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12. CAPÍTULO DOZE


Fic: Glória Mortal - Concluida


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO DOZE

O antídoto de Luna veio a calhar e funcionou como mágica. Gina ainda sentia um gosto estranho no fundo da garganta, mas estava completamente sóbria quando chegou ao edifício alto e brilhante, totalmente prateado, onde ficava o Canal 75.
O prédio tinha sido construído em meados dos anos vinte do século XXI, quando a prosperidade das empresas de mídia alcançara um patamar tão astronômico que os lucros gerados eram maiores do que o PIB de um país pequeno.
Um dos edifícios mais grandiosos da Avenida das Comunicações, ele se erguia a partir de uma base elevada larga e lisa, abrigava vários milhares de funcionários, cinco estúdios de última geração, incluindo o mais opulento equipamento da Costa Leste, e gerava um sinal forte o suficiente para enviar transmissões a todos os recantos do planeta e todas as estações orbitais.
A ala leste, para onde Gina foi encaminhada, ficava de frente para a Terceira Avenida, com seus imensos complexos de salas de cinema e prédios de apartamentos especialmente projetados para a conveniência da indústria do entretenimento.
Devido ao pesado tráfego aéreo que notou na região, Gina compreendeu que a notícia já se espalhara. Controlar a área ia representar um problema. Enquanto rodeava o edifício de carro, ligou para o setor de emergência e solicitou que toda a região fosse isolada, tanto por ar quanto por terra, e pediu também reforço para garantir a segurança nas ruas. Um homicídio bem no colo da mídia já ia ser bastante difícil de se lidar, e não era necessário que houvesse outros abutres sobrevoando o local.
Sentindo-se mais firme, Gina colocou o sentimento de culpa de lado e saiu do carro para se aproximar da cena do crime. Os policiais tinham estado ocupados, ela notou com alívio. Tinham isolado a área e já haviam lacrado a porta que dava para a rua. Os repórteres e suas equipes estavam todos lá, é claro. Não havia como mantê-los longe. Mas pelo menos ela tinha espaço para respirar.
Ela já prendera o distintivo no casaco e andou debaixo da chuva, até alcançar o local protegido pela cobertura impermeável que alguma alma caridosa havia colocado acima da cena do crime. Os pingos da chuva tilintavam melodiosamente sobre o plástico transparente e rígido da cobertura.
Ela reconheceu a capa de chuva e teve de lutar desesperadamente para superar a pressão instintiva e rápida que sentiu no estômago. Perguntou se a cena do crime já havia sido varrida eletronicamente e gravada, e ao receber uma resposta afirmativa ela se agachou.
Suas mãos estavam firmes como uma rocha no instante em que ela esticou o braço na direção do capuz que cobria o rosto da vítima. Ignorando o sangue que formava uma poça gosmenta em volta de suas botas, Gina conseguiu disfarçar o susto e o sobressalto que sentiu ao puxar o capuz para trás e dar de cara com o rosto de uma estranha.
- Quem é esta mulher? - quis saber.
- A vítima foi identificada como Louise Kirski, técnica do Departamento de Edição do Canal 75. - A policial pegou uma agenda eletrônica no bolso de sua capa de chuva preta e brilhante. - Ela foi encontrada aproximadamente às onze e quinze da noite, pelo repórter C. J. Morse. Ele vomitou todos os biscoitinhos que comeu bem ali ao lado. - continuou ela, demonstrando um leve desdém pelo excesso de sensibilidade dos civis. - Ele entrou por esta porta berrando feito um louco. A equipe de segurança do prédio foi verificar a história dele, e, como era previsível, deu o alarme. A emergência registrou a ligação às onze e vinte e dois. Eu cheguei aqui no local às onze e vinte e sete.
- Você conseguiu chegar bem depressa, policial?...
