Nota da autora:Preciso de um/uma beta-reader urgente! Alguém se habilita? É muita coisa para betar, mas acho que ninguém tem pressa. Por favor, deixe e-mail se puder me ajudar!
PARTE I
12 Outubro de 2002, 06:15
O sol havia acabado de nascer. Prometia ser uma manhã clara,e também muito fria, mas sem o desconforto que se tem no Inverno.
Harry estava meio acordado, meio dormindo. Ele estava deitado de lado, na ponta da cama, olhando sem muita convicção um relógio de madeira que estava em cima de uma estante. Após alguns instantes, ele considerou que talvez fosse melhor voltar a dormir, afinal, agora ele tinha se lembrado, era sábado, e não havia nada de sério para ser feito.
Quando já estava quase de volta ao sono, Harry sentiu um solavanco na cama, mas seu estado de torpor o impediu de dizer qual foi a intensidade desse movimento. Era como se alguém tivesse caído na cama... não, talvez apenas tivesse se recostado com um pouco mais de força.
Seu instinto de sempre procurar a origem de movimentos que ele não viu ocorrer acabou por acordá-lo totalmente. Ele se sentou na cama e viu que tudo no quarto estava normal. E, principalmente, viu que Hermione estava deitada ao seu lado, dormindo, e que estava segura.
Janeiro de 1998, 22:45
O corredor estava muito escuro, mas mesmo assim ela corria como se fosse capaz de ver cada pedra que formava o chão. Após quase sete anos andando pelo castelo, ela se sentia muito segurar em correr, apesar de não ver nada. A neblina escura estava cada vez mais densa, e era indiscutível a sensação de que o ar estava ficando mais pesado, e a respiração cada vez mais difícil. Mas nada importava, ela tinha que fazer o que precisava ser feito.
Nunca houve o momento exato em que a certeza de que era capaz de sacrificar sua vida lhe ocorreu, mas ela a tinha dentro de si como a certeza de que precisava encher e esvaziar os pulmões de ar se quisesse continuar vivendo. Isso não era por que era uma bruxa, ou por que era capaz de fazer mágica... ela era uma Granger, e, como tal, defendia aquilo em que acredita até o fim, não importava se isso iria salvar uma pessoa ou a humanidade inteira.
Naquela situação em especial, Hermione sabia que seu êxito poderia ser a garantia de que bilhões de vidas fossem poupadas, mas a verdadeira fonte de energia para enfrentar o medo e o perigo era uma pessoa só. Ela o amava, e não queria desapontá-lo. Mais do que isso, ela não podia deixar que ele morresse. Viver sem ele seria pior que a própria morte.
Mas só seu amor não bastava. Era preciso fazer algo efetivo, algo que pudesse dar a ele chances de vencer, de sobreviver. Seu plano a colocava em risco mais que qualquer pessoa que lutava contra as forças das trevas naquele momento, mas ela sabia que mais cedo ou mais tarde alguém teria de se sacrificar. Aliás, muitos já haviam se sacrificado, e aquela era a batalha final, ela podia sentir, e momentos decisivos exigem atitudes extremas.
Apesar de seus pensamentos estarem concentrados em quase mil coisas diferentes, ela ainda assim era capaz de se manter no caminho, sem tropeçar ou bater contra uma parede. Finalmente, quando já estava chegando ao seu destino, ela virou e viu uma fonte de luz. Uma luz vermelha, pulsante. Hermione desacelerou, e agora sua corrida havia sido substituída por um caminhar lento, porém decidido. Seus passos quase não emitiam ruídos, porém, ao se aproximar da sala que abrigava a luz, alguém falou, já ciente de sua aproximação.
“Então, veio salvar o mundo?” disse a voz, sem que fosse possível localizar a direção de onde vinha.
“Vim parar você, e seja lá o que for que você esta mantendo aí.” Hermione respondeu, sem hesitar. Sua voz tinha uma firmeza que a garota não sabia ser capaz de ter.
“Isso é alguma piada?” agora a voz não era mais tão difusa. Hermione era capaz de ver um vulto escuro se aproximando por trás da fonte de luz, e seus contornos foram se tornando cada vez mais nítidos à medida que caminhava em direção à porta. “Você, com sua magia infantil, acha que pode me deter? Você acha que é capaz de lutar contra 300 anos de conhecimento, treinamento, experiência?”
“Se quer saber, acho.” Dessa vez, Hermione sabia que não tinha soado tão segura quanto da primeira. A última palavra, na verdade, quase não saiu. Ela tremia de pensar que, na verdade, seu plano nada podia contra alguém tão poderoso quanto a pessoa que agora lhe encarava, sem um único traço de medo ou insegurança. Hermione sabia o que precisava fazer, mas não tinha idéia de como o fazer. Talvez sua idéia tivesse sido idiota, e sua morte seria em vão.
