A primeira a acordar naquela manhã foi Lils, e foi para a sacada dos chalés observar o mar, como sempre.
Sabia que metade dos amigos só acordaria no mínimo daí à uma hora, então aproveitou o momento para por em ordem os seus pensamentos.
Era medrosa, e admitia isso, estava com medo de entregar de novo o seu coração nas mãos daquele menino, e ele renega-la de novo, mas também, quem poderia culpá-la? Ninguém sabia o quanto ela tinha sofrido e o quanto ele a tinha magoado com aquela indiferença.
- LÍLIAN! LÍLIAN! – foi tirada de seus pensamentos por Maria que vinha andando rápido em sua direção.
Maria nunca ia aos chalés, só esperava que todos fossem à casa grande, por isso Lils a olhou com tanta surpresa e curiosidade.
- isso chegou para você, foi um pássaro quem entregou, deve ser urgente! – disse lhe entregando uma carta. Lils riu, com certeza Maria devia ter se assustado muito ao ver uma coruja entrando pela cozinha e deixado uma carta e depois se retirado, realmente, para o mundo trouxa essa devia ser uma coisa bem bizarra.
A primeira coisa que Lils pensou ao saber da carta foi que Hogwarts já havia mandado a lista de material para o sétimo ano, mas quando Maria a entregou o envelope ela soube que não.
O envelope era rosa e com uns desenhos de ursinhos, coisa que nenhum bruxo usaria, já que a correspondência bruxa era entregue apenas com um envelope preso à perna da coruja.
Seu coração se apertou ao saber de quem era a carta, ela concluiu, sentiu, presumiu ou apenas sabia que não era alguma coisa boa.
De: Petúnia Evans
Para: Lílian Evans
A letra totalmente curvada e enjoativa da irmã.
Abriu o envelope apressada se esquecendo completamente de agradecer a Maria. A carta estava muito molhada, danificando um pouco o que havia sido escrito e junto com ela, no envelope vinha uma chave.
“Aberração,
Meus pais e as caridosas pessoas que te criaram estão mortos, um acidente de carro semana passada, realmente não vou me desculpar por só te avisar agora, estava arrasada, passei uma semana sem acreditar, simplesmente isso, impossível meus pais terem morrido, fiquei tão arrasada que nem consegui cuidar do enterro, coisa que o meu – agora – marido cuidou, e novamente não vou pedir desculpa por não ter te avisado disso, mas enfim, por que eu estou te contando isso mesmo? Nós agora não temos nenhum parentesco e nada que nos ligue, e acredite foi o único proveito que tirei dessa situação toda.
Como já disse, sou uma mulher casada e como filha mais velha deles, fiquei em posse da casa o que eu vendi e vai ser ocupada só daqui a uma semana, como eu sei que o seu manicômio começa nessa mesma época. Eu não vou voltar lá, é simplesmente inviável para a minha saúde emocional, mas como eu sou uma boa ‘irmã’ deixei exatamente esse tempo para você se acostumar com a perda dos meus pais e conseguir se despedir. Era só isso.
A nossa perda foi irrecuperável e eu sei disso, espero sinceramente que você consiga se virar sozinha com os seus amigos estranhos e bizarros como você, se não, bom, o tempo em que você não era o que se tornou, eu realmente gostei de você.
Espero nunca mais te ver.
Petúnia Evans Dursley”
Lils engoliu seco três vezes até que o baque daquelas palavras a atingissem, não chorou naquele momento, apenas saiu em disparada para o seu chalé, socou todas as roupas que estavam no guarda-roupa em sua mala de qualquer jeito, realmente sem se preocupar com o barulho que estava fazendo.
- porra Lils, eu tava dormindo. – comentou Tiago mal-humorado levantando-se da cama e olhando para a menina, ela nada responde. – Lils você ta bem? – perguntou reparando no silêncio da menina.
Ela novamente nada responde, só continua a socar suas roupas na mala.
- Lils aconteceu alguma coisa?– perguntou segurando as mãos dela e a virando para encará-lo.
Tiago realmente levou um susto, ela estava branca, com o lábio sem cor alguma, mas sem dúvida o que mais lhe assustou foram os olhos, os sempre muito verdes e brilhantes olhos dela agora estavam em um tom escuro e insensível.
- eu tenho que ir pra casa! – disse ela se virando bruscamente para voltar a arrumar suas coisas.
- o que aconteceu Lílian? Fala comigo! – disse ele novamente a fazendo encara-lo.