- Hermione Granger, tenente. Estava fazendo ronda na Primeira Avenida. Confirmei o homicídio, lacrei a porta externa e solicitei policiamento extra e um investigador.
Gina apontou com o queixo o prédio.
- Eles gravaram alguma coisa da cena do crime?
- Oficial, - a boca da policial Granger formou um traço fino - eu mandei que uma equipe do noticiário se retirasse do local assim que cheguei. Diria que eles tiveram bastante tempo para gravar tudo antes de interditarmos o local.
- Tudo bem. - Com os dedos envoltos pelo spray selante, Gina apalpou o corpo. Havia algumas fichas de crédito, um pouco de troco tilintando no bolso, um caro aparelho portátil de tele-link preso no cinto. Não havia feridas defensivas, sinais de luta, nem de assalto.
Ela gravou todas as informações de forma profissional, com a cabeça trabalhando a mil por hora. Sim, ela estava reconhecendo a capa de chuva, e assim que completou o exame inicial, levantou-se.
- Vou entrar. Estou aguardando a chegada do capitão Longbottom. Deixe-o passar. Ela pode ser liberada para o legista.
- Sim, senhora.
- Fique aqui, Granger. - decidiu Gina. A policial tinha um estilo bom e firme. - Mantenha os repórteres afastados. - Gina olhou por cima dos ombros, ignorando as perguntas que estavam vindo aos berros e o brilho das lentes. - Não dê declarações nem faça comentários.
- Não tenho nada a dizer a eles.
- Ótimo. Mantenha-se assim.
Gina tirou o lacre da porta, entrou e tornou a colocá-lo. O saguão estava quase vazio. Hermione, ou alguém como ela, já afastara todas as pessoas, com exceção das essenciais. Gina olhou para o segurança que estava atrás do balcão principal e perguntou:
- C. J. Morse. Onde ele está?
- A sala dele fica no sexto andar, seção oito. Alguns policiais, colegas seus, o levaram para lá.
- Estou esperando por outro colega. Diga a ele para onde eu fui. - Gina se virou e entrou no elevador.
Havia pessoas aqui e ali, algumas reunidas, outras em pé, sozinhas, diante de cenários de fundo, e falando sem parar para as câmeras. Ela sentiu um cheiro de café, o fedor de pó velho recém-preparado, tão semelhante ao que se encontrava nas salas apertadas da Central de Polícia. Sob outras circunstâncias, aquilo a teria feito sorrir.
O nível do barulho estava aumentando enquanto ela subia. Ela saltou no sexto andar e saiu no coração do zumbido frenético da sala do noticiário. As mesas ficavam de costas umas para as outras, com pequenos corredores de passagem entre elas. Tal como a Central de Polícia, as emissoras de TV funcionavam vinte e quatro horas. Mesmo àquela hora, havia mais de uma dúzia de estações de trabalho em atividade.
A diferença, Gina notou, era que os policiais pareciam sobrecarregados de trabalho, tinham o cabelo desgrenhado e viviam suados. Aquela equipe era um primor de perfeição. As roupas eram elegantes, as jóias pareciam prontas para as câmeras e os rostos estavam cuidadosamente maquiados.
Todos pareciam ter uma tarefa a executar. Alguns falavam com muita rapidez para as telas de seus tele-links, fornecendo notícias atualizadas para os sistemas de satélites, Gina imaginou. Outros esbravejavam para os computadores, ou ouviam alguém esbravejar do outro lado enquanto os dados eram solicitados, acessados e transmitidos para a fonte desejada.
Tudo parecia perfeitamente normal, com a diferença de que, misturado com o fedor do café de má qualidade, havia o odor pegajoso do medo. Um ou dois funcionários notou a passagem dela e fez menção de se levantar, com perguntas no rosto. O olhar brutalmente frio de Gina era tão eficiente quanto um escudo de aço.
Ela se virou para a parede onde as telas estavam unidas umas às outras.