“Menina, o que você estava pensando? Que poderia vir aqui, colocar tudo a perder, e depois escrever um livro contando sua façanha? Ou melhor, que usaria seu discurso eu-sei-de-tudo, me mataria de raiva, e depois cairia nos braços do Harry, que lhe seria eternamente grato?” A fala era cheia de sarcasmo e desdém. Foi quase teatral, e ao mesmo tempo cruel, e terminou com uma risada capaz de desestabilizar qualquer um.
Hermione se sentia cada vez mais tola por ter se aventurado sozinha, sem qualquer preparação. Por mais desprezível, asquerosa, e detestável que sua inimiga fosse, era inegável sua superioridade naquele embate. Hermione a conhecia, talvez não a ponto de ter podido prever que se tratava de uma espiã infiltrada em Hogwarts para abrir caminho para um ataque de Voldemort, mas a conhecia suficientemente bem para saber que ela era uma perigosa mistura de conhecimento, força física, habilidade com a magia e inteligência. Eram todas a características que a fez admirá-la durante todo o tempo em que conviveram, e seria o motivo de sua maior derrota. A professora que Hermione mais admirou em toda sua vida estava prestes a matá-la, e isso a angustiava ainda mais.
Como eu pude ter sido enganada por tanto tempo? Ela não tinha parado de se indagar isso desde que descobriu a trama. Sua professora de Defesa Contra as Artes das Trevas desde o sexto ano, era, na verdade, uma Comensal da Morte.
Não que fosse novidade um professor dessa matéria se revelar alguém maligno, aliás, era quase regra, porém, assim como o Professor Lupin, que foi uma maravilhosa exceção, Hermione achava que a Professora Victoria Valtingojer também o seria. Ela tinha visto, pessoalmente, a professora matar dois conhecidos Comensais da Morte que tentaram atacar alunos que passeavam pelas ruas de Londres nas férias de verão antes do início do sexto ano. Era tudo fingimento, e era assustador pensar que, para conseguir o que queria, Voldemort era capaz de sacrificar seus próprios aliados, e armar a cena em que Victoria os mataria e, assim, conquistaria a confiança de todos. Ela entrou para a escola já adorada pelos alunos, e se tornou a melhor amiga mulher que Hermione havia feito na vida. Pelo menos ela achava isso. E eu cai, como uma idiota. De que serviram tantos livros e sabedoria, se minha ingenuidade me fez cair em toda suas armações?
“Então é isso, vai ficar aí, me olhando? Esse é seu plano? Sabe, eu sempre soube que sua prepotência seria o motivo de sua desgraça. Você se acha tão genial, tão perfeita, que jamais parou pra pensar que nada disso tem valor perto de alguém como eu, que além de genialidade e perfeição, tem séculos de aprimoramento de magia, e já enfrentou os mais experientes bruxos.” disse Victoria sem se mexer, apenas mantendo seu rosto levantado, deixando bem claro sua desconsideração pela presença e habilidades de sua aluna.
Hermione não podia mais ficar calada, sabia que deixar Victoria dominar a situação era declarar sua derrota sem sequer lutar. “Sim, não sou perfeita, e nem você é. Já enfrentou os mais experientes bruxos, e perdeu, sim! Você é a mestiça que o Professor Binns mencionou. Há 100 anos atrás, você perdeu, e perdeu feio. Uma Auror te derrotou, e você foi dada como morta por quase 80 anos. Tenho pena de imaginar como devem ter sidos esses anos. A humilhação, o aband...”
“CALE-SE!” Por um segundo, Victoria perdeu sua postura. Isso deu a Hermione a chance de respirar com um pouco mais de tranqüilidade. Porém, esse curto momento logo foi esquecido pela falsa professora, que rapidamente se recompôs e voltou a falar com a mesma frieza que antes. “Você não passa de um monte de palavras sem qualquer senso crítico, Hermione. Nada do que você disser vai torná-la mais poderosa. O que aconteceu comigo só me tornou mais forte, mais perseverante. O que me torna mestiça é o que me dá tanto poder. Um perfeito equilíbrio entre a força vampírica e a magia dos bruxos.”
“Você não é invencível, Victoria. Eu posso não saber como ainda, mas vou encontrar seu ponto fraco, e vou te derrotar. Não tenha dúvida.” A única dúvida que Hermione tinha era de onde ela havia tirado força para dizer tais palavras, e sem um pingo de hesitação. Mas a imagem do rosto do Harry, que poderia estar correndo risco de vida, logo se revelou como a fonte de sua força.
