perceber o que podia e do que não podia ser útil. No entanto, ali estava, na estaca zero novamente.
Acabou ficando sozinha na sala e, deprimida, resolveu subir até o quarto onde dormia. Ao passar pelo segundo andar da casa, ouviu Tonks de dentro do quarto falando em voz baixa:
- Como você consegue fingir tão bem? – Curiosa, Hermione parou e escutou em silêncio Remus responder quase num sussuro:
- Eu menti a minha vida inteira, Tonks, acabei ficando bom nisso. Por isso sou designado para certos tipos de tarefa. – O quarto se silenciou e a morena resolveu sair de perto da porta. Já estava subindo as escadas e não ouviu Remus continuar. – Não se sinta mal, querida. É para proteger Hermione.
Pansy estava recostada na cama, lendo uma revista, quando sua colega de quarto entrou com o que lhe pareceu a face de quem havia tomado leite azedo. A loira permanecera no quarto toda a reunião; obviamente não tinha permissão para participar das discussões da Ordem e, a bem da verdade, desejo algum. Já não tinha nada a perder, ninguém com quem se preocupar do lado de fora – apenas Draco e seus pais, mas estes, se não estivessem mortos, já haviam fugido da Inglaterra – e não tinha grande vontade de bisbilhotar nos assuntos da guerra. Mas não precisou refletir muito para saber, pelo rosto de Hermione, que as coisas não andavam nada bem.
A morena sentou na beira da cama e mordeu o lábio inferior, ignorando a presença de Pansy, que também sentou e a fitou.
- Problemas? – Perguntou com delicadeza, e a outra sequer piscou.
- Os de sempre. Parece que nada anda, nada muda, nada melhora; estamos do mesmo jeito fazem meses. – Respondeu, a voz sem emoção, e a loira se sentiu inquieta.
- Que pena. – Alguns minutos depois ela se inclinou sobre os joelhos e voltou a perguntar. – Sei que pode parecer idiota, mas há algo que eu possa fazer pra te tirar desse estado miserável? – Hermione mirou-a, os olhos vazios, e dezenas de coisas cômicas e incabíveis passaram pela sua mente antes de ela murmurar de volta:
- Não. Nada.
Deitou-se de costas para a loira, que voltou a se recostar, o aposento quieto exceto pelo som do vento nas paredes do lado de fora. Pansy logo deduziu que se Hermione estava daquele jeito, a culpa – ou ao menos parte dela – do insucesso da Ordem da Fênix era da morena.
Talvez aquelas pesquisas ridículas sobre os fundadores de Hogwarts não fossem, afinal, tão inúteis... Porém, especular sobre a importância das anáguas de Helga Hufflepuff não estava no topo de sua lista de prioridades. Atualmente, Pansy pensou, aborrecida, Essa lista nem existe.
Continuou virando as páginas da revista, sem interesse algum. De minuto em minuto seus olhos se voltavam para a figura encolhida na cama paralela à sua, curiosos para saber se Hermione estava adormecida. Sempre soube quando seus pais ou suas colegas de Hogwarts estavam dormindo pelo som ritmado da respiração, os olhos semi-abertos; na infância ela adorava fingir que já havia pego no sono apenas pelo prazer de enganar seus pais ou espionar as colegas de dormitório. Aperfeiçoara sua técnica durante anos, e era divertido e até útil no colégio, mas agora aquilo lhe parecia uma estupidez de criança. Principalmente por que não servia nem para saber se a morena estava acordada.
Como que atraída magneticamente, Pansy se levantou, jogando a revista de lado, e foi até a cama da outra sem fazer nenhum ruído; se inclinou sobre Hermione sem tocá-la até conseguir visualizar seu rosto. Fitou os fios castanhos espalhados pelo travesseiro, os olhos e a boca firmemente fechados, a mão branca relaxada perto do rosto. Estava desistindo de descobrir quando levou um susto.
- Por que você está me olhando, Pansy? – Hermione disse de repente, e a loira pulou para longe, o coração descompassado.
- Porra, você me assustou. – Ela respondeu, assombrada. – E eu não estava olhando você. – Pansy tentou remediar, sentando-se novamente. A outra se voltou para ela com uma expressão intrigada no rosto, e teve uma idéia para obter uma confissão.
- Ah, não? Se você não estava me olhando, só pode ter vindo até aqui para pegar isso. – Ergueu a mão que estava atrás de seu corpo e exibiu a varinha. A loira arregalou os olhos, surpresa e ofendida, e logo percebeu que estava sem saída. Mas os olhos estreitados de Hermione lhe irritaram profundamente.
- Eu não fui pegar a sua varinha, Hermione. – Ela replicou, com todo o desprezo que conseguiu reunir de última hora. – Não tenho a menor intenção de sair daqui logo agora. – A expressão no rosto da morena se intensificou, sem ela perceber que havia feito a pergunta errada.
- Eu senti a sua respiração no meu rosto. Eu não sou idiota, Pansy, você estava aqui.
- Estava, sim! – A outra se impacientou. – Fui olhar você, fui ver se estava dormindo. Fiquei com medo que tivesse se matado de culpa pela sua incompetência.
Não existia nenhuma possibilidade de Pansy deixar barato a acusação de Hermione, ela sabia, mas algo parecido com um monstro rugiu no peito da morena, que ficou de pé em um pulo. Os olhos da Comensal se tornaram semelhantes a um céu tempestuoso, e ela também ficou de pé mesmo sabendo que aquele não era um bom dia para brigar com Hermione.
- Claro, você sabe que se eu aparecesse morta a primeira suspeita seria você! Será que você não consegue deixar de ser essa coisa insensível e ser uma humana uma vez na vida?! – A morena replicou.
- Será que você não pode me tratar como uma humana? Eu fiz uma ironia, Hermione, em resposta a sua acusação cretina. – Pansy disse, cruzando os braços, e continuou quando a outra começou a falar. – Eu sei muito bem o julgamento que fazem de mim aqui... Só não esperava que você também estivesse torcendo para me ver jogada na prisão! – A morena gaguejou, surpresa.
- Mas eu não estou! – Decidindo que não queria ouvir qualquer que fosse a desculpa da outra, Pansy deu-lhe as costas e abriu a porta do quarto; porém Hermione seguiu-a descendo as escadas com rapidez. – Eu não quero te ver na prisão, Pansy, nem ninguém aqui...
- Mentira! – A loira bradou no meio do corredor, se voltando para ela. – Todos aqui me acham uma criminosa, só estão esperando para ver qual vai ser meu próximo delito.
- Não é verdade! – A morena replicou de imediato. – Claro que alguns desconfiam, é normal. Mas ninguém aqui está esperando “seu próximo delito”, Pansy. – Fitou a loira gravemente. – Se estivessem, você não estaria mais nessa casa, pode acreditar.