Harry tinha um equipamento como aquele e Gina sabia que cada uma das telas podia ser usada para transmitir uma imagem em separado ou em qualquer combinação. Naquele instante, a parede estava totalmente tomada por uma imagem gigantesca de Nymphadora Tonks, transmitida do estúdio de notícias. Atrás dela via-se a familiar vista tridimensional da silhueta de Nova York.
Ela também parecia limpa, arrumada, perfeita. Seu olhar pareceu se encontrar e se fixar no de Gina no instante em que ela chegou mais perto para ouvir a transmissão.
- E mais uma vez nesta noite tivemos um assassinato sem sentido. Louise Kirski, uma funcionária desta emissora, foi assassinada a apenas alguns passos de distância do prédio onde trabalhava. O mesmo prédio de onde, neste instante, estamos transmitindo esta edição.
Gina não se deu ao trabalho de xingar quando Tonks acrescentou alguns detalhes e passou a palavra a Morse. Ela já esperava por aquilo.
- Uma noite comum. - disse Morse com sua voz forte e clara de repórter. - Uma noite chuvosa na cidade. Uma vez mais, porém, apesar do melhor que a nossa força policial conseguiu nos oferecer, ocorreu um assassinato. Desta vez este repórter que lhes fala tem condições de oferecer a você, telespectador, uma visão em primeira mão do horror, do choque e da sensação de desperdício.
Ele fez uma pausa, com um sentido exato do tempo, enquanto a câmera fazia um zoom e chegava próximo do seu rosto.
- Eu encontrei o corpo de Louise Kirski. Ele estava dobrado, sangrando, ao pé da escadaria deste prédio, onde tanto ela quanto eu trabalhamos durante muitas noites. Sua garganta acabara de ser cortada e o seu sangue ainda escorria na calçada molhada. Não tenho vergonha de dizer que fiquei gelado, me senti revoltado, e o cheiro da morte bloqueou os meus pulmões. Lá estava eu, em pé, olhando para baixo, para ela, incapaz de acreditar no que via com os próprios olhos. Como aquilo podia estar acontecendo? Uma mulher que eu conhecia, uma mulher com quem eu frequentemente trocava palavras gentis, uma mulher com quem, ocasionalmente, eu tinha o privilégio de trabalhar. Como era possível que ela estivesse jogada ali, sem vida?
A imagem de seu rosto pálido e sério foi desaparecendo aos poucos, sendo substituída por uma foto grotescamente detalhada que mostrava o cadáver. Eles não haviam perdido um segundo, pensou Gina com nojo, e se virou para o console mais próximo, perguntando:
- Onde fica esse estúdio?
- Como disse?
- Eu perguntei onde fica essa porcaria de estúdio. - e torceu o polegar em direção à tela.
- Bem, ahn...
Furiosa, ela se inclinou e agarrou o funcionário com os braços rígidos.
- Quer ver como eu fecho esta emissora em dois tempos?
- Décimo segundo andar, estúdio A.
Gina se virou no exato instante em que Neville saiu do elevador.
- Demorou a aparecer, hein, Longbottom?
- Ei, eu estava em Nova Jersey visitando parentes. - Ele nem se preocupou em perguntar mais nada, e seguiu em frente junto dela.
- Preciso interromper aquela transmissão.
- Bem... - Ele coçou a cabeça enquanto subiam. - Nós podemos armar uma cena e conseguir uma ordem para confiscar as imagens da vítima. - e movimentou os ombros quando Gina olhou para ele. - Assisti um pouco do programa no carro enquanto vinha para cá. Eles vão acabar conseguindo o material de volta, mas, de qualquer modo, dá para segurar as imagens por algumas horas.
- Caia dentro, então. Preciso de todos os dados disponíveis sobre a vítima. Eles devem ter registros por aqui.
- Isso é bem simples de conseguir.
- Envie todo o material para a minha sala, ouviu Neville? Vou para lá logo, logo.