Victoria parecia bem mais preparada para qualquer coisa que pudesse ser dita, e, se aquelas palavras a abalaram de alguma forma, ela não deixou transparecer. “Você é uma tola, e sua paixão pelo Harry a tornou uma tola suicida.”
“E você é uma demente, e sua obsessão por poder a tornou um ser sem sentimentos” retrucou Hermione.
“Sabe, muita conversa, pouca ação... esse pode ser o seu estilo, mas não é o meu.” Mal terminou a frase e a varinha de Victoria já expelia raios amarelos em direção à Hermione. A garota só teve tempo de se jogar no chão e rolar para não ser atingida pela seqüência de raios que iam sem sua direção. “Vamos garota, lute! Eu estou apenas me divertido, não quero te matar rápido.”
Victoria colocou a mão que empunhava a varinha na cintura, e ria enquanto Hermione se levantava, apoiando-se na parede. Já de pé, ela pegou sua varinha, mas a manteve baixa. Após alguns segundos, e sem nenhuma das duas pronunciar uma única palavra, Victoria voltou a atacar, mas sem muito interesse em atingir a garota.
Hermione tentava bloquear os feitiços, mas era inútil uma vez que sua legilemência era insuficiente para ler os pensamentos de alguém que há séculos praticava oclumência. Sem saber mais o que fazer, Hermione correu para uma pilastra em um dos cantos da sala e se escondeu atrás dela.
“Com medo, menina? Acha que se escondendo pode salvar sua vida? Sinceramente, é patético isso, eu esperava mais de você.” Disse Victoria num tom que lembrava muito o que ela usava quando fingia ser professora e queria estimular os alunos a enfrentar seus medos.
Hermione se sentia perdida, sem qualquer esperança. Talvez Victoria tivesse razão. Ela era uma prepotente, arrogante, e se julgou capaz de algo que estava longe de suas capacidade. Ela podia ter muita teoria, mas para enfrentar alguém como Victoria, era preciso muito treinamento, assim como a Auror que séculos atrás a tinha vencido.
Ao se lembrar novamente da história contada pelo professor de História da Magia, Hermione levou a mão a boca e sentiu uma ponta de esperança. Talvez houvesse uma saída, e ela estava na forma de um cordão invisível no seu pescoço. Ela levou a mão à abertura da blusa e puxou algo, inicialmente, invisível, mas que, segundos depois, se materializou. Era um cordão de metal escuro, com um pingente que lembrava uma gota de vidro alongada. Dentro da gota, um líquido dourado cintilante era visto preenchendo toda a cavidade, e seu brilho aumentava com o movimento da mão tremula da garota.
Um sorriso se abriu no seu rosto, e ela sentiu que agora tinha um plano à altura de sua rival. Por uma fração de segundos sua mente reconstituiu a origem daquele ornamento mágico.
Flashback
O terceiro ano havia terminado. Porém, seus acontecimentos tinham marcado Hermione de tal forma que ela decidiu que precisava fazer algo. Ao ver a vida de seus amigos, e sua própria vida, em risco, ela sentiu que não podia mais ficar esperando passivamente que Voldemort executasse mais algum plano mirabolante e matasse alguém que ela amava.
Com esse pensamento, Hermione incumbiu a si mesma a missão de fazer alguma coisa. Ela queria ter um trunfo, um plano B, algo que pudesse ser usado na próxima vez que eles chegassem a uma situação extrema. Isso por que ela sabia que a jornada de Harry era sua jornada agora, e que ela estaria ao seu lado até o fim.
Hermione passou o início de suas férias garimpando em bibliotecas, mantidas pelo Ministério da Magia para o uso da população bruxa, mas chegou à conclusão que nada se equiparava à coleção de livros em Hogwarts, e que qualquer coisa que ela fizesse iria envolver magia, por tanto, só poderia ser feita dentro dos limites da escola.
Quando o quarto ano começou, Hermione imediatamente iniciou sua pesquisa. Ela queria algo poderoso, mas que não envolvesse magia negra. A verdade é que ela não sabia por onde começar, então resolveu pegar seu registro da biblioteca para rever todos os livros que já tinha lido, e ver se algum deles poderia ser útil.
A estante que guardava as fichas dos alunos era quase do tamanho do Big Bang, e nela havia as fichas de todos os alunos que haviam estudado na escola desde sua fundação, porém, graças à magia que havia nela, todas as gavetas eram perfeitamente acessíveis, bastava a pessoa querer alcançá-la. Apesar dessas facilidades, Hermione sempre tinha problemas para se comunicar com a estante, que parecia gostar de pregar peças na garota. Ela se concentrou na gaveta para sobrenomes com G, mas a estante achou mais divertido arremessar a gaveta para a letra E. Já acostumada a esses acessos da estante, Hermione apontou a varinha paras as fichas espalhadas no chão e pronunciou o feitiço que já havia se habituado a usar nesses casos. Para cada monte de fichas, bastava dizer o feitiço uma vez e elas voltavam para a gaveta em perfeita ordem.