A Comensal bufou, incerta se ficava ali ou deixava a outra plantada no corredor. Fez menção de continuar andando mas Hermione a impediu, obstinada, e ela a fitou irritada e pensativa. Pansy mirou as unhas um momento e passou as mãos pelos cabelos antes de responder:
- Então por que você achou que eu queria a sua varinha? – O rosto de Hermione se entristeceu, em contraponto à raiva da loira.
- Eu não achei realmente... Eu só queria que você dissesse a verdade. – Ambas ficaram quietas alguns minutos, evitando se olhar.
- Foi um péssimo e estúpido jeito de perguntar. – A outra finalmente disse, fitando o teto, e a morena suspirou.
- Eu sei, foi uma merda.
O silêncio caiu no corredor até Remus sair do quarto, distraído. Fitou ambas curioso antes de decidir não se meter, e descer para a sala sob o olhar atento das duas. Apenas Pansy ainda se recusava a olhar Hermione, numa pose de dignidade ferida (que tinha um pouco de verdade), até esta falar cautelosamente:
- Pansy, olhe para mim. – Um pouco contrariada a loira obedeceu, e Hermione engoliu em seco. – Desculpa. Eu não duvido de você. - A Comensal meneou a cabeça, os lábios contraídos.
- Tudo bem. Desculpa a ironia de mau gosto. – A morena se apressou em assentir, o ar parecendo mais leve. – Vou descer. – Pansy disse, ajeitando um vinco invisível na blusa, e Hermione lhe deu um sorriso sem graça.
- Tá. Eu vou voltar para o quarto. – Elas trocaram olhares mais um minuto antes de cada uma virar para um lado. Hermione já estava no terceiro degrau quando ouviu a loira perguntando:
- Por quê? – Ela voltou alguns passos e mirou a mulher voltada em sua direção. – Por que você não duvida de mim, Hermione?
A morena abriu a boca, confusa, tentando pensar em uma boa resposta. Respondeu a única sobre a qual tinha certeza:
- Não sei. – Pansy piscou algumas vezes e a outra poderia jurar que a viu sorrindo antes de se virar e rumar para o primeiro piso.
Respirando fundo, Hermione deu meia-volta e subiu os degraus lentamente, pensativa. Ao entrar no quarto fechou a porta e olhou para a cama vazia de Pansy, a revista jogada, e se sentou nela. Quem sabe Moody estava certo, talvez ela realmente estivesse sob efeito de algum feitiço, por que não conseguia explicar sua confiança na Comensal da Morte.
Pansy tinha todos os requisitos necessários para fazer com que Hermione dormisse com um olho aberto e o outro fechado, mas ela não o fazia. No segundo dia da loira na casa, ela fizera um feitiço que não permitia que qualquer pessoa além dela tocasse sua varinha; feitiço que havia rendido dois bons choques em Ginny.
Sabia que a loira não poderia pegar sua varinha sem soltar um grito, mas duvidava que Pansy tentasse – seu racional insistia que era porque a mulher não tinha motivo nenhum para sair da proteção oferecida pela casa. Não tinha ninguém que gostasse correndo perigo, não tinha receptividade nenhuma da parte de Voldemort. Além disso, sabia que Pansy havia ficado perto dela bem mais tempo que o suficiente para pegar a varinha, mas não o tinha feito; a loira realmente estava apenas a olhando.
Mas não era uma questão de motivos ou probabilidades, não desta vez. Hermione não tinha nenhuma idéia de por que nutria aquela confiança em Pansy ou por que aquilo estava surgindo... Só sabia que era verdadeiro, e não resultado de algum feitiço – uma vez que se fosse, ela não teria essa consciência. O que pensava e o que sentia em relação a Pansy vinha de dentro de si; e para Hermione essa era provavelmente a parte mais assustadora.
Sentada no divã que ajudava a tornar a sala de pesquisas ainda mais entulhada, Pansy se sentia a mais idiota das pessoas. Em primeiro lugar por se render mais uma vez a sua estupidez de criança particular e querer saber se a mulher estava dormindo; depois, por se irritar tanto com a insinuação de Hermione. Ora, ela havia sido treinada para desconfiar, não era nem um pouco surpreendente a idéia de ela também estar apenas aguardando um deslize da loira.
Todavia, era terrivelmente irritante. Pansy experimentara por alguns segundos a sensação de traição, por ter acreditado que Hermione a enxergava como ela era e não como o que parecia ser. De repente, aquela certeza havia se espatifado como um espelho arremessado ao longe – e mais repentinamente ainda, ela vira que o espelho parecia inteiro.
Se o que a morena falara era verdade, a acusação não tinha passado de uma idéia imbecil, um teste mal sucedido – ou talvez nem tanto, afinal Pansy admitira estar olhando Hermione. A nascida trouxa conseguira a verdade por fim, mas surpreendera a loira ao mostrar que, do alto de sua perfeição, recorria a métodos escusos para conseguir o que queria. A Hermione que Pansy conhecera em Hogwarts não era daquele jeito.
Se fosse ser sincera, a loira diria que a Hermione que conhecia havia mudado por dentro e por fora. Parecia-lhe que o que havia sido uma garota dentuça e descabelada tinha se transformado em uma mulher invejável – e desejável, também. Definitivamente Ronald Weasley merecia uma surra pelo seu descaso com a namorada; certamente, algum dia, alguém que soubesse como tratar Hermione roubaria seu lugar.
Pansy se deitou no divã e suspirou, sabendo que iria acreditar no que a morena falara não por que era o mais fácil ou o menos doloroso a se fazer, mas sim por que acreditava e ponto. Acreditava que ela pensava de modo diferente dos outros pois via que ela a tratava de modo diferente; não como a uma fugitiva ou uma coitada, mas como a uma amiga, tanto quanto podia.
Acreditava na honestidade e na amizade de Hermione e esta era a primeira vez que acreditava em alguém desde o desaparecimento de seus pais; e Pansy desejava muito não estar errada.
A porta da sala se abriu e a cabeça da mulher que dominava seus pensamentos apareceu, com uma expressão cautelosa no rosto.
- Pansy? – A loira ergueu o rosto. – Está ocupada?
- Não. – Hermione mordeu o lábio.
- Pode subir até o quarto comigo um minuto? – A outra se levantou e foi até a porta.
- Posso. – A morena abriu passagem e as duas subiram sem falar, os olhos castanhos de Hermione sem desviar um minuto de Pansy. Algo quase físico acontecia dentro dela, talvez um sentimento ou uma impressão desconhecidos, quando estava com a loira. Julgava ser culpa, e queria resolver aquilo de uma vez.
Quando entrou no quarto, fechou a porta e apontou para sua cama, pedindo para Pansy se sentar. Pegou algo na cômoda e a imitou, em silêncio.
- Olhe, estes são meus pais. – Ofereceu a foto para a loira, que a fitou algum tempo. – Como eu vi os seus, achei justo te mostrar os meus. – Pansy admirou a fotografia alguns instantes.