- Tudo bem. Mais alguma coisa?
Gina parou de repente e olhou com cara feia para as grossas portas brancas do estúdio A.
- Pode ser que eu precise de ajuda aqui.
- Vai ser um prazer.
As portas estavam trancadas e um aviso informando que havia um programa no ar estava aceso. Gina lutou com a vontade forte de pegar na arma e arrebentar o painel de segurança. Em vez disso, colou o dedo no botão de emergência e esperou pela resposta.
- O noticiário do Canal 75 está sendo apresentado neste instante, ao vivo. - explicou uma suave voz eletrônica. - Qual é a natureza do seu problema?
- Emergência policial. - Gina pegou o distintivo e o levou até o sensor do scanner.
- Um momento, tenente Weasley, enquanto sua solicitação está sendo registrada.
- Não é uma solicitação. - disse Gina no mesmo tom. - Quero que estas portas sejam abertas agora ou serei forçada a invadir, de acordo com o Código 83-B, subparágrafo J.
Ouviu-se um zumbido suave, um chiado eletrônico, como se o computador estivesse considerando o assunto e expressando contrariedade logo em seguida.
- Liberando as portas. - informou a voz. - Por favor, permaneça em silêncio e não ultrapasse a linha branca. Obrigado.
Dentro do estúdio, a temperatura estava uns cinco graus mais baixa. Gina caminhou com decisão, direto na direção de uma divisória de vidro que ficava de frente para o cenário, e bateu com força suficiente para deixar o diretor do programa completamente branco de preocupação. Ele levantou um dedo desesperado diante dos lábios. Gina levantou o distintivo.
Com uma relutância óbvia, ele apertou o botão que abria a porta e com gestos pediu que eles entrassem.
- Estamos ao vivo. - disse, e se virou para acompanhar o programa. - Câmera três em Tonks. Imagem de Louise ao fundo. Marcar ângulo.
Os aparelhos robóticos do estúdio obedeceram com leveza. Gina olhou a pequena câmera suspensa mudar de ângulo. No monitor de controle, o rosto de Louise Kirski sorria alegremente.
- Devagar, Tonks. Não se apresse. E você, C. J., esteja pronto em dez segundos.
- Jogue os comerciais. - disse Gina.
- Estamos transmitindo este programa especial sem intervalos comerciais.
- Jogue os comerciais - repetiu ela - ou tiro vocês do ar. - O diretor franziu o cenho e estufou o peito.
- Olhe, escute aqui... - disse ele.
- Não, é você que me escutará, e com atenção. - Gina cutucou o peito expandido do diretor repetidas vezes, de forma pouco gentil. - Você está com a minha testemunha lá. Agora faça direitinho tudo o que eu mandar ou os seus concorrentes vão colocar a audiência nas nuvens com a história que eu vou passar para eles, relatando como o Canal 75 interferiu na investigação policial do assassinato de uma das suas funcionárias. - Gina levantou uma sobrancelha, enquanto ele considerava o que ela dissera. - E talvez eu esteja até começando a achar que você me parece suspeito... Você não acha que ele tem cara de assassino, Neville?
- Estava pensando exatamente nisso. Talvez tenhamos de leva-lo para a delegacia para uma longa conversa. Depois de tirarmos a roupa dele, para revistá-lo.
- Esperem aí, por favor, esperem um pouco! - Ele passou a mão na boca. Que mal ia fazer um intervalo comercial de noventa segundos? - Preparem o intervalo em dez segundos. C. J., encerre a sua parte. Prefixo musical. Câmera um, panorâmica aérea para trás. Marque o ângulo.
Soltou um longo suspiro e completou:
- Vou chamar os nossos advogados.
- Isso, pode chamar. - Gina saiu da cabine e foi até a comprida mesa preta que Tonks e Morse dividiam.
- Nós temos o direito de...