Quando foi lançar o feitiço sobre algumas fichas que estavam bem ao seu lado, Hermione hesitou ao ler o nome da ficha que estava no topo. Evans, Lílian. Ela sorriu e se abaixou para pegar a ficha. Aquela era a ficha da mãe de seu amigo, Harry, por isso Hermione pensou em guardá-la para mostrá-lo. Talvez ele ficasse feliz ao ver algo que pertenceu à sua mãe, já que seus vínculos com seus pais eram tão escassos. Resumiam-se à algumas lembranças difusas, um álbum de fotografias e uma capa de invisibilidade.
Hermione guardou com carinho a ficha da mãe de Harry, terminou de organizar as fichas na gaveta, e devolveu à estante, que, provavelmente irritada por saber que uma de suas fichas havia sido roubada, decidiu ficar estática e não fornecer mais uma única ficha.
De volta à mesa em que havia depositado sua mochila e alguns livros na biblioteca, Hermione se sentou, frustrada por saber que não veria sua ficha tão cedo. Como não sabia por onde começar, Hermione resolveu examinar a ficha da mãe de Harry. Ela já tinha notado que a ficha era muito grossa, cheia de folhas extras, e todas preenchidas por centenas de registros de empréstimo de devolução de livros. Hermione achava que tinha uma ficha muito grande, mas a de Lílian era várias vezes mais extensa. Hermione pensou se, até o sétimo ano, seria capaz de ter uma ficha daquela. Aleatoriamente, ela examinou as centenas de títulos que foram pegos emprestados na época que Lílian era aluna. Eram muito variados, e Hermione teve a feliz surpresa de notar que seu gosto por livros era muito parecido com a da mãe do Harry. Elas tinham preferências parecidas por alguns autores, edições, e até no estilo para livros de literatura. Nas últimas páginas, Hermione encontrou títulos que nunca tinha tido a oportunidade ler, e notou que, com os anos, o gosto de Lílian por temas relacionados com magia medieval havia se intensificado. Havia um título em particular, Feitiços, Amuletos e Poções: a magia do coração altruísta, que tinha registro de empréstimo pelo menos umas 50 vezes. Com certeza era um dos favoritos de Lílian.
Já que não tinha sua ficha para pesquisar, Hermione resolveu pegar alguns títulos mais recorrentes na ficha da Lílian, e começar sua pesquisa por eles.
Em A magia de quem tem virtude, Hermione viu mais um livro de filosofia que um guia para feitiços. Para os títulos As poções de Morgana e A mágica do Rei previnido, Hermione teve dúvida sobre os riscos envolvidos nas magias pregadas pelos livros, uma vez que era recorrente a conduta de que era aceitável matar um para salvar 100.
Quando finalmente chegou ao livro que tanto havia sido registrado na ficha de Lílian, Hermione teve um bom pressentimento, apenas de olhar a capa. Nela, havia um coração de couro marrom-avermelhado, cheio de divisões feitas por fios metálicos, dando ao coração a aparência de um continente em um Atlas e suas demarcações territoriais. Após ler as primeiras páginas, ela pode aferir que o livro falava sobre a força da magia feita em benefício de terceiros, e como o amor era elemento fundamental para potencializar a magia. Quando havia terminado a introdução, a garota se deu conta de que já estava muito tarde, e que Harry e Ron já deviam estar no Salão Principal esperando por ela para jantar.
Hermione juntou suas coisas e, com Feitiços, Amuletos e Poções: a magia do coração altruísta embaixo do braço, dirigiu-se ao salão para jantar.
Algum tempo mais tarde, Hermione já estava em seu quarto, sentada na cama, e com o livro aberto em seu colo. Os primeiros feitiços era incríveis, um nível de magia que ela jamais tinha visto. Era a primeira vez que lia um livro que dizia que a magia é a expressão do sentimento, e que grandes sentimentos criam grandes magias.
Hermione não conseguia parar de ler, e mesmo com as horas correndo, e a noite indo embora, ela continuava lendo página atrás de página. As poções envolviam ingredientes que ela jamais pensou que pudessem ser usados, os amuletos eram mais que objetos mágicos, pois eram capazes de interagir com as emoções das pessoas, e os feitiços se mostravam capaz de qualquer façanha, contando que a pessoa que o fizesse tivesse um sentimento puro no coração.