- São bonitos. Engraçado como você é uma mistura dos dois. – Disse, sem cinismo ou rancor, fazendo a outra sorrir ligeiramente. – Devem ter orgulho de você.
- Ao menos dizem que têm. – Hermione respondeu. – Apesar da minha mãe guardar algum desgosto de viver longe de mim. Acho que é difícil perder a filha para um mundo que nem se conhece.
- Com certeza deve ser. – A loira disse, e a outra se inclinou por cima dela para pegar algo que estava pendurado na sua cabeceira. Lhe mostrou um terço de madeira, delicado, que segurava com carinho.
- Foi ela quem me deu. – Vendo o olhar de espanto de Pansy, logo explicou. – Minha mãe é católica; mas não fanática. Não liga para a magia nem pensa idiotices dos bruxos... Só me deu isso por que acha que me protege. – A Comensal esboçou um sorriso.
- E talvez proteja mesmo. Se bem que eu acho estranho ter um colar com um... Um homem crucificado, você entende. – Hermione riu levemente, olhando para o terço.
- Claro que eu entendo. Não há muitos católicos no mundo bruxo. O que ainda faz ela ser católica são os conceitos básicos, sabe? – Pansy a fitou.
- Sei. Você é católica? – Perguntou, e a morena voltou a pendurar o objeto, pensativa.
- Não sei, acho que não. Mas acredito em Deus e... Por ter sido criada assim, acho que tenho uma ponta católica, sim. – Pansy mirou o chão, não querendo se prolongar no assunto.
- Faz tempo que você não os vê? – Voltou a perguntar, querendo mudar de assunto. Deus não era uma assunto muito bem resolvido na sua vida, principalmente depois do sumiço de seus pais. Hermione não percebeu que a pergunta foi proposital e respondeu:
- A última vez foi quando estava internada no St. Mungus. – Disse, chateada. – Não falei mais com eles, nem por carta. Quero evitar que corram perigo por minha causa... Afinal, quem se meteu na guerra fui eu, não eles.
Pansy a observou com atenção e Hermione retribuiu o olhar, se arrependendo rapidamente. Novamente a sensação se sentar perto do fogo lhe assaltou, e ela levou o que pareceu uma eternidade para desviar o olhar, seu coração esquecendo de bater. Que diabos está acontecendo comigo?, pensou, atordoada.
- Sabe o que eu acho que você está precisando? – Percebendo sua confusão, Pansy perguntou bem-humorada, respondendo em seguida. – Um porre. Você precisa de um bom porre. – Hermione riu, um pouco mais tranqüila.
- Eu nunca fiquei bêbada, Pansy, não pretendo começar agora.
- Ah, mas ficar bêbada não é diversão, é necessidade. – A loira continuou, séria como uma palestrante. – O álcool é como uma poção médica, tem de ser usado com cuidado, na medida da gravidade do caso. Eu vou te levar para beber hoje. – Ela sorriu maliciosamente, e a outra balançou a cabeça.
- Você não pode sair daqui, lembra? – Pansy levantou e abriu o pequeno guarda-roupas. Mexeu nos cabides displicentemente enquanto continuava discursando sem dar ouvidos à Hermione.
- Não com esta cara; mas se há alguém bom em Tranfiguração e com uma varinha, esse alguém é você. – Puxou um casaco azul marinho e jogou sobre sua cama. – Além do mais, não precisa ser realmente um porre, mas você está precisando esfriar a cabeça... Aliás, eu também. – Pegou uma jaqueta marrom que não era sua e se virou para a morena. – Você vai com esta. Combina com seus olhos.
Se dirigiu a cômoda, mas repentinamente Hermione levantou e segurou seus braços sem força.
- Amanhã. Hoje eu ainda agüento, e a casa precisa estar vazia. Então amanhã ou outro dia. – Pansy acabou concordando e estendeu a mão.
- Então, vai ser amanhã. Está marcado. - Hermione apertou sua mão, e a loira lhe lançou um sorriso estranho. – Amanhã será o dia em que eu vou corromper você.
A outra ficou sem saber o que responder; apenas sorriu também, sentindo o estômago dar voltas provavelmente imaginárias, sem saber que Pansy estava apreciando sua mão morna segurando a dela. Os olhares das duas se cruzaram, e Hermione repentinamente ficou sem graça e saiu do quarto como uma flecha, deixando para trás um perfume bom que a loira fez questão de memorizar.
Pansy, sem saber, repetiu o ato de Hermione: sentou na cama da morena e passou a mão sobre o lençol. Era estranho, o que estava acontecendo com ela; claro que a outra mulher era importante na sua vida, mas isso não era motivo para puxar o travesseiro de Hermione e sentir o cheiro dos cabelos dela... porém Pansy não se importou. Sua vida parecia voltar aos eixos – e ainda que este pensamento pudesse ser apenas uma ilusão, era Hermione quem estava ajudando-a a encaixar os pedaços da engrenagem. O que quer que estivesse sentindo, tomava como natural. Tão natural quando o cheiro de alfazema que o travesseiro guardava.
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Claro que eu não iria conseguir dormir essa noite, Hermione pensou, socando o travesseiro e virando de lado pela centésima vez. Ao invés de uma, eram agora duas coisas que atormentavam seus pensamentos: as Horcruxes e Pansy Parkinson.
Pensar nas Horcruxes levava a pensar em Harry, que levava a Ron, que levava a guerra que levava a uma interminável insatisfação. Sem contar a impressão que Hermione tinha que estavam escondendo algo dela; mas não tinha provas o suficiente para sustentar a desconfiança. Seus pais também eram uma fonte constante de preocupação, embora Arthur mantivesse contato com eles e lhe garantisse que estava tudo bem.
E ainda havia Pansy. Pansy e sua frase de duplo sentido que não lhe saíam da cabeça – se é que havia algum duplo sentido na frase. Pansy e seus olhos diretos; Pansy e seu nariz delicado, Pansy e seus lábios macios. Hermione, claro, não sabia se eram realmente macios, só imaginava – não, nem tinha por que imaginar. Era um dilúvio de coisas sem sentido nem lógica que tiravam o sono da pobre mulher – além, claro, do fato de ficar observando Pansy dormir, mergulhada na penumbra.
Todavia, a loira não estava dormindo. Ao menos para isso a penumbra e seus hábitos infantis serviam; estivera observando cada movimento de Hermione, seu pescoço banhado pela luz que vinha da janela, seus braços pálidos e seus olhos inquietos. Porém o sono era um adversário insistente e Pansy acabou adormecendo, deixando Hermione acordada até as quatro da manhã, quando, enfim, conseguiu pegar no sono.
Eram seis e meia quando a morena despertou, alarmada com um barulho vindo de baixo. Sentou-se, tentou despertar e descobrir o que estava acontecendo; a bagunça se silenciou, e ela pulou da cama e vestiu o robe verde que estava ali sem sequer se olhar no espelho. Pansy se remexeu e sentou molemente ainda coberta, perguntando cheia de sono:
- O que foi, Hermione? – A outra ergueu a mão aberta em sua direção, e ouviu o barulho recomeçar.