- Eu vou lhe contar sobre os seus direitos. - Gina interrompeu Morse. - Você tem o direito de ligar para o seu advogado e pedir para que ele vá encontrá-lo na Central de Polícia.
Ele ficou branco como papel.
- Você está me prendendo. Jesus Cristo, você pirou?
- Você é uma testemunha, babaca! E não vai dar mais nenhuma declaração enquanto não der uma para mim. Oficialmente. - Lançou um olhar pungente na direção de Tonks. - Você vai ter de se virar sozinha durante o resto do programa.
- Quero ir junto com vocês. - Com as pernas bambas, Tonks se levantou. A fim de dispensar os gritos frenéticos que vinham da cabine de controle, ela arrancou o ponto eletrônico da orelha e o atirou sobre a mesa. - Provavelmente eu fui a última pessoa a falar com ela.
- Ótimo. Conversaremos sobre isso. - Gina os encaminhou para fora, fazendo uma pausa rápida, só para soltar um risinho cruel na direção da cabine do diretor. - Vocês podem tapar esse buraco na programação passando umas velhas reprises do seriado Nova York contra o Crime. É um clássico.


- Muito bem, C. J., muito bem. - Por mais infeliz que estivesse se sentindo, Gina ainda conseguia apreciar aquele momento. - Finalmente consegui colocar você onde eu queria. Está confortável?
O rosto dele ainda estava meio verde, junto às narinas, mas ele conseguiu lançar um olhar de escárnio enquanto olhava em torno, na sala de interrogatório.
- Vocês bem que podiam contratar um decorador para embelezar as coisas por aqui.
- Estamos tentando encaixar isso no orçamento. - Gina se recostou, sentada ao lado da mesa, que era o único móvel da sala. – Gravando. - pediu ela. - Primeiro de junho... Nossa, como o mês de maio passou rápido... Entrevistado, C. J. Morse, na sala de interrogatório C. Entrevista conduzida pela tenente Gina Weasley. Referência: homicídio. Vítima: Louise Kirski. Horário: zero hora, quarenta e cinco minutos. Senhor Morse, o senhor já foi orientado acerca dos seus direitos. Deseja a presença de seu advogado durante esta entrevista?
Ele pegou um copo com água e tomou um gole.
- Estou sendo acusado de alguma coisa?
- No momento, não.
- Então vamos em frente.
- Leve-me de volta ao local do crime, C. J. Conte-me exatamente o que aconteceu.
- Tudo bem. - Ele bebeu mais um pouco de água, como se a sua garganta estivesse ressecada. - Eu estava indo para a emissora. Sou o co-âncora do jornal da meia-noite.
- A que horas você chegou?
- Mais ou menos às onze e quinze. Usei a entrada do lado leste. Muitos de nós usam aquela entrada, porque vai dar direto na sala do noticiário. Estava chovendo, então eu dei uma corrida, quando saí do carro. Foi quando eu vi alguma coisa no chão, na base dos degraus. Não consegui identificar o que era, a princípio.
Ele parou de falar, cobriu o rosto com as mãos e o esfregou com força.
- Não consegui identificar - continuou - até chegar praticamente em cima dela. Eu pensei... Nem sei o que pensei direito, na verdade achei que alguém tinha tomado um porre fenomenal.
- Você não reconheceu a vítima?
- O... O capuz... - e gesticulou vagamente e sem controle - Estava cobrindo o rosto. Eu me agachei e comecei a afastá-lo do rosto dela. - Neste ponto, ele tremeu violentamente. - Foi quando eu vi o sangue, a garganta dela. O sangue. - repetiu, cobrindo os olhos.
- Você tocou no corpo?
- Não, acho que... Não, não toquei. Ela estava jogada ali e a garganta estava toda aberta. Os olhos!... Não, eu não a toquei. - Deixou as mãos caírem novamente, e fez o que parecia um esforço hercúleo para se controlar. - Eu passei mal do estômago. Você provavelmente não entende essa sensação, Weasley. Algumas pessoas possuem reações humanas básicas. Todo aquele sangue, os olhos dela. Deus, eu vomitei, fiquei apavorado e corri para dentro. Vi o guarda no balcão e contei para ele.