Já tendo passado da metade do livro, Hermione encontrou algo que mexeu muito com ela. Ela reconheceu o feitiço que a mãe de Harry havia usado para protegê-lo, e que foi o motivo dele ter sobrevivido ao ataque de Voldemort quando tinha apenas 1 ano. Era um feitiço protetor, que só poderia ser feito para outra pessoa, e que tinha potência máxima na pessoa destinada a ser protegida quando aquele que o conjurasse se sacrificasse pelo ser que queria proteger. É uma prova de amor incondicional dar a própria vida pelo ser amado, pensou Hermione, segurando uma única lágrima no olho. Após ficar alguns minutos na mesma página, refletindo sobre a situação, ela resolveu continuar a leitura.
Umas 10 paginas depois, Hermione leu no cabeçalho o título Amuleto de Troca no Tempo. O que se seguia era a descrição desse amuleto:
Viagens no tempo são muito úteis, algumas vezes vitais, porém muito perigosas. Esse amuleto, quando corretamente produzindo, permite à pessoa que o tem trocar com ela mesma no futuro por 24 horas. Assim, o seu eu futuro pode voltar ao passado e ajudar em alguma tarefa que o seu eu do presente não pode realizar.
Essa alternativa para viagens no tempo tem a vantagem de não permitir que a mesma pessoa, de épocas diferentes, se encontrem, já que para o eu futuro vir ao passado, é preciso que o eu do presente tome seu lugar no futuro. Para viagens no tempo que podem ser superior a 1 ano, essa alternativa é muito mais indicada que o vira-tempo.
Mas, cuidado!!! O seu eu futuro que volta no tempo corre os mesmo riscos que qualquer bruxo correria, por tanto, tudo que acontecer com seu eu futuro no passado será levado com ele quando a troca for desfeita.
Uma vez que a pessoa passa a usar o amuleto, ele se integra a ela, e, dessa forma, pode escolher, quando requisitado, qual eu futuro é o mais indicado para realizar a tarefa em que o eu presente apelou para o amuleto.
O amuleto beneficia o seu eu que volta ao passado, por tanto, o seu eu que vai para o futuro sentirá o mal estar por ambos. Para segurança da própria pessoa que usar o amuleto, o eu do presente que vai para o futuro, quando retorna, esquece de tudo que aconteceu depois da ativação o amuleto. É recomendável a pessoa ter a consciência de que o seu eu que voltar no tempo deve evitar ao máximo que as pessoas percebam o que está acontecendo.
Lembre-se, quanto menos egoístas forem suas intenções ao fabricar o amuleto, mais você o terá ao seu lado.
O que se seguia eram instruções e mais instruções, com um nível de complexidade que Hermione jamais tinha visto. Era preciso conseguir a ampulheta de um vira-tempo, alguns solventes de poção, um recipiente de vidro de qualquer formato, e mais uma série de outros ingredientes, porém, a parte mais intrigante eram os feitiços que precisavam ser recitados ao longo da produção do amuleto. Eles exigiam coisas como ...concentrar-se nas pessoas que quer proteger... lembrar de um momento de grande aflição... acreditar em algo que muitos pensam ser impossível...
Hermione estava certa de que aquilo era o que procurava, era a arma que precisava para nunca mais ser pega despreparada.
Decidida sobre fazer o amuleto, ela se deitou e dormiu. Dormiu com a tranqüilidade de quem sabe que não há becos sem saída, que sempre haverá uma solução, mesmo que a situação pareça sem esperança.
Diferente da Poção Polissuco, que, até o momento, era a magia mais complicada que ela já tinha executado, a fabricação do amuleto poderia ser feita em um único dia. Porém, seria preciso pelo menos 6 horas de total concentração e privacidade.
Hermione decidiu que a madrugada de sábado para domingo seria o momento ideal. Ela daria um jeito de pegar a capa de invisibilidade do Harry, e usaria alguma sala vazia, devidamente protegida por feitiços acústicos.
Ela tinha pensando em contar para seus amigos sobre o amuleto, mas, após refletir, viu que era melhor só ela se envolver nisso, uma vez que o amuleto só teria efeito sobre ela.
Quando sábado a noite finalmente chegou, Hermione se despediu de Harry e do Rony, dizendo que estava especialmente cansada e queria dormir cedo. No quarto, ela usou um simples feitiço para inflar suas cobertas, para parecer que havia alguém dentro delas, fechou a cortina em volta da cama e colocou um último feitiço para que um leve som de uma pessoa ressonando emanasse do seu travesseiro.
A capa de invisibilidade do Harry já estava com ela (que ela pretendia devolvê-la o quanto antes), bem como todos os ingredientes. Vendo que nada mais faltava, ela entrou embaixo da capa e foi para sala que havia escolhido para produzir o amuleto.