- Tem alguma coisa acontecendo lá embaixo. – Disse, esfregando os olhos. – Fique aqui, Pansy.
Hermione saiu pela porta silenciosa como um gato, a varinha em punho e o coração socando dentro do peito. A loira permaneceu imóvel poucos segundos, tentando identificar os sons, e logo se levantou e vestiu seu robe também. Se esgueirou pelas escadas e pelo corredor até estar perto o suficiente para ouvir o que pareciam gritos e lamentações.
Foi andando pela casa devagar e ficou em choque com a cena que viu na cozinha: Molly Weasley estava simplesmente histérica, e Pansy não sabia dizer se ela gritava ou chorava, ou ambos. Um dos gêmeos Weasley, impossível definir qual deles, estava absolutamente horrível assim como Tonks; machucados, ensangüentados e ambos pareciam chorar silenciosamente. A caçula também chorava ruidosamente, e apenas Arthur e Hermione estavam em total silêncio, estarrecidos.
Pansy se postou ao lado da jovem bruxa, que mal segurava a varinha entre os dedos, e permaneceu quieta minutos a fio assistindo àquele triste espetáculo. Só um longo tempo depois a morena notou sua presença e virou em sua direção.
- George e Bill... Morreram. – Disse num fio de voz. – Logo quando Bill foi vê-los na loja, uma ataque... Atacaram Hogsmeade. – A mulher estava transtornada, seus olhos perdidos em algum lugar, e Pansy passou um braço pelas costas dela, a conduzindo até a sala. As duas se sentaram num sofá pouco usado, e ainda podiam ouvir os soluços vindos da cozinha que enchiam a casa de um clima de desespero e desilusão.
- Eu sinto muito. – A loira disse baixo, e Hermione voltou a fitá-la, desta vez os olhos cheios d’água.
- Até quando isso vai se repetir, Pansy? Até quando as pessoas vão continuar morrendo, chorando, se perdendo? – Era incrível o quanto doía na Comensal ver a outra daquele jeito. Pansy, sem pensar, abraçou Hermione com força, tentando inutilmente tirar aquele peso de cima dela; e a morena desabou num pranto convulsivo, retribuindo o abraço o máximo que conseguiu. Não chorou por Bill e George apenas; mas por eles, por seus tios, pelos pais de Harry e pelos irmãos que ele nunca teria. Chorou por Sirius, por Dumbledore, por Ron, Harry e Ginny. E chorou por si mesma e por Pansy, e pela vida miserável que a guerra infligiu sobre todos eles.
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- Eu ainda não estou convencida que isto está certo. – Tonks disse, já limpa e sem os mechucados externos, com os olhos vermelhos. – Eu entendo a importância do trabalho de Hermione, mas será que mantê-la aqui não está atrasando nosso lado?
- McGonnagal já deixou bem claro que esse assunto está fora de questão. – Charlie respondeu, a face de quem ainda não conseguia reagir normalmente. Uma reunião extraordinária com alguns membros da Ordem havia sido convocada, embora não houvesse muito o que discutir.
- Estava fora de questão, Charlie... Esse ataque mudou tudo. – Fred replicou, ainda tremendo. – Eles sabem que nós estamos avançando, e estão tentando causar baixas. Manter a Mione aqui só prejudica nosso trabalho.
- Mas ela está fazendo um trabalho impecável. – O patriarca da família finalmente se pronunciou, sua voz soando vazia. – Todas as pistas e suspeitas sérias que ela teve acabaram se confirmando. – Tonks espalmou as mãos sobre a mesa.
- Isso já não tem nada a ver com mentir, ou com peso na consciência, nada disso; sei que ela faz o que pôde aqui, mas temos que perguntar se não estamos desperdiçando um talento. Às vezes, acho que Você-Sabe-Quem já estaria morto, a essa altura, se Hermione estivesse em campo junto com os outros.
- Ela foi raptada e torturada antes mesmo de se meter nisso! – Charlie atalhou, impaciente. – Hermione é muito visada justamente por que é a mais racional, uma das mais perspicazes. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais alguém! – Fred o contrariou, gesticulando:
- Mas estamos vendo as pessoas morrerem ou desaparecerem uma a uma. Já pensou que tudo isso poderia ser evitado, se Você-Sabe-Quem estivesse morto? E que ele poderia estar morto se Hermione estivesse conosco?!
- Em outras palavras você está dizendo que está se ferrando para os riscos que ela correria. – O mais velho replicou, irritadiço, e o outro trincou os dentes.
- Bill e George correram riscos! Eu e você corremos riscos! Todos da Ordem correm!
- Chega! – Arthur cortou a discussão friamente. – Hermione foi designada para ficar aqui, e é aqui que vai continuar. Além do mais, a Parkinson está sob a responsabilidade dela, o que significa que nada vai mudar aqui. – Tonks fez uma careta e murmurou algo para si mesma, antes de Fred voltar a falar um pouco mais calmo.
- Não estou dizendo que a gente devia jogar a Mione aos leões para se salvar. – Continuou num tom mais baixo. – Mas para mim é óbvio que ela está sendo protegida.
- Mesmo se estiver, - Charlie respondeu, também mais controlado. – Não foi ela quem pediu, e todo mundo sabe que ela ficou puta quando recebeu a tarefa de pesquisar. E ainda assim, está cumprindo perfeitamente.
Com os ânimos apaziguados, eles tentaram conversar sobre a possibilidade de os Comensais da Morte terem sabido da visita de Bill com antecedência. Não tinham como ter certeza, e tampouco estavam com cabeça para especular; não conseguiam parar de pensar nos dois irmãos que aumentariam a contagem de vítimas da guerra, na mãe que tivera de ser sedada com um feitiço e na irmã que chorava em silêncio perto da cama da matriarca.
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Pansy estava sentada no fim da cama de Hermione, observando a outra ressonar. O relógio do criado-mudo marcava oito e cinqüenta da manhã, e havia uma pequena reunião acontecendo na sala de jantar da qual a morena fora “poupada” de participar. Chorara quase uma hora no ombro da loira até ser convencida a descansar um pouco, e adormeceu com os pés pousados no colo de Pansy e seu olhar benevolente sobre si.
Agora dormia encolhida e virada para a parede quanto a outra mulher confabulava consigo mesma; Pansy aprendera na Sonserina a sentir cheiro de conspiração no ar, e a sutil despachada que Arthur dera em Hermione não lhe soava inocente. Bastava prestar um pouco de atenção para perceber que a mulher não participava de uma boa quantidade de reuniões; e as desculpas eram sempre mal explicadas ou simplesmente se resumiam a “confidencial”.