- Você conhecia a vítima?
- Claro, eu a conhecia. Louise já tinha feito a edição de algumas matérias para mim. Na maior parte do tempo ela trabalhava com Tonks, mas fez alguns trabalhos para mim e para outros. Ela era boa em seu trabalho, muito boa. Tinha um olho rápido e certeiro. Era uma das melhores. Cristo! - Ele pegou a jarra de água sobre a mesa. Derramou um pouco fora do copo quando se serviu. - Não havia motivo para matá-la. Não havia motivo algum.
- Era costume dela sair por aquela porta, àquela hora?
- Não sei. Acho que ela... Ela devia estar trabalhando na sala de edição. - disse com voz furiosa.
- Vocês eram chegados, em nível pessoal? - Ele levantou a cabeça e franziu o cenho.
- Você está tentando me comprometer nessa história, não está, Weasley? Você adoraria isso!
- Apenas responda às perguntas, C. J. Você tinha algum envolvimento com ela?
- Ela tinha um relacionamento, falava muito sobre um cara chamado Bongo. Nós trabalhávamos juntos, Weasley. Apenas isto.
- Você chegou no prédio do Canal 75 às onze e quinze. E antes disso?
- Antes disso, estava em casa. Quando estou escalado para o jornal da meia-noite eu dou uma cochilada de duas horas. Não tinha nenhuma matéria especial para apresentar, então não havia muito o que preparar. Era para ser apenas uma leitura no teleprompter, um resumo das notícias do dia. Jantei com alguns amigos por volta das sete da noite, fui para casa às oito e tirei um cochilo.
Ele colocou os cotovelos sobre a mesa e enterrou a cabeça nas mãos.
- Acordei às dez e saí pouco antes das onze. Quis me garantir, saindo um pouco mais cedo de casa, por causa do tempo. Jesus, Jesus, Jesus.
Se Gina não tivesse visto o seu relato diante das câmeras poucos minutos depois de ter descoberto o corpo, poderia até mesmo sentir um pouco de pena dele.
- Você viu alguém no local, ou nas proximidades da cena do crime?
- Apenas Louise. Não há muita gente entrando e saindo da emissora àquela hora da noite. Não vi ninguém. Apenas Louise. Apenas Louise.
- Ok, C. J. Isso é tudo, por ora.
Ele pousou o copo depois de beber um pouco mais, com avidez, em cima da mesa.
- Já posso ir?
- Lembre-se de que você é uma testemunha. Se estiver me escondendo alguma coisa, ou se lembrar de alguma coisa não revelada nesta entrevista e não vier me contar, eu posso acusá-lo de ocultar provas e dificultar a investigação. - Gina sorriu com satisfação. - Ah, e informe os nomes daqueles seus amigos, C. J. Eu nem pensei que você tivesse algum.
Ela o liberou e ficou remoendo os fatos enquanto esperava que Tonks fosse trazida. A situação era muito clara. E um sentimento de culpa bateu forte. Para manter tudo bem vivo na cabeça, ela folheou o conteúdo da pasta e analisou as fotos de Louise Kirski, ampliadas. Virou-as para baixo quando a porta se abriu.
Tonks não parecia nem um pouco arrumada naquele momento. O brilho profissional da personalidade que trabalhava ao vivo tinha dado lugar a uma mulher pálida e abalada, com os olhos inchados e a boca trémula. Sem dizer nada, Gina apontou para a cadeira e serviu-se de um pouco de água em outro copo.
- Você foi bem rápida, Tonks - disse com frieza - para dar a notícia ao vivo.