- eu só preciso ir pra casa, Tiago! – disse ela com a voz baixa engolindo um seco e olhando para baixo.
- você não vai a lugar nenhum desse jeito! FALA COMIGO! – disse ele exasperado fazendo-a encará-lo novamente.
- ME DEIXA IR! – ela quase berrou na cara do menino, o fazendo se assustar e a soltar de solavanco.
Ela pareceu mais chocada que ele até por ter gritado desse jeito, demorou 5 segundos para qualquer um deles se recuperar, e foi Tiago, que procurou rapidamente nas suas coisa por um espelho e o colocou no bolso da bermuda que usava para dormir.
- eu vou com você aonde você for, eu vou sempre estar do seu lado. – disse ele a empurrando delicadamente para ficar de frente à mala que a menina estava fazendo, fechou-a, carregou-a com uma mão e envolveu a menina com a sua outra mão. – você ou eu? Eu preciso do endereço. – perguntou, se referindo a aparatar.
Lils parece acordar do seu pequeno transe e entrelaça o pescoço do maroto com seus braços afundando sua cabeça no peito dele, uma sensação horrível e eles novamente sentem o chão, mas de um lugar completamente diferente.
A casa era grande e muito bem iluminada, o carpete era de um azul escuro e as paredes brancas dando um ar ainda mais harmonioso, os dois aparataram em frente à escada que levava aos quartos, e assim que Lils reconheceu a sua casa desabou no chão.
Tiago a amparou antes mesmo dela chegar ao chão, usando da sua força para coloca-la sentada e se sentar em sua frente a envolvendo ainda com seus braços.
Lils engoliu ainda três secos olhando para nada em especial antes de começar a chorar.
Imediatamente Tiago a traz para seu colo e a abraça fortemente sussurrando palavras de conforto em seu ouvido, Lils parece se acalmar se aconchegando ao peito do maroto, mas continua chorando.
- eu vou sempre estar aqui e você sabe. – disse ele logo após beijando o topo da cabeça da menina.
Lils se afasta dele apenas o suficiente para encará-lo.
- eu nunca precisei de alguém como eu preciso de você agora! – disse ela o olhando intensamente.
Tiago passa o seu polegar delicadamente na bochecha da menina e vai se aproximando, a medida que sua mão vai para a nuca dela.
Ela o empurra bruscamente e se levanta. Ele a segue no movimento rapidamente.
- PÁRA TIAGO! MAIS QUE MERDA VOCÊ SÓ PENSA NISSO! VOCÊ NÃO PENSOU QUE EU REALMENTE PRECISO DE VOCÊ COMIGO, NÃO NESSE SENTIDO! – gritou ela, as lágrimas se confundindo entre o ódio e a dor.
Ele em um movimento rápido a encosta na parede, não permitindo que ela escapasse e segura seu rosto entre as mãos a obrigando a encará-lo.
- eu to com você, no sentido que você quiser que eu esteja, eu nunca, nunca vou te abandonar ou te deixar sozinha, eu vou te seguir a onde você for Lílian, eu te amo, de todos os ‘sentidos’ que você puder imaginar, eu preciso de você em todos os sentidos, e nos sentidos que você precisar de mim eu vou estar aqui, me desculpa, de verdade, você é necessária demais na minha vida pra eu te esquecer, mesmo se isso for o melhor pra mim, eu só penso no melhor pra você! – disse de uma maneira calma fazendo os olhos de Lils voltarem a mesma tonalidade viva de antes.
Ela em um movimento desesperado passa seus braços atrás do pescoço dele e uni seus lábios, sem nem esperar para aprofundar a língua na boca do maroto.
Ele reage no mesmo instinto desesperado a espremendo ainda mais na parede com uma mão deslizando pela cintura da garota e a outra indo diretamente para a nuca da menina, massageando.
Assim como tudo o que tinha acontecido até então foi um beijo desesperado, as línguas se procuravam com cada vez mais necessidade e rapidez, nenhum queria se afastar, nenhum queria perder o mínimo contato que fosse, e lentamente o beijo foi diminuindo o ritmo se tornando assim mais delicado, carinhoso e romântico, nenhum queria parar, aquela sensação, aquele momento, era simplesmente o que estava faltando pra eles, era quase impossível para os dois pararem para tomar ar, mesmo que precisassem disso.
Tiago ainda a estava espremendo na parede quando os dois finalmente pararam de se beijar, vários minutos depois.
- sinceramente, só você pra me fazer esquecer. – disse Lils afundando o rosto no peito do maroto. Tiago deu uma risada irônica.