Hermione ficava nervosa no início, mas acabara se acostumando, embora também ficasse desconfiada às vezes; e nem passava pela cabeça de Pansy a idéia de contar a ela suas suspeitas. Em primeiro lugar, porque não tinha a menor intenção de virar a morena contra alguém – já não estava mais nessa fase. Em segundo lugar, porque se o que pensava fosse verdade, estavam mentindo para proteger a jovem; e Pansy concordava que, nesse caso, os fins justificavam os meios. Não se perdoaria se mesmo que sem querer, jogasse Hermione para o centro da guerra.
Passou a mão de leve pelo tornozelo da morena, que suspirou e se encolheu ainda mais contra a parede, fazendo Pansy ter de conter a vontade de deitar e adormecer ao seu lado. Levantou-se e deitou na própria cama, sonolenta, e pegou no sono fitando os cabelos ondulados de Hermione e seu contorno delicado.
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Não havia muitas pessoas presentes, mas todas que compareceram ao enterro de George e Bill demonstravam o mesmo choque, tristeza e indignação. Fleur estava completamente irreconhecível; todo o seu brilho veela pareceu ter apagado e dado lugar a uma mulher cansada e apática que cobria o rosto com um véu negro. Molly, Arthur e os outros Weasleys pareciam estar sem forças para ficarem revoltados; apenas assistiam as pessoas se aproximarem dos caixões, observavam eles descerem para a terra, recebiam os pêsames de parentes e amigos e andavam sem rumo como se estivessem em um pesadelo.
Hermione queria desesperadamente uma desculpa para não comparecer, mas sabia que tinha de prestar apoio para as pessoas que eram como sua segunda família. Todavia, mal podia esperar a hora de ir embora dali, sentia-se desprotegida e horrivelmente desesperançosa. Acabou indo para perto de Remus e Tonks tentando não pensar no quanto queria que Pansy estivesse ao seu lado – era um pensamento deveras inoportuno.
- Você sabe, Ronald já recebeu a notícia. – Remus lhe disse, um braço passado em torno dos ombros da namorada. – Mas não pôde comparecer. – Hermione fitou o chão, deprimida.
- Ele deve estar perto de algum resultado, para não poder vir. – Tonks murmurou alguma coisa para Remus e se afastou, fazendo a morena suspirar e sorrir brevemente.
– Estou até com inveja dela, por ter alguém para abraçá-la. – Confessou, e Remus a pegou de surpresa abraçando-a paternalmente. Hermione desfrutou do abraço quente alguns minutos antes de se afastar.
- Você sente saudade dele, não? – O homem perguntou, gentilmente, mas ela subitamente evitou seu olhar; cruzou os braços e mirou o horizonte, fato que foi notado por ele.
- Sim. – Murmurou, sabendo que não deixava de ser verdade. – Muita.
Algum tempo depois ela se afastou um pouco sob o olhar atento de Remus, que podia perceber claramente um conflito interno na jovem. Notou que um homem velho se deslocou de perto de outro enterro e puxou conversa com ela; no entanto, Hermione não o ouviu mais de cinco minutos e saiu de perto, atordoada e puxando o casaco para mais perto de si. Remus pensou em ir falar com ela, mas a morena andava quieta e arredia, e ele decidiu que a melhor coisa que podia fazer era observá-la de longe e esperar aquele momento passar.
Eles retornaram para a casa dos Black, e Hermione anotou mentalmente que tinha que ir falar com Ginny com urgência. Porém suas pernas lhe guiaram diretamente até o quarto em que sabia que Pansy estaria, e ela entrou no aposento se sentindo esgotada. A jovem loira, que estava deitada lendo um livro, rapidamente sentou vendo Hermione desenrolar o cachecol e o jogar sobre a cama. Passou a mão pelos cabelos cheios e acabou se sentando ao lado da Comensal.
- Como você está? – Pansy questionou com cuidado.
- Estou péssima. Não sei o que está acontecendo comigo, Pansy... Ando me sentindo estranha de um tempo pra cá, e parece que só piora. – E a culpa é sua, acrescentou mentalmente, logo depois descartando o pensamento. – Eu não queria, não queria ir... – Hermione resmungou, chorosa como uma criança. - Mas eu tinha que ser solidária, não podia faltar.
- Eu sei, Hermione. – Pansy disse, complacente, passando a mão pelas costas da outra. Ela tinha pensado a tarde inteira na mulher e em como ela estaria no enterro; e pensar no enterro também era extremamente triste, talvez por ser só mais um entre tantos.
- Sabe o que um senhor que estava em outro enterro me disse? – Ela fungou, tentando segurar o choro. – “Talvez os espíritos dos soldados estejam de pé nos túmulos, esperando a salvação; talvez achem que estão vivos, ou que mereceram morrer. Talvez nada mude, ou eles percebam e comentem entre si como somos idiotas lutando, amando e vivendo, se crescemos apenas para morrer.”
A morena soltou um soluço, cobrindo o rosto com as mãos.
- Meu Deus, como estou sendo infantil. Era só um velho.
- Você não está sendo infantil coisa nenhuma. – A Comensal replicou. – Ele que devia ser um maníaco-depressivo, e foi falar merda. Hermione, - Ela disse com firmeza, e a outra a fitou. – Eu teria ido com você, se você quisesse. Você sabe disso. – Hermione estremeceu ligeiramente.
- Não precisava. – Replicou um pouco mais recomposta. – Além de ser proibido, você iria ficar desconfortável. – Pansy abriu a boca para responder, mas apenas a fitou em silêncio. Algo nos olhos cinzas dela fez a outra ficar de pé, transtornada e corada. – Eu vou descer, preciso falar com a Ginny.
Pansy permaneceu mirando-a, os lábios relaxados e uma pergunta estampada no olhar: “Por que você sempre foge?”. A morena se virou e saiu do quarto sem dar resposta.
Andou mecanicamente até o quarto onde Ginny estava, entrou sem bater, encontrando a garota com um porta-retrato na mão. Ginny a fitou a tentou sorrir, mas não conseguiu; repousou o objeto sobre a escrivaninha e foi até a janela. Hermione a seguiu e imitou, apoiando os cotovelos no parapeito, se sentindo desconfortável.
- Não vou perguntar se está tudo bem, seria idiota demais. – Disse, e a ruiva riu sem alegria.
- Seria. Mas eu acho que não adianta ficar se lamentando muito tempo. – Ela olhou para as próprias mãos. – A morte é assim: você sofre, chora e depois segue com a vida. – Olhou para Hermione e suspirou, e a morena tocou seus cabelos levemente, tentando transmitir algum apoio. – Só que você ganha duas consciências incríveis: a de que você toca a vida sempre com algo faltando nela, e a de que não importa o que você faça, sempre vai terminar do mesmo jeito. – A ruiva apoiou o queixo numa mão e olhou fixamente para o céu, que anoitecia sem rastros de beleza; a noite era apenas um manto azul escuro caindo sobre a terra.