- Esse é o meu trabalho. - Tonks nem tocou no copo, mas apertou as mãos uma contra a outra no colo. - Você faz o seu trabalho, eu faço o meu.
- Certo. Estamos apenas servindo ao público, não é?
- Não estou muito interessada no que você está pensando a meu respeito neste instante, Weasley.
- Que bom, porque eu não estou pensando muita coisa boa de você no momento. - Pela segunda vez ela ligou o gravador e forneceu todas as informações necessárias. - Quando foi a última vez em que você viu Louise Kirski com vida?
- Nós estávamos trabalhando juntas na sala de edição, acertando as imagens e o tempo de uma matéria que ia ao ar no jornal da meia-noite. Não levou tanto tempo quanto imaginávamos para terminar. Louise era boa, muito boa. - Tonks respirou fundo e continuou a falar, olhando para um ponto que ficava alguns centímetros acima do ombro esquerdo de Gina. - Conversamos por alguns minutos. Ela e o rapaz com quem estava saindo nos últimos meses estavam procurando por um apartamento. Iam morar juntos. Ela estava feliz. Louise era uma pessoa feliz, era fácil de se lidar, brilhante.
Ela foi obrigada a parar de novo, teve de parar. Sua respiração estava presa. Com cuidado e firmeza, ela ordenou a si mesma que inspirasse e expirasse. Duas vezes.
- Enfim - continuou - ela viu que estava sem cigarros. Gostava de dar uma fumada entre uma tarefa e outra. Todo mundo fingia que não via, mesmo quando ela se esgueirava, entrava em um Hepósito qualquer e acendia um cigarro. Eu até pedi que ela me trouxesse uns dois cigarros da rua, e lhe dei algumas fichas de crédito. Nós descemos juntas e eu fiquei na sala do noticiário. Tinha umas ligações para fazer. Se não fosse por isso, teria ido com ela. Estaria com ela naquele instante.
- Vocês duas geralmente saíam juntas antes do programa?
- Não. Normalmente eu faço um intervalo de alguns minutos, saio, vou tomar um café tranqüilo em uma pequena cafeteria na Terceira Avenida. Eu gosto de... sair um pouco da emissora. Especialmente antes da edição de meia-noite. Temos um restaurante, uma sala de estar e uma cafeteria dentro do prédio da emissora, mas eu gosto de dar um tempo e tiro uns dez minutos para ficar sozinha.
- Habitualmente?
- Sim. - Tonks sentiu o olhar de Gina e desviou o rosto. - Habitualmente. Só que eu precisava fazer essas ligações, e estava chovendo, então... Então eu não fui. Emprestei minha capa a Louise e ela saiu. - Seu olhar se focou de volta no de Gina. E ele estava arrasado. - Ela foi morta no meu lugar. Eu sei disso, e você sabe também. Não é, Gina?
- Eu reconheci a sua capa de chuva. - disse Gina, lacônica. - Pensei que fosse você.
- Ela não fez nada, apenas deu uma saída para comprar uns cigarros. Lugar errado, hora errada. Capa errada.
Isca errada, pensou Gina, mas não falou.
- Vamos raciocinar passo a passo, Tonks. Uma editora de TV possui uma certa quantidade de poder, de controle.
- Não. - Lenta e metodicamente, Tonks balançou a cabeça para os lados. O enjôo do estômago subira, se instalara na garganta e tinha um gosto horrível. - A história que é importante, Weasley, a personalidade de quem apresenta os fatos no ar. Ninguém valoriza, nem sequer pensa no trabalho do editor, só no do repórter. Ela não era o alvo, Weasley. Vamos parar de fingir que era.
- O que eu acho e o que eu sei são duas coisas trabalhadas de forma diferente, Tonks. Mas vamos seguir com o que eu sei por enquanto. Acho que você era o alvo, e acho que o assassino confundiu Louise com você. Vocês têm um corpo bem diferente uma da outra, mas estava chovendo, ela estava usando a sua capa de chuva, estava de capuz. Não houve tempo, ou não houve escolha, depois que o erro foi descoberto.