Cinco horas depois, seu caldeirão borbulhava a todo vapor, e a fabricação do amuleto parecia estar em ordem.
Seguindo a receita, ela adicionou losna após a poção começar a fazer bolhas cor de anil, apesar da poção ser branca como a neve. 20 minutos depois da losna, era hora de colocar a ampulheta de um vira-tempo, e recitar o último feitiço, que Hermione havia achado o mais complicado. Junto do feitiço, havia a condição de que ele fosse dito pensando em um amor verdadeiro. Inicialmente, ela pensou no amor que sentia pelos pais, mas estava bem nítido que o tipo de amor que era pedido não era um amor fraterno, familiar. O feitiço pedia que a pessoa enchesse o coração por um amor puro, sincero, que fosse capaz de tomar conta do seu ser, e que valesse a pena qualquer sacrifício. Hermione negava, mas já estava bem claro quem era a pessoa que a fazia cultivar esse sentimento.
Ela adicionou a ampulheta, pegou a varinha, apontou para a poção e disse “Ok, se o que sinto pelo Harry não for suficientemente verdadeiro, então o amor sincero é sobre-humano.”
Após dizer o ultimo feitiço, a poção ficou dourado cintilante, exatamente como descrito no livro. A última parte era adicionar o recipiente de vidro. Hermione tentou encontrar um que fosse pequeno o suficiente para carregá-lo, mas não sabia como poderia estar sempre um vidrinho de perfume à mão. Mesmo lhe parecendo muito estranho, ela jogou o frasco de vidro à poção, como se fosse um ingrediente, e o que se seguiu foi diferente de tudo que ela havia imaginado. Apesar de haver muito mais liquido que o recipiente poderia armazenar, toda a substancia dourada cintilante entrou no frasco, e este, após recolher a última gota do liquido, se remodelou, e ficou ainda mais pequeno do que era, no formato de uma gota alongada. Para completar, um cordão metálico surgiu a partir do que era o frasco, unido ao agora pingente de vidro. Instintivamente, Hermione pegou o cordão, unido ao pingente, e colocou no pescoço. Após alguns segundos, ele ficou invisível, e sua presença quase imperceptível. Sem saber se aquilo era normal, Hermione voltou ao livro, e no rodapé da folha encontrou a última informação sobre o amuleto:
Ele ficará invisível e quem o usa quase não o sentirá, porém sua presença junto de quem o usa não sofre alteração. Quando precisar dele, basta levar a mão ao pescoço que ele se materializará. Para torná-lo ativo, quebre-o apertando com a mão contra o peito, e prepare-se para uma experiência que só deve ser experimentada quando todas as demais alternativas já se esgotaram.
Ciente de que havia risco no uso do amuleto, Hermione se levantou, juntou tudo, limpou o lugar que havia usado e foi para o quarto. Dormiu com a tranqüilidade de ter o amuleto e a responsabilidade de saber dos riscos em usá-lo.
Fim do Flashback
Por alguns instantes, Hermione se perdeu no brilho de seu amuleto, que era agora a única luz que ela era capaz de ver na sombria situação em que encontrava.
Com o amuleto seguro em sua mão, Hermione se inclinou para tentar ter uma visão de Victoria. Sua inimiga continuava em pé, a alguns metros da pilastra em que a garota se refugiou, com o braço cruzado, como se esperasse um último aluno retardatário entregar a prova.
“Sua atitude demonstra enorme respeito à minha superioridade, que é inegável. Mas quero provar que também sou generosa... pode ficar aí, pensando em qualquer plano mirabolante, ou tentando criar alguma estratégia genial, eu não vou importuná-la. Mas saiba que minha paciência tem limite, e espero que você tenha bom senso em não provocá-la.” disse a falsa professora, segura de que não havia a mais ínfima chance da garota criar algum elemento surpresa. Afinal, o que poderia uma adolescente acuada atrás de um pilastra, com medo, e centenas de vezes menos poderosa?
As palavras de Victória, que uma vez fora sua maior conselheira e exemplo, só serviu de estímulo para a decisão tomada por Hermione. Se tudo desse certo, antes da tal paciência limite se esgotar, aquele combate se tornaria justo, e a mulher que se passou por professora, que se gabava por sua experiência e treinamento, seria derrotada de uma vez para sempre.
Olhando fixamente para sua mão, que empunhava o amuleto que permitiria a uma Hermione mais velha e mais bem treinada tomar o lugar da adolescente assustada e pouco preparada para lutar com uma bruxa-vampira de 300 anos, Hermione respirou fundo e levou a mão ao peito. Ela não pode resistir em pensar nas milhões de maneiras daquilo dar errado. E se eu nunca for suficientemente preparada para esse combate? E se eu não tiver vivido tempo suficiente para ter alguma chance de conseguir tal preparação? E se meu amuleto tiver sido preparado inadequadamente? E se Victória for realmente invencível?