- É verdade. – Hermione murmurou de volta, olhando na mesma direção. Passaram alguns minutos quietas, torcendo para que a esperança de uma pudesse animar a outra, até a voz de Ginny soar novamente no aposento:
- É esquisito, estamos numa guerra sem querer. No fundo, todo mundo ia preferir que estivesse tudo bem; ninguém iria se meter se não precisasse. Quero dizer, acho que alguns iam, mas seriam os muito corajosos e os muito idiotas. – Ela balançou a cabeça. – Parecia tão bonito, antes. Lutar contra Você-Sabe-Quem, ir com a cara e a coragem... Morrer parecia bonito. – Murmurou. – Mas tudo o que eu mais queria é vê-los vivos de novo, e ter Harry e Ron por perto. – Esperou que a outra entendesse o que ela queria dizer, e Hermione entendeu mas replicou:
- Eu sei do que você está falando. Mas estamos aqui, nascemos aqui, e já que Voldemort afeta a todos nós, nós lutamos. Pode não ser bonito agora... Mas ainda é nobre, Ginny. – Sorriu para a mais nova, esperando que a nobreza servisse de consolo à garota.
- Você não sente que está perdendo um tempo enorme? – Ginny disse, depois de algum tempo. – Você poderia estar em Hogwarts, ou com seus pais, ou com o Ron. Você e ele, e eu e Harry, eu penso muito nisso, sabe... – Disse, e pegou uma mecha ruiva para enrolar nos dedos. – Todo esse tempo perdido, que não é perdido de verdade, eu sei; mas mesmo assim eu tenho saudade deles. Do Harry, principalmente. Você entende, né? – Ela olhou para a morena com uma faísca inocente no olhar. – Deve sentir tanta falta do Ron quanto eu sinto de Harry. – Hermione piscou muitas vezes e sorriu para Ginny rapidamente.
- Sim, mas eu ainda tive algum tempo com ele, mesmo que tenha sido pouco, mas o Harry...
- O Harry e seu sangue superprotetor, - A garota a interrompeu. – Me dispensou antes que eu pudesse namorá-lo um pouco mais. Mas tarde demais para eu não sentir saudade. Quando ele voltar, - Disse com firmeza. – Vou fazer ele sofrer. – Hermione não segurou o riso.
- Sofrer, Ginny? Mais do que ele já sofreu? – A garota sorriu marotamente.
- O sofrimento é uma fonte de aprendizado, Mione. – Falou, e a outra se surpreendeu um pouco com a frase. – E vai ser só um pouquinho. A vida é curta demais para a gente desperdiçar. – A morena concordou silenciosamente, seu pensamento se voltando sem querer para Pansy.
A loira, por sua vez, estava terrivelmente entediada no quarto. Não queria sair de lá por que poderiam vê-la sozinha; e isso talvez trouxesse algumas complicações para Hermione. Todavia, não havia absolutamente nada para se fazer, e ela estava deitada ao contrário na cama com os pés sobre a cabeceira quando Remus entrou sem bater no quarto, assustando-a.
- Desculpe, Parkinson. – Ele disse calmamente. – Às vezes esqueço que agora este é um quarto de mulheres. – Ela lhe concedeu um pequeno sorriso, se pondo de pé.
- Tudo bem. – O homem olhou ao redor discretamente, e Pansy percebeu o que ele procurava. – Hermione está com Ginny. – Se apressou em dizer, esperando um olhar repreensivo dele, mas este não veio; Remus apenas piscou, ficando mais sério.
- Ótimo, era com você mesma que eu queria falar. – Ela ergueu uma sobrancelha. – Estão esperando por você na sala de jantar, numa pequena reunião. – Talvez tivesse sido a voz excessivamente calma dele, ou apenas uma súbita intuição, mas o coração de Pansy pareceu afundar enquanto ela mantinha o rosto frio.
- Mas eu não participo de nada da Ordem. – Remus recuou um pouco e lhe apontou a porta num gesto cavalheiresco.
- Pois hoje vai participar. – Pansy respirou fundo, arrumou o cabelo com as mãos e reuniu toda a honra que havia lhe restado. Saiu com passos decididos seguida pelo lobisomem, mas ele parou-a no meio do caminho e disse em voz baixa:
- Parkinson, vou lhe dar uma só dica: - Seus olhos cor de mel estavam gentis. – Seja qual for a pergunta, responda a verdade. – Ela não disse nada; apenas piscou e voltou a caminhar em silêncio, sem saber como interpretar o olhar de Remus mas entendendo perfeitamente bem suas palavras.
Sentia-se indo para a cova dos leões; Pansy se acostumara com alguns olhares desconfiados e a vida monótona dentro da casa, mas tinha algo dentro de si que continuava indomável. Talvez fosse o que havia lhe dado coragem para se tornar Comensal pela vida de seus pais, ou o que a fazia explodir toda vez que Hermione lhe acusava, mesmo que sem querer. Mas fosse o que fosse, aumentava a cada passo que a loira dava.
Remus abriu a porta da sala de jantar para Pansy, e a mulhr sentiu algo como um choque passar pelo seu corpo quando fitou as pessoas sentadas na grande mesa; quase metade dos rostos eram desconhecidos. O lobisomem lhe puxou uma cadeira e ela se sentou ereta, o rosto calmo.
- Boa noite, srta. Parkinson. – Minerva McGonnagal cumprimentou-a, e ela respondeu educadamente. – A srta. sabe para quê foi chamada?
- Apenas imagino, sra. – Pansy não sabia que, assim como ela não conseguia deixar de ver a velha mulher como sua professora, Minerva não conseguia desvincular a imagem de aluna sarcástica e agitadora da jovem mulher a sua frente. – Suponho que tenha a ver com a morte dos irmãos Weasleys.
- Pois supôs certo, srta. – A outra respondeu, e Pansy não conseguiu conter um sorrisinho cínico.
- E suponho também que eu esteja aqui por que sou suspeita de algo.
- Por favor, Parkinson, ninguém está aqui para te acusar. – Remus interviu. – Queremos eliminar suspeitos. – A loira correu os olhos por cada uma que estava sentado à mesa, e ficou em silêncio.
- Sei que a srta. está sob supervisão da srta. Granger. Receio ser obrigada a lhe perguntar que tipo de informações a srta. sabe e qual é o conteúdo dos seus diálogos com a srta. Granger. – Pansy molhou os lábios e se recostou na cadeira, cruzando os braços.
- Sei muito pouco. Sei os nomes das pessoas a quem fui apresentada, com quem convivo ou convivi aqui; sei que esta casa é um ponto de apoio para a guerra contra Você-Sabe-Quem, sei que Hermione faz um trabalho importante pesquisando fatos históricos dos fundadores de Hogwarts, mas não tenho a menor idéia de qual seja a diferença que isso faz.
- A srta. se refere a Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado como Você-Sabe-Quem. Pensei que os seguidores dele costumavam chamá-lo por respeito de Lord das Trevas. – Um velho desconhecido falou, e a mulher teve de se controlar para não levantar e sair dali no mesmo instante.