- O quê? - Confusa por ver a situação descrita tão objetivamente, Tonks tentava se concentrar no relato. - O que você disse?
- Que tudo acabou muito depressa. Tenho o registro da hora exata em que ela passou pelo balcão da segurança. Ela acenou para o guarda. Temos Morse, que quase tropeçou nela dez minutos depois. Ou o tempo foi marcado de forma incrivelmente exata ou o nosso assassino é um exibido. Pode apostar que ele queria assistir a tudo no noticiário da meia-noite, antes mesmo que o corpo dela esfriasse.
- Então nós fizemos tudo o que ele queria, não foi?
- Foi. - Gina concordou. - Você fez.
- E você acha que foi fácil para mim? - A voz de Tonks, rouca e áspera, explodiu. - Acha que foi moleza eu me sentar lá e apresentar a notícia, sabendo que ela ainda estava caída lá fora?
- Não sei. - disse Gina, com suavidade. - Foi fácil?
- Ela era minha amiga. - Tonks começou a chorar, as lágrimas transbordaram e começaram a escorrer pelo rosto, deixando sulcos na pesada maquiagem de TV - Eu me preocupava com ela. Droga, ela era importante para mim, não era só uma história! Ela não era só a porcaria de uma história.
Lutando para administrar a própria culpa, Gina empurrou o copo de água na direção de Tonks.
- Beba. - ordenou. - Descanse um minuto.
Tonks teve de usar as duas mãos para manter o copo precariamente firme. Ela preferia, descobriu naquele instante, que fosse uma dose de conhaque, mas isto ia ter de esperar.
- Eu vejo esse tipo de coisa acontecer o tempo todo, não é muito diferente do seu caso.
- Mas você viu o corpo. - acusou Gina. - Foi correndo lá fora, na cena do crime.
- Eu tinha de ver. - Com os olhos ainda cheios de lágrimas, ela olhou de volta para Gina. - Era uma coisa pessoal, Weasley. Eu tinha que ver. Não consegui acreditar quando a notícia se espalhou.
- E como foi que a notícia se espalhou?
- Alguém ouviu Morse gritando para o guarda que alguém estava morto, que uma pessoa acabara de ser assassinada bem na porta. Isto atraiu muita atenção. - explicou ela, massageando as têmporas. - As notícias voam. Ainda não tinha terminado de dar o segundo telefonema quando ouvi o bochicho. Dispensei o papo com a minha fonte e desci. E então eu a vi. - Seu sorriso era sombrio e sem humor. - Cheguei antes das câmeras, e antes da polícia.
- E você e seus colegas se arriscaram a adulterar a cena de um crime. - Gina passou a mão pelo cabelo. - Já está feito, paciência. Alguém tocou nela? Você viu alguém tocar nela?
- Não, ninguém é assim tão idiota. Era óbvio que ela estava morta. Dava para ver. Dava para ver o corte, o sangue. Chamamos uma ambulância, mesmo assim. O primeiro carro da polícia chegou em poucos minutos, a policial mandou que entrássemos de volta e lacrou a porta. Eu falei com o policial. Granger, era o seu nome. - e passou os dedos sobre as têmporas, não porque estivessem doendo, mas porque estavam dormentes. - Disse a ela que era Louise, e então subi para me preparar para o noticiário. E o tempo inteiro eu fiquei pensando era para ser eu. Lá estava eu, viva, olhando para a câmera, e Louise estava morta. Era para ser eu.
- Não era para ser ninguém.
- Nós a matamos, Weasley. - A voz de Tonks estava novamente firme. - Você e eu.
- Acho que vamos ter de conviver com isso. - Gina deu um suspiro profundo e se inclinou para a frente. - Vamos repassar a seqüência cronológica dos fatos, Tonks. Passo a passo.



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