- me senti um objeto agora, Lílian, foi só você parar de me beijar para lembrar do que quer que fosse? – disse Tiago divertidamente nervoso, Lils solta uma gargalhada alta.
- é disso que eu to falando, Tiaguinho. – disse ela o encarando com um perfeito sorriso 32 dentes, ele passa a mão carinhosamente nas maçãs do rosto dela.
- você é a menina mais linda que eu já vi! – disse fazendo a menina corar.
-Tiago, porra tu ta ai? – ouviu-se a voz de Sirius, vindo direto do bolso de Tiago.
Tiago revirou os olhos e Lils soltou uma risadinha abafada, ele se afastou dela apenas o suficiente para pegar o espelho, e coloca-lo de frente aos dois, Sirius arregalou os olhos ao notar a proximidade dos dois.
- BIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! – gritou para o lado, e também afastou o seu lado do espelho, dando assim pra ver Bia chegando por trás dele com uma cara irritada e mal humorada. Quando também reparou na proximidade dos dois, também arregalou os olhos, mas se recompondo mais rapidamente que o amigo.
- QUAL O PROBLEMA DE VOCÊS? EU TRAGO VOCÊS PRA OUTRA CIDADE, NÃO, PRA OUTRO ESTADO, NÃO, PRA OUTRO PAÍS, N-Ã-O, PRA OUTRO CONTINENTE E VOCÊS FAZEM O FAVOR DE SUMIR DO QUARTO, LEVANDO UMA MALA, SEM DEIXAR UM HUMILDE BILHETE OU QUALQUER COISA ASSIM? VOCÊS ERRARAM, E MUITO COMIGO! – gritou ela voltando a cara mal humorada, Sirius se assustou ao seu lado, tentou passar os braços ao redor dos ombros da menina para acalmá-la, mas ela o renegou batendo em sua mão.
- calma Bia, relaxa aí! – disse Tiago também assustado.
- CALMA É O CACETE! QUE FALTA DE CONSIDERAÇÃO TIAGO! SE VOCÊ QUERIA PEGAR ELA, IA PRA PRAIA, OU PELO MENOS AVISAVA ALGUÉM, OU QUALQUER COISA! E POR FALAR NISSO A ONDE VOCÊS ESTÃO?
- na casa da Lils, e a gente não vai sair daqui, e pára de gritar comigo como se você fosse a minha mãe, você ficar irritada tudo bem, mas pára de ser histérica e gritar comigo! – Tiago estava ficando irritado também
Sirius arregalou os olhos novamente quando Tiago disse ‘na casa da Lils, e a gente não vai sair daqui’.
Lils também, mas foi por ver o ‘controle’ que ele estava tendo diante a situação.
- AAH, me perdoe então Senhor Tiago Potter, PROMETO manter o tom educado e casual conversando com o senhor eu poderia, POR FAVOR, saber como vocês foram parar ai? – perguntou ela em um tom afiado e irônico, os olhos de Lils imediatamente marejaram e Tiago a apertou mais forte contra a parede.
- BIA, O TIAGO E A LILS SUMIRAM! – Remo praticamente invadiu o chalé que Bia dividia com Sirius, uma expressão preocupada estampada em seu rosto, e logo atrás Hils, com uma expressão mais para desesperada sendo seguida por Lice também desesperada e um pouco mais atrás Frank com uma careta de preocupação.
Bia olhou para Tiago com um olhar ainda mais irritado.
- ah sim, além da falta de respeito comigo, eu esqueci de comentar o quanto eu e o Sirius ficamos desesperados e preocupados com o sumiço de vocês!
- eles estão aí? – Remo empurrou Sirius para poder ver o rosto dos amigos, e por ultimo foi empurrado por Hils.
- onde vocês estão? – perguntou Hils um pouco menos desesperada.
- na casa da Lílian. – respondeu Sirius, distante de onde todos os outros estavam.
- belezura, agora VOLTEM! – Hils irônica.
- a gente não vai voltar, a Lils precisa de mim aqui! – disse Tiago a abraçando ainda mais forte.
- eu preciso de todos vocês aqui! Vocês podem vir, por favor? É urgente! – disse Lils em um suspiro se manifestando pela primeira vez.
Bia rapidamente mudou a cara de irritada e mal humorada para preocupada.
Lils deu o endereço de sua casa em Londres e menos de cinco minutos depois estavam todos os amigos na bem arrumada casa da família Evans.
Depois de todos se abraçarem, se sentaram nos dois sofás da sala, enquanto Lils se sentava na poltrona e Tiago no braço da mesma, segurando a mão da amiga.