- Jamais respeitei Você-Sabe-Quem, nem um só momento; fui forçada a me tornar Comensal da Morte. E devo ser uma das pessoas que mais deseja ver ele resumido a uma chuva de sangue ou pedacinhos espalhados pelo chão. Ele e seus seguidores malucos. – Ela praticamente rosnou de volta, e Minerva se sentiu parcialmente satisfeita com o desabafo da jovem.
- Bom, srta. Parkinson, tenho mais algumas perguntas, mas antes me diga o que a srta. Granger compartilha com a srta. – Minerva perguntou formalmente, e Pansy relaxou um pouco.
- Tudo, exceto assuntos da Ordem da Fênix – sobre a qual aliás, eu só sei o nome, mais nada. Conversamos sobre os rumos da guera, nossas vidas, as vidas dos outros; principalmente as vidas entendiantes de Slytherin, Gryffindor, Ravenclaw e Hufflepuff. Hermione é muito rígida quando se trata da Ordem, e para ser sincera, eu nunca lhe perguntei nada. Não me interessa o que façam, desde que vençam. – Respondeu friamente, e a velha senhora pensou: A menina não mudou tanto, afinal.
- A srta. já usou a varinha da srta. Granger?
- Não. – Pansy replicou seca, e a sala caiu em um silêncio obviamente duvidoso. A loira estava prestes a continuar quando Tonks se manifestou:
- Ela não pode. Hermione fez um feitiço que não permite que ninguém toque na sua varinha.
- Como você soube isso? – Pansy imediatamente replicou, e o mesmo velho que havia falado a cortou:
- Não cabe a srta. fazer as perguntas aqui. – Mas Tonks falou apaticamente:
- Ginny me contou, ela levou dois choques acidentais e Hermione disse que era o feitiço. Você não tem como pegar a varinha dela. – Depois da surpresa, a outra respondeu:
- Eu nunca quis. – Minerva resolveu continuar antes que as coisas piorassem.
- A srta. já usou a varinha de alguma outra pessoa nesta casa?
- Não.
- A srta. já se comunicou de qualquer forma, com alguém fora da casa?
- Não. Não tenho ninguém fora daqui. – Pansy disse, o tédio voltando temperado com a raiva.
- A srta. manteve algum tipo de contato com Você-Sabe-Quem ou com outros Comensais da Morte?
- Não. – Pansy se remexeu na cadeira, mas se aquietou depois de completar. – A não ser que sentir a Marca Negra arder seja considerado contato.
Minerva, já contente com o que obtivera, dispensou Pansy que saiu da sala sem deixar de perceber que o mesmo choque estranho lhe atravessou quando passou e fechou a porta. Remus selou a porta e a deixou imperturbável novamente, antes de falar:
- É mais que claro que ela disse a verdade.
- O feitiço não a impede de mentir. – Tonks replicou.
- Mas o feitiço tornaria evidente sua inquietação. – Minerva sentenciou, colocando um ponto final no assunto. – Ela se agitou quando questionei sobre manter contato com Você-Sabe-Quem, mas voltou ao normal ao admitir que a Marca arde. Parkinson não é uma espiã. Passemos ao próximo item.
Pansy voltou ao quarto um pouco perturbada. Desta vez, não estava nem chateada nem irritada por saber sobre o feitiço que Hermione fizera; queria saber apenas quando a morena o realizara. A data poderia mudar tudo. Abriu a porta do quarto e a encontrou lá, ligeiramente emburrada.
- Onde você estava? – Perguntou, com as pernas cruzadas e um pé balançando no ar; e Pansy replicou rolando os olhos:
- Sendo interrogada pela ala geriátrica da Ordem da Fênix. – Hermione não achou engraçado; sua testa se franziu em preocupação e ela esqueceu que estava ansiosa.
- Interrogada? Sem mim? – A loira desabotoou a blusa de frio que vestia enquanto falava.
- Sim. A maioria das pessoas eu não sei quem era, e tinha um velho irritante que ficou me provocando. – Pendurou a blusa em um cabide e o guardou, sob o olhar atento da outra. – De resto, estavam McGonnagal, Lupin e sua namorada sem graça.
- Mas como podem ter feito isso sem a minha presença, se sou eu que fico com você o tempo todo? – A morena estava claramente inconformada, e a outra sentou na cama sem dar muita atenção ao surto de Hermione.
- Sei lá, Hermione... Talvez quisessem ver justamente como eu agiria sem você por perto. Ou o que eu responderia. – Tirou os sapatos e ficou de pé novamente, para desabotoar a calça. Hermione ficou sem saber o que seria pior; olhá-la ou evitar olhar, e acabou deixando seus olhos grudarem no chão ao mesmo tempo em que tentava ser natural.
- O que eles perguntaram? – Pansy deixou a calça atirada no chão e empurrou os sapatos para baixo da cama, deitando e se cobrindo depois.
- Coisas tipo o que eu sei sobre a Ordem, se eu mantenho contato com alguém lá fora, se eu já me comuniquei com outro Comensal... Por causa da Morte dos Weasleys, sabe. A moça bonita é sempre a primeira suspeita. – Disse com ironia, e Hermione levantou e recolheu a calça da outra num gesto automático. – Não precisa, deixe aí.
- Não, eu acordo antes de você e tenho que ver sua bagunça. – Ela replicou, aérea. – O que você respondeu?
- A verdade. “Não”. – Pansy disse, virando de lado em direção a morena. – Mas me perguntaram se eu já tinha usado sua varinha, e Tonks disse que eu não poderia. – Hermione mordeu o lábio, parando na frente do espelho e soltando o cabelo. – Disse que a mini Weasley levou choques porque você enfeitiçou a sua varinha para ninguém conseguir tocá-la. – Seu tom era natural, mas a outra não gostou do que os olhos de Pansy transmitiam através do espelho, e ela se virou para a loira já prevendo o que viria. – Quando foi que você fez isso, Hermione?
A mulher suspirou aliviada por não ser a pergunta preferida de Pansy, “Por quê?”.
- No seu segundo dia aqui. Eu a enfeiticei e ela acabou ficando assim. – Pansy assentiu, se dando por satisfeita, e Hermione foi para o banheiro se trocar. Nunca o fizera na frente da outra, e não pretendia fazê-lo naquela hora. Voltou para o aposento de pijama e também se deitou, reparando que não estava mais tão amarga.
- Como foi a conversa com a filhote Weasley? – A loira perguntou, e recebeu um olhar momentâneo de desgosto.
- Foi mais ou menos, sabe... Não tinha como ser agradável. – A outra concordou. – Mas parece que ela está lidando bem, não sei como, mas está. Mas falou duas coisas curiosas.
- O quê? – Pansy respondeu, interessada, e a morena também virou em sua direção.
- Disse que o sofrimento é uma fonte de aprendizado... E que a vida é curta demais para ser desperdiçada. – A loira piscou muitas vezes antes de dizer:
- Só eu sei como me dói dizer isso, mas ela está certa.