Antes que perdesse o nervo para tomar a atitude mais arriscada da sua vida, Hermione abriu a mão de modo que o amuleto entrou em contato com seu tórax, fechou os olhos, respirou fundo, e apertou o amuleto contra o corpo com toda força. A primeira coisa que sentiu foi um liquido gelado escorrer em sua blusa, e em seguida todo seu corpo se contraiu, como se a corrente elétrica de uma usina inteira percorresse seu corpo. Essa terrível sensação de ter uma energia descomunal percorrendo-a logo cessou, e deu lugar a um grande NADA. Ela tinha consciência de que estava percorrendo um caminho (ou seria uma corrente de vento muito forte indo contra ela?), mas não podia dizer se ainda tinha um corpo. Parecia que sua mente havia se transportado do corpo para o vácuo, e tudo que Hermione podia dizer era que aquela sensação não era nem um pouco normal. Após um tempo, que poderia ter sido horas, ou alguns milésimos de segundos, tudo que ela sentiu foi que seu corpo e sua mente haviam se tornando um só novamente. Mas ela não pode saborear essa sensação de unidade por muito tempo, pois, após um solavanco, parecido a uma queda, ela perdeu a consciência, e tudo se escureceu.
12 Outubro de 2002, 07:00
Se fosse perguntado sobre qual era a melhor parte de dormir na mesma cama com Hermione, a resposta de Harry seria, certamente, poder vê-la enquanto estava dormindo. Ele poderia passar horas olhando seu rosto, sua respiração suave, seu cabelo encaracolado espalhado pelo travesseiro.
Ela era a mulher mais linda que ele havia conhecido, e sua beleza física, somada à sua grande inteligência e conhecimento, a tornava imbatível. Ninguém era páreo à Hermione para o posto de senhora absoluta da vida de Harry, e, ao contrário do que aconteceria com muitos homens de 22 anos que se deparam com essa certeza, Harry se sentia completamente tranqüilo e feliz de pertencer a alguém que tanto amava e admirava.
Tomando cuidado para não acordá-la com nenhum movimento brusco, Harry se aproximou de Hermione e tocou seu rosto, deslizando seu dedo nas linhas perfeitas que formavam a face que ele não cansava de olhar. Harry já tinha tido a sensação de que estava olhando para uma Hermione completamente diferente daquela que viu no dia anterior, mas isso era perfeitamente normal, uma vez que seus traços sempre acompanhavam as mudanças de humor, fase ou estilo de vida da garota. Porém, naquela manha em especial, Harry se viu vidrado numa Hermione com uma expressão muito peculiar. Seu rosto parecia mais fino, ou talvez menos tenso, porém seus olhos, apesar de fechados, refletiam uma grande tensão, como se, apesar de ter todos os músculos do corpo relaxados, Hermione tivesse sua mente completamente atordoada pelo pesadelo mais assustador.
Era sem dúvida uma expressão enigmática. Porém, quando foi que Hermione havia sido alguém de fácil compreensão?
Mas todo esse mistério só tornava Hermione ainda mais atraente aos olhos de Harry. Já sem poder resistir à vontade de tocá-la, Harry trocou os carinhos dos seus dedos por beijos no pescoço. Com toda a intimidade que três anos de relacionamento haviam lhe fornecido, Harry sabia exatamente onde beijá-la para fazê-la estremecer, e como tocá-la para que, ao despertar, ela não tivesse opção a não ser entregar-se e beijá-lo com toda paixão.
E não demoraria muito para que Harry tivesse Hermione ativamente naquele momento de paixão, pois, mesmo com o rosto mergulhado em seu colo, ele sentiu a amada se mexer, e sabia que logo estariam perdidos um no outro.
Se o problema de Hermione fosse apenas saber onde estava, ela não estaria fazendo nem um terço da força que fazia para tentar organizar seus pensamentos. Ela tinha dificuldade para sentir o corpo, como se estivesse tomada por um formigamento que a impedia de saber a posição exata de seus braços e pernas, tinha dificuldade para discernir os sons que chegavam até ela, e até seu olfato estava confuso.
Com uma dificuldade que jamais pensou que fosse ter, Hermione finalmente abriu os olhos, e, após alguns segundos, foi capaz de focalizar um teto branco, e, a sua direita, cortinas verde escuro. O primeiro movimento que pode recobrar, ou executar conscientemente, foi o movimento dos dedos da mão direita. Porém, ela ainda estava deitada, sem poder se levantar ou virar a cabeça.