- você ta bem, amiga? – Hils perguntou sentando na beirada do sofá, tentando se aproximar o máximo possível da amiga, Lils encosta a cabeça no ombro de Tiago, e apenas balança a cabeça demonstrando um ‘não’.
- o que aconteceu? – perguntou Remo preocupado.
- meus – engoliu um seco. – pais... eles... – não conseguiu terminar a frase, começando a chorar desesperadamente, sendo acolhida rapidamente por Tiago, que estava tão em choque quanto os outros amigos.
Os outros demoraram pelo menos dez minutos para se recuperarem do choque, Bia e Lice choravam silenciosamente, sendo abraçadas pelos respectivos ‘meninos’ enquanto Hils parecia estar em choque também sendo abraçada por Remo que também demonstrava o mesmo comportamento, assim como todos os meninos.
Assim que Hils conseguiu, se levantou do sofá e foi abraçar a amiga, alguns segundos depois estavam todos em volta de Lils a abraçando e falando frases de apoio.
Permaneceram nesse momento por muito tempo, Bia, Lice e Lils ainda choravam, a última desesperadamente quando a noite caiu.
Combinaram, já que, faltava menos de uma semana para todos retornarem a Hogwarts, que permaneceriam na casa de Lils.
Todos pegaram os três colchões de casal e as almofadas dos sofás e dormiram na sala.
No dia seguinte Lils estava melhor, bem melhor, como ela mesma tinha falado para Tiago, todos os amigos se empenharam em tentar faze-la esquecer, mesmo que eles próprios estivessem bem chocados com a notícia, e o fato dela não querer sair de casa não ajudando muito.
Passaram ainda mais um dia assim, todos sem reação e Lils parando de chorar apenas quando estava nos braços de Tiago, o que já ocupava metade do tempo útil deles.
No terceiro dia Hils conseguiu convencer todos a irem passar o dia no shopping, as meninas fazendo compras enquanto os meninos apenas olhavam e reviravam os olhos, depois foram ao cinema e depois a um restaurante, aquilo realmente funcionou para Lils, todos se divertiram e se convenceram mesmo que o melhor para a menina era a companhia e distração dos amigos.
No quarto dia as corujas de todos os oito chegaram e com eles mais uma chance de tirar Lils de casa indo ao Beco Diagonal e assim se passou mais um dia agitado e cansativo. Como sempre em véspera de retorno, o Beco estava lotado mas encontraram apenas alguns poucos conhecidos, dando total preferência a apenas fazer as compras e ir para um lugar mais reservado, jantar e matar o tempo.
Depois disso os dias passaram ainda mais rapidamente, Hils e Bia se revezando em arranjar qualquer desculpa para tirar Lils da casa, o que fazia todos saírem logo depois do almoço e voltarem apenas para dormir, entre um programa mais bizarro que o outro, de ir ao zoológico ou ao oftalmologista com Tiago (na:EOAOIHEASHOIEHOIH)
E assim o dia primeiro de setembro chegou, como já era de costume estavam todos extremamente atrasados, exceto Remo, Tiago e Sirius não tinham nem fechado a sua mala ainda, às 10h45min o táxi buzinava em frente a grande casa branca que Lils iria deixar pra trás, para nunca mais voltar, por mais que nos últimos dias ela realmente se lembrava pouco do acontecido, sempre mantendo a cabeça ocupada com outra coisa, no seu subconsciente, ela não podia deixar de se sentir sozinha, desprotegida e vulnerável, e mais do que nunca, naquele instante, abandonada no mundo, acabando o seu ultimo ano em Hogwarts, ela não teria mais o que fazer, não teria para onde ir, não teria para quem voltar e ninguém para dar um abraço saudoso de um ano de distância, não teria mais os braços do pai a envolvendo e muito menos os beijos na bochecha que sua mãe dava com lágrimas nos olhos, naquele momento, ela sentiu falta até de Petúnia, apesar de tudo, quando os quatro estavam juntos, ainda eram uma família, a sua família bizarra e perfeitamente comum, o seu modo de fugir do mundo, a sua mais sincera e necessária fortaleza, a sua mais preciosa e rígida base, uma coisa que ninguém, nunca ia conseguir tirar dela.
Com apenas uma lágrima no olho ela se virou novamente para o táxi e entrou, nenhum dos amigos disse sequer uma palavra até chegarem a estação de metrô de Londres.
Atravessaram a barreira 9 ¾ e lá estavam eles, novamente imersos no mundo da magia. |