Hermione lhe sorriu puramente, embora ainda estivesse triste, e Pansy mirou seu sorriso como se olhasse para um lindo quadro. A outra sacou a varinha e apagou a luz das lamparinas, já que ambas tiveram dias muito cansativos e noites mal dormidas. O quarto mergulhou em um silêncio bom por quase uma hora, e a morena se inclinou para verificar a hora no relógio, com sono, crente que Pansy estava dormindo.
Porém a jovem ficou de bruços apoiada nas cotovelos, sonolenta e olhando carinhosamente para Hermione, que sentiu os olhos ficarem úmidos de repente.
- Esqueci de dizer uma coisa e dar uma notícia. – Disse, com a voz enrolada. – Boa noite e bons sonhos, Hermione... E durma um pouco mais contente, porque ontem começou a primavera. – Sorriu, a fitou mais alguns instantes e tombou na cama, adormecendo rapidamente.
- Boa noite, Pansy. – Hermione murmurou e suspirou, deixando uma lágrima correr até o travesseiro, feliz pelo fim do inverno e por mais algumas coisas.
ooo
- Você faltou com a sua palavra. – Pansy disse, alguns dias depois. – Faz uma semana que eu devia ter te levado para beber; e então os dois coitados morreram, eu sei, mas não pense que o seu porre foi esquecido. Ele foi só remarcado. – Hermione rolou os olhos e apoiou o rosto em uma mão.
- Você ainda não desistiu dessa idéia, Pansy? – A loira sorriu de um modo que lembrou a outra os tempos de Hogwarts.
- De jeito nenhum, e vai ser hoje. Hoje a casa está vazia, hoje você não tem nada para pesquisar, e hoje eu providenciei duas garrafas de whisky. – Hermione arregalou os olhos.
- Como? – Pansy deu de ombros.
- Alguém aqui gostava de beber; estavam escondidas naquele quarto que todo mundo odeia, o que era dos nobres e alcóolatras sr. e sra. Black. – A morena olhou para o teto, ensaiando para falar algo, e a Comensal apenas esperou.
- Eu não sei se posso beber whisky, o meu estômago ficou meio frágil depois daquela maldição. – Pansy apertou os lábios numa linha, pensando antes de responder.
- Você não tem nenhuma poção aí, para caso você passasse mal ou coisa assim?
- Na verdade, tenho. – A outra respondeu. – O medi-bruxo que me atendeu me deu ela falando que era para usar caso eu tivesse azia, enjôo, essas coisas. Só tomei uma colher, ainda tem bastante, mas eu não sei se vai servir.
- Claro que vai, Hermione. Hoje você não vai escapar, nem que eu tenha que te amarrar. – Pansy disse falsamente séria, e a morena riu levemente.
- Sabe, acho que vai acabar sendo bom, depois da semana que eu tive. – A loira concordou, esticando as pernas no divã onde estava.
- Vai ser melhor do que você imagina. Ah, - Completou. – Você tem que se arrumar. Só por que não vamos sair da casa não significa que não podemos brincar um pouco.
Hermione apenas assentiu com a cabeça, imaginando o quanto aquela noite seria cômica. Ficar bêbada pela primeira vez sob os cuidados de Pansy não era uma idéia muito sensata, visto tudo o que falavam sobre embriaguez, mas a pior coisa que poderia acontecer seria talvez uma das duas vomitarem em um sofá e/ou dormirem jogadas num canto. A visualização pareceu divertida, e ela segurou o riso, imaginando as situações, sem ter a menor idéia do que aquela noite lhes reservava.
Pansy balançava o pé no ritmo de uma música que conhecia. Mal podia esperar a hora de encher Hermione de álcool e fazê-la esquecer dos problemas mesmo que fosse por uma noite. A morena tinha uma tendência muito grande ao estresse e a preocupação excessiva; parecia até gostar de ficar fritando o cérebro pensando em problemas cujas soluções não estavam nas suas mãos. Hermione era o tipo de pessoa que adorava carregar o mundo nas costas, mas odiava sentir seu peso muito tempo, e Pansy tinha certeza que a melhor solução para esse tipo de mania era uma dose esporádica porém generosa de bebida alcoólica.
Com a casa desocupada, já que quem mais ficava – os Weasleys – haviam ido dormir na casa de alguns parentes, Hermione resolveu entrar na brincadeira. Fez um feitiço para manter a casa numa temperatura agradável, arrumou um rádio que estava jogado no quarto de Ginny e colocou-o na sala sobre a mesa de centro. A empurrou para perto do sofá, pegou copos de whisky e os pousou sobre a mesa, assim como alguns cubos de gelo enfeitiçados para não derreterem fora dos copos. Planejava se entupir de gelo para ficar bêbada gradativamente. Só faltavam as garrafas e, claro, Pansy.
A loira estava se trocando no quarto depois de tomar banho; escolheu entre as poucas roupas que tinha uma calça Jeans preto informal, uma blusa branca, um Adidas e um colar com um pingente de esmeralda, que era da sua mãe. Ela mesma não tinha maquiagem alguma, então se contentou em usar o lápis de olho de Hermione – além de ter pouca maquiagem, a mulher ainda tinha itens trouxas – e finalizou com umas gotas de perfume.
Pegou as garrafas de whisky que estavam escondidas e desceu para o segundo andar rapidamente; se enfiou no primeiro quarto que viu, chamando a morena por uma fresta na porta. Hermione subiu a seu encontro, porém ela não se deixou ver, ensaiando um clima de mistério.
- Pode ir se trocar. – Disse por trás da porta, fazendo a outra fervilhar de curiosidade. – Eu estarei te esperando na sala.
- Está bem, vou tentar não demorar muito. – Respondeu risonha e resistiu a vontade de ver como Pansy estava; subiu para tomar banho e se vestir.
Pansy só saiu do quarto quando teve certeza de que não seria vista; na sala, se surpreendeu com a mesa arrumada e a música que tocava. Sorriu e se sentou, esperando por Hermione pacientemente.
Depois de tomar o que provavelmente fora o banho mais rápido da sua vida, a morena passou nos cabelos uma poção que havia comprado há muito tempo mas não usara, e secou os fios com um feitiço. Imediatamente suas mechas caíram sobre os ombros, indo até as costelas, onduladas e macias, de um castanho aveludado. Era tão raro ficar com o cabelo solto e bonito ultimamente que Hermione resolveu deixá-lo como estava.
Escolheu roupas trouxas: uma saia preta acima dos joelhos e uma blusa alaranjada, macia e justa. Passou um pouco de batom e lápis, colocou dois brincos pequenos e já começava a se afligir pensando no sapato quando lembrou de uma sapatilha de salto baixo que ganhara de sua mãe, bege e bordada.
Estava no meio da escada quando voltou correndo, lembrando do perfume, e enfim desceu para a sala, com a impressão de que estava indo em direção a algo inevitável e irreversivel.

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