Com um esforço ainda maior, ela pode, por uma fração, mover o pescoço, e suas pernas agora davam sinal de que ainda estava abaixo de sua cintura. Muito frustrada pela demora com tudo acontecia, Hermione relaxou o corpo, ou pelo menos as poucas partes que era capaz de comandar, e fechou os olhos. Vamos, reaja! Controle seu corpo, recupere sua energia... vamos Hermione, reaja, reaja, REAJA!!!
De repente, tudo estava novamente ligado à mente da garota. Ela podia sentir braços, pernas, tórax, pescoço... e sentia também uma grande pressão sobre seu corpo, como se houvesse algo em cima dela, algo que se mexia. E que diabos é essa coisa molhada que está se mexendo no meu pescoço?
Toda a letargia que antes a consumia foi subitamente substituída por uma explosão de energia, e num movimento brusco, ela se sentou, e o peso extra que estava sobre seu corpo rolou para o lado esquerdo da garota, e a sensação estranha em seu pescoço parou.
Sentada, e com as mãos sobre a cama, Hermione se viu totalmente desfamiliarizada com o ambiente que a cercava. Jamais tinha visto aquele quarto, aqueles móveis, e aquela cama lhe era completamente estranha. Antes que fizesse qualquer outra consideração sobre tudo que não era capaz de reconhecer, alguém falou ao seu lado, alguém que ela ainda não tinha notado a presença.
“Desculpa amor, não queria ter assustado você. Estava tendo um pesadelo, foi isso?” disse a voz, que lhe lembrava vagamente a voz de alguém que conhecia.
Nada poderia tê-la preparado para o pavor e desespero que tomou conta dos seus sentidos quando ela viu que ao seu lado havia um homem sem camisa, que falava com ela como se a conhecesse há décadas, e cuja mão estava entre as pernas da garota, e a outra mão estava indo em direção ao seu rosto.
Seu primeiro reflexo foi tirar a mão do caminho do seu rosto, e, em seguida, tomou impulso para se levantar. A mão que antes estava na sua perna agora havia alcançado seu pulso, e queria impedi-la de levantar-se. Toda aquela cascata de sensações extremas deixou Hermione sob controle de seus reflexos, e quando ela se deu conta de que tinha fechado a mão direita, o seu braço direito já tinha levado essa mesma mão fechada, e com toda força, em direção ao nariz de quem a segurava.
Hermione sempre soube que força física não era seu forte, mas o homem ao seu lado foi pego tão de surpresa que o murro foi capaz de jogá-lo do outro lado da cama. Ele estava gemendo e com a mão no nariz, e tentando se erguer com a outra mão apoiada na mesa de cabeceira.
Com um impulso muito forte ela saiu da cama, mas foi tomada por uma fraqueza muito forte, e acabou caindo. “Hermione! O que você está fazendo?” perguntou o homem, com a voz abafada pela mão que comprimia o nariz machucado.
Com medo daquele homem se recuperar e ir atrás dela, Hermione reuniu forças e levantou-se, e, escorando-se nos moveis e na parede, foi o mais rápido possível para a porta, abriu-a e se jogou para o lado de fora do quarto. Ela só não caiu de cara no chão por que logo na sua frente havia uma grade, na qual ela agarrou as duas mãos e tentou se manter de pé. Mas a fraqueza que ela sentia, apesar de intercalada por alguns momentos de grande energia, a impedia de ficar ereta só pela força das pernas.
Novamente, foi o receio de ser alcançada pelo homem do quarto que Hermione se forçou a andar, e tentar sair daquele lugar o mais rápido possível. Ainda agarrada à grade, ela acompanhou o contorno dela até aquilo que, e ela agora era capaz de compreender, seria a escada daquele andar para um andar debaixo. Quando havia alcançado a escada, uma porta ao lado dela de abriu, e um homem alto, loiro, magro e de olhos azul acinzentado saiu. Ele abriu um sorriso assim que notou a garota na sua frente, porém, em seguida, sua expressão mudou, e ele trocou o sorriso por um olhar preocupado e confuso. “Hermione, o que houve? Eu ouvi um barulho estranho vindo do seu quarto, e você está pálida...”
Antes de o rapaz terminasse sua frase, Hermione foi tomada por um horror que poucas vezes havia sentido. A voz estava mais grossa, o cabelo alguns centímetros maior, havia mais músculos em seu braço, mas a imagem era agora nítida em sua cabeça. Oh Merlín!Draco Malfoy!
O fato dele se parecer com um Draco alguns anos mais velho só serviu para deixá-la ainda mais sem ar. Antes que pudesse ter qualquer reação, Hermione sentiu suas pernas cederem, e seu corpo caiu no chão.
Sem que pudesse pensar mais nada, tudo voltou a ser escuridão